sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

NÓS NA HISTÓRIA DE 2011 – RETROSPECTIVA. Selvino Antonio Malfatti

Se nossa terra fosse uma nave navegando pelo espaço, nós estaríamos viajando com ela. Nela estaríamos submetidos às peripécias do trajeto e sujeitos do que acontece no trajeto: lugares por onde se passou, pessoas que tivemos contatos, perigos enfrentados, alegrias, apreensões. Enfim, seríamos coparticipantes dos acontecimentos do percurso. Com efeito, como habitantes do planeta Terra, viajamos juntos no ano de 2011. Muita coisa aconteceu neste transcurso de tempo de 365 dias. Algumas pessoas vivenciaram os fatos no olho furacão, outras assistiram serenamente e outras ainda, apavoradas pelas tragédias. Lembremos alguns acontecimentos. I. Nacionais - Em 1º de Janeiro toma posse como presidente do Brasil a senhora Dilma Rousseff, primeira mulher a ocupar este cargo no Brasil - Como acontece há um bom tempo, os problemas de corrupção política continuam. Surge, porém, um fato novo: a chefia do executivo nacional está intervindo para corrigir fato e não, como se fazia anteriormente, tomar apenas medidas paliativas ora defendendo os acusados, ora os acobertando. Neste ano os ministros acusados de corrupção são demitidos pela presidente, como o Rasputin brasileiro Antonio Palocci e os ex-ministros Orlando Silva, Pedro Novais, Alfredo Nascimento, Wagner Nelson Jobin (neste não pesa acusação de corrupção). - Lamentavelmente o Brasil perde neste ano um político sereno e pacificador. Trata-se de José de Alencar, ex-vicepresidente no governo de Lula, que faleceu em março em São Paulo, devido a um câncer. II. Internacionais - Na vizinha Argentina,as eleições consagraram Cristina Kirchner como presidente com um percentual de 54% dos votos. - Na Europa, na chamada zona do Euro, abate-se uma crise econômica de proporções imprevistas, pois, assim como um tsunami, vai destruindo tudo o que encontra pela frente, tanto faz culpados como inocentes. Mas são os mais fracos economicamente os mais afetados como Grécia, Portugal, Itália, Irlanda. A própria economia dos Estados Unidos foi afetada, inclusive merecendo uma nota de rebaixamento. - Diante desta situação são exigidas pela tróica medidas de severidade econômica que inclui cortes de salários, demissões, Previdência, mão-de-obra, investimentos e pagamentos. Isso afetou diretamente a situação social e os benefícios de toda comunidade. - Um dos maiores cataclismos ocorre no Japão devido a um terremoto, seguido de um tsunami, causando milhares de vítimas e deixando o país em situação de calamidade. - Um dos acontecimentos mais comemorados pelos Estados Unidos foi a morte de Osama Bin Laden, do Paquistão, responsável pelos atentados das Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, nos quais morreram aproximadament5e 3.000 pessoas. O fato foi considerado tão importante que o próprio presidente Barack Obama deu a notícia ao povo de seu país.
- Um das maiores, talvez, a mais significativa ocorrência de 2011, foi a Primavera Árabe. Diversos elementos se conjugaram para que esta situação acorresse. Seria, digamos, aquilo que Maquiavel entendia por Fortuna, isto é, a confluência de cursos que configuraram o status quo. Entre eles houve uma tomada de consciência da falta de liberdade, o desejo de possuí-la, a percepção de melhor qualidade de vida e o sonho da Democracia. Se até então os governos ditatoriais conseguiam controlar os meios de intercâmbio sociais, agora não foi mais possível. As redes de relacionamento social furaram o bloqueio e disseminaram as ideias acima apontadas. - O efeito dominó da queda de ditadores começa com a Tunísia que derruba Zine El Abidine Ben Ali. Segue-se a derrubada do ditador Hosni Mubarak, do Egito. - Aproveitando embalo a Líbia derruba Muamar Kadafi fato este precedido de uma sangrenta guerra civil. - Atualmente o cenário de guerra desenrola-se na Síria, cuja figura alvo é o ditador Bashar al-Assad. Estes foram os fatos que me veio à mente e que vivenciamos no decorrer de 2011. Se houver outros que o leitor considerar relevante, complemente- os nos comentários.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O NATAL NOS EVANGELHO. Selvino Antonio Malfatti.



Quando se aproximam as festas natalinas é natural que as pessoas busquem entender o sentido do Natal. No entanto, este entendimento não é igual para todos. O Natal pode ser visto sob vários aspectos como o oficial, o tradicional e o bíblico. Como primeiro é bastante conhecido, o segundo vivenciado atualmente pela sociedade, vou deter-me um pouco no Natal bíblico, mais precisamente dos evangelistas.
O Nascimento de Jesus ou Natal como é narrado nos Evangelhos nos deixa um pouco confusos. Vejamos alguns detalhes. Dos quatro evangelistas, somente dois narram o nascimento de Jesus e os outros começam a narrativa depois de Jesus já grande, isto é, menino ou moço. Outra constatação é que os apóstolos escreveram não para os judeus, mas, certamente para os gregos. Além disso, os evangelhos foram escritos bastante depois do que tudo aconteceu, provavelmente até a metade do primeiro século. Então, já há uma visão teleológica embutida, isto é, estão mirando um objetivo. Outra surpresa: a língua. Não foi o hebreu ou aramaico a língua dos Evangelhos e, sim, o Greco, ao menos na sua redação final. Os cultos nas igrejas (eclésia) era em grego. Há, inclusive, resquícios na Missa. É o “Quirie eleison” (que em grego significa: Senhor, tende piedade de nós)
A aproximação do cristianismo com a cultura grega deu-se de imediato e espontaneamente. Foi, como se diz, um amor à primeira vista. Evidentemente por que os temas existenciais eram os mesmos: vida, morte, ressurreição, sofrimento, bondade, amor, justiça, espírito, Deus, além de haver algumas teorias gregas muito próximas ao cristianismo, como o estoicismo. Naquele momento histórico a cultura grega era a mais elevada do mundo, pois os próprios romanos que conquistaram a Grécia pelas armas foram depois conquistados pela cultura grega. Até mesmo em Roma as comunidades cristãs eram na sua maioria de origem Greco - judaica.
Disso decorre que a nova religião, o cristianismo, ao abandonar o judaísmo associou-se ao helenismo e foi graças a esta síntese que conseguiu elaborar uma teologia sistêmica e de cunho universal. Dentre estes judeus helenistas destacou-se no início da era cristã Filon de Alexandria que via no conceito de Logos da filosofia grega (traduzido para o português como Verbo) uma síntese da obra divina e a forma como Deus operava no mundo. Este conceito de Filon – o Logos ou Verbo - vai aparecer no começo do Evangelho de São João e durante toda exposição ele está subjacente. Para ele, o nascimento de Jesus, o Natal, foi obra do Logos, o Verbo.
A Criação do Mundo e o Juízo Final foram unidos pelo Verbo, de modo que princípio e fim sempre estão acontecendo. O Verbo, no entender de João, é o verdadeiro Natal.
 Vejamos como se expressa.

São João, 1
1.
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.
2.
Ele estava no princípio junto de Deus.
3.
Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.
4.
Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.
5.
A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
6.
Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
7.
Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele.
8.
Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
9.
[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.
10.
Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.
11.
Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
12.
Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus,
13.
os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.
14.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

CIÊNCIA E CULTURA POR DECRETO? Selvino Antonio Malfatti.



Resumo: Foi criado na Argentina um Instituto que tem por objetivo reescrever a História ibero-americana, vista pela óptica peronista.

Toda a iniciativa que incremente cultura é sempre bem vinda: o que pode acrescentar algo positivo ao ser humano, como o científico, tecnológico, artístico ou educacional. Por que é justamente pela capacidade de fazer cultura que o homem se diferencia dos demais seres. Nesse sentido são recebidos com alegria institutos de pesquisa, associações culturais, criação de universidades e escolas. No entanto, o objetivo deve ser o cultural e não – subrepticiamente – a promoção de interesses pessoais, dentre eles, o político, mormente quando camuflado de educativo, como foi o caso do material “didático” que há um tempo ia ser distribuído aos alunos de escolas públicas aqui no Brasil ou iniciativas no período dos regimes militares no MERCOSUL.
Na Argentina, no momento, está em curso uma experiência de fazer ciência totalmente esdrúxula. Ao se criar o Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-Americano Manuel Dorrego, comandado pelo historiador Mario Pacho O'Donnel, declarado admirador dos caudilhos argentinos está se fabricando uma cultura por decreto.  Sem meias palavras diz o documento que o objetivo é “revisar” a História e resgatar personalidades que não mereceram o devido reconhecimento na sua época. E como o Instituto é “ibero-americano”, abrangerá a História dos países desde o México até o Uruguai, incluindo nesta revisão a História do Brasil.
Evidentemente ninguém se opõe ao revisionismo. Ao contrário, é muito salutar para a ciência. Foi revisionismo que fez E. Bernstein levar a bom termo, no final do século XIX, um balanço do marxismo. Este método é rigorosamente científico por que permite rever sempre as conclusões anteriores ou de alguém. Pode ser experimental ou teórico. Mas o objetivo é sempre submeter-se ao resultado da pesquisa. Ao contrário, com o revisionismo o Instituto quer, não é a revisão mas sim, a inclusão de suas próprias antecipações conclusivas como por exemplo, a excelência do peronismo - um misto de positivismo e fascismo - agora interpretado por Néstor Kirchner. O Instituto pretende estabelecer a priori a conclusão e a posteriori buscar as “provas”.
Como está sendo recebido o Instituto pela comunidade acadêmico-científica da Argentina? Destacamos alguns itens de uma Carta Aberta de professores e historiadores argentinos:
1º Lamentam que a presidência desconheça a ampla produção historiográfica das instituições científicas do país. Nos últimos anos estas instituições produziram conhecimentos em períodos diferentes, figuras diversas, inclusive as mencionadas pelo decreto que teriam sido negligenciadas.
2º Pensam que atrelar as pesquisas que até agora foram feitas a uma ideologia – no caso a liberal – contrária à ideologia da Presidência atual – não pode ser considerada postura científica, pois se seguidos rigorosamente os atuais critérios científicos eles conseguirão neutralizar tais reducionismos. Do modo como foi proposto, o Instituto irá promover apenas uma abordagem maniqueísta onde aparecem exclusivamente heróis e vilões, sem admitir a dúvida e a interrogação.
3º O governo quer impor apenas uma única interpretação da História, excluindo aquilo que é essencial para uma sociedade democrática: a pluralidade de interpretações.
4º Ao fazer isso o poder executivo está conspirando contra o espírito científico que rege a pesquisa, aceitando apenas a versão oficial.
O alerta da Carta Aberta fala por si e denuncia que diligências como estas só denigrem a cultura em vez de enriquecê-la. Com certeza o mundo cultural argentino está acima deste casuísmo político e o rechaça. Sirva de alerta para outras iniciativas políticas que poderão advir.   

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

SUPERAÇÃO DA CORRUPÇÃO SISTÊMICA – ALTERNATIVAS. Selvino Antonio Malfatti.


























Os vários comentários recebidos sobre a postagem anterior - na qual comentei o artigo de FHC sobre a corrupção política sistêmica no Brasil – refletem a preocupação de como superar o problema. Primeiramente devemos reconhecer que a situação é grave, pois, tal como um organismo doente, na política, se as medidas não forem tomadas urgentemente, poderão não surtir mais efeito e o paciente irá a óbito. No caso brasileiro, parte do organismo político ainda dá sinais de vida, mas se esperarmos um pouco mais, todo ele acabará aceitando como “normal” a corrupção e nenhuma medida será mais eficaz.
Vou trazer ao debate algumas alternativas e hipóteses de viabilidade.
1.    Golpe de Estado – Prática esta muito usada no passado. Basicamente consistia na tomada do poder à força por uma pessoa ou grupo em nome da moralidade.  Geralmente por militares, no entanto, outros grupos, como os revolucionários, também propõem a mesma solução: a imposição. Teóricos como Mussolini e Stalin são paradigmáticos. A conseqüência desta saída é a pior de todas: a morte da democracia, pois a pior democracia ainda é preferível à melhor ditadura, quer de direita, quer de esquerda.
2.    Reformas políticas – Seria a melhor solução, caso se desse dentro do Estado de Direito.  Dentre elas o sistema eleitoral e secundariamente o sistema de governo. Esta proposta tem guarida no politólogo italiano Norberto Bobbio. Mas, num estado de corrupção sistêmica, é praticamente impossível fazer uma reforma política moralizadora!
3.    Vigilância judicial – Seria a via natural no sistema de governo presidencialista. Os fundamentos desta teoria poder-se-iam pesquisar em Locke. Mas no Brasil esta solução é problemática. O atual Supremo Tribunal Federal nem sequer consegue estabelecer a data da validade da Ficha Limpa, que dirá vigiar a atuação política.
4.    Freios de pesos e contrapesos – Cada poder da república individualmente seria controlado pelos outros dois poderes. Montesquieu é a base desta teoria. No caso brasileiro isto não daria por que o partido do comando do executivo já avançou sobre os demais poderes e os submeteu. O Congresso, através da cooptação de seus membros, e o judiciário - em cujo seio alguns juízes - os quais, ao julgarem são mais subservientes ao governo do que autônomos e neutros.
5.    A emergência de um poder arbitral – Um poder politicamente neutro exerceria a função moderadora na política partidária. Defensor desta proposta é o constitucionalista francês Benjamin Constant. Evidentemente deveria ter legitimidade e legalidade. E – para esperança nossa – está se delineando, na pessoa da Presidente. O titular deste poder deveria se alçar acima da luta partidária e exercer a função arbitral, uma chefia de Estado, não atrelada a partidos, mas aos interesses nacionais. Manter-se-ia fora da política, só entraria quando fosse necessário – isto seria definido em lei – promovesse os ajustes e se retiraria novamente. Aproximar-se-ia do modelo de Presidência da França.
   Com exceção do primeiro, os instrumentos acima apontados teriam por finalidade proporcionar ferramentas eficientes para que a sociedade mantivesse controle sobre seus governantes, e com isso, banisse para sempre a corrupção política e, em seu lugar, instituísse um corpo político eticamente saudável.



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

FICHA LIMPA TAMBÉM PARA O JUDICIÁRIO. Selvino Antonio Malfatti.

 Fonte da Imagem: Revista Veja 5/10/2011               
 A Lei da “Ficha Limpa” objetiva moralizar o desempenho das funções públicas político-partidárias. Por isso ela deveria ser extensiva a todos os cargos públicos que são preenchidos por estes critérios. Com efeito, há funções públicas que independem do “status quo” político-partidário como funcionários de carreira dentro dos três poderes. Um cargo de professor, tanto municipal, como estadual ou federal, possui uma legislação com critérios neutros politicamente. São apenas administrativos, embora nem sempre imunes às suas influências. Um médico concursado pelo SUS independe das flutuações político-partidárias. Outras atividades públicas, porém, dependem do ocupante, vinculado a um partido. Uma função gratificada, um coordenador regional de educação, um gerente de uma estatal, todos são cargos visceralmente partidários. Penso que para todas estas funções se deve aplicar a Lei da Ficha Limpa. E quais os cargos públicos políticos objeto da Ficha Limpa? Evidentemente que elencaremos apenas alguns, pois seria quase impossível abarcar todos. O mais importante é ter em mente o princípio que rege o poder político, que é essencialmente o partido. Quando uma determinada função depende do partido ou da vontade de seu ocupante ligado a um partido, estaremos diante de um cargo partidário. Assim o Presidente da República, os Governadores de Estados e distrito Federal, senadores, deputados federais e estaduais, bem como vereadores, são cargos políticos porque se elegeram por um partido. Em resumo abrange os cargos eletivos dos poderes, legislativo e executivo. E mais, todos os demais cargos, dentro destes poderes, que dependem da vontade destes. Um diretor de uma estatal, um chefe de gabinete, um superintendente, são cargos políticos.
Quanto ao judiciário, parecia imune a política partidária. A celeuma veio à tona com a declaração da corregedora Eliana Calmon dizendo que “havia bandidos escondidos atrás da toga”. Sabia-se que problemas sempre existiram dentro do Judiciário, embora ninguém quisesse levar a público como o fez a corregedora.  A reação a sua corajosa declaração foi de surpresa e a resposta veio imediata e forte na pessoa de Cezar Peluso, Presidente do Conselho Nacional de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, repudiando as declarações da corregedora qualificando- as de levianas. Está com a razão Peluso quando diz que há juízes honrados que trabalham diuturnamente pela segurança dos cidadãos e defendem o estado de direito. Contudo, há o outro lado, o obscuro, oriundo de fundo político, que ensejou a listinha publicada pela Revista Veja na primeira semana de outubro, sob o título: “Os Bandidos de Toga”. Diante disso, para evitá-los, defendo que a parte do Judiciário em que entram critérios político-partidários na sua composição também seja aplicada a Lei da Ficha Limpa. E qual é ela:
1.    Supremo Tribunal Federal
2.    Superior Tribunal de Justiça
3.    Tribunal Superior do Trabalho
4.    Tribunais federais, tribunais dos estados e distrito federal
5.    Tribunal de Contas da União e dos Estados
Como se vê, o cérebro do judiciário. Os membros destes órgãos são preenchidos através de vários processos, mas sempre a escolha, inicial ou final, cabe a alguém oriundo de um partido político, ensejando uma influência partidária. A ficha Limpa para esta parte do judiciário poderia evitar casos constrangedores como aconteceram com o banqueiro Daniel Dantas, o empresário Antonio Petrus Kalil, Salvatore Alberto Cacciola, Cesare Battisti,  julgamento de processos de corrupção entre outros. 
Afinal, se a Lei é para todos por que ficaria o judiciário de fora.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

POLÍTICA E CRISTIANISMO NA CULTURA LUSO-BRASILEIRA. Selvino Antonio Malfatti.




Desde que iniciei o estudo da política, uma questão recorrente sempre me intrigou: por que no Brasil e em Portugal os partidos cristãos foram e são tão inexpressivos, enquanto em boa parte da Europa como Itália, Alemanha, Áustria, Bélgica e França tiveram e ainda têm grandes partidos cristãos?  Em Portugal, desde os mais remotos tempos, a Igreja desfrutou de vários privilégios: religião oficial, clero funcionário público, ensino entregue às congregações religiosas, bispos indicados pela coroa, entre outros. Isto fazia com que a religião católica fosse uma entidade onipresente no estado português, estendendo-se por todo seu território, inclusive nas colônias. Quando o Brasil se emancipa, adota os mesmo critérios em relação à religião. Então, por que, apesar da presença maciça da religião católica, a ideologia cristã é tão insignificante?
Ao participar de um Congresso em Cadiz, na Espanha, constatei que a situação era a mesma na América espanhola. Ao comentar a questão com os colegas, uma professora do México, Laura Alarcon Menchaca, sugeriu-me a pista: as condições para a existência de partidos cristãos. E quais são?
A cima de tudo e como condição “sine qua non” é necessário que haja um húmus institucional, isto é, instituições que garantam seu sucesso. É preciso, portanto, um regime representativo e um parlamento. Os regimes liberais criaram no século XIX este ambiente favorável no qual os partidos de várias ideologias aproveitaram o espaço e plantaram seus partidos. Tanto no Brasil como em Portugal este ambiente foi criado com a adoção de uma monarquia constitucional. No entanto, mesmo com disponibilidade, os partidos cristãos não surgiram. Por que foi desperdiçada a oportunidade?
A primeira condição institucional é um estado neutro em matéria confessional. E isto nem Portugal nem Brasil possuíam. Formar-se um partido cristão dentro de um ambiente político onde esta religião constitui parte do aparato institucional do Estado seria um contra senso. Um partido anglicano, por exemplo, onde a Igreja Anglicana é religião oficial daquele estado não faz o menor sentido, como acontece na Inglaterra.
A condição seguinte é de os cristãos politicamente sejam minorias sendo alvo de discriminação de algum partido, ou vários. Não é o caso de Portugal e Brasil. Até poucos anos atrás os católicos eram maioria absoluta. Agora, com o avanço de outras religiões cristãs, os cristãos continuam maioria. Não há marginalização dos cristãos e muito menos é necessário enfrentar qualquer desafio ou necessidade de lutar para garantir o espaço religioso.
A terceira condição é autonomia em relação à hierarquia eclesiástica. Os partidos cristãos até podem nascer no seio e do seio da hierarquia da Igreja, mas precisam se libertar e se tornarem autônomos. Enquanto os partidos ficarem atrelados e dependentes do clero eles não conseguirão acenar para uma ética de bem comum. Esta condição não foi bem sucedida, nem em Portugal, nem no Brasil, pois nem mesmo a ética conseguiu se libertar do conteúdo confessional católico.
Como quarta condição, para emergir um partido cristão, a religião tem que ser fervorosamente praticada na vida privada. Ora, o catolicismo em Portugal e Brasil foi essencialmente uma religião pública, formal. Na vida privada cada um tinha sua ética. A política deve refletir o fenômeno cultural religioso. O cristianismo das associações, das entidades, dos sindicatos, fará, então, parte do partido. Insere-se nele. O partido passa a ser a face social da religião. Ora nada disso aconteceu nos nossos dois países.
E por último, é indispensável determinação para avançar da simples postura defensiva para a ofensiva. Na Europa, no primeiro momento, os cristãos se defenderam dos ataques liberais, depois foram para o confronto. No Brasil e em Portugal, houve uma passividade espantosa da parte dos católicos, provavelmente para não perderem os privilégios de religião oficial, quando atacados pelos adversários políticos. Na Questão Religiosa, no Brasil, dois bispos foram presos e os católicos, na sua maioria, mantiveram-se indiferentes publicamente.  
Ninguém luta pelo que tem, mas pelo que lhe falta, como demonstra agora a Campanha pela Ética na Política, liderada pela OAB.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CULTURA REGIONAL E NACIONAL – 20 DE SETEMBRO NO RIO GRANDE DO SUL. Selvino Antonio Malfatti.






















No extremo sul do Brasil – Rio Grande do Sul – é comemorada a data de 20 de Setembro. Foi inspirada na revolução Farroupilha ou dos Farrapos que surgiu no contexto das várias revoluções que eclodiram no Brasil durante as regências, de 1832 a 1840.
Após a renúncia ao trono do Brasil de D. Pedro I – D. Pedro IV de Portugal – o Brasil mergulhou num perigoso torvelinho revolucionário regional que por pouco não se esfacelou territorialmente. Foram a Praieira, a Balaiada, a Confederação do Equador e a Revolução Farroupilha. Politicamente emergiram da ideologia política democrática, de cunho rousseauniano, a qual, como diria o historiador português Joel Serrão, deu origem ao democratismo. Esta ideologia se contrapunha ao ideal liberal da representação e defendia a participação direta do povo. Daí que as massas deviam estar sempre mobilizadas e prontas a intervir. Em Portugal esta ideologia deu origem às revoluções do Vintismo, Setembrismo e da Patuléia.
Em que pese de, no Rio grande do Sul, não ter predominado a vertente radical do democratismo, mas uma face mais democrática do liberalismo, o republicanismo, o qual se tornou o móvel da idéia revolucionária, e com isso fazia coro com os democratas radicais, pois ambos não aceitavam uma monarquia constitucional, representada na pessoa de D. Pedro II, ainda uma criança na época. Para solucionar o problema foi instituída a regência, isto é, um ou mais regentes governariam enquanto a idade impedisse o monarca de governar. Os Farroupilhas não acataram ordens dos regentes e proclamaram a independência do rio Grande do Sul, com o nome de República do Piratini, por ter sido proclamada no município de Piratini. A reintegração deu-se já depois da declaração da maioridade de D. Pedro II, através do pacificador Duque de Caxias.
A partir de então começou a se criar uma cultura no imaginário popular, através da literatura, canções, história e política. É o conjunto de idéias e valores em torno da peculiaridade do riograndense, denominado de “gaúcho”. Diz-se, por exemplo, que o gaúcho é homem de palavra, que é valente, tem orgulho de seu chão e respeitador, entre outras coisas. Por sua vez, a cultura material e imaterial expressa-se por alguns traços típicos. Na vestimenta e em comemorações usa-se bombacha, botas, lenço branco ou vermelho, pala e chapéu. Na linguagem, há termos típicos riograndenses como peão, prenda, mango, canha. Nos centros tradicionalistas – CTG – há danças típicas. No sotaque, as sílabas das palavras são bem separadas com a intercalação de tchê no tratamento. No alimento e bebida destaca-se chimarrão e churrasco. E o companheiro inseparável, o cavalo.
O interessante é que o imaginário cria o real. Quando alguém de outro estado do Brasil encontra um gaúcho e lhe pergunta se é assim, ele faz questão de dizer que sim e age desta forma. Conheço um amigo que nunca tinha feito um churrasco no Rio Grande, mas quando se mudou para o Paraná para trabalhar, foi nomeado churrasqueiro oficial dos colegas e ele aceitou, com muito orgulho...
Nada de errado com a cultura Regional, desde que não se contraponha à cultura nacional e sirva de sustentação a movimentos separatistas como o basco, na Espanha e, com menos intensidade, o lombardo na Itália. Aliás, há sociólogos como Marshall MecLuhan que levantam a hipótese de que a globalização mundial estreitou os laços da identidade cultural, internacional, nacional e mesmo local, a denominada aldeia-global. E parece que o cantor popular do Rio Grande, Teixeirinha, interpretou o espírito da cultura gaúcha na letra de Querência Amada: o riograndense quer ser um brasileiro gaúcho.
Querência amada,
meu céu de anil.
Este Rio Grande gigante,
mais uma estrela brilhante na bandeira do Brasil.”

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