sexta-feira, 4 de setembro de 2020

David Hume e as bases do materialismo moderno. José Mauricio de Carvalho – pós doutorando do PPG Psicologia/ NUPES/UFJF.

 


David Hume (1711-1776) foi filósofohistoriador britânico, nascido na Escócia. Ele ficou conhecido na tradição filosófica pela proposta de um empirismo radical e por defender um ceticismo filosófico. Hume foi um dos maiores nomes da filosofia na modernidade.

Como compreender esse seu papel na tradição filosófica? Há quatro nomes essenciais à sua volta que ajudam a entender suas ideias: ele é herdeiro do subjetivismo moderno de René Descartes, mas crítico de seu racionalismo subjetivista; é o ponto de chegada do empirismo e do iluminismo britânicos por continuar a reflexão de John Locke e George Berkeley e ainda o inspirador do filósofo alemão Emmanuel Kant. Não é pouco o que deixou na história do pensamento. Esse último filósofo lhe atribuiu o papel de despertá-lo do sono dogmático por melhor formular o problema da metafísica (Crítica da razão pura, Nova Cultural, 1987 – os pensadores - p. 32) além de ser o responsável pela crítica devastadora da noção de causalidade (p. 26) que exigiu de Kant o desenvolvimento das chamadas formas puras da intuição.

Como o filósofo se relaciona com seus antecessores? Berkeley dera sustentação ao empirismo, mas deixara um resto de pensamento metafísico com o acolhimento das ideias cartesianas de substância pensante ou espírito. Berkeley porém atacara a noção de substância material do cartesianismo, que ficara preservado no empirismo de Locke. Ao radicalizar o psicologismo de Berkeley, Hume destruiu a noção de substância material deixada por Locke e a de substância espiritual, ainda presente nas teses de Berkeley. Em resumo: Descartes dizia existir as duas substâncias (pensante e extensa) mais Deus, Locke concordava com Descartes, Berkeley dizia existir eu e Deus, mas não a substância material. Hume concluiu simplesmente que não há eu, nem mundo, nem Deus.

Como ele propôs e defendeu essas ideias? Empregando um novo método de investigação que associou os dados da sensibilidade às ideias que temos. Assim se experimentamos uma impressão (ou dado sensorial) pelo contato com o pôr do sol, por exemplo, mais tarde poderemos lembrar desse astro e formar dele uma ideia. Temos aí uma ideia simples que nasce do contato direto com a coisa. E como concebemos as outras ideias não associadas às impressões sensíveis? Como formamos a ideia de substância, acima mencionada, seja ela material ou espiritual, como ela surge? Hume avaliou que ela não veio de nenhuma impressão que recebi, nem a reunião delas. Ele concluiu que ela é fruto da imaginação, o que equivale a dizer que é uma ideia fictícia, uma criação do homem. Se não acho no mundo uma impressão para a substância material, ele disse, também não encontro nenhuma impressão para associar ao eu. O que se denomina assim é um conjunto de vivências interiores, mas não há propriamente um eu observado nelas. Assim chegamos às ideias complexas.

Essas ideias complexas, por exemplo: substâncias, eu, causa, realidade não são, entretanto, uma criação a esmo da imaginação. Em sua vida prática, o homem observa uma certa regularidade no mundo e se vale dela em sua vida. Logo que acende o fogo, observa a claridade e sente o calor, então, por conta da associação psicológica desses estímulos, afirma que luz e calor foram causados pelo fogo. O que permite associar essas coisas é, contudo, apenas o hábito. Em outras palavras temos uma certeza psicológica. Não há propriamente um vínculo metafísico entre elas, ou eu não posso concluir isso pelo que é possível experimentar no mundo.

O que nos ficou das meditações desse filósofo? Há quem destaque o seu ceticismo destruidor da metafísica, das ideias sobre espiritualidade e todas as ideias complexas. Porém não se pode considerar nesse ceticismo apenas seu caráter demolidor, ele possui também uma dimensão crítica, pois aprofunda os mecanismos de operação do intelecto.

Hume é o ponto de chegada do empirismo inglês e defensor de um psicologismo que estabeleceu no costume e no hábito a base do pensamento científico. Ele fez isso considerando verdade as regularidades obtidas com a observação. E justamente por defender esse psicologismo radical, consideramos o filósofo como o ponto de partida do positivismo e do materialismo modernos, não porque Hume acreditasse na possibilidade de uma resposta metafísica para o problema da realidade, mas por que disse que realidade é o que se obtém com a associação dos dados da sensibilidade. E isso foi decisivo para que parte dos cientistas deixasse de lado qualquer questão metafísica ou espiritual, parecendo-nos a raiz do movimento moderno que Martin Buber denominou de eclipse de Deus no mundo ocidental. Esse movimento suprimiu adicionalmente a linguagem metafísica e da psicologia espiritualista do pensamento ocidental. O movimento identificado por Buber mostra como o pensar, conforme categorias materialistas, suprimiu (O eclipse de Deus, Verus, 2007, p. 19): “a ideia de Deus e, dessa forma, também a realidade de nossa relação com Deus.” Além disso, antecipou o simplificador discurso da inutilidade da filosofia, discurso ingênuo que não se dá conta de que é ele próprio metafísico, mas bem ao gosto do anti intelectualismo das massas de nosso tempo.

Esse movimento começou com a valorização dos sentimentos e instintos que, conforme Hume, está na base da vida prática, do utilitarismo inglês e da moral da simpatia. Essa moral foi a forma pela qual o empirismo de Hume chegou ao mundo do trabalho e do mercado. Simpatia, resumiu Adam Smith é o sentimento que me permite olhar para mim mesmo com os olhares dos outros e me julgar segundo a expectativa que eles têm de mim. Ortega y Gasset fez uma crítica demolidora a essa forma de comportamento que me leva a querer ser como todo mundo e a agir como todo mundo, mas isso é tema para outro dia.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SONHO E REALIDADE DO HOME OFFICE . Selvino Antonio Malfatti- professor titular aposentado da UFSM.

 


Quando o Home Office, antes do Cobiv-19, era apenas uma possibilidade, uma prospecção, diga-se, uma hipótese, os efeitos perversos não se evidenciavam e ansiava-se, por isso, para vivê-lo na realidade. Imaginava-se um m undo de tempo liberados, solto das amarras do tempo e lugar, uma vida de trabalho livre, imaginado desde os tempos remotos nos quais máquina e homem juntavam-se no dia a dia no cumprimento das tarefas profissionais. Pensava-se que o novo mundo podia ter suas desvantagens,  mas eram facilmente superáveis. Previam-se as principais mudanças: as formas contratuais e as tarefas. Mas, com generalização da pandemia, tudo mudou e acordados dos sonho escancarou-se a nova realidade.

O Forum de Davos, de 2020, previu uma redução de 7.1 milhões de vagas de trabalho, a maior parte nos setores administrativos. No mesmo período haveria um aumento de 2 milhões de vagas no setor de tecnologia, matemática e engenharia. Vê-se que a defasagem seria de 5,1 milhões de vagas de trabalho.

A tendência continuava sendo a substituição do homem pela máquina nos postos de trabalho, aliás, a constante desde a Revolução Industrial.

E se olharmos para uma previsão mais futura, para a década de trinta, ocorrerá até mesmo a substituição do homem pela máquina em setores que se poderia considerar monopólio da atividade humana: agricultura, pesca, manufatura e até mesmo o comércio.

Projetou-se para os setores de educação e saúde ainda eram imunes. Os cuidados com a saúde, mesmo as coadjuvadas pela tecnologia biomédica parecem que por ora não poderão dispensar a presença humana no atendimento do paciente. Da mesma forma na educação pareia que, por enquanto, não se poderia dispensar professores de quadro-negro. Menos ainda provável se podia imaginar a substituição de um psicólogo por uma máquina de auscultar na terapia. No entanto, as consultas por vídeo conferência estão aí. Eu mesmo já utilizei.

No entanto educação e saúde foram os setores que mais foram afetados pela atividade virtual. As aulas passaram a ser ministradas por vídeo conferência, wbcam, zoom, lives  e outros programas disponibilizados aos alunos. Deixaram de ser presenciais e passaram a virtuais. Na época questionou-se  se a política estava preparada para tal guinada?

A educação e a saúde estão prevendo estas mudanças e provendo o fechamento das lacunas? O poder público, o Ministério da Educação e Ministério da Saúde, estão atentos a estas demandas que baterão à porta? O que se está fazendo para preparar as próximas gerações perante as demandas que estão chegando rapidamente?

Com a chegada da pandemia o comércio foi um dos setores que mais rapidamente reagiu até chegar ao e-comércio. Sempre mais empresas estão investindo sobre as vendas online através de entregas diretas ao consumidor drive thru. Gerentes administrativos de e-comércio atualmente já estão consagrados.

Somos hoje em dia uma sociedade informatizada, desde os celulares, até os computadores de grandes empresas administrativas. Cada minuto são criados, imaginados e compartilhados milhões de dados. Os bancos transformaram-se em online, Bastou um aplicativo para que o bando coubesse na mão de cada cliente.E até mesmo dados ultrassensíveis  são difundidos, como cirurgias à distância.

O que ninguém esperava é que estas mudanças viessem compulsoriamente. Bastou uma pandemia para mudar tudo. Isto aconteceu em meados de março de 2020. As principais empresas transferiram dispensaram seus empregados de seus escritórios e deixaram as tecnologias separadas de seus operadores. Trabalhadores em casa e tecnologia nos escritórios. Os empregados passaram a trabalhar remotamente de dentro de suas casas.

No Brasil, 20,8 milhões de pessoas passaram a trabalhar no regime de Home Office, aproximadamente 22,7% dos postos de trabalho. Profissionais ligados à ciência e intelectuais logo se adaptaram, seguidos de diretores e gerentes, de apoio e administrativo e técnicos de nível médio.

Quando os empregados, agora em casa, que são também pais, maridos, filhos, genros etc. abrem seu laptop, imediatamente duas crianças postam-se uma de cada lado e começam as perguntas. Enquanto isso, a esposa, na mesma situação, pergunta da cozinha:

- O que faço para almoço?

A partir daí começa o calvário, os efeitos não desejados do Home Officer? Listados, quais os mais citados:

- A DESPREPARAÇÃO para operar as máquinas. Nem todos estão preparados, além disso, há desproporção de aprendizado. Uns dominam mais outros menos. Daí nasce um descompasso no ritmo de trabalho e produção entre uns e outros.

- SINTOMAS “DAS SOMATIZAÇÕES”.  Problemas digestivos, ciclo de sono, alimentação, descanso. As pessoas começam a perceber o aumento dos níveis de colesterol, triglicerídeos. Apresentam-se problemas de artrose e perda de mobilidade.

- HORÁRIOS ESTENDIDOS. As pessoas passam a trabalhar mais, na hora de refeições, viagens, descanso, lazer. Estão continuamente conectadas ao trabalho. Antes o trabalho tinha um lugar e um tempo. Agora é contínuo em toda parte. Agora voltamos para solidão, sem encontros informais e conversas na roda de café.

- ALÉM DO TRABALHO PROFISSWIONAL soma-se outros, como tarefas escolares dos filhos, teletrabalho, videoconferências, tudo ao mesmo tempo.

- DESMOTIVAÇÃO. O estresse e a monotonia das atividades deixam de ser atraentes e ja se tornam monótonas.

 

 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Descartes e a Filosofia Moerna. José Mauricio de Carvalho – Pós doutorando do NUPES/UFJF.

 

René Descartes, nasceu na França, em La Haye, em março de 1596 e morreu em Estocolmo, em fevereiro de 1650, antes de completar cinquenta e quatro anos. Foi filósofo, físico e matemático e é considerado o pai da filosofia e da matemática modernas. Também é conhecido pelo nome latino Renatus Cartesius.

Como matemático, Descartes aproximou a álgebra da geometria, o que lhe permitiu criar o sistema de coordenadas que ficou conhecida com seu nome. Apesar de seus estudos matemáticos serem relevantes, nossa atenção, nesse texto, estará voltada para sua contribuição ao pensamento filosófico e para o aprofundamento dos problemas culturais dos séculos XVI e XVII. Conforme resumido em História da Filosofia e Tradições Culturais (Porto Alegre, EDIPUCRS, 2001. p. 191): “A filosofia parece-lhe, legítima ciência, porquanto examina o princípio que garante o funcionamento da razão.”

Nos séculos XVI e XVII surgiu e se consolidou na Europa a ciência moderna na esteira do humanismo renascentista. Os dois problemas fundamentais do período, como sabemos eram o da justificativa de construção dos Estados Nacionais e, especialmente, a fundamentação epistemológica da ciência moderna. Os filósofos foram desafiados a explicar o processo político e, principalmente, fundamentar a nova forma de fazer ciência, diversa da praticada na antiguidade e Idade Média. Estavam, sem síntese, diante do desafio de explicar porque, no âmbito do conhecimento, a ciência moderna conseguia se apresentar como verdade que tranquilizava os espíritos.

Como se sabe (id., p. 181): “o século XVI foi um tempo de mudanças na cultura ocidental. As navegações revelaram um mundo diferente do descrito nos livros, a experiência direta mostrou-se importante fonte de informação para conhecimento do mundo, e, com ela, os paradigmas para o entendimento da realidade cósmica se modificaram.”

No que tange à fundamentação dessa nova forma de compreensão da realidade cósmica, Galileu Galilei articulou os métodos indutivo e dedutivo num novo ordenamento no estudo da natureza, capaz de fornecer um outro paradigma para entendimento do mundo natural. Dessa forma, o método científico pediu não apenas uma justificação epistemológica, a razão pela qual é válida a nova forma de conhecer o mundo, quanto metafísica, porque trazia uma nova maneira de percepção do cosmo, tema de nossa última exposição nessas meditações filosóficas. Essa nova compreensão da realidade natural suscitou ainda uma questão antropológica, o que é o homem nesse mundo descrito pela ciência? Ele se submete às mesmas leis da natureza ou tem algo que o singulariza dos seres naturais? São diversas questões. Descartes encontrou para elas uma resposta de síntese: o homem é parte natureza e parte pensamento ou espírito, realidades diferentes com funcionamento diverso. Portanto, ele esclarece, o homem é um ente dual no qual se somam sua realidade material (res extensa) e a dimensão espiritual (res cogitans), irredutíveis uma à outra.

Descartes chegou a esse dualismo não estudando o funcionamento do mundo natural, mas se perguntando pelo fundamento do conhecimento. O que assegura o conhecimento e o torna válido? A certeza subjetiva obtida de forma clara e distinta. Como ele chegou a essa conclusão? “No Discurso do Método (1637), ele explicou o significado dessa tarefa: a busca de um procedimento de investigação capaz de dar unidade ao saber. O novo método devia substituir o escolástico, que não se ocupava da experiência.” Esse novo método para pensar o mundo era diferente do que fora desenvolvido pelos cientistas naturais: Bacon e Galileu, embora não fosse incompatível com as investigações dos cientistas. Devido a sua formação matemática, Descartes recuperou a questão trabalhada por Galileu Galilei. Como se poderia proceder, perguntou Descartes, para se compreender a realidade? Sua resposta foi: partindo-se de um princípio inquestionável do qual fosse possível deduzir outras verdades? Será possível obter um tal princípio? Como?

Para responder a essa questão, o filósofo começou duvidando de tudo, elevando a dúvida ao máximo grau e concluindo que todos os conhecimentos eram falsos ou poderiam sê-lo. Porém, esse momento de dúvida extrema lhe ofereceu uma única certeza, a saber, é possível se enganar sobre tudo, menos sobre a existência da consciência que duvida, pois se ela não existisse não poderia duvidar. Chega, então a uma intuição fundamental na quarta parte do Discurso do Método, não a uma dedução, mas a uma intuição: penso, logo sou, ou ainda melhor: penso, sou. Há em mim uma consciência que, independente do objeto do pensamento, permite chegar a essa certeza básica. Dela é possível extrair uma fórmula de certeza: é verdade tudo aquilo que se mostra para minha consciência de forma clara e distinta, tanto como intuo a minha própria existência. Assim, a dúvida hiperbólica do início da investigação levou a uma certeza inquestionável: a realidade da consciência subjetiva. Isso coloca como certo que o verdadeiro é aquilo que a razão me propõe como tal, nada mais, apenas aquilo que aparece na consciência de forma clara e distinta.

O legado cartesiano foi percebido de forma diversa nas diferentes tradições filosóficas, na Inglaterra foi apreendida pelas reflexões sobre a experiência no desenvolvimento do empirismo e na França e Alemanha do racionalismo. Em Portugal, o racionalismo cartesiano levou ao acirramento da moral contra reformista como foi explicado em Caminhos da moral moderna, a experiência luso-brasileira (Belo Horizonte, Itatiaia, 1995), mas não temos como entrar sem tema de forma rápida.

Toda a meditação cartesiana, em que pese suas limitações e problemas discutidos ao longo de toda Idade Moderna, nos coloca diante de uma questão atual recuperada pela fenomenologia: o homem possui diferentes dimensões e não pode ser considerado um ente puramente espiritual ou simplesmente material.


 

sábado, 15 de agosto de 2020

O SHOAH - DE DEMONÍACO A ROMÂNTICO-CÔMICO. Selvino Antonio Malfatti- Professor titular da UFSM.

 

Depois do que tudo foi dito, mostrado, escrito, representado, filmado, imaginado sobre Shoah haveria lugar para mais?

Quando se surpreende algo desconhecido, original, oculto, na história, filosofia ou mesmo ciência abre-se aos olhos a uma nova visão, como o Homem da Lenda da Caverna. A exclamação: “como não tinha visto antes?” Diz meu colega filósofo José Maurício de Carvalho: “À medida que avançam os anos e as pesquisas, mudamos o olhar para o passado e ele começa a ficar diferente quando fica iluminado pelos novos estudos. Em outras palavras, quanto mais sabemos do passado mais diferente ele nos parece do que dele nos fora dito.”

Foi o que aconteceu com Frediano Sessi (AUSCHWITZ,1940-1945) ao reestudar Auschwitz, precisamente nos anos Sessenta quando a Alemanha resolveu refletir sobre si mesma e o que foi o Genocídio do Povo Judeu, conforme atesta Marcello Flores. Sessi debruçou-se sobre o cotidiano, o habitual, o dia a dia. Conseguiu com isso, visualizar as rebeliões contra o SS, que as vítimas não foram tão dóceis como geralmente descritas.

Na verdade firam necessários oitenta anos para saber mais e melhor o que de fato aconteceu em Auschwitz. Este acontecimento foi um dos mais trágicos da História, a própria personificação da política nacional-socialista e tentativa em parte bem sucedida de exterminar com os judeus não só na Europa, mas da face da terra. Se perguntássemos a estudantes e mesmo a historiadores o que foi Auschwitz é muito provável que obteríamos respostas vagas.

Frederico Sessi, precisamente no ano de aniversário da abertura do campo de concentração na cidade polonesa de Oswiecim defronta-se com uma síntese ampla e exaustiva do volume Auschwitz (da ed. Marsílio) para compreender o significado daquele nome e antever quanta história naquele símbolo, a referência a uma tragédia, sobre os quais se interrogaram filósofos e teólogos, políticos e cientistas sociais sem nunca ter colimado – de modo convincente, coerente, completo – o drama daquele acontecimento histórico.

O que acontece quando uma nova realidade da pesquisa histórica, confrontada com a existente não  fecham entre si? É preciso proceder a uma exumação do cadáver e voltar à estada zero nas conclusões. Foi precisamente o que aconteceu com a pesquisa de Sessi.Foi necessária toda uma revisão das conclusões.

A peculiaridade de Sessi reside na singeleza da narrativa factual. Dotado de uma linguagem acessível, não deixa de enfrentar questões complexas, sem necessidade de elucubrações filosóficas e teóricas, o que muitas vezes é sinal de conhecimento deficiente sobre o objeto.

Na primeira parte, o texto de Sessi parte de questões simples como a fundação do campo de concentração e sua estrutura organizativa. Desenrola-se o cotidiano (comida, vestuário, trabalho, doenças)  surpreende a complexa realidade que lança luz sobre aspectos pouco visíveis (médicos detidos, a visita da Cruz Vermelha, a sexualidade, os quais nos adentram para a “normalidade” do universo carcerário da concentração.

A segunda parte pode ser considerada o miolo duro dos campos. São mencionados e analisados os extermínios, os locais onde isso acontecia, o pessoal do SS, a agonia e os últimos momentos de vida das vítimas, as divisões em categorias, o destino das mulheres e crianças entre outros.

Sessi se detém com mais atenção sobre os Sonderkommando, isto é, nazistas encarregados de recrutar dentre os prisioneiros – geralmente novatos – para execução de tarefas sigilosas, como câmaras de gás e crematórios. Sobre este assunto são escassas as informações por que os algozes não fotografavam o que faziam e de tempos em tempos os comandados eram mortos e substituídos por novos novatos como aconteceu na rebelião de 1944.

Foi graças à pesquisa de Sessi, a imersão no cotidiano do campo de concentração, que ficou evidente a falsa ideia da resignação pacífica das vítimas à morte. O capítulo que trata das “resistências”, caracterizadas por atitudes individuais e de pequenos grupos, a maioria das vezes fracassadas, demonstra que a falta de liberdade provoca revolta, rebelião e espírito de solidariedade, mesmo em condições de extrema submissão e escravidão, como atesta Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz.

O enigma do por que do “esquecimento” foi baseado naquilo que pode ser chamado de sublimação do “crime mais demoníaco”, conforme Primo Levi. Acontece que os acontecimentos passaram para os museus, as memórias das vítimas e algozes. A representação nos deu, cinema, literatura, música, inclusive um filme romântico-cômico, como A Vida é Bela, modelo perfeito de deturpação histórico-literária.

 

shadoDepois do que tudo foi dito, mostrado, escrito, representado, 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O humanismo renascentista de Mirandola. José Mauricio de Carvalho – Pós-doutorando do NUPES/UFJF


Ao olharmos para a tradição filosófica acabamos envolvidos com o problema de encontrar nesse passado da Filosofia algo que ajude a entender o nosso tempo e seus problemas. Isso parece mais ou menos evidente, mas merece atenção. Só se as filosofias de outros tempos puderem inspirar nossas questões atuais isso dá sentido a esse olhar para o retrovisor da História. Muitos filósofos já disseram que a Filosofia não é uma coleção de pensamentos mortos, mas uma especulação que embora tenha proximidade com os problemas e a visão de certo tempo, possui um elemento original e imprescindível que reaparece a cada tempo e inspira as gerações. Cada filosofia realiza esse encontro com a originalidade da verdade que se encontra subjacente a cada tentativa dos filósofos. E é isso que temos que ir buscar em cada uma delas.

 

 Quando olhamos o final da Idade Média e início da modernidade, encontramos uma visão de síntese com elementos da ciência moderna emergente, do pensamento filosófico de então e da fé religiosa. O humanismo renascentista que nasceu do diálogo com os clássicos (Antiga Grécia e Roma) permitiu uma síntese entre esses vários elementos culturais. Isso significa que, na perspectiva daquela geração dos séculos XIV e XV, a ciência não nasceu e não precisava ser feita contra a racionalidade filosófica e nem contra a fé religiosa. Ali encontramos um humanismo que conseguiu agregar essas várias dimensões do espírito: razão experimental, especulativa e fé. O que foi mesmo aquele humanismo? Há nele lições importantes para o homem contemporâneo? Vamos responder a essas perguntas recordando as reflexões do filósofo neoplatônico Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494).

 

Entre os diversos humanistas do período como Francesco Petrarca (1304-1374), Leonardo Bruni (1374-1444), Mario Nizolio (1498-1576), Miguel de Montaigne (1533-1592), queremos destacar a contribuição de Pico della Mirandola porque ele combinou a reflexão filosófica com as conclusões da teologia da época. Em seu texto mais conhecido o Discurso sobre a dignidade do Homem (1486) ele procurou resumir o que era essencialmente o homem. Mirandola escreveu qual era o destino do homem enquanto construtor da história como se segue (MIRANDOLA, São Paulo: GDR, 1988, p. 6): “tu, porém, não estás coartado por amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei, hás de determinar a tua complexão pessoal.”

 

Nessa citação, o filósofo tratava da liberdade humana de uma forma que fora inicialmente pensada como atributo de Deus. Mirandola ajustou a ideia de liberdade para se ajustar a forma como o homem pode usá-la. A vida do homem encontra-se em suas mãos, dizia. A liberdade por ele apregoada realçava a possibilidade de escolher um caminho existencial, consistindo nisso a singularidade e dignidade humanas. O que diferenciava o homem dos outros entes não era a pura racionalidade, como preconizara Aristóteles, pois isso deixaria os seres espirituais em melhor condição, mas a liberdade para criar uma vida singularíssima e dar-lhe a direção desejada rumo ao futuro ao futuro.

 

No livro O Homem e a Filosofia há um comentário dessa obra e da contribuição de Mirandola que passo a citar (Porto Alegre: MKS, 2018, p. 168/9): “O homem era, nesta interpretação daquele humanista renascentista, aquele ser que usa a razão para criar a si mesmo e melhorar sua natureza animal. A ideia de liberdade forjada pelo filósofo italiano deixou essa lição instigante, o homem pode construir sua existência. E, nesse sentido, ele é criador como Deus ou co-criador junto com Deus, pois é o responsável pelo seu destino. Ele divide com Deus esse importante atributo: a liberdade. Naquele momento da história dizer isto significou que ele podia mudar para melhor a natureza de que fora criado. É verdade que o pensador ainda tinha Deus como referência, mas já fazia a dignidade da criatura depender mais do que ela fizesse. Não fechava os olhos para o fato de que os homens podem dominar, matar, escravizar, mas acenava para uma possibilidade de autocontrole dessa sua natureza violenta. Ele indicava, ainda, a possibilidade de cada homem poder se valer de uma interdição de natureza moral e se guiar por valores que a razão e a cultura lhe apontavam. O pensador tanto se refere ao sujeito singular como ao homem, em geral, membro de uma sociedade. Como membro da espécie cada sujeito é igual a todos os outros, mas como indivíduo é único, e pode construir seu futuro. Neste sentido, a espécie é portadora de esperança, seus membros podem fazer boas escolhas. Quando, diversamente, escolhe mal a humanidade se torna indigna do seu Criador.

 

A obra de Mirandola mostrou que o homem é aquele ente que constrói o seu mundo. Ao pensar o homem como senhor de seu destino, Mirandola reconhece-lhe uma dignidade que não está em outros entes. Retirada as referências metafísicas da época e afastada das crenças renascentistas, as análises de Mirandola emergem plenas de significado e atualidade em nossos dias.”

 

E onde foi resgatada as lições desse humanismo? Ela reaparece na tese existencialista de que o homem é quem faz seu destino e é fruto de suas escolhas. A existência humana única e singular, realiza um projeto ou sentido, foi o tema de Ortega y Gasset e Viktor Frankl. Em outras palavras, não importa de onde esteja partindo, não importa o quanto se desviou do mapa interior que tem inconsciente, cabe ao homem viver por um sentido único. O esforço para construir a singularidade acaba fazendo efeito. A singularidade existencial, reconhecida como jornada única e responsável e que aparece nessa meditação de Mirandola como um valor é um legado importante do filósofo italiano.


 


sexta-feira, 31 de julho de 2020

SOCIEDADE LIQUIDA . Selvino Antonio Malfatti






A transição da modernidade para o pós-modernidade pode ser caracterizado pela passagem do status de segurança para o da insegurança. Enquanto predominava comportamentos previsíveis  portanto, tinham a garantia de segurança. A sociedade sentia-se protegida e confiante. E nela os indivíduos sabiam o que ia acontecer e por isso sentiam-se seguros. Quando, porém, os comportamento ora eram “A” ou “B” ou nenhum deles os indivíduos não sabiam mais como responder. Se não acertassem a resposta sentiam-se excluídos e tanto fazia se eram de fato, pois psicologicamente sentiam-se. Esta sensação levava à exclusão.
Quando uma sociedade transpuser o limiar do sólido para o líquido, a condição efêmera do sólido em relação ao liquido conjuga condições para que a rapidez das mudanças sejam tais que mal o mutável consegue institucionalizar-se deve assumir novamente a forma de mutável, e em seguida buscar novamente novas formas de sólido. A dialética do sólido e do liquido assumem a mutabilidade e imutabilidade permanente. Nesse sentido as escolhas individuais, instituições que asseguram a segurança nas repetições, padrões de comportamentos são visceralmente provisórios.
A separação e o divórcio entre poder e política faz que a ação de ambos não seja mais harmônica e de divisões de funções, mas de intromissão mútua, de abandono ou abdicação. O Estado perde a força de ação política global em detrimento do esfacelamento do poder. Este espaço vazio de política e poder são invadidos e ocupados pelo poder econômico, que opor sua vez transfere para o mercado e este para o privado aos cuidados dos indivíduos.
O espaço público, garantido pelo Estado, encarregado da segurança individua e grupal privado, perde espaço em favor de outras formas de proteção, nem sempre reconhecido como segurança pública. Em vez de uma estrutura social é vista e tratada como uma rede de conexões e desconexões.
O planejamento em longo prazo cedeu lugar às soluções pontuais. Com isso perdeu-se a continuidade e poder público perde-se na solução de problemas fragmentados em vez de uma ação global, em vez de atuar verticalmente opta por políticas horizontais.
Circunstâncias voláteis e variadas são jogadas nos ombros dos indivíduos os quais devem agir como por conta própria e arcando com as consequências. Em vez de ações previstas e esperadas, prefere-se às iniciativas improvisadas, as quais os responsáveis devem arcar com as consequências. (BAUMAN, Tempos Líquidos.)
É o conceito básico da teoria de Zygmunt Bauman. A modernidade líquida é o desmoronar da certeza, da segurança e sólido. A certeza do período sólido cedeu lugar à dúvida, a política do bem estar foi substituída pelo extravio do caminho. As conquistas do passado entraram em contestação, escárnio, até se tornarem pó. É como uma personalidade respeitada, venerada, quase adorada depois de cremada, tem saldo zero, só pó. O Estado perante a globalização tornou-se uma estátua impotente, o indivíduo separado da comunidade que o protege e a sociedade um faz de conta que ora é, ora não é, ora realidade, ora miragem. Se a observarmos vemo-la como um estômago consumista, sem coesão dominada por um individualismo, antagônico e hedonista. Avançamos sem finalidade diz Bauman.
Um das questões para as quais Bauman dá ênfase é o convívio social em grandes cidades, fenômeno este irrompido depois da metade do século XX. São os grandes conglomerados que substituíram as comunidades pequenas. Enquanto estas proporcionavam segurança aos indivíduos, as grandes cidades, as cidades globais, ao contrário produzem medo. Nestas cidades globais substituíram a fraternidade com solidariedade, pelo estranho conhecido, um inimigo potencial ou real. Este novo convívio produz solidões, convivência não mais fraterna, mas entre estrangeiros, desconhecidos e perigosos, por que não é conhecido. A própria arquitetura urbana separada em bairros, habitados por desconhecidos, produz uma situação hobbesiana na qual, todos são inimigos e em guerra mútua.
 A homogeneidade social do espaço, enfatizada e fortalecida pela segregação espacial, reduz a tolerância de seus moradores à diferença e assim multiplica as possibilidades de reações mixofóbicas, fazendo avida urbana parecer mais “propensa ao risco” e, portanto mais angustiante, em lugar de mais segura, agradável e fácil de levar. 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

O reencontro homem moderno com o mundo natural. José Mauricio de Carvalho – pós-doutorando do NUPES/UFJF


Quando tentamos fazer síntese do que houve num século ou num tempo ainda mais extenso que uma centúria, corremos dois grandes riscos. O primeiro é saber como bem caracterizar e apontar o essencial de um período tão longo. O segundo é a superficialidade e o engano porque à medida que avançam os anos e as pesquisas, mudamos o olhar para o passado e ele começa a ficar diferente quando fica iluminado pelos novos estudos. Em outras palavras, quanto mais sabemos do passado mais diferente ele nos parece do que dele nos fora dito. Para falar do novo olhar para o mundo natural, próprio do homem no início da modernidade, temos que ter uma boa compreensão do universo cultural europeu dos séculos XVI a XVIII separando dois momentos: uma primeira metade com a ênfase nos estudos de matemática e uma segunda com os trabalhos de Física. Porém, não se pode começar a falar desse novo olhar para o mundo natural sem voltar mais para trás e é isso que procuraremos fazer a seguir.

O século XVI, e seus estudos de matemática, foi preparado pelo século anterior. Leonardo da Vinci (1452-1519) e seus contemporâneos, como Nicolau Copérnico (1473-1543), viram que a razão podia identificar os segredos do mundo e o reconstituíram com o cálculo, não mais necessitando voltar à experiência. Na esteira dessas ideias, foi que mais tarde Galileu Galilei (1564-1641) afirmou que a matemática era o alfabeto do mundo. A medida e a representação matemática da natureza foram as bases da nova ciência que nasceria em seguida. Foi nessa perspectiva que Kepler (1571-1630) descreveu o funcionamento do sistema solar, destruindo de uma só vez, a cosmologia antiga de Aristóteles e a visão medieval da natureza. Adicionalmente estimulou novas formulações filosóficas a partir do heliocentrismo. Note-se que todos esses homens não contestavam a Teologia, nem a Filosofia. A autonomia dos estudos da natureza deixava, ao contrário, mais consistente a Filosofia e a Teologia do que as antigas formulações escolásticas, pois as construções medievais amarravam os dois mundos: o da natureza e o da transcendência.

Na segunda metade do século XV, Pico della Mirandola (1463-1491) ajudou a preparar o novo momento combinando a ideia de racionalidade, resumida pela filosofia da época, com a noção teológica de criatura de Deus. (CARVALHO, O homem e a Filosofia, Porto Alegre: MKS, 2018, p. 168): “Ele escreveu em A dignidade do Homem (1988) qual era o destino humano naquele novo tempo que se iniciava: tu, porém, não estás coartado por amarra nenhuma. Antes, pela decisão do arbítrio, em cujas mãos te depositei hás de determinar a tua complexão pessoal.”

O surgimento da ciência moderna foi preparado, portanto, nos séculos XIV e XV pelo legado de homens como Mirandolla, Leonardo da Vinci e Nicolau Copérnico. Ele foi um período de transição para uma nova maneira de compreender o mundo. Esses dois séculos se seguiram aos quatrocentos ainda cheio de grandes construções metafísicas, lembro de Alberto Magno, Roger Bacon e Guilherme de Ockam. A característica mais marcante desses dois séculos foi a investigação autônoma do funcionamento da natureza. Note-se que, nesse estilo de compreensão do mundo natural não há espaço para o ateísmo, antes nota-se a importância e significado da presença de Deus, além de não se contestar o valor da Filosofia. O que então se fez foi olhar mais atentamente o funcionamento do mundo, não ainda como na ciência moderna, mas já preparando a nova mentalidade.

Se o ideal da ciência nos quatrocentos era ainda descobrir a essência pura das substâncias, com a perspectiva copernicana, trabalhada nos séculos XVI e XVII por Kepler e Galileu, esse propósito mudou na direção apontada pelo método experimental. Esse método consistia na observação dos fenômenos naturais, sua tradução em relações quantitativas e numéricas, a formulação de hipóteses explicativas dos futuros fenômenos (indução) e a verificação da hipótese com o cálculo. Se o fato observado e o cálculo chegam a resultado igual, criava-se uma lei válida para explicar a natureza.

Embora atento aos movimentos do mundo, o homem dos séculos XIV e XV fora marcado pelo humanismo, não mais o cristão da Idade Média, mas o da antiguidade clássica, redescoberto junto ao esforço de valorização das realizações humanas. E esse homem, olhando para o mundo clássico, desenvolveu um novo olhar para as relações de fé. Em que pese a existência das novas religiões cristãs, provocando o cisma da cristandade medieval, popularizou-se a ideia de uma religião natural e um direito natural, ambos acima das diferentes religiões e dos sistemas positivos do Direito. Essa forma de ver a religião ajudou a entender verdades naturais que não separavam, mas aproximavam as religiões. Quanto ao jusnaturalismo moderno, no século XVII com Samuel Puffendorf ajudou não apenas na formulação dos códigos de Direito, mas na organização do Estado Moderno sob bases diferentes da medieval. Como se encontra em O Homem e a Filosofia (Porto Alegre, MKS, 2018, p. 277): “No início da modernidade a consciência da diferença entre ética e política provocou uma crise, pois significou uma mudança radical no modo de pensar da Idade Média. Porém, aos poucos foi possível compreender a singularidade da Política.” Muito interessante que o Leviatã, livro de Thomas Hobbes (1588-1679), embora ainda concebido sob a noção de poder absoluto, admitiu um acordo onde as pessoas renunciavam ao interesse próprio em nome dos benefícios de todos e logo depois, um ajuste nessa teoria do contrato social, permitiu passar do absolutismo de Hobbes para o liberalismo e a ideia de tolerância desenvolvida por John Locke (1632-1704).

Os séculos XIV e XV prepararam, portanto, o desenvolvimento da razão experimental, afirmaram a dignidade e valor do homem com a recuperação do platonismo, contestaram a leitura de Aristóteles, popularizada na Europa Medieval, por Averróis. Ambas as coisas propiciaram, não eliminar Deus do espaço cultural, mas desnaturalizá-lo e construir uma nova ciência e um novo espaço social para substituir a cristandade medieval.

As diversas leituras e releituras feitas por especialistas desses movimentos intelectuais da modernidade mostraram que embora a ciência nunca tenha contestado a fé ou o funcionamento da razão, houve uma filosofia que começou a fazê-lo, séculos mais tarde, o positivismo. Na esteira do positivismo, já na segunda metade do século XIX, desenvolveu-se uma teoria materialista da ciência que foi nessa direção.

Na segunda parte do clássico Eu e Tu, Martin Buber resumiu a história do indivíduo e das primeiras civilizações através das expressões: mundo do Isso, que se refere à objetividade, à civilização e à ciência e mundo do Tu para se referir às relações do homem com a transcendência. As civilizações se iniciaram, lembrava Buber, com poucos objetos, o que significava que a consciência humana começou devagar a se articular na compreensão das coisas. Aos poucos, além das próprias experiências, essas antigas civilizações receberam influências de outras civilizações e os antigos impérios trocaram conhecimento sobre o mundo do Isso, quer diretamente como Roma fez da Grécia, quer indiretamente como foi a relação da sociedade medieval com a antiga Grécia. O mundo do Isso é o mundo da experiência e da utilidade. Assim, quando aumenta o experimentar e o utilizar no espaço social, amplia-se o mundo do Isso. Foi assim que Martin Buber explicou o que se passou também com a nova ciência. Ocorreu uma espécie de renovação do que houve no início das grandes civilizações. A ampliação da preocupação com as coisas e o funcionamento da natureza provocou, isso no século XIX, o esquecimento dos elementos espirituais que estavam presentes nos séculos XIV e XV. O que Buber observou não foi que Deus acabou esquecido ou a Filosofia abandonada ao longo da modernidade, mas que quando a razão humana reduz as relações espirituais e fortalece as relações com o isso, os aspectos transcendentes, metafísicos ou teológicos, ficam obscurecidos no espaço cultural e no mundo mental de cada pessoa. Ficam eclipsados para usar a expressão que o filósofo utiliza. Conhecer os mecanismos do mundo é imprescindível para o homem, mas ele também necessita das referências metafísicas e religiosas para viver. Isso significa que precisamos retomar aquela perspectiva humanista dos séculos XIV e XV, pois a ciência não nasceu e não precisa ser feita contra a transcendência e a fé.

 



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