sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O romantismo filosófico, a emergência da história e forças naturais. José Mauricio de Carvalho – pós-doutorando do PPGPsic. /UFJF

 



A modernidade consagrou a nova ciência e a técnica como grandes feitos. Essa nova ciência se tornaria crescentemente importante, fornecendo ao homem tanto a sensação de maior controle da vida, como as bases de um novo humanismo, pautado na experiência sensorial e conhecimento racional. Deus passou a ser concebido como grande matemático universal ou um programador que fazia o universo funcionar como um grande relógio. Em outras palavras vemos emergir, especialmente entre os empiristas (iluministas britânicos) e entre os enciclopedistas (iluministas franceses) um humanismo laico. Assim, entre os séculos XVI e XVIII, durante quase três séculos ganhou força o racionalismo, especialmente a razão experimental. Isso quer dizer que embora a fé religiosa continuasse importante, as categorias para se referir a ela caíram em desuso e essa crença perdeu relevância na compreensão do mundo. Foi o que levou Martin Buber a referir-se à modernidade como o tempo do eclipse de Deus.

O ponto de chegada da modernidade foi Immanuel Kant, que apontou o caminho da superação dos impasses do cartesianismo, aproximando a razão experimental dos movimentos internos da razão. A Crítica da Razão Pura foi a obra magistral onde ele apresentou uma forma de conhecimento denominado sintético a priori, no item VII da introdução da Crítica da Razão Pura (São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 36). Esse conhecimento reunia os dados da experiência com uma nova maneira de compreender a razão. Dessa forma, o mundo não era simplesmente transposto de dentro para fora da consciência, nem amarrado a ela por uma mágica divina, mas resultado da atividade da consciência. Essa solução epistemológica de Kant valorizou a vontade e propôs uma nova forma de metafísica, comparada à revolução copernicana no prefácio da segunda edição da obra (id., p. 14). O resultado foi igualmente a abertura de uma nova senda para o humanismo, concebida sobre a vontade e esse pensamento meta-empírico utilizado para explicar a arte e as criações humanas. E assim, ao explicar as razões para a validade das ciências, ao propor a autonomia da vontade e ao estabelecer uma nova visão da história, Kant plantou as bases de uma nova forma de pensar.

Kant é considerado o mais brilhante pensador da modernidade por solucionar os impasses do subjetivismo cartesiano (resolver o debate entre racionalistas e empiristas), defender de forma inquestionável a atividade criadora da razão individual (iluminismo), e ainda deixar aberta a investigação sobre valores e história, natureza e beleza. O tripé presente em sua obra: a capacidade criadora da razão, a valorização da vontade como responsável pelas ações humanas e o historicismo, é a base do romantismo. O movimento teve vertentes literária, estética e filosófica. Dessa forma, os princípios teóricos do romantismo embasam uma nova visão de história, literatura, arte e filosofia. E, da mesma forma que o iluminismo teve características próprias no seu desenvolvimento na França, Portugal, Alemanha, Inglaterra, etc., o romantismo filosófico teve diferenças nas formulações tradicionalistas e mais próximas do catolicismo na França, Itália, Portugal e Espanha e no conhecido idealismo alemão. Em todas essas concepções românticas encontramos a mesma valorização da religiosidade e de seus mistérios, da força incontrolável da natureza, da história e do papel importante do passado como tecido da vida. O movimento alimentou o compromisso humano com uma dimensão profunda e desconhecida do homem, combateu a vida medíocre, e alimentou os sentimentos presentes nos grandes feitos românticos e na apreciação estética. Por isso o romântico, homem apaixonado, é capaz de grandes sacrifícios por tudo aquilo que o apaixona.

A reunião desses temas forjou um dos mais importantes movimentos filosóficos da tradição filosófica: o idealismo alemão. Entre seus principais representantes os herdeiros diretos de Kant: Fichte, Schelling e Hegel. Esses autores preservam do kantismo o valor da razão, da história, da vontade, mas reorganizam a meditação de modo a eliminar aquele dualismo que Kant deixara entre o fenômeno (id., p. 33): “o objeto indeterminado de uma intuição empírica”, e a coisa-em-si ou nõumeno (aquele restante incognoscível que a metafísica antiga e medieval tentou apreender). Afinal, se o mundo era o que a consciência pensava ser, então a razão se identificava com a realidade, o que é real é o racional. Se não era apreendido pela razão individual, o era por aquela forma presente em toda a humanidade, uma razão absoluta, diria Hegel. E aqui novamente a herança de Kant, se o filósofo das Críticas concebeu um sujeito transcendental, como sendo a forma comum de pensar de todos os homens, o produto dessa subjetividade era uma razão universal completa e histórica, alimentada de forma poderosa pela vontade.  Está aí a base do idealismo alemão. Seu resultado foi o entendimento de que aquilo que se chama realidade é o resultado do pensamento e, de certa forma, cria a realidade na medida em que tudo o que existe é produto da atuação da razão. Dessa forma, como sintetizaria Hegel, o principal representante desse idealismo, o mundo é racional. Racional porque a razão cria o mundo (o concebe como fruto da razão histórica), compreende a natureza (com a ciência) e impõe lhe impõe valores.

O movimento realça a vida concreta contra a compreensão de homem abstrata do iluminismo e olha para a realidade mesma do homem na história, que fornece os elementos para compreensão de cada época. O romantismo também destaca as produções espirituais da humanidade organizadas em diferentes grupos nacionais, encontrando no folclore e histórias populares uma espécie de alma dos povos, elementos estruturais de sua alma. É no romantismo que surge a ideia de uma filosofia da história, trabalhada inicialmente por Johann Herder, um ex-aluno de Kant e vizinho de Goethe. Esse último é o maior expoente do humanismo estético. O poeta e filósofo Friedrich Schiller é quem melhor sintetiza arte, literatura e filosofia partindo da ideia de intuição estética da obra de Kant e concebendo o homem como a união de liberdade e determinismo, razão e instinto, individual e universal, com conceitos que se sintetizam na dialética hegeliana de síntese dos opostos. Nesse processo os instintos devem ser elevados e educados e não condenados como fez Kant na Fundamentação da Metafísica dos costumes.


sábado, 26 de setembro de 2020

OS MAIORES OPROBLEMAS QUE AFLIGEM O MUNDO ATUAL. Selvino Antonio Malfatti - professor titular da UFSM.

 



Problemas gravíssimos afligem a Humanidade estão aí gritando por socorro, mas parece que os países de Primeiro Mundo querem desviar a atenção apontando o foco somente para a Amazônia, elegendo-a problema número Um.  Como se não bastassem os problemas podemos mencionar algumas feridas abertas que afligem a Humanidade, sinais de alerta para os países ricos.

Ei-los:

I.          Analfabetismo.

Do total de países do mundo os pobres detêm 85% deles. E no seio deles o analfabetismo é responsável por um terço de sua população.

II. Crianças sem teto.

São milhares de sem teto que perambulam pelas estradas ou ruas de cidades em países pobres, ou em guerra, ou excluídos da do meio social.

III. Pessoas em identificação.

Enquanto nos países de Primeiro e Segundo Mundo as crianças são registradas imediatamente após o nascimento, o Terceiro mundo anualmente são 40 milhões de crianças “não existem”. Um em cada três deixa de ser registrado. Consequentemente tão terá nenhum direito e começar pela cidadania. Podem ser citados os países: Arábia Saudita, Haiti, Iraque, Nigéria, Senegal, África do Sul, Afeganistão, Camboja, Etiópia, Somália entre outros.

É de se salientar que na Convenção internacional das Crianças estas têm três direitos básicos junto ao nascimento: nome, nacionalidade e conhecer os pais.

IV. Perigo atômico latente.

Calcula-se que são no mínimo são trinta bombas nucleares espalhadas pelo mundo prontas para serem disparadas que poderiam explodir 40 vezes o consecutivas planeta (Desde 2018, os países da OTAN participantes no programa nuclear são Bélgica 10 - 20 ogivas localizadas na base aérea de Kleine Brogel, Alemanha 10 - 20 ogivas na base aérea de Büchel, Itália 50 ogivas na base aérea de Büchel e Aviano e 20 - 40 ogivas em Ghedi, Holanda 10 - 20 ogivas na base.

V. Embargos.

Outra guerra invisível sem armas e sem holofotes está acontecendo em surdina. Nestes últimos 8 anos já são 1.500.000 de mortos civis, por causa da fome, falta de medicamentos, dos quais 80% são crianças. No Iraque 250 pessoas morrem por dia devido ao embargo. Em que consiste o embargo? Basicamente é uma proibição de uma autoridade (física ou jurídica) de comerciar, vender ou comprar bens daqueles países passivos desta guerra informal. Evidentemente estes países pouco a pouco definham e morrer.

VI. A fome.

Na África 60% de crianças com menos de 5 anos são desnutridas, enquanto0 só na Itália uma tonelada e meia de pães são jogados fora. A desproporção de consumo de países ricos comparados com os pobres é abissal. Uma criança norte-americana, por exemplo, tem um consumo de 422 crianças. Um cão de país rico tem disponível 17 vezes mais alimento que uma criança pobre. Neste quadro, 11.000 mil crianças morrem desnutridas todos os dias. Uma criança a cada 8 segundos.

VII- Guerras.

As crianças são as primeiras atingidas nas guerras, seguidas pelas mulheres, idosos e doentes. Justamente os que nada têm a ver. Os senhores da guerra se protegem quer não participando ou participando indiretamente. No front é enviada a flor da juventude de seu país afogando mães em lágrimas. E fora do front ficam as crianças alvos de balas, bombas, granadas e toda sorte de armadilhas da morte. Nos recrutamentos até mesmo menores de 15 anos são alistados. Sempre aumenta mais o número de crianças participantes da guerra. Em 1996 havia 250.000 crianças na guerra, atualmente são mais de 300.000 mil. E cada vez mais aumenta o número de meninas participantes.

VIII. Tráfico de Órgãos.

IX. Negativa de fornecimento de medicamentos, alimentos, abrigos e proteção.

X. Envolvimento de civis nas guerras ou revoluções.

XI. Os países ricos são responsáveis por dois terços da poluição química e radioativa e por q2uase cem por cento do desmatamento de seu território.

Por isso, deixem a “Querida Amazônia” aos cuidados a quem compete e tenham certeza que tudo está sendo feito é o que garantem e estão fazendo as autoridades brasileiras.

 

 

 

 

 

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Kant e o iluminismo. José Maurício de Carvalho - Doutor e Filosofia

 



O texto Resposta à pergunta que é o esclarecimento (Aufklärung) (tradução de Raimundo Vier em Textos Seletos, Petrópolis, Vozes, 1985, p. 100-117) de Immanuel Kant, propõe nos uma questão interessante: o papel da razão foi diferentemente concebido entre franceses (Rousseau e Montesquieu, Condillac e os enciclopedistas) ingleses (Berkeley e Hume), alemães (Wolff, Lessing, Baumgarten, Kant) portugueses (geração pombalina), etc. Isso não significa, entretanto, que não houvesse um pano de fundo entre todos esses pensadores, ele existiu e era o entendimento de que a razão subjetiva era a guardiã da verdade. Em outras palavras, a verdade exigia o reconhecimento, herdado da filosofia cartesiana, de que a verdade/validade de um assunto estava assegurada pela certeza íntima da razão individual e crítica, ainda que o caminho percorrido por essa razão fosse compreendido de forma diferente pelos iluministas.

Esse percurso era singular porque a forma de compreender a relação entre as duas coisas cartesianas: a extensa e a pensante forjou trilhas distintas na tradição filosófica. A historiografia filosófica as organizou colocando de um lado os racionalistas, que consideravam que a definição de verdade se encontrava de antemão num princípio absoluto, forjado no interior da própria razão. E de outro os empiristas como Hume, que negavam a possibilidade de acesso a esse princípio absoluto pela via racional e diziam que aquilo que estava no pensamento era uma crença, ou melhor, uma certeza psicológica e tinha origem na experiência sensível. Assim, o princípio absoluto do conhecimento acabou se deteriorando nesse debate filosófico que vai de Descartes à Hume, mas permitiu reconhecer e proclamar que a verdade era fruto da razão individual. O magistral trabalho investigativo de Kant encontrou uma solução para: a. salvar a razão, b. justificar a ciência, c. recusar a antiga metafísica e d. justificar a atividade reflexiva e crítica da razão.

A reflexão kantiana se pautou sobre dois eixos. O primeiro foi a recusa da metafísica tal como se consolidara na tradição grego-medieval e na afirmação de um pensamento crítico que estabelece novas formas de pensar. O segundo que, com base nessa crítica, pretende realizar uma nova forma de investigação filosófica, não mais voltada para o que as coisas são em si mesmas, mas para estabelecer os limites da razão. A síntese construída por Kant foi exposta na magistral Crítica da razão pura onde o filósofo concebeu um tipo de pensamento que capta o real fenomênico e o organiza, de forma objetiva e válida, através de categorias da razão. No entanto, entrar nos meandros dessa discussão nos levaria para longe do eixo proposto no ensaio O que é o esclarecimento.

O tema do uso público da razão aparece em diferentes obras de Kant, inclusive na sua famosa Crítica da Razão Pura. No ensaio que examinaremos Immanuel Kant apresentou pontos fundamentais a investigação e a prática das boas formas de pensar. Kant esclareceu o que é a boa forma de pensar e contribuiu para o entendimento do que seja um pensamento crítico. Para o filósofo alemão o pensamento crítico é aquele que:

 

1. Nasce da própria meditação, ou do exame pessoal detido e cuidadoso de um assunto, isto é, não se pode bem pensar sem proceder a esse criterioso exame pessoal. “A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento.” (p. 100)

2. É necessário vencer a preguiça e a indolência que impedem de se atingir a forma crítica de pensar, porque elas “são as causas pelas quais grande parte dos homens (...) continuam, de bom grado menores durante toda a vida.” (p. 100)

3. Para pensar criticamente é necessário vencer o controle dos que querem tutelar o uso pessoal e público da razão, pois é esse controle “que torna a maioridade difícil e além do mais perigosa.” (p. 102).

4. O pensar criticamente exige um ambiente de liberdade, onde se possa expor a todo o público e ouvir as críticas de forma honesta e não xingamentos ou perseguição, (condição necessária para o exercício do pensamento crítico) porque essa circunstância é condição para “o uso público da razão, que deve sempre ser livre.” (p. 104)

5. O uso privado da razão é diferente do uso público, não se refere a forma de pensar do indivíduo na sua intimidade e não produz pensamento crítico. Privado, nesse contexto, é uma forma de pensar que, estando a serviço de uma instituição ou cargo, defende os interesses deles, gerando aquilo que chamamos no ambiente de pesquisa de conflito de interesse: “o uso privado é aquele que o sábio pode fazer de sua razão em certo cargo público ou função a ele confiado.” (p.106)

6. Mesmo quem pratica o uso privado da razão, pode fazer o uso público dela quando não estiver falando pelo cargo, pois nessa outra situação ele “tem completa liberdade, e até mesmo o dever, de dar conhecimento ao público de todas as suas ideias.” (p. 106)

7. As instituições, ainda que tenham seus interesses contrariados, não podem impedir seus membros de exercer o uso público da razão, pois essa atitude de censura atingiria toda a humanidade e não teria validade, pois isso “seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste precisamente neste avanço.” (p. 108) Em outras palavras, agir contra o esclarecimento “quer para si mesmo, quer ainda mais para sua descendência, significa ferir e calcar os pés nos sagrados direitos da humanidade.” (p. 110)

8. Nenhum governante ou dirigente de instituição pode renunciar ao esclarecimento, pois ninguém está acima dessa lei da natureza: “Caesar non est supra gramáticos” (p. 112). O governante (como Frederico II da Prússia) que autoriza o uso crítico da razão deve ser “louvado pelo mundo agradecido e pela posteridade como aquele que pela primeira vez libertou o gênero humano.” (p. 112)

9. O uso público da razão não desorganiza a sociedade porque, até que seu conteúdo seja reconhecido institucionalmente, permanecem valendo as regras em vigor ou as teorias admitidas. Assim, os cidadãos que usam publicamente a razão não são violentos, nem ameaçadores. “Um grau maior de liberdade civil parece vantajoso para a liberdade de espírito do povo e, no entanto, estabelece para ela (razão) limites intransponíveis.” (p. 114)

10. Permitir o uso crítico e público da razão significa reconhecer algo próprio do sujeito humano e tratá-lo “de acordo com sua dignidade.”

Nesse pequeno ensaio, Kant reafirmou o que também escreveu na Crítica da Razão Pura, quando observou que o século que vivia criticava a religião e os dirigentes políticos e que somente o correto uso da razão podia justificar críticas razoáveis. Na distinção entre os usos público e privado, explicitou-se o tipo de pensamento que pode ser usado nas teorias científicas porque estabelece as condições para formular um juízo verdadeiro. Derivando o que foi dito uma conclusão possível podemos dizer que a publicidade de uma ideia é condição para integrar a comunidade construtora da verdade, seja ela científica, política ou qualquer outra.

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

DA ESCASSEZ À PRIVAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti.

 



Quando a sociedade se ressente de escassez de bens materiais, saúde, educação, segurança o primeiro setor afetado é a cultura. Constatei que quando se disseminou a pandemia do coronavirus ao mesmo tempo os itens culturais desapareceram das “prateleiras” culturais.

Ao preparar algum artigo costumava verificar na parte cultural de alguns jornais nacionais e estrangeiros bem como revistas, como revisão, conteúdos iguais ou afins. Fui constatando que à medida que o tempo ia passando e a epidemia aumentava e se alastrava as notícias escasseavam sempre mais. Jornais como Corriere, Le Monde e El Pais de artigos sempre abundantes na secção “cultura”, agora praticamente deixaram de existir. Fiz-me então a pergunta? Estaria relacionada à pandemia a este fenômeno? Teríamos entrado num período intermediário? Entre o “antes”, com sua cultura própria, e o período ainda “vazio”?

Evidentemente que o exemplo histórico acendeu a luz do alerta na mente. Como foi a produção intelectual na antiga Atenas na Guerra do Peloponeso? Roma na guerra com Cartago, a Europa nas Invasões dos Bárbaros, a Peste Negra na Europa, os Conflitos Mundiais?

Na Atenas clássica o florescer cultural se seguiu após o término das guerras médicas. Despontaram escritores, historiadores, escultores e filósofos. A cultura grega foi ao auge servindo de modelo para os demais povos que a copiavam e imitavam.

Aqui também se percebeu um período de retração, as guerras, e logo após o rebroto de uma nova cultura.

Não é outra a situação das invasões dos bárbaros na Europa. Além de destruírem o maior império da antiguidade, o substitui por outra cultura que dará seus frutos durante mil anos, a cultura cristã. Pelos poros da cultura antiga penetrou a cristã e paulatinamente substituiu seu conteúdo, embora muitas vezes tenha mantado a forma antiga, como a formação de novos reinos, novas línguas, nova arquitetura e oxigenados pelo sangue cristão.

“Queima o que adoraste e adora o que queimaste”, São Remígio, ao rei dos Francos, Clóvis.

Com igual intensidade devastadora foi a Peste na Europa. Curiosamente também inspirou obras culturais, evidentemente depois superada a crise. Da inspiração da Peste Negra surgiram obras primas da lava de Bocaccio, Petrarca, Chaucer e Pushkin e da pintura figuram Konrad Witz, Bernt Nötke e Hans Holbein.

Não será diferente do que irá acontecer após a pandemia do Coronavirus. Um novo mundo cultural despontará com as premissas culturais deflagradas pela crise.

O que a pandemia impôs sociologicamente? A ruptura da convivência social do indivíduo. Foi retirado da profissão e confinado na família, afastado do convívio cultural e isolado no seu Home Office, desligado de sua religião publicamente e abandonado a seu destino sem relação com ser superior. O distanciamento social- como o próprio nome designa - isolou-o como ser individual sem referências com os demais seres. Aconteceu a inversão da inserção social. Em vez do pacto social, aplicou-se o pacto individual. Em vez de o homem individual, natural, do pensamento de Rousseau, passar para o social, com a pandemia acontece a involução. Voltou o homem à natureza solitária, confinado no domicílio, sem ligações com seus semelhantes, sem desejo de prejudicar ninguém, sem reconhecer sua própria individualidade, autossuficiente e único, sem passado nem continuidade. O homem sempre criança. Neste estado, não há desigualdade. Foi o saldo inverso: da sociedade para a individualidade.

Agora vivemos o jejum cultural aguardando o novo rebroto civilizatório. Como será? Algumas constatações:

- A pandemia rompeu com as consagradas dinâmicas sociais e culturais em voga.

- Sufocamento da cidadania política do indivíduo transformando o trinômio do cidadão trabalho-renda-consumo em um mero homem-consumidor.

- A dinâmica do bem pessoal como favorecimento do bem comum, foi substituída pela dinâmica tão somente individualista.

- Como consequência o liame ético entre indivíduo-pessoa-cidadão-bem comum foi abandonado em prol de um liame solipsismo individualista.

- Os estratos sociais passaram a ser impulsionados somente por interesses econômicos e valores hedônicos, abandonando o bem comum.

- O homem foi despido do estrato social, nacionalidade, raça. Sele só existe como um número na rede virtual.

- A obrigatoriedade de “ficar em casa”, amputaram as conexões interpessoais, intergrupais, recreativas, esportivas, culturais. A própria presença em casa deixou de ser natural e se transformou em um habitat estranho a si mesmo, artificial.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

David Hume e as bases do materialismo moderno. José Mauricio de Carvalho – pós doutorando do PPG Psicologia/ NUPES/UFJF.

 


David Hume (1711-1776) foi filósofohistoriador britânico, nascido na Escócia. Ele ficou conhecido na tradição filosófica pela proposta de um empirismo radical e por defender um ceticismo filosófico. Hume foi um dos maiores nomes da filosofia na modernidade.

Como compreender esse seu papel na tradição filosófica? Há quatro nomes essenciais à sua volta que ajudam a entender suas ideias: ele é herdeiro do subjetivismo moderno de René Descartes, mas crítico de seu racionalismo subjetivista; é o ponto de chegada do empirismo e do iluminismo britânicos por continuar a reflexão de John Locke e George Berkeley e ainda o inspirador do filósofo alemão Emmanuel Kant. Não é pouco o que deixou na história do pensamento. Esse último filósofo lhe atribuiu o papel de despertá-lo do sono dogmático por melhor formular o problema da metafísica (Crítica da razão pura, Nova Cultural, 1987 – os pensadores - p. 32) além de ser o responsável pela crítica devastadora da noção de causalidade (p. 26) que exigiu de Kant o desenvolvimento das chamadas formas puras da intuição.

Como o filósofo se relaciona com seus antecessores? Berkeley dera sustentação ao empirismo, mas deixara um resto de pensamento metafísico com o acolhimento das ideias cartesianas de substância pensante ou espírito. Berkeley porém atacara a noção de substância material do cartesianismo, que ficara preservado no empirismo de Locke. Ao radicalizar o psicologismo de Berkeley, Hume destruiu a noção de substância material deixada por Locke e a de substância espiritual, ainda presente nas teses de Berkeley. Em resumo: Descartes dizia existir as duas substâncias (pensante e extensa) mais Deus, Locke concordava com Descartes, Berkeley dizia existir eu e Deus, mas não a substância material. Hume concluiu simplesmente que não há eu, nem mundo, nem Deus.

Como ele propôs e defendeu essas ideias? Empregando um novo método de investigação que associou os dados da sensibilidade às ideias que temos. Assim se experimentamos uma impressão (ou dado sensorial) pelo contato com o pôr do sol, por exemplo, mais tarde poderemos lembrar desse astro e formar dele uma ideia. Temos aí uma ideia simples que nasce do contato direto com a coisa. E como concebemos as outras ideias não associadas às impressões sensíveis? Como formamos a ideia de substância, acima mencionada, seja ela material ou espiritual, como ela surge? Hume avaliou que ela não veio de nenhuma impressão que recebi, nem a reunião delas. Ele concluiu que ela é fruto da imaginação, o que equivale a dizer que é uma ideia fictícia, uma criação do homem. Se não acho no mundo uma impressão para a substância material, ele disse, também não encontro nenhuma impressão para associar ao eu. O que se denomina assim é um conjunto de vivências interiores, mas não há propriamente um eu observado nelas. Assim chegamos às ideias complexas.

Essas ideias complexas, por exemplo: substâncias, eu, causa, realidade não são, entretanto, uma criação a esmo da imaginação. Em sua vida prática, o homem observa uma certa regularidade no mundo e se vale dela em sua vida. Logo que acende o fogo, observa a claridade e sente o calor, então, por conta da associação psicológica desses estímulos, afirma que luz e calor foram causados pelo fogo. O que permite associar essas coisas é, contudo, apenas o hábito. Em outras palavras temos uma certeza psicológica. Não há propriamente um vínculo metafísico entre elas, ou eu não posso concluir isso pelo que é possível experimentar no mundo.

O que nos ficou das meditações desse filósofo? Há quem destaque o seu ceticismo destruidor da metafísica, das ideias sobre espiritualidade e todas as ideias complexas. Porém não se pode considerar nesse ceticismo apenas seu caráter demolidor, ele possui também uma dimensão crítica, pois aprofunda os mecanismos de operação do intelecto.

Hume é o ponto de chegada do empirismo inglês e defensor de um psicologismo que estabeleceu no costume e no hábito a base do pensamento científico. Ele fez isso considerando verdade as regularidades obtidas com a observação. E justamente por defender esse psicologismo radical, consideramos o filósofo como o ponto de partida do positivismo e do materialismo modernos, não porque Hume acreditasse na possibilidade de uma resposta metafísica para o problema da realidade, mas por que disse que realidade é o que se obtém com a associação dos dados da sensibilidade. E isso foi decisivo para que parte dos cientistas deixasse de lado qualquer questão metafísica ou espiritual, parecendo-nos a raiz do movimento moderno que Martin Buber denominou de eclipse de Deus no mundo ocidental. Esse movimento suprimiu adicionalmente a linguagem metafísica e da psicologia espiritualista do pensamento ocidental. O movimento identificado por Buber mostra como o pensar, conforme categorias materialistas, suprimiu (O eclipse de Deus, Verus, 2007, p. 19): “a ideia de Deus e, dessa forma, também a realidade de nossa relação com Deus.” Além disso, antecipou o simplificador discurso da inutilidade da filosofia, discurso ingênuo que não se dá conta de que é ele próprio metafísico, mas bem ao gosto do anti intelectualismo das massas de nosso tempo.

Esse movimento começou com a valorização dos sentimentos e instintos que, conforme Hume, está na base da vida prática, do utilitarismo inglês e da moral da simpatia. Essa moral foi a forma pela qual o empirismo de Hume chegou ao mundo do trabalho e do mercado. Simpatia, resumiu Adam Smith é o sentimento que me permite olhar para mim mesmo com os olhares dos outros e me julgar segundo a expectativa que eles têm de mim. Ortega y Gasset fez uma crítica demolidora a essa forma de comportamento que me leva a querer ser como todo mundo e a agir como todo mundo, mas isso é tema para outro dia.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

SONHO E REALIDADE DO HOME OFFICE . Selvino Antonio Malfatti- professor titular aposentado da UFSM.

 


Quando o Home Office, antes do Cobiv-19, era apenas uma possibilidade, uma prospecção, diga-se, uma hipótese, os efeitos perversos não se evidenciavam e ansiava-se, por isso, para vivê-lo na realidade. Imaginava-se um m undo de tempo liberados, solto das amarras do tempo e lugar, uma vida de trabalho livre, imaginado desde os tempos remotos nos quais máquina e homem juntavam-se no dia a dia no cumprimento das tarefas profissionais. Pensava-se que o novo mundo podia ter suas desvantagens,  mas eram facilmente superáveis. Previam-se as principais mudanças: as formas contratuais e as tarefas. Mas, com generalização da pandemia, tudo mudou e acordados dos sonho escancarou-se a nova realidade.

O Forum de Davos, de 2020, previu uma redução de 7.1 milhões de vagas de trabalho, a maior parte nos setores administrativos. No mesmo período haveria um aumento de 2 milhões de vagas no setor de tecnologia, matemática e engenharia. Vê-se que a defasagem seria de 5,1 milhões de vagas de trabalho.

A tendência continuava sendo a substituição do homem pela máquina nos postos de trabalho, aliás, a constante desde a Revolução Industrial.

E se olharmos para uma previsão mais futura, para a década de trinta, ocorrerá até mesmo a substituição do homem pela máquina em setores que se poderia considerar monopólio da atividade humana: agricultura, pesca, manufatura e até mesmo o comércio.

Projetou-se para os setores de educação e saúde ainda eram imunes. Os cuidados com a saúde, mesmo as coadjuvadas pela tecnologia biomédica parecem que por ora não poderão dispensar a presença humana no atendimento do paciente. Da mesma forma na educação pareia que, por enquanto, não se poderia dispensar professores de quadro-negro. Menos ainda provável se podia imaginar a substituição de um psicólogo por uma máquina de auscultar na terapia. No entanto, as consultas por vídeo conferência estão aí. Eu mesmo já utilizei.

No entanto educação e saúde foram os setores que mais foram afetados pela atividade virtual. As aulas passaram a ser ministradas por vídeo conferência, wbcam, zoom, lives  e outros programas disponibilizados aos alunos. Deixaram de ser presenciais e passaram a virtuais. Na época questionou-se  se a política estava preparada para tal guinada?

A educação e a saúde estão prevendo estas mudanças e provendo o fechamento das lacunas? O poder público, o Ministério da Educação e Ministério da Saúde, estão atentos a estas demandas que baterão à porta? O que se está fazendo para preparar as próximas gerações perante as demandas que estão chegando rapidamente?

Com a chegada da pandemia o comércio foi um dos setores que mais rapidamente reagiu até chegar ao e-comércio. Sempre mais empresas estão investindo sobre as vendas online através de entregas diretas ao consumidor drive thru. Gerentes administrativos de e-comércio atualmente já estão consagrados.

Somos hoje em dia uma sociedade informatizada, desde os celulares, até os computadores de grandes empresas administrativas. Cada minuto são criados, imaginados e compartilhados milhões de dados. Os bancos transformaram-se em online, Bastou um aplicativo para que o bando coubesse na mão de cada cliente.E até mesmo dados ultrassensíveis  são difundidos, como cirurgias à distância.

O que ninguém esperava é que estas mudanças viessem compulsoriamente. Bastou uma pandemia para mudar tudo. Isto aconteceu em meados de março de 2020. As principais empresas transferiram dispensaram seus empregados de seus escritórios e deixaram as tecnologias separadas de seus operadores. Trabalhadores em casa e tecnologia nos escritórios. Os empregados passaram a trabalhar remotamente de dentro de suas casas.

No Brasil, 20,8 milhões de pessoas passaram a trabalhar no regime de Home Office, aproximadamente 22,7% dos postos de trabalho. Profissionais ligados à ciência e intelectuais logo se adaptaram, seguidos de diretores e gerentes, de apoio e administrativo e técnicos de nível médio.

Quando os empregados, agora em casa, que são também pais, maridos, filhos, genros etc. abrem seu laptop, imediatamente duas crianças postam-se uma de cada lado e começam as perguntas. Enquanto isso, a esposa, na mesma situação, pergunta da cozinha:

- O que faço para almoço?

A partir daí começa o calvário, os efeitos não desejados do Home Officer? Listados, quais os mais citados:

- A DESPREPARAÇÃO para operar as máquinas. Nem todos estão preparados, além disso, há desproporção de aprendizado. Uns dominam mais outros menos. Daí nasce um descompasso no ritmo de trabalho e produção entre uns e outros.

- SINTOMAS “DAS SOMATIZAÇÕES”.  Problemas digestivos, ciclo de sono, alimentação, descanso. As pessoas começam a perceber o aumento dos níveis de colesterol, triglicerídeos. Apresentam-se problemas de artrose e perda de mobilidade.

- HORÁRIOS ESTENDIDOS. As pessoas passam a trabalhar mais, na hora de refeições, viagens, descanso, lazer. Estão continuamente conectadas ao trabalho. Antes o trabalho tinha um lugar e um tempo. Agora é contínuo em toda parte. Agora voltamos para solidão, sem encontros informais e conversas na roda de café.

- ALÉM DO TRABALHO PROFISSWIONAL soma-se outros, como tarefas escolares dos filhos, teletrabalho, videoconferências, tudo ao mesmo tempo.

- DESMOTIVAÇÃO. O estresse e a monotonia das atividades deixam de ser atraentes e ja se tornam monótonas.

 

 

 

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Descartes e a Filosofia Moerna. José Mauricio de Carvalho – Pós doutorando do NUPES/UFJF.

 

René Descartes, nasceu na França, em La Haye, em março de 1596 e morreu em Estocolmo, em fevereiro de 1650, antes de completar cinquenta e quatro anos. Foi filósofo, físico e matemático e é considerado o pai da filosofia e da matemática modernas. Também é conhecido pelo nome latino Renatus Cartesius.

Como matemático, Descartes aproximou a álgebra da geometria, o que lhe permitiu criar o sistema de coordenadas que ficou conhecida com seu nome. Apesar de seus estudos matemáticos serem relevantes, nossa atenção, nesse texto, estará voltada para sua contribuição ao pensamento filosófico e para o aprofundamento dos problemas culturais dos séculos XVI e XVII. Conforme resumido em História da Filosofia e Tradições Culturais (Porto Alegre, EDIPUCRS, 2001. p. 191): “A filosofia parece-lhe, legítima ciência, porquanto examina o princípio que garante o funcionamento da razão.”

Nos séculos XVI e XVII surgiu e se consolidou na Europa a ciência moderna na esteira do humanismo renascentista. Os dois problemas fundamentais do período, como sabemos eram o da justificativa de construção dos Estados Nacionais e, especialmente, a fundamentação epistemológica da ciência moderna. Os filósofos foram desafiados a explicar o processo político e, principalmente, fundamentar a nova forma de fazer ciência, diversa da praticada na antiguidade e Idade Média. Estavam, sem síntese, diante do desafio de explicar porque, no âmbito do conhecimento, a ciência moderna conseguia se apresentar como verdade que tranquilizava os espíritos.

Como se sabe (id., p. 181): “o século XVI foi um tempo de mudanças na cultura ocidental. As navegações revelaram um mundo diferente do descrito nos livros, a experiência direta mostrou-se importante fonte de informação para conhecimento do mundo, e, com ela, os paradigmas para o entendimento da realidade cósmica se modificaram.”

No que tange à fundamentação dessa nova forma de compreensão da realidade cósmica, Galileu Galilei articulou os métodos indutivo e dedutivo num novo ordenamento no estudo da natureza, capaz de fornecer um outro paradigma para entendimento do mundo natural. Dessa forma, o método científico pediu não apenas uma justificação epistemológica, a razão pela qual é válida a nova forma de conhecer o mundo, quanto metafísica, porque trazia uma nova maneira de percepção do cosmo, tema de nossa última exposição nessas meditações filosóficas. Essa nova compreensão da realidade natural suscitou ainda uma questão antropológica, o que é o homem nesse mundo descrito pela ciência? Ele se submete às mesmas leis da natureza ou tem algo que o singulariza dos seres naturais? São diversas questões. Descartes encontrou para elas uma resposta de síntese: o homem é parte natureza e parte pensamento ou espírito, realidades diferentes com funcionamento diverso. Portanto, ele esclarece, o homem é um ente dual no qual se somam sua realidade material (res extensa) e a dimensão espiritual (res cogitans), irredutíveis uma à outra.

Descartes chegou a esse dualismo não estudando o funcionamento do mundo natural, mas se perguntando pelo fundamento do conhecimento. O que assegura o conhecimento e o torna válido? A certeza subjetiva obtida de forma clara e distinta. Como ele chegou a essa conclusão? “No Discurso do Método (1637), ele explicou o significado dessa tarefa: a busca de um procedimento de investigação capaz de dar unidade ao saber. O novo método devia substituir o escolástico, que não se ocupava da experiência.” Esse novo método para pensar o mundo era diferente do que fora desenvolvido pelos cientistas naturais: Bacon e Galileu, embora não fosse incompatível com as investigações dos cientistas. Devido a sua formação matemática, Descartes recuperou a questão trabalhada por Galileu Galilei. Como se poderia proceder, perguntou Descartes, para se compreender a realidade? Sua resposta foi: partindo-se de um princípio inquestionável do qual fosse possível deduzir outras verdades? Será possível obter um tal princípio? Como?

Para responder a essa questão, o filósofo começou duvidando de tudo, elevando a dúvida ao máximo grau e concluindo que todos os conhecimentos eram falsos ou poderiam sê-lo. Porém, esse momento de dúvida extrema lhe ofereceu uma única certeza, a saber, é possível se enganar sobre tudo, menos sobre a existência da consciência que duvida, pois se ela não existisse não poderia duvidar. Chega, então a uma intuição fundamental na quarta parte do Discurso do Método, não a uma dedução, mas a uma intuição: penso, logo sou, ou ainda melhor: penso, sou. Há em mim uma consciência que, independente do objeto do pensamento, permite chegar a essa certeza básica. Dela é possível extrair uma fórmula de certeza: é verdade tudo aquilo que se mostra para minha consciência de forma clara e distinta, tanto como intuo a minha própria existência. Assim, a dúvida hiperbólica do início da investigação levou a uma certeza inquestionável: a realidade da consciência subjetiva. Isso coloca como certo que o verdadeiro é aquilo que a razão me propõe como tal, nada mais, apenas aquilo que aparece na consciência de forma clara e distinta.

O legado cartesiano foi percebido de forma diversa nas diferentes tradições filosóficas, na Inglaterra foi apreendida pelas reflexões sobre a experiência no desenvolvimento do empirismo e na França e Alemanha do racionalismo. Em Portugal, o racionalismo cartesiano levou ao acirramento da moral contra reformista como foi explicado em Caminhos da moral moderna, a experiência luso-brasileira (Belo Horizonte, Itatiaia, 1995), mas não temos como entrar sem tema de forma rápida.

Toda a meditação cartesiana, em que pese suas limitações e problemas discutidos ao longo de toda Idade Moderna, nos coloca diante de uma questão atual recuperada pela fenomenologia: o homem possui diferentes dimensões e não pode ser considerado um ente puramente espiritual ou simplesmente material.


 

Postagens mais vistas