sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A DEMOCRACIA NO BRETE. Selvino Antonio Malfafatti

 


A primeira-ministra da Dinamarca foi a primeira líder política que publicamente admitiu: “A ORDEM MUNDIAL QUE CONHECEMOS ACABOU”, disse Mette Frederiksen a líderes mundiais em Paris e a estudantes de Ciência Política. No ar ficou a pergunta: virá o quê?

Até a internet o mundo político andava bem: a democracia como fim, através de eleições livres, direitos individuais respeitados, estado de direito sólido.

Esta democracia surgiu após a invenção da imprensa. Através de formadores de opinião eram divulgadas as plataformas dos partidos e os eleitores, com supremos juízes, escolhiam seus governantes. As sociedades ou países que não se enquadravam neste esquema não pertenciam ao escol das nações democráticas.

A reviravolta adveio com a internet. Conforme Jürgen Habermas, a divisão dos poderes e as regras jurídicas conseguiram vingar graças à invenção da imprensa. A difusão através de jornais, panfletos e livros fizeram emergir a opinião pública: espaço intermediário entre o Estado e o cidadão. Pela imprensa os “influencers” de elite podiam informar os cidadãos, proporcionar debates e discutir propostas e programas. 

Com a chegada da internet, popularizada ao extremo, deu voz igualitária ao esclarecido e ao ignorante. Todos podem emitir sua opinião. Conforme Umberto Eco as redes sociaisderamvoz aos ignorantes que foram equiparados a Prêmios Nobels. Já Karl Popper e o filósofo italiano Dario Zntiseri trazem à reflexão a mídia televisiva que se desta pela vulgariade de seus programas. Como consequência a elite formadora de opinião perdeu a força. Em seu lugar ficou ninguém ou todos, pois cada um se sente capacitado não só de ter sua própria opinião, mas de ser o influenciador dos demais. A massa de esclarecidos e não esclarecidos tem sua opinião e forma influenciadores e influenciados. Os partidos são motivo de chacota e os candidatos debochados e escarnecidos. A democracia deixou de ser destino, mas exceção e alvo de atasque. Regimes autoritários a desafiam e apresentam-se como modelos alternativos. Mas o pior: está corroendo por dentro esvaziando-se, perdendo legitimidade. Em locais onde o voto não é obrigatório a abstenção alcança índices de quase 50% de participação. Á era da televisão o antigo modelo ainda conseguiu sobreviver. À tecnologia digital, porém, o sepultou. Foi a vez das redes socais que tomaram conta e mandaram tudo para a lixeira. Estas atingiram a esfera pública e fragmentou-a em microcosmos, fechados e dominados por lógicas emocionais em vez de críticas. O pior: elas se consideram as críticas. Os que ousam encará-las passam a ser rotulados de fascistas, retrógrados e conservadores. A argumentação foi substituída por mensagens curtas, simples e agressivas. Não se objetiva convencer, mas submeter e dominar. Quem não aderir é descartado. Na política é o fim do entendimento e negociação, mas a guerra.

Por fim entra Inteligência Artificial que é a pá de cal ao respeito. Imagens e textos podem ser gerados ao infinito tanto a favor como contra às pessoas ou instituições. Já não se consegue mais discernir o que é informação e manipulação. Neste ambiente como pode vingar a democracia? Como um cidadão consegue exercer sua liberdade quando foi amputada a confiança cognitiva? E se juntarmos a ação dos algoritmos que te oferece o medicamento que agrada e não o benéfico?

Isso nos lembra Leibniz: “virá um tempo em que, em vez de discutir, diremos: calculemos”.  As controvérsias seriam reduzidas a cálculos. A própria inteligência artificial e seu algoritmo se encarregam otimizando as decisões. A Câmara municipal de Gramado (RS) foi a primeira do Brasil a adotar a IA como recurso para decisões para rotina de trabalhos.

Diante disso a democracia liberal, como foi arquitetada com a invenção da imprensa e aperfeiçoada nos séculos subsequentes, poderá sobreviver à comunicação digital de massa? O debate, a discussão, o confronto respeitoso de ideias sobreviverá ao mudo das redes sociais

 

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