sexta-feira, 1 de março de 2013

A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DROGADOS – A FAMÍLIA TAMBÉM É GENTE. Selvino Antonio Malfatti.





O governador do Estado de São Paulo, José Alkmin, e agora o do Rio de Janeiro, seguidos de outras autoridades decidiram internar compulsoriamente os viciados em crack. Evidentemente a decisão é polêmica, pois envolve aspectos jurídicos e éticos. Do outro lado da moeda, no entanto, existem outras realidades igualmente importantes, tais como a pessoal, familiar e social. Resumiria numa palavra: humana.
Para o cumprimento da lei exigir-se-ia uma solicitação médica de internação e a questão ética envolve o princípio da autonomia. Para atender o primeiro quesito faz-se necessário a criação de Centros de Atendimento Psicossocial – CAPS. Como nem união, nem estado e muito menos municípios possuem suficientes, por isso seria ilegal a internação.
A questão ética diz que é necessário o consentimento do paciente para que determinado procedimento seja feito ou de algum parente, como pais, filhos, esposa, netos etc. Quem são os atores envolvidos na questão das drogas químicas e mais especificamente o crack? Para mim é pessoa, a família e a comunidade. A sociedade indiretamente arca com o peso daquela pessoa viciada. Precisa dar-lhe alimento, vestuário, habitação, saúde. A sociedade só recebe a fatura e paga. Não tem nenhum retorno. Certamente concordaria com a internação compulsória. Acontece que a sociedade não é parente e, portanto, não pode dar o consentimento legal, embora apoie a internação compulsória dos viciados. A sociedade quer curar-se desta ferida que a está levando para a morte. Precisa urgentemente de socorro.


E o usuário de droga dará o consentimento? O viciado em crack não possui mais autonomia da vontade, pois é dependente, e por isso, abúlico. Tornou-se um simulacro de ser humano. É um corpo humano com alma, mas sem vontade e consequentemente sem liberdade. Está oco por dentro. Tem sentimentos, contudo a razão foi dominada pelo instinto. Quer ser recuperado? Até quer, mas não tem forças, vontade suficiente. Por isso está impedido de dar o consentimento.
Na impossibilidade de o sujeito manifestar-se é preciso consultar um familiar. Qual a situação da família com a presença de um viciado em crack? Por causa dele casais brigam, se ofendem, separam-se, odeiam-se. Os filhos se dispersam, os irmãos se desentendem, pais e filhos enfrentam-se. Quem não conhece casos de viciados em crack que roubam e assassinam os pais. Violentam as irmãs, batem nos irmãos, roubam-nos e os matam. São famílias inteiras pedindo socorro para que alguém faça alguma coisa. Pais amarram os filhos para evitar que se droguem. Mães trancam o filho para não deixá-los ir para rua. O desespero chega ao auge quando os filhos têm que dopar o próprio pai para levá-lo ao tratamento.E quando não aguentam mais e tiram-se a própria vida, suicidam-se.
Por isso, o objetivo maior da internação compulsória é a família e elas tem o apoio de todos. Elas também são gente. Os familiares merecem ter uma vida normal. A presença do drogado nelas as está desintegrando e jogando fora vidas inteiras. É muito sofrimento, um calvário que não termina mais e o grito desesperado dos familiares ouve-se de todos os lados: Meu Deus, por que tanto sofrimento?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Desafios para a nação. José Maurício de Carvalho.




O Brasil vem mudando nas últimas décadas, enfrentando antigos e novos desafios. É inevitável que em momentos felizes se tenha a sensação de que as coisas andam melhor e o mesmo ocorre nos períodos de dificuldade, quando se tem a impressão de que andam piores. Foi o que se observou recentemente nas avaliações do país que foi guindado, de uma hora para outra, à condição de cereja do bolo e dois anos depois rebaixado para a condição de cronicamente atrasado.
Deixando de lado avaliações extremas, entre os desafios de médio prazo, isto é, dos próximos quatro anos estão o realizar a Copa da Fifa, em 2014 e as Olimpíadas, em 2016. Isto não significa apenas concluir estádios e ginásios nos prazos pactuados, mas resolver problemas graves de infra-estrutura como: ampliação e modernização de portos, rodovias e aeroportos. Some-se a eles: melhorar os serviços nos hotéis, restaurantes, o mobiliário urbano e controlar a violência.
A lista acima não é inédita, a imprensa destaca ora um, ora outro ponto. Não estão aí os desafios de sempre como: preservar a memória nacional e aspectos significativos da cultura, manter a responsabilidade fiscal e a inflação sobre controle, oferecer educação de qualidade para a juventude e serviços de saúde eficiente, proteger as fronteiras, garantir o cumprimento das leis, combater a corrupção e fazer funcionar a previdência pública, etc. Também estes problemas não são desconhecidos.
O que não é tão conhecido e comentado são problemas de nossas raízes culturais responsáveis por nosso atraso e dificuldades. Se começarmos a enfrentá-los os desafios de sempre e os próximos serão vencidos em menos tempo e maior facilidade.
O primeiro é a necessidade de discutir e incorporar moral social laica e consensual. Moral social laica (não religiosa) e pactuada é distinta da religiosa que é importante para o crente e só para ele. A consensual e laica não desobriga dos compromissos sociais mesmo quando estão fora das convicções pessoais e religiosas.
O segundo é o sentido pessoal da responsabilidade, isto é, enfrentar os problemas e não esperar que alguém o faça por mim.  Não há nação forte sem que todos estejam comprometidos com sua missão, não importa qual seja.
O terceiro é a crônica ineficiência do serviço público e das empresas particulares, ancorada na falta de compromisso com a qualidade e competência. O desleixo alimenta a ética do atalho quando o que importa é descobrir quem é o responsável pelo que, para pedir privilégio no atendimento, enquanto a coletividade permanece na desgraça. Isto consolida o salve-se quem puder e a negligência imperdoável dos governantes com as tragédias anunciadas.
O quarto é o gasto supérfluo e suntuário e não o investimento que aumenta e consolida a riqueza.
O quinto é a enorme diferença entre ricos e pobres, apesar dos esforços louváveis do atual governo para reduzi-la. A sensação de que se paga muito imposto deve-se a que o funcionamento do Estado depende efetivamente de poucos. A maioria contribui pouco e depende muito.
O sexto é a desorganização partidária com arranjos impublicáveis, corrupção, coligações inviáveis e eleitoreiras. Isto dito sem desconhecer a consolidação da democracia e do Estado de Direito nas últimas três décadas.
O sétimo é o nível baixo de escolaridade que alimenta a improdutividade e as diferenças sociais.
O oitavo é a falta de planejamento eficiente e execução adequada o que leva ao improviso e o famoso ir-se safando do vender o almoço para comprar a janta.
A lista não está em ordem de importância, registra desafios. Alguns começam a ser enfrentados, a maioria não. Sem enfrentá-los continuaremos longe de ser o país que todos os brasileiros dizem sonhar. Ele não chegará a ser bom se sonharmos com a vida do suíço e agirmos como o personagem conhecido por “malandro carioca”.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

KISS – O BEIJO DA MORTE. Selvino Antonio Malfatti







Ainda sem abrir os lhos para o mundo sente o ímpeto de viver. Sofreguidão na procura do alimento de quem deu a vida. A partir daí a natureza acumula forças, vigor, vida em abundância. O corpo cresce, torna-se belo e tudo é encantador. Os hormônios fazem o sangue ferver de cupidez. Que bela é a vida. Cheia de energia, alegre, sempre precisar de esperança.
Por que os idosos falam de dor? Ressentem-se de decepções? Choram perdas de quê? De vez em quanto se houve falar que alguém está doente. Mas que mal tem? Falam que outro está desenganado. O que é isso? Comentam que fulano morreu. Que importa? Tudo está tão distante, inatingível. Isso é coisa de velho. O jovem está imune. Ele possui a vida que extravasa e inunda o seu redor.
Ah! Foi o velho doente que mora em outra cidade? O avô, bem, descansou o coitado. Por que o pai? Podiam ter durado mais alguns anos. Meu irmão? O problema é que não se cuidou! De repente se dá conta que ela rondou por perto. Mas aí? Mas aí já é tarde. Precisa urgentemente voltar. Mas “la diritta via era smarita”. Além disso, não há mais volta. O tempo, que parecia inesgotável, agora rola impassível, inexorável para Andrômeda.
Mas o jovem? O jovem não morre. Até vinte anos...a vida é eterna. Por que foi quebrada a lógica? Quem permitiu isso? O jovem? A família? Governo? A culpa? Não adiantam culpados. A vida não volta. A morte, sim, se compraz, diante da vítima. Esta desfalece. Antes da abocanhada final vai perdendo pedaços até deixar somente a metade. O corpo formiga, as pernas tremem e a boca endurece.  Partido ao meio sobrou apenas a metade, o corpo. Mas o pior é a perda da metade da alma. Vai junto com a outra parte. A realidade se torna etérea, evanescente, volátil. Levitam os sentimentos sem onde pousarem. Saltita a memória entre o início e o fim. O pensamento não consegue pensar. Ele se deixa levar pela ruptura da partição. Metade se foi. O que fará a outra metade?
Ao estupor sucede a revolta? Por se tirou metade. Talvez fosse preferível não ter sobrado nada, tirado tudo. Metade ficou para perambular inconsolável. A presença de quem se foi distanciando aos poucos, envolta em contemplação, luto, enlevo e revolta. Raiva e ódio. Por quê? Simplesmente não tem explicação. Aos poucos a resignação. Só resignação, nunca aceitação e menos ainda compreensão. Continuar a viver? Por que não partir junto? Mas encontrar onde a outra metade? Agarra-se a uma consolação: cuidou, rezou e chorou. Pelo menos o corpo recebe uma morada digna. A alma, onde estará ela? Às vezes faz alguma visita, mas muito rápida para deixar algumas gotas de bálsamo para a outra metade que ficou.  E então, com saudade exclama: “alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente” até nos unirmos novamente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eunomia. Selvino Antonio Malfatti





A convivência social exige espaços e estes supõem limites. Viver em sociedade significa ter uma gama de opções pessoais, familiares, grupais e sociais, mas em contrapartida há necessidade de limites exatamente para não haver colisão com os espaços de outros indivíduos, famílias e grupos. 
Evidentemente que cada um quer garantir o maior e o melhor espaço para si: jovens, adultos, idosos, ideologias políticas, religiões e associações. Cada indivíduo ou grupo procura justificar as próprias normas, mas qual delas seria a melhor para todos Daí a questão: se nos abstivermos de todas as individualidades, qual seria o maior espaço para todos com o mínimo de limites, isto é, um estado de eunomia?
As normas não só direcionam comportamentos e ações mas, estabelecem regras rígidas, infalíveis e infringíveis. Elas podem ser de ordem religiosa, como o Decálogo, morais, como a fidelidade conjugal, e as jurídicas, como os Códigos. Cada uma delas pretende propiciar ao homem a alcançar, dentro de seu objeto, a perfeição. Quem observaria em tudo e sempre o Decálogo alcançaria a perfeição e seria considerado santo. Quem seguiria as normas morais ditadas pela consciência seria um homem perfeito, um herói. Quem não praticaria nenhum delito jurídico seria um cidadão exemplar.
Contudo, a experiência atesta que normas rígidas em relação ao agir sempre colidem com a realidade. As normas apontam para um comportamento uniforme, imutável seja qual forem as circunstâncias. A norma da exclusividade conjugal, por exemplo, exige que nenhum dos parceiros tenha relações extraconjugais. O bom senso aceita em determinadas circunstâncias violar a norma. É o que é narrado na Bíblia. Uma mulher, Sara, não conseguia ter mais filhos. De comum acordo com o marido, Abraão, e sua mulher combinaram que ele teria relações com outra mulher para gerar um filho. E foram bem sucedidos, porque o concebido, Ismael, se tornaria pai de uma grande descendência, os árabes. Cada circunstância é específica. São Francisco de Assis, por exemplo, surrupiava roupas da loja de seu pai para vestir os necessitados, contrariando frontalmente a norma de não roubar ou furtar.
Normas foram estabelecidas para regerem comportamentos universais. A realidade, porém, não possui uma uniformidade e homogeneidade. Em cada momento toma nova forma, novas razões surgem, necessitando-se rever continuamente a norma. No entanto, parece que a norma mais geral é o da relatividade das normas. Um verdadeiro paradoxo porque o que estabelece como regra geral é justamente aquilo que não deve ter regra geral. Imbuir os princípios religiosos e procurar segui-los, mas não exigir isto dos demais. Ter sempre presente os preceitos morais, contudo não se desesperar se alguma vez ou alguns deles forem descumpridos. A lei é feita para o bem do homem e não o homem para o bem da lei. Logo, o homem está a cima da lei. Entre a lei e o homem, opte-se pelo homem. Isto o próprio Cristo estabeleceu: o sábado foi feito para o homem e não vice-versa.
A norma ética possui um ponto de apoio no próprio homem. Quem a desvelou com maior clareza foi o filósofo alemão Kant. Diz ele: age de tal forma que tua conduta possa se tornar lei universal. Isto significa que se tiver dúvida em relação a alguma ação, se devo ou não devo praticá-la, basta consultar a mim mesmo e me perguntar se todos poderiam agir assim. Caso a resposta seja positiva, então a ação é eticamente correta. Em caso negativo devo abster-me de praticar tal ato. A hierarquia que se pode estabelecer entre as normas é a seguinte: costumes tradicionais não obrigatórios, como lavar as mãos antes das refeições. Costumes morais, obrigatórios para uma determinada sociedade, como dizer a verdade. Normas legais, que constituem a maioria das normas da sociedade. Normas éticas, condutas universais, estabelecidas por consenso na sociedade, como não enganar o próprio semelhante. A maioria das vezes estas normas se interpenetram e se entrecruzam, complementando-se mutuamente.Por isso, a melhor eunomia adviria do consenso da sociedade sobre princípios ético-racionais com validez universal.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIDA SIMPLES E ARRISCADA. José Maurício de Carvalho.





Dizer que a vida é simples e arriscada pode parecer contradição. Não parece que seja, embora a vida tenha suas contradições. Somos contraditórios quando comemos demais se desejamos emagrecer, nos esforçamos pouco quando dizemos sonhar com algo difícil de realizar, magoamos as pessoas que amamos, fugimos do que deveríamos buscar, nos encantamos pouco com o mundo quando afirmamos querer uma vida boa. Há uma coisa importante só uma vida meditada pode ser boa, só se conhecemos nossas dores e construímos um significado para nossa vida ela pode ser levada com leveza, só se respeitamos os limites de nosso corpo e de nossa estrutura de pensamento podemos ficar bem. É triste ver hoje em dia tanta gente correndo de um canto a outro sem projetar seu destino, acreditando em fórmulas mágicas de felicidade que repetem sem sucesso. É que a vida só pode ser compartilhada aos pedaços, como realidade inteira só pode ser vivida de modo singular e saboreada como ela é.
Quando dizemos que a vida é simples queremos dizer que ela é o que temos de mais intimamente nosso. Vida entendida como o tecido das nossas escolhas, como o modo como tocamos o dia a dia. Vida é o que fazemos com o que temos, dizia o espanhol Ortega y Gasset. Simples assim. Podemos fazer bem ou não as escolhas que definirão nossa existência. Mergulhados numa situação, numa determinada sociedade, num certo tempo histórico, com um corpo, com experiências só nossas, com amores, dores e dúvidas, temos que escolher o que seremos. No entanto, a vida é também arriscada, como lembra Gilberto Kujawski no seu maravilhoso livro Viver é perigoso (1986) porque nem sempre o que escolhemos nos serve. “Viver é muito perigoso. Não porque a todo momento surjam perigos na vida, mas porque a vida em si mesma é muito perigosa. Não que o perigo se acrescente ao viver, neste é que está o perigo”, diz o citado autor. E é perigosa porque podemos escolher o caminho de nossa destruição, podemos afundar o nariz na lama da existência. E temos alta probabilidade de fazê-lo se não nos respeitarmos, não nos escutarmos, não meditarmos sobre o que somos e queremos ser.
Estatísticas questionáveis dão conta de que a depressão atinge atualmente vinte por cento da população mundial, quase um bilhão e meio de pessoas entre os quais quarenta milhões de brasileiros. O lamentável é que uma grande revista divulgue sem questionar o número e ainda apresente a cetamina, um anestésico usado há poucas décadas como droga ilícita, como esperança de cura e felicidade permanente. Este é o mundo dos sonhos do laboratório responsável pelo remédio e por alguns oportunistas de plantão, uma realidade irreal como os sonhos de quem exagerar um pouquinho na cetamina. Depressão é realidade humana dificílima de enfrentar e entender, complexa ela não se confunde com tristeza ou mesmo com dificuldade de dormir. Depressão é tristeza profunda um estado de desânimo tal que a pessoa sequer tem forças e razão para tomar banho ou se alimentar.  Muitas vezes é acompanhada de ansiedade. Há pessoas deprimidas com certeza que precisam de remédio, mas não só, elas necessitam principalmente de carinho e psicoterapia. Certamente este número não alcança um bilhão e meio de habitantes da terra. Se o diagnóstico fosse verdadeiro melhor admitir que nossa sociedade faliu, pois a população humana nunca esteve assim. Se assim está o mundo hoje, ele precisa de muito mais que cetamina.
Além da falsa promessa de felicidade fácil e injetável, há aí o lamentável equívoco de diagnosticar tristeza e falta de rumo na vida como depressão. É ilusão imaginar que não precisamos nos ocupar de nossas dores íntimas, não precisamos conhecer o que nos consome, que podemos viver sem nos ocupar com o que seremos, sem perceber o rumo de nossa vida tecido pelas escolhas que fazemos.



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DA SOLIDÃO À AMIZADE. Selvino Antonio Malfatti


Certamente hoje o milagre da ubiquidade, isto é, a capacidade de estar em diversos lugares ao mesmo tempo, como Santa Clara (padroeira da Televisão) e Santo Antônio, atualmente estão sendo superados e de muito. No entanto, nunca também o ser humano está tão só. Apesar de poder falar com quem quiser em qualquer parte, ouvir os mais longínquos e ver o mundo em tempo real, ele está só diante de uma máquina fria. O mundo atual é de solidão. Por isso, é bem vinda a publicação do filósofo e psicanalista francês Jean-Bertrand Pontalis do livro Le Songe de Monomotapa (O Sonho de Monomotapa) que aborda o tema da amizade.
Sabemos que há um abismo entre o mundo virtual e o mundo real. Quando nos comunicamos com nossos "facefriends" estamos diante do nada, do virtual. Quando estamos "face to face" estamos diante do mundo real. Por isso, gostaríamos de enfatizar este último aspecto, o real.
Este fenômeno ocorre na esfera da consciência numa relação entre seres humanos. Os sentimentos afetivos pessoais, no ser humano, se estratificam e se entrelaçam em várias relações e hierarquias. Apesar de estas não poderem ser completamente separadas umas das outras, conseguem ser entendidas como distintas. Referimono-nos às relações afetivas de atração física, amor, paixão e amizade. Nem sempre acontecem isoladamente, mas há sempre a predominância de uma delas. A atração física do tipo sexual não se confunde com paixão, esta não é o mesmo que amor e este, por sua vez, não se identifica com a amizade. Cada um deles tem um vetor de apoio no conjunto da fisiologia e psicologia humana.
A atração sexual ocorre entre dois sexos opostos e mesmo entre os mesmos sexos. É o que se designa pelas palavras, heterossexual e homossexual. É uma atração que se esgota com a satisfação podendo retornar quando novamente provocada. A atração sexual está no nível e tem seu ponto de apoio  no instinto da animalidade, sem conotações pejorativas. Evidentemente existem outros tipos de atração física por isso não é única e exclusiva. 
Já o sentimento afetivo da paixão ocorre quando se desfaz de toda crítica e se centra compulsivamente no objetivo. Bem diz o ditado que a paixão é cega.  A paixão pode estender-se a várias realidades como religião, política, arte. Aqui enfocamos a paixão afetiva pessoal, pelo outro. Quem estiver sob o domínio da paixão, não se detém para pensar, só quer seu objeto, que no caso é o outro. A paixão apóia-se na vontade. O desejo pelo objeto obscurece a, embota, embaça, a razão. Subjuga-a e a anula como faz o lutador com seu adversário. É como o amante da aranha viúva-negra. Embora reaja e queira sobreviver, a derrota o prostra. Quem é dominado pela paixão, tenta reunir forças para raciocinar. Diz para si: vamos ponderar e pesar os prós e os contras. A cegueira ofusca o esforço de pensar. É enlaçado, enredado, enrodilhado. Como sucuri empacota o corpo da vítima. Tenta chamar por socorro, mas o eco responde que não quer o socorro. Não quer o que quer. Sente o veneno doce da paixão fluindo pelas veias do corpo. É pleno gozo do não gozado. É o gozo do não gozo, mas que o sente, pressente, aumenta, avoluma-se, agiganta-se. Está aí a paixão poderosa, bela, escondida, encontrada e novamente perdida. O apaixonado ajoelha-se impotente, suplica, agradece, quer ficar longe, mas não quer perdê-la. Ela deleita, é néctar porque se saboreia apenas aquilo que se imagina. É bela e sórdida, é sórdida porque é bela.
O amor reside na alma, no espiritual do ser humano. O amor age como as almas que se contemplam, extasiam-se, querem comunicar-se. Mas elas são intocáveis e incomunicáveis.  Etéreas. Buscam-se abrasadoramente, queimam-se em chamas, mas permanecem em si. Elas se querem, mas não querem a posse. Buscam uma ponte que as possa fundir-se, torná-las uma. E por isso sofrem por que o amor está muito próximo da paixão. E quando ele finda geralmente a lacuna é preenchida pelo ódio.
Haverá espetáculo mais belo que o encontro de duas almas? Haverá delírio maior que a fusão de duas almas? Haverá felicidade que se comparece ao olhar de duas almas que se amam. Os olhos jamais viram, nem os ouvidos jamais ouviram, nem ninguém jamais sentiu o que deste encontro irrompeu.  Elas sentiram o céu abrir-se, a felicidade jorrar aos borbotões. O próprio Deus a inclinar-se e enlevá-las. Elas ressuscitaram, se transfiguraram, se tornam imortais.
A amizade tem sua morada no ser humano. No seu corpo, nos sentimentos, na razão, na alma. Ela tem o poder de despertar a alegria por que nos afasta da raiva. Até nos momentos mais tristes podemos sentir alegria se estivermos com amigos. A amizade esquece a pobreza, fortalece no sofrimento, perdoa a ingratidão.  Mesmo quando nos despedimos de um ente querido, se estivermos rodeados de amigos, podemos sentir a tristeza envolta na alegria. Amizade e alegria são dois sentimentos que se irmanam, se completam. São almas gêmeas que querem estar sempre juntas. Até a morte se detém diante da amizade.
Quando sentirmos a cadência da amizade, a alegria irrompe aos borbotões no coração. Dispara quando ouvimos a voz do amigo. A amizade pode nos elevar aos céus, imaginar uma humanidade irmanada, um mundo se dando as mãos e entoar a sinfonia de Ode à Alegria de Beethoven ou um Va Pensiero de Verdi. A amizade nos desprende desta terra, nos deixa levitando no espaço, voando com o pensamento como se não tivéssemos corpo. A amizade é o mais belo presente que alguém pode receber. Ela vale por toda sabedoria, todos os dons, todas as riquezas. Ela enche   coração todo. A amizade não necessita de mais nada, ela é completa em si, ela é A ALEGRIA. Ela é tão profunda como uma alma habitando dois corpos.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ACORDO ORTOGRÁFICO E 2013. José Maurício de Carvalho













Uma das grandes questões que preocupam os países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é a questão ortográfica.
Os países lusófonos assinaram, há algum tempo, um acordo ortográfico para vigorar em 2013. Lamentavelmente o governo brasileiro protelou a obrigatoriedade do uso da nova ortografia para 2016. Isto é, para atender não se sabe a que interesses, a Presidente da República adiou a realização de medida importante para todas as nações lusófonas, incluída a nossa, a maior delas e a de maior população.
Ao acordo foi dada a mesma solução da transposição das águas do rio São Francisco, obra prevista para ser inaugurada em 2012 e que também ficou para 2016. Protelar é estratégia ruim de governos que planejam mal e executam pior.  Por este motivo meu pedido para 2013 é um surto de planejamento realista e competência no serviço público. Será ótimo também se isto alcançar cidadãos e empresas. Espero portos e aeroportos sem apagões, estradas recuperadas, transporte urbano de massa funcionando com qualidade. Espero, em síntese, um 2013 com melhor planejamento e execução eficiente. Se não fizermos isto a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 ficarão ameaçadas, pois organismos internacionais não aprovarão o adiamento da Copa para 2020 e das Olimpíadas para 2025. Do trem bala não quero lembrar, pois é grande a frustração de não vê-lo circulando nem entre Rio e São Paulo. A obra ficou para um futuro distante e somente por milagre estarei ainda vivo quando o projeto estiver concluído, contando que até lá teremos novos adiamentos.
Protelar a entrada em vigor do acordo chamou pouco à atenção dos brasileiros acostumados a medidas protelatórias. Para mim não deixou de ser surpresa ruim porque para este caso não se pode alegar falta de recursos, nem há razão séria para o adiamento, a não ser incompetência no planejamento e descaso na execução. Nossas crianças e jovens se encontram há mais de quatro anos sendo alfabetizadas e educadas na nova ortografia. Durante os últimos anos os meios de comunicação explicaram as mudanças. Incentivar e fazer mais campanhas para que a população se ajuste à nova ortografia é o que se espera de nossas autoridades. Até porque a mudança no português brasileiro (sintam o ridículo da expressão que é correlata de português de Portugal, português de Moçambique, português de Angola, etc.), não é grande, mais de noventa por cento de nossas palavras não sofrerão alteração. Os demais países lusófonos farão um esforço de adaptação maior que o nosso e deveríamos liderar a implantação da nova ortografia.
A medida é importante por muitas razões embora nem sempre se esteja atento a elas.  Por que o acordo ortográfico é importante? Estudantes dos países lusófonos intensificarão a mobilidade nos próximos anos, sem acordo terão que estudar numa ortografia diferente da usada em seu país; diversas empresas brasileiras estão hoje atuando em países africanos de língua portuguesa, há muitos brasileiros vivendo lá e contratos sendo ali assinados, o acordo facilita tudo isto; o mercado editorial de todos os países lusófonos ganhará com o acordo, os livros editados num país poderão ser utilizados em todos os outros, incluídos os livros didáticos e complementares empregados no sistema educacional. O principal motivo é que o acordo tornará a língua portuguesa uma das mais faladas do mundo, os documentos internacionais a contemplarão, facilitando o trabalho diplomático e os protocolos internacionais. Embora exista diferença de sotaque e estilo entre as outras línguas, a grafia delas é igual. Não há caso de grafias diferentes de uma mesma língua. É o que devemos perseguir também para o português.
Então que medidas sejam tomadas em 2013, pelo governo e sociedade, para favorecer a entrada em vigor do acordo ortográfico da língua portuguesa na nova data prevista. Se for possível aspirar mais para o ano novo que planejemos melhor nosso futuro e que o realizemos com dedicação e competência, na esfera pública e privada.

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