quinta-feira, 28 de maio de 2020

EXORTAÇÃO AOS MÉDICOS E ENFERMEIROS EM MEIO A PANDEMIA. Selvino Antonio Malfatti.





Está despertando interesse um texto, relativamente pequeno, de Albert Camus intitulado AOS MÉDICOS DA PESTE. É praticamente inédito para a maioria das línguas, inclusive para o português.
Camus foi filósofo. Jornalista, dramaturgo. É detentor do Prêmio Nobel da Literatura de 1957.
Originário de Mondovi, Argélia, durante a ocupação francesa de 1913. Filho de camponeses ficou órfão de pai na batalha de Marne na Primeira Guerra Mundial ainda criança. Logo no início as dificuldades financeiras bateram à porta da casa. Trabalhou em diversos setores como vendedor, meteorologista, escritório na marinha e na Prefeitura. Para sua formação em Argel teve a ventura de ter sido ajudado por dois professores.
 A PESTE é considerada sua obra prima. O pano de fundo da obra está envolta na filosofia existencialista professada pelo autor. Possui um forte conteúdo moral principalmente no que se refere à solidariedade entre os seres humanos. Ao tratar da questão da liberdade chama a atenção não só para o livre arbítrio como a responsabilidade pelos atos de cada um.
Quanto ao texto da EXORTAÇÃO AOS MÉDICOS DA PESTE, 1941, parece ser uma introdução à obra maior que viria posteriormente: a Peste, 1947.
O livro de Camus A Peste é altamente simbólico e alegórico. Simbólico por que por trás do texto desenvolve-se a Segunda Guerra Mundial e alegórico porque pelo conteúdo são analisadas as diversas reações da natureza humana diante do perigo comum.
Camus imagina ou inventa uma epidemia, em 1940, Oran, na Argélia. Três personagens são centrais na alegoria: há o médico,  Bernard Rieux,   humanista, incansável, dedicado, pronto para sacrificar-se, crendo na natural bondade humana;  seu vizinho, Jean Tarrou, que se dispões a organizar a resistência contra a epidemia; o oportunista, Joseph Cottard, que aproveita a crise para fazer negócios principalmente de contrabando.
Mas vamos ao texto da Exortação, válido ainda após 75 anos de sua publicação. O Covid-19 reacendeu o interesse de Camus, pois nele dá principalmente para médios e enfermeiros orientações, avaliações, exortações para enfrentar o inimigo invisível que pode estar no chão, no ar, nos objetos, onde menos se espera, como no fôlego do amigo, na sua mão, no seu abraço e mesmo no beijo.
Diz ele que não sabemos se é contagiosa, mas entendemos que sim. Por isso, uma das precauções é deixar as janelas bem abertas. Além disso, munir-se de máscaras e óculos apropriados para evitar o contágio. Munir-se de tudo o que pode evitar o contato. Cada um tenha cuidado de si não só para não ser contaminado como para não contaminar.
Deve-se evitar olhar de frente para o contaminado. Não visitar pacientes em jejum ou depois de alimentar-se demasiadamente. O contato físico, nem pensar. Descartado “ in limine”. Isto vale, sobretudo para médicos e enfermeiros.
Se for profissional como médico ou enfermeiro o ponto de partida é nunca ter medo. O medo infeta o sangue e esquenta os ânimos. Além disso, numa guerra os projéteis matam tanto os corajosos como os medrosos. Para que o corpo possa vencer o foco infeccioso a alma deve estar forte. Camus fala:
“Portanto, vocês, médicos da peste, devem enfrentar a ideia da morte e se reconciliar com ela, antes de entrar no reino em que a praga o prepara. Se você for vitorioso nisso, será vitorioso em todas as coisas e os verá sorrir em meio ao terror. Em conclusão, eles precisarão de uma filosofia.”

Cultivar a alegria razoável de modo que a dor não altere o fluxo do sangue. Nada em contrário em consumir um vinho em pequena quantidade. Ajudará a manter o ânimo. Zelar para que as regras adotadas sejam respeitadas tais como os bloqueios e as quarentenas. A população pede para que esquecer um pouco quem si mesmo, sem esquecer o que deve a si mesmo.
Armados da firmeza da virtude deve enfrentar o cansaço e manter a imaginação acesa. Jamais habituar-se a ver os homens morrerem como moscas, como acontece hoje nas estradas. Não deixar de comover-se diante das gargantas enegrecidas, das quais emana um suor fétido e sanguinolento.
E arremata Camus:
A primeira coisa é que você nunca deve ter medo. Homens foram vistos fazendo seu trabalho como soldados muito bem, apesar de terem medo do canhão. Mas isso ocorre porque a bala de canhão mata indiscriminadamente os corajosos e medrosos. Na guerra, muito se deve ao acaso, mas não à peste. O medo corrompe o sangue e aquece o humor, todos os livros dizem [...] Para que vocês, médicos da peste, se fortaleçam contra a ideia da morte e se reconciliem com ela, antes de entrar no reino preparado pela peste. Se você triunfar aqui, triunfará em todos os lugares e todos verão você sorrir em meio ao terror. A conclusão é que você precisa de uma filosofia”. (Albert Camus, 1947-  Exortação aos médicos da Peste)
Se quiséssemos fazer uma comparação poderíamos dizer que o texto se assemelha à Ética a Nicômaco de Aristóteles no trato do profissional com os pacientes.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Imprensa Morbosa. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



Em 1917, o filósofo espanhol Ortega y Gasset escreveu um pequeno e provocador ensaio sobre os rumos da democracia espanhola, denunciava um plebeísmo triunfante que tomara conta da Europa e que representava uma degeneração da democracia. Isso porque, deixando de representar uma forma de organização política, tornava-se expressão de massas adoecidas que queriam dirigir o destino da cultura. A democracia (ORTEGA, Obras, v. II, p. 135): “estrita e exclusivamente como norma de direito político, parece ótima coisa. Porém, uma democracia fora de si, a democracia na religião e na arte, a democracia do pensamento e do gesto, a democracia no coração e nos costumes é o mais perigoso morbo que pode padecer uma sociedade.” Em resumo, uma democracia que queria ser o que não era tornava-se doentia.
Em 2020, em meio a pandemia do coranavirus, a imprensa brasileira, especialmente sua mais bem equipada rede de comunicação, mostra-se adoecida, como a antiga democracia espanhola, deixando de cumprir o que dela se espera. Da imprensa sadia se espera que aponte os crimes contra a sociedade e a própria humanidade, mas que o faça no estrito compromisso com a verdade, porque a verdade é não só o esteio da dignidade humana, mas a base da vida social. Isso lembrando que uma verdade social e política somente pode ser buscada em conjunto, com a exposição isenta e ponderação das interpretações. Karl Jaspers lembrava que (JASPERS, Introdução ao pensamento filosófico, p.97): “na comunidade o curso das coisas se torna falso quando o homem cala o que é importante para todos.” Sem a apresentação equilibrada das diversas posições não se forma opinião pública madura e os homens se tornam superficiais e ignorantes da verdade.
Uma das maiores falhas da imprensa é quando ela engana as pessoas (e aos próprios jornalistas) mistificando a violência que é a mentira e a manipulação dos fatos. Essa distorção da verdade ocorre quando ela não divulga objetivamente os fatos e os comentários não apresentam as interpretações dele. Além de uma espécie de imprensa partidária, outros males a acometem. Uma grave doença revela-se quando ela se comporta como consciência moral da opinião pública, o que ela decididamente não é, porque ela não é isenta. Além do mais, consciência moral é pessoal, que pode e precisa ser educada, mas não é instância social. O que se vê quando jornalistas andam pelas ruas a acusar o cidadão de não cumprir o isolamento sem saber exatamente o que cada um anda fazendo e porque está fazendo. À Justiça cabe velar pelo cumprimento das leis, não à imprensa. Embora seja fundamental a imprensa denunciar crimes. Note-se crimes, não o que os jornalistas ou seus patrões consideram errado.
Outro morbo dessa imprensa é o sadismo. Seus profissionais repetem, com requinte de detalhes, tudo o que há de pior, os crimes mais pavorosos, os fatos mais horríveis e fazem isso continua e repetidamente durante horas e dias. É um gozar no sofrimento. Quanto maior a desgraça, mais ela é repetida e divulgada. Essa doença é como o vírus da covid, se espalhou rápido entre as várias mídias e emissoras.
Não se pode esquecer também a doença da bobice pura e simples, isto é, divulgação de fatos privados de artistas como coisas de grande interesse público do tipo: Fulana se bronzeia durante a quarentena, aquela outra exige corpaço e faz graça de biquíni, esse cantor pede namorada em casamento no confinamento, etc.
Seria fundamental para a Democracia que a imprensa se comportasse sadiamente. Que ela com a mesma intensidade com que reivindica respeito quando criticada cumprisse seus deveres. A impressa somente é fundamental para a democracia quando cumpre seu papel de divulgar com isenção, comentar com equilíbrio, não gozar na e da desgraça, abdicar da bobice e não se arvorar em consciência moral da sociedade, etc.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

CORONAVIRUS – UM PLANO DE DISTANCIAMENTO PARA SAÚDE E ECONOMIA. Selvino Antonio Malfatti – professor titular de Ciência Política, da UFSM.












                     
                                                BRASIL - RS


O professor esloveno de Sociologia e Filosofia da universidade Ljubljana, autor do ensaio de “Virus”, analisando a atual situação da pandemia propõe que não se deve escolher entre economia e saúde para superar o atual dilema, mas refletir sobre a questão. Esta atitude pode levar a um meio termo que privilegie a ambas simultaneamente.
Conforme o autor, nos dias de hoje, sob a sombra do Coronavirus já não conseguirmos distinguir realidade de ficção. Estamos vivendo uma realidade ou estamos assistindo um filme? E mesmo que projetemos para o futuro nos perguntamos qual o filme que vamos ver, séries na TV ou outras narrativas. Tudo fica nebuloso e sombrio. Seria a combinação de uma sociedade liquida e sombria.
Confinados devemos reinventar outras formas de conviver, o uso dos recursos: econômico, social, psicológico, cultural e espiritual. Novas regras de mercado urgem, agora subordinadas à solidariedade, a redistribuição dos recursos. Os governos devem deixar de ser por demais liberais e mais intervencionistas, a limitação dos privilégios e mesmo corte em que pese os setores mais conservadores que se negam a abrir mão.
Em alguns lugares os armários já estão sem suprimentos, farmácias, embora continuem abastecidas, os idosos não podem chegar. Até quando a população vai aceitar viver na carência? Quem garante que de repente, hordas famintas não invadirão casas, mercados, supermercados e bancos? E o pior: invasão de hospitais buscando atendimento e remédios? Médicos e enfermeiros poderão ser agredidos e mesmo assassinados. Este é um cenário possível. E os governos, que farão neste caso? Execuções sumárias, pena de morte, prisões!
Mas pensemos que ainda temos tempo. Que podemos achar soluções razoáveis. Uma destas tentativas, por mais modesta que seja, pode ser válida ou ao menos é uma tentativas Trata-se do modelo jé implantado no Rio Grande do Sul, estado brasileiro, pelo governo do estado.
O Modelo gaúcho parece que vai ao encontro do pensamento de Zerek pois, colocando como objetivo principal a saúde, salva a economia através de estratégias. O centro da estratégia está em não fazer terra plana do território do Rio Grande e nem considerar a epidemia igual em intensidade em toda a área. Para tanto o território foi dividido em regiões e nessas regiões aplicam-se critérios baseados em desempenhos setoriais. É denominado de distanciamento social controlado. Prevê diferentes níveis de cuidados por região, num total de 20, cada uma delas com um índice, fixado por uma bandeira, possibilitando flexibilizar a mobilidade social de acordo com a resposta das variáveis como horários, modo de operação, número de funcionários, leitos disponíveis, testes, máscaras, mortes pela doença, internações etc. Cada sábado será feito um feedback para reavaliar o plano. Este tem a supervisão do Ministério da Saúde e em observação por órgãos mundiais da saúde e acompanhados por outros países interessados.
É uma alternativa mais flexível às experiências testadas em países europeus como Itália e Espanha que generalizaram a proibição de circulação de pessoas intrarregional  e interregional. A proposta teve um embasamento teórico de “Como reabrir economias nacionais durante a crise de Coronavirus”, da consultoria americana McKinsey&Company, e Restrição do Contato social durante a Pandemia de Covid-19.
Com isso se pretende conseguir chamar pessoas de volta ao trabalho mais rápido, preservar sua saúde e garantir sua subsistência.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Nação e Heróis. José Mauricio de Carvalho - Academia de Letras de São João del-Rei



Tempos extremos suscitam o heroísmo. Infelizmente também promove o contrário. Viktor Frankl dizia que nas situações extremas da vida as escolhas separam os santos e os porcos. E nós precisamos demais dos primeiros.
Nesses dias em que o mundo enfrenta uma pandemia, heróis são fundamentais. Quanto mais difícil o momento, mais precisamos deles. Eles estão agora entre profissionais de saúde, trabalhadores que precisam manter serviços essenciais e pessoas que apoiam os mais vulneráveis.
Fui educado numa limitada visão de democracia que ensinava que um povo não necessita de heróis. Foram precisos anos de experiência e um genial pensador espanhol chamado Ortega y Gasset para mostrar que não é assim. Uma nação necessita de heróis para guiá-la, lidera-la e mantê-la de pé. A democracia, é uma forma de organização política e é ótima quando não impede a liberdade e os talentos individuais. Em resumo, uma democracia que respeita a liberdade, para não adoecer, não pode ir além da organização política, não pode alcançar, disse Ortega (Democracia Morbosa, Obras Completas, v. II, 1988, p. 135): “a religião e a arte, (...) o pensamento e gesto, (...) o coração e os costumes (sendo nesses casos) a mais perigosa doença que pode padecer uma sociedade.” Poucas coisas são piores para um povo que, em momentos de crise, possuir uma legião de porcos, como disse Frankl.
A lição de Ortega sobre democracia, somada ao que ele escreveu em dois livros clássicos; España Invertebrada (1921) e A Rebelião das Massas (1930), mostra que pessoas notáveis são chamadas a liderar a sociedade. Ninguém lidera em todas as áreas, apenas alguns se destacam em cada uma: o artista nas criações estéticas, o prático nas atividades tecnológicas, o gênio nas criações científicas e filosóficas, o ético nos movimentos sociais e também o santo. Essas são formas diferentes de ser herói. Viktor Frankl relata em Em busca de Deus e questionamentos sobre o sentido a atuação de médicos na Segunda Guerra (2014, p. 90): “minha tarefa é testemunhar diante de vocês como médicos vienenses passaram fome e morreram; dar testemunho de verdadeiros médicos que viveram como médicos (...) que não podiam ver os outros sofrer, não podiam deixar sofrer”. Esses médicos foram heróis.
O mês de abril é um tempo bom para falar de heroísmo, não apenas porque se recorda a morte de Tiradentes, que deu a vida pela liberdade do país, mas porque se comemora a vitória da FEB em Montese, que, se não foi significativa como a de Fornovo, foi marcada pela bravura e onde, em pouco tempo, morreram quase quinhentos brasileiros. Veio depois da Batalha de Monte Castelo, que se arrastou por três longos meses e onde morreram mil militares. E ocorreu antes da de Fornovo ocasião em que soldados da FEB aprisionaram a 148ª Divisão Alemã e parte de uma Divisão Panzer no total de quase 15 mil soldados alemães. Esses brasileiros morreram, como tantos outros já haviam feito em nossa história, para termos uma nação forte.
Que nosso povo veja surgir muitos heróis nesses dias e que eles sejam, para os outros brasileiros, exemplo e inspiração.


sexta-feira, 1 de maio de 2020

REUNIAO NO CEMITÉRIO DE PRAGA – CIENCIA, FILOSOFIA E TEODICEIA. Selvino Antonio Malfatti





Tudo que o que as ficções científicas projetaram estão se concretizando. Em “1984” projetou-se uma sociedade completamente vigiada e direcionada pelo Grande Irmão, Estado. O Estado via tudo, inclusive a intimidade das pessoas até mesmo as relações amorosas.
Depois do Covid-19, China e Coreia implementaram programa de vigilância biométrica sobre a população. O simples acesso facial pode levar ao conhecimento dos mínimos detalhes de cada indivíduo: gostos pessoais, comida, política, sexo, lazer e outros. Isto foi possibilitado pelos algoritmos. São capazes de detectar não só nossas preferências on-line off-line, mas cruzar estes dados com nossos movimentos, nossas emoções.

Fomos apossados pela tecnologia como um vírus, pois no dilema entre a privacidade e saúde optamos por esta e entregamos à ciência nossa intimidade como nosso Genoma. A ciência assumiu o topo de nossos valores. Ela só explica o aspecto físico, material para a doença e a morte. Mas é só isso? Os outros aspectos, os “meta físicos”, descartados sumariamente e a priori. Alguém se lembrou de perguntar algo à filosofia? Onde está a filosofia com seus conhecimentos metafísicos? Ela poderia dar uma resposta.
No entanto, ambas, após 40 dias de pandemia, ciência está às moscas perante o vírus. A ciência, no alto de seu pedestal, não consegue vencer uma bolha que invade um corpo humano. Milhares, já se aproximando do milhão, de pessoas estão morrendo como insetos infectados pelo COVID-19. E a ciência arrasta-se sem sucesso no encalço do vírus.

A filosofia imoblizada, com toda sua soberba em afirmar o “homem é isto”,  o “homem é aquilo” está muda diante da bolha que devasta sem dó nem piedade os seres humanos.
A teologia ou teodiceia? O que diz? Ela que quer estabelecer um elo entre a criatura e o criador sente-se desprezada em seus esforços para comover o sobrenatural.
E a bolha graxeia coroada continua impassível ceifando vidas!

Não será necessária uma reunião ugente no Cemitério de Praga de Ciência, Filosofia e Teodiceia para ver o que cada uma poderia colaborar? Reunir os maiores sábios do mundo e abrir o jogo. Representantes de Roma, Paris, Londres Washington, Madrid, Lisboa etc.etc.etc. para assinar um Protocolo gnosiológico  e restabelecer o diálogo entre as áreas do conhecimento. A ciência representando o universo; a filosofia, o homem; e a teodiceia, o sobrenatural.

 No período clássico dos gregos e romanos, ciência e filosofia entrelaçavam-se, seguindo o modelo traçado pelo médico - filósofo, Aristóteles.Ciência e filosofia complementavam-se. A religião era algo separado da ciência e filosofia. No entanto, entre filosofia e ciência havia intercâmbio.

Após este período, a filosofia imiscuiu-se com a religião. Nesta relação, a filosofia perdeu seu norte ao abandonar a comprovação como critério científico. Santo Tomás tornou-se o protótipo: Filósofo e Teólogo.  O critério de conhecimento passou ser a Autoridade: diz a Escritura. A partir de então a filosofia foi absorvida pela religião. Embora não tenha sido a filosofia, mas a religião que foi vencida pela ciência, a ciência descartou as duas.

No advento do Renascimento, quando as duas poderiam ter retomado as relações, preferiram seguir seu próprio caminho como duas bicudas que não queriam e não podiam se beijar.

Atualmente entreabriu-se uma porta de acesso. Trata-se da mediadora Ética que abre o diálogo entre a filosofia e ciência. E precisamente no mesmo ponto que Aristóteles estabeleceu a conexão: medicina e ética. Justamente a ciência médica foi buscar o socorro e convidou a ética para dialogar. 

Por isso, atualmente há novamente uma aproximação entre filosofia e ciência. Grandes cientistas são também grandes filósofos. Quando a ciência chega ao limite do conhecimento, aciona a filosofia pedindo para mostrar-lhe o caminho a seguir. A ciência busca o “scire ens”, saber o que é a entidade do ser. A ciência jamais conseguirá captar o ser, apenas o contornará, pois o ser é “Meta físico” e a ciência somente poderá chegar ao físico. O “meta físico” é invisível, quando na verdade é ele que conduz a nossa mente. Esta conduz nossa vida. A causa do visível é o invisível. Se me proponho a ir a um lugar (visível) minha mente traçou o caminho (invisível). Basta o visível seguir o invisível. Isto foi até hoje.

A partir deste momento entramos em outra dimensão com a permissão de explorar nosso íntimo. A técnica já era conhecida, o algoritmo, mas ainda não havia sido utilizada para este fim. O algoritmo, como uma receita de conhecimento prático, é capaz de criar a ponte entre o invisível de nossas mentes e o visível de nossos “data” biomédicos e a partir disso direcionar nossos comportamentos. As informações disponíveis poderão ser usadas na manipulação de comportamentos desejados por quem detém os “data”.

A questão que se coloca é: existe uma entidade invisível, próxima à nossa alma, capaz de rastrear o que os algoritmos estão operando? E que seja capaz de detê-los quando passarem dos limites? Que a consciência tenha capacidade de dizer não às ciladas, embustes, armadilhas dos “data” inseridos no programa para dominar nossas ações visíveis. Em síntese, a Liberdade pode estar à salvo dos algoritmos e cintilar soberana a cima das pressões dos programas dos algoritmos? A consciência soçobrará às investidas do visível sobre seu invisível? Ficará a salvo a intimidade? Estamos, portanto, diante de um mundo de incertezas, vislumbradas por Heisenberg.  Os “data” inseridos na consciência poderão ser controlados ou mesmo parados quando desejarmos? Se o mundo e a consciência já estão cheios de incertezas, imaginem quando começarmos a manipular as incertezas!

Nossos sentimentos ainda poderão ter autonomia? Conseguiremos afastar o entulho dos programas e conhecer a nós mesmos? Isto a afetará não somente nossas consciências pessoais como a consciência coletiva de que fala Jung. Mais do que nunca os algoritmos estão prestes a apoderar-se da consciência coletiva e controlar a mente humana. Isto poderá acontecer com indivíduos sem autonomia, escravos de seus próprios estereótipos de seu sistema de referência.

A filosofia deve marcar presença para garantir a vida do espírito, o princípio ontológico da natureza humana, com o mundo do Ser e não do devir. É preciso que o vir-a-ser de Heráclito esteja em sintonia com o Ser de Parmênides. Só assim, evitará que os algoritmos elaborem e implantem programas sociais voltados a eliminar o que ainda resta de humanos.
Por isso faz-se necessária uma runião urgente dos sábios do mundo inteiro no Cemitério de Praga para salvar o universo e o homem.




sexta-feira, 24 de abril de 2020

Os primeiros passos de uma consciência nacional. José Mauricio de Carvalho



O novo corona virus (covid 19) contaminou as sociedades nacionais como numa sequência de queda de dominós, dessas montadas para promover a admiração das pessoas. Uma a uma foram contaminadas as sociedades nacionais e, com rapidez assustadora, espalhou-se pelo mundo a morte, o medo, a angústia e a insegurança. Temerosos assistimos as notícias de morte nas sociedades primeiramente contaminadas e que nos antecederam no pico da contaminação. Nelas a doença provocou o colapso da vida econômica e social, contaminando indistintamente ricos e pobres, cultos e menos cultos, cidadãos e camponeses.
Na medida em que o medo e a angústia passaram a povoar os corações dos povos, os governos orientaram seus cidadãos a permanecerem em casa, evitando um contato que espalhasse mais rapidamente a doença, antes que o sistema de saúde estivesse minimamente organizado para combater a epidemia. Algo assim começamos a viver em nosso país.
Em meio ao temor pela contaminação, experimenta-se o paradoxo representado por adotar medidas de proteção social para poupar vidas e depois vê-las destruí-las pelo desemprego e desespero. Com a economia quase parada e as vidas estagnadas, começa a crescer um temor secundário, nas pessoas isoladas em suas casas. Não mais o medo do vírus, mas do perigo que representa uma sociedade com milhões de desempregados, cujas vidas foram despedaçadas pelo desemprego e paralização da economia.
Nesse tempo de crise intensa começa nosso Estado, seu povo e seu governo a tomar as primeiras lições de vida nacional. Em meio ao sofrimento e a insegurança geral reduz-se os antagonismos verificados na recente polarização política das últimas eleições, perde força o discurso fascista, elitista, que discriminava os pobres e fazia apologia da violência, do terror e da discriminação. Discursos incapazes de reconhecer nos cidadãos a condição de pessoa humana, embora ainda circulem pelas redes sociais milhares de notícias falsas que minam a democracia e as bases da sociedade nacional.
 Assistimos o ministro da economia dizer que ninguém será deixado para traz em alusão às muitas medidas de proteção social que precisarão ser desenvolvidas. Utiliza uma frase típica de militares em combate para se referir aos colegas feridos.
Essas primeiras iniciativas são ainda muito tímidas. Estamos nas primeiras semanas do ensino fundamental da nacionalidade, estamos escutando as primeiras lições do que significa ser uma nação, possuir objetivos nacionais acima de partidos políticos, construir metas de estado e objetivos maiores que os interesses de grupos. Uma nação precisa disso, algo maior que interesses. Precisamos de uma prática política capaz de conceber objetivos gerais para a sociedade, não à imagem de um passado de discórdia, mas de um futuro em que nos pensemos como povo.
Não é preciso que a sociedade seja comunista, nem é necessário padronizar vidas e comportamentos de uma espécie com indivíduos únicos, basta que os homens dessa terra aprendam a viver como companheiros de destino, ajudando-se diariamente em meio, não a grandes crises, mas aos problemas comuns da vida.
    

sexta-feira, 17 de abril de 2020

A TOCA DE OURIÇOS. Selvino Antonio Malfatti





O inigualável contador de fábulas, Jean de La Fontaine, costumava ensinar um valor através de uma fábula, geralmente envolvendo animais. A moral da estória era um valor social ou um princípio ético. Podemos citar a Formiga e a Cigarra, a Raposa e as Uvas, o Leão e o Rato entre outras.

Estamos convivendo com uma pandemia neste ano de 2020. Como é viver recluso em casa com os familiares: pais, filhos, avós, netos e mesmo outras pessoas? Se alguns meses atrás fizéssemos a pergunta: é possível isto? É muito provável que responderíamos que não, pois numa sociedade democrática isso seria impossível. No entanto, cá estamos vivendo isso, quer gostemos, quer não, pois reclusão ou morte. Vamos imaginar como seria uma ninhada de ouriços vivendo numa mesma toca para enfrentar um inverno severo. Conseguem viver só por que ficam perto uns dos outros tendo cuidado de picar o menos possível o outro. Eles terão que conciliar a liberdade de cada um, saúde de todos e economia de guerra para não faltar. Cada um deve usar sua liberdade, sem impedir a dos outros. A saúde ao abrigo, dentro do ninho. E a sobrevivência na economia de todos e cada um.
Da mesma forma, dentro de um grupo familiar, posto em isolamento, repentinamente com  todas as qualidades e defeitos seus membros se vêem face a face. A desconfiança de que o pai ou a mãe protege um filho, a suspeita de que algum receba mais que o outro. O ciúme da musculatura do irmão, a beleza mais saliente de uma irmã. O casal, uma cobrança antiga ficada para trás, desejos incontidos de vingança, ciúmes, invejas, amor frustrado, amizade aos frangalhos. Tudo isso são espinhos de ouriço picando uns aos outros.

No isolamento das famílias brasileiras está a ideia de salvação coletiva. Como deve dar-se o isolamento? O Estado e o mercado podem parar enquanto possuírem reservas. Por isso há duas posições: parar totalmente na esperança de que o mal acabe antes ou parar parcialmente, deixando uma parte isolada, os de risco maior, e os demais levarem adiante a economia como puderem. O Brasil optou pela primeira, isto é, todos param, o mal vai embora e todos retornam. Mas e se o mal persiste, como é o caso? Aí se instala o caos: o governo federal determina o isolamento, alguns estados admitem certas atividades com métodos próprios, municípios autoliberam liberam e outros não, justiça que prende quem não obedecer e os cidadãos?


Voltemos à toca dos ouriços. Eles compulsoriamente têm que conviver para sobreviverem. Mas cada um quer usufruir de sua liberdade. Se algum quiser mais espaço espinha o outro. Este esbraveja. Todos precisam preservar a saúde e por isso devem ficar entocados. Se saírem, deve ser de extrema necessidade e retornar ao mais rápido possível. Os gastos devem ser os mais parcimoniosos possíveis. Só gastar o essencial.

Da mesma forma nós, estamos em isolamento, confinados nos nossos lares. Antes vivíamos mais fora dos nossos lares do que dentro.
. Levávamos uma vida líquida, volátil, de contatos virtuais e online. Agora, de repente, somos submetidos a contatos face a face, físicos, exprimidos. Como está sendo a acomodação à nova vida? Recolhi alguns depoimentos deste isolamento. Transcrevo-os, sem citar a autoria.

A maioria enfatizou a experiência de estar frente à frente consigo mesmo e por isso: “Uma forte experiência existencial”. Ou;

 "meu marido e eu estamos literalmente engaiolados num apartamento'.

Na esteira da do auto isolamento veio junto: “A experiência do autoconhecimento é imensa.” E quando não a consciência do autoconhecimento: “Eu acho que a introspecção não faz mal a ninguém e nesta clausura, começamos a dialogar com nos mesmos e com pessoas que antes nunca havíamos dialogado. Eu acho que muitas pessoas sofrerão mudanças internas nunca antes imaginadas. O egoísmo foi substituído pelo "nós. Já ouvi muitas opiniões e acho que apesar dos pesares, sairemos ilesos, se Deus quiser, longe de contaminações.”

“Já para outros, o isolamento era uma praxe da própria vida.” Gostaria de falar por telefone e não digitar. Faz muitos anos que moro sozinha, não há companhia melhor que a minha. Tenho um mega conhecimento de mim, a quarentena não interferiu em nada. Sempre pensei nos vulneráveis, agora mais ainda. Estou muito preocupada com a crise econômica do país. Meu pão de cada dia é garantido. Como pratico várias atividades agora está difícil reduzir, sair menos de casa. Culminou aposentadoria de 20h com quarentena o que está dificultando um pouco ficar em casa. Não vou entrar em detalhes o que faço para ajudar seres que precisam.“

Outros sentiram a solidão e o peso do isolamento: “Eu estou ficando louca. Com depressão, pânico e ansiedade. Não por ficar em casa, mas por não ter ver e abraçar minha neta que mora a apenas duas quadras de distância mas é como se fosse mil quilômetros. Do falar por vídeo não adianta. Eu não aguento mais.”

Houve alguns que mencionaram questões político-ideológicas: “Mas o principal é a compreensão de que a sociedade Capitalista não é compatível com a vida. E o quanto a irresponsabilidade eleitoral de alguns poderia minar um país se não houvesse resistência de outros lados.”

Alguns encararam com normalidade a clausura: “Tenho ocupado o tempo para pesquisar” ou ainda: “Estamos preso em nossas Residências, mas esperamos confiante, que logo tudo vai passar”        


Postagens mais vistas