quarta-feira, 14 de maio de 2014

A banana e uma séria questão. José Maurício de Carvalho












O jogador Daniel Alves, atleta do Barcelona e da seleção brasileira, reagiu de forma irreverente à provocação de um torcedor que lhe arremessou uma banana. O fato foi notícia em todo mundo. Apanhou-a e comeu-a instintivamente, confessou em entrevista a uma revista de notícias, comportando-se como os macacos nos zoológicos. E assim, usando um comportamento instintivo de forma calculada, desconsiderou a ofensa, assumindo a herança ancestral da nossa humanidade comum. Colocou-se acima da injúria, num lugar onde ela não podia atingi-lo. Num lugar onde a humanidade não é ofendida pela herança animal porque entende que o que a identifica não é este passado. E do que vamos tratar, a seguir.
O reconhecimento da humanidade comum é uma longa conquista da consciência humana, mas encontra adversários no próprio homem. Há algo irracional, profundo, apaixonado em nós, cujas forças arrastam e não são facilmente esclarecidas pela razão. Assim, é movido pela paixão o homem atraído pelo corpo feminino, ou que deseja determinado objeto com uma intensidade que lhe parece inexplicável. É que muitos atos e escolhas de nossa vida decorrem de desejos, ou de apetites sensíveis, como diria Santo Tomás e os seus contemporâneos medievais. No fundo, o que amamos e rejeitamos tem motivos não só racionais ou nascem de escolhas conscientes, mas como resposta a desejos profundos, sobre os quais a Psicologia e a Psicanálise se debruçam com permanente fascínio.
E é assim, por impulsos de nossa origem ancestral, a mesma que faz a banana um alimento tão bom para a espécie, que identificamos os mais próximos pela aparência física, pelos cheiros, pela proximidade nas formas de agir. A família biológica constitui um núcleo de unidade cujas razões transcendem muito as razões intelectuais para conviver. Nela se vive sentimentos intensos de amor e ódio, como relata a literatura. É o mesmo sentimento que se estende para determinados aspectos étnicos, que ligam as pessoas mais a um grupo que a outro. E assim, pela herança animal, somos muitas vezes movidos por amor e ódio animal, quer indo contra uma pessoa ou nos aproximando dela, mas, nos dois casos, estimulados por forças e impulsos dos quais temos pouca ou nenhuma consciência.
O homem reage assim a favor do seu grupo de pertença e contra outros com os quais não se identifica e isto não é um fenômeno desconhecido no próprio reino animal. Atirar bananas para dizer: você não é do meu grupo, o que está fazendo aqui? é reação animal. No entanto, há muitos séculos a humanidade deu-se conta de que não pode se guiar unicamente pelas paixões, embora não tenha como extirpá-la da carne. A experiência de um amor mais amplo que o instinto não é fácil de ser aprendido. O grande mestre da humanidade, Jesus de Nazaré, sofreu e morreu tentando ensiná-lo. Ele alertou que todos são capazes de agradar amigos e parentes, os pais dão coisas boas as seus filhos, mas nem todos os homens enxergam no estrangeiro, no pobre ou no distante o objeto de amor e da atenção. E foi o que Jesus quis ensinar, uma nova forma de amor que não se limita a parentes, ou ao grupo nacional, mas se alarga a toda a humanidade. No caso, embora não estivessem fazendo boas coisas, também o romano invasor e opressor era digno do respeito humano. Respeito ao homem, embora não condescendência com o erro. Perdão ao que erra, mas não aceitação do erro. Perdão que deu aos seus torturadores, embora não à tortura.
A experiência de um tal amor, ensinado durante séculos pelos seguidores que Cristo deixou entre nós, não mudou o homem na sua raiz animal, mas suscitou e permitiu nova experiência histórica ou cultural. E qual é esta experiência? A de que não só a religião, mas a própria condição humana, sua racionalidade comum, exige o reconhecimento de todos os homens potencialmente livres e racionais como criaturas iguais. Todos são merecedores do mesmo respeito dedicado àqueles que nos são próximos e queridos. A fórmula da moral kantiana de respeito à humanidade, em si e no outro sempre como fim, nunca como meio, é a antítese do que proclamaram os nazistas. Eles elegiam, em suas explicações e comportamento, as vidas que mereciam ser respeitadas e aquelas outras que não eram dotadas desta dignidade. A mesma nação que nos ofereceu a genialidade de Emmanuel Kant, mostrou que o reconhecimento moral não é automático.
E é esta raiz moral, desenvolvida em séculos de história da civilização e reconhecida pela consciência humana, que levou as nações da terra acordarem em rejeitar as manifestações racistas. Reside nesta compreensão moral que une os homens numa humanidade comum, as leis que foram criadas nas diversas nações para proteger a vida e a dignidade das pessoas.
O racismo, em suas várias manifestações, é a obediência ao instinto de pertença primitivo como justificativa para defender a existência de grupos superiores. Superioridade que não tem comprovação científica, não encontra amparo na racionalidade, não tem justificativa legal, mas radica nos instintos primitivos, cuja manifestação plena ameaçam a vida civilizada.

O episódio da banana mostra que nem mesmo na Europa desenvolvida a consciência moral é conquista fácil e completa. E qual é este nível desejável? A consciência que somos irmãos diante do Criador, ou ao menos, iguais pela genética comum e pela razão prática que nos faz responsáveis pela nossa liberdade.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

POLÍTICA E ÉTICA. Selvino Antonio Malfatti e José Maurício de Carvalho





   














Este pequeno livro sobre Ética e Política não foi concebido nos moldes acadêmicos da pesquisa científica, mas nos padrões didáticos. Ele pretende trazer esses dois assuntos ao público através de pequenos textos. No entanto, procuram revelar cuidado com os conceitos fundamentais das disciplinas e respeitam uma metodologia de  reflexão.
Os textos são curtos, mas enfrentam problemática densa, quer quando apresentam a existência do homem como permanente efetivação de escolhas, quer quando situam a vida do homem no âmbito das questões grupais. Foram organizados por temas embora a leitura possa ser feita separadamente. E eles têm por referência que a existência humana não se verifica fora da sociedade, o que estabelece de regras de convivência que orientam as relações sociais e práticas administrativas, de gestão da vida coletiva, e de planos para o destino dos grupos.
A Ética é uma disciplina filosófica e, como tal, consolidou-se como reflexão sobre os costumes. Nesse sentido, seu material não é criação dos filósofos, mas procedimentos desenvolvidos na vida coletiva. Moral é o conjunto de normas de um grupo sobre as quais se debruça o filósofo para entendê-las e justificá-las racionalmente. A política, por sua vez, é destino, uma forma de orientar o futuro das sociedades.
As reflexões aqui apresentadas tratam de assuntos que emergiram da problemática ética e política predominante no Brasil, mas também se estendem a questões transnacionais. É que o universal é alcançado pelas experiências concretas da vida. O pensamento político decorreu das vicissitudes enfrentadas pelos debates, eleições e confrontos partidários. O conteúdo ético, por sua vez foi ensejado pela práxis política. Por isso, há um intercâmbio entre a prática e a teoria da política para a ética, e desta para a política.


sexta-feira, 2 de maio de 2014

A sarneyrização do governo Dilma. Gustavo Müller, professor UFSM.




Pesquisa recente do Instituto DataFolha mostra um medo generalizado da volta da inflação. Os dados demonstrados pelo referido instituto dão conta de que para 69% dos que têm renda mensal acima de dez salários mínimos a inflação deve aumentar. Obviamente tal faixa de renda possui também o maior nível de escolaridade.  Não obstante, o dado mais significativo mostra que cerca de 90% dos que ganham até dois salários mínimos já perceberam o aumento da inflação. Como é sabido, os que se situam nessa faixa consomem grande parte de sua renda com os alimentos, e mesmo que estes sejam sujeitos a aumentos sazonais – causados por quebra de safra por exemplo –o que estamos assistindo é uma reindexação da economia provocada pela deterioração das expectativas dos agentes econômicos.
Pesquisas na área de comportamento eleitoral já demonstraram fartamente que o desempenho econômico dos governos é um fator determinante para a decisão do voto. Com a base eleitoral do governo (eleitores na faixa de dois salários mínimos) alarmada pela elevação dos preços é razoável supor que mesmo reeleita, os ajustes que terão que ser feitos em 2015 “minarão” a legitimidade conferida à Dilma pelas urnas. Não bastasse isso, é pouco provável que os “aliados” darão suporte para eventuais reformas que poderão ser tentadas em um rompante de lucidez pouco provável.

Há de se constatar que, por razões ideológicas, o governo seguiu o roteiro do desastre incentivando o consumo sem tomar medidas para o aumento da produtividade, o que fez com que a conta não feche. Medidas “heterodoxas” foram promovidas pelos governos militares e pelo governo Sarney,  e deram com os burros n’água. O triste é ver toda a arquitetura de desindexação levada a cabo na transição da URV para o Real se desmontada por quem não leu (ou esqueceu que viveu) a historia recente do país.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Airton Senna, 20 anos. José Maurício de Carvalho




Em maio de 1994, morando fora do país, assisti chocado a morte de Airton Senna, um brasileiro cidadão do mundo. Tão impressionante quanto o próprio acidente eram as imagens que chegavam à Europa de um país ferido. O povo em estado de choque, as pessoas com olhar perdido caminhando pelas ruas, as crianças chorando. Brasileiro acima de tudo, com a bandeira nacional erguida depois de cada vitória, Senna transformou nossas manhãs de domingo dos já  distantes anos 90, numa realidade mágica. Um brasileiro cidadão do mundo, pois não havia canto do planeta em que Airton Senna não fosse conhecido e admirado.
Ao recordar o corredor talentoso e humilde, vinte anos após sua morte em Ímola, nem de longe penso em retratá-lo como santo, o jovem corredor tinha angústias e contradições próprias da juventude. Errava como qualquer humano. No entanto, o garoto tímido fazia do seu projeto de correr algo tão grande quanto nosso país continental. Ele corria por todos nós e seu projeto de vida ultrapassava sua existência singular, para ser, para nós, figura exemplar de dedicação, exemplo de um país que dava certo. De alguma forma ele nos fazia sentir orgulho do Brasil. Isto não é pouco.
O fato de viver completamente sua vocação de corredor até o limite extremo do quanto alguém pode ser fiel ao que tem de mais singular no seu íntimo, o fato de querer melhorar o país com seu esforço, o seu desejo de fazer de todos nós vencedores em nossa luta diária, fez dele o ídolo de uma geração. O que há de mais profundo em cada um de nós não são os limites, mas as pontes que nos levam para além deles. E Airton sabia como poucos transcender seus limites, sem deixar de ser humanamente limitado: pela dor, pelo sacrifício e, finalmente, pela morte trágica que o levou tão jovem.
O ser alguém capaz de entregar-se completamente a sua missão e, sobretudo, por fazer dela a causa de uma nação, ela fez dele um herói. Herói como tantos que este país produziu e produz, mas cuja memória não cultivamos nem divulgamos. Ou pior, sou de uma geração que não acreditava em heróis, ou que um povo não precisasse deles. Airton me obrigou a pensar diversamente e romper esta lógica niveladora da mediocridade. Um povo precisa de heróis, como a Igreja de santos. Pois uns e outros são pessoas comuns, capazes de fazer gestos simples que possuem a força dos gigantes. Ambos ensinam a fazer o melhor, a procurar o melhor, a ser melhor, em não se conformar com menos.
Um homem e uma nação podem funcionar sem este espírito, mas dificilmente chamaríamos de vida às escolhas que brotam dessa existência sem fidelidade completa ao mais íntimo de si. Ser o melhor que posso ser é uma experiência humana maravilhosa, marcada pelo espírito de uma ética da fidelidade a si e do sacrifício que leva à vitória.

A morte de Aírton, iluminada por este olhar que clareia sua vida, não foi um desperdício que terminou no acidente trágico daquela manhã de domingo. Sua vida ganhou, pela exemplaridade e amor que os brasileiros lhe dedicavam, dimensão de permanência e eternidade. Airton viveu uma vida de significado pleno. Então, viva Aírton.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Pela Filosofia. José Maurício de Carvalho



Ao inserir na prova de Filosofia do ensino médio uma questão sobre música da cantora Vaneska Popozuda, o Prof. Antônio Kubitschek, da cidade de Brasília,  levou a Filosofia para passear no jardim do ridículo. E diga-se logo, este não é lugar adequado para esta velha senhora de 2600 anos, ocupada com as questões fundamentais da existência do homem e do mundo. E por que não é um bom lugar para esta velha senhora? Porque em nosso tempo muitos não a compreendem, outros fingem respeitá-la, embora a desprezem. Há, finalmente, políticos oportunistas que querem vê-la fora das escolas pelos riscos que representa ensinando pensar de forma crítica os problemas da vida pessoal e da sociedade. Estes políticos desejam eliminar a Filosofia da Escola para evitar os questionamentos dos cidadãos e indiretamente poupar tostões com os quais se remunera mal os professores de Filosofia. Argumentam haver finalidade mais nobre para o dinheiro público. A mídia adorou divulgar a questão ridícula.
E quero desde logo esclarecer que não se critica aqui o uso de letras de música para provocar reflexão. Isto pode ser feito. Nem se trata de excluir de pronto o conteúdo da questão, pois sabemos que se pode falar de um simples copo d' água e isto ser Filosofia. Foi o modo de falar. Insisto, não é o tratar das coisas comuns da vida que afasta a Filosofia, pois sempre é possível retirar das experiências quotidianas um sentido profundo, buscar no  rotineiro as origens da certeza universal ou caminhar na autoconsciência do ser. É sempre possível perguntar-se se não respeitar a fila ou empurrar alguém ao entrar na condução encontra justificação universal. Porém, o fenomênico e o banal na reflexão filosófica hão de ser interrogados para se abrirem ao  amplo e fundamental. Refletir sobre o simples não significa que qualquer coisa é válida como Filosofia e isto a mídia não ajudará a esclarecer após a lamentável divulgação da prova. A opinião pública ficará com o que ouviu da questão infeliz.
A Filosofia foi levada ao jardim do ridículo também porque o Professor disse pretender a polêmica. Conseguiu a polêmica, mas promoveu reflexão filosófica? Ajudou a popularização ou a compreensão da Filosofia? Não acredito. Pode parecer que o propósito da Filosofia seja criar controvérsia, iniciar debate, promover a discussão, mas não é. O debate filosófico tem sentido como instrumento, quando se realiza em torno a questão específica, quando todos os debatedores estão comprometidos com o propósito de pavimentarem juntos o caminho até a verdade.  Dito de outro modo, embora a reflexão filosófica seja sempre individual ela precisa considerar o argumento de outras reflexões, pois ninguém na absoluta solidão de sua consciência encontra a certeza do fundamento. Não faz sentido a polêmica pela polêmica, mas faz sentido o diálogo que busca a verdade e esclarece os problemas.
A Filosofia foi levada ao ridículo porque apontar Valeska Popozuda como grande pensadora contemporânea sugeriu que a tradição filosófica é uma banalidade. Um lugar onde se coloca qualquer um. Como a cantora se apresenta ao público? O que a diferencia das outras Valeskas (e não Valeskas)? Qual é sua singularidade? O fato de ser Popozuda, isto é, segundo o Aurélio, o possuir grandes nádegas ou popa. E tão grande ela tem que não é só uma popa de respeito, mas é Popozuda. É assim que ela se identifica, é o que a diferencia das outras mulheres e, por extensão, de todo o restante da humanidade. E nada do que ela tenha escrito parece significativo no esforço de aprofundar a consciência do homem durante mais de dois milênios e meio. A tradição filosófica está bem demarcada no espaço da cultura pelo propósito de penetrar no fundamento do mundo e da vida. A tradição filosófica é movimento intelectual em torno as suas grandes obras e ser grande aqui não é simples. É preciso possuir grande reflexão.

Embora a Filosofia comporte muitas definições e interpretações, ela é reflexão pela qual o homem se pergunta pelo que existe e pela forma como se insere nisto que ele chama mundo ou realidade. É atividade séria, mas pode ser leve e didaticamente ensinada.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

QUASE UM SÉCULO DE CULTURA. Selvino Antonio Malfatti




Hoje Reflexão homenageia ANTONIO PAIM, o intelectual brasileiro que completou 87 anos.
Inicialmente projetado para ser o guru do socialismo-comunismo no Brasil – inclusive com formação acadêmica em Moscou – quando percebeu o dogmatismo dessas ideologias, converteu-se à liberal-democracia. Devido à perseguição movida pela KGB russa teve que abandonar aquele país deixando por lá mulher e filha. 
No Brasil passa a lecionar em universidades fundando cursos de pós-graduação. Como resultado conseguiu formar escola e ter seguidores. Estes poderiam ser divididos em três categorias: os de primeira geração como Ricardo Vélez Rodriguez, Leonardo Prota, Anna Moog Rodriguez e outros. Os de segunda geração, como José Maurício de Carvalho, Tiago Lara, Selvino Malfatti e os de terceira geração que receberam formação de discípulos de Paim.
Nada melhor ouvirmos seu discípulo, um dos mais completos, Ricardo Vélez Rodriguez:

O ANIVERSÁRIO DO MESTRE ANTÔNIO PAIM




No passado 7 de Abril, um grupo de familiares, amigos e discípulos de Antônio Paim,  comemoramos em São Paulo os 87 anos do mestre. O evento aconteceu na Tasca do Zé e da Maria, em Pinheiros. A filha Augusta (que mora em S. Paulo) e a amiga Rosa Mendonça de Brito (residente em Manaus), planejaram tudo. Foi uma festa surpresa para o querido mestre. As organizadoras teriam gostado que mais amigos e discípulos do Antônio Paim estivessem presentes. Mas com o corre-corre foi difícil entrar em contato com mais pessoas. 

Estiveram presentes: Maria e Arsênio Corrêa (S. Paulo), Leonardo Prota (Londrina), Anna Maria Moog (Petrópolis), Ricardo Vélez Rodríguez (Londrina), Rosa Mendonça de Brito (Manaus), Augusta Fonseca Paim (S. Paulo) e Antônio Roberto Batista (S. Paulo).

Antônio Paim é um desses educadores que conseguem manter nexos de amizade com as várias gerações de discípulos que passaram pelas suas aulas. Coloco, a seguir, os depoimentos de duas discípulas do mestre: Anna Maria Moog e Rosa Mendonça de Brito. 

Eis o depoimento da Anna Maria Moog: "Ao receber o e-mail de Rosa (Mendonça de Brito)  propondo que eu fosse, dali a dois dias, participar de um jantar comemorativo do aniversário de mestre Antonio Paim, pensei que não conseguiria me desvencilhar dos compromissos prévios.  Mas logo decidi colocar tudo de lado e viajar para S. Paulo .  Valeu a pena. Foi uma enorme alegria estar com amigos de longa data, unidos justamente pela amizade, respeito e admiração que nutrimos pela figura de Paim. Ao longo dos anos, Antonio Paim tem sido nosso norte, a referência inelutável para seus amigos, ex-alunos e admiradores de sua obra, sobre todos os temas relativos à cultura, à filosofia, à moral e à política.  Acima de ser referência intelectual, reconhecemos nele o homem de bem, de postura discreta mas capaz de iluminar com suas palestras inteligentes e, por vezes, espirituosas, nossas reuniões.  O homem que nunca faltou  com seu apoio aos que a ele recorreram e jamais, jamais deixou um amigo 'na mão'.Inúmeros depoimentos sobre sua pessoa já o declamaram de sobejo. Por esse, e muitos mais motivos, o jantar dos 87 anos do jovem Antonio Paim foi festejado  com alegria, mormente porque proporcionou aos amigos a oportunidade de lhe demonstrar mais uma vez o carinho que lhe temos e a alegria de o abraçarmos".

A seguir, o depoimento de Rosa Mendonça de Brito: "O encontro com Paim, Augusta, Anna Moog, Leonardo Prota e Ricardo Vélez,   encontro de mestre e discípulos, colegas e amigos, em São Paulo, na Tasca do Zé e da Maria me fez retroceder no tempo e chegar a 1975, 39 anos atrás, quando da seleção para o Mestrado em Filosofia da PUC/RJ. Vencidas as duas etapas da seleção, a avaliação do projeto de dissertação e prova de língua estrangeira, tinha que encarar uma entrevista com três professores do Programa. Lembro-me que tive de passar pelo crivo de Celina Junqueira e de Antonio Paim, não me recordo do nome do outro professor. Naquele momento, quando da entrevista, uma pergunta de Paim me marcou profundamente. O mestre perguntou: 'EU GOSTARIA QUE VOCÊ ME EXPLICASSE POR QUE O HUME DESPERTOU O KANT DO SONO DOGMÁTICO?' Minha resposta foi: 'não sei, faço tal afirmação porque ela sempre esteve presente nos livros que estudei e nas aulas dos meus professores, mas nunca li ou ouvi qualquer explicação sobre a afirmação'. A resposta para o desconhecimento foi uma bela aula que nunca mais esqueci. Aceita, após aprovação na seleção, para compor a turma de Mestrandos de 1976, voltei a encontrar Antonio Paim em sala de aula. Minha intenção era fazer o Mestrado em Filosofia da Ciência, mas suas aulas me levaram a optar pela área de Filosofia Brasileira e procurá-lo para pedir - e confesso que bastante temerosa -, para que ele me orientasse. Para minha satisfação, ele aceitou. Naquela jornada, a fim de suprir a minha deficiência de conhecimentos - me sentia uma formiga diante de elefantes - e não decepcioná-lo, estudava pelo menos 18 horas por dia. Entrava na PUC às sete da manhã e saía às dez da noite, quando a Biblioteca fechava. Em casa, estudava pelo menos até 2 da madrugada, mas valeu a pena! Paim se colocava a disposição e, além disso, disponibilizava livros, orientava na busca de documentos e obras que deveria estudar. Defendida a Dissertação, em 1979, voltei para Manaus, mas não perdi o contato com o Mestre, que já considerava amigo. Com a criação do Doutorado em Filosofia Luso-Brasilera, na Gama Filho, submeti para a seleção de 1982 o meu Projeto de Tese com tema sugerido por Paim, feito da seguinte forma: 'Você topa realizar um estudo sobre a Filosofia de Kant no Brasil? É um estudo denso, mas é muito importante para o pensamento brasileiro'. Eu lhe perguntei: 'O senhor acha que eu tenho competência para realizar este trabalho?'  A resposta foi: 'sim, tenho certeza que você fará um bom trabalho'. Era um estudo que ele pretendia realizar 5 anos mais tarde, mas que, acreditando na minha capacidade, o delegou a mim. Diante da demonstração de confiança,  senti-me lisonjeada e, apesar de apavorada com a dimensão e profundidade do estudo, resolvi aceitar o desafio. Enfrentei algumas dificuldades: doença, fechamento do setor de obras raras da Biblioteca Nacional, 2 filhos pequenos (Márcio com 1 ano e meio e Gisele com dois anos e oito meses), falta de empregada de confiança. Apesar disso, consegui com a orientação segura e indispensável de Paim, concluir o doutorado em três anos, tendo a honra de ter como membros da banca de defesa, além de Antonio Paim, Anna Maria Moog, Creuza Capalbo, Ricardo Vélez e Aquiles Guimarães, amigos queridos a partir de então.Naquele momento, além da dimensão de educador, descobri em Paim uma dimensão humana fantástica. Nunca passou a mão na minha cabeça, ao contrário, exigia o máximo de mim, cobrava o tempo todo, mas ajudava sempre através de discussões, de indicação de onde encontrar com pessoas ou instituições o material para o desenvolvimento do trabalho que envolvia pesquisa em obras raras. Evaristo de Moraes Filho, por intermédio de Paim, me disponibilizou a sua biblioteca particular, em sua casa, para que ali realizasse estudos em obras não encontradas em outro lugar. Paim fez muito mais! Levando em consideração que eu tinha duas crianças pequenas, fazia a minha orientação em seu apartamento no Leme, com isso, tornei-me amiga de Rita, sua mulher, e suas filhas Juliana e Augusta. Toda semana, quando ia para o encontro de orientação e não tinha com quem deixar os meus filhos, eu os levava. Juliana e Augusta ficavam com eles enquanto me era dado o privilegio de receber magníficas aulas. Paim foi fundamental para o meu desenvolvimento intelectual. Ser-lhe-ei eternamente grata. Ele será sempre o meu guru e mestre favorito!"



sexta-feira, 4 de abril de 2014

E a música é …? José Maurício de Carvalho.


    http://www.youtube.com/watch?v=Z-2AngS_Z5k

O crescimento econômico do Brasil nas últimas décadas, somado à consolidação da democracia no mesmo período, deu ao nosso país destaque e visibilidade que ele não tinha. O mundo voltou os olhos para o Brasil, como passou a observar com maior atenção outros grandes países que cresceram economicamente: Rússia, Índia e China. É claro que apesar do desenvolvimento econômico continuamos com muitos problemas sociais e de infra-estrutura, o que não é estranho já que mudanças profundas são para mais de uma geração. Ainda assim o modo de ser brasileiro tornou-se uma curiosidade universal até porque o país se propôs a realizar dois grandes eventos da atualidade: a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016. A visibilidade aumentará mais ainda nos próximos anos.
Esta redescoberta contemporânea do Brasil pelo mundo não deixa de ser curiosa e ajuda a olhar para nós mesmos com outros olhos, isto é, com os que de fora nos enxergam. A satisfação e espírito patriótico cresceram aqui dentro e o mundo começa a enxergar as coisas boas que estamos realizando. No entanto, esta onda brasílica que percorre os cinco continentes possui um lado meio cômico, meio histérico que antes de divertir me incomodou bastante: Luan Santana e sua música nomeada de brega sertaneja. A tal música está longe de ser sertaneja, pelo menos não tem nada a ver com a chamada música de raiz, mas hoje é tocada nas grandes cidades e no interior. Quanto a ser prega isto pode ser, eu não saberia classificar.
E depois de Ai se eu te pego, o país de músicos do quilate de um Pe. José Mauricio, Carlos Gomes, Ari Barroso, Francisco Braga, Henrique Oswaldo, Leopoldo Miguez, Lorenzo Fernandez, Radamés Gnattali, Cláudio Santoro, e outros tantos populares como Pixinguinha, Lamartine Babo, Francisco Alves, Cartola, de ritmos tão diversos como bossa nova, jovem guarda e tropicalismo, de folclore tão rico e variado com: baião, batuque, bossa nova, choro, lundu, maracatu, maxixe, samba, modinha, virou o país de Michel Teló: ... Delícia, Delícia, assim você me mata (...). Nos últimos meses é um tal de jogador de futebol, jogador de tênis, jogador de basquete imitar a pornodancinha de Luan Santana para celebrar seus triunfos atléticos que a cena ficou cômica. E a moda ganhou mundo, pois não apenas os atletas e artistas, mas o público imitando seus ídolos procura também repetir a já conhecida dancinha. Como português é língua pouco conhecida o povo pelo mundo afora não tem a menor ideia do que se canta e viaja na fantasia dos gestos mesmos. O aborrecimento inicial que tive hoje é pura diversão, povos que imaginavam que nossa capital era Buenos Aires ou que aqui se chamava Bolívia estão sob nossa influência cultural e de que nível! Estou adorando e a vingança será completa quando os americanos, protestantes de raiz, aderirem a dancinha pornoerótica, se chegarem a tanto. O que não farão quando descobrirem a música de Vila Lobos? Terão orgasmos múltiplos na Quinta avenida. Até os frios japoneses se curvarão ante produção tão magnífica, não? Se eles gostam de Michel Teló como responderão a Carlos Gomes? Acredito que em êxtase completo.
Enquanto o mundo gira e o país real encontra-se afogado pelas águas de verão na sua habitual imprevidência e falta de planejamento, o mundo dança ao som de ai se eu te pego, ai se eu te pego. Como classificar mesmo a música: brega sertaneja? Não, é lixo mesmo. E a ela a história dará o mesmo destino do último sucesso do nível: minha equinha pocotó. O que se espera é que nenhum movimento popular de protesto resolva levar também o jovem cantor brega sertanejo e seu rebolado ao Parlamento, como levou o cantor de minha equinha pocotó. Aí já não me divertiria tanto.



Postagens mais vistas