sexta-feira, 10 de julho de 2026

Narrativas e alternativas. José Mauricio de Carvalho

 


No capítulo inicial de 21 lições para o século XXI, o historiador Yuval Harari examinou visões de mundo que dizem como o mundo nos parece ser, isto é, como ele é pensado e aparece para cada um de nós. Ele mostrou que estamos lidando, meio desconsolados, com os descaminhos da narrativa liberal, aquela que sobreviveu na consciência atual. Isso porque até recentemente o mundo conviveu com três narrativas diferentes e conflitantes (HARARI, 2018, p. 21): “que pretendiam explicar todo o passado e predizer o futuro do mundo inteiro: “a narrativa fascista, a narrativa comunista e a narrativa liberal.”

Com a dissolução das duas primeiras, a narrativa liberal tornou-se prevalente e hegemônica atualmente, o que ela contém explica parte da crise que vivemos. Isso porque ela vendeu a ilusão de que (id., p. 22): “se simplesmente continuarmos a liberalizar e globalizar nossos sistemas políticos e econômicos, o resultado será a paz e a prosperidade para todos.” Então, segundo essa visão de mundo, mesmo os lugares mais atrasados da política e economia também alcançarão índices elevados de desenvolvimento em algum momento. E se assim se pensou durante alguns anos desde o fim da União Soviética, um acontecimento mudou tudo. O sociólogo Zygmunt Bauman também se referiu a ele nesse sentido como o início de uma desorientação. Desde (id., p. 23): “a crise financeira de 2008, pessoas em todo o mundo estão cada vez mais desiludidas com a narrativa liberal.” O descrédito dela resultou também da desidratação do estado do bem-estar social, um dos efeitos da globalização atual.

Em nosso tempo surgiram dois grupos. De um lado, encontramos pessoas que sabem que as coisas não ficarão tão boas quanto anunciam os papas do liberalismo, mas essa realidade lhes beneficia e eles não querem abrir mão dela. De outro lado, estão os que tomam a ideia de um progresso universal como o discurso de uma elite que se enriquece às expensas das massas e estão desiludidos e sem direção. A existência de uma só narrativa dá a entender que se sabe o que real e verdadeiramente está ocorrendo. E quando as coisas não se ajeitam como o esperado é porque estamos indo para o caos. De fato, a elite liberal não está sabendo como explicar o rumo das coisas em nossos dias, mas segue repetindo o mantra do mercado e encontrou no migrante o responsável pelos problemas. Quanto aos políticos liberais ficaram distantes das causas defendidas até a pouco (id., p. 24): “o sistema político liberal tomou a forma durante a era industrial para gerir um mundo de máquinas a vapor, refinarias de petróleo e aparelhos de televisão. Agora, tem encontrado dificuldade em lidar com as revoluções em curso na tecnologia da informação e na biotecnologia.”

O historiador Yuval Harari resumiu em três narrativas a visão de mundo que povoou a consciência humana até a pouco: a liberal, a comunista e a nazista, apresentando-as como três visões que esgotam a compreensão de mundo até recentemente. Narrativas são formas de relatar acontecimentos ou fatos, numa sequência lógica e coerente, embora não necessariamente exata. E, em certo sentido, essas leituras de mundo são realmente narrativas, pois são descrições de fatos reais ou não, crenças e valores diversos. E nessas três narrativas fatos não necessariamente verdadeiros e crenças mal justificadas se misturam bem. A solução que ele propôs para a insuficiência ou inconveniência delas é de deixa-las de lado como descrições globais e acolher relatos locais, o que não parece ser a melhor solução para as dificuldades e descaminhos atuais. Primeiro porque os problemas ecológicos, econômicos, de segurança, de deslocamento populacional e ligados ao mundo do trabalho não serão resolvidos com soluções locais, segundo porque a construção de uma visão de mundo que possa ajudar o homem a reencontrar caminhos não pode ficar restrita a essas três narrativas. Todas elas, assim parece, de alguma forma trouxeram elementos nucleares dos valores que formam nossa tradição cultural, elas os acolheram de determinado modo e trabalharam a partir disso. O que é preciso fazer é recuperar nessas narrativas os valores fundamentais de nossa cultura e em especial o da pessoa humana, sua dignidade e liberdade. Nesse sentido, a tradição humanística do ocidente, os conhecimentos filosóficos e jurídicos que vieram do mundo antigo e certos valores gestados no cristianismo são fundamentais como formadores de uma visão de mundo que nos parece mais exata. Uma nova forma de construir o que pensamos do mundo poderá servir de caminho para uma humanidade hoje desiludida, desconcertada, incerta, insegura, temerosa, perplexa com a insuficiência da narrativa liberal. No entanto, o caminho não está nas outras narrativas mencionadas pelo historiador, mas em superar a descrição de mundo como uma dessas narrativas, porque narrativas aproximam fatos verdadeiros e não verdadeiros, crenças mais ou menos razoáveis na sequência narrativa. Apresentar a compreensão de mundo como uma dessas narrativas, colocando-as como únicas possíveis, fecha a porta para leituras mais amplas e coloca em igualdade de condições qualquer tipo de discurso que se construa sobre o mundo e a vida. Então o caminho não pode ser esse, assumir a narrativa liberal como integralmente válida, nem excluir outras formas de ver o problema.

 

 

 

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