quinta-feira, 7 de setembro de 2023

A PÁTRIA.



A LEMBRANÇA DA PÁTRIA NOS TRAZ




Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

 

Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

 

Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

 

Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!

 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Falácias contemporâneas. José Mauricio de Carvalho

 



 

Vivemos uma crise de cultura examinada por diferentes intelectuais. De Berdiaeff a Gabriel Marcel, de Edmund Husserl a Martin Heidegger, de Martin Buber a Ortega y Gasset, de Karl Jaspers a Viktor Frankl, de Zygmunt Bauman a Vilém Flusser, todos tentaram explicar o que estamos enfrentando. Tantas explicações não nos livram de passar pelos dramas e confusões de nossos dias. Se tentamos compreender o que se passa nesse tempo de apuros mergulhamos em dúvidas.

A dificuldade para enfrentar a crise encheu as redes sociais de fake News. Nesse quadro nada confortável reapareceu a ultra direita com pautas contrárias ao que até pouco era considerado essencial à vida civilizada, a saber: a função social da propriedade, o estado de direito, os direitos humanos, a preservação ambiental, a democracia política, a racionalidade como importante exercício social de dar e ter razão, o reconhecimento do valor da ciência moderna como aquele conhecimento que legitimamente explica o funcionamento do mundo, ainda que insuficiente para dar conta da noção ampla da realidade e dos valores. Essa ultra direita posicionou-se contra o humanismo, atacou a imprensa livre, renegou os estudos das humanidades, combateu a independência do judiciário e fez uma interpretação torpe das ideias de Jesus de Nazaré. O cristianismo foi, nesse caso, afastado dos seus valores originários, associado a um moralismo inadequado por fanáticos ignorantes, a ponto de ser denominado de cristianismo do mal. Melhor seria dizer que estamos diante de um falso cristianismo, não de um mal. Todo esse clima cultural ajudou a ascender o racismo, a homofobia, a intolerância política, aumentou a violência social, a exploração humana e religiosa, o desrespeito àquelas pautas consideradas civilizadas e mais próprias dos seres humanos. Somos diferentes e únicos sim, genética e psicologicamente, mas isso não nos desobriga de construir uma sociedade fraterna e de irmãos, isto é, pautada por valores éticos. É uma falácia falar de um Deus de todos e propor a violência e a injustiça. Toda essa confusão e falácias que encontramos nas redes sociais se mistura a outros aspectos ruins da cultura de massa como: a transformação do homem em apêndice de uma máquina e a ampliação do desejo de gozar sem limites, de forma rápida e irresponsável. Uma análise dessas dificuldades de nosso tempo estão mais precisamente descritas no livro O enigma do inconsciente e a força da subjetividade (Porto Alegre: MKS, 2022). E os problemas ali mencionados são ainda mais graves e complexos que os acima mencionados (p. 8): “O desprestígio da razão é porta aberta ao totalitarismo. Todo esforço antifilosófico foi estímulo à barbárie. A antirrazão é o alimento dos governos antidemocráticos. E esses governos estimulam as massas. Não há melhor espaço vital para ideologias ruins que a ignorância, a negação da racionalidade, a descontinuidade da Filosofia e o desprestígio das Humanidades, o descrédito da Ciência e o radicalismo ideológico.”

A recuperação do humanismo e dos estudos de ética parece importante para enfrentar esses desvios de rota, alterações nos rumos da vida social que promovem, recusam ou diminuem a dignidade e o sagrado valor das pessoas. A essência do humanismo é que todos os homens possuem o mesmo valor e dignidade. E o reconhecimento da dignidade e de uma humanidade comum não elimina, como ensinam as falácias atuais, a singularidade de que somos feitos, mesmo quando entendemos pertencer à mesma humanidade. Isso é ainda mais importante se queremos construir uma sociedade de irmãos que reconhece em Deus o Pai criador de todos.

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

O ENAMORAR-SE – FRANCESCO ALBERONI. Selvino Antonio Malfatti.

 






 


O amor morreu? Felizmente não. Apenas, e não foi pouco, seu grande estudioso da atualidade: Francesco Alberoni, apelidado o Sociólogo do Amor. Faleceu em 14 de agosto de 2023, aos 93 anos, em Milão, Itália.

Por toda vida foi alguém dedicado à ciência. Começou coma medicina, da qual se licenciou na universidade de Pavia. Em seguida investe na psicanálise, e para dar um cunho exato às probabilidades dedica-se à estatística. Passou por Trento, Catania, Lausanne e finalmente Milão.

Após a formatura em medicina dedica-se aos estudos dos movimentos coletivos. Disso resultou a obra ‘Statu Nascenti’, a qual dá origem à obra "Movimento e Istitucione", tornando-se obra clássica.  Seguem as produções as obras: Enamoramento e amor, A Amizade, O erotismo, Sexo e Amor, Os Invejosos, Eu te Amo, Público e Privado .

Parece que melhor o caracterizaria seria o estudioso do apaixonar-se, movimento este capaz “de "infundir nos indivíduos uma energia extraordinária",” Esta pode findar, mas o amor permanece.

Por isso, a fatia do social isolado por Alberoni é o enamoramento. O amor é o Genérico, o enamoramento, específico. Alberoni estuda o fenômeno do movimento de enamorar-se. O amor é a continuidade do fenômenos de enamorar-se. Por que pode haver enamoramento sem amor. Este é particular que engloba o geral, o amor.  Portanto, amor e enamoramento são distintos e contínuos.

Neste artigo centramo-nos no enamoramento.

Pode-se interrogar em que condições surge o enamoramento? Quando se está realizado, satisfeito com o que se é e se tem? Ou quando se está à beira do abismo absorvido pelo nada? Quando o desespero toma conta da própria vida? Quando se está aprisionado e sufocado buscando o ar? Quando baixa a cabeça e clama como o Profeta? “De Profundis clamavit a Te Domine”. Quando se está no nada? Tudo é escuridão? No o fim?Sim, conforme Alberoni, pode acontecer estar nesta situação extrema para emergir enamoramento. Mas o mais comum é em dificuldades como:

“Apaixona-se o jovem que sai de casa e enfrenta o mundo, apaixona-se a pessoa que se mudou para outra cidade e tem um novo trabalho, que se depara com a novidade. Apaixona-se quem descobre que está vivendo uma vida árida e vazia demais, e sente queimar dentro de si o desejo de uma felicidade que nunca experimentou.”

O Menos provável é enamorar-se quando tudo estiver às mil maravilhas. Por que apostar no improvável quando se tem o que se desejaria? Ou, por que querer o incerto quando já se o tem o certo? Enamora-se por alguém que pode trazer-lhe felicidade ou mais felicidade.


Ofereço aos leitores os trechos abaixo que podem enriquecer o conhecimento do assunto.

“Porque nos sentíamos insatisfeitos, inquietos, sozinhos, mas também cheios de vida e preparados para um novo encontro, prontos a renascer livres e felizes. O enamoramento explode quando o indivíduo sente-se comprimido, acuado, aprisionado, impedido de expressar as suas potencialidades e então, ao encontrar outro alguém nas mesmas condições, abre-se, liberta-se, desabrocha. Para fazer com que as flores desabrochem é preciso privá-las da água. A planta, diante do perigo, abre as pétalas, espalha o seu pólen e gera nova vida. “Apaixona-se o jovem que sai de casa e enfrenta o mundo, apaixona-se a pessoa que se mudou para outra cidade e tem um novo trabalho, que se depara com a novidade. Apaixona-se quem descobre que está vivendo uma vida árida e vazia demais, e sente queimar dentro de si o desejo de uma felicidade que nunca experimentou.

 

Quando nos apaixonamos?

Quando estamos cansados do passado e prontos a nos mudar, a correr riscos de novo. Porque nos modificamos por dentro, pois o ambiente onde nos encontramos se alterou, porque não nos sentimos à vontade com a pessoa com a qual vivemos, pois não conseguimos realizar os nossos desejos mais profundos e expressar as nossas potencialidades, porque nos sentimos prisioneiros dos hábitos e da rotina, da hipocrisia, do tédio. Mas também já que fomos promovidos, porque alcançamos um sucesso e desejamos realizar sonhos dos quais até então sempre havíamos desistido. Nesta hora procuramos alguém que nos permita saborear uma nova maneira de ser. Podemos, portanto, nos apaixonar com qualquer idade, mas principalmente nos momentos em que a nossa vida dá uma virada. Quando passamos do ensino médio para o superior, quando chegamos à universidade, ou quando mudamos de trabalho ou de cidade, ou ao completarmos quarenta anos, quando começa a maturidade, ou até aos sessenta, aos setenta, quando começa a velhice, mas ainda estamos cheios de vida e de vontade de viver.

 

É verdade que nos apaixonamos nos momentos em que nos sentimos felizes?

Não, não é verdade. Quem está em paz consigo mesmo e com o ambiente que o cerca, quem está satisfeito com o que tem, quem encontra plena satisfação naquilo que faz não se arrisca a apostar tudo apaixonando-se por alguém com quem recomeçar partindo do zero. O enamoramento é uma revolução, e ninguém faz uma revolução se está satisfeito com o que tem. Rebela-se quem possuía alguma coisa que lhe foi tirada, quem almejava alguma coisa e ficou decepcionado, quem era prisioneiro e aspirava à liberdade, quem tinha um sonho e nunca pôde realizá-lo. O amor é um risco, e você não se arrisca a não ser que deseje mudar de vida, a não ser que queira deixar para trás o que já tem.

 

 

 


sexta-feira, 18 de agosto de 2023

A ciência e a civilização. José Mauricio de Carvalho

 



Um fenômeno bizarro durante a pandemia da COVID 19 foi comportamento de alguns profissionais de saúde, especialmente médicos. Enquanto a maioria se dedicava ao enfrentamento da pandemia, colocando a vida em risco diante de uma doença pouco conhecida, essa parcela agiu como quinta coluna. Quinta coluna foi durante a guerra civil espanhola, aquela parte da sociedade que apoiava o general Franco, mas atuava contra suas forças. Deste então, a expressão designa os que atuam, dentro de um país ou região, como colaboradores do inimigo. São, portanto, inimigos dentro das próprias hostes. Pois bem, assim atuou a parte dos profissionais que espalhou fakes news, além dos que bateram palmas enquanto políticos inescrupulosos ensinavam como enfrentar a pandemia, divulgando procedimentos não validados pela comunidade médica.

A ciência moderna possui metodologia própria que protege (JASPERS, Razão e Contra razão em nosso tempo, Lisboa: s.d., p. 38): “contra a tentação de erigir em absoluto um conhecimento particular.” Isso porque (ibidem): “o conhecimento científico vai até onde as categorias e os nossos métodos têm domínio sobre a realidade.”  

Um desses exemplos deploráveis, que não se limitou ao Brasil, foi o da médica norte-americana Sherri Tenpenny, conforme noticiou O Globo de 13 de agosto passado. Aquela senhora dizia que as vacinas contra a COVID-19 'magnetizam' as pessoas e as conectam numa 'interface' 5G. Ela espalhou teorias da conspiração, afirmando que as vacinas serviam para estabelecer uma rede de controle da população. Existiram mentiras menos elaboradas, mas com o mesmo potencial destruidor. Entre essas maluquices houve quem espalhasse, por exemplo, que as vacinas transmitiam AIDS, que pessoas adoeciam com as vacinas, etc. Devemos estar alertas pois (id., p. 39): “em matéria de ciência, só uma metodologia consciente me permite saber o que conheço e o que ignoro.”

É claro que agindo segundo critérios não validados, esses profissionais desprezaram, por outros interesses, o resultado de pesquisas sérias e o esforço de colegas mundo afora, o que é inédito na história recente da medicina. Mesmo havendo na sociedade pessoas que se posicionam contra as vacinas e outros procedimentos validados por pesquisas sérias, isso sempre veio de fanáticos ou ignorantes, nunca de profissionais formados. Por isso, uma das medidas mais importantes e sérias, para corrigir essa irresponsabilidade, foi tomada pelo Conselho Médico do Estado de Ohio, Estados Unidos. O Conselho caçou o registro profissional da médica Sherri Tenpenny que espalhou mentiras e teorias da conspiração sobre as vacinas da Covid-19. Além disso, ela atuava dificultando a investigação de seus comentários mentirosos nas redes sociais.

Durante a pandemia, a Sra.Tenpenny mencionou, numa palestra para 350 pessoas, que aqueles que tomavam as vacinas ficavam magnetizados e atraiam objetos de metal. Assim, se fossem colocados colheres e garfos nelas essas peças grudavam, sugerindo que as vacinas tinham algum tipo de imã. Tudo isso sem qualquer base científica ou prova experimental. Uma denúncia no Conselho Médico fez o órgão estudar a sua conduta profissional e, finalmente, caçar seu registro profissional.

Uma atitude ética semelhante dos Conselhos Médicos poderia ser tomada em nosso país contra profissionais que, durante a pandemia, conspiraram contra seus colegas e contribuíram para o alastramento da desinformação. Eles dificultaram o controle da pandemia aumentando os riscos de vida de seus colegas, contribuíram para provocar a morte evitável de milhares de pessoas e aumentaram o sofrimento desnecessário de outra parte. A atitude contrária a procedimentos válidos é grave nessa ciência porque o resultado afeta o homem, o maior valor a preservar (JASPERS, O médico na era da técnica, Lisboa: edições 70, p. 47): “a medicina científico natural vê os fatos: o homem não é apenas animal, mas um ser racional e que(...) pode adoecer.”

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

A VERGONHA DA NUDEZ. Selvino Antonio Malfatti

 

Eu me pergunto: por que supor a resposta na pergunta que quer buscar a resposta? Ao se fazer uma pergunta que já se tem a resposta não se busca a verdade, mas se impõe como verdade uma suposição. Trago como exemplo a origem do pecado no paraíso. O diálogo pressupõe a resposta no final do diálogo entre Adão, Eva e a Serpente. Antes Adão e Eva estavam nus e conviviam sem precisar de pudor. Tudo era espontâneo. Não precisavam de nada, nem de folhas nem de peles. Sempre passavam perto da árvore proibida sem curiosidade. Tudo continuaria como de costume até que a “serpente” lhes desperta a curiosidade.

- Por que não comem do fruto desta árvore?

Sabiam da consequência: conheceriam o mal. O bem eles já o conheciam, o mal, não. Se conheciam o bem por que buscariam o bem do mal. Comeram o fruto. Caíram em si. Estavam nus.

- Como é que nunca vimos que estávamos nus? Perguntavam-se.  

A nudez pressupôs o pecado. Sem ele poderiam andar nus, sem pecado. Ela é o doce do pecado. 

É que na doçura da prova da queda vai junto o abrolho do prazer. O veneno perpassa o corpo até atingir a alma. Por isso, após a felicidade do pecado sobrevém a prostração do arrependimento. Aquela sensação de morte que começa nos pés e atinge o coração faz a alma exclamar pelo “De Profundis”. A miséria invade cada membro da alma fazendo o coração gemer e confessar que se é todo pecado, já foi gerado no pecado. Que desejo de ter as mãos limpas e o coração puro! Que desejo de poder, mas nem que fosse por um instante, voltar atrás no tempo e saltar aquele momento anterior. “De Profundis, clamavi ad te, Domine!” O veneno da serpente ofusca os olhos, embaça a mente, invade de torpor todo o corpo. Ele inocula a razão através da felicidade do coração. No último banco da igreja se ajoelha, enfia a cabeça entre as mãos, enche os olhos de lágrimas e tenta buscar a Deus. Nada encontra senão um dedo apontando o caminho da porta. A impureza, a vaidade, o orgulho, a ganância são terra jogada sobre o caixão do cadáver. Pasto para os vermes festejarem, estrume para porcos chafurdarem, putrefação para os corvos cheirarem.

Pecado é um corpo conspurcado pelo esperma da luxúria, coração apunhalado pela dor, razão demente tateando perdida. Pecado é o vômito da gula, o arroto da soberba, o escarro da ira. É a mais profunda desolação e abandono. Abandono de si mesmo e de Deus. Tudo se transformou em nada e o nada é tudo o que se pode contar. Por isso, “De Profundis, clamavi ad te, Domine!”  

Por que escolher o mal se podia escolher o bem? Por que o mal se tornou um  bem? O mal acontece porque o bem é visto como menor em que o mal. O pecado atinge o pecador, mutila-o, corrompe esfrangalhando o corpo e a alma. Será o pecado que dilacera o homem ou sua natureza mutilada que o conduz ao pecado? Pode o homem não pecar. Se pode, por que peca? A questão não é porque é livre, mas por que opta pelo pecado, para a corrupção. O mal e o pecado devem ser melhores que aquilo que se diz bem e virtude. Por isso não se pode não pecar. Poderia, por acaso, subsistir este mundo sem o pecado? A ânsia pelo pecado é sua própria recompensa enquanto sua concretização é o próprio castigo. A dialética não esmorece no castigo, mas na recompensa e por isso se volta a procurar o pecado. Recompensa e castigo complementam-se e tornam o homem. Ele é feliz com o que não tem, mas quer ter. E infeliz com o que consegue, mas não queria tê-lo. O desejo de felicidade leva à corrupção de sua natureza, e a vontade de fugir do mal é o degrau para a perfeição. 


sábado, 5 de agosto de 2023

RECEPÇÃO DO PAPA EM LISBOA. Selvino Antonio Malatti

 



 O discurso do papa na abertura Jornada Mundial da Juventude 2023 revela duas características: a familiaridade do papa com a cultura portuguesa e um discurso fundamentado nesta cultura.

Logo de início do discurso é citado Luís Vaz de Camões “«Aqui… onde a terra se acaba e o mar começa». Diz o Papa, que em parte é verdade, pois Portugal é o início e fim dos continentes. Por isso faz sentido a canção: “Portugal tem cheiro de flores e de mar”.

Portugal  apresenta-se ao mundo como a enseada da paz mundial. Se a palavra “Europa” significa a “boa rota” Portugal certamente é a proa da nave. As águas do oceano lembram a origem da vida: de crianças que nunca nasceram e de idosos que sem esperança aspiram por uma morte digna.

Há muita esperança quando vemos uma cidade como Lisboa que acolhe os jovens cheios de fé no futuro que escolhem a paz e a fraternidade em vez de gritar palavras de ódio. Diz o Papa vejo as palavras de Fernando Pessoa a brilhar no alto desta cidade dizendo: “Navegar é preciso”. O objetivo é chegar ao porto onde estão sendo construídos  estaleiros que constroem a esperança: “o ambiente, o futuro, a fraternidade”.

Primeiramente o ambiente: Os oceanos já estão dando sinais. A sujeira atirada neles já vem à tona. Como poderemos dar esperança aos jovens se não preservamos a vida?

O segundo estaleiro de obras é o futuro. Como poderemos prometer um futuro melhor aos jovens se não lhe proporcionados emprego, progresso, paz e bem estar?

E o terceiro, a esperança. Como prometer um futuro melhor? Como acenar com mundo econômico sem exploração, preocupado no bem estar de todos, educação universal, convivência pacífica de gerações – jovens e idosos? Isto não vai ao encontro da saudade?

O que dá sentido ao encontro é a busca. Quando mais andamos maior será a alegria de achar. Dizia Saramago: “é preciso andar muito, para se alcançar o que está perto.”

Quero deixar incentivo aos jovens que congregados na «Missão País», que querem viver a fraternidade através do bem estar ao próximo.

 

DETALHES DO PROGRAMA DA VISITA DO PAPA A PORTUGAL.

Dia 2 de agosto

11h15 – O Papa será recebido no Palácio de Belém para uma visita de cortesia ao Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, que, numa nota no site da Presidência, fez saber que “estará presente nos mais significativos eventos da presença do Papa Francisco em Portugal e da Jornada Mundial da Juventude”.

12h15 – Será feito o primeiro discurso em Portugal depois de um encontro com as autoridades, sociedade civil e corpo diplomático.

16h45 – O Papa tem encontro marcado com o primeiro-ministro António Costa.

17h30 – Vésperas com os bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas e agentes pastorais, no Mosteiro dos Jerónimos.

Dia 3 de agosto

9h00 – Está marcado um encontro com jovens universitários na Universidade Católica.

10h40 – O Papa vai encontrar-se com jovens de Scholas Occurrentes, em Cascais.

17h45 – O sumo Pontífice presidirá à cerimónia de acolhimento dos participantes da JMJ no Parque Eduardo VII.

Dia 4 de agosto

9h00 – Está prevista a confissão de alguns jovens da JMJ, na Praça do Império.

9h45 – Logo a seguir, o Papa vai ao Centro Paroquial da Serafina para um encontro com os representantes de alguns centros de assistência socio-caritativa.

12h00 – Haverá um almoço com jovens.

18h00 – Está marcada a via-sacra com jovens, de novo no Parque Eduardo VII.

Dia 5 de agosto

8h00 – O Papa parte para Fátima, numa viagem que será feita de helicóptero. A chegada a Fátima está prevista para as 8h50.

9h30 – Haverá recitação do terço com os jovens doentes na Capelinha das Aparições.

 

11h00 – O Papa ruma de novo a Lisboa.

18h00 – Há um encontro agendado com membros da Companhia de Jesus, no Colégio de São João de Brito.

20h45 – Vigília com jovens, no Parque Tejo

Dia 6 de agosto

9h00 – O Papa vai celebrar a Santa Missa para o dia Mundial da Juventude, no Parque Tejo.

16h30 – O sumo Pontífice tem encontro marcado com voluntários da JMJ no Passeio Maritimo de Algés.

17h50 – Acontecerá uma cerimónia de despedida na Base Aérea de Figo Maduro.

18h15 – O Papa Francisco regressa a Roma, onde deverá chegar às 22h15.



sexta-feira, 28 de julho de 2023

MARC AUGÈ - OS ESPAÇOS DOS NÃO LUGARES. Selvino Antonio Malfatti.

 



Não podemos residir num espaço porque precisamos de um lugar para residir. Se estivermos no espaço então precisamos de um  lugar para ser individualizados e não permanecer num não lugar.

O antropólogo Marc Augè nasceu em Poitiers em 1935 e viveu 87 anos. As principais obras são: O Gênio do Paganismo, uma resposta a Chateaubriand autor do Gênio do Cristianismo e As Três Palavras que mudaram o mundo: Deus não existe. Como antropólogo realizou pesquisas na América e África e como antropólogo dirigiu École des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris.

O homem é um animal que se relaciona pelos símbolos. Estas relações se dão no espaço e tempo em lugares que concretizam o contato. Sem contato o espaço e tempo são vazios, isto é, não lugares. Os não lugares são espaços criados artificialmente para suprirem a necessidade de troca entre unidades sem identidade pessoal. Há, por exemplo, mil pessoas no shopping, trezentas pessoas no saguão, quinhentas no metrô. Nenhuma tem identidade pessoal. É o resultado da sobremodernidade, globalização, a superação da pós-modernidade.

A sobremodernidade tem três características. Primeiramente é uma superabundância de eventos. E tal é a explosão que os historiadores não conseguem mais assimilar e a interpretação lhes escorregam do pensamento. E em segundo lugar, a sobremoderrnidade é superabundância espacial que possibilita deslocar-se para todo lado, como marcar a onipresença de imagens de todo mundo. Isto é possível pela televisão. E uma terceira  característica é a individualização das referências, ou o desejo de cada um de ser o genuíno intérprete sem necessitar de auxílio de terceiros.

Nesse sentido demonstram a necessidade de serem reconhecidos dentro de um mundo de solidão. Pela comunicação o indivíduo consegue individualizar-se e neste momento consegue criar um não lugar dentro do espaço e assim sai da solidão. É o que acontece com os jovens que nas redes, típicos não lugares, é reconhecido como outro. E aqui surge o paradoxo: o não lugar é o espaço e tempo de cada um.

Para Augé, o bistrô é um tipo por excelência de lugar. Nele as pessoas praticam relacionamentos autênticos e vivem com alegria. Isto por que nossa sobremodernidade criam uma divisão de classes diferentes do que eram nas sociedades tradicionais

Agora temos uma classe de poderosos, que se furtam às leis nacionais; consumidores, herdeiros da extinta classe média; os excluídos, que nem esperança lhes está ao alcance. Para tanto buscam compensação na evasão, um furtar-se a si mesmos.

 

TRECHO ORIGINAL DE MARC AUGÈ:

Diferença entre simbólico e o imaginário

Há diferença sim, mas não posso fazer uma exegese de Lacan e Levi Strauss – o que seria muito difícil, mas emprego a palavra simbólico, no sentido empregado por LéviStrauss. É bem isto, um sistema de relação: o primeiro é a linguagem que implica indivíduos em si mesmos. Acho que classicamente, já se observava que a etnologia estuda as relações, portanto: o simbólico – seu sentido. Algumas vezes, refiro-me ao “sentido” – sentido social do fato nas quais estas relações são pensadas pelos seus termos. O imaginário é o produto da imaginação. Pode ser coisa como os contos, imagens. A relação imaginária às coisas é uma relação individual. Tenho uma relação imaginária com o que imagino ou tenho uma relação imaginária com a imagem. Se vejo os indivíduos na televisão que me contam coisas – tenho com eles uma relação imaginária – no sentido que é uma relação que não se aplica ao outro. Pode haver outros que estabeleçam esta relação, mas esta não se estabelece como particular. É diferente, se vemos uma peça de teatro, que pertence ao nosso patrimônio comum, uma tragédia grega, por exemplo, ou quando compartilhamos uma peça de música, há uma convergência de imaginação em direção a algo comum que nos diz qualquer coisa. Há um elo entre os que compartilham este momento. Em contrapartida, quando este elo é rompido não há mais que uma relação individual às coisas. O que me parece importante é a relação entre o imaginário individual e o imaginário coletivo e entre o imaginário coletivo e o simbólico. O “imaginário” simbólico é a relação explícita entre uns e outros e o imaginário coletivo é o produto de uma imaginação partilhada, o mito, por exemplo. E depois o imaginário individual – o que é de cada um que pode ser fechado naindividualidade.

Sobre Don Juan

Don Juan é um personagem, um herói pelo qual sempre tive simpatia. Principalmente pelo Don Juan de Molière, porque ele busca as coisas, ele refuta os valores estabelecidos. Ele tem um gesto, que não se explica nos termos do cinismo. É amor à humanidade. Ele parece prefigurar o século XVIII. Tudo aquilo que eu amaria crer: a liberdade do indivíduo, a solidariedade, e, para evocar a divisa revolucionaria, a fraternidade. Fundamentalmente, uma certa igualdade face à morte. É um personagem que me fascina por sua relação ao tempo. Porque, bem entendido, ele é infiel, mas ele é fiel a si próprio, no sentido de que aquilo que o atrai é o novo. De uma certa maneira, podemos imaginar que ele experimenta, sempre, a mesma coisa – é o que ele chama o “charme das inclinações nascentes” – quando se apaixona. É uma espécie de vacilo, de frêmito, de sair de si próprio. Se pensarmos em termos deste começo, é um homem que nunca renuncia. Cada vez que ele repete, ele recomeça. É a ilusão de recomeçar. Neste sentido, ele é verdadeiramente um mito. É um mito moderno? Sim, acredito ser um mito do indivíduo, no século XVIII. O que ele teria a ver com a supermodernidade ou a época atual: nós poderíamos relacioná-lo ao consumidor compulsivo, mas penso – isto me desagradaria, pois tenho simpatia por ele – esta é uma interpretação possível. Creio que, se Don Juan de Molière vivesse hoje, ele não tomaria as coisas seriamente. Ele seria o sacrilégio. Ele é sempre o sacrilégio, D. Juan. Portanto, diante do culto do consumo, diante das evidências que nos acenam ao longo do tempo, através da mídia, creio que ele não seria este homem do consumo. Eu imaginaria o D. Juan de hoje, mas ele teria – eu não sei o que ele faria – ele encontraria um meio de democratizar o que estamos habituados. Ele procuraria o verdadeiro rito, o rito que pode inaugurar, verdadeiramente, abrir as coisas. Porque D. Juan não é o homem da repetição simplesmente. Ele não recua jamais. Ele seria um suicida, desesperado – nós o podemos direcionar para muitas coisas, já que é um personagem de teatro. Ele não teria medo de enfrentar o que não crê.

(http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R1560-2.pdf)

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