sexta-feira, 9 de abril de 2021

COVID NO BRASIL MENTAL. Selvino Antonio Malfatti

 



Era fevereiro de 2019. 

Havia tirado uns dias para descansar. Estava em Meia Praia em Santa Catarina. Sai a notícia da epidemia que começou na China e se alastrava rapidamente pela Europa.

Já em março o Brasil é registra a primeira morte pela doença.

Em abril é adotado o isolamento social e várias medidas para abrandar os efeitos da doença: linhas de crédito para as empresas. É enviada ao Congresso Nacional a proposta de criação do auxilio emergencial para população mais carente.

Pesquisas em todo mundo iniciaram com o objetivo de criar a vacina contra Covid. As pesquisas tiveram êxito e no Brasil foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), as vacinas CoronaVac e a vacina da Oxford e várias estão a caminho.

Atualmente, diversos critérios estão sendo adotados para imunizar a população. Dois se destacam: um, de cima para baixo, vertical, vacinando as pessoas de mais idade como de 80 ou mais e baixando para idades inferiores e outro, horizontal, incorporando segmentos mais vulneráveis como área da saúde, policiais, asilos, professores e assim por diante.

Acredita-se que até o final do ano ao menos a população de alto risco esteja fora de perigo e intransmissível.

Abaixo publicamos uma lista de atingidos pela Covid e faleceram. São profissionais qualificados profissionalmente que investiram anos e anos de estudos.

Não Vai, por isso, nenhum preconceito contra outros profissionais. Os qualificados “tiram” da mente a atuação profissional. Um pedreiro simplesmente ajeita o tijolo, mas um médico precisa pensar e avaliar antes de agir. Os primeiros buscam a ação no próprio corpo e os segundos na mente. Os primeiros são o Brasil físico e os segundos o BRASIL MENTAL

Pois o Brasil perdeu com a Covid centenas dos MENTAIS. Ficou mais pobre em termos de qualidade. Todos sentimos por eles. São eles:


As vítimas, até o momento de médicos, artistas, intelectuais, pesquisadores o mundo mental do Brasill:

Abraham Palatnik

Artista plástico e inventor

92

09/05/2020

AgnaldoTimóteo

Cantor, compositor e escritor

84

03/04/2021

Aldir Blanc

Compositor

73

04/05/2020

Aldo Pagotto

Bispo católico; arcebispo da Paraíba

70

14/04/2020

Alex Periscinoto

Publicitário

95

17/01/2021

 

Algaci Tulio

Político; deputado estadual do Paraná (1982-1995) e vice-prefeito de Curitiba (1996-2001)

81

13/01/2021

Altamiro Moyses Zimerfogel

Ativista

81

28/04/2020

Andréia de Olicar

Cantora gospel

44

09/08/2020

Ângela von Nowakonski

Médica e pesquisadora

67

17/07/2020

Angelo Perugini

Político; prefeito de Hortolândia (2017-2021)

65

01/04/2021

Antônio Aiacyda

Político; prefeito de Mairiporã (2017-2020)

71

28/12/2020

Antônio Bivar

Autor e dramaturgo

81

05/07/2020

Antônio de Jesus Dias

Político; deputado federal por Goiás (1987-1993)

78

03/09/2020

Aristoteles Atheniense

Advogado, jurista e professor universitário

84

03/07/2020

Aritana Yawalapiti

Ativista pelos direitos indígenas

71

05/08/2020

Arolde de Oliveira

Político; senador pelo Rio de Janeiro (2019-2020)

83

21/10/2020

Artenir Werner

Político; deputado estadual de Santa Catarina (1979-1991)

80

09/12/2020

Asdrubal Bentes

Político; deputado federal pelo Pará (1987-2014)

80

27/04/2020

Bernaldina José Pedro

Ativista

75

24/06/2020

Bonifácio Andrada

Advogado, jornalista, político e professor; deputado federal por Minas Gerais (1979-2019)

90

05/01/2021

Caio Narcio

Cientista social e político; deputado federal por Minas Gerais (2015-2019)

33

16/08/2020

Carivaldina Oliveira da Costa

Líder quilombola

80

10/06/2020

Carlos Eduardo Cadoca

Político; deputado federal por Pernambuco (1999-2018)

80

13/12/2020

Carlos José

Cantor

85

09/05/2020

Carlos Lessa

Economista

83

05/06/2020

Célio Taveira Filho

Futebolista

79

29/05/2020

Ciro Pessoa

Músico e cantor

62

05/05/2020

Cláudio Petraglia

Músico

91

31/03/2021

Cléber Eduardo Arado

Futebolista

48

02/01/2021

Daisy Lúcidi

Atriz, política e radialista; deputada estadual do Rio de Janeiro (1983-1995)

90

07/05/2020

Daniel Azulay

Artista plástico

72

27/03/2020

David Corrêa

Cantor e compositor

82

10/05/2020

David Dias Pimentel

Bispo católico; bispo de São João da Boa Vista

79

16/03/2021

Dinaldo Wanderley

Político; prefeito de Patos (1997-2004)

69

24/05/2020

Djalma Bastos de Morais

Político; ministro das Comunicações (1993-1995)

73

25/12/2020

Domingos Mãhörõ

Cacique xavante, líder da aldeia Sangradouro e ativista

60

06/07/2020

Dulce Nunes

Atriz, cantora e compositora

90

04/06/2020

Édino Fonseca

Pastor e político; deputado estadual pelo Rio de Janeiro (2003-2014)

74

03/02/2021

Eduardo Galvão

Ator

58

07/12/2020

Elsimar Coutinho

Cientista e médico ginecologista

90

17/08/2020

Enio Mainardi

Publicitário

85

08/08/2020

Euclides Scalco

Político; diretor-geral da Itaipu Binacional (1995-2002) e ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência (2002)

88

16/03/2021

Eurídice Moreira

Político; deputado estadual da Paraíba (1995–1998)

81

01/07/2020

Eusébio Oscar Scheid

Arcebispo emérito do Rio de Janeiro

88

13/01/2021

Evaldo Gouveia

Músico e compositor

91

29/05/2020

Fabiana Anastácio

Cantora gospel

45

04/06/2020

Fábio Lúcio Rodrigues Avelar

Engenheiro e político; deputado estadual por Minas Gerais (1999-2011)

71

26/01/2021

Farid Abrão David

Político; prefeito de Nilópolis (2017-2020)

76

11/12/2020

Félix de Almeida Mendonça

Político; deputado federal pela Bahia (1983–1987)/(1991–2011)

92

26/06/2020

Fernando Sandoval

Jogador de pólo aquático

77

01/05/2020

Flávio Pinho

Futebolista

91

23/02/2021

Florindo Corral

Empresário

70

04/04/2020

Frederico Campos

Político; governador do Mato Grosso (1979-1983)

93

01/03/2021

Genival Lacerda

Cantor

89

07/01/2021

Geraldo Antônio Miotto

Militar

65

20/01/2021

Gerardo Juraci Campelo Leite

Político; deputado estadual do Piauí (1994-2015)

88

13/07/2020

Gerson Peres

Político; deputado federal pelo Pará (1983-2003)/(2007-2011)

88

21/04/2020

Gésio Amadeu

Ator

73

05/08/2020

Gil Vianna

Político; deputado estadual do Rio de Janeiro (2017-2020)

54

19/05/2020

Hamilton Carvalhido

Ministro do Superior Tribunal de Justiça (1999-2011)

79

17/01/2021

Haroldo Lima

Político; deputado federal pela Bahia (1983-2003) e diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (2005-2011)

81

24/03/2021

Helenês Cândido

Político; governador de Goiás (1998-1999)

86

17/03/2021

Henrique do Rego Almeida

Político; senador pelo Amapá (1991-1999)

84

22/03/2021

Henrique Soares da Costa

Bispo católico; bispo de Palmares

57

18/07/2020

Herzem Gusmão

Jornalista e político; prefeito de Vitória da Conquista (2017-2021)

72

18/03/2021

Heyder Abas Palheta

Futebolista

87

23/02/2021

Ibsen Henrique de Castro

Político; deputado federal por Goiás (1995-1999)

82

30/12/2020

Irani Barbosa

Político; deputado federal por Minas Gerais (1991-1995)

70

23/12/2020

Irmão Lázaro

Cantor gospel e político; deputado federal pela Bahia (2015-2019) e vereador de Salvador (2021)

54

19/03/2021

Ivair Nogueira do Pinho

Político; prefeito de Betim (1991-1992) e deputado estadual de Minas Gerais (1995-2011)

69

31/03/2021

Jean Luc Rosat

Voleibolista

67

02/04/2021

Jesus Chediak

Jornalista, teatrólogo e cineasta

78

08/05/2020

Jimy Raw

Radialista

58

02/06/2020

João Acaiabe

Ator

76

31/03/2021

João Alves Filho

Engenheiro e político; prefeito de Aracaju (2013-2017)

79

23/11/2020

João Henrique de Souza

Delegado de polícia, juiz eleitoral e político; deputado estadual da Paraíba (2007-2021)

78

12/01/2021

João Kabeção

Skatista

47

05/05/2020

João Peixoto

Político; deputado estadual do Rio de Janeiro (1998-2020)

75

30/10/2020

José Adauto Bezerra

Político; governador do Ceará (1975-1978)

94

03/04/2021

José Carlos da Silva Júnior

Político; senador pela Paraíba (1996-1999)

94

05/03/2021

José de Oliveira Fernandes

Economista, professor e político; prefeito de Manaus (1979-1982)

76

12/11/2020

José Gentil Rosa

Político; deputado estadual do Maranhão (2019-2020)

80

15/06/2020

José Itamar de Freitas

Jornalista

85

01/07/2020

José Maranhão

Político; governador (2009-2011) e senador pela Paraíba (2003-2009)/(2015-2021)

87

08/02/2021

José Mentor

Político; deputado federal por São Paulo (2003-2019)

71

25/07/2020

José Paulo de Andrade

Jornalista e radialista

78

17/07/2020

Joselito Falcão de Amorim

Político; prefeito de Feira de Santana (1964-1967)

101

05/10/2020

Líber Gadelha

Guitarrista e produtor musical

64

30/01/2021

Lourdes Catão

Decoradora e socialite

93

10/05/2020

Lúcia Braga

Política; deputada federal pela Paraíba (1987-1995)/(2003-2007)

85

08/05/2020

Luiz Ferreira Martins

Médico, professor e político; deputado federal por São Paulo (1983-1987)

85

20/03/2021

Maguito Vilela

Advogado e político; governador de Goiás (1995-1998) e prefeito de Goiânia (2021)

71

13/01/2021

Major Olímpio

Policial militar e político; senador por São Paulo (2019-2021)

58

18/03/2021

Manoel Batista Chaves Filho

Político; prefeito de Ingá (2013-2020)

64

16/07/2020

Marcelo Veiga

Futebolista e treinador

56

14/12/2020

Mário Calixto Filho

Empresário, jornalista e político; senador por Rondônia (2004-2005)

73

17/06/2020

Mário Chermont

Político; deputado federal pelo Pará (1991-1995)

83

16/05/2020

Martinho Lutero Galati

Maestro

66

25/03/2020

Matheus

Cantor

57

22/12/2020

Mauro Aparecido dos Santos

Bispo católico; arcebispo de Cascavel

66

11/03/2021

Miquéias Fernandes

Político; deputado estadual do Amazonas (1991–2002)

69

26/04/2020

Miss Biá

Drag queen

80

03/06/2020

Nelson Meurer

Político; deputado federal pelo Paraná (1995–2019)

77

12/07/2020

Nicette Bruno

Atriz

87

20/12/2020

Nicolau dos Santos Neto

Advogado e desembargador

91

31/05/2020

Olga Savary

Escritora e crítica literária

86

15/05/2020

Orlando Duarte

Jornalista esportivo

88

15/12/2020

Osvaldo Cochrane Filho

Jogador de pólo aquático

87

09/12/2020

Papaléo Paes

Médico e político; senador (2003-2011) e vice-governador do Amapá (2015-2018)

67

25/06/2020

Parrerito

Cantor

67

13/09/2020

Paulinho Paiakã

Líder do povo indígena Kayapo

66

16/06/2020

Paulo César dos Santos (Paulinho)

Cantor e músico do conjunto Roupa Nova

68

14/12/2020

Paulo Medina

Ministro do Superior Tribunal de Justiça (2001-2010)

78

03/04/2021

Paulo Stein

Jornalista e locutor esportivo

73

27/03/2021

Péricles Ferreira dos Anjos

Médico e político; deputado estadual por Minas Gerais (1987-1999)

77

14/01/2021

Rafael Fragoso

Empresário e esportista de Hipismo

62

17/05/2020

Renato de Jesus

Político; deputado estadual do Rio de Janeiro (1995-2011)

57

15/06/2020

Renê Weber

Futebolista e treinador

59

16/12/2020

Ricardo Akinobu Yamauti

Político; prefeito de Praia Grande (1997-2000)

71

03/01/2021

Ricardo Brennand

Empresário, engenheiro e colecionador de arte

92

24/04/2020

Robert de Almendra Freitas

Político; deputado estadual do Piauí (1987-2002)

0

00/01/1900

Roberto Leitão

Lutador

83

28/11/2020

Roberto Torres

Político; deputado federal por Alagoas (1987-1995)

82

04/02/2021

Rodela

Humorista

66

02/12/2020

Rodrigo Rodrigues

Jornalista

45

28/07/2020

Ronaldo Adriano

Cantor

70

21/08/2020

Ruy Scarpino

Técnico de futebol

59

03/03/2021

Sálvio Dino

Político; deputado federal pelo Maranhão (1963–1964)/(1974–1979)

88

24/08/2020

Sérgio Bueno de Camargo

Médico

73

02/05/2020

Sérgio Sant'Anna

Escritor

78

10/05/2020

Sérgio Trindade

Engenheiro Químico

79

18/03/2020

Severiano Mário Porto

Arquiteto

90

10/12/2020

Silvio Favero

Político; deputado estadual do Mato Grosso (2019-2021)

54

13/03/2021

Sylvio Capanema

Advogado, desembargador, professor de Direito Civil

82

20/06/2020

Ubirany

Cantor e músico do grupo Fundo de Quintal

80

11/12/2020

Vicente André Gomes

Político; deputado federal por Pernambuco (1995–1999)

68

08/05/2020

Vilmar Ballin

Político; prefeito de Sapucaia do Sul (2009-2017)

62

23/12/2020

Vitor Sapienza

Político; deputado estadual de São Paulo (1987-2019)

86

09/04/2020

Wanderley Mariz

Político; deputado federal pelo Rio Grande do Norte (1975–1987)

79

02/07/2020

Wilson Braga

Político; governador da Paraíba (1983-1987)

88

18/05/2020

Zeno Veloso

Jurista, notário, professor e político; deputado estadual do Pará (1986-1990)

75

18/03/2021

Zenóbio Toscano

Político; prefeito de Guarabira (2013-2020)

74

14/06/2020

Zezinho Corrêa

Cantor e músico do grupo Carrapicho

69

06/02/2021

(Fonte: Wikiconcurso Casa Brasileira- 6/04/2021)

 

 


quinta-feira, 1 de abril de 2021

A realidade do mal. José Mauricio de Carvalho

 



Numa life semana passada, para tratar da falta de resignação, organizada do IDE/JF, meu amigo Dr. Ricardo Baesso comentou a realidade do mal e, ao lembrar uma conversa antiga que tivemos, me colocou na circunstância de revisar o assunto numa perspectiva judaico-cristã não reencarnacionista. Revisar sempre no espírito do que está em Zc. 8,16: “Estas são as coisas que deveis fazer: falai a verdade cada um com o seu próximo; executai juízo de verdade e de paz nas vossas portas.” No programa, Ricardo mencionou, com seu habitual brilhantismo, algumas explicações para o mal que entende como: expiação, provação, abertura à transcendência, evolução e missão pessoal.

Tomar o mal como objeto de análise racional não é tarefa simples, mas devemos partir do reconhecimento da sua existência. Ele é tão real que tive um amigo padre que dizia que geralmente via-se em dificuldade para explicar a existência de Deus, mas para mostrar a existência do demônio não tinha problema algum. O mal estava sempre próximo dele e do interlocutor. Á parte a ironia, o assunto merece atenção e cuidado e ser tratado no real e verdadeiro propósito de buscar a verdade.

O essencial do que mencionou Ricardo na sua apresentação é compatível com uma visão cristã católica do problema, por exemplo, o entendimento de que o mal pode ser a ocasião de uma abertura para a transcendência (Deus), que ele pode permitir o desenvolvimento pessoal e/ou ajudar a pessoa a descobrir uma missão de vida. No entanto, creio que essa mudança pessoal será possível se o indivíduo tiver encontrado um sentido para o mal que lhe acomete. Se ele descobre esse sentido, se e somente se ele for capaz de ressignificar sua visão de mundo pelo sentido, então ele poderá valer-se do mal para seu crescimento pessoal, poderá melhorar sua capacidade de empatia, ou mesmo descobrir sua vocação mais íntima, aquela que fará a sua vida reluzir como verdadeiro valor.  Se a pessoa descobre um sentido para o mal poderá enxergá-lo como parte de sua trajetória de ascensão espiritual na direção de Deus.

O psiquiatra Viktor Frankl mencionou a indignação de vários ex-prisioneiros dos campos de concentração nazistas que percebiam que as pessoas saíram da Segunda Grande Guerra sem se culpar ou importar com o que ocorreu com os judeus. Essas pessoas diziam não saber o que se passava nos campos de extermínio, que também elas sofreram privações, que a guerra é dura para todos, etc. Enfim, somente quando o mal é inserido no contexto de um sentido é que o homem consegue viver as elevações espirituais mencionadas pelo Dr. Ricardo.

Por sua vez, ao considerarmos o mal enquanto oportunidade de crescimento pessoal é preciso distinguir alguns níveis do mal, começando pelo mal moral. Esse é o mal do homem próprio de quem não luta contra seus instintos, que faz da vida a busca desenfreada de prazer irresponsável. Esse homem não consegue enxergar nada além do relativo, sua vida não tem um grande propósito e ele se torna escravo do relativo.

Há uma segunda forma de mal muito em voga em nossos dias. Somente se compromete com a verdade, somente procura fazer o certo quando isso convém, quando não coloca a pessoa em situação difícil, ou quando não lhe prejudica. Enfim, a pessoa busca o bem que não a coloca em situação difícil. Apenas nessas ocasiões ela se ocupa de fazer o bem.

Porém, há ainda uma terceira e mais radical fonte do mal. Aquele mal que nasce do desejo de fazer sofrer, da clara intenção de destruir os outros, do gosto por assassinar, torturar e destruir. Esse mal ou perversidade aponta para uma raiz ontológica do problema, que não faz sentido num processo de evolução necessária comanda por Deus. O aprimoramento pessoal na direção do bem e da verdade é uma decisão pessoal, somente ocorre quando há esse propósito. Do contrário, o que se assiste é a destruição do homem e dos valores mais importantes da humanidade.

Quanto ao progresso cultural, ele é real e verdadeiro, mas se consolida nas regras do direito e na organização política da sociedade. Não me parece que seja uma conquista moral de uma comunidade que ascende, conjuntamente, a um patamar superior de humanidade, pois essa conquista moral é necessariamente pessoal, fruto do esforço do indivíduo. O progresso moral vem do esforço e do desejo de ser melhor, de dedicar-se a boas causas não importa se humanas ou divinas. Ela nasce do desejo verdadeiro de contribuir para o crescimento do tempo de Deus que Jesus chamava  Reino de Deus.

Dessa forma, ainda que cercado de mistério, a resposta de Jesus foi combater o mal em todas as suas formas. “A paixão de Jesus torna-se o exemplo para suportar o mais injusto e incompreensível sofrimento, para não desesperar no abandono, para alcançar a Deus.” (JASPERS, Mestres da Humanidade, 2003, p. 139)

O mal, mostrou Jesus, deve ser combatido em todas as suas formas. No mínimo para promover a obrigação moral da fraternidade universal. A fraternidade no sofrimento. Somos irmãos porque padecemos dos mesmos males: adoecemos, caímos em culpa e morremos. Jesus nos deu motivos para acreditar num alto propósito para viver, com esperança e confiança em Deus, apesar da presença do mal no mundo.

STABAT MATER DOLOROSA

https://www.youtube.com/watch?v=REMhOdxTcEE

sexta-feira, 26 de março de 2021

O POETA POLONÊS ADAM ZAGAJEWSKI DO 11 DE SETEMBRO. Selvino Antonio Malfatti

 


                                                                 

 


 O mundo da cultura perde mais um líder. Trata-se de Adam Zagajewski, 75 anos,falecido no domingo, dia 7 de março na Cracóvia. Polonês, ficou conhecido como poeta do 11 de setembro.

 

Nascido em 1945, Ucrânia, destacado poeta recebendo vários  prêmios. Inclusive mencionado para Nobel da literatura. A consagração pública veio com o poema - “Try to Praise the Mutilated World” – publicado na revista The New Yorker.  Traduzindo livremente: “Tente se Orgulhar d Mundo Mutilado”. Teve que se mudar para Paris quando o general comunista, Wojciech Jaruzelski. em 1968, apertou o cerco contra os dissidentes e mandou fechar o Solidariedade em 1982.

A poesia:

 

Try to Praise the Mutilated World

 

“Tente elogiar o mundo mutilado.

Lembre-se dos longos dias de junho,

e morangos silvestres, gotas de vinho rosé.

As urtigas que crescem metodicamente

as propriedades abandonadas dos exilados.

Você deve elogiar o mundo mutilado.

Você observou os iates e navios elegantes;

um deles tinha uma longa viagem pela frente,

enquanto o esquecimento salgado esperava outros.

Você viu os refugiados indo a lugar nenhum,

você ouviu os algozes cantarem alegremente.

Você deve elogiar o mundo mutilado.

Lembre-se dos momentos em que estávamos juntos

em uma sala branca e a cortina tremulou.

Volte em pensamento para o concerto onde a música explodiu.

Você colheu bolotas no parque no outono

e as folhas rodaram sobre as cicatrizes da terra.

Louvado seja o mundo mutilado

e a pena cinza que um tordo perdeu,

e a luz suave que se dispersa e desaparece

e retorna.”

"

Try to Praise the Mutilated World

Try to praise the mutilated world.
Remember June's long days,
and wild strawberries, drops of rosé wine.
The nettles that methodically overgrow
the abandoned homesteads of exiles.
You must praise the mutilated world.
You watched the stylish yachts and ships;
one of them had a long trip ahead of it,
while salty oblivion awaited others.
You've seen the refugees going nowhere,
you've heard the executioners sing joyfully.
You should praise the mutilated world.
Remember the moments when we were together
in a white room and the curtain fluttered.
Return in thought to the concert where music flared.
You gathered acorns in the park in autumn
and leaves eddied over the earth's scars.
Praise the mutilated world
and the gray feather a thrush lost,
and the gentle light that strays and vanishes
and returns.
https://lyricstranslate.com

 

 

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

Os inimigos da liberdade. José Mauricio de Carvalho

 



A liberdade é uma preciosidade humana, pois ainda que comporte muitas definições e tenha limites práticos, a vida livre combina a trama do que se busca na vida com o que ela fez de nós. Assim, entre o que resulta do que escolhemos e do que nos acontece seguimos nossa história pessoal, trazendo na memória os marcos desse percurso singularíssimo que amarra nossa consciência única com uma circunstância igualmente única.

A tradição ocidental consolidou, deste a antiga Grécia, os germes de uma liberdade que ia da vida singular à participação política. Ela se dava no debate dos problemas da cidade nas praças por uma parte da sociedade. E assim, passando pelo cristianismo que focou a liberdade humana na sua dimensão moral, na capacidade de escolher entre o bem e o mal, até a modernidade quando René Descartes costurou a ideia de uma subjetividade livre, o mundo ocidental acostumou-se ao tema. Tornou-o um valor importante, desde que parece ao homem ocidental odiável ter a sua vida privada tutelada por outrem ou pelo Estado.

Os debates entorno à primeira questão levaram ao desaparecimento da escravidão e da segunda orientou a experiência política liberal. Na pátria de origem do liberalismo, a Inglaterra, a liberdade política foi, inicialmente, uma exigência da classe proprietária, que obrigou a oligarquia monárquica a aceitar a sua participação na gerência do Estado. Isso ocorreu com a participação dos proprietários na Assembleia Nacional. O principal teórico desse momento inicial do liberalismo, John Locke, não apenas formulou a ideia de representação pelos interesses, como amarrou bem o exercício da liberdade pessoal à representação política. Dessa forma, outras pessoas e classes conseguiram, mais tarde, se fazer representar no parlamento com as reformas eleitorais inglesas dos séculos XIX e XX. Foi então, quando todos os cidadãos podiam votar e serem votados, que o liberalismo se aliou definitivamente à democracia.

O liberalismo democrático consolidou-se no Reino Unido e nos Estados Unidos e, depois, foi-se firmando em outros países ocidentais. E as teses liberais se consolidaram em todos os campos da vida social, como na relação entre a democracia e a educação nos livros de John Dewey. Nas últimas décadas o liberalismo viu crescer uma corrente conservadora que proclamou uma menor intervenção do Estado na economia, movimento que ganhou força no governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos, com Thatcher na Inglaterra e Jacques Chirac na França. Esse liberalismo conservador era pragmático, antirromântico e cuidadoso na defesa da liberdade pessoal e do indivíduo contra o Estado. Assim, embora proclamassem uma menor intervenção do Estado na vida do indivíduo, valorizavam o estado de direito, a representação política e a justiça independente, garantias do cidadão contra as arbitrariedades do governo.

Quando se vê, em nosso país, pessoas defendendo soluções antidemocráticas e contrárias ao estado de direito, à organização constitucional e contra os poderes Judiciário e Legislativo, julgando defender a liberdade e a propriedade estão justamente fazendo o inverso e revelando desconhecimento político. O verdadeiro amigo da liberdade e defensor da livre iniciativa trabalha com as instituições, a divergência entre os liberais está no quanto deve o Estado atuar na construção de políticas sociais, uns acreditando que deve ser mais, outros menos.  Essa é a discussão entre os democratas e republicanos nos Estados Unidos, considerando-se intolerável qualquer tentativa de desorganizar os outros poderes, como ocorreu na confusão feita por Donald Trump no final do seu governo. Naquele dia, como disseram os norte-americanos, eles pareceram ser uma república das bananas. Venceram afinal as instituições e Trump saiu pela porta dos fundos.

É o judiciário livre e independente que assegura a defesa do cidadão, da propriedade e é um legislativo livre e atuante que assegura a procura do consenso em meio ao dissenso próprio da democracia. A ditadura do executivo é um nazifascismo, a intervenção de força nos outros poderes também foi observada na experiência comunista. Nazistas, fascistas e comunistas são totalitários e, nesse aspecto, farinha do mesmo saco.

A experiência histórica do ocidente mostrou a não confiar em soluções fora do Estado de direito quando o que se pretende é defender a liberdade pessoal, o direito de propriedade e a autonomia do cidadão frente ao Estado.


 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

A CULPA. Selvino Antonio Malfatti

 



Sempre que a Humanidade se depara com um perigo de ameaça de destruição global surge a questão: que culpa temos disso? Aconteceu com os hebreus no Egito e na destruição de Jerusalém, junto com a diáspora. Na Europa invadida pelos bárbaros. Nas inúmeras epidemias que assolaram a Humanidade. Na era atual nas carnificinas das guerras, nos Campos de Concentração. Nos Apóstolos apavorados na tempestade do Mar de Genesaré. E neste momento diante da pandemia que nos ameaça destruir a todos? Pergunta-se: onde está Deus?

Quem é O culpado e por quê? Procura se pela Culpa Original.

Se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado? Se a culpa faz parte como componente da essencial da Humanidade, como posso me desfazer. Mas por que sou culpado?

Contudo, embora não se tem dívida com alguém e nem tenha causado algum desagrado a alguém, mesmo assim persiste a culpa, A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata, por dentro, a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído de remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se pode desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou a sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões, entregar-se à felicidade da vida, sem culpa, se não fosse a sociedade. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.

Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Mas todos estão mortos: monarcas, nobres, inclusive Deus. Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.

Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.

E nos filósofos da existência, como vêm a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.

Entretanto, a culpa existencial é uma falsa culpa, ou culpa contraditória. Se é culpado porque se é um ser-aí. E este ser-aí é um fundamento do nada. Isto significa que ninguém o colocou aí. Não foi o indivíduo o autor deste ser-aí, nem outro. Logo, ele é um ser aí produto do nada. Como o nada dá origem a nada, logo ele, homem, não está aí. E sendo assim não tem culpa de nada porque não é nada. Por isso o ser-aí não pode ser causa de culpa e nem mesmo ser-aí.

Ou o homem é um ser-aí por si ou por outro. Evidentemente ele não é por si, porque se fosse não teria se feito apenas um ser-aí. Logo, ele é por outro, quer pela matéria, quer pela espiritualidade ou outra entidade superior a ele. Mas o porquê de sentir-se culpado é de poder se arrepender. Mas arrepender-se de quê? De ter aceito ou continuar aceitando ser apenas uma existência. Qualquer outro ser do universo pode não arrepender-se, menos o homem. Os demais seres não sabem que estão-aí. Somente o homem tem esta consciência. Enquanto o homem continuar aceitando esta condição de existência viverá se arrependendo e por isso se sente culpado. Se o homem pudesse se livrar do arrependimento deixaria de sentir-se culpado. Mas para desvencilhar-se do arrependimento da existência a única saída é livrar-se da existência. Mas com certeza é preferível viver e sentir-se culpado do que suicidar-se e livrar-se da culpa. Ele se arrepende de querer viver e por isso se sente culpado perante Deus, perante seus semelhantes e perante o universo. Se o homem como existência fosse imortal nunca se sentiria culpado. O arrependimento da existência o faz culpado disso. Ou exista e se arrependa e sinta-se culpado ou abandone a existência e livre-se do arrependimento e da culpa.

Se partirmos da constatação de que existimos, de imediato veremos a precariedade de nossa existência. Não conseguiremos recuar até o instante de nossa consciência, de nossa interioridade que, iluminada, toma consciência de si. Estamos suspensos, sem ser e com desejo de mendigos de tê-lo. Quando ocorreu o acender de nossa consciência? Tudo se esvanece no passado longínquo o qual não conseguimos identificar. Caminhamos sobre o Nada, como o Mestre caminhava sobre as águas.

O que nos consola como reduto último é a Esperança. Entre o Ser e o Nada, perigosamente suspenso sobre a Morte, o homem consegue viver porque se recusa cortar o fio da Esperança. Se este for rompido, cairemos no Nada.  Os acenos das Angústias, do Cuidado, da Náusea, na verdade, são apenas acenos do desespero, pois são formas de cortejar o Nada, de quem pendula entre a Morte.

A Luz pode ser a metáfora da vida, enquanto a Noite é a da Morte. O primeiro um ser-em-si e o segundo o não ser. Esta dualidade reflete-se na gnosiologia, na relação entre sujeito e objeto. No ato do conhecimento, o sujeito não só contempla o objeto, mas também o objetiva. A relação imediata que surge é uma bipolaridade de eu- isto. Neste primeiro contato sujeito-objeto, é estabelecida uma relação fria. O primeiro ignorando a concretude do segundo e este reduzindo ao mínimo sua concretude. Dessa relação surge uma metafísica materialista ou mesmo estruturalista. A relação sujeito-objeto nos leva a renunciar ao conhecimento da Vida, do Homem e do Espírito, pois há um sujeito diante de uma coisa e vice-versa. Será possível outra relação? É possível, diz Soveral, desde que a relação que se estabeleça seja de natureza Eu-Tu , Nós-Ele, Eu-Vós. Esta relação muda a natureza, pois em vez de objetos, coisas, há relações de sujeitos intersubjetivos. Com essa relação é possível captar a vida, o espírito e o Homem concreto. O existente humano é o ser-em-si em trânsito, na busca do Ser-em-Si-para-Si.

Mas, faz sentido buscar algum sentido para algo que parece sem sentido?

 

 

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