sexta-feira, 5 de março de 2021
Becos da Irracionalidade. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei
domingo, 28 de fevereiro de 2021
ESPARTA E ATENAS – MAIS SEMELHANÇAS QUE DIFERENÇAS. Selvino Antonio Malfatti.
Eva Cantarella é
professora universitária de direito romano e direito da Grécia antiga da
Universidade degli Studi di
Milano e reitora da
Faculdade de Direito da Universidade de Camerino. Autora de Diritto e teatro in
Grecia e a Roma.
A título de aprofundamento
propôs-se revisar as diferenças e semelhanças das Cidades-Estado de Esparta e
Atenas. Chega à conclusão de que há mais semelhanças que diferenças entre elas
em que pese de comumente se salientar as diferenças.
No rol das diferenças principalmente comandantes
militares costumam chamar a atenção do caráter beligerante de Esparta, como Joseph
Goebbels que se se dizia sentir como numa cidade alemã por que a Alemanha
nazista era a “Nova Esparta”, cidade de conquistadores, capazes de através dos
séculos preservar a raça pura, estes mesmos 6.000 combatentes dominaram os
360.000 mil invasores.
Para Robespierre e os
Jacobinos, os espartanos eram o modelo de virtude cívica, exemplos de sentido
de dever e sacrifício por si mesmos e pela coletividade. Como Leônidas e os
Trezentos, dispostos a imolar-se para defender a pátria dos invasores bárbaros.
Em Stalingrado, nem mesmo
durante a derrota, o marechal de campo Göring, chega a exclamar: "Viajante,
se você for para a Alemanha (para Esparta), diga a eles que nos viu lutar em
Stalingrado (nas Termópilas), obedientes à lei, pela segurança de nosso
povo!"
Afinal, os comunistas não eram os novos
bárbaros, prontos para descer à Europa para destruí-la? E não importa se os
alemães haviam invadido e não os russos, prontos para massacrar a Europa, como
fizeram no Leste europeu?
Quanto Atenas recebe elogios
de toda parte, mas não merece tanto. Dizia Donald Trump hà alguns anos: "Eu
amo os gregos, oh, eu amo os gregos ..."Com ele se encerra a fila de
presidentes e políticos norte-americanos que faziam questão de comparar os
Estados Unidos à Atenas associando-a ao berço da democracia e da liberdade. Na
Segunda Guerra Mundial se associou Atenas aos Estados Unidos e Esparta aos
soviéticos.
A ideia volta a ganhar força
sempre que se deseja exportar a democracia ateniense (norte-americana) para o
resto do mundo. Dizia George W. Bush: "A América não é uma potência
imperial, é uma potência libertadora".
Em tempos mais recentes, tem
sido usado para justificar iniciativas infelizes. A comparação com Atenas volta
continuamente quando se discute a necessidade de "exportar" a
democracia para o mundo.
No entanto, a fama entre
historiadores não é tão louvável. Quando se pergunta, como Atenas tratava seus
aliados, historiadores não duvidam de classifica-los: “como vacas a serem ordenhadas
continuamente”.
Eva Cantarella desmascara em
parte este mito: Esparta igual autoritarismo, militarismo, armas, corpos sadios
para a guerra. Atenas igual à democracia, educação, mente sã para as artes.
Esparta aparece como uma miragem, envolta em brumas de um passado glorioso, com
uma constituição de setecentos anos, mas agora desaparecida. Ao contrário Atenas salienta-se como a cidade
do Partenon e da democracia sempre viva.
Como foi destacado, muitas
vezes predominam estereótipo, chavões, lugares comuns. Um deles é afirmar que
Esparta desprezava a cultura. Os espartanos prezavam o poder da palavra e
valorizavam ir direto ao assunto, sem rodeios e enfeites desnecessários que só
servem para complicar em vez de clarear. É o famoso estilo lacônico dos
espartanos, arte de sintetizar em poucas palavras todo um pensamento que os prolixos
gastariam uma verdadeira verborreia.
A propaganda ateniense foi
eficiente: conseguiu incutir que o estilo lacônico era ignorância. Por outro
lado os espartanos também foram eficientes quando identificaram um estilo
eloquente das mulheres, com os atenienses em superficialidades e discussões de
futilidades.
Na verdade Esparta estendia
a educação às mulheres no momento que as considerava parte do projeto cívico.
Mas teve o preço: a eliminação do espaço privado da família e do indivíduo. Não
havia lugar para laços afetivos entre mães e filhos. Tudo era público e os
filhos não eram da família, mas do Estado.
Cantarella salienta que
ambas, Esparta e Atenas, estavam engajadas num projeto político, diferindo no
modelo: Esparta apoiava-se no Estado e Atenas na sociedade.
No entanto, é
sintomático como espontaneamente as sociedades autoritárias se identificam com
Esparta e as democráticas com Atenas. Os mais paradigmáticos se mostram ser o comunismo Soviético com Esparta e a democracia americana com Atenas.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021
O OUTONO DA IDADE MÉDIA. Selvino Antonio Malfatti
Trazemos esta semana para a reflexão um pensador holandês, Johan Huizinga (1872-1945), em (Sacro e quotidiano, i segreti del Medioevo - Sacro e cotidiano: os Segredos da Idade média).
Considerado eminente filósofo e
historiador da cultura do século XX, teve destaque em retratar os padrões
culturais: descrever pensamentos e sentimentos, e suas manifestações em obras
de literatura e arte.
Neste artigo comenta a Idade Média no período em que
foram lançadas as bases do mundo moderno. Com certeza não aceita a afirmativa,
sem comprovação científica, de Leonardo Bruni e Francesco Petrarca, de que a
Idade Média foi um período de trevas, uma Noite de mil Anos, um hiato de
barbárie do esplendor da cultura greco-romana e o alvorecer da Idade Moderna.
Huizinda se propõe a uma crítica. Primeiramente se pergunta pelo início e com
ele o quê e por quê? Não basta dizer quando começou, mas o quê começou? Explicar o conteúdo implica em explicar o quê
do conteúdo.
O que fez mover a engrenagem medieval?
A difusão do cristianismo? As crises demográficas, os
climas, a economia, a ética dos séculos II a VII? O fenômeno migratório? Se
colocados tais problemas não levarão ao “mito” evolucionista?
Parece que a Idade Média não fugiu à regra das sociedades
de nascer, se desenvolver e entrar em declínio, isto é, teve seu outono ou
ocaso.
Novamente a questão? O quê e por quê? Conteúdo e causas.
Podem ser apontadas: perda da importância das instituições eclesiais, perda de
confiança no modelo político, a substituição do universalismo pelos estados e
nações, a ordem cósmica substituída pela concepção humana e a consequente
secularização, a ética universal cede lugar ao individualismo, novos valores
éticos como econômicos e tecnológicos, dão lugar aos religiosos e
sobrenaturais.
Tudo isto nos leva a pensar em múltiplas intersecções de
formas dialógicas: unidade e diferença, homogeneidade e diversidade,
conservação e reforma, ordem e mudança, continuidade e descontinuidade e
permanência e ruptura.
Mas há um fato novo em tudo isto: a dilatação do mundo. O
pequeno mundo europeu com a parte conhecida do oriente, de repente, se expande
em continentes em proporções até então não imaginadas. Os novos mundos
abriram-se à exploração e o homem deixou para trás as antigas teorias e
lançou-se ao explorando. Este é o conteúdo e a causa da Idade Moderna. Como
diria Carlo Maria Cipolla: Foram os navios e os canhões que transformaram o mundo
antigo e medieval.
A Idade Moderna incorporou as concepções cosmológicas da
antiguidade e da Idade Média: pelo primeiro, um sistema de terras cercadas por
mares imensos, montanhas, pântanos, desertos e florestas habitados por feras ou
monstros. Jamais seria capaz de possuí-lo; pelo segundo uma imensa esfera,
agora com um homem determinado pela vontade e secundado pela tecnologia
conseguirá não só dominar, como possuir o sistema.
Frases famosas de Johan Uizinga:
La povera Europa si avviava verso la prima guerra mondiale
come un'automobile sgangherata in mano di un conducente ubriaco per una strada
tutta buche e cunette.
(A pobre Europa caminhava para a Primeira Guerra Mundial
como um carro em ruínas nas mãos de um motorista bêbado em uma estrada cheia de
buracos e buracos.)
Educators
are aware that they can reach the youth only by making use of gang spirit and
guiding it, not by working against it.
(Os educadores têm consciência de que só podem atingir os
jovens fazendo uso do espírito de gangue orientando-o, não o combatendo.)
These are
strange times. Reason, which once combatted faith and seemed to have conquered
it, now has to look to faith to save it from dissolution.
"Estes são tempos estranhos. A razão, que outrora
combateu a fé e parecia tê-la conquistado, agora deve recorrer à fé para
salvá-la da dissolução."
Revolution
as an ideal concept always preserves the essential content of the original
thought: sudden and lasting betterment.
(A revolução como conceito ideal sempre preserva o conteúdo
essencial do pensamento original: melhora repentina e duradoura.)
((“Fonte: https://le-citazioni.it/autori/johan-huizinga
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021
Autodesenvolvimento e vida autêntica. José Mauricio de Carvalho
Frankl
Quando
a filosofia existencial dirigiu o olhar dos filósofos para a vida concreta do
homem, indicou não somente uma nova fase para o humanismo como olhou o homem,
por inspiração fenomenológica, como objeto de estudo cuja existência faz com
que o mundo apareça. Sim, os filósofos entenderam que cada homem é um mundo
porque seu olhar para o que existe é único, mesmo que algumas coisas, que estão
entorno ao sujeito, possam ser concebidas em comum e compartilhadas com os outros
existentes. O olhar dos estudiosos se dirigiu para a experiência pessoal e
única que torna singularíssima cada vida humana e a diferencia das demais. Cada
homem seria ele mesmo, no tanto que fosse fiel a sua vocação, seu olhar ou ao
seu núcleo íntimo.
A
primeira consequência dessa forma de problematizar a existência humana é
considerar que que o existente emerge do nada, busca o sentido de sua vida a
partir de seu olhar para o mundo e, nessa busca, ele se sustenta em algo íntimo,
segundo ensinou Martin Heidegger em Ser e Tempo. Seguir o caminho dessa
singularidade pessoal é a maneira de ter uma existência autêntica, mas o homem
não é obrigado a fazer isso e pode perder-se de si mesmo, comentou Ortega y
Gasset no livro Entorno a Galileo. Essa constatação revela que o homem
pode seguir ou não o caminho de seu verdadeiro ser. Caminho, observou Ortega y
Gasset, influenciado pela sociedade e pelo tempo que se vive, mostrando que a
fidelidade a si mesmo se exprime em ações e possibilidades numa sociedade concreta.
No ensaio Ensimasmiento y alteración, Ortega detalhou como se desenvolve
essa fidelidade em movimentos para dentro e para fora, processo em que cada um
investiga o que crê de verdade e o que o faz ser fiel a suas verdades pessoais.
Essas verdades íntimas e singulares são compartilhadas com as objetivas como as
verdades da ciência, da filosofia e da religião.
Os
filósofos da existência e raciovitalistas como Ortega y Gasset irão dizer que a
vida autêntica vem do cumprimento de um projeto existencial, a realização de um
sentido, ou mesmo de uma vocação, de uma missão que se singulariza na história
de vida e no ambiente de cada homem. Algo maior e mais profundo que uma simples
escolha intelectual, um ajuste interior esclarece em Meditación del Escorial.
A psiquiatria existencial assumiu esse núcleo íntimo como orientador, não
somente de uma vida autêntica, mas de uma vida saudável psicologicamente.
Viktor Frankl foi o psiquiatra que melhor sistematizou essa tese em A
questão do sentido em psicoterapia mostrando que o vazio existencial (viver
sem sentido) estava na raiz de uma série de transtornos ou sintomas emocionais
como depressão, violência e tentativas de suicídio. Isso porque o consultório
de psiquiatras e psicólogos se encheu, no século passado, de pessoas que diziam
que a vida não tinha razão de ser, que ela perdera a alegria de viver, que
tinha tudo para ser feliz, mas não era, que andava triste sem motivo, dormia
mal, mal comia, sentia-se triste, etc. Esse tipo de queixa, na grande maioria
das vezes, indica o vazio existencial ou falta de uma razão para viver.
A experiência que viveu nos campos de
concentração, que Frankl detalhou no livro Em busca de sentido, mostrou
que o prisioneiro sem boa razão para viver, adoecia com maior facilidade e morria
mais rapidamente. Esse fato, que pesquisas médicas recentes identificaram, foi
o que Frankl registrou nos campos de concentração. Frankl verificou no que
considerou o maior experimento que alguém podia fazer que, quando um prisioneiro
se desconectava de um sentido, perdia o interesse de viver, adoecia e morria em
seguida. Isso parece-lhe uma justificativa válida de sua constatação de que os
mais aptos a sobreviver eram os que tinham uma razão para seguir vivendo,
conforme reafirmou em O que não está
escrito nos meus livros. (FRANKL, 2010, p. 115): “Esse foi o experimentum crucis. A capacidade
primordial humana da autotranscendência e do autodistanciamento, como tanto
enfatizo nos últimos anos, foi verificada e validada existencialmente no campo
de concentração.”
Estudos
de Ortega em La rebelión de las masas sobre o homem-massa, encontraram
um homem sem compromisso com a excelência, infantil, acrítico, inculto e os
trabalhos de Zygmund Bauman em Modernidade líquida tratou das
características dessa sociedade de massas. Tratava-se de uma sociedade sem
forma, onde não há firmeza. Essa sociedade é caracterizada, segundo o sociólogo, pela liquidez, volatilidade e
fluidez de todas as suas relações. Ambos os autores mostraram o tamanho do desafio
de descobrir um sentido ou missão existencial nesse espaço coletivo. Nesse tempo
e espaço, com profunda crise de humanidade, é que temos o desafio de modificar
o entorno para não submergir nele. Para Ortega y Gasset temos um movimento de
dentro para fora, que se combina com a busca de um sentido, comparável a uma
flecha em busca de um alvo. Vida autêntica não se alcança com um simples
mergulho íntimo.
Frankl, por sua vez, ensinou a olhar esse movimento como a
realização de um sentido presente no inconsciente, mas não num como foi
descrito por Sigmund Freud, mas num inconsciente espiritual. Um inconsciente
que não substitui a dimensão instintiva estudada pela psicanálise, mas que se
forma pela repressão de valores espirituais e por reduzir a vida a pura relação
com os fenômenos. Frankl ensinou a buscar o autoconhecimento que leva ao
autodesenvolvimento. Isso somente virá com o respeito ao que nos entusiasma e
desafia.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021
Manual para destruir a democracia. José Mauricio de Carvalho
Considerando os inúmeros interessados no tema, consolidam-se
abaixo alguns passos para destruir as liberdades democráticas, o estado de
direito e assegurar a implantação de uma ordem totalitária:
1.O primeiro e o mais importante dos passos é desqualificar
os outros poderes do Estado, a ênfase deve ser sempre colocada na autoridade
presidencial, imperial ou real. É importante propagar que legislativo e
judiciário são integrados por gente corrupta e inimiga do povo. Esse é um ponto
fundamental, a pedra angular desse pequeno receituário;
2. Divulgue continuamente que o governante (presidente, rei
ou imperador) é alguém puro que luta pelo bem do povo contra a gentalha
corrupta que ocupa os demais postos do Estado ou que já assaltaram o Estado.
Verdadeiro pai do povo, honesto, puro, incorruptível e verdadeiramente
interessado no bem de todos os homens bons. Isso dá ótimos resultados;
3. Associe o governante a Deus, sempre é bom que ele seja
considerado defensor da autoridade divina, que fale em seu nome, ou ao menos
que esteja entre seus servos fiéis, mesmo que suas ações sejam claramente
contrárias aos ensinamentos religiosos. O que ele faz importa pouco, se ele for
apresentado como bom devoto;
4. Repita, todo o tempo, que os adversários do governante
são desqualificados moralmente. Um tipo de gente a quem não se deve dar
atenção: ladrões, corruptos e assassinos, contra os quais é preciso proteger o
santo governante;
5. Estenda esse tratamento violento e irracional a todos os
críticos do governante, pois se afinal alguém o critica, deve integrar a
matilha de ladrões, corruptos e assassinos que são seus adversários;
6. Não dialogue com os críticos, é gente má, comedora de
criancinha, assassinos. Pode chamá-los de comunistas. Não importa o que isso
signifique. Não estamos interessados em clareza conceitual. Apenas xingue,
xingue, xingue. Sempre que possível lhes associe vícios: são invejosos,
orgulhosos, egoístas, a vaidosos, soberbos, maledicentes etc. Não economize nos
adjetivos desqualificadores, quando mais usar melhor.
7. Considere os apoiadores do governante como pessoas
nobres, pois afinal de contas se apoiam um homem de tanto caráter e bondade é
porque também eles, seus apoiadores, são dotados dessas qualidades extraordinárias.
Isso é promissor pois;
8. Divide a nação em dois grupos, nós os bons e eles os maus
e ajuda a mobilizar os partidários contra os críticos de dentro e de fora.
9. Se você seguiu esses passos até aqui agora pode aplicar o
golpe de mestre, próprio dos doutores no assunto: o Argumentum ad hominem, que
é uma falácia lógica nesse caso usada para evitar discutir as ideias dos
adversários e destruir direto o autor delas. Trata-se de falácia porque conclui
sobre o valor da proposição sem examinar seu conteúdo. Mas, afinal, que importa
o argumento dos adversários? Ninguém pensa muito mesmo.
10. Espalhe que o que assegura a ordem da sociedade não são
as leis constituídas legitimamente por um parlamento eleito (o estado de direito
e as forças de segurança na garantia constitucional da lei a da ordem), mas sua
força militar que decide por conta própria e arbitrariamente o destino da
sociedade.
11. Eleja os críticos externos como integrantes de um
movimento contrário ao nobre e santo governante, um complô internacional
contrário a ele, fruto de um movimento qualquer;
12. Se você for mesmo bom e já tiver incorporado o espírito
da coisa e já entendeu que não é preciso explicar em que consiste esse
movimento, basta dar um nome qualquer pomposo (globalismo, esquerda, por
exemplo) e dizer que ele é terrível, indescritível, anticristão;
13. Associe esse movimento a uma causa metafisicamente má,
numa sociedade cristã diga, por exemplo, que é conduzido pelo anticristo. Em
contrapartida, associe seus radicais companheiros de missão à pureza da fé
religiosa. Isso dá ótimos resultados, pois mesmo fazendo absurdos essas pessoas
se acreditarão servos de Deus;
14. Demonstre fidelidade absoluta ao governante, não é
necessário pensar, a autoridade pensa por você. Afinal, os adversários são maus
e o governante é bom. É o que importa;
15. A verdade é sempre a que sai da boca do governante. Tudo
o mais é mentira. Filósofos e cientistas e suas manias de experiência e
evidência não merecem crédito. Assim procedendo teremos um tempo de
obscurantismo muito adequado às ditaduras e sistemas totalitários;
16. Crie uma milícia radical que ameace as instituições, a
inteligência, promova ações contra as leis, ataque as instituições de Estado,
divulgue acriticamente propaganda do governo, ocupe as mídias sociais, um grupo
religiosamente fiel (como a Gestapo no nazismo e a KGB nos tempos dos da União
Soviética) ao governante. Se necessário invada o parlamento e a corte maior de
justiça, ações de intimidação ajudam à causa;
17. Ataque a imprensa livre e crítica, afinal jornalistas
têm a péssima mania de verificar a informação e duvidam do que sai da boca
santa do governante sem antes verificar a veracidade dos fatos. Ataque, ameace,
intimide e humilhe os jornalistas que criticam o governante. Acuse-os também de
mercenários, ajuda muito à causa;
18. Ataque os defensores dos direitos humanos e os
ecologistas. São comunistas disfarçados.
A adequada execução desses passos é garantia de sucesso e
implantação de um governo totalitário ou, no mínimo, uma ditadurazinha.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Emanuele Severino. Selvino Antonio Malfatti- Doutor em Filosofia
Com 90 anos (1929-2020)
desaparece o filósofo italiano Emanuele Severino na Brescia, sua cidade natal.
Concentrou sua pesquisa e elaboração filosófica em três teses: a verdade do
ser, a morte e a eternidade de Deus. Licenciado
em Filosofia pela Universidade de Pávia, com a tese sobre Heidegger e a
Metafísica, transitou também na história do pensamento ocidental sob os pontos
de vista religioso, científico e filosófico. Batia de frente com as teses
católicas ao negar o Além, a Salvação e outros temas. Paulatinamente vai sendo
expelido da Universidade católica de Milão pelas suas posições ateias como
sustentar que a fé é uma contradição e o cristianismo é uma alienação essencial
do ocidente.
Para ele a pergunta “o que é
a filosofia” é tão decepcionante pelas respostas tão díspares e numerosas que
passa até a vontade de querer saber a resposta. Prefere apresentar a metáfora
da matilha de cães correndo atrás de filosofia ferida de morte. Cada um se
gabando a seu modo dizendo que foi ele que a reduziu a isto. Dizem: "Fui
eu que a reduzi assim!", "Não, fui eu!", "Estávamos todos
juntos!". Severino, no entanto, prefere outra explicação. Não foi a
ciência moderna, nem a sociedade burguesa, nem o cristianismo. Ninguém a matou,
apenas a matilha demonstra que o mundo pode viver sem ela. Seu ferimento mortal
consiste em ter-se auto-infligido o mortal propósito: querer ser a verdade
absoluta do vir-a-ser do mundo. Esta vontade é a ferida mortal que condenou a
filosofia à morte. Pergunta-se o filósofo: o que aconteceria se o devir do
mundo (sair a voltar a nada) fosse uma evidência? Não seria uma loucura
extrema?
Frases marcantes de Emanuele
Severino:
“Nascere vuole dire […]
uscire dal niente; morire vuol dire tornare nel niente: il vivente è ciò che
esce dal niente e torna nel niente.“
(“Nascer significa [...] sair do nada; morrer significa voltar a nada: o viver é o que sai do nada e volta a nada ”.
“„La democrazia è una fede.“
("A democracia é uma fé. ")
“Ogni civiltà, e soprattutto
quella occidentale, non è stata altro che edificante – anche e proprio quando
ha prodotto l'estremo della distruzione e dell'orrore. Potrà mai accadere
all'uomo di non essere edificante?“
(“Cada civilização, especialmente a ocidental, não foi nada além de edificante - mesmo e precisamente quando produziu o extremo da destruição e do horror. Pode acontecer ao homem não ser edificante?)
„È del tutto fuorviante
condannare l'«Occidente» e il capitalismo per aver dominato e sfruttato il
resto del mondo. I popoli non hanno morale. Se ne è mai visto uno sacrificarsi
per un altro? Quando hanno potenza si impongono sui più deboli, come la natura
riempie il vuoto.“
(É completamente enganoso condenar o "Ocidente" e o capitalismo por dominar e explorar o resto do mundo. Os povos não têm moral. Você já viu um sacrifício pelo outro? Quando têm poder, impõem-se aos mais fracos, pois a natureza preenche o vazio. ”)
„In quanto destino della
necessità, la verità è l'apparire dell'esser sé dell'essente in quanto tale (ossia
di ogni essente); e cioè l'apparire del suo non esser l'altro da sé, ossia
dell'impossibilità del suo divenir l'altro da sé, ossia del suo essere eterno.
L'apparire dell'essente è l'apparire della totalità degli enti che appaiono […]
Le parti sono un molteplice. L'apparire di una parte è la relazione
dell'apparire trascendentale a una parte di tale totalità […] Ciò significa che
esiste una molteplicità di queste relazioni. In questo senso, molteplice non è
solo il contenuto che appare, ma anche il suo apparire.“
(“Como destino da necessidade, a verdade é a aparência do próprio ser do ser como tal (isto é, de todo ser); ou seja, a aparência de não ser o outro de si mesmo, ou seja, a impossibilidade de se tornar o outro de si mesmo, ou seja, de seu ser eterno. A aparência do ser é a aparência da totalidade das entidades que aparecem [...] As partes são um múltiplo. A aparência de uma parte é a relação da aparência transcendental com uma parte dessa totalidade [...] Isso significa que há uma multiplicidade dessas relações. Nesse sentido, múltiplo não é apenas o conteúdo que aparece, mas também sua aparência. ”)
„La posizione di Parmenide è singolare perché è anche il punto di maggiore contatto con l'Oriente. […] La soluzione radicale di Parmenide è questa: il divenire non minaccia più, non può essere nocivo perché non esiste. […] Tutto l'angosciante, tutto il terribile, tutto l'orrendo del mondo è illusione; questo è il senso della doxa di Parmenide. Ebbene questa è anche la strada percorsa dall'Oriente: i Veda, le Upanishad, la ripresa buddista del bramanesimo sono tutti grandi motivi che convergono su questo punto: l'uomo è infelice perché non sa di essere felice, perché non sa che il dolore è al di fuori di lui, e che lui è un puro sguardo che non è contaminato dal dolore che gli passa innanzi, così come lo specchio non è contaminato dall'immagine che si riflette in esso.“
(“A posição de Parmênides é única porque também é o ponto de maior contato com o Oriente. [...] A solução radical de Parmênides é esta: tornar-se não mais ameaça, não pode ser prejudicial porque não existe. [...] Todo o sofrimento, todo o terrível, todo o horror do mundo é ilusão; este é o significado da doxa de Parmênides. Bem, este também é o caminho percorrido pelo Oriente: os Vedas, os Upanishads, o renascimento budista do Bramanismo são todos grandes motivos que convergem neste ponto: o homem é infeliz porque não sabe que é feliz, porque não sabe disso a dor está fora dele, e que ele é um olhar puro que não se contamina com a dor que passa diante dele, assim como o espelho não se contamina com a imagem que nele se reflete ”.)
(Fonte: https://le-citazioni.it/autori/emanuele-severino/)
sábado, 23 de janeiro de 2021
Globalismo ou a destruição das boas causas. José Mauricio de Carvalho
O aumento do número de mortes no Amazonas e em todo o país resulta das aglomerações nas festas do final do ano e de uma nova variação mais contagiosa do vírus. Uma combinação ruim agravada pela má condução da pandemia pelo governo federal. Esse último fator mostra-se na pouca importância com que o governo tratou o assunto desde o início da doença, menosprezando o poder letal do vírus. A autoridade e seguidores veicularam maciça propaganda nas mídias sociais menosprezando o poder da doença. Propagaram o contrário do que ensinavam os especialistas em saúde pública. Sua estratégia pode ser resumida em dois pontos: menosprezo à letalidade da doença e ridicularização dos cientistas. O procedimento é semelhante ao que fizeram os nazistas quando usaram a ciência para justificar o racismo, isso contra as evidências. Com base nisso mataram milhões de pessoas com a justificativa de que eram vidas inferiores ou de segunda classe.
Esse desprezo à ciência e atitude irresponsável com a pandemia foi igualmente adotada pelo governante norte-americano recentemente derrotado nas eleições. E como ele justificou lá sua atitude radical e contrária a essa e outras boas causas? Com a mesma estratégia de cá, maciça propaganda na mídia, com um número infindável de mentiras, acusando lá de comunistas, como fazia a turma de cá chamando de petista, a todo crítico de suas ideias. Nesse meio tempo atacaram a imprensa livre porque os jornalistas, por dever de ofício, deviam verificar a autenticidade das notícias veiculadas. Como descobriram rapidamente e denunciaram a mentirada, lá e cá, foram atacados pelos governantes da mesma forma implacável.
Como foi possível legitimar o obscurantismo contra a
ciência e ainda ter outros ganhos como o afastar-se de acordos internacionais
de proteção ambiental? Como destruir a legislação de proteção ambiental sem
provocar uma comoção pública? O governante derrotado nos Estados Unidos
apresentou à classe média americana algo que ela gosta de ouvir, vamos colocar
o país acima de tudo, vamos valorizar a América: America First era seu lema. E
assim, parecendo defender o obvio e algo querido entre os americanos, implantou
e levou adiante uma política de destruição da proteção ambiental, como se os
Estados Unidos vivessem num planeta à parte das demais nações. A condução dessa
política foi mais longe do que sonhava o americano médio, promoveu a rejeição
das políticas internacionais e acordos internacionais batizados, reconheça-se
genialmente, em terras tupiniquins, de globalismo. A política de destruição da
legislação ambiental foi levada adiante, lá e aqui, sob o argumento de que era
imposição de um certo poder global contrário aos interesses nacionais.
Entenda-se acordos internacionais patrocinados pela ONU e que reúnem a quase
totalidade das nações. E há mais, o desprezo pelos direitos civis e humanos que
resultou do aumento de morte dos cidadãos pobres e negros nasceu pela
tolerância aos grupos de supremacistas brancos. Seguindo seu mentor, o nosso
governante quer dar à polícia o poder de matar sem punição quando merecido,
ampliando na legislação elementos de proteção às ações violentas (a tese do
excludente de ilicitude). E assim um instrumento legal para situações muitos
especiais passará a ser a atitude normal das forças de segurança. O que fazer com quem denuncia tais coisas?
Intitulá-los lá de comunistas e aqui petistas, aproveitando-se desses conceitos
desgastados nos dois países. Estratégia também muito utilizada para
desacreditar as críticas é atacar a honra das pessoas (o famoso Argumentum ad
hominem). Por isso atacam impiedosamente a todos que apontam essas coisas.
Feito isso, vão passando a boiada.
A jogada mais genial para levar adiante esse discurso contra: as políticas globais de defesa dos direitos civis, direitos humanos, legislação ambiental, vacinação global contra COVID 19 e outras lutas da ONU (nomeadas de globalismo) é associá-las a um poder do mal, um governo mundial e supranacional que está se formando para servir ao anticristo, que já vive entre nós. Assim, por mais alucinada que essa tese possa parecer, a extrema direita aproximou-se de setores evangélicos para enganá-los e fazê-los ver nessas políticas internacionais a antessala do governo do anticristo, conforme interpretação torpe do livro do Apocalipse. E para agradar setores evangélicos radicais espalham que o anticristo é o Papa Francisco e seu auxiliar o Presidente da França, Emmanuel Macron. Não foi à toa que muitos evangélicos apoiaram os radicais trumpistas em seus protestos recentes contra todas as evidências da legitimidade da eleição do candidato democrata.
Portanto, a enxurrada de fakes news nas redes sociais, a
alcunha de comunistas ou petista para qualquer crítico desse projeto político,
o uso do Argumentum ad hominem para destruir a honra dos críticos, as críticas
aos órgãos de imprensa, o aumento do racismo, o aumento da morte dos negros nos
Estados Unidos, o desrespeito à Constituição (como na invasão do Congresso
americano), a desconsideração aos cientistas e o discurso radical com
componentes religiosos são partes do mesmo todo, que só pode ser entendido em
seu conjunto.
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Resumo: Paolo Rossi foi um pensador sui generis. Ao mesmo tempo em que se preocupava com a questão da ciência procurava extrair desta...







