sexta-feira, 26 de junho de 2020

É possível querer o mal? José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei


No livro Imagens do Bem e do Mal, Martin Buber mencionou dois momentos marcantes onde se tratou o problema do mal frente a uma realidade Absoluta ou Deus. No oriente e na antiga Grécia acreditava-se que os homens e deuses habitavam a mesma terra e deviam viver sob as mesmas leis, formando uma única comunidade. Os pré-socráticos tinham, por verdade inquestionável, a submissão do homem à essa ordem sagrada do mundo e à necessidade de expiar as culpas quando se desobedecia tal ordem. Platão pensava diferente, mas não venceu a posição tradicional e os sofistas que vieram depois dele promoveram profunda crise cultural ao relativizar os valores e colocarem o homem como medida das coisas. As dúvidas dos sofistas promoveram verdadeiro caos no mundo antigo. A outra tentativa de abordar o mal diante de um Absoluto foi feita pelos hebreus. Eles aceitavam que as leis oferecidas ao povo no Sinai eram divinas e desobedecê-las levava ao castigo. Nesses casos, o vínculo entre o religioso e o moral só pode ser considerado se o homem for livre e responsável para obedecer a essas leis. Nisso está a base da autonomia e liberdade humanas pela qual o homem faz escolhas. E essas escolhas comportam a possibilidade de escolher o mal.

O citado livro de Martin Buber nos apresentou como se compreendia o Bem e do Mal no mundo antigo diante de uma exigência absoluta, o que inaugurou o problema da realidade do mal. Para tratar disso a Bíblia associou duas tradições distintas, uma mais própria dos povos semitas que falava na queda para o mal a partir das escolhas humanas (episódio da desobediência de Adão e Eva no Éden) e a outra vinda do oriente, especialmente da Pérsia, que entendia o mal como realidade radical que se contrapunha ao bem. Dessa segunda tradição é exemplo a revolta de Lúcifer contra Deus (Is. 14) ou a insatisfação do grande Querubim (Ez. 28) que foi lançado nas trevas. Nas duas tradições, a vida humana se desenvolve nas escolhas que faz diante do mal.

Além da tradição bíblica e da forma como o tema foi tratado antes de Sócrates, o ocidente também examinou a escolha do mal a partir dos modelos éticos fruto da meditação filosófica. Esses modelos se desenvolveram desde a antiga Grécia, Aristóteles foi o construtor de um primeiro e sistemático modelo ético, modelo cristianizado por Santo Tomás, ao qual se contrapuseram as éticas modernas racionalista e empirista, a ética kantiana do imperativo da razão e a ética dos valores de Max Scheler. Todas reconhecem a autonomia do homem e sua possibilidade de escolher o mal, embora considerem o mal de maneira distinta.

A questão da escolha do mal nesses últimos modelos éticos (Kant e Scheler), além de não fugir da tradição de que é possível escolher o mal, adiciona o problema de entender as diferentes formas de querer o mal. Em síntese, pode-se dizer que se pode querer o mal simplesmente cedendo aos desejos e inclinações instintivas, rebaixando o homem ao nível dos animais. Nesse caso, evitar o mal significava kantianamente conter os desejos da besta fera. Se essa besta não for contida a responsabilidade afasta-se da liberdade e a pessoa age para obter o prazer do momento. Uma segunda forma de escolher o mal é se omitindo em situações difíceis, escolhendo o bem apenas quando isso não a prejudica ou não lhe pede grande esforço. Foi o que fez Pilatos no julgamento de Jesus. E há ainda uma terceira forma de querer o mal: é praticá-lo com gosto, desejar escolher o mal. Frankl relatou que nos campos de concentração havia aqueles que gostavam de fazer o mal. Frankl escreveu (Fundamentos antropológicos da psicoterapia. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 179): “nos campos de concentração os homens se diferenciavam. Os salafrários deixavam cair as máscaras. E os santos se manifestavam. A fome fazia vir a qualidade de cada um.” Isso é assim porque os homens podem escolher e há os que escolhem praticar o mal em suas diversas formas.


  


sexta-feira, 19 de junho de 2020

CEM ANOS DE ESPÍRITO WEBERIANO. Selvino Antonio Malfatti


Em todo mundo está-se relembrando os cem anos do desaparecimento do maior sociólogo do século XX: Max Weber, falecido em 14 de junho de 1920, em Munique.  Sua obra é imensa, desde A ética Protestante e o Espírito do Capitalismo até Economia e Sociedade.

Destacamos alguns conteúdos estudados por Max Weber:

1.            Burocracia. O seu estudo sobre a burocracia, conteúdo chave para entender os tipos de organizações, mormente as estatais. As organizações começam geralmente de modo espontâneo, mas pouco a pouco se burocratizam.  E daí espontaneidade cede lugar à impessoalidade,  garantia de previsão e dotação dos meios para a administração e um sistema de autoridade praticamente indestrutível. Max Weber foi um crítico da burocracia, consequentemente denunciou o poder do aparelho burocrático estatal. Para ele a burocracia trabalha para manter a superioridade de sua posição. Para tanto mantém segredo das informações e intenções. Como exemplo e modelo é o sistema jurídico estatal. Nada penetra a justiça do Estado. A interpretação somente cabe a um corpo de juristas que só a eles compete interpretar e julgar.

2.            A religião. Aborda as diversas teodiceias: a dualista, a da predestinação e a da salvação universal. Analisa também rapidamente as psicologias das religiões mundiais, Entre elas o confucionismo e taoísmo, hinduísmo e budismo, islamismo, judaísmo e cristianismo. As religiões percorrem etapas, dependendo de seu caráter. As ocidentais, baseadas principalmente no ascetismo chegam à racionalização, enquanto que as orientais, devido ao seu misticismo não conseguem evoluir para a intencionalidade e racionalidade. Dentro de cada religião há três aspectos, entre outros que são fundamentais: econômico, político e intelectual, causadores da estrutura social de grupos, casses e status.

 

3.            O Tipo Ideal necessariamente não precisa se adequar exatamente à realidade, já que o objetivo do tipo ideal é ressaltar aspectos comparativos, a partir dos quais fazemos observações e criamos hipóteses (ou teorias) sobre a realidade analisada. Importante ressaltar que os tipos ideais são meros construtores e não tem nenhum objetivo normativo ou teleológico. Sobre esta característica do tipo ideal.

 

4.            Sociologia Compreensiva. Compreender que a Sociologia é uma ciência que se propõe a entender e interpretar para em seguida explicar a ação social; Conhecer o procedimento interpretativo de Max Weber, a construção do tipo ideal identificando os tipos ideais de ação social.

 

5.            Racionalização da ação social. A racionalização é o fio condutor da macrossociologia weberiana no estudo das transformações sofridas pelas sociedades ocidentais modernas. Nesse sentido, o longo processo

histórico de transição das sociedades de configuração tradicional para os padrões de formatação específicos da modernidade tem como principal característica, conforme constatou Weber, a crescente diferenciação e especialização das diversas esferas culturais de valor, em oposição à conjunção de instituições relativamente informes e indiferenciadas das sociedades tradicionais.

Neste processo, os diferentes domínios da vida coletiva passam a progressivamente desenvolver maior autonomia, arregimentando uma estrutura interna lógica, coesa e crescentemente complexa, devidamente orientada para a obtenção dos resultados aos quais se destina, conforme os respectivos aspectos e finalidades inerentes a cada domínio, seja ele o jurídico, o político, o

econômico ou o religioso. Por sua vez, este processo de racionalização encontra-se imbricado ao processo paralelo de inteletualização ou desencantamento religioso do mundo. Tal fenômeno consiste tendência ao predomínio hegemônico nas sociedades ocidentais de uma visão de mundo segundo a qual a realidade material passa a ser compreendida como um complexo de mecanismos causais, passíveis

de serem apreendidos através da abstração e, portanto, sujeitos ao controle humano por intermédio

do raciocínio lógico.

 

6.            O Sentido da Ação humana, conjugada com a teoria das formas de dominação, pode lançar luz sobre a questão. Conforme Weber, a ação humana pode ter quatro sentidos:

Ação racional, tendo presente uma verdade, avaliada sob a luz da razão como um fim em si e escolhida sem qualquer tipo de coação. Neste caso há uma perfeita sintonia entre o ser buscado e a razão. Ação racional, tendo presente um valor, avaliado sob a luz da razão como um bem em si e escolhido sem qualquer tipo de coação.

Ação sentimental, tendo presente uma emoção, avaliada pelo sentimento como uma sacralidade e escolhida de conformidade com a satisfação.

Ação tradicional, tendo presente um costume, avaliado tradicionalmente como eficaz e escolhido sob a égide da repetição.

 

7.            Formas de dominação ou de legitimação do domínio, Weber apresenta três formas puras:

A tradicional se refere aos costumes sagrados dos ancestrais. É o “ontem eterno” sacralizado na tradição. Este, na forma mais pura, o aparelho estatal, confunde-se com a vontade pessoal do governante. Não se estabelece uma distinção entre o governante e a pessoa física de quem o governa. É o patrimonialismo, pelo qual o bem público se confunde com o privado.

A carismática, baseada no dom pessoal, na unção, no dom da graça conferido a alguém.

A legal, baseada na força da lei. Há regras preestabelecidas e universalmente válidas. É o domínio exercido em virtude da lei.

 

8.            A Política e os partidos. O Estado moderno, detentor da violência física legítima, depositou nas mãos dos dirigentes os meios necessários para sua gestão. Os antigos funcionários do Estado foram substituídos e, em seu lugar, apareceram outros, os políticos profissionais. Esta é uma categoria nova a princípio a serviço do príncipe e de sua luta política dos quais extraíam o pão cotidiano. O próprio poder do príncipe passou a depender deles e, com isso, cresceram de importância.

Os políticos, inicialmente, apareceram como homens que viviam para a política e, mais tarde, homens que viviam da política. Entre outros.

Estes são alguns tópicos estudos por Weber.

 

 

 

 

 


sexta-feira, 12 de junho de 2020

JONATHAN SACKS, UM BEM QUE CONGREGUE OS POVOS. Selvino Antonio Malfatti

 

 


 

O rabino Jonathan Sacks é um pensador que ultrapassa a cultura estritamente hebraica para se lançar como um pensador global. Com efeito, é filósofo, teólogo e um combatente            que não arreda no ao mal que assola o mundo. Se amiúde debruça-se sobre a Bíblia para obter inspiração não significa que não passe daí, isto é, no plano hebraico. Para ele somos muito infelizes e não conseguimos melhorar. Falta uma moral do bem comum que perpasse a economia e a sociedade.

Sua voz é reconhecida em todo mundo. Nascido em 1949, foi nomeado rabino chefe da Grã Bretanha e da Commonwealth de 1991 a 2013. A rainha Elisabeth tornou-o Sir por causa da promoção das relações inter-religiosas e posteriormente Barão com assento na Câmara dos Lordes. Possui aproximadamente 25 livros até agora, tem transmissão na BBC, é seguido por milhares de pessoas no site pessoal apresentando lições do Torah, intervenções de temáticas políticas e sociais atuais.

A essência de seu pensamento consiste numa proposta cujo centro é o bem, um bem que possa congregar todos os povos, progredir juntos, ao escrever há poucos anos “Não em nome de Deus”. É um texto que deixa todo mundo perplexo ao perguntar por que tanta violência jorra precisamente das matrizes religiosas, mormente do fundamentalismo islâmico, quando, na verdade consultando-se o texto comum às três religiões monoteístas se pode, ao invés, encontrar uma resposta unificante. Com efeito, a rivalidade fraterna entre Caim e Abel, entre Isaac e Ismael, Jacó e Isaú, entre José e seus irmãos, não são definitivas nem indirimíveis, mas um ponto de partida para qualquer homem de fé.

Para Sacks o bem de cada um não pode prescindir do bem de todos, pois estamos interligados uns aos outros. Isto é ainda mais válido em época de Covid-19. Se cada um não fizer sua própria obrigação toda comunidade será afetada, como uso de máscaras, higienização, controle térmicos, distanciamentos. Somos todos interdependentes. Da mesma forma, se cada um não fizer a sua parte numa democracia todo o edifício ruirá. Somos co-dependentes na liberdade, dignidade, solidariedade os quais não podem ter seu apoio apenas na economia de mercado e no estado. É um princípio moral, acima e anterior ao Estado e ao mercado.

Neste momento desponta a questão onde apoiar este princípio. Um deles é a origem religiosa, isto é, uma moral decorrente da religião. Neste ponto o hebraísmo leva imensa vantagem em relação a outras culturas. Uma religião que se perde no início dos tempos, se manteve intacta e congrega a sociedade. Cada membro se identifica com o todo da sociedade e por isso de fato o eu é um nós.

Mas há outras culturas e sociedades que são heterogêneas, constituídas de várias culturas, algumas conflitantes entre si. È o caso do Brasil que só para falar no caldinho religioso entram na sua constituição catolicismo, protestantismo, espiritismo, religiões africanas e também religião hebraica. Qual delas pode ser considerada o ímã dos eus? Qual pode imantar as vontades pessoas para comporem a vontade do nós?

Neste caso só é possível através do consenso representado pelas instituições jurídico-morais. É uma construção artificial de um nós.  Conseguir-se-á o consenso? Os resultados não são nada animadores. Veja-se, por exemplo, o soberanismo no Brexit , o antissemitismo no Labour inglês, as revoltas violentas dos coletes amarelos franceses, as divisões provocadas por Trump e Bolsonaro, o crescimento do populismo e o ressentimento em decorrência da descrença nas instituições, no Brasil a desconfiança no judiciário, enfim o fracionamento grupal da sociedade e a projeção das minorias que se arvoram representantes da sociedade. É um quadro típico da Revolução francesa.

A proposta de Sacks é um apelo moral voluntário. A começar pela economia deveria nascer um novo “ethos “ social que substitua o lucro pelo bem comum. E se não acontecer a decisão espontânea? E se não for seguido o preceito de Deus confiado a Moisés? “Amarás o próximo como a ti mesmo”?

O maior problema está no conflito de princípios, isto é, solidariedade versus competição. Somente em pequenas  comunidades poderia haver uma economia solidária. Tais atividades abrangeriam a produção, distribuição, consumo, crédito sem visar lucro individual, apenas coletivo, como cooperativas.  Já em sociedades globais, com economias multinacionais a atividade econômica se faz na forma que visam lucros, tais como:  Motorola, Nokia, Siemens, Vivo, Sony, Coca Cola, Pepsi, Unilever, Mc Donald's, Nestlé, Nike, Adidas, Puma, Volkswagen, General Motors, Toyota, Peugeot, Petrobras etc. . Por isso, é impossível uma solidariedade econômica nessas, pois são essencialmente competitivas e lucrativas. Uma organização social pode ser solidária, mas numa econonia do tipo competitiva os princípios da solidariedade e competição chocam-se. É impossível erigir um sistema econômico global baseado na solidariedade. Uma instituição econômica particular até pode organizar-se sobre a solidariedade, mas ao relacionar-se com outras instituições passará a competir com as demais.

Por isso, só em parte a proposta de Sacks pode ser contemplada: a solidariedade econômica e social em pequenas comunidades, preferencialmente de cunho cultural homogêneo, como a hebraica.


sexta-feira, 5 de junho de 2020

O mundo na e pós pandemia .José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



Nos últimos dias tem se espalhado nas diferentes mídias a ideia de que o mundo sairá dessa pandemia, provocada pelo Coronavírus, mais solidário, isto é, que os homens serão melhores e entraremos numa nova era. Não se pode dizer que mudanças não ocorrerão, provavelmente acontecerão. Porém, até aqui as tentativas de prever o futuro falharam. Os erros aumentaram desde que os intelectuais do século XIX decidiram fazer teorias sobre o futuro: Hegel e os idealistas, Marx e seus admiradores, Comte e seus herdeiros positivistas. Erraram enormemente e contribuíram para a crise mundial de cultura no século passado, pois anunciaram um futuro promissor, onde os homens seriam melhores, e mergulhamos na brutalidade de duas Guerras Mundiais, em governos totalitários (nazi-fascismos e comunismo), campos de extermínio, guerra fria, crises econômicas terríveis. As previsões falharam essencialmente porque transformaram o ideal ético em promessa. A melhor ética não é automática e nem alcançará todas as pessoas. Talvez seja possível aprimorar o estatuto legal, mas mesmo isso não é certeza.
Há um episódio interessante que Viktor Frankl relatou no seu best-seller mundial Em busca de sentido. Quando os sobreviventes voltaram do campo de concentração encontraram seus vizinhos e amigos vivendo normalmente e nada modificados, nem constrangidos com o que se passara. Davam as desculpas mais tolas para justificar nada terem feito. As pessoas (Vozes, 2017, p. 118): “não reagiam de outra forma do que simplesmente encolhendo os ombros ou dando de si frases baratas.” O que isso mostrou? Frankl foi impecável na conclusão. Somente sai melhor de um sofrimento quem consegue significá-lo, isto é, que descobre um sentido para ele. Do contrário poderá sair ainda pior, mais amargo, inseguro, neurótico e angustiado. Frankl tinha esperança, acreditou que as pessoas poderiam aprender no sofrimento inevitável, mas só quando elas o apreendessem e lhe conferissem significado. Pesquisas médicas sobre espiritualidade e saúde vão na mesma direção, a presença de um sentido religioso ajuda na saúde mental, mas isso não significa que elas se tornarão melhores (VANDERWEELE, 2017, VANDERWEELE, Tyler J. Religious Communities and Human Flourrishing. Association for Psychological Sciense. 26 (5), 2017. p. 478): “o tipo de enfrentamento religioso pode ajudar a encontrar o sentido e reforçar relações em um contexto de sofrimento e doença.” A melhora pessoal pode vir pela prática religiosa e também pelo estudo, pela solidariedade, pela meditação. No entanto, a melhoria moral somente virá para aqueles que usarem esse momento como oportunidade para pensar o sentido do sofrimento e da solidariedade humana. Os demais sairão iguais ou piores se mergulharem na amargura e no sofrimento.
O sofrimento não nos torna automaticamente melhores. Frankl observou, apenas explicita o que os homens são (FRANKL, Fundamentos antropológicos da psicoterapia, 1978: “nos campos de concentração os homens se diferenciavam. Os salafrários deixavam cair as máscaras. E os santos se manifestavam. A fome fazia vir a qualidade de cada um.” Isso é assim porque os homens somente podem ser considerados pelo que fazem, há os que fazem bem e os que praticam o mal. Dito de outro modo (id., p. 229): “há somente duas raças: a raça dos homens decentes e a raça dos que não prestam. Justamente porque sabemos que a primeira constitui uma minoria, compete-nos aumentá-la e fortalecê-la.”
Creio que é legítima esperança e entender que, aqueles que tornarem o sofrimento desse momento uma oportunidade de crescimento, poderão sair melhores dele.


quinta-feira, 28 de maio de 2020

EXORTAÇÃO AOS MÉDICOS E ENFERMEIROS EM MEIO A PANDEMIA. Selvino Antonio Malfatti.





Está despertando interesse um texto, relativamente pequeno, de Albert Camus intitulado AOS MÉDICOS DA PESTE. É praticamente inédito para a maioria das línguas, inclusive para o português.
Camus foi filósofo. Jornalista, dramaturgo. É detentor do Prêmio Nobel da Literatura de 1957.
Originário de Mondovi, Argélia, durante a ocupação francesa de 1913. Filho de camponeses ficou órfão de pai na batalha de Marne na Primeira Guerra Mundial ainda criança. Logo no início as dificuldades financeiras bateram à porta da casa. Trabalhou em diversos setores como vendedor, meteorologista, escritório na marinha e na Prefeitura. Para sua formação em Argel teve a ventura de ter sido ajudado por dois professores.
 A PESTE é considerada sua obra prima. O pano de fundo da obra está envolta na filosofia existencialista professada pelo autor. Possui um forte conteúdo moral principalmente no que se refere à solidariedade entre os seres humanos. Ao tratar da questão da liberdade chama a atenção não só para o livre arbítrio como a responsabilidade pelos atos de cada um.
Quanto ao texto da EXORTAÇÃO AOS MÉDICOS DA PESTE, 1941, parece ser uma introdução à obra maior que viria posteriormente: a Peste, 1947.
O livro de Camus A Peste é altamente simbólico e alegórico. Simbólico por que por trás do texto desenvolve-se a Segunda Guerra Mundial e alegórico porque pelo conteúdo são analisadas as diversas reações da natureza humana diante do perigo comum.
Camus imagina ou inventa uma epidemia, em 1940, Oran, na Argélia. Três personagens são centrais na alegoria: há o médico,  Bernard Rieux,   humanista, incansável, dedicado, pronto para sacrificar-se, crendo na natural bondade humana;  seu vizinho, Jean Tarrou, que se dispões a organizar a resistência contra a epidemia; o oportunista, Joseph Cottard, que aproveita a crise para fazer negócios principalmente de contrabando.
Mas vamos ao texto da Exortação, válido ainda após 75 anos de sua publicação. O Covid-19 reacendeu o interesse de Camus, pois nele dá principalmente para médios e enfermeiros orientações, avaliações, exortações para enfrentar o inimigo invisível que pode estar no chão, no ar, nos objetos, onde menos se espera, como no fôlego do amigo, na sua mão, no seu abraço e mesmo no beijo.
Diz ele que não sabemos se é contagiosa, mas entendemos que sim. Por isso, uma das precauções é deixar as janelas bem abertas. Além disso, munir-se de máscaras e óculos apropriados para evitar o contágio. Munir-se de tudo o que pode evitar o contato. Cada um tenha cuidado de si não só para não ser contaminado como para não contaminar.
Deve-se evitar olhar de frente para o contaminado. Não visitar pacientes em jejum ou depois de alimentar-se demasiadamente. O contato físico, nem pensar. Descartado “ in limine”. Isto vale, sobretudo para médicos e enfermeiros.
Se for profissional como médico ou enfermeiro o ponto de partida é nunca ter medo. O medo infeta o sangue e esquenta os ânimos. Além disso, numa guerra os projéteis matam tanto os corajosos como os medrosos. Para que o corpo possa vencer o foco infeccioso a alma deve estar forte. Camus fala:
“Portanto, vocês, médicos da peste, devem enfrentar a ideia da morte e se reconciliar com ela, antes de entrar no reino em que a praga o prepara. Se você for vitorioso nisso, será vitorioso em todas as coisas e os verá sorrir em meio ao terror. Em conclusão, eles precisarão de uma filosofia.”

Cultivar a alegria razoável de modo que a dor não altere o fluxo do sangue. Nada em contrário em consumir um vinho em pequena quantidade. Ajudará a manter o ânimo. Zelar para que as regras adotadas sejam respeitadas tais como os bloqueios e as quarentenas. A população pede para que esquecer um pouco quem si mesmo, sem esquecer o que deve a si mesmo.
Armados da firmeza da virtude deve enfrentar o cansaço e manter a imaginação acesa. Jamais habituar-se a ver os homens morrerem como moscas, como acontece hoje nas estradas. Não deixar de comover-se diante das gargantas enegrecidas, das quais emana um suor fétido e sanguinolento.
E arremata Camus:
A primeira coisa é que você nunca deve ter medo. Homens foram vistos fazendo seu trabalho como soldados muito bem, apesar de terem medo do canhão. Mas isso ocorre porque a bala de canhão mata indiscriminadamente os corajosos e medrosos. Na guerra, muito se deve ao acaso, mas não à peste. O medo corrompe o sangue e aquece o humor, todos os livros dizem [...] Para que vocês, médicos da peste, se fortaleçam contra a ideia da morte e se reconciliem com ela, antes de entrar no reino preparado pela peste. Se você triunfar aqui, triunfará em todos os lugares e todos verão você sorrir em meio ao terror. A conclusão é que você precisa de uma filosofia”. (Albert Camus, 1947-  Exortação aos médicos da Peste)
Se quiséssemos fazer uma comparação poderíamos dizer que o texto se assemelha à Ética a Nicômaco de Aristóteles no trato do profissional com os pacientes.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Imprensa Morbosa. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



Em 1917, o filósofo espanhol Ortega y Gasset escreveu um pequeno e provocador ensaio sobre os rumos da democracia espanhola, denunciava um plebeísmo triunfante que tomara conta da Europa e que representava uma degeneração da democracia. Isso porque, deixando de representar uma forma de organização política, tornava-se expressão de massas adoecidas que queriam dirigir o destino da cultura. A democracia (ORTEGA, Obras, v. II, p. 135): “estrita e exclusivamente como norma de direito político, parece ótima coisa. Porém, uma democracia fora de si, a democracia na religião e na arte, a democracia do pensamento e do gesto, a democracia no coração e nos costumes é o mais perigoso morbo que pode padecer uma sociedade.” Em resumo, uma democracia que queria ser o que não era tornava-se doentia.
Em 2020, em meio a pandemia do coranavirus, a imprensa brasileira, especialmente sua mais bem equipada rede de comunicação, mostra-se adoecida, como a antiga democracia espanhola, deixando de cumprir o que dela se espera. Da imprensa sadia se espera que aponte os crimes contra a sociedade e a própria humanidade, mas que o faça no estrito compromisso com a verdade, porque a verdade é não só o esteio da dignidade humana, mas a base da vida social. Isso lembrando que uma verdade social e política somente pode ser buscada em conjunto, com a exposição isenta e ponderação das interpretações. Karl Jaspers lembrava que (JASPERS, Introdução ao pensamento filosófico, p.97): “na comunidade o curso das coisas se torna falso quando o homem cala o que é importante para todos.” Sem a apresentação equilibrada das diversas posições não se forma opinião pública madura e os homens se tornam superficiais e ignorantes da verdade.
Uma das maiores falhas da imprensa é quando ela engana as pessoas (e aos próprios jornalistas) mistificando a violência que é a mentira e a manipulação dos fatos. Essa distorção da verdade ocorre quando ela não divulga objetivamente os fatos e os comentários não apresentam as interpretações dele. Além de uma espécie de imprensa partidária, outros males a acometem. Uma grave doença revela-se quando ela se comporta como consciência moral da opinião pública, o que ela decididamente não é, porque ela não é isenta. Além do mais, consciência moral é pessoal, que pode e precisa ser educada, mas não é instância social. O que se vê quando jornalistas andam pelas ruas a acusar o cidadão de não cumprir o isolamento sem saber exatamente o que cada um anda fazendo e porque está fazendo. À Justiça cabe velar pelo cumprimento das leis, não à imprensa. Embora seja fundamental a imprensa denunciar crimes. Note-se crimes, não o que os jornalistas ou seus patrões consideram errado.
Outro morbo dessa imprensa é o sadismo. Seus profissionais repetem, com requinte de detalhes, tudo o que há de pior, os crimes mais pavorosos, os fatos mais horríveis e fazem isso continua e repetidamente durante horas e dias. É um gozar no sofrimento. Quanto maior a desgraça, mais ela é repetida e divulgada. Essa doença é como o vírus da covid, se espalhou rápido entre as várias mídias e emissoras.
Não se pode esquecer também a doença da bobice pura e simples, isto é, divulgação de fatos privados de artistas como coisas de grande interesse público do tipo: Fulana se bronzeia durante a quarentena, aquela outra exige corpaço e faz graça de biquíni, esse cantor pede namorada em casamento no confinamento, etc.
Seria fundamental para a Democracia que a imprensa se comportasse sadiamente. Que ela com a mesma intensidade com que reivindica respeito quando criticada cumprisse seus deveres. A impressa somente é fundamental para a democracia quando cumpre seu papel de divulgar com isenção, comentar com equilíbrio, não gozar na e da desgraça, abdicar da bobice e não se arvorar em consciência moral da sociedade, etc.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

CORONAVIRUS – UM PLANO DE DISTANCIAMENTO PARA SAÚDE E ECONOMIA. Selvino Antonio Malfatti – professor titular de Ciência Política, da UFSM.












                     
                                                BRASIL - RS


O professor esloveno de Sociologia e Filosofia da universidade Ljubljana, autor do ensaio de “Virus”, analisando a atual situação da pandemia propõe que não se deve escolher entre economia e saúde para superar o atual dilema, mas refletir sobre a questão. Esta atitude pode levar a um meio termo que privilegie a ambas simultaneamente.
Conforme o autor, nos dias de hoje, sob a sombra do Coronavirus já não conseguirmos distinguir realidade de ficção. Estamos vivendo uma realidade ou estamos assistindo um filme? E mesmo que projetemos para o futuro nos perguntamos qual o filme que vamos ver, séries na TV ou outras narrativas. Tudo fica nebuloso e sombrio. Seria a combinação de uma sociedade liquida e sombria.
Confinados devemos reinventar outras formas de conviver, o uso dos recursos: econômico, social, psicológico, cultural e espiritual. Novas regras de mercado urgem, agora subordinadas à solidariedade, a redistribuição dos recursos. Os governos devem deixar de ser por demais liberais e mais intervencionistas, a limitação dos privilégios e mesmo corte em que pese os setores mais conservadores que se negam a abrir mão.
Em alguns lugares os armários já estão sem suprimentos, farmácias, embora continuem abastecidas, os idosos não podem chegar. Até quando a população vai aceitar viver na carência? Quem garante que de repente, hordas famintas não invadirão casas, mercados, supermercados e bancos? E o pior: invasão de hospitais buscando atendimento e remédios? Médicos e enfermeiros poderão ser agredidos e mesmo assassinados. Este é um cenário possível. E os governos, que farão neste caso? Execuções sumárias, pena de morte, prisões!
Mas pensemos que ainda temos tempo. Que podemos achar soluções razoáveis. Uma destas tentativas, por mais modesta que seja, pode ser válida ou ao menos é uma tentativas Trata-se do modelo jé implantado no Rio Grande do Sul, estado brasileiro, pelo governo do estado.
O Modelo gaúcho parece que vai ao encontro do pensamento de Zerek pois, colocando como objetivo principal a saúde, salva a economia através de estratégias. O centro da estratégia está em não fazer terra plana do território do Rio Grande e nem considerar a epidemia igual em intensidade em toda a área. Para tanto o território foi dividido em regiões e nessas regiões aplicam-se critérios baseados em desempenhos setoriais. É denominado de distanciamento social controlado. Prevê diferentes níveis de cuidados por região, num total de 20, cada uma delas com um índice, fixado por uma bandeira, possibilitando flexibilizar a mobilidade social de acordo com a resposta das variáveis como horários, modo de operação, número de funcionários, leitos disponíveis, testes, máscaras, mortes pela doença, internações etc. Cada sábado será feito um feedback para reavaliar o plano. Este tem a supervisão do Ministério da Saúde e em observação por órgãos mundiais da saúde e acompanhados por outros países interessados.
É uma alternativa mais flexível às experiências testadas em países europeus como Itália e Espanha que generalizaram a proibição de circulação de pessoas intrarregional  e interregional. A proposta teve um embasamento teórico de “Como reabrir economias nacionais durante a crise de Coronavirus”, da consultoria americana McKinsey&Company, e Restrição do Contato social durante a Pandemia de Covid-19.
Com isso se pretende conseguir chamar pessoas de volta ao trabalho mais rápido, preservar sua saúde e garantir sua subsistência.


Postagens mais vistas