sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Uma Década com a Chanceler Frau Angela Merkel. Selvino Antonio Malfatti.


Em 2005 toma posse pela primeira vez como chefe de governo, no cargo de chanceler – na Alemanha equivalente a primeiro ministro - a senhora Angela Merkel, tendo como legado nada mais e nada menos do que Konrad Adenauer. A partir de então, por dez anos consecutivos timoneia os rumos da política alemã com desdobramentos na Europa, no ocidente e outras partes do mundo. Neste primeiro decênio, em meio a crises de todo gênero ela conseguiu colocar uma Alemanha destroçada pela guerra como líder do Velho Continente.
Com efeito, após o fim da II Grande Guerra a Alemanha foi dividida em oriental e ocidental em 1949, porém, pouco a pouco, cada uma delas iniciou uma vida política própria. A oriental praticamente se tornou satélite da URSS, subordinando-se às decisões superiores de Moscou. A ocidental, paulatinamente, retoma a vida autônoma. Nesse contexto, o renascimento dos partidos políticos, na ocidental, ocorreu com as primeiras eleições administrativas em 1946, quando se apresentaram à disputa os democratas cristãos, os sociais democratas e os liberais, permanecendo esses por quase meio século na arena política. Na zona dominada pelos soviéticos, os sociais democratas e os comunistas são obrigados a se fundirem, dificultando a competição para os demais partidos, como os democratas cristãos.
Em 14 de agosto de 1949, realizam-se as eleições na República Federal da Alemanha que dão a vitória aos democratas cristãos sob a liderança de Konrad Adenauer, o qual, em setembro, forma o primeiro gabinete de centro-direita, com os liberais e outros partidos conservadores. Adenauer escolhe para ministro Ludwig Erhard que leva adiante uma proposta político-econômica da economia social de mercado.
Com o democrata cristão Adenauer no governo, no cargo de chanceler, e Erhard como ministro da economia, a Alemanha reingressa no concerto das nações democráticas ocidentais. A União Cristã Social – CDU e CSU – permaneceu hegemônica até 1966, quando se inaugura um governo de coalizão com os sociais democratas.
Do mesmo modo que em outros países da Europa, a partir da década de sessenta, começa o período de decréscimo em termos eleitorais dos democratas cristãos, embora com momentos de recuperação.  A queda maior, porém, ocorrerá a partir de 1998, com a vitória do partido social-democrático e de seu candidato Gerhard Schoeder. Finda então a era de Helmut Kohl, chanceler desde 1982.  E, em novembro de 1999, eclode o escândalo dos “fundos negros”, após a descoberta de uma colossal evasão fiscal. Parte teria ido parar na CDU, liderada por Helmut Kohl. O acontecimento colocou em xeque o próprio partido, deixando dúvidas sobre sua sobrevivência.

Naquela manhã de dois lustres atrás, quando Gerhard Schröder, que havia vencido as eleições dois meses antes, abriu o caixa-forte e entregou para Angela Merkel as chaves da chancelaria. Junto recebeu dois coisas: os presentes de Sílvio Berrlusconi ao seu predecessor e a reforma do trabalho feita por Schröder. Os presentes de Berlusconi tinham pouca importância, mas a reforma do mercado de trabalho foi sendo construído paulatinamente e com pertinácia por Frau Merkel. Como consequência a economia da Alemanha tornou-se uma potência mundial. A antiga garota trazida por Helmut Kohl, logo após a queda do Muro de Berlim, tinha duas qualidades essenciais para a política, aliás, previstas por Maquiavel: sorte (fortuna) e flexibilidade (virtù) com as quais pode resistir às investidas ao poder e tornar-se a líder mais longeva da União Europeia.
Ao mesmo tempo determinada, consegue manter o controle do sistema nervoso. É mais flexível que Schröder ou Helmut Schmidt. É provida de enorme capacidade física, apesar da condição de mulher, mas ao mesmo tempo afasta-se da prepotência, característica esta intolerável num mundo democrático.

Merkel foi forjada na crise. A de 2008 quando liderava um governo de grande coalizão com os sociais-democratas. A do euro e da Grécia em 2010 – 2011, como Chanceler de uma coalizão com os liberais. A de 2015 ainda com a Grécia de Tsipras e Ucrânia. A da massa de refugiados que chegavam à Alemanha, em torno de 850.000 em dez meses. Esta postura com os refugiados ao mesmo tempo lhe causou embaraços, mas também recebeu aplausos ao declarar que a constituição alemã garante aos refugiados de guerra, asilo político. Isto salvou a honra da Europa, mas criou divisões no governo e nos partidos de apoio. Tudo isso em meio a crises bancárias, caso OPEL da indústria automobilística, movimentos xenófobos, o escândalo da Volkswagen, viagens pelo mundo (347 fora das fronteiras), relações tensas com Obama e sobretudo com Putin. Mas ela, impávida, sempre clarividente e segura no que fazia conduzia a Alemanha que, do fundo do poço, chegou ao topo. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Novembro, tragédia em sangue e lama. José Maurício de Carvalho









As redes sociais e as mídias se ocuparam, nesses últimos dias, de nos afundar na lama de Mariana e de nos mergulhar no sangue dos parisienses. Duas tragédias com todos os componentes fundamentais: a capacidade da cena de provocar horror e a compaixão das vítimas. Assistimos, nesses dias, dois episódios que ceifaram vidas inocentes e ameaçaram outras tantas.
Do lado de cá do Atlântico, um mar de lama escoou de barragem mal fiscalizada, erguida para dar viabilidade econômica à exploração do minério de ferro e lucros exorbitantes a empresas globais preocupadas simplesmente em enriquecer; do outro lado, os tiros e as bombas lançados sobre jovens inocentes que se divertiam no final de semana. A justificativa da perversidade é o pecado da cidade condenado pelo fundamentalismo religioso. De comum aos dois episódios a quebra da tranquilidade e da felicidade que acompanha o homem em seus dias. A felicidade de estar em paz com a família numa pequena aldeia do interior do Estado das Minas, ou a de participar de um evento cultural numa das mais lindas cidades do mundo. Cada qual vivendo sua cota de felicidade, tocando a vida como lhe parecia melhor, cada homem com suas escolhas e caminho para a felicidade. Todos a perderam, ninguém a conservou, pois é próprio da tragédia a fugacidade da felicidade e a destruição do que não é estável; a vida mesma. Nos dois casos, inocentes estavam na linha do desastre e pagaram com a vida e bens, a negligência de uns e a violência bárbara de outros.
Houve quem enxergasse na especulação dos comerciantes de Valadares, que aumentaram o preço da água, um elemento surrealista no meio da tragédia. Explorar quem passa por uma tragédia é algo inimaginável mesmo para a plástica inteligência dos filósofos gregos. Enquanto a solidariedade se ampliava em Paris, a exploração da tragédia marcaria o lado de cá. No entanto, parece que a reação comum, ou humana, foi mesmo a solidariedade de lá e de cá. Solidariedade dos moradores que acolhiam pessoas perdidas e sem saber para onde ir na capital da França, dos motoristas de taxi da cidade luz que levavam os cidadãos sem cobrar a corrida e aqui de voluntários que com seu trabalho e doações encheram os ginásios de Mariana de donativos e solidariedade humana, em magnífica demonstração de apoio.
Essas tragédias nasceram não da quebra da ordem divina do mundo como um dia pensaram os antigos gregos, mas da negligência e imprudência de uns e da ignorância e brutalidade de outros. Nos dois casos foi o homem quem promoveu a desgraça, espalhou a dor, deu livre curso à perfídia. Foi a ação humana que alcançou a vida de inocentes e rompeu a ordem precária do mundo, ecológica aqui, política lá. Nos dois casos a mesma sensação amarga de que o desastre poderia ter sido evitado com algum cuidado.

Das tragédias uma única coisa se salvou, a solidariedade diante do desespero. A solidariedade capaz de mudar, pelo respeito à dignidade humana o aspecto terrível do que nos acontece. Da vida constata-se que certo são as incertezas que nos alcançam em qualquer parte e a qualquer tempo. Fica sempre um desafio depois da tragédia, superar o absurdo e o horrível que ela provoca e tentar impedir, parece que sem sucesso, que um novo desastre se repita. O que talvez possa resultar do cuidado é redução do número de tragédias que acompanham a história do homem. Alguma com certeza virá, em algum dia, quando menos estivermos esperando.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ANDRÉ GLUCKSMANN - O FILÓSOFO DO ANTITOTALITARISMO. Selvino Antonio Malfatti.





 ANDRÉ GLUCKSMANN nasceu em 1937, filho de judeus austríacos e faleceu em Paris no dia 9 novembro deste ano. Estudou em Lyon na École Normale Supérieure de Saint-Cloud. Seu primeiro trabalho foi publicado em 1968 quando era assistente de Raymond Aron, na Sorbonne, Le Discours de la Guerre. Participou do Movimento Estudantil do ano em curso em Paris. Comunista, torna-se militante maoísta e defensor da Revolução Cultural Chinesa. Para ele o marxismo leva irremediavelmente ao totalitarismo, fazendo uma aproximação entre os crimes do nazismo e do stalinismo, sendo um contestador do regime soviético. No livro “A Cozinheira e o Canibal” diz que o marxismo não só se contradiz teoricamente como produz campos de concentração. Passa a partir de então a ser identificado como anticomunista e antitotalitário. Foi incluído no grupo denominado “Novos Filósofos”, juntamente com Bruckner e Bernard-Henri Lévy. No entanto, suas posições político-filosóficas não o impedia de aproximar esquerdistas e liberais como foi o caso de reunir Sartre e Aon para convencer o presidente Valéry Giscar d´Estaing a ajudar os refugiados do Vietnã.
Nem por isso deixou de defender posições polêmicas como a ocupação do Iraque, a política israelense em relação à Palestina e a intervenção ocidental na Sérvia para defender a minoria Kosovar.
Após a queda do comunismo russo, passa a atacar o autoritarismo de Vladimir Putin, postura esta que lhe valeu o afastamento de Sarkozy o qual o apoiara na sua candidatura.
Depois da queda do comunismo e o fim da União Soviética, o filósofo continuou a denunciar o autoritarismo do presidente Vladimir Putin. Sua crítica ao líder russo o afastou de Sarkozy, por não suportar a proximidade do ex-presidente francês com o dirigente do Kremlin. Glucksmann havia apoiado a candidatura de Sarkozy à presidência em 2007.
André Glucksmann tinha muitas facetas e podia ser visto e julgado por várias ações, algumas vezes contraditórias. Ora é um jovem que arregimenta jovens para um a formação de grupo de atuação política clandestina de esquerda, montando células. Ou um Glucksmann que faz crer que a cozinheira tinha razão contra os canibais, pois o olho do povo vê sempre a verdade e a justiça. Outras vezes assustava Raymond Aron sobre suas convicções de mudar radicalmente o mundo. Há também Glucksmann que deleita e encanta Michel Foucault comprovando seu axioma: no início não há poder, mas espírito de resistência. Foucault sorri e se alegra com a fúria de André. Há também um Glucksmann que renunciou à crença na solução pela via revolucionária, mas não abandona o furor, isto é, não se converte à democracia representativa. A cólera que para ele seria como que uma segunda natureza. Qualquer declaração, por mais banal que fosse, era acompanhada de anátema e furor. Em André caminhavam pari passu o Glucksmann estrategista frio e o enraivecido. Havia quase duas oxigenações: aquela do cérebro e aquela do coração, uma invadia a outra e ora se complementavam ora se estorvavam. Parecia a encarnação da alma de seus pais imigrantes pela Europa em chamas devastada pelos nazistas. Talvez aí estivesse a sua alma.
O Glucksmann radical quando se tratava dos direitos dos pobres, horrorizado com os pedantes que nada se preocupavam com o popular. Era uma contradição, pois ele mesmo não era popular, mas apresentava-se como tal. Com certeza não era safadeza, mas também não se dava conta da contradição. Inclusive diziam alguns que ele inventou um ”povo”, talvez os chechenos, para representar àquilo que sua ideologia se referia.
Principais obras:

Une rage d'enfant (2006)
Le Discours de la haine (octubre de 2004)
Ouest contre Ouest (agosto de 2003)
Descartes c'est la France (octubre de 1987)
Dostoïevski à Manhattan (enero de 2002)
La Troisième Mort de Dieu (marzo de 2000)
Cynisme et passion (enero de 1999)
Le Bien et le mal (septiembre de 1997)
De Gaulle où es-tu ? (marzo de 1995)
La Fêlure du monde (diciembre de 1993)
Le XIe commandement (enero de 1992)
Silence, on tue (octubre de 1986) con Thierry Wolton
L'Esprit post-totalitaire, precedido de Devant le bien et le mal (mayo de 1986) con Petr Fidelus
La Bêtise (marzo de 1985)
La Force du vertige (noviembre de 1983)
Cynisme et passion (octubre de 1981)
Les Maîtres penseurs (marzo de 1977)
La Cuisinière et le Mangeur d'Hommes, réflexions sur L'état, le marxisme et les camps de concentration (1975)

Discours de la guerre, théorie et stratégie (1967)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

JUSTO MEIO ENTRE A XENOFOBIA E A SUBMISSÃO CULTURAL. José Maurício de Carvalho





Ontem bateu à porta de casa uma simpática menina vestida de bruxa. Ao ser atendida soltou logo: trick or treat. Consegui entender que era a festa de Halloween. De início fiquei surpreso com a simpática bruxinha. Preferi dar os doces já que não conhecia seu poder de fazer travessuras. Depois comecei a pensar em quantas vezes em minha vida passei por situação semelhante nesta antes cristã cidade de São João del-Rei. Não foi preciso muito tempo para concluir que em meus quase sessenta anos de vida jamais passei pessoalmente por semelhante situação. Vi coisas assim nos filmes norte americanos. As crianças daqui se fantasiavam de anjos e seguiam as procissões durante o ano (31 de outubro é o dia de Nossa Senhora do Rosário) ou de índios, odaliscas, piratas e personagens como esses no carnaval.

E o que é a festa de Halloween da simpática bruxinha? É uma comemoração de origem celta com mais ou menos 2500 anos de existência. Segundo a crença celta, em 31 de outubro, os espíritos saem do cemitério para se encarnar nos vivos e voltar a vida, ocupando um corpo que não lhes pertence. Tem origem celta os britânicos, norte americanos e canadenses. Pois bem, conta a lenda que para assustar esses espíritos invasores (e desocupados do além) os celtas decoravam as casas com o que acreditavam seria capaz de espantar essas almas penadas: ossos, caveiras, abóboras enfeitas com ossos e/ou representando figuras assustadoras. As crianças entravam na festa se fantasiando de bruxas, dráculas e outras coisinhas semelhantes com o mesmo propósito de espantar os espíritos vagantes. Como festa pagã jamais entrou na Europa católica, sendo as pessoas acusadas de bruxaria mortas nas fogueiras. Foi um triste capítulo do catolicismo medieval a queima das bruxas, espetáculo de ignorância que não pode se repetir. Explica,contudo, porque a festa não chegou a Europa continental e nem em suas colônias, pois representavam crenças contrárias aos ensinamentos das igrejas cristãs. De todas elas. Porém, sobreviveu entre os povos de origem celta, apesar de se converterem ao cristianismo. Ficou como parte do folclore local, coisas de esquizofrenia cultural, que também ocorre em outros povos. No caso, a festa é mais comemorada nos Estados Unidos do que entre outros países de origem celta.

Nesses últimos anos, como forma de difundir a dominação cultural norte- americana, os cursinhos de inglês promovem entre seus alunos essa brincadeira macabra que nada tem a ver com a tradição cultural de nosso país e/ou com nossas crenças. Na internet houve uma reação tímida às comemorações do Halloween com referência ao dia do Saci. De fato 31 de outubro é o dia do Saci Perere, aquele moleque travesso criado pelo imaginário das tribos indígenas do sul do Brasil, que acabou sendo representado como negro, com gorrinho vermelho e cachimbo. Na transformação que sofreu o Saci perdeu uma perna jogando capoeira. O Saci é a encarnação do menino travesso que se diverte com animais e pessoas: queima o feijão da cozinheira, esconde objetos pelas casas, assusta crianças e animais, etc.

Achei criativa a lembrança do Saci, mas o foco, parece-me, deva ser outro. Não se trata de recusar tudo o que vem de fora, seria xenofobia. Nem queimar bruxas, seria fazer piada com um triste passado de que devemos pedir perdão. Porém é preciso receber os elementos culturais importados com crítica. Dos americanos, por exemplo, podemos aprender a limpeza, o amor ao trabalho, a seriedade nos compromissos, a  cidadania, o respeito aos símbolos nacionais. Seria ótimo. Eles têm também filósofos como Ralph Waldo Emerson, Ernst Nagel, Eric Voegelin, John Rawls e escritores criativos como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Trumam Capote e John Hersey. Todos merecem ser lidos e estudados. Há também músicos e cantores de talentos como Nat King Cole, Whitney Houston e Sinatra que podemos apreciar. Nesse sentido, conclamo o cursinhos de língua inglesa de nosso país a divulgar essa face universal da cultura americana, além da língua inglesa, que é importante veículo de comunicação. Universal é aquilo que atinge o mais alto e nobre do humano, para além da circunstância em que foi produzido. Quanto a festa de Halloween melhor deixar os espíritos vagantes dos celtas para lá. Temos coisas mais interessantes para aprender e viver.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A INVERSÃO DO REAL E O VIRTUAL. Selvino Antonio Malfatti




No transcurso dos tempos houve uma contraposição entre imaginação e o real, entre a ficção e o real e atualmente entre o virtual e o real. A tendência atual é de confundir o real e o virtual. O real tornou-se diáfano e o irreal concreto.
Você pode estar na multidão e estar só. Não é apenas anônimo, mas literalmente só. E, ao contrário, sózinho e imerso num mundo virtual.. Neste momento, por exemplo, estou só em meu gabinete de trabalho. Eu e uma máquina. Esta está conectada à rede de internet. Posso falar com quem eu quero em qualquer parte do mundo. E vice-versa, os outros podem falar comigo. Mas se estou no meio da multidão, desprovido desta tecnologia, estou só. Num coletivo, ônibus, metrô, ninguém fala com ninguém, apenas olham para as mãos e movimentam os dedos. Pode-se estar em casa com a família e, no entanto, estar só. Se estiver a milhares de quilômetros dela pode estar entre os familiares e conversar. Vive-se um mundo paralelo, um real e outro fictício, mas que é também real. Vive-se um mundo imaginário onde todos se comunicam, mas ninguém se reconhece.
A questão do real e virtual. Alguém pode dizer que tem um milhão de dólares. Mas onde está? Se acessar sua conta você verá que tem este valorconsta, embora ele concretamente não exista. O real tornou-se irreal e o irreal, real. O que não existe, existe e o que existe não existe. O espaço que necessariamente as coisas ocupavam, desapareceu e emergiu outro que antes era irreal, mas que agora é virtual e real.
O mesmo se dá com o tempo. Antes se falava em segundos, minutos, horas, anos, séculos. Agora um século é menor que um milésimo de segundo. A recriação do big bang entre França e Suíça demonstra que o tempo e o espaço praticamente foram neutralizados ou identificados. Large Hadron Collider - LHC) do CERN, é o maior acelerador de partículas e o de maior energia existente do mundo. Seu principal objetivo é obter dados sobre colisões de feixes de partículas, tanto de prótons a uma energia de 7 TeV (1,12 microjoules) por partícula, ou núcleos de chumbo a energia de 574 TeV (92,0 microjoules) por núcleo. O que acontecerá entre dois lugares em tempos diferentes?  Serão praticamente simultâneos e no mesmo local.
O virtual tornou o nada real. Se for ao mercado e comprar algo você não se dá nada em troca do que comprou. Apenas digita-se algo e pronto. E muitas vezes você compra sem comprar nada. Você adquire uma conta na internet, não existe nada concretamente. No entanto, aquilo que não existe, existe realmente. Pode trocar coisas por nada, nada por coisas e nada por nada.
Isso tudo parece sem importância. Mas vejamos as consequências. As categorias do saber na prática deixaram de existir ou de nada valem. A categoria de quantidade não existe mais a quantidade. Ela se esfumeou. É apenas um valor virtual, que existe e não existe. Qual a unidade de referência? Qual o parâmetro de um, vários, todos? Simplesmente desapareceram. O um é igual ao todo e vice-versa.
Onde está a qualidade? Aquela que aponta para a realidade, negação, limitação? Se o real é igual ao virtual, ao irreal, onde colocar o suporte do que é real ou a imaginação? Nunca tenho certeza de que algo é ou não é, pois ele pode ser e não ser ao mesmo tempo. Qual o parâmetro para o limite? Se não há critério para início e nem fim, como se pode saber o limite?
E quanto à relação? O que é essencial e o que é acidente? Quem é causa e quem é causado? O mundo virtual é a substância e o real acidente? Ou vice-versa? Em valores pecuniários ou bem realistas: que é mais importante: o montante mostrado pela internet ou as cédulas em caixa? E a relação entre ambos? Como influencia o virtual, que se tornou real, e o real, que se tornou virtual? Como posso saber em que dimensão eu estou? Na verdade parece o mundo dos mortos invadiu o dos vivos e trocaram de posições: mortos e vivos.
E por fim, a modalidade, isto é o que é possível e o que não é. Se eu estou na esfera da existência real ou virtual. Uma instituição financeira só reconhece meu número, senha, montante, débito, crédito. Eu concreto deixei de existir. Passei do real para o virtual. Sou apenas um valor atribuído. Para ser real novamente tenho que exibir o valor virtual.
E o moral, o ético o que são? Qual as relações, referências no qual se apoiam?





sexta-feira, 30 de outubro de 2015

ÉTICA CRISTÃ. José Mauricio de Carvalho (organização)




A ética é uma disciplina filosófica e sua origem histórica remonta à Grécia, sendo ali a contribuição mais clara o livro “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles. Este fez uma análise racional dos costumes das cidades - estados da antiga Grécia e assim, a ética consolidou-se na tradição ocidental, como reflexão racional sobre os costumes aceitos, considerados adequados e justos para promover a felicidade. O modelo ético aristotélico consolida-se dissociando se da política, o que não fora feito na filosofia platônica. Aristóteles valoriza a virtude para ser feliz, o que equivalia, para ele, ser bom cidadão na polis. A tradição ética, herdada dos gregos, estabeleceu um diálogo com a judaico-cristã, que no início da Idade Média já se tomara referência para o homem europeu. A moralidade judaica nasceu associada à religião e foi delineada no Pentateuco, no Velho Testamento. Sua base é o decálogo mosaico cujo registro remonta ao século VI ou V a. C. depois da volta do exílio na Babilônia.
Conforme lembra Jaspers na Introdução ao pensamento filosófico, o Decálogo é "maravilha de simplicidade para todos os tempos [...] pois, é de uma vez só revelado e capaz de convencer o homem enquanto homem" .
Conta a Bíblia Judaica que um pouco antes de 1200 a. C., um judeu criado na corte do faraó, de nome Moisés, liderou um grupo de escravos na fuga do Egito. O grupo de libertos entrou no deserto em busca de uma nova terra, para viver e a eles outras tribos nômades associaram-se nessa fé e esperança comum. Acreditavam que o Deus que os tirara do Egito lhes daria uma terra livre de dominação. Esse era Um Deus diferente dos encontrados na região, um DEUS vivo e poderoso que caminhava junto com o povo e ouvia seu clamor.
Propunha-lhes, em contrapartida, uma forma de viver sem a qual seria impossível sobreviver no deserto, e menos ainda organizar-se como povo na terra da esperança.
Ao conceder-lhes a liberdade política e lhes oferecer uma nova vida, DEUS deu-lhes regras capazes de assegurar a liberdade íntima e uma vida socialmente organizada. Independente de compartilhar a fé desse grupo, a caminhada pelo deserto e a instalação na nova terra somente foi possível porque os se submeteram à autoridade de Moisés e as regras que ele lhes deu em nome de Deus. E Moisés apresentou a regra para viver em grupo, uma regra em mandamentos também encontrados entre outros povos da região, mas não de forma tão simples e completa. Como não acreditar que aquela síntese proviesse diretamente do Deus poderoso que estava realizando o extraordinário prodígio de libertar o povo de um reino poderoso e levá-Io a salvo pelo deserto?
Assim entenderam os que seguiam Moisés. Eles tomaram a sério o código mosaico embora as regras pudessem parecer um código banal ou uma síntese
superficial. A história revelou que as regras não eram banais, o seu uso mostrou-se uma orientação maravilhosa para viver em sociedade. Em nossa cultura, distinguimos, portanto, duas tradições, a grega e a judaico-cristã, cada qual com seu propósito, mas que se entrecruzaram na formação da cultura ocidental. O cristianismo foi quem primeiro aproximou a herança grega da tradição judaica e abriu espaço para um diálogo entre a vida religiosa e filosófica. Contudo, não podemos entender que enquanto disciplina filosófica a ética esteja na dependência da religião, pois seu desenvolvimento seguirá caminho autônomo. O que se quer dizer é que os valores cristãos influíram na ética filosófica e na base da cultura ocidental, embora a tradição filosófica tenha se mantido autônoma.
O que foi dito no parágrafo anterior nos coloca diante de dois
aspectos fundamentais presentes nesse livro. De um lado, a ética filosófica, tem tradição própria e tem objetivos diversos da ética judaico-cristã. De outro, a última também possui história própria, mas elementos das duas tradições
se juntam na formação da chamada cultura ocidental. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CORRUPÇÃO POLÍTICA NO BRASIL E ITÁLIA. Selvino Antonio Malfatti


Sempre me convenço mais que há uma similaridade entre a corrupção política italiana, exposta a partir de 1990, e a corrupção política brasileira, esta, vindo a público a partir das denúncias de Roberto Jefferson, em 2005. Na Itália a ação foi deflagrada após a prisão de Mario Chiesa. Ambas têm muitos pontos em comum e, claro, outros divergentes. Comuns é o sistema multipartidário e diverso o sistema de governo. Na Itália, parlamentarismo; no Brasil, presidencialismo. Uma das características mais marcantes nos dois casos é o envolvimento de membros de quase todos os partidos. Vejamos.

1.    O sistema de poder italiano até a década de Noventa era multipartidário.  Um partido com maioria simples, coligado com outros partidos formava o governo. Faziam-se as eleições, o partido conquistava a maioria relativa, o Presidente da República nomeava o Presidente do Conselho e este deveria fazer as coligações para apresentar um ministério com a confiança das duas câmaras. O eixo da política italiana girava em torno do partido, que até então compunha um governo num sistema de coligações. O partido de liderança, na Itália, era a Democracia Cristã.

2. O sistema político brasileiro também é multipartidário, com um partido de maioria simples que necessita coligar-se com outros partidos para conseguir maioria no Parlamento. O eixo da política brasileira gira em torno de um partido com suas coligações. Até aí nada demais. O problema começa a emergir tanto lá como cá com adoção do critério das coligações. Isto é, quando o critério passa a ser pecuniário que pode ser em espécie ou benefícios como ministérios, cargos, sinecuras e outros. O partido governo governista, no Brasil, é o Partido dos Trabalhadores.

3. A partir de Noventa na Itália emergem denúncias de corrupções. As tentativas para sanar eram sistematicamente neutralizadas pelos parlamentares. No Brasil ocorreu a mesma coisa. Até se ensaiou Comissões Parlamentares de Inquérito, mas a maioria deu em nada.

4. Na Itália o volume de denúncias foi colossal. Os crimes de Tangentopoli ou Mani Pulite podem ser classificados sob vários critérios. Seguimos o critério de Luca Ricolfi . Conforme este autor, as acusações de crimes podiam ser classificados em a) abuso de poder, b) econômico-fiscais e patrimônio, c) potencialmente de mera transgressão, d) Comportamentos violentos ( atentados, homicídios, seqüestro de pessoas),  e) associações ( mafioso, delinqüente, subversiva, militar, partido fascista), f) Opinião e informação ( revelações de segredos de ofício, instigação a desobediência às leis, difamação, vilipêndio de instituições, apologia ao fascismo, e outros),  g) Rixa e conflito, h) outros ( danos efetivos, comportamentos dolosos, atos provocativos).   Um sintético inventário dos inquéritos judiciais nos levaria a nada menos que 914 processos, envolvendo 179 tipos de crimes. Dentre estes, os mais citados foram corrupção inerente ao cargo ( 165), extorsão ( 167), divulgação de notícias falsas ou tendenciosas ( 170), falsidade ideológica, de informação e escrita  ( somadas as três:  511), Inobservância de ordens de autoridades ( 179), ameaças obrigando a cometer crime ( 169), acordo entre contribuintes para o não pagamento de impostos ( 162), atentados ( 156), homicídios ( 75),  enfim uma infinidade de acusações.   

5. No Brasil a situação é praticamente idêntica. Os partidos, uns mais outros menos, engalfinhara-se na luta por verbas O estopim tem início quando um funcionário dos Correios é flagrado recebendo propina. Desde então, até o presente, veio a público uma dezena de casos semelhantes. Os de maior repercussão foram acusações de crimes envolvendo parentes do Presidente Luís Inácio Lula da Silva - os denominados casos Lulinha e caso Vavá -, o saque de Roberto Marques - assessor e amigo do ministro José Dirceu -, Paulo Okamotto - pagador de contas do Presidente .- as movimentações milionárias em paraísos fiscais do publicitário Duda Mendonça, a violação de privacidade e gestão fraudulenta do ministro Antonio Palocci, as ações de Henrique Meirelles tentando liquidar os bancos Mercantil e Econômico, a duvidosa intervenção do Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos na tentativa de encobrir a violação do sigilo bancário por parte do ministro Antonio Palocci, a concordância da nacionalização dos bens da Petrobrás na Bolívia por parte do executivo brasileiro, as propinas recebidas através do Dossiê Dantas, as Comissões Parlamentares de Inquérito, sem falar no assassinato ainda não elucidado do prefeito de Sento André, Celso Daniel, e na renúncia do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu (Carneiro, 2006). Comissões Parlamentares de Inquérito se multiplicam, atualmente já passam de uma dezena. Tiveram início com as dos Bingos, depois dos Correios, em seguida com a do Mensalão e continuaram com a da Imigração Ilegal, da Terra, das Armas, da 8iopirataria e do Extermínio do Nordeste. E novas estão surgindo, como a da Anatel e das Empresas de Telecomunicações, a do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, a que trata do Registro Nacional de Veículos Automotores - Renavam, CPI das Sanguessugas e outras. Atualmente a maior ação na justiça é o Lava-Jato que envolve o núcleo do poder, como o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e atual presidente Dilma Rousseff, além de deputados, senadores e políticos de primeiro escalão.

6. Tanto na Itália como no Brasil as tentativas para estancar a sangria da corrupção eram neutralizadas pelos próprios parlamentares. O efetivo julgamento e condenação dos acusados somente ocorrem quando se iniciam os processos judiciais processando políticos de liderança nacional de envolvimento com o mundo da criminalidade, da corrupção, do tráfico de influência e do crime organizado levando-os à prisão.

7. A situação atual, na Itália, praticamente o processo está concluído e no Brasil está em andamento.


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