sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

KISS – O BEIJO DA MORTE. Selvino Antonio Malfatti







Ainda sem abrir os lhos para o mundo sente o ímpeto de viver. Sofreguidão na procura do alimento de quem deu a vida. A partir daí a natureza acumula forças, vigor, vida em abundância. O corpo cresce, torna-se belo e tudo é encantador. Os hormônios fazem o sangue ferver de cupidez. Que bela é a vida. Cheia de energia, alegre, sempre precisar de esperança.
Por que os idosos falam de dor? Ressentem-se de decepções? Choram perdas de quê? De vez em quanto se houve falar que alguém está doente. Mas que mal tem? Falam que outro está desenganado. O que é isso? Comentam que fulano morreu. Que importa? Tudo está tão distante, inatingível. Isso é coisa de velho. O jovem está imune. Ele possui a vida que extravasa e inunda o seu redor.
Ah! Foi o velho doente que mora em outra cidade? O avô, bem, descansou o coitado. Por que o pai? Podiam ter durado mais alguns anos. Meu irmão? O problema é que não se cuidou! De repente se dá conta que ela rondou por perto. Mas aí? Mas aí já é tarde. Precisa urgentemente voltar. Mas “la diritta via era smarita”. Além disso, não há mais volta. O tempo, que parecia inesgotável, agora rola impassível, inexorável para Andrômeda.
Mas o jovem? O jovem não morre. Até vinte anos...a vida é eterna. Por que foi quebrada a lógica? Quem permitiu isso? O jovem? A família? Governo? A culpa? Não adiantam culpados. A vida não volta. A morte, sim, se compraz, diante da vítima. Esta desfalece. Antes da abocanhada final vai perdendo pedaços até deixar somente a metade. O corpo formiga, as pernas tremem e a boca endurece.  Partido ao meio sobrou apenas a metade, o corpo. Mas o pior é a perda da metade da alma. Vai junto com a outra parte. A realidade se torna etérea, evanescente, volátil. Levitam os sentimentos sem onde pousarem. Saltita a memória entre o início e o fim. O pensamento não consegue pensar. Ele se deixa levar pela ruptura da partição. Metade se foi. O que fará a outra metade?
Ao estupor sucede a revolta? Por se tirou metade. Talvez fosse preferível não ter sobrado nada, tirado tudo. Metade ficou para perambular inconsolável. A presença de quem se foi distanciando aos poucos, envolta em contemplação, luto, enlevo e revolta. Raiva e ódio. Por quê? Simplesmente não tem explicação. Aos poucos a resignação. Só resignação, nunca aceitação e menos ainda compreensão. Continuar a viver? Por que não partir junto? Mas encontrar onde a outra metade? Agarra-se a uma consolação: cuidou, rezou e chorou. Pelo menos o corpo recebe uma morada digna. A alma, onde estará ela? Às vezes faz alguma visita, mas muito rápida para deixar algumas gotas de bálsamo para a outra metade que ficou.  E então, com saudade exclama: “alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente” até nos unirmos novamente.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eunomia. Selvino Antonio Malfatti





A convivência social exige espaços e estes supõem limites. Viver em sociedade significa ter uma gama de opções pessoais, familiares, grupais e sociais, mas em contrapartida há necessidade de limites exatamente para não haver colisão com os espaços de outros indivíduos, famílias e grupos. 
Evidentemente que cada um quer garantir o maior e o melhor espaço para si: jovens, adultos, idosos, ideologias políticas, religiões e associações. Cada indivíduo ou grupo procura justificar as próprias normas, mas qual delas seria a melhor para todos Daí a questão: se nos abstivermos de todas as individualidades, qual seria o maior espaço para todos com o mínimo de limites, isto é, um estado de eunomia?
As normas não só direcionam comportamentos e ações mas, estabelecem regras rígidas, infalíveis e infringíveis. Elas podem ser de ordem religiosa, como o Decálogo, morais, como a fidelidade conjugal, e as jurídicas, como os Códigos. Cada uma delas pretende propiciar ao homem a alcançar, dentro de seu objeto, a perfeição. Quem observaria em tudo e sempre o Decálogo alcançaria a perfeição e seria considerado santo. Quem seguiria as normas morais ditadas pela consciência seria um homem perfeito, um herói. Quem não praticaria nenhum delito jurídico seria um cidadão exemplar.
Contudo, a experiência atesta que normas rígidas em relação ao agir sempre colidem com a realidade. As normas apontam para um comportamento uniforme, imutável seja qual forem as circunstâncias. A norma da exclusividade conjugal, por exemplo, exige que nenhum dos parceiros tenha relações extraconjugais. O bom senso aceita em determinadas circunstâncias violar a norma. É o que é narrado na Bíblia. Uma mulher, Sara, não conseguia ter mais filhos. De comum acordo com o marido, Abraão, e sua mulher combinaram que ele teria relações com outra mulher para gerar um filho. E foram bem sucedidos, porque o concebido, Ismael, se tornaria pai de uma grande descendência, os árabes. Cada circunstância é específica. São Francisco de Assis, por exemplo, surrupiava roupas da loja de seu pai para vestir os necessitados, contrariando frontalmente a norma de não roubar ou furtar.
Normas foram estabelecidas para regerem comportamentos universais. A realidade, porém, não possui uma uniformidade e homogeneidade. Em cada momento toma nova forma, novas razões surgem, necessitando-se rever continuamente a norma. No entanto, parece que a norma mais geral é o da relatividade das normas. Um verdadeiro paradoxo porque o que estabelece como regra geral é justamente aquilo que não deve ter regra geral. Imbuir os princípios religiosos e procurar segui-los, mas não exigir isto dos demais. Ter sempre presente os preceitos morais, contudo não se desesperar se alguma vez ou alguns deles forem descumpridos. A lei é feita para o bem do homem e não o homem para o bem da lei. Logo, o homem está a cima da lei. Entre a lei e o homem, opte-se pelo homem. Isto o próprio Cristo estabeleceu: o sábado foi feito para o homem e não vice-versa.
A norma ética possui um ponto de apoio no próprio homem. Quem a desvelou com maior clareza foi o filósofo alemão Kant. Diz ele: age de tal forma que tua conduta possa se tornar lei universal. Isto significa que se tiver dúvida em relação a alguma ação, se devo ou não devo praticá-la, basta consultar a mim mesmo e me perguntar se todos poderiam agir assim. Caso a resposta seja positiva, então a ação é eticamente correta. Em caso negativo devo abster-me de praticar tal ato. A hierarquia que se pode estabelecer entre as normas é a seguinte: costumes tradicionais não obrigatórios, como lavar as mãos antes das refeições. Costumes morais, obrigatórios para uma determinada sociedade, como dizer a verdade. Normas legais, que constituem a maioria das normas da sociedade. Normas éticas, condutas universais, estabelecidas por consenso na sociedade, como não enganar o próprio semelhante. A maioria das vezes estas normas se interpenetram e se entrecruzam, complementando-se mutuamente.Por isso, a melhor eunomia adviria do consenso da sociedade sobre princípios ético-racionais com validez universal.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

VIDA SIMPLES E ARRISCADA. José Maurício de Carvalho.





Dizer que a vida é simples e arriscada pode parecer contradição. Não parece que seja, embora a vida tenha suas contradições. Somos contraditórios quando comemos demais se desejamos emagrecer, nos esforçamos pouco quando dizemos sonhar com algo difícil de realizar, magoamos as pessoas que amamos, fugimos do que deveríamos buscar, nos encantamos pouco com o mundo quando afirmamos querer uma vida boa. Há uma coisa importante só uma vida meditada pode ser boa, só se conhecemos nossas dores e construímos um significado para nossa vida ela pode ser levada com leveza, só se respeitamos os limites de nosso corpo e de nossa estrutura de pensamento podemos ficar bem. É triste ver hoje em dia tanta gente correndo de um canto a outro sem projetar seu destino, acreditando em fórmulas mágicas de felicidade que repetem sem sucesso. É que a vida só pode ser compartilhada aos pedaços, como realidade inteira só pode ser vivida de modo singular e saboreada como ela é.
Quando dizemos que a vida é simples queremos dizer que ela é o que temos de mais intimamente nosso. Vida entendida como o tecido das nossas escolhas, como o modo como tocamos o dia a dia. Vida é o que fazemos com o que temos, dizia o espanhol Ortega y Gasset. Simples assim. Podemos fazer bem ou não as escolhas que definirão nossa existência. Mergulhados numa situação, numa determinada sociedade, num certo tempo histórico, com um corpo, com experiências só nossas, com amores, dores e dúvidas, temos que escolher o que seremos. No entanto, a vida é também arriscada, como lembra Gilberto Kujawski no seu maravilhoso livro Viver é perigoso (1986) porque nem sempre o que escolhemos nos serve. “Viver é muito perigoso. Não porque a todo momento surjam perigos na vida, mas porque a vida em si mesma é muito perigosa. Não que o perigo se acrescente ao viver, neste é que está o perigo”, diz o citado autor. E é perigosa porque podemos escolher o caminho de nossa destruição, podemos afundar o nariz na lama da existência. E temos alta probabilidade de fazê-lo se não nos respeitarmos, não nos escutarmos, não meditarmos sobre o que somos e queremos ser.
Estatísticas questionáveis dão conta de que a depressão atinge atualmente vinte por cento da população mundial, quase um bilhão e meio de pessoas entre os quais quarenta milhões de brasileiros. O lamentável é que uma grande revista divulgue sem questionar o número e ainda apresente a cetamina, um anestésico usado há poucas décadas como droga ilícita, como esperança de cura e felicidade permanente. Este é o mundo dos sonhos do laboratório responsável pelo remédio e por alguns oportunistas de plantão, uma realidade irreal como os sonhos de quem exagerar um pouquinho na cetamina. Depressão é realidade humana dificílima de enfrentar e entender, complexa ela não se confunde com tristeza ou mesmo com dificuldade de dormir. Depressão é tristeza profunda um estado de desânimo tal que a pessoa sequer tem forças e razão para tomar banho ou se alimentar.  Muitas vezes é acompanhada de ansiedade. Há pessoas deprimidas com certeza que precisam de remédio, mas não só, elas necessitam principalmente de carinho e psicoterapia. Certamente este número não alcança um bilhão e meio de habitantes da terra. Se o diagnóstico fosse verdadeiro melhor admitir que nossa sociedade faliu, pois a população humana nunca esteve assim. Se assim está o mundo hoje, ele precisa de muito mais que cetamina.
Além da falsa promessa de felicidade fácil e injetável, há aí o lamentável equívoco de diagnosticar tristeza e falta de rumo na vida como depressão. É ilusão imaginar que não precisamos nos ocupar de nossas dores íntimas, não precisamos conhecer o que nos consome, que podemos viver sem nos ocupar com o que seremos, sem perceber o rumo de nossa vida tecido pelas escolhas que fazemos.



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

DA SOLIDÃO À AMIZADE. Selvino Antonio Malfatti


Certamente hoje o milagre da ubiquidade, isto é, a capacidade de estar em diversos lugares ao mesmo tempo, como Santa Clara (padroeira da Televisão) e Santo Antônio, atualmente estão sendo superados e de muito. No entanto, nunca também o ser humano está tão só. Apesar de poder falar com quem quiser em qualquer parte, ouvir os mais longínquos e ver o mundo em tempo real, ele está só diante de uma máquina fria. O mundo atual é de solidão. Por isso, é bem vinda a publicação do filósofo e psicanalista francês Jean-Bertrand Pontalis do livro Le Songe de Monomotapa (O Sonho de Monomotapa) que aborda o tema da amizade.
Sabemos que há um abismo entre o mundo virtual e o mundo real. Quando nos comunicamos com nossos "facefriends" estamos diante do nada, do virtual. Quando estamos "face to face" estamos diante do mundo real. Por isso, gostaríamos de enfatizar este último aspecto, o real.
Este fenômeno ocorre na esfera da consciência numa relação entre seres humanos. Os sentimentos afetivos pessoais, no ser humano, se estratificam e se entrelaçam em várias relações e hierarquias. Apesar de estas não poderem ser completamente separadas umas das outras, conseguem ser entendidas como distintas. Referimono-nos às relações afetivas de atração física, amor, paixão e amizade. Nem sempre acontecem isoladamente, mas há sempre a predominância de uma delas. A atração física do tipo sexual não se confunde com paixão, esta não é o mesmo que amor e este, por sua vez, não se identifica com a amizade. Cada um deles tem um vetor de apoio no conjunto da fisiologia e psicologia humana.
A atração sexual ocorre entre dois sexos opostos e mesmo entre os mesmos sexos. É o que se designa pelas palavras, heterossexual e homossexual. É uma atração que se esgota com a satisfação podendo retornar quando novamente provocada. A atração sexual está no nível e tem seu ponto de apoio  no instinto da animalidade, sem conotações pejorativas. Evidentemente existem outros tipos de atração física por isso não é única e exclusiva. 
Já o sentimento afetivo da paixão ocorre quando se desfaz de toda crítica e se centra compulsivamente no objetivo. Bem diz o ditado que a paixão é cega.  A paixão pode estender-se a várias realidades como religião, política, arte. Aqui enfocamos a paixão afetiva pessoal, pelo outro. Quem estiver sob o domínio da paixão, não se detém para pensar, só quer seu objeto, que no caso é o outro. A paixão apóia-se na vontade. O desejo pelo objeto obscurece a, embota, embaça, a razão. Subjuga-a e a anula como faz o lutador com seu adversário. É como o amante da aranha viúva-negra. Embora reaja e queira sobreviver, a derrota o prostra. Quem é dominado pela paixão, tenta reunir forças para raciocinar. Diz para si: vamos ponderar e pesar os prós e os contras. A cegueira ofusca o esforço de pensar. É enlaçado, enredado, enrodilhado. Como sucuri empacota o corpo da vítima. Tenta chamar por socorro, mas o eco responde que não quer o socorro. Não quer o que quer. Sente o veneno doce da paixão fluindo pelas veias do corpo. É pleno gozo do não gozado. É o gozo do não gozo, mas que o sente, pressente, aumenta, avoluma-se, agiganta-se. Está aí a paixão poderosa, bela, escondida, encontrada e novamente perdida. O apaixonado ajoelha-se impotente, suplica, agradece, quer ficar longe, mas não quer perdê-la. Ela deleita, é néctar porque se saboreia apenas aquilo que se imagina. É bela e sórdida, é sórdida porque é bela.
O amor reside na alma, no espiritual do ser humano. O amor age como as almas que se contemplam, extasiam-se, querem comunicar-se. Mas elas são intocáveis e incomunicáveis.  Etéreas. Buscam-se abrasadoramente, queimam-se em chamas, mas permanecem em si. Elas se querem, mas não querem a posse. Buscam uma ponte que as possa fundir-se, torná-las uma. E por isso sofrem por que o amor está muito próximo da paixão. E quando ele finda geralmente a lacuna é preenchida pelo ódio.
Haverá espetáculo mais belo que o encontro de duas almas? Haverá delírio maior que a fusão de duas almas? Haverá felicidade que se comparece ao olhar de duas almas que se amam. Os olhos jamais viram, nem os ouvidos jamais ouviram, nem ninguém jamais sentiu o que deste encontro irrompeu.  Elas sentiram o céu abrir-se, a felicidade jorrar aos borbotões. O próprio Deus a inclinar-se e enlevá-las. Elas ressuscitaram, se transfiguraram, se tornam imortais.
A amizade tem sua morada no ser humano. No seu corpo, nos sentimentos, na razão, na alma. Ela tem o poder de despertar a alegria por que nos afasta da raiva. Até nos momentos mais tristes podemos sentir alegria se estivermos com amigos. A amizade esquece a pobreza, fortalece no sofrimento, perdoa a ingratidão.  Mesmo quando nos despedimos de um ente querido, se estivermos rodeados de amigos, podemos sentir a tristeza envolta na alegria. Amizade e alegria são dois sentimentos que se irmanam, se completam. São almas gêmeas que querem estar sempre juntas. Até a morte se detém diante da amizade.
Quando sentirmos a cadência da amizade, a alegria irrompe aos borbotões no coração. Dispara quando ouvimos a voz do amigo. A amizade pode nos elevar aos céus, imaginar uma humanidade irmanada, um mundo se dando as mãos e entoar a sinfonia de Ode à Alegria de Beethoven ou um Va Pensiero de Verdi. A amizade nos desprende desta terra, nos deixa levitando no espaço, voando com o pensamento como se não tivéssemos corpo. A amizade é o mais belo presente que alguém pode receber. Ela vale por toda sabedoria, todos os dons, todas as riquezas. Ela enche   coração todo. A amizade não necessita de mais nada, ela é completa em si, ela é A ALEGRIA. Ela é tão profunda como uma alma habitando dois corpos.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

ACORDO ORTOGRÁFICO E 2013. José Maurício de Carvalho













Uma das grandes questões que preocupam os países que compõem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é a questão ortográfica.
Os países lusófonos assinaram, há algum tempo, um acordo ortográfico para vigorar em 2013. Lamentavelmente o governo brasileiro protelou a obrigatoriedade do uso da nova ortografia para 2016. Isto é, para atender não se sabe a que interesses, a Presidente da República adiou a realização de medida importante para todas as nações lusófonas, incluída a nossa, a maior delas e a de maior população.
Ao acordo foi dada a mesma solução da transposição das águas do rio São Francisco, obra prevista para ser inaugurada em 2012 e que também ficou para 2016. Protelar é estratégia ruim de governos que planejam mal e executam pior.  Por este motivo meu pedido para 2013 é um surto de planejamento realista e competência no serviço público. Será ótimo também se isto alcançar cidadãos e empresas. Espero portos e aeroportos sem apagões, estradas recuperadas, transporte urbano de massa funcionando com qualidade. Espero, em síntese, um 2013 com melhor planejamento e execução eficiente. Se não fizermos isto a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 ficarão ameaçadas, pois organismos internacionais não aprovarão o adiamento da Copa para 2020 e das Olimpíadas para 2025. Do trem bala não quero lembrar, pois é grande a frustração de não vê-lo circulando nem entre Rio e São Paulo. A obra ficou para um futuro distante e somente por milagre estarei ainda vivo quando o projeto estiver concluído, contando que até lá teremos novos adiamentos.
Protelar a entrada em vigor do acordo chamou pouco à atenção dos brasileiros acostumados a medidas protelatórias. Para mim não deixou de ser surpresa ruim porque para este caso não se pode alegar falta de recursos, nem há razão séria para o adiamento, a não ser incompetência no planejamento e descaso na execução. Nossas crianças e jovens se encontram há mais de quatro anos sendo alfabetizadas e educadas na nova ortografia. Durante os últimos anos os meios de comunicação explicaram as mudanças. Incentivar e fazer mais campanhas para que a população se ajuste à nova ortografia é o que se espera de nossas autoridades. Até porque a mudança no português brasileiro (sintam o ridículo da expressão que é correlata de português de Portugal, português de Moçambique, português de Angola, etc.), não é grande, mais de noventa por cento de nossas palavras não sofrerão alteração. Os demais países lusófonos farão um esforço de adaptação maior que o nosso e deveríamos liderar a implantação da nova ortografia.
A medida é importante por muitas razões embora nem sempre se esteja atento a elas.  Por que o acordo ortográfico é importante? Estudantes dos países lusófonos intensificarão a mobilidade nos próximos anos, sem acordo terão que estudar numa ortografia diferente da usada em seu país; diversas empresas brasileiras estão hoje atuando em países africanos de língua portuguesa, há muitos brasileiros vivendo lá e contratos sendo ali assinados, o acordo facilita tudo isto; o mercado editorial de todos os países lusófonos ganhará com o acordo, os livros editados num país poderão ser utilizados em todos os outros, incluídos os livros didáticos e complementares empregados no sistema educacional. O principal motivo é que o acordo tornará a língua portuguesa uma das mais faladas do mundo, os documentos internacionais a contemplarão, facilitando o trabalho diplomático e os protocolos internacionais. Embora exista diferença de sotaque e estilo entre as outras línguas, a grafia delas é igual. Não há caso de grafias diferentes de uma mesma língua. É o que devemos perseguir também para o português.
Então que medidas sejam tomadas em 2013, pelo governo e sociedade, para favorecer a entrada em vigor do acordo ortográfico da língua portuguesa na nova data prevista. Se for possível aspirar mais para o ano novo que planejemos melhor nosso futuro e que o realizemos com dedicação e competência, na esfera pública e privada.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

PLANEJAMENTO URBANO, UMA NECESSIDADE PARA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. José Maurício de Carvalho.



O país continua se desenvolvendo apesar da crise financeira mundial que já se arrasta há alguns anos e hoje afeta principalmente a Europa. O ritmo diminuiu, mas não entramos na estagnação que afeta outras nações do mundo. Infelizmente nosso desenvolvimento está longe de nos colocar próximos das sociedades mais avançadas do mundo e a simples redução do ritmo do crescimento traz as coisas para mais perto da realidade. Isto não significa também que somos submergentes como começaram a dizer há algumas semanas economistas e jornalistas de países mais adiantados. A atual avaliação é tão irreal como foi a anterior, apenas indica que eles conhecem pouco o país, tanto seus problemas como suas virtudes e potencialidades.
O desenvolvimento do Brasil afeta a vida de todos os seus habitantes, mas as cidades de porte médio, em especial as que se encontram em torno a cem mil habitantes são aquelas que sentem com maior impacto o processo atual. E os estudos de geografia humana mostram que o desenvolvimento está mesmo mais concentrado nesse tipo de cidade que estão recebendo produtos e serviços até pouco tempo fora do seu universo: hospitais especializados, universidades, pequenos shoppings, bons restaurantes, espetáculos  teatrais, condomínios fechados, centro de convenção, etc. Estas cidades são também aquelas que passam por um crescimento demográfico mais acentuado do que de outras áreas do país. Grandes Metrópoles e cidades pequenas, por exemplo, de modo geral não estão passando por um crescimento urbano tão acelerado como o que ocorre nas cidades mencionadas.
Esta situação afeta cidades por todo país de norte a sul. No país são centenas de cidades nesta situação. O desafio de continuar crescendo garantindo a atual qualidade de vida exige a urgente implementação de medidas de planejamento urbano em todas elas.
O que o corre nestas cidades é que cresce sem planejamento, a circulação de veículos se aproxima do congestionamento total, o transporte público é ruim. A preservação da área histórica está cada dia mais difícil, não há projeto de novos parques, praças ou jardins, nem preocupação com áreas permeáveis, nem arborização, nenhum cuidado com a volumetria das ruas e regiões, sem se falar em zoneamento urbano, tratamento de esgoto, qualidade da água oferecida à população. Geralmente o pouco cuidado que existe se concentra na área histórica por conta do trabalho voluntário dos membros dos Conselhos Municipais de Preservação do Patrimônio Cultural. Contudo, ações planejadas não podem se limitar à área histórica da cidade.
No final deste ano escolhemos os políticos que dirigirão a cidade nos próximos anos e este foi o desafio mais importante e urgente que enfrentamos. Todos nós escutamos o que eles tinham para oferecer, analisamos seus planos de governo. Agora vejamos o que eles farão. Não basta asfaltar uma rua aqui, fazer um passeio acolá, ou realizar pequenas obras pontualmente, tudo sem planejamento, sem cuidado especial com a área histórica, sem pensar o crescimento das outras áreas, enfim, sem zoneamento urbano e plano diretor. Planejar é verdadeiramente progresso e não, como sempre ouvi dizer, derrubar casas antigas, asfaltar sem estudo do impacto nas áreas históricas, construir edifícios sem nenhuma estrutura urbana para acolhê-los.  Estes desafios atuais das cidades precisam ser enfrentados por prefeitos e vereadores preparados para viver no século XXI. Caso contrário, em poucos anos enfrentaremos problemas que nunca tivemos ou que não precisaríamos ter e de correção muito difícil, se os governantes não tiverem determinação e competência de seguir os ditames da administração pública.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

POR QUE O NATAL É LIBERDADE? Selvino Antonio Malfatti





O ser humano normal quer ser bom, justo, verdadeiro e amável. Mas, apesar de querer ser isto, a toda hora escorrega e se porta exatamente ao contrário. Isto causa tristeza e decepção. Por que este dilema de querer ser algo que realiza, dá alegria, enobrece e, ao invés, enveredar para algo que diminui, dá tristeza e empobrece?
Existem várias explicações ou teorias. Uma delas a qual poderíamos denominá-la de natural apóia-se na presença simultânea no ser humano da racionalidade - que quer o bem – e a animalidade - que segue o caminho dos instintos. Como razão, o ser humano conhece o bem e com a mesma razão pode desvirtuar os instintos dando origem ao mal. Disto nasce o dilema de querer o bem e fazer o mal.
A segunda, a sobrenatural, é aquela que dá uma explicação envolvendo uma divindade ou um ser a cima do homem. Alguns teólogos cristãos, entre eles Santo Agostinho, apresentam uma explicação sobrenatural do fenômeno da dicotomia entre querer o bem, mas escolher o mal. Explicam eles.
Somos criaturas imperfeitas, pois Deus não podia criar outro Deus. Por isso fomos criados limitados e conseguintemente nem sempre sabemos o que é o bem, o certo, o verdadeiro, o justo. Ele nos criou à sua imagem e semelhança, isto é, livres e racionais, mas limitados na razão e na liberdade. Portanto, nem sempre entendemos corretamente e muito menos usamos a liberdade para o bem.
Deus que nos criou, colocou em nós a vontade para o bem, mas como não somos iguais a Ele, de podermos querer só o bem, em nós há também uma força que nos imanta para o mal. Isto aconteceu com todas as criaturas racionais que ele criou: os anjos e os homens. Só que os anjos tiveram só uma oportunidade de querer o bem ou o mal. A escolha era para sempre. Os que quiseram o mal se tornaram Demônios e eternamente só quererão o mal. Os que quiseram o bem são Anjos e eternamente só quererão o bem. E isto irá acontecer ao homem também. Após a morte cada ser humano ou optará pelo bem e sempre será bom ou optará para o mal e então nunca mais vai querer o bem. Não é Deus que nos condena para o bem ou para o mal, mas somos nós que faremos a escolha.
Na primeira escolha o homem falhou e sua consciência ficou avariada, isto é, nem sempre consegue discernir claramente o bem ou o mal. Então, para que o homem pudesse ver com mais nitidez, Deus ajudou: mandou seu filho Jesus Cristo. Ele veio para ser o exemplo de escolha do bem. Diversas vezes na vida dele apresentou-se a oportunidade de fazer o mal, mas ele deu as costas e optou para o bem. Por isso se apresentou como modelo de liberdade, isto é, não ser enganado pelo mal. Por que ser livre é estar livre do mal.
A questão fundamental está em podermos ser livres. Se conseguirmos dominar a nós mesmos, podemos fazer o que quisermos. Quando há algo que nos domina, não somos livres e por isso não podemos fazer o bem. O Natal, a vinda do Messias, nos ensina como agir para sermos livres.
Se formos livres podemos:
- amar a nós mesmos, nos admirar, não nos considerarmos um traste. Ter orgulho de nós. Sermos felizes.
- amar nossa esposa, esposo ou namorada, namorado. Sermos realizados, felizes.
- amar nossos pais, filhos, irmãos. Sentir a emoção de ser família.
- amar a comunidade, o grupo, a escola, o bairro, a igreja, a vizinhança. Sentir segurança no seu seio.
- poder olhar-nos nos olhos e sorrir, abraçar, beijar.
Por isso, o Natal nos ajuda a tirarmos as algemas que amarram e soltarmo-nos, ficarmos livres e só querermos o bem.

F E L I Z  N A T A L  


                                        




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