sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Reforma do país e do espaço público. José Maurício de Carvalho




Os protestos de rua no último mês tiveram como estopim os serviços de transporte e mobilidade urbana, mas incorporaram outras reivindicações, notadamente o combate à corrupção, ao empreguismo, e um pedido de melhoria na segurança, no atendimento da saúde e da educação. De modo resumido os protestos revelam um tema do qual se ocupou um grupo de estudiosos nas últimas décadas: o Estado Brasileiro funciona mal. E não só nos campos em que a população denuncia. Quando aprofundamos o problema constatamos que os órgãos de fiscalização ambiental têm sucesso muito pequeno na defesa dos ecossistemas naturais, os destinados à preservação do patrimônio cultural também não têm bons resultados a apresentar, os órgãos que cuidam da vigilância sanitária são exemplo de ineficiência. O que dizer da coleta e tratamento dos esgotos? Como classificar o trabalho de inteligência da polícia e das forças armadas? Como explicar o roubo de toneladas de dinamite que explodem caixas eletrônicos pelo país afora? E a segurança de nossas fronteiras ultrajadas com drogas e contrabando? E a fiscalização das casas de diversão como a boate de Santa Maria?
Na tentativa de entender o fenômeno, lembre-se a identificação do problema dualismo no estudo da cultura brasileira identificado por Wanderley Guilherme dos Santos. Estudiosos opõem populismo, corrupção, ineficiência e subversão comunista à democracia, industrialização e independência nacional. Uma classificação simplicista onde o mal e o bem estão bem delimitados. Esse dualismo que não atinge o âmago da questão: a deficiente visão e falta de compromisso com o espaço público. Antônio Paim publicou um esclarecedor ensaio do problema intitulado A querela do estatismo, mas além dele um grupo de estudiosos da cultura nacional publicou bastante coisa sobre a herança patrimonial herdada de Portugal. Esses autores lembram a incapacidade nacional de reformar a tradição para: 1. democracia liberal (partidos políticos definidos, ideologicamente constituídos e com programa claro); 2. capitalismo com políticas sociais nas áreas de segurança, saúde e educação, além daquelas consideradas funções básicas do Estado e 3. fazer um debate moral que repercuta nos destinos da sociedade.
O estado patrimonial encontrado entre os orientais e que chegou até nós via Portugal, devido à ocupação árabe na Península Ibérica, como explica Max Weber em Economia e Sociedade, não tem compromisso com a competência e a qualidade dos serviços prestados. A justiça feita pelo príncipe discrimina o cidadão, pois se baseia em relações pessoais. O pior é, contudo, a ausência de separação entre o patrimônio público e privado, o que faz com que os administradores públicos façam seu serviço como quem cuida da cozinha de casa. Inclusive são eles que definem as prioridades das obras. E a população também entende a esfera pública como privada. Logo, o espaço público não é do cidadão, sendo aceitável danificá-lo, urinar nele, apropriar-se do dinheiro do Estado, etc. No nordeste os assaltantes de banco dizem: não queremos dinheiro de ninguém, só do governo. (?). Não é difícil, nas cidades brasileiras, encontrar quem varra a casa ou negócio e jogue o sujo na via pública, além de nela atirar todo tipo de lixo.

Toda mudança importante no sentido solicitado pelos manifestantes de hoje com vistas a tornar mais eficiente do trabalho do Estado passa pela reconsideração do espaço público. Entendê-lo como sendo de todos, cuidando com carinho dele, estaremos dando um passo gigantesco na direção almejada pela maioria. Como entender que jovens peçam cuidado com o que é público e urine nas ruas nos carnavais? Que se brade por educação e se estude tão pouco? Que peçam respeito e desrespeitem tanto idosos e deficientes? De fato, há um Brasil para ser reformado para que os homens de amanhã não reproduzam o pior das gerações passadas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Hannah Arendt, o filme. José Maurício de Carvalho




Chega aos cinemas nacionais filme sobre a vida da filósofa judia Hannah Arendt (1906-1975). A película não faz o relato biográfico de toda a vida, mas do momento no qual ela se defronta com o julgamento do oficial nazista Eichemann. E a história começa a ser narrada por ocasião da captura do criminoso pelo serviço secreto israelense. Vamos encontrar a filósofa como professora universitária, que se divide entre os escritos e os compromissos didáticos. Já famosa desde a publicação de As origens do totalitarismo (1951), ela se oferece a um periódico americano, para acompanhar, em Israel, e como correspondente, o julgamento do nazista.
Enquanto se prepara para a viagem entre encontros com amigos judeus emigrados e as aulas da universidade, Hannah mergulha nas lembranças da juventude quando foi feita prisioneira na França. Suas recordações vão mais atrás quando fora, ainda na Alemanha, aluna de um dos maiores filósofos do século passado: Martin Heidegger. As lembranças de Heidegger adensam essa viagem a um passado perturbador, pois o professor não só mexera com seu modo de entender as coisas, mas fora um amor da juventude. Um romance que não resistiu à aproximação de Heidegger com o nazismo e as concessões que ele fez à Hitler para permanecer Reitor. Trata-se de triste episódio da vida de Heidegger, que, mais tarde, rompeu com o nazismo. A decepção de Hannah com o fato não foi superada, nem após a guerra, quando o filósofo tentou explicar suas razões.
Retornando ao eixo central da narrativa encontramos a filósofa viajando para Jerusalém e ali acompanhando o julgamento de Eichemann. E, naquele momento, ela se perturba com as posições do oficial nazista. Ela se acostumara a pensar o mal como fruto de paixões, de tal modo que o mal abominável, ou um crime enorme como o extermínio de milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, devia se inspirar no gosto de fazer o mal. No entanto, não foi esse tipo de homem que ela encontrou no banco dos réus. Eichemann era um burocrata, cumpridor dos deveres e do juramento de lealdade a seus superiores, um sujeito assustadoramente normal. Nesse problema ela concentra a atenção. No retorno a Nova York, continua a acompanhar o julgamento por documentos remetidos de Jerusalém. A filósofa avalia que estava diante de um novo tipo de mal, nunca antes encontrado na história da humanidade. Um mal terrível que destrói a vida pessoal, a capacidade de pensar e avaliar as coisas. Ela se indaga se a incapacidade de pensar é o que mantém o indivíduo nesta condição e se é isso que o torna cúmplice de atrocidades sem se sentir culpado, sem se preocupar com o resultado de suas ações. Os artigos publicados foram reunidos no livro Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. Ali ela lembra que Eichmann disse à corte que se guiou pelo imperativo categórico de Kant. No entanto, o oficial nazista não olhava todos os homens como pertencentes à mesma humanidade, naquilo que Kant denominou na Crítica do Juízo de mentalidade alargada. Ele não obedecia apenas as ordens, mas a própria lei moral do modo como a entendia com suas limitações. Sem reconhecer a humanidade comum dos homens não entendeu Kant. A filósofa denomina banalidade do mal o resultado da obediência irrefletida a uma ordem, aspecto que em si é extrínseco ao processo a que estava sendo submetido o oficial, pois a questão ia além das doutrinas jurídicas mobilizadas pela defesa e acusação no que abrange a licitude do próprio julgamento e a responsabilidade do acusado pelos crimes que lhe eram imputados. É por isso que ela relaciona a banalidade do mal à incapacidade de pensar.
No entanto, Hannah também se impressionou com o fato de que lideranças judias cooperaram com os nazistas na localização e identificação dos judeus capturados. E foi isso que levou ao extermínio de milhões. Hannah menciona o fato de passagem. No entanto, o episódio magoou os judeus na América e as autoridades do Estado de Israel. E ela foi considerada uma judia ruim e sem amor por seu povo. Tanto porque sua análise filosófica aparentemente diminuía a culpa pessoal do nazista, quanto porque tornava os judeus corresponsáveis pelo triste episódio. Foram muitas as cartas que recebeu e as ameaças que sofreu por conta disso.

Independente da polêmica que se torna o assunto central do final do filme, vemos a filósofa explicar seus pontos de vista e comprometer-se com a verdade.  Em nome dela enfrenta e perde os amigos de toda a vida. Sua existência, a partir de então, destina-se a entender essa nova face do mal. O mal produzido pelo totalitarismo. Um mal que Karl Jaspers, um dos maiores representantes do existencialismo alemão, soube trazer da experiência totalitária para a vida pós-guerra: colocando-o na irreflexão. Trata-se de se perder na rotina e compromissos diários de uma vida sem sentido. No caso de Jaspers a irreflexão tinha significado ético, porque o sentido é não só projeto intelectual, uma forma de pensar, mas é um portar-se guiado pelas exigências éticas tomadas como exigência absoluta, uma ampliação do imperativo categórico de Kant.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

CRISE E EQUILÍBRIO . Selvino Antonio Malfatti





O homem sempre usa a inteligência para entender o que acontece ao seu redor e, quiçá, prever o futuro, isto é, compreender a História. Assim foi na antiguidade com Tucídides que quis entender as leis que a rege, na Idade Média com Santo Agostinho descrevendo a presença da Providência nela, na Idade Moderna Maquiavel procurou descobrir as leis da Política que a conduz, na Idade Contemporânea Saint-Simon introduziu o ingrediente econômico e Augusto Comte desenvolve a teoria dos Três Estados. Todos eles estenderam um olhar transtemporal e supralocal.  Além destes, existem dezenas de outros. Hoje quero apenas me fixar num desses: Saint-Simon, que estudou os períodos orgânicos e as crises na sociedade.
Conforme ele num período de época orgânica as sociedades repousam sobre um conjunto de crenças e valores considerados válidos. As sociedades encontram uma justificativa para suas ações e limites comportamentais. Há, por isso, uma legitimidade. E isto traz o equilíbrio social. As pessoas encontram sua própria identidade no meio social. Os comportamentos dos outros são previsíveis, assim como as próprias ações merecem da sociedade uma aprovação. Então o mundo que rodeia as pessoas é considerado natural, isto é, é assim por que deve ser assim.
Nos momentos de crise, porém, ocorre o inverso. Cada qual acha que deveria ser diferente. Daí a desconfiança e o temor. O outro é visto como um espião, ou inimigo. A sociedade é uma prisão. As instituições são vistas como grilhões que prendem.
Se tomarmos aleatoriamente como parâmetro três componentes da convivência social – política, religião e economia – pode-se aplicá-los a cada época e descobrir onde estava assentada a normalidade ou o orgânico.
Na antiguidade as sociedades consideraram como válido as cidades-estados, politeísmo e o escravismo. Na idade Média, império, o catolicismo e o feudalismo. Na modernidade, os reinos, pluralismo cristão e o comércio. Já no período contemporâneo temos o sistema representativo, a liberdade religiosa e os primórdios da era industrial. E na atualidade?

Parece que vivemos o mais longo período e a mais aguda crise de todos os tempos,  isto por que perdemos o referencial de valores. Concretamente nada mais tem valor real. Em política ainda temos o sistema representativo, mas já não responde mais às demandas sociais. A sociedade vive a era da informática, enquanto os políticos fazem discursos vazios, para si mesmos e nem eles mesmos escutam ou levam a sério. Em religião as crenças tornaram-se um self-service que cada um escolhe o que lhe agradar mais. E em economia estamos diante de valores virtuais. São tantos bilhões, mas a moeda não existe, pois é somente um número imaginário. Vivemos um mundo virtual com a globalização da informação. Tudo é uma imagem virtual produzida a partir de números. A imagem se sobrepõe ao real. É como um brinquedo de criança: faz de conta. “Faz de conta que eu sou a mamãe, que você é papai, que a fulana é a tia...” Os valores deram lugar aos números. E não são números sagrados, como queria Pitágoras, mas criadores de imagens, geradas por números.
O Eu não existe mais, tornou-se um número ou senha. A família, um número de indivíduos convivendo no mesmo teto.  A sociedade, um número x de habitantes. Querem um exemplo? Para provar que existimos não basta nossa presença, temos que apresentar o número de identidade. O próprio amor é uma imagem formada por números.

Diante de tal crise, onde buscar o equilíbrio? Todos estamos sedentos de humanidade. Penso que seja através de um novo Renascimento, isto é, voltarmos até onde nos desviamos - nos trocamos por números - encontrar nossa identidade e a partir daí seguir. Só, então, encontraremos novamente o equilíbrio.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Papa Francisco e o humanismo cristão. José Maurício de Carvalho




A visita do Papa Francisco ao Brasil movimentou os céus na semana que passou. Lá as pessoas são serenas, mas São Pedro acordou excepcionalmente apavorado dia 22 de julho. O Filho não estava casa, vagava pelo mundo. Inquieto e ansioso Pedro foi entrando na sala de audiência celestial sem pedir licença. E foi logo contando ao Pai que o Papa Francisco vinha ao Brasil encontrar-se com jovens do mundo inteiro. Pedro é um santo sereno, só fica preocupado quando o assunto envolve seus sucessores. Ele acreditara que a segurança do Papa seria feita pelo FBI ou a CIA. Fora informado daquela história da escuta por satélites, mas amanheceu na segunda-feira, 22 de julho, com o Papa voando em direção à cidade de São Sebastião e com a informação de que quem o protegeria seria a Polícia Federal, com o apoio dos serviços de segurança do Estado do Rio de Janeiro. São Sebastião batera de braços quando encontrou Pedro apavorado indo em direção ao escritório celestial onde o Pai atendia as audiências da semana. Disse logo São Sebastião: para a incompetência do Estado brasileiro só Deus. Não adianta nem pedir ajuda, é muito para mim. É que os santos se entendem mesmo sem se falar pois, aprenderam a ouvir o coração.
São Pedro ansioso diante do Pai era um espetáculo comovente. O Pai o ouviu paciente que é. O Pai nunca se altera nem se preocupa, pois nada acontece sem que saiba. E Ele já fora informado pelo serviço de segurança celestial da situação. Serviço secreto que funciona, diga-se de passagem. Aliás, no céu tudo funciona ao contrário do Estado Brasileiro, onde pouca coisa funciona. Na altura já havia uma legião pronta e São Miguel Arcanjo em Pessoa na liderança dos anjos. Afinal, o general das hordas celestiais preocupara-se em vir pessoalmente desde que soube que Satanás, em férias no Brasil, andava estimulando a violência. Francisco I no Rio, o coisa ruim poderia aprontar alguma coisa, avaliara o Arcanjo. O Papa sob proteção das forças de segurança brasileira, nem seria preciso um Satanás ardiloso para criar confusão, avaliou o Arcanjo.
E veio São Miguel com sua legião de anjos. Encontrou o Papa cercado de carinho e proteção num estacionamento de ônibus na Presidente Vargas. Para lá o conduzira, em enorme trapalhada, as forças de segurança. Estava cercado por outros anjos. De anjos que ainda estão aqui. O Filho estava com eles. Disfarçados na multidão, envolvidos por bandeiras de diversas nações, violões e mochilas nas costas, eles cercavam o Papa Francisco com carinho e amizade. E Satanás nem pensou em se aproximar, por que como dizem os que conhecem o assunto: Satanás sabe onde aparece. E ali a coisa não era para ele.
Já em terras brasileiras, o Papa pode dizer a que veio. Anunciar o amor de Jesus Cristo como o bem mais precioso. Isso significa, explicou, respeitar e acolher as pessoas, principalmente os que sofrem ou estão frágeis, perdoar os que erram e não querem continuar no erro. Ajudá-los a ser melhor, não transigir com a indignidade e a dúvida, encontrar sentido para o sofrimento e para o que não se compreende. Por que nós vivemos nessa terra a experiência do fenomênico, mas é no limite do fenomênico que o que está além se anuncia. E é o amor aos homens e ao Pai, o essencial do que Jesus ensinou como exigência absoluta. Essa é a preocupação central da Igreja de Cristo, levar a Sua mensagem a todas as nações. Sem sair do mundo, não perder as referências de amor ao próximo, seguir tranquilo pela vida sem ceder ao ódio, aos impulsos, à fraqueza, ao desespero e à falta de sentido.

Respeitar os homens e sua liberdade como fim e nunca tratá-los como meio, é o modo maravilhosamente simples que a razão humana, pela boca de Kant, sintetizou o essencial da mensagem evangélica.  O céu é em toda parte, basta entrar nele pela elevação espiritual ou moral. E no céu vamos encontrar Deus, atrás de cada rosto que respeitamos, acolhemos e amamos.
                                                                      

                                                                            

sexta-feira, 26 de julho de 2013

JOVENS E IDOSOS - AS DUAS PONTAS DA POPULAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti.




O líder do catolicismo - papa Francisco - encontra-se no Brasil para participar da Jornada Mundial da Juventude. Sua origem cultural, proveniente da ordem religiosa dos jesuítas, o credencia como um expressivo humanista. E, com efeito, o está demonstrando em seus pronunciamentos. Num desses, com exata percepção, afirmou que nas duas pontas da população existem atualmente graves problemas: nos jovens e nos idosos. Nos jovens por que poderá ser uma geração sem emprego e nos idosos por que é uma população vítima de rejeição cultural, a eutanásia cultural.
E o mais fantástico é que insinua que a solução pode estar aí. Conforme ele, se a sociedade aproveitasse a sabedoria dos idosos poderia eliminar os dois problemas. A sabedoria dos idosos poderia encontrar os meios para criar os empregos para os jovens. Com isso, os jovens teriam trabalho e os idosos seriam incorporados culturalmente. Inclusive afirma explicitamente que seu objetivo em vir à Jornada é exatamente este.
 “Estimular os jovens para que se integrem no tecido social, com os idosos. Um povo vai em frente com os dois (jovens e idosos). As pessoas idosas têm a sabedoria, a história, a família, os valores. Todos necessitam disso.” Os jovens, por sua vez, têm o entusiasmo, o arrojo, a criatividade, a vitalidade, a força. A “confusão” entre ambos levará à solução do problema de uns e de outros.
O papa acenou para a Juventude um projeto de vida. Apelou para que maduramente assuma, isto é, tenha consciência e o faça com responsabilidade.
A responsabilidade está intimamente unida à existência. Esta é a essência do homem. Cada homem é o ser que não é, mas que quer ser. Como existência é contínuo projeto. O projeto responsável é a essência do homem e nisto consiste sua existência. O ser humano como projeto vive o futuro. O homem desde que começou a deixar registros de sua existência caracterizou-se por um ser determinado a transpor os limites entre o conhecido e o desconhecido.
Por isso, a Juventude é continuamente um projeto. Como projeto é duplamente responsável. Primeiro, porque tem que perseguir o projeto e segundo, buscar determinado projeto e não qualquer um. Portanto, será sempre uma possibilidade responsável. Quando a possibilidade deixa de ser possibilidade e se torna a realidade ele passa a ser sua existência. Ele se identifica com aquilo que queria ser. Toma posse de seu projeto. A partir de então, alcançou a possibilidade e esta deixa de ser projeto. E novamente há que se projetar outra possibilidade. E neste diálogo (dia logos) o homem se constrói. A construção de um ser autoprojetado somente ocorre pela responsabilidade na escolha de uma entre um turbilhão de possibilidades. Ele somente consegue a unidade quando pondera a multiplicidade de possibilidades e se mantém fiel ao projeto.

E o projeto atual para a Juventude, sugerido pelo pontífice, é unir os dois extremos demográficos: a juventude e os idosos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O País da Cocanha. José Maurício de Carvalho





A história do homem é expressão de seu desejo de mudar o mundo e fazê-lo mais do seu jeito. Toda a criação cultural é tentativa de produzir um espaço melhor onde se possa viver mais favoravelmente do que no ambiente natural. E esse esforço se origina em sua vitalidade, mas precisa se concretizar com esforço e também com inteligência e arte, para tornar real aquilo que se deseja. Esforço necessário não só para mudar a natureza sem destruí-la, mas imprescindível para tornar qualquer desejo uma coisa concreta, real.
O momento pelo qual passa nosso país é especialmente intenso no desejo de mudança. Não é que o país não venha se modificando e melhorando nas últimas décadas, conseguiu estabelecer um forte sistema democrático, mas nossos partidos políticos não funcionam bem; conseguiu melhorar a vida da classe média, mas há ainda milhões em grande pobreza e é enorme a desigualdade social, melhorou o nível de escolaridade, mas nossa escola não tem resultados excelentes. Fez uma tentativa de universalizar os serviços de saúde, mas esse serviço não tem qualidade. Diante da promessa recente dos governantes de que íamos para um tipo de vida semelhante ao das nações mais ricas e desenvolvidas e isso não aconteceu, vive-se momento de frustração, questionamento, manifestações e protestos. Será ótimo se este desejo de renovação se converter em esforço para mudar as coisas, será magnífico se se cobrar do Estado uma atuação mais eficiente. No entanto, nada representará se a sociedade não dialogar direto com as instituições e não tiver metas realizáveis e cobráveis dos gestores públicos.
Os protestos da semana liderados pelo sindicalismo tupiniquim, agressivo e inconsequente, com o propósito de revogar uma muito tímida reforma da previdência social feita em 2003 está entre a irrealidade e a ficção. Todos os países sérios do mundo estudam estabelecer um tempo de trabalho maior para conceder a aposentadoria e nos próximos anos na Europa quase inteira se acordou estabelecer uma idade mínima para aposentar não aos sessenta, mais aos sessenta e cinco anos. Há países como a França que adotarão sessenta e sete anos como idade mínima nos próximos quatro anos. Aposentadoria cedo significa redução dos benefícios. Precisamos pensar esse assunto de forma séria para não mergulharmos na fantasia do país da cocanha. É lamentável que muita gente não tenha entendido que o que se quer é uma mudança para toda a sociedade e não benefícios insustentáveis: ônibus de graça, hospital de graça, tudo de graça. Mas, o que é o país da cocanha?
Na Idade Média, em pleno século XII, em meio às enormes dificuldades existentes: alimentação deficiente, doenças terríveis sem tratamento, brutal diferença social, circulou um poema que anunciava um país imaginário. Era uma terra de abundância onde queijos caiam do céu, havia freiras jovens e bonitas sempre dispostas a oferecer sexo gostoso a todos que desejassem. Esse era o país da cocanha. Nesse país não se envelhecia, não se adoecia  e, que delícia, além de não precisar trabalhar ou se esforçar, as casas, não se sabe como, eram feitas de doce e o vinho nunca acabava. Com a descoberta da América, muitos europeus pouco ilustrados julgaram que os ameríndios viviam num lugar assim.
O que a maioria dos brasileiros deseja hoje em dia é um país onde o Estado funcione: onde os serviços de saúde atentam quem o procure, a escola seja eficiente em sua missão de ensinar, a água distribuída tenha qualidade e os esgotos sejam tratados antes de lançados na natureza. Espera-se que os últimos vestígios do patrimonialismo sejam erradicados para que nossos governadores não achem normal ir de helicóptero oficial para casa de praia, que as políticas de preservação ambiental e do patrimônio funcionem, que os órgãos públicos sejam eficientes. Tudo isso só será possível se cobrarmos resultados dos governantes, trabalho, mas não um país da cocanha, que é um lugar de sonhos onde se goza sem limite.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O URUBU E A POLÍTICA. José Maurício de Carvalho.


Hoje quero expressar minha homenagem a Jean de la Fontaine, o escritor francês que se tornou mundialmente conhecido por suas deliciosas fábulas. La Fontaine viveu no século XVII, nasceu em 8 de julho de 1621 e morreu em 13 de abril de 1695. Ele deu ao classicismo francês grande expressão. Antes de escrever suas instigantes fábulas elaborou contos interessantes onde examinava a psicologia feminina. Ele foi também autor de novelas notáveis como Boccacio e Ariosto (1665) e Os amores de Psique e Cupido (1669). As fábulas de La Fontaine foram reunidas em doze volumes publicados entre 1688 e 1694. Suas fábulas mais conhecidas são: A cigarra e a formiga, O lobo e o cordeiro, A raposa e as uvas e O corvo e a raposa. A marca de La Fontaine são personagens animais com características humanas, especialmente virtudes e vícios. La Fontaine usou seu talento literário para discutir questões morais.
A homenagem ocorre no momento em que estados do sudeste estão alagados pela imprevidência e falta de planejamento dos governos e sociedade. O fato lembrou-me uma história da infância e que era mais ou menos assim: contam que, certa vez, no reino da bicharada a vida na floresta ficou difícil por conta da superpopulação. Bichos muito numerosos estavam com convivência difícil, exigindo leis e ações de planejamento que assegurassem o bem estar de todos. Havia enorme desconfiança dos bichos que ocupavam os lugares baixos da floresta em votar nos que habitavam os lugares altos e vice versa, os que viviam nas águas não confiavam nos que habitavam a terra e estes não queriam entregar o poder administrativo das matas a quem não punha os pés em chão firme.  Apenas a urgência de administrar as dificuldades obrigou a organização das eleições. Depois de muita confusão e um processo eleitoral conturbado venceu o pleito a Coligação Floresta Feliz liderada pelo Urubu, candidato da Vigilância Sanitária (Partido da Higiene), que tinha na Vice-Presidência a Serpente (Partido da Fidelidade) e como conselheira a raposa (Partido da Sinceridade). Estabelecido o governo todos os animais se acreditavam bem representados. Além do mais os políticos prometeram solenemente se comportar, o Urubu a não comer restos públicos, a Serpente a não ser traiçoeira e a raposa a ser transparente nas contas e sincera nas declarações.  
Os animais estavam incomodados porque a destruição da mata ciliar aumentava as enchentes, a venda das árvores para uma carvoaria aumentava a temperatura ambiente e influía no ritmo das chuvas, a falta de preservação das nascentes e esgotos sem tratamento diminuía a água de qualidade. Os eleitos empossados trataram de se arrumar, o Urubu conseguiu morar num condomínio de luxo no único conjunto de árvores ainda preservado, a serpente ganhou um vale preá e a raposa transferiu o gabinete para o galinheiro. Quando veio o tempo das águas nada havia sido feito a não ser as leis que favoreciam a boa vida dos políticos. Sem mata ciliar para proteger os rios a inundação foi grande e o sofrimento da bicharada aumentou. Enquanto isto do alto de sua árvore sua Excelência prometia aos meios de comunicação: ano que vem será tudo diferente, tomarei enérgicas providências. Vou determinar o reflorestamento, usar os recursos públicos na proteção dos rios e cuidarei da qualidade das águas.

Depois de grande sofrimento para a sociedade passou o período das chuvas. Diante do céu azul, o Urubu de asas abertas no lindo sol dedicou-se a comer os restos do exercício anterior. A serpente com estoque renovado de preás e sapos (com o adicional de produtividade) e a raposa com galinheiro cheio cuidavam de encher a pança. E assim viveram os tempos da fartura até que um novo período de inundação se abateu sobre a floresta. Diante do desastre geral a Raposa, em férias no galinheiro da capital foi chamada às pressas para organizar a coletiva de imprensa. A culpa é da natureza, chegou dizendo aflita aos repórteres, as chuvas estão fortes demais este ano. 

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