sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O CONSERVADORISMO. Selvuino Antonio Malfatti

                                                 Russell Kirk

O conservadorismo entrou na ordem do dia. Em termos de importância cresce dia a dia, em detrimento dos ditos progressistas. 
Duas razões do fenômeno podem ser aduzidas:
1º O fracasso das políticas ditas progressistas e de esquerda. Onde foram implantados regimes "progressistas" em poucos anos, em vez de progredirem, regrediram e levaram seus países à falência, como Venezuela, Cuba e Argentina de Kirchner. 
2º Os próprios regimes "progressistas" ou de esquerda abandonaram seus ideais e práticas, voltando-se aos ideais e métodos conservadores, como: Rússia, China e e os países do Leste Europeu. Em contrapartida, os regimes representativos e de economia de livre mercado monstram-se sempre mais avançados concomitantemente respeitando a liberdade.

 À guiza de colaboração, apresentamos algumas pinceladas teóricas.

1    Emergência do conservadorismo.

- Na Antiguidade, pode-se dizer que os primeiros a constatarem o conservadorismo foram Platão e Aristóteles, ao estabelecer como norte para a política a PRUDÊNCIA.
- Já na Idade Média, temos Santo Agostinho e Santo Tomás, pregando  o bom senso, o meio termo, o costume, a lei natural.
- Na Evolução histórica, na criação de Estados nacionais, surgem dois modelos:

Britânico
      e
 Francês

- Tanto a Inglaterra como a França fizeram suas revoluções e saíram da Idade Média. Cada uma, porém, a fez a seu modo.
_ A Inglaterra  manteve a estrutura tradicional e modernizou as instituições. O que fez foi garantir o controle do poder pela representação.
-  A comunidade, através de seus representantes, limitava o poder.
- Na França, ocorreu o contrário: o poder foi entregue aos representantes, os quais aliaram-se diretamente ao povo e instauraram um democratismo, do qual, alguns que o seguiram enveredaram para uma democracia totalitária.
- Três aspectos foram introduzidos que acabaram de pôr por terra todas as tradições francesas: o sistema eleitoral, a divisão do poder e a publicidade dos atos governamentais.
- O sistema eleitoral privilegiava o número, na divisão do poder executivo e judiciário ficaram submetidos à Assembleia a qual vai anulando uma a uma as tradições do reino.
- É neste contexto que surge o livro de Edmund Burke – Reflexões sobre a Revolução em França - denunciando as arbitrariedades cometidas pelos revolucionários franceses ou libertários como os chama Russell Kirk.
- No fundo é uma crítica conservadora ao revolucionarismo francês. Pode-se dizer que foi Burke que primeiro tenha teorizado o conservadorismo, seguindo-se vários outros, como Tocqueville. Atualmente, um dos mais destacados Russell Kirk.
2. Conceito de conservadorismo?
 1º Não são somente uma preferência, ou objeto da preferência própria, mas o preferível, o desejável, o objeto de uma antecipação da direção normativa da ação humana.
2º Não é um mero ideal que se possa prescindir, mas o guia das próprias escolhas apresentadas a cada um individualmente e à sociedade como um todo. É o próprio critério de juízo.
3º É uma possibilidade de escolhas, uma disciplina racional antecipada das preferências podendo acolher umas e eliminar outras. É uma autêntica possibilidade do exercício do livre arbítrio, acreditando na universalidade e permanência dos valores.

3 “Os 10 princípios do conservadorismo, de Russell Kirk.

1°. O CONSERVADOR ACREDITA QUE EXISTE UMA ORDEM MORAL DURADOURA.
Que a ordem está feita para o homem, e o homem é feito para ela: a natureza humana é uma constante, e as verdades morais são permanentes.
A palavra ordem significa harmonia. Há dois aspectos ou tipos de ordem: a ordem interna da alma, e a ordem exterior da comunidade. Há vinte e cinco séculos, Platão ensinou esta doutrina, mas mesmo os letrados de hoje em dia encontram dificuldades em compreender. O problema da ordem tem sido uma preocupação central dos conservadores desde que o termo conservador passou a fazer parte da política.
2º. O CONSERVADOR ADERE AO COSTUME, À CONVENÇÃO, E À CONTINUIDADE.
São os princípios antigos que permitem que as pessoas vivam juntas pacificamente. Os demolidores dos costumes destroem mais do que sabem ou desejam. É através da convenção, palavra tão abusada nos nossos tempos, que conseguimos evitar disputas perpétuas sobre direitos e deveres: as leis, em sua essência, são um conjunto de convenções. Continuidade é o agregado dos meios de se ligar uma geração à outra, e ela importa tanto para a sociedade quanto para o indivíduo. Sem ela, a vida é sem sentido.
3º. OS CONSERVADORES ACREDITAM NO QUE PODE SER CHAMADO O PRINCÍPIO DA PRESCRIÇÃO.
Conservadores percebem que as pessoas modernas são anãs sobre os ombros de gigantes, capazes de ver mais longe que seus ancestrais apenas por conta da grande estatura daqueles que os precederam no tempo. Portanto, os conservadores freqüentemente enfatizam a importância da prescrição, isto é, das coisas estabelecidas pelo uso desde tempos imemoriais, de modo que a mente humana não busca os seus contrários
4º. OS CONSERVADORES SÃO GUIADOS POR SEU PRINCÍPIO DA PRUDÊNCIA.
Burke concorda com Platão que para o estadista, a prudência é a maior dentre as virtudes. Qualquer medida pública deve ser avaliada por suas prováveis conseqüências de longo prazo, e não meramente por alguma vantagem ou popularidade temporárias. Os liberais e os radicais, diz o conservador, são imprudentes: perseguem seus objetivos sem dar muita atenção ao risco de que novos abusos sejam piores do que os males que esperam eliminar.
5º. OS CONSERVADORES PRESTAM ATENÇÃO AO PRINCÍPIO DA DIVERSIDADE.
Eles sentem afeição pela intrincada proliferação de instituições sociais e de modos de vida estabelecidos de longa data, a distingui-las da uniformidade reducionista e do igualitarismo dos sistemas radicais. Para a preservação de uma saudável diversidade em qualquer civilização, nela devem sobrevir ordens e classes, diferenças em condições materiais e diversos modos de desigualdade.
6º. OS CONSERVADORES SE PURIFICAM POR SEU PRINCÍPIO DA IMPERFEIÇÃO .
A natureza humana sofre irremediavelmente de determinadas falhas graves, o sabem os conservadores. Em sendo o homem imperfeito, nenhuma ordem social perfeita pode ser criada.
7º. CONSERVADORES ESTÃO CONVENCIDOS DE QUE A LIBERDADE E A PROPRIEDADE SÃO INTIMAMENTE RELACIONADAS.
Separe a propriedade da possessão privada e o Leviatã se transformará no mestre de todos. Por sobre as fundações da propriedade privada são erigidas grandes civilizações.
8º. CONSERVADORES SUPORTAM  AÇÕES COMUNITÁRIAS VOLUNTÁRIAS, TANTO QUANTO SE OPÕEM AO COLETIVISMO INVOLUNTÁRIO.
Embora os americanos têm sido fortemente atrelados à privacidade e aos direitos privados, também são um povo notável pelo espírito bem sucedido de comunidade. Em uma comunidade genuína, as decisões que afetam mais diretamente à vida dos cidadãos são feitas localmente e voluntariamente.
9º. O CONSERVADOR PERCEBE A NECESSIDADE DE PRUDENTES RESTRIÇÕES AO PODER E ÀS PAIXÕES HUMANAS.
Politicamente falando, o poder é a habilidade de realizar a vontade de um não obstante a vontade dos demais. Um estado onde um indivíduo ou pequeno grupo seja capaz de dominar a vontade de seus concidadãos sem qualquer supervisão, será despótico, seja denominado monárquico, aristocrático ou democrático.

10º. O PENSADOR CONSERVADOR COMPREENDE QUE ESSAS PERMANÊNCIAS E MUDANÇAS DEVAM SER RECONHECIDAS E RECONCILIADAS EM UMA SOCIEDADE VIGOROSA.
O conservador não é oposto à melhoria social, embora duvide que haja algo como uma força geradora de algum Progresso místico, com “P” maiúsculo, operando no mundo. Quando uma sociedade está progredindo em alguns aspectos, geralmente está declinando em outros.
A mudança é essencial ao corpo social, raciocina o conservador, apenas porque é essencial ao corpo humano. Um corpo que cessasse de se renovar começaria a morrer.
Tais são então os dez princípios que têm aparecido frequentemente ao longo destes dois séculos do pensamento conservador moderno. Outros princípios de igual importância poderiam ter sido discutidos aqui: a compreensão conservadora da justiça, ou a visão conservadora da educação. Mas tais assuntos, com o tempo a se esgotar, eu devo deixar a sua própria investigação.
O grande divisor de águas na política moderna, Eric Voegelin costumava apontar, não é a divisão entre liberais de um lado e totalitários do outro. Não, em um lado dessa linha estão todos aqueles homens e mulheres que acreditam que a ordem temporal é a única ordem, e que as necessidades materiais são suas únicas necessidades, e que podem fazer o que quiserem com o patrimônio humano. No outro lado dessa linha estão todos aqueles povos que reconhecem uma ordem moral perene no universo, em uma natureza humana constante, e em elevados deveres para a ordem espiritual e a ordem temporal. (Kirk, The Conservative Mind)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

O homem no seu melhor e no seu pior. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



Na introdução de O Homem e a Filosofia destaca-se que o homem se tornou o grande problema para os pensadores do século XX, isso porque as grandes questões da tradição iniciada na antiga Grécia relativas à ética, epistemologia e metafísica, disse-o Kant ainda no século XVIII, somente poderiam merecer uma resposta razoável, dali em diante, se primeiro se entendesse o homem.
Algumas reflexões procuraram dar resposta a esse problema nesses últimos duzentos anos. Recentemente algumas escolas filosóficas realçaram as novidades descobertas e assim as sistematizaram: o homem, concebido como existente, não se separa do mundo. Eis o que se diz no livro (CARVALHO, 3. ed., 2018, p. 16): “Não é possível tratar homem e mundo, ou o velho problema que os gregos pretendiam estudar, separando um do outro como o fizeram realistas (no mundo Grego) e os primeiros idealistas (na modernidade). O estar no-mundo ou o ser homem, em meio às coisas, tornou-se condição para pensar a realidade. E o que isso revela? Existir coloca o homem numa situação especial que o incomoda, pois ele não consegue entender perfeitamente o que ele é. Ele se sente perdido na insegurança de sua vida, incorre em culpas, angustia-se com sua incompletude e percebe seus limites. Além desses limites individuais percebe-se em meio a crises da civilização que também perturbam o modo como ele vive. Nos momentos de crise de civilização crenças e valores são mais profundamente questionados e o homem se vê com novos problemas. Nestas ocasiões, o que ele deve fazer e como pensar se torna especialmente complicado.”
Creio que não é novidade desses estudos, mas também se deve destacar, o caráter paradoxal da vida humana. O homem é capaz de fazer o melhor e o pior na convivência. De fato, tanto é possível, nas relações intersubjetivas, suavizar como atormentar a vida do outro. E isso pode ocorrer entre colegas de trabalho, entre patrão e empregado, conhecidos e mesmo nos relacionamentos afetivos entre irmãos ou casais.
Nesse último caso é triste quando uma relação de afeto se degenera em crueldade, ganância, ou maldade pura e simples. E é assim que relacionamentos, concebidos para o amor, se tornam um flagelo e mostram o pior do homem. Foi esse lado ruim que que se mostrou, em forma aumentada, nos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. Naquele lugar não somente se fez o mal, mas se revelou, em toda a extensão, o pior do homem, o propósito da destruição, o impulso para a tortura, a crueldade e o desejo de exterminar.
E somente o amor é capaz de resgatar alguém desse lado pior. Somente pelo amor podemos dimensionar nossa face verdadeiramente humana. É o amor o que há de melhor no homem. E somente no amor se constrói boas razões para viver, justo por isso esse sentido maior aponta, em última instância, para Deus. Porém cada homem singular somente se encontra no amor concreto, como tematizou o filme Filho Pródigo nos anos cinquenta, comentado no livro Delfim Santos e o desenvolvimento humano. 
Naquele livro se conta a história do personagem Tónio. O personagem, ainda jovem, deixou a terra onde fora criado, uma vila nas montanhas do Tirol (Áustria). Ele deixou para traz a família e se afastou de Mabel, seu amor da juventude. Isso porque tinha que trabalhar e ganhar a vida num outro lugar. Ele foi viver em Nova York. Ali passou toda vida adulta, mas já velho procurou, no lugar de origem, as bases para reconstruir sua vida esvaziada de significado e amor. Ali reencontrou antigos companheiros e um amor de adolescente quase perdido no tempo. Ele e Mabel redescobriram o amor e, simultaneamente, redescobrem-se ambos a si mesmos, porque nisso consiste o essencial do filme, uma autêntica razão para viver não se faz longe do amor. No amor está o melhor do homem.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

A REVOLUÇÃO FRANCESA – IDEOLOGIA E COMPOSIÇÃO SOCIAL. Selvino Antonio Malfatti.




 
O livro A Revolução Francesa de Israel Irvine Jonathan pela Editora Enaudi, dá uma nova interpretação à Revolução Francesa. Israel nasceu em Londres em 1946. Dedica-se à pesquisa da história holandesa, o iluminismo e judaísmo na Europa. Leciona História Europeia Moderna no Instituo de Estudos Avançados Princeton, Nova Jersey, Estados Unidos.
Neste livro são trazidos alguns fatos novos e um revisão interpretativa. Entre os fatos novos consta que no Terceiro Estado do Revolução Francesa não havia nenhum homem de negócios, banqueiro, empresário. Nenhuma pessoa que se ocupasse com afazeres típicos da burguesia. Já Burke havia se apercebido disto, qual seja, a alta porcentagem de advogados dedicados à literatura presentes na Assembleia. Pululavam jornalistas, escritores, professores, livreiros, padres e non nobres e alguns filósofos. Por isso, as lideranças da revolução não representavam nenhuma categoria social específica. Dizia um panfleto da época que se houvesse algum intelectual que se emocionasse com os acontecimentos de Paris eram NÃO franceses.
O autor da Revolução Francesa distingue dois braços do iluminismo: o de Locke e Newton, reformista, deísta, inclusive comprometendo-se com as confissões cristãs. E o de Spinoza, radical, materialista, ateu e demagogo. Percebe que os iluministas da academia –filósofos e cientistas - que tomaram parte nos Estados Gerais de 1789 eram um mínimo. Condorcet, por exemplo, arquiteto da revolução não conseguiu se eleger. Sièyes foi eleito por um fio. Bailly foi eleito, mas como ele mesmo explicou: foi uma exceção. O confronto verificou-se logo de início: de um lado os homens de letras e de outro os acadêmicos, pessoas de ciência. Somente dez, dos mil e duzentos deputados eram filósofos ou cientistas iluministas, os demais homens de letras.
No que se refere ao conteúdo ideológico, não foi a ala dos iluministas da linha de Voltaire, mas sim os de Rousseau, como Robespierre, Danton e Marat que conduzia os rumos da Revolução. Condorcet, por exemplo, que não pertencia ao grupo, foi preso e acabou seus dias na prisão. Logo de início emerge uma tensão entre os homens de ciência, os filósofos ou iluministas e os homens de letras, literatos e contrários à ciência. Vale lembrar a primeira obra premiada de Rousseau: se a ciência e as artes fazem os homens felizes. E a resposta foi: não.Teria havido uma ligação ideológica entre o Terror e os princípios revolucionários? A filosofia estaria relacionada com o filosofismo, republicanismo, materialismo, ateísmo e perversão moral? Tudo indica que não. Haja vista que os filósofos do período de 1789 a 1793 foram brutalmente mandados à guilhotina por Robespierre. Os sobreviventes afirmam obstinadamente que a ideologia da revolução era distinta e contrária à filosofia dos iluministas. A inspiração foi buscada em Rousseau cujo conteúdo se inspirava num obsessivo puritanismo moral, mesclado de autoritarismo, anti-intelectualismo e xenofobia.
Conforme Israel, da mesma forma que hoje não se pode explicar a Revolução francesa através da luta de classe, também não se pode admitir de que não foi essencial ou contingente a ruptura entre Igreja católica e Revolução. O impulso anti-cristão foi essencial e se manifestou desde o início, como se pode observar pela atuação de Robespierre. Defendia que a religião, como um dos componentes do contrato social, deveria continuamente ser tutelada, isto é, cercear-lhe a autonomia. O contrato social civil deveria sobrepor-se ao religioso. A religião fazia parte do contrato e não podia ser considerado um órgão autônomo ou independente. O descristianização foi um componente essencial da Revolução e a acompanhou no precedente, no desenrolar e no ulterior desdobramento.
Israel pretende desmascarar o mito de que foram os iluministas que inspiraram a Revolução. Para ele exatamente este mito dificulta a compreensão dos fatos. Entende que a Revolução foi obra e graça de quem não entendia de filosofia ou ciência. Foi obra de ficção literária que passava ao largo e longe do pensamento filosófico, como de Locke, e científico como de Newton. Quando a oposição se avolumou o apelo foi o Terror mandando para guilhotina qualquer dissidente ou opositor.
Da mesma forma, Israel pensa que não foi uma matriz radical do iluminismo que animou a Revolução. Simplesmente pensa que não houve nada de iluminismo na Revolução. Houve, sim, uma ideologia sui generi cujo ápice e escoadouro natural foi o Terror. Um a um os seguidores que creram que fosse iluminismo deserdaram ou foram mortos. Foi o que aconteceu com francês Condorcet, com o americano Paine e o adepto do culto da razão, Cloots mandado para guilhotina por Robespierre.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

2020, um novo ano como referência de autotranscendência. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.

                                                                         

Nestes dias de internet e celulares a vida corre rápida e o ritmo é cada dia mais acelerado. Tudo tem pressa na era da comunicação digital e momentos como a passagem do ano nos coloca a pergunta pelo modo como estamos lidando com o tempo. É preciso ensinar as novas gerações mais coisas que as anteriores precisavam para viver. Cada um de nós precisa aprender mais e agir mais rapidamente na rotina diária. Isso porque a sociedade se encontra nesse processo de aceleração da vida. Não parece que importa muito às pessoas o quanto isso as faz esquecer de quem somos e as lança num tempo de massas. Massa é sociedade que não questiona a razão da vida e o que fará com o tempo que dispõe para viver.
Tempo é o tecido da existência humana, tempo é o que nos faz ser o que somos e o que dimensiona o valor de nossa vida. É no quanto nos dedicamos a cada coisa, no tempo que nos preparamos para viver os acontecimentos, que se acentua, para nós, a pergunta pelo sentido. Tempo tem, portanto, a ver com o sentido e valor que damos a nossa vida. Quando entendemos que nos tornamos o produto do que escolhemos e vivemos, antecipamos um pouco nossa finalidade existencial, o sentido de nossa vida.
Toda a meditação filosófica durante o século que passou ensinou que o progresso não virá de forma automática. Quer o progresso material da sociedade e dos indivíduos, quer a evolução moral ou pessoal dessas sociedades ou pessoas, somente ocorrerão com esforço e, às vezes, em razão do que acontece de forma inesperada. O destino de cada um será fruto do que ele conseguir realizar para superar, na circunstância, aquilo que o impede de realizar o sentido de sua vida. Isto é, realizar seus sonhos, viver seus desejos, fazer coisas que façam a vida valer a pena ou ter valor para ele. No fundo a renovação periódica dos anos revela que a vida dos indivíduos humanos e o futuro da sociedade permanecerá um acontecimento que transcende previsões.
E se o futuro depende do que fizermos a cada instante, o entendimento do passado, traz lições importantes e permanecerá, em boa parte, nebuloso. Nossa compreensão do passado se renova com as gerações que realizam novas interpretações do já vivido. Isso porque o passado fornece respostas e é tolice não avaliar essas lições ou tentar entender o que elas indicam. Porém, a crescente compreensão do passado nunca o revelará integralmente, ficará sempre uma parcela para se melhor entendido no futuro.  
Cada homem tem, no quadro geral da sociedade em que vive, a responsabilidade de fazer surgir a pessoa que tem em si e que vai se tornando real com suas escolhas. Assim, a consolidação de cada novo eu entre os homens mostra a aventura de um novo sujeito diferente de todos os outros que existem ou já existiram. O homem comprometido com seu destino e responsável por ele torna-se pessoa. Esse conceito traduz a realidade do indivíduo humano tocado pelos objetivos da moralidade, da autorrealização e da autotranscendência.
Assim, em meio às incertezas gerais quanto ao destino próprio e da sociedade, as pessoas de fé contam com um diferencial. Elas acreditam que a vida que anima sua existência e de tantos outros tem um propósito de melhora, que podemos notar quando estudamos a História. Uma melhora que não vem sem esforço e comprometimento, mas uma melhora visível para quem tem fé num Deus que governa a história.
Um feliz 2020 para todos, um feliz ano novo na esperança de que ele renove nosso compromisso conosco e em sermos melhores a cada dia. Desse modo ajudaremos a aprimorar a sociedade e a viver responsavelmente o compromisso conosco mesmo.
F E L I Z  A N O  N O V O!

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

NASCIMENTO DO CRISTO. Marcos e Lucas




"São Marcos - 

1.Princípio da Boa-Nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Conforme está escrito no profeta Isaías: 

2.Eis que envio o meu anjo diante de ti: ele preparará o teu caminho.

3.Uma voz clama no deserto: Traçai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas (Ml 3,1; Is 40,3).

4.João Batista apareceu no deserto e pregava um batismo de conversão para a remissão dos pecados.

5.E saíam para ir ter com ele toda a Judeia, toda Jerusalém, e eram batizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados.

6.João andava vestido de pêlo de camelo e trazia um cinto de couro em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.

7.Ele pôs-se a proclamar: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado.

8.Eu vos batizei com água; ele, porém, vos batizará no Espírito Santo”."

LUCAS 

O Nascimento de Jesus

2 Naqueles dias César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano.

2 Este foi o primeiro recenseamento feito quando Quirino era governador da Síria.

3 E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se.

4 Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galiléia para a Judéia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi.

 5 Ele foi a fim de alistar-se, com Maria, que lhe estava prometida em casamento e esperava um filho.

6 Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê,

7 e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

AS TEODICEIAS DA SALVAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti



Em algum momento os homens tomaram consciência de suas fraquezas: perante a doença, a fome, desastres naturais ou a morte. Como não podiam enfrentar sozinhos as debilidades levantaram os olhos para o céu infinito, olharam a força do mar, o mistério das florestas e pouco a pouco veio à mente a ideia de um ser superior. Este poderia ser a força para suprir a fraqueza. Este seria o seu SALVADOR.

Além disso, viu-se o homem desamparado, impotente e só. Era preciso encontrar alguém que o socorresse, ajudasse e lhe desse forças. Precisava de um SALVADOR.

Ao se examinar sentiu que nem sempre acertou nas escolhas, mas que podia ter acertado. Disso surgiu o sentimento de culpa. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado. Para se livrar da culpa era necessário um SALVADOR.
Nossa posição não significa nenhuma crítica a qualquer religião e nem inclinação por alguma. Apenas procuramos explicações dedutíveis da razão e, quanto possível, argumentos empíricos. Estes podem ter tido pistas religiosas, mas nunca premissas. 

Por isso, a ideia de um SALVADOR foi buscada na consciência humana. 
Conforme a sociologia no seio das grandes civilizações emergem três grandes teodiceias que apontam para a SALVAÇÃO. 


1º O Dualismo. É uma das formas mais difundidas e existe em diversas religiões. O zoroastrismo talvez fosse o modelo mais perfeito desta forma de teodiceia. O conteúdo religioso contempla a dualidade entre o bem e o mal religioso. Nesse sentido há o puro e o impuro. O deus do bem e o do mal, o virtuoso e o pecador. O problema é que esta crença ou teodiceia envolve uma contradição. Há um deus que possui seus poderes limitados por um rival. A ideia de salvação, através de um Salvador, como na teodiceia cristã, avançou esta concepção para a vitória do bem. Para os bons ficaria reservado o céu e para os maus o inferno. O responsável pelo inferno é uma criatura subordinada ao Deus do céu. O Deus do céu, superior, castiga o deus do inferno com todos os seus, condenando-os ao sofrimento infinito e eterno. 


2º Predestinação. Nessa teodiceia se acredita que o homem é incapaz de conhecer qualquer desígnio de Deus. E por isso nada de bom pode fazer, cabendo a Deus a liberdade de escolher quem quer para a salvação. O condenado é um réprobo que merece este castigo e nada pode reclamar.


3º Salvação universal. Esta crença se poderia encontrar na religiosidade dos intelectuais indianos. A auto realização do homem está garantida na salvação universal. Destes três modelos de teodiceias advieram as quatro grandes religiões:


 1º confucionismo e taoísmo. O universo era visto como uma ordem eterna – Tao. Desenvolveu através de Lao-tsé uma mística que evoluiu para a magia. 

Salvador Confúcio.


2º hinduísmo e budismo. Era praticado por casta hereditária de letrados, que, embora não tivessem cargos, atuavam como conselheiros ritualistas e espirituais para indivíduos ou comunidades. Era uma sociedade de castas, as quais formavam uma ordem hierárquica, cujo topo era ocupado pelos brâmanes. Depois vinham os guerreiros, comerciantes, agricultores e por fim os trabalhadores. O intercâmbio entre as castas era proibido. Acreditavam na reencarnação e como todas as religiões orientais eram místicos.  Os brâmanes constituíam um centro em torno do qual gravitava toda a organização social. Os brâmanes, educados nos Veda, era o estamento plenamente aceito. Mais tarde surge outro estamento, não brâmane, que passou a competir com eles. O budismo era constituído por monges contemplativos, mendicantes e errantes. Eram considerados membros integrais das comunidades religiosas. Os demais eram considerados inferiores, objetos e não sujeitos de religiosidade.

Salvador Buda.


3º O islamismo. Inicialmente uma religião de guerreiros cujo objetivo era conquistar o mundo. Eram como os cruzados cristãos, mas sem o seu ascetismo sexual. Em torno do século VII d.C, surgiu o misticismo maometano, cujo resultado foi um simbolismo complexo muito utilizado pelos poetas.

Salvador: Maomé


4º judaísmo. Após o exílio, o judaísmo perambulou como um povo pária, isto é, o único vínculo era o Deus comum, Javé. Com a elaboração de uma lei sacerdotal, levada adiante pelos levitas, juntamente com a pregação dos profetas, abriu espaço para um caráter prático e ético, expurgando as crenças de magias que grassavam no meio do povo. Durante a Idade Média conseguiu que uma camada de intelectuais que imantava os diversos grupos esparsos pelo mundo.
Salvador: ainda estaria por vir.


4º O cristianismo. O cristianismo iniciou como uma doutrina de artesãos jornaleiros itinerantes. Permaneceu sempre como uma religião urbana e cívica. Em todos os períodos manteve este caráter: antiguidade, Idade Média e Época moderna com o puritanismo. A cidade do ocidente, diferente de todas do mundo da época, com um corpo de cidadãos, foi o palco do cristianismo. Isto pode ser aplicado às comunidades religiosas, ordem de monges mendicantes da Idade Média.

Salvador: Jesus

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A encarnação de Cristo e o humanismo. José Mauricio de Carvalho




Humanismo é uma palavra para resumir a realidade do homem. Foram muitas as formas de entendê-lo ao longo da História e muitas as suas faces. A cultura ocidental explicitou as realidades de um ser que era histórico e vivia numa sociedade que também era. Mudam os indivíduos, mudam as sociedades humanas. Essa forma de tratar o homem nele identificou estratos: matéria viva e consciência espiritual. Esses estratos resumem uma totalidade plural, que quer dizer que o homem não é só matéria viva, mas consciência psicológica e espírito, ou melhor, uma totalidade singularmente individual. Com algo comum com os outros e muito de somente seu. Um ser que embora tenha uma parte material submetida às leis da física, possui também emoções e sentimentos de alta complexidade e uma razão que lhe dá liberdade e exige responsabilidade.
Com a evolução da cultura, a criação artística e a análise racional das possibilidades humanas pelas ciências e pela filosofia, a razão reconheceu, nesse modo de ser, um valor inesgotável. O homem foi descrito como um valor que o diferencia dos demais e lhe confere importância. Miguel Reale resumiu essa condição dizendo que o homem era um valor irredutível e, ao mesmo tempo, um valor fonte. Com isso resumiu que o homem tinha um valor inalienável e que podia reconhecer valor nas coisas ou atribuir-lhes valor, como, por exemplo: o equilíbrio da natureza, os bens materiais e as organizações sociais que são valores por causa do homem. 
Uma das maiores dificuldades dos primeiros cristãos foi mostrar que uma pessoa divina viveu verdadeiramente essa condição humana. Que Ele teve fome, porque era matéria, sentiu-se angustiado, por era consciência psicológica e era capaz de ensinar de forma racional porque era espírito como seus semelhantes. E ainda assim, possuindo todos esses atributos humanos era também divino porque existia desde sempre ao lado de outras pessoas igualmente divinas e espirituais. Espirituais não só porque pensavam, mas porque essa condição nas pessoas divinas era magnífica expressão de perfeição eterna e amor infinito. Sem conseguir entender isso muitos cristãos minimizaram a realidade humana de Jesus e ao reconhecê-lo Deus, pouco valorizavam sua condição humana, impressionados por sua divindade. Porém a Igreja, desde o início dos tempos, insistiu que Jesus era verdadeiramente homem, embora não perdesse sua condição divina.
Por reconhecê-lo verdadeiro homem e verdadeiro Deus, a Igreja celebrou sempre seu nascimento e morte, como forma de mostrar que Ele se fez carne (Jo 1-14), e embora fosse o Logos e razão de todas as coisas, encarnou-se e foi nosso companheiro de caminhada. E justo porque reconhece essa humanidade como verdadeira, a Igreja confirmou aquilo que a razão aponta: precisamos cuidar do homem e estabelecer as bases de um humanismo que não deixe de reconhecer a historicidade, a pluralidade, a liberdade responsável e a dignidade da criatura humana.
Por isso, a festa do natal de Jesus de Nazaré, que novamente comemoramos em 2019, é oportunidade para restabelecer a confiança em Deus Senhor da História. O Natal também afirma que a vida humana está investida de dignidade e valor. É esse cuidado com o homem, esse respeito a sua condição que a comemoração do aniversário de Jesus vem reafirmar a cada ano. Isso não é comunismo, mas um ideal de vida onde a terra é casa de irmãos, diferentes no modo de viver, distintos nas suas capacidades de dons e riquezas, nem todos igualmente sensíveis ou inteligentes, mas todos merecedores de cuidado e respeito. Não porque uns se aproveitem de outros, mas porque são irmãos nas suas diferenças.

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