sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Considerações sobre a natureza de Jesus. José Mauricio de Carvalho



Num dos trechos mais lindos do Evangelho de João (cap. 21, 26-28), Jesus apareceu aos discípulos e diante de Tomé, que duvidara de sua ressureição, disse-lhe (Jo. 21,27): Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia. Ao que se segue a belíssima resposta de Tomé, síntese da fé cristã (Jo. 21, 27): Meu Senhor e Meu Deus.

 Naquele momento Jesus se apresentava aos apóstolos em sua dupla natureza, a divina e a humana. Era Senhor da Vida e da Morte e possuía um corpo humano glorioso. Os apóstolos compreenderam então todo o mistério que envolvia o mestre querido, mesmo sabendo que Ele era o Filho de Javé. Havia tanta coisa que não entendiam até então. A reaparição de Jesus em meio ao medo, às inseguranças e a falta de rumo mudou tudo. 

Essa verdade experimentada no fundo da alma pelos discípulos de Jesus, contudo, não mereceu de imediato tratamento teológico. Não parece que sentiram necessidade disso, eram testemunhas vivas das duas naturezas de Jesus. Porém, o passar dos anos, diversos grupos cristãos formados em diferentes nacionalidades começaram a se interessar pelo assunto. Alguns entendiam que as duas naturezas existiam separadas, havia um Jesus humano e outro divino. E havia também aqueles que duvidavam da natureza humana de Jesus, outros ainda de sua divindade. O assunto ganhou importância nas comunidades cristãs. E quais as razões da controvérsia? O Evangelho de João dizia que Jesus existia antes de sua vida terrena. O evangelho começa assim (Jo. 1,1-2): No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Portanto, havia duas naturezas, mas elas não possuíam coincidência histórica. 

Na Carta aos Efésios, Paulo falou que Deus nos predestinou ao amor de Jesus, o que confirmava sua existência anterior à vida terrena. Na Carta aos Filipenses, (5,6-7), Paulo escreveu: que Jesus embora sendo Deus, não considerou o ser igual a Deus; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. Assim as duas naturezas não se mostravam juntas e também dava margem a se entender que se tratava de uma única natureza que teve forma humana ou que apenas aparentou ter.

Por volta do segundo século cresceram, entre os cristãos, especulações sobre a vida terrena de Jesus. O Evangelho apócrifo de Tomé narrava fatos extraordinários da infância de Jesus, mas que não conviviam bem com os quatro evangelhos canônicos. O evangelho apresentava um menino milagreiro e encrenqueiro, o que complicava muito a questão teológica e a compreensão da natureza humana de Jesus. Isso para não falar da consciência gradual de sua condição divina, que demandava um cérebro amadurecido.

Aqueles que acreditavam, como o teólogo gnóstico Cerinto, que Jesus era apenas humano, um profeta poderoso, mas não propriamente Deus, estavam mais próximos da ortodoxia judaica.  

Apenas no Concílio da Calcedônia, no século 451, século V, a Igreja oficialmente conseguiu sistematizar essa verdade fundamental do cristianismo. Jesus possuía as duas naturezas e isso se tornou uma questão fundamental da fé católica. Esse reconhecimento nos colocou diante do mais terno mistério do cristianismo, a encarnação do Verbo de Deus. Essa é a festa do natal. Nasceu-nos um Deus menino.

De todas as grandes festas da Igreja, igualmente importantes para o conhecimento do plano salvífico de Deus, o Natal é aquela que mais de perto toca o nosso coração. E o faz pela ternura e significado do que é comemorado. No natal Deus não se apresentou poderoso, altíssimo, cheio de força, glória e esplendor. Ele se apresentou como uma criança comum, cuja vida e vinda era já o milagre. Em cada criança que nasce, Deus continua oferecendo ao mundo a oportunidade do seu Reino, como fez com aquela criança de Belém (Gálatas, 4, 4-5): quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da Lei, a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos.

Na Idade Média a espiritualidade cristã colocou em perspectiva a humanidade e a simplicidade de Jesus, Deus menino. São Francisco de Assis, um dos mais queridos santos da Igreja, conseguiu sistematizar essa devoção medieval montando um presépio. Nele Jesus era apresentado como uma pobre e humilde criança. Através dos frades franciscanos essa devoção ao menino Jesus passou pela França e chegou à Península Ibérica. Sendo cultivada em todos os mosteiros rapidamente se espalhou pela população e se tornou uma das referências da espiritualidade cristã em Portugal e Espanha.

Santa Tereza de Ávila uma outra querida dos católicos, uma santa da Igreja que viveu no século XVI deu o toque final na devoção. Ela teve uma profunda formação cristã e se tornou religiosa Carmelita no Convento de la Encarnación, em Ávila. Conta a tradição que Santa Tereza vestiu, pela primeira vez, o menino Jesus com as roupas reais e a imagem assim vestida. Ela fez o contraponto a Francisco de Assis. O Deus menino era também o rei do universo (Mt. 24,30): “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; (...) e verão o Filho do Homem, vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória.” E assim, como Homem e Deus, a devoção ao Menino Rei do Universo passou a ser cultuada nos mosteiros carmelitas de Espanha e Portugal.

2 comentários:

  1. Jesus Cristo, é o maior exemplo de FÉ, de perdão e amor.

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  2. Cristo compreendeu as lutas, neste mundo de pecadores, foi capaz de entender as fraquezas humanas e com olhar de amor orientar, sem julgar. .

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