sexta-feira, 26 de agosto de 2022

A FORÇA DE EROS NOS ANTIGOS GREGOS CHEGA ATÉ NÓS PELOS TELESCÓPIOS. Selvino Antonio Malfatti

 



                        O Telescópio Extremamente Grande 

Desde os primórdios do homem sobre a terra despertou nele a curiosidade sobre seu habitat, o Universo, diga-se melhor, o Cosmos. Sim, Cosmos é a melhor palavra, pois o que era uma indeterminação tornou-se ordenado. Como isso seria possível? A desordem deu lugar à ordem?

É o que James Webb tentou avançar na ciência aeroespacial em 25 de dezembro de 2021, véspera de Natal. O telescópio de Webb é considerado o sucessor do telescópio Hubble de 1990. E este enigma mantém-nos ligados ao mistério de, como o pior – universo desordenado – deu origem ao melhor – Cosmos ordenado. O “novo” no telescópio de Webb é que é possível visualizar fenômenos em diferentes frequências de luz. Com este telescópio inauguramos uma nova era no esforço de desvendar o universo. E os próximos estão a caminho:

1.    O Telescópio Gigante de Magalhães (GMT), de 24 metros,

2.    O Telescópio Gigante de Magalhães (GMT), de 24 metros,

3.    O Telescópio Extremamente Grande (ELT), com extremos 39 metros de diâmetro.

O Cosmos sempre foi um mistério para o homem, mas nem por isso faltaram tentativas para decifrá-lo. Em praticamente todas as culturas antigas há teorias mitológicas para explica-lo. Poder-se-ia desfilar mitologias dos antigos como dos Assírio-Caldeus, dos hindus, dos persas, chineses e dezenas de outros povos. Para nós ocidentais são mais conhecidas as mitologias dos antigos gregos. Para eles o que existiu no início foi o Caos: um vazio indiferenciado, sem ordem.

O homem perante o Universo deve ter inspirado a sua interpretação do universo. Com Hesíodo temos uma das primeiras concepções globais sobre o Cosmos.

Não havia luz e predominava a escuridão. A luz surge com uma explosão, dando origem a Gea, a Terra, o Tártaro. Na escuridão dos mortos está o palácio do senhor, o Eros, que gera a Noite. Desta nasceram seus opostos o Ar Luminoso e o Dia e da Terra se formaram o Céu estrelado, as Montanhas e o Mar. Na obra de Hesíodo os deuses comandam o destino do homem. A felicidade encontrava-se no trabalho e na prática das virtudes morais.

Outro pensador grego, Hesíodo, traz á reflexão a existência humana e o faz através da lenda das Cinco Idades.

Enquanto a existência divina alça-se e sobressai-se do Caos à Ordem, o Cosmos, a humana regride e deteriora-se. Nossa presença e intervenção no mundo são negativas, pois em vez de somar, divide e consome. Tudo o que os antecessores fizeram e conquistaram a nova geração destrói. Depois de conhecer a idade do ouro, rebaixa-se à prata, e desta ao bronze e ferro. A qualidade de vida no planeta é rebaixada de geração em geração. A harmonia da natureza dá lugar ao conflito e ao sofrimento. A felicidade é substituída pela pobreza, com gosto de pobreza hídrica e energética.

No entanto o que parece uma desgraça, a pobreza, ela fustiga nosso ser na direção da tensão, num espírito inteligente que desperta para o trabalho para sair de seu ciclo orgulhoso. Para tanto brilha a ideia da sobriedade. Esta leva à moderação e à negativa do desperdício. Isto por que a sobriedade faz-nos distinguir entre o supérfluo e necessário. Ao atingir tal estágio a paz da alma volta. E sobriedade significa moderação e freio ao desperdício. Voltar a aprender novamente a distinguir entre o supérfluo e o necessário é o aprendizado de uma educação para a paz.

O paradoxo se apresenta: o que parecia uma vergonha, a pobreza, se constitui como força que nos leva à cidadania.

Até mesmo para Platão, Eros, o Amor, é filho de Penia, Pobreza, e Poros o Expediente. E quando a inteligência do Amor sente aquela falta forte e dolorosa então atrai para si todas as forças de que é capaz para alcançar o que almeja.

 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

O que significa chamar Deus de Pai. José Mauricio de Carvalho.

 




Falemos de ser pai nos dias dos pais. A experiência de ter um pai é uma das mais extraordinárias formas de enriquecimento de nossa humanidade. Considere que a paternidade não é uma questão apenas biológica e é quase nada se fica apenas nessa dimensão. O que a faz especial é o fato de que o pai estabelecer com o filho uma forma de cuidado e relação que o enlaça e o faz crescer, crescer para seu lugar existencial e abrir-se para os outros numa relação de fraternidade.

 Não somente a paternidade é importante, a maternidade também o é, são ambas expressões do mesmo amor, mas com um tom diferente. Talvez se possa dizer que paternidade e maternidade sejam variações do mesmo encontro de afetos, o que fica confuso num tempo em que, frequentemente, o homem faz o papel de pai e mãe e existem mães que são, simultaneamente, mães e pais. Mas quando dizemos isto reconhecemos que há formas diferentes de cuidar do filho que qualificam essas formas de presenças de modo próprio.

Das variações possíveis desse amor o pai é quem mais se dedica a proteção da família, vive o esforço de prover e o desejo de ver o filho crescer e tornar-se adulto independente. Para isso muitas vezes acaba corrigindo comportamentos e indicando pontos em que o filho ou filha necessitam evoluir, ele cobra, ele mostra que a sociedade necessita de pessoas que saibam cumprir sua singular missão e o façam de forma madura e qualificada. Ele ensina a sempre procurar ser melhor.

Nosso propósito neste texto não é, contudo, examinar as diferenças entre a maternidade e paternidade já que em nossos dias ela não é tão explícita, mas indicar que os homens têm um Pai não somente nesse mundo, mas também fora dele. Um Pai para além do fenomênico.

As religiões antigas, quando alcançaram a dimensão monoteísta, identificaram um Deus que protegia, mas que era simultaneamente um disciplinador, um Senhor Altíssimo, isto é, distante, mesmo quando podia ser invocado. Um Ser acima de todos. Um esclarecimento crescente dessa relação foi desenvolvida na experiência de Deus feita no judaísmo e descrita no livro sagrado dos judeus.

Uma das mais significativas interpretações desse processo de relação com Deus foi feita por Martin Buber. Ele soube indicar que o mais importante na relação com Deus é a experiência existencial desse encontro. E Buber fez isso tratando da palavra dirigida a Deus como o lugar dessa presença. Isso porque Buber via na experiência do homem bíblico uma forma especial de encontro que, às vezes, também vivemos com outros homens. Isso porque a relação com o outro homem, em certas circunstâncias, é semelhante a outra forma que se tem com a transcendência. E é apenas nesse encontro entre pessoas que surge o amor porque na relação com as coisas se desenvolvem outras maneiras de relação, como a experiência da utilidade. E a relação com as coisas é o que vivemos de mais comum e rotineiro, mas a relação com o outro é o que nos faz humanos. É essa relação qualificada que podemos ter com Deus e que permite evoluir da percepção de um Deus insondável, distante, tenebroso, misterioso, violento, acima de todos e completamente Outro para Alguém com quem se pode viver momentos de intimidade, acolhimento, perdão e amor. Alguém que vive entre nós. Se Ele é alguém de quem se pode falar e descrever, então se fez uma reificação de Deus, tornado objeto de minha compreensão. Isso pode ser feito com o máximo respeito, mas não é mais que uma coisificação de Deus.

O que há de novo e fundamental no cristianismo foi que Jesus de Nazaré fez, melhor que todos os homens, a experiência dessa relação direta com Deus sugerida pelos profetas de Israel e, nesse encontro, formulou uma metáfora de quem O encontrou. Se temos que criar uma metáfora para falar Dele, que seja como a um Pai a quem se fala, disse Jesus. E assim devemos nos aproximar dele, como um pai que é bom, que acolhe e se entrega de amor a quem o procura e se dispõe a encontrar-se com Ele. Uma aproximação que não se faz fora da reciprocidade, totalidade, inobjetivação, imediatez, presença que conduz as pessoas para fora do tempo e espaço. O que vem depois já é um passo para fora desse momento especial. E para viver essa relação é que Jesus ensinou a chamar Deus de Pai, pedir para ser acolhido na Sua presença, Santificar o seu nome, reconhecer e pedir perdão pelos próprios limites, mostrar que está aprendendo a amar perdoando os outros que lhe fizeram mal (Mt. 6, 7-15). O encontro é relação entre Pessoas: entre um Eu e um Tu. Toda tentativa de estabelecer um controle sobre Deus, mediar esse encontro é farisaísmo e ele se torna mal quando usa o nome de Deus para outros objetivos menos nobres que participar e difundir o seu Reino. Quem faz isso, como disse Jesus aos fariseus, não é de Deus porque não O experimentam face a face, nem vivem na sua presença. E Deus não os escutará mais nem melhor do que que quem faz o encontro e vive na Sua presença.

 

 

 

 


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Antropologia do beijo. Selvino Antonio Malfatti

 


Veneza - um beijo na Praça São Marcos.


Nestes dois últimos anos a humanidade passou em abstinência de contato epidérmico com seu semelhante. A pandemia obrigou a todos a manterem distância de seu semelhante. Inclusive e, com mais seriedade, do beijo, considerado uma fonte de contaminação.

Não pude deixar de me interessar pelo sentido do beijo. Primeiramente por causa da autoria atribuída ao beijo: aos macacos e segundo a multifacetação interpretativa deste gesto, pelo o apóstrofo rosa.

Com efeito, acredita-se que a prática dos macacos de pré-mastigarem a comida e depois levá-la à bota dos filhotes com a língua deu origem ao beijo. Disso alguns antropólogos concluíram que os humanos aprenderam  a beijar na boca!... Mas sejamos compreensivos e apeguemo-nos ao ditado: “sì non è vero è bene trovato”.

O beijo na boca é um contato epidérmico do ser humano, levemente superficial. Rápido no fazer, mas de duração permanente. Desde que o ser humano se conheceu como tal, está registrado na história o beijo. Em todas as culturas é o símbolo do amor. É o apóstrofo rosa entre as palavras: Beijo (´) (apóstrofo) = eu te amo.

O problema é com decifração da incógnita da mensagem: “Paixão, dedicação, compaixão, reconciliação, união, escárnio, separação, doçura, ternura?”, conforme Edmond Rostand.

Subitamente pelo beijo o semelhante tornou-se uma ameaça real de morte. Manter a distância por que o contato físico passou a ser visto como contágio e a efusão em infecção. Não se trata de uma simples medida de cautela imunológica, mas uma afasia de sentimentos, um bloqueio de almas. Nossa vida em multidimensões por meio da interface corporal faz de duas pessoas uma só. Na expressão do poeta inglês, Percy B. Shelley, "a alma encontra a alma nos lábios dos amantes".

Perdido na História houve um momento que o beijo tornou-se social e cada cultura lhe atribui atributos diferentes. Bastaria consultar a literatura de cada um. Como amostra, consultemos os romanos. Para cada ocasião havia beijos e todos eles diferentes. Havia os amorosos, os respeitosos, os obedientes, os fraternos, paternos- maternos, filiais, amigáveis, conviviais. Os romanos tinham três contatos labiais: o basium, que deu origem ao beijo, o osculum e o savium. Isidoro de Sevilha, um teólogo, classificou conforme a ocasião: O basium é o que o marido e esposa trocam. O osculum é o que se dá às crianças. O savium é o beijo tórrido que os amantes se dão.

Esta distinção de categorias de beijos nas culturas e épocas se mesclou como aconteceu com o poeta romano Catulo. Ele pede para a sua amada Lésbia mil básia, depois cem, e volta novamente com mil. Deveria ter dito sávia mas como era poeta tinha a liberdade de trocar. Paulatinamente a palavra basia suplantou as demais e impôs-se como oficial para beijo. (Prima del uomo vienne il baccio: Marino Niola - Corriere). 

 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Filósofo e Político. Selvino Antonio Malfattti.

 



- PERGUNTOU PILATOS: O QUE É A VERDADE?  

Coloquemos um objeto mental em frente a um filósofo e a um político. Digamos uma realidade social: o aborto. O que cada um dirá? O filósofo provavelmente dirá: “o aborto é um crime contra a vida” e o político “o aborto depende do que cada um pretende”.

O filósofo procura o objeto para submetê-lo ao crivo do intelecto. O que este lhe diz: a vida humana é intocável. O político vê no objeto o que pode lucrar-lhe. Se a defesa da vida for mais lucrativa que eliminá-la, então a “verdade” será esta. Se, invés, for mais lucrativo atacar a vida, então esta será a verdade. Neste sentido o filósofo concentra-se na vida humana, no seu valor intrínseco, enquanto o político busca o valor proporcionado ao sujeito, quer destruindo a vida quer preservando. Os políticos são incapazes de compreender a verdade e por isso esforçam-se para escondê-la através de argumentos úteis a si mesmos. Para o filósofo há uma preocupação na adequação da mente ao objeto. Para o político a verdade está na adequação ao interesse político pessoal. O “intellectus et rei” foi substituída por “rei et interesse”.

Pode-se tomar situações concretas, digamos a guerra Rússia X Ucrânia. De parte da Rússia há uma verdade estatal e esta é a Verdade. Para tanto quaisquer iniciativas são não só toleradas como assumidas: inverdades grosseiras, repressão maciça daquilo que é divulgado diferente de Moscou, reescrita da história. É a verdade estatal, a verdade do putismo. Confrontam-se a verdade do cientista e a verdade do político. A verdade para o político é a identidade da realidade ao discurso. Novamente ecoa a pergunta de Pilatos: o que é a verdade? Qual que deve adequar-se ? O político ou o filósofo, o político ou a ciência?

Estas tentativas de impor verdades ao sabor dos interesses atingem sociedades e nações que querem se apresentar como modelos de verdades. É o que aconteceu com a derrota de Trump. A Comissão de Inquérito apresenta a versão de tentativa de golpe e o investigado Trump proclama a tentativa de desviar o público da verdade, continuando insistir na “eleição roubada”. Temos dois claros exemplos de um político querer impor a verdade oriunda de seu interesse pessoal.

Na maioria das pesquisas de opinião que envolve políticos reflete uma desconfiança em relação aos políticos quanto ao conhecimento da realidade social. A conclusão a que chegam diz respeito que os políticos estão “por fora” da realidade social e como tal são incapazes de elaborar projetos de melhoria social. É o caso do “Barômetro da confiança política”, que, através do Centro de Pesquisa Política da Sciences Po (Cevipof) conclui que 75% dos entrevistados são cegos e incapazes de buscar políticas que beneficiem qualquer pessoa além de si mesma. Em outra pesquisa acham que 65% dos eleitos são mais corruptos do que honestos em que, portanto, mantém uma atitude ambivalente em relação aos valores da convivência social: “sinceridade, honestidade e verdade.” (Le Monde: Marion )

Quanto às pesquisas de opinião refletem apenas o que cada um pensa no momento, no aqui e agora. Por isso, devemos olhar com desconfiança as pesquisas de opinião. Elas se baseiam na crença não só na expressão da verdade, mas de que o que for mais rápido no raciocínio está com a verdade. Na ciência não é assim: muitas vezes, e penso que seja a maioria, o mais prudente em emitir opinião está com a verdade e não o mais rápido. É isso que acontece na promoção dos debates gigantescos. 

Vamos acreditar nos prudentes, nos filósofos, ou nos políticos rápidos de respostas. 

sexta-feira, 29 de julho de 2022

CAIU A MÁSCARA DA GLOBALIZAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti

 


 


Vantagens da globalização econômica. Costuma-se citar algumas vantagens da globalização econômica:

- Os mercados abertos possibilitam que mais pessoas tenham acesso a eles: movimentos rápidospara alcançar vantagens, comprar e vender serviços em todo mundo.

- O conhecimento e os saberes são difusos

- interação social, religiosa de usos e costumes. No passado as diferenças constituíam barreiras para a integração. Atualmente com a interação desapareceram.

- Os mercados abertos e a economia livre, libertaram pessoal e politicamente as pessoas.

- a globalização abriu o mercado do trabalho. As fronteiras do trabalho praticamente desapareceram. Não só fisicamente como virtualmente. Um francês em seu país pode trabalhar para um inglês em seu país.

O contra ponto veio pela economista francesa. LISABELLE BENSIDOUN[i], economista do jornal Le Monde, levanta a hipótese de que uma variável unicamente econômica não consegue efetivar uma opção econômica mundial. Para justificar seu argumento se louva em três fatos recentes globais.

1.         O primeiro seria a crise financeira de 2008. O acontecido: uma bolha imobiliária nos Estados Unidos aumentou consideravelmente os valores imobiliários sem ser acompanhado pela aumenta da renda da população.

2.         A crise sanitária de 2020. A pandemia simplesmente fragmentou a organização social. Houve um descompasso entre as trocas econômicas e as relações políticas internacionais. Em que pesem as relações econômicas estarem interconectadas digitalmente, surgiu a questão da informação que se desprendeu do geral e permaneceu isolada em cada país.

3.         O novo tabuleiro da geopolítica causado pela Guerra na Ucrânia.

Bastou um ator do tabuleiro afastar-se do consenso global para que tudo viesse abaixo. Foi o caso da guerra da Ucrânia.

O presidente da Rússia, Putin, invade o território da Ucrânia justificando a operação para salvar as repúblicas separatistas.

Com efeito, a Globalização prometia trazer prosperidade e democracia para todo ocidente, isso devido aos laços estabelecidos entre os povos nas últimas décadas. Era de supor que o menor clique nos comandos da economia em qualquer lugar do ocidente repercutiria nos confins do ocidente agindo como se fosse um corpo só com uma única alma. Pensou-se que ondas magnéticas se estenderiam da economia para a política, cultura, artes, enfim tudo agiria de forma globalizada.

Ao invés, há quinze anos, a crise que se abateu sobre a economia financeira ocidental findou com a hiperglobalização a qual pairava soberana desde a década de Noventa. Pensava-se que a liberalização sempre maior traria prosperidade para todos. A reboque na liberalização econômica viria a política. No entanto, o efeito foi o inverso, isto é, em vez da globalização adveio a desglobalização, isto é, uma brusca freada na dinâmica dos fluxos internacionais de bens e capitais.

Disso várias lições foram aprendidas. Aquelas certezas que nos animavam de que a globalização traria benefícios ficaram ainda nas expectativas. Por outro lado, o lado amargo, de reconhecer que a globalização é culpada de ter destruído empregos industriais, mormente nos países avançados e barrada sua criação em países em desenvolvimento. Uma consolação pode ser colhida, embora ainda fraca: a baixa dos preços. No entanto, a perspectiva mais alvissareira, a cereja do bolo, não se constatou: a liberação econômica seria acompanhada pela liberação política.

Quanto à crise sanitária várias vulnerabilidades afloraram: a escassez das máscaras, reagentes e medicamentos. Estes três componentes deixaram as populações a descoberto, pois quando faltava um, o outro ficava inoperante.

Pensava-se que estariam  garantidas as fluidezes das cadeias de suprimentos. Após a saída do Lockdown , os confinamentos coagidos, abalou-se a crise de falta de matérias primas: esgotaram-se aço, semicondutores, madeira, papel e outros. Isto levou à dúvidas as famosas cadeias de interdependências mormente de um continente ao outro. A falha de uma cadeia afeta a produção global, sem falar na falta de transparência dos custos dessas cadeias.

A Europa e Estados Unidos aplicam as restrições nos créditos. A Rússia fecha as torneiras do gás. A Europa e Estados Unidos correm para as usinas neuclares, dando adeus à poluição. É a globalização invertida. Todos estão dependentes de algo dos demais. Virou uma guerra de todos contra todos: bellum omnium in omnes.



[i] Isabelle Bensidoun est économiste, adjointe au directeur du Centre d’études prospectives et d’informations internationales (Cepii).

sexta-feira, 22 de julho de 2022

Liberalismo e estado de direito. José Mauricio de Carvalho

 


Um dos desafios de nossos dias é conseguir dialogar com o mundo que emergiu no século XXI. De certa forma, esse mundo começou a se desenhar antes desse nosso século, com o fim do comunismo real e o término da guerra fria de um lado e com a emergência daquilo que o filósofo Vilém Flusser chamou de sociedade telemática. Hoje escuto falar em comunismo, mas estou certo de que literalmente essa gente não sabe do que fala. Atualmente temos poucos estados comunistas no mundo e o comunismo não é uma ameaça. Coisa diferente é a social democracia europeia que embora tivesse uma inspiração socialista se ajustou ao estado de direito e a liberdade de mercado. Nesse sentido os sociais democratas estão próximos dos liberais moderados.

 Falemos então dessa sociedade de massas e da informática? Flusser explicou que ela possui uma estrutura social nova que ordena as pessoas em torno de imagens. Nessa sociedade todos ficam conectados pelas imagens técnicas, isto é, imagens produzidas por aparelhos. Todos se conectam em imagens, numa rede de aparelhos, mas vivendo em inegável solidão porque o aparelho se interpõe entre o indivíduo e a sociedade e impede relações laterais e o exercício do pensamento crítico. Flusser disse essas coisas há mais de quarenta anos e elaborou uma boa imagem do mundo da internet de hoje, especialmente se entendemos que a rede mundial de computadores deu um novo perfil à sociedade de massas de que falava Ortega y Gasset no século passado. Uma sociedade de massas, isso é comum, é um agrupamento de pessoas imaturas (Ortega chamava o homem-massa de criança mimada), com conhecimento de um campo, geralmente limitado a alguma profissão técnica (mas sem um conhecimento geral e humanista à altura de seu tempo). Tratava-se de pessoas que não se esforçavam e desejavam o prazer, eram contrárias ao esforço e excelência moral (Ortega os denominava senhorzinho satisfeito).

O homem-massa não aprecia o esforço moral e nem cuida de sua preparação intelectual, assim prefere um governo forte, onde não há dúvida e questionamentos, mas uma versão criada e difundida como verdade. Um protótipo perfeito dessa sociedade foi a experiência nazifascista que, por ironia do destino se originaram na pátria do humanismo (a Itália) e na maior cultivadora da filosofia desde a antiga Grécia (a Alemanha). Justo a Alemanha da venerável universidade de pesquisa, a instituição máxima da busca honesta pela verdade e pela sinceridade. Não foi à toa que os nazistas hostilizaram os professores que não se curvaram as suas mentiras. Eles passaram a controlar as universidades com mão de ferro impondo a mentira, a mais famosa a de uma raça ariana superior que acabou no extermínio de milhões de pessoas inimigas do regime e de judeus. O nazismo produziu uma sociedade vazia de humanismo, de racionalidade e liberdade. Uma sociedade que agia como um criminoso que quer apagar o mal feito de suas culpas de cujo exemplo mais terrível foi o campo de Auschwitz. O campo de concentração é produto de uma sociedade que perdeu o compromisso com a verdade, que eliminou a justiça independente, que perseguiu juízes independentes, destruiu a democracia e o estado de direito.  Hoje essa extrema direita destrói o meio ambiente, desprestigia a ciência, difunde o uso de armas e a novidade foi que inventaram um cristianismo que está longe dos ensinamentos do jovem carpinteiro de Nazaré.

Embora inicialmente os liberais não fossem democratas, pois defendiam uma representação política apenas dos grandes proprietários, aos poucos entenderam que a democracia com liberdade de associação, imprensa livre e de poderes independentes era a melhor forma de enfrentar os tiranos, especialmente aqueles que dissimulavam um propósito autoritário. E não se pode esquecer que liberais de raiz como John Locke e Charles-Louis de Esconda, barão de La Brède e de Montesquieu desenvolveram a ideia de poderes independentes e harmônicos como forma de o cidadão se defender do Estado. Em outras palavras, um judiciário forte, independente e que julga a partir de leis votadas pelos representantes do povo livremente escolhidos é a base das democracia ocidental e a melhor forma de defesa do homem comum contra o poder despótico (o poder absoluto concentrado nas mãos de um tirano).

Estamos diante desse desafio, defender, nesse novo mundo telemático e que revive as teses da extrema direita, as boas causas da humanidade que são: o humanismo (o entendimento de que o homem concreto é o maior valor), a liberdade responsável, o estado de direito, o meio ambiente, a imprensa livre, a ciência, a racionalidade contra o antirracionalismo. E para os que creem, recuperar a imagem do Cristo dos evangelhos: o pregador simples e humilde, o carpinteiro trabalhador, pacífico, fraterno, caridoso, próximo e amigo dos que sofrem todas as formas de miséria humana. O jovem profeta da casa de David prometido pelos outros profetas, o Messias que foi hostilizado e morto pelas autoridades políticas que obedeceram, por comodismo, aos fanáticos religiosos. Foi a esses últimos que Jesus se dirigiu em Mt. 21,31: “Em verdade vos digo, que os publicanos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus.”


 

 

sexta-feira, 15 de julho de 2022

SOCIOLOGIA: CIÊNCIA DOS FATOS SOCIAIS OU SENTIDO DA AÇÃO? Selvino Antonio Malfatti.


 


                                                                                                   

                                         

                      

Aproximam-se as eleições. Haverá enxurradas de pesquisas de opinião, cada uma delas pretendendo ser o espelho da verdade. Vejamos até que ponto isto é verdadeiro.

Desde que Augusto Comte chamou a atenção para a positividade da realidade social, com a intenção clara de desvincular a sociologia da filosofia ou metafísica, a celeuma não teve mais fim. Em seguida apresenta-se Èmile Durkheim chamando a atenção para os fatos em oposição a abstrações. A partir daí lança as bases para o empirismo sociológico: generalidade, exterioridade e coercitividade. No entanto, ainda atualmente se pergunta se isto é possível. Como deve ser o objeto experimental? 1. Não pode ter autonomia para se modificar. Deve ser completamente passivo. Receber uma ação externa e cumpri-la. 2. Não pode negar-se à ação externa ou ter livre arbítrio, isto é, escolher. 3. Apresentar sempre a mesma reação ao estímulo. Dá a questão? As ciências humanas decorrentes da sociologia podem ser experimentais? Tomemos a eleição na política. A ação sobre o indivíduo tem autonomia? O indivíduo pode negar-se? Evidentemente, sim. Pode dizer não à ação sobre ele.

- Votei em ti, o que dás? O indivíduo pode dizer nada ou propor uma troca.

Além disso, pode num determinado momento dizer sim, depois mudar de posicionamento.

E mais: para um estímulo apresentar várias respostas.

Como se vê para as ciências humanas, como sociologia, dentro dos parâmetros metodológicos de Durkehim,  é refratária à pesquisa experimental. Por quê? O homem é um ser dotado de livre arbítrio. Pode fugir, esquivar-se ou negar-se a qualquer enquadramento experimental.

Se o método experimental é inadequado à pesquisa sociológica, deve-se encontrar outro método. Foi o que fez Max Weber. Propõe não a experimentação, mas a compreensão. Esta parte do pressuposto da racionalidade humana, isto é, o homem se move em sociedade pelo sentido que á à sua ação. Ela não é resultado da ação de agentes sociais, mas de escolhas racionais que dão sentido ao agir. E neste ponto entra a valor atribuído pelo sujeito racional. Ficam então descartados os fatos sociais bem como sua positividade. Não são os fatos sociais, mas o sentido valorativo objeto da sociologia.

E A teoria weberiana sobre o sentido da ação humana, conjugada com a teoria das formas de dominação, pode lançar luz sobre a questão. Conforme Weber, a ação humana pode ter quatro sentidos:

1. Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão.

2. Ação racional, tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e escolhido sem qualquer tipo de coação.

3. Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a satisfação.

4. Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da repetição.ste sentido valorativo envolve:

Além da racionalidade e valor, incluem-se como método weberiano os tipos ideais que balizam comportamentos. Se me pergunto como seria um genuíno capitalista, um tipo ideal de capitalista puro surge algumas características que o descrevem: visa o lucro pelo lucro, acúmulo contínuo de capital, a única ética é o lucro. Embora um tipo ideal não se encontre na sociedade, mas é ele que traça os limites da perfeição. Quanto mais me aproximar do ideal, mais perfeito serei. Isto vale sempre dentro da ética estabelecida por este tipo. Posso me perguntar como seria um perfeito tipo ideal de “serial killer”, santo, ladrão, justo etc.

Quanto mais próximo do ideal, tanto mais corresponde à veracidade da pesquisa. 

Pensemos: qual a valor de um pesquisa de opinião. Simplesmente válida provisoriamente para aquele momento, para aquele lugar e para aquela realidade. Lembremo-nos da pesquisa de opinião para presidente. Dava Haddad em todos os tempos e lugares. No entanto, foi Bolsonaro o venceder.

Medir a opinião momentânea é uma coisa, medir o sentido do voto dado pelo eleitor é outra.

 

 

 

 

 


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