sexta-feira, 8 de julho de 2022

PARA MUDAR O MUNDO A ESQUERDA DEVE MUDAR O MUNDO OU DE MUNDO. Selvino Antonio Malfatti.

 




A Esquerda nasceu na França e por um acaso. Os deputados mais barulhentos, mais exaltados e radicais localizavam-se à esquerda do Presidente da Assembleia dos deputados, na Revolução Francesa. Esquerda designava, então, apenas uma localização: à mão esquerda. Pouco a pouco à localização física juntou-se o estilo do grupo e mais tarde o conteúdo ideológico: uma oposição ao status quo sócio-político, designado como de direita ou conservador. Atualmente o significado de “conservador” muda conforme o local. Na Rússia e Estados Unidos conservadores são socialistas radicais que não admitem mudanças.

A esquerda que teve como origem a França, de um modo geral ainda hoje  continua dar a pauta para esquerda de diversos países contrapondo-se às sociedades liberais. No entanto, seu raio de ação vai diminuindo eleição após eleição. Isso devido, como frisa o autor do artigo, “Pour changer le monde, la gauche doit changer de monde”,  Nicolas Truong, em Le Monde. Á desordem não só dos campos políticos, mas a natural evolução da sociedade rumo à emancipação. Isso configura um cenário de eleitores desesperados e em consequência uma esquerda desesperada. A perspectiva é de um cenário desastroso diante de uma eleição presidencial. O resultado das eleições mostrou que o eleitorado francês não quer nem a direita, nem a esquerda. Seria o centro? Sim e não. Quer um governo de centro, mas não tão forte que possa governar sozinho, pois perdeu a maioria. Quanto à esquerda, ficou em terceiro lugar. A socialdemocracia francesa não consegue imantar votos para impor-se como a primeira força política. Por enquanto serve-lhe um segundo lugar. As demais ramificações também patinam na esteira. O comunismo se concentrou na proposta do projeto nuclear e abandonou, ao que parece o ideal de igualdade. O ecologismo que parece ter uma base social de recepção não empolga suas lideranças. O trotskismo apresenta-se com uma reduzida cultura minoritária e patrimonial, despontando aqui e ali em resultados eleitorais. Há ainda os movimentos insurrecionais que se atrapalham e acabam no anticapitalismo ou nas teorias da conspiração.

Em questões pontuais temos uma esquerda fraturada: a questão da união ou unidade, imigração, islamismo e laicismo, em vez de igualdade a diversidade, uma classe política desintelectualizada e longe de seus membros, sindicatos longe dos novos temas atuais como produção, consumo e trabalho. O próprio âmago da ideologia de luta de classes cedeu lugar à luta de embates. Por tudo isso a esquerda já não é mais “um espectro que assusta” a Europa, ou “um cadáver de cabeça para baixo”, de Sartre. De tanto mudar sobrou um fantasma.

Vejamos o desempenho eleitoral atual que fala mais alto que a teoria.

Em 10 de abril, houve eleições para presidente em 1º turno  em França. Principais Candidatos: 

MACRON - LRM : 20.21% (9 560 545 votos) -Centrista

MARINE LE PEN - RN : 17.14% (8 109 857 votos) - Direita

JEAN-LUC MELENCHON - LFI : 16.07% (7 605 225 votos) – Esquerda

Com este resultado Macron e Marine vão ao segundo turno, no dia 24 de abril.  A esquerda não teve candidato próprio devido ficar em 3º lugar.

Vamos ao 2º turno:

1.         Emmanuel MACRON - La République en marche - 58,54 % - 18 79 641

2.         Marine LE PEN - Rassemblement national - 41,46 % -13 297 760

Nas eleições para a Assembleia houve um leve crescimento da esquerda em detrimento tanto do centro como da direita. Macron perde a maioria no Parlamento. Em segundo lugar, a coligação de esquerda Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES) -- que junta forças como a França Insubmissa, os socialistas, ecologistas e comunistas -- tem 124 deputados e 6.418.964 votos (31,46%). Le Pen também cresce, pois consegue eleger 89 deputados contra os 8 deputados da eleição anterior.

Em que pese o crescimento da esquerda ainda não pode sonhar com um governo na França.


sexta-feira, 1 de julho de 2022

LEONARDO E MICHELANGELO - Selvino Antonio Malfatti

 








Toda vez que uma nova obra de arte surge ou uma nova descoberta científica é aprovada ou um novo entendimento ilumina a filosofia é motivo de regozijo para a humanidade. Quando o encoberto se desvela, o adormecido desperta para a vida, o sorriso contido desabrocha, é motivo de festa como a volta do irmão perdido. Toda vez que a poesia é declamada, o canto entoado, o discurso publicado de um Te Deum de gratidão que estremece os ares.

Da mesma forma quando uma nova forma de interpretar é descoberta é motivo de júbilo, pois sobe aos céus um hino de ação de graças.

Da mesma forma por ocasião da publicação do livro de Roberto Mercadini, «L’ingegno e le tenebre», (Ingenuidade e escuridão), no qual são analisadas as vidas e obras de Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti, compartilhamos a iniciativa.

Leonardo, natural de Vinci, da atual Itália, figura expressiva do renascimento, foi cientista, matemático, engenheiro, inventor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico. Principais obras: Anunciação, Adoração dos Magos, A Última Ceia, Mona Lisa ou La Gioconda, A Virgem e o Menino com Santa Ana.

Michelangelo, natural de Caprese, Provença da Itália, semelhante a Leonardo, exerceu muitas atividades tais como pintor, escultor, arquiteto. Do mesmo modo destacou-se no renascimento, com obras primas como Davi, Pietá, Juízo Final, Capela Sistina entre outras.

- Leonardo era riflessivo, pacato, eclettico e interessato nos fenômenos da mundo da cultura. Michelangelo, ao invés, era turbolento, idealista e muito impulsivo.

Leonardo e Michelangelo (Leonardo da Vinci 1452-1519) e (Michelangelo Buonarroti  1475-1564) foram conterrâneos e contemporâneos. Ambos são de Florença e ambos dos séculos XV e XVI. Conheceram-se e não gostaram um do outro. Michelangelo foi predominantemente escultor enquanto Leonardo foi pintor. Ambos renascentistas, pois se valiam de temas e modelos greco-romanos para expor conteúdos cristãos, as duas obras-primas de ambos: Davi de Michelangelo e Mona Lisa, de Leonardo.

Leonardo parece ter o dom da ubiquidade, pois assim como as nuvens, está sempre em outro lugar. É indescritível como seu autorretrato. Leonardo é vaidoso, sabe se vestir, e mesmo a cor rosa não é desprezada. É homem da corte, que encanta, sabe atrair atenção até de papas, patronos e nobres. É um “bon vivant”, não se importa com as contas. Seu modo de ser diz sim a todos, embora esteja subentendido um não. É um extremista da experimentação, sempre curioso no aprender criativo de cada segmento. Nada lhe escapa, desde o sistema solar como o voo dos pássaros ou tintas transparentes. Mantem-se sempre como aprendiz e nuca mestre. Sua determinação o leva em ser ele mesmo até rejeitar a técnica do afresco ao pintar a Última Ceia pondo em perigo o desaparecimento de sua obra prima. Nem se importa com a indeterminação de sua sexualidade: homossexual? Bissexual? A Mona Lisa era continuamente retocada e nunca a dava por pronta e entregá-la ao cliente.

Michelangelo, incansável, trabalha noite e dia. Não recusa tarefas e quase sempre as conclui. Ao mesmo tempo em que esculpe Davi, encomendado pela Catedral de Florença, mas também, em segredo uma Madona e o Menino, a pedido de um mercador flamengo. Michelangelo é rico, mas vive como pobre. Não se importa com a aparência. Numa provocação seu nariz é esmagado por Pietro Torrigiano. De gênio irritado, nunca muda de roupa. Está sempre de mau humor se perguntando sobre Deus e o significado das coisas. Os nus masculinos são para ele verdadeiras obsessões. De porte musculoso e esculpido assim se apresenta como pintor.  A criação de Adão, na Capela Sistina, não mais é representada pelo sopro nas narinas, mas de um Deus que voa.

Mona Lisa, tem um olhar inigmático, misterioso. ninguém sabe quem é e o que quer.

Davi tem postura imponente, não deixa dúvida de quem é e o que quer.


sexta-feira, 24 de junho de 2022

POBREZA ABAIXO DO MARCO ZERO. Selvino Antonio Malfatti.

 




Pobreza. Como podemos descrevê-la ou identificá-la? Qual o marco referencial para uma discussão teórica? Esta, conjugada à fome, certamente seria uma discussão inóqua.Como dizia o sociólogo brasileiro Herbert de Souza: "quem tem fome tem pressa, não pode esperar." Por isso, fiquemos no plano teórico. 

Tomemos aleatoriamente como paradigma São Francisco de Assis. Um pedaço de pão e um copo de água ele dispunha na caverna de seu “convento”. Os irmãos tinham um abrigo e umas roupas para se vestirem. E só. E nada mais. Em tudo mais, os irmãos eram dependentes da caridade. Fixemos esta situação como marco zero da pobreza.

Numa das ausências de Francisco os irmãos quiseram sair deste limite da pobreza. Eles ergueram um abrigo, uma casa. Ao chegar Francisco indagou o que era aquilo. Os irmãos responderam que era uma casa para se abrigarem. Francisco lhes retruca:

- Vocês não entenderam nada da nossa pobreza. Nós não temos nada. Somos absolutamente pobres. Vivem como os pássaros do céu daquilo que o Senhor nos dá cada dia,

 Tentemos fixar a pobreza no marco zero em relação à fome. A partir daí pode-se escaloná-la para cima como menos pobreza, isto é, menos fome, ou para baixo, isto é, mais pobreza e mais fome. Com efeito, pode-se estar no limite da pobreza. Daí para cima menos fome e para baixo, mais fome.

Lancemos um olhar na história e para ver alguns exemplos de pobreza abaixo do marco zero. Com efeito, abaixo deste marco de pobreza a história registra alguns exemplos dos horrores da fome. O pároco de Andreis, na província de Udine em 1815 relata que a população comia espigas de milho moídas, temperadas com capim sem sal e em alguns casos com esterco. Por sua vez o estudioso Franco dela Peruta, dizia que os  habitantes das montanhas comiam as ervas dos campos como se fossem cabras. Na Antiga Roma costumavam abandonar os recém-nascidos ao lado de uma coluna e qualquer um podia pegá-los e tê-lo como escravo. E de lá para cá de dor em dor de revolta em revolta, de hipocrisia em hipocrisia a humanidade avançou na fome, até a idade média.

Nesta período melhora um pouco a fome pois o cristianismo introduziu a ideia de que o pobre  representava a figura de Cristo, através das Bem-aventuranças. Mas logo aparece o reverso da medalha da interpretação, conforme Elígio de Noyon: " Deus poderia ter criado todos os ricos, mas queria que os pobres existissem também no mundo, para oferecer aos ricos uma oportunidade de redenção de seus pecados”. Esta ideia perpassa a Idade Média e chega ao século XIX, em 1817: "No plano da Divina Providência, a pobreza é necessária para a Ordem do Universo".

Com Martinho Lutero a tese da pobreza e da fome merece outra interpretação: Os pobres teriam pacto com o diabo, impedindo esmolas. A ideia evolui no sentido de que os pobres se aproveitam da caridade dos outros. Isto chega aos monges franciscanos e eremitas com a tese de que: “fizeram da pobreza uma opção de vida".

A caça aos pobres segue sua escalada. As epidemias e as fomes fizeram com que enormes massas populacionais mudassem do campo para as cidades. O medo tomou conta das cidades e espalha-se a ideia da necessidade de separar os "os verdadeiros pobres" dos "falsos pobres". Sempre mais o cerco se apertava para o pobre e nesta escalada as mulheres levavam a pior. Bastava ser acusada de sem-teto ou desempregada que podia ser presa pela polícia no século XVIII. Ninguém mais que as mulheres sofreram tantas humilhações como as mulheres pobres neste período. Outra categoria social foram as crianças. Chegou-se a marcar com ferro em brasa no pé das crianças o “P”, de pobre. A mortalidade infantil chegou a ser de 92% na cidade de Pádua. 

Salta à vista de que a pobreza e a sina das mulheres e crianças andaram na história lado a lado.  Uma sina de choro, lágrimas e tormentos. E até mesmo quem se propunha ser um lenitivo para a dor endêmica era apenas um disfarce como da Pia Escola de Caridade que só aceitava:

"virgens, de pai e mãe honrados, honestos de costumes e fama".

Daí a conclusão a que chegava o historiador britânico Brian Pullan:

“Culpa dos pobres, concluiria amargamente, muito tempo mudos: cavar, cavar, cavar...”

 

 

sábado, 18 de junho de 2022

TRABALHAR NA INGLATERRA – SONHO SEMPRE MAIS DISTANTE. Selvino Antonio Malfatti

 

 


 

Se você almeja em trabalhar na Inglaterra, país de Primeiro Mundo, salário altíssimo, moeda em libras, o sonho se tornou menos realizável devido às novas exigências. Agora tem que conseguir o ”Visto Especial” para ingresso naquele país a partir de 30 de maio de 2022. Visa manter a liderança mundial da Grã-Bretanha como centro internacional de tecnologias.

O referido Visto é para estudantes formados nas melhores universidades do mundo e que querem trabalhar neste país. É chamado de “High Potential Individual“. As universidades escolhidas são em número de 37 de um conjunto de grandes centros de saber.  O primeiro é Times Higher Education, que incluem mais de 1600 universidades em 99 países. Os indicadores são ensino, pesquisa,e  transferência de conhecimentos e perspectivas internacionais. O segundo é QS World University Rankings, publicada cada ano pela Quacquarelli Symonds. Com mais de 1300 ateneus no mundo. E o terceiro, Academic Ranking of World Universities, elaborada pela universidade Jiao Tong di Shangha e publicada pela organização independente Shanghai Ranking Consultancy. (www.gov.uk/government/publications/high-potential-individual-visa-global-universities-list/high-potential-individual-visa-global-universities-list-

Em síntese:

1.    Times Higher Education World University Rankings

2.    Quacquarelli Symonds World University Rankings

3.    O Ranking Acadêmico das Universidades Mundiais.

Por esta classificação os clientes preferenciais são os americanos enquanto entre os europeus figuram apenas nos dois Politécnicos Suíços, nomeadamente o de Lausanne e o de Zurique, a Universidade de Munique na Alemanha, o de Ciências e Letras de Paris - que é a antiga École Normale Supérieure - e o Karolinska de Estocolmo. Os demais países europeus como Itália, Espanha, Portugal, Áustria e outros nem são mencionados. Nesta lista não aparecem  universidades dos países Sul-Americanos, África, da Ásia alguns, Japão .

Para os excluídos se quiserem trabalhar na Inglaterra há custos. Para receber o Visto Especial de “High Potential Individual”, deve-se pagar mais 715 libras esterlinas ou 900 euros (R$4.411,55), 750 euros seguro saúde e comprovar a posse de R$ 7.836,00 ou 1500 euros.

Como se percebe há duas formas de ingresso na Grã-Bretanha para trabalhar. Uma é pela origem de formação que são as universidades selecionadas e outra é pelo status pecuniário individual. E pelo que se percebe são exatamente os mais ricos que são dispensados de renda e avaliados pela formação, enquanto os mais pobres devem desembolsar significativa quantia e sua capacidade demonstrar na prática.

Com certeza a Grã-Bretanha pode fazer isto, tanto pelo verbo poder como capacidade, como poder com permissão (CAN, MAY). Depois que se desvencilhou da Comunidade europeia alcançou plena autonomia e pode impor regras próprias.

 

 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

RELAÇÕES ENTRE PESSOAS X OU ALGORITMOS. Selvino Antonio Malfatti

 



Quem já não teve a experiência de ligar para um número de telefone e obter como reposta: “não entendi sua pergunta”, “favor repetir sua pergunta”, “refaça sua questão” ou outras. É aí que você se dá conta de que não está falando com alguém, mas com uma máquina que só aceita perguntas, respostas e questões programadas. E neste caso ou você desiste do que quer, ou aceita o que máquina quer. O pior que estas situações vão se acumulando até provocarem implosão de desejos sufocados e não realizados.

Se perguntarmos em que se baseia a convivência social a própria população responde: liberdade individual, generosidade, honestidade dos governos, sensação de bem estar coletivo e iniciativa privada.

Em sociologia há uma figura social que reflete a situação de um desejo esperado e que resultou no seu contrário. Quando, por exemplo, há uma expectativa de que uma camada social se abra e o desfecho é o contrário. É o caso paradigmático da globalização e digitalização em relação aos jovens. Em vez da esperada abertura ocorreu o enclausuramento.

 

A que se atribui? Os sociólogos italianos, Chiara Giaccardi e Mauro Magatti em “Supersocietà” (Mulino) chamam a atenção para as consequências da dicotomia entre o mundo real e o mundo do algoritmo.  Nos jovens a consequência: ansiedade e competitividade. Como reação contrária extrema ocorre a renúncia à vida e a vivência de um mundo paralelo. Se a sociedade não garante um espaço individual então, como ato de desespero, atiram-se nos braços da totalidade perdendo a liberdade, mas garantindo a sobrevivência na obscuridade do anonimato. É o mundo do abulismo e ausência de ideal

Por sua vez, a consequência da globalização se faz sentir na esfera política através do depauperamento das instituições locais que garantiam a absorção destas camadas, mas que agora as afastam deixando-as soltas no espaço social. Como consequência o populismo e com ele a morte da democracia que absorvia as camadas intermediárias. Não só nas grandes questões políticas como a eleição dos governantes nacionais, mas a garantia da participação e envolvimento com a comunidade local, com as câmaras de vereadores, clubes, igrejas, sindicatos, cargos públicos. Além das já consagradas instituições a cada dia vão surgindo novas organizações as “noéticas” como objetivo de absorver cidadãos “soltos” no espaço social, garantindo um nome ao cidadão e inseri-lo no tecido social com sua liberdade individual.

A digitalização pode tornar anônimo o cidadão que se trocou por um número, letra ou senha. Estas cada vez mais numerosas e abrangentes. Há senhas para contas e para cada uma delas individualmente. Estendem-se aos bancos, associações, convênios, aparelhos eletrônicos, computadores, celulares (para cada função uma senha).  Em qualquer atividade que se exerce há uma senha no mínimo. Os indivíduos no emaranhado da digitalização são apenas símbolos que agem e querem através de símbolos mudos e frios.

Neste ambiente como poderão ser possíveis relações humanas em vez de relações de algoritmos?

O ser humano se sente decepcionado, frustrado, traído quando descobre que está se relacionando com uma máquina e não um humano. A máquina se comunica através de números e códigos e os humanos através de ideias e valores. Será possível estabelecer comunicação entre ambos? Até o momento não. Neste caso teremos que nos render aos números abandonando as ideias e valores?

Teremos que viver como zumbis, camuflados de humanos, mas com identidade de fantasmas? Haverá uma superposição de dois mundos? O virtual verdadeiro e o verdadeiro apenas virtual?


sexta-feira, 3 de junho de 2022

O IMPASSE ENTRE UCRÂNIA E RÚSSIA. Selvino Antonio Malfatti.

 



A guerra entre estes dois países entrou numa fase de impasse. A Rússia, com Vladimir Putin quer festejar vitória e Ucrânia, com Volodymyr Olexandrovytch Zelensky quer mostrar que não foi derrotada. Ao que transparece a Rússia perdeu o elã e Ucrânia se limita a se defender. O desfecho pode ser uma nova Guerra Fria.

A guerra entre Rússia e Ucrânia é um caso típico de um confronto entre nações democráticas e autocráticas. Para interpretar tal fenômeno buscamos inspiração no especialista em relações internacionais, o americano Michael W. Doyle, professor da universidade Columbia, à New York, em seu trabalho de “Liberal Peace”. Conforme ele países democráticas desenvolvem relações amigáveis, enquanto países de outros regimes mantêm relações hostis entre si. Para sustentar tal tese Doyle vale-se de Kant, na sua obra: “Paz Perpétua”.

Com efeito, Kant evidenciou que numa paz completa, ambas as partes não devem esconder nada, isto é, elementos para com vistas a uma guerra futura. Nos regimes democráticos a transparência é necessária enquanto que os regimes autoritários pode haver subterfúgios. Na democracia todas as medidas públicas devem passar pela imprensa, poder legislativo e judiciário. Nos regimes autocráticos prevalece exclusivamente a vontade do governo. Por isso, o princípio da transparência deve transparecer em todo o acordo e no todo do acordo.

Com efeito, o liberalismo se destacou em criar um ambiente de paz e confiança entre os estados igualmente liberais. À medida que o princípio da transparência prevalece sobre demais alternativas, ao mesmo tempo confirma uma mútua confiança entre estados. E antes que emerja a beligerância são feitas as negociações e os acordos entre as partes.

Não é de todo afastada a possibilidade de uma nova Guerra Fria. A primeira se caracterizou por todo tipo de hostilidades. Mas a pergunta: como convencer Putin e Xi Jinping para sentar à mesa estabelecer uma paz vantajosa para todos: Ucrânia, Rússia, China? Parece que até o momento não se vislumbram perspectivas. Claro que isto está intimamente ligado ao regime: de um lado uma democracia, Ucrãnia e de outro uma autocracia, a Rússia.

A democracia é um regime aberto, no qual a sociedade tem instrumentos de controle do poder: o poder legislativo, judiciário, as instituições e a liberdade de imprensa.

O governo soviético apoiado a ideologia, com política consciente, fundamentada num programa definido e dogmático, propõe-se modificar a sociedade de acordo com seus objetivos. O Partido, por sua vez, é o encarregado da preservação da pureza ideológica. Para tanto perpassa toda sociedade e no caso russo a própria consciência individual. Evidentemente para chegar a tal grau um longo caminho de traição, massacres e terror foram percorridos. A diferença de natureza e não apenas de grau com outros totalitarismos está precisamente no domínio das consciências. Os indivíduos foram de tal sorte pulverizados que necessariamente se sentem atraídos para o todo, e querem cair-lhe nos braços, porque de si próprios já não resta mais nada. A vertigem do todo envolve a todos na crença de que somente nele pode haver salvação. A alternativa de estar contra o regime produz a sensação de estar contra o todo e a favor do nada, ja que de si não tem mais nada.

No confronto bélico a Ucrânia levba desvantagem estratégicva e decisória. Qualquer decisão deve passar pelos órgãos competentes como parlamentio, judiciário, opinião pública.. KIsto leva tempo e as decisões são públicas, Qnquan to na Rússia a Duma apenas referenda, da mesma forma que o judiciário. No fundo é o secretário do partido que tem todo poder, como é o caso de Putin. 

 

 


sexta-feira, 27 de maio de 2022

Memória. José Mauricio de Carvalho

 


                             Memoria- Nascimernto do Brasil


 

A Constituição Federal no seu artigo 30 diz que: “compete aos municípios promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e ação fiscalizadora federal e estadual.” Compete também porque a União e os estados da federação igualmente precisam proteger os bens reconhecidos como de valor histórico-cultural. Por isso, a Constituição do Estado de Minas Gerais no seu artigo 166 determina que fará e que também cabe aos municípios: “estimular e difundir o ensino e a cultura e a proteger o patrimônio cultural e histórico e o meio ambiente e combater a poluição.”

Todo esse cuidado dos constituintes com a memória tem explicação. Ela é um marco fundamental da cultura, essencial na identidade de uma pessoa e de uma sociedade. Sem memória uma pessoa não tem identidade e um povo não se reconhece. Por isso, os povos cuidam de preservar suas memórias e isso é fundamental, mesmo que alguns não enxerguem isso.

Numa cultura, a memória é armazenada de múltiplas formas. Filósofos, historiadores e outros estudiosos consideram a recepção dos conhecimentos dos antepassados, como escreveu o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser nas Ficções filosóficas (p. 130): o “lugar que liberta dos erros provocados pelas meras aparências.” A preservação da informação é fundamental para todos os povos, e desde que a escrita se desenvolveu tornou-se um meio nuclear de registro dos fatos. Mas esse registro é insuficiente. Os judeus cuidam com carinho da memória oral porque ela é lugar da imortalidade, quem permanece vivo nas histórias narradas torna-se imortal. Os psicólogos, por sua vez, referem-se à memória como base das intervenções libertadoras é necessário lembrar do que nos faz mal para nos livrar dos seus efeitos. Sem a memória, acrescentam, não sabemos quem somos. Na cibernética memória é o lugar de armazenar informações.

Os diferentes campos da cultura mostram que a rememoração dos fatos é fundamental para o homem, para mostrar quem ele é e para abrir os caminhos do futuro. Por isso, tornou-se essencial guardar e reproduzir informações. Sem o adequado armazenamento o registro se perde e isso é indesejável para todas as culturas. E, a experiência vai mostrando que o registro da memória se faz em códigos de escrita e em códigos cibernéticos, mas também por outras formas. Flusser na obra Bodenlos: uma autobiografia filosófica observou que quando se emigra até os alimentos que se tinha na terra natal ganham destaque na recordação e o vocábulo que melhor qualifica a lembrança daqueles cheiros e gostos é (p. 298): “a palavra portuguesa saudade.”

Os primeiros grupos humanos guardavam suas informações em objetos, mas era pouco. Então construíram os monumentos, mas eles também não armazenavam o suficiente. Foi o que levou os povos a preservarem suas cidades emblemáticas e nas demais cidades o núcleo primitivo que deu início e identidade à povoação.

E estamos assim, apesar das dificuldades que isso implica, obrigados pelo significado a preservar aquilo que nos identifica como nação em nossas cidades, regiões ou estado nacional. Enfim, a preservar os bens materiais e imateriais que nos fornecem identidade e nos dizem quem somos para projetarmos o que seremos. Deles, o mais visível são os monumentos e conjunto arquitetônico que identificam uma povoação.

 

 

Postagens mais vistas