No capítulo inicial de 21 lições para o
século XXI, o historiador Yuval Harari examinou visões de mundo que dizem
como o mundo nos parece ser, isto é, como ele é pensado e aparece para cada um
de nós. Ele mostrou que estamos lidando, meio desconsolados, com os descaminhos
da narrativa liberal, aquela que sobreviveu na consciência atual. Isso porque
até recentemente o mundo conviveu com três narrativas diferentes e conflitantes
(HARARI, 2018, p. 21): “que pretendiam explicar todo o passado e predizer o
futuro do mundo inteiro: “a narrativa fascista, a narrativa comunista e a narrativa
liberal.”
Com a dissolução das duas primeiras, a
narrativa liberal tornou-se prevalente e hegemônica atualmente, o que ela
contém explica parte da crise que vivemos. Isso porque ela vendeu a ilusão de
que (id., p. 22): “se simplesmente continuarmos a liberalizar e globalizar
nossos sistemas políticos e econômicos, o resultado será a paz e a prosperidade
para todos.” Então, segundo essa visão de mundo, mesmo os lugares mais
atrasados da política e economia também alcançarão índices elevados de
desenvolvimento em algum momento. E se assim se pensou durante alguns anos
desde o fim da União Soviética, um acontecimento mudou tudo. O sociólogo
Zygmunt Bauman também se referiu a ele nesse sentido como o início de uma
desorientação. Desde (id., p. 23): “a crise financeira de 2008, pessoas em todo
o mundo estão cada vez mais desiludidas com a narrativa liberal.” O descrédito
dela resultou também da desidratação do estado do bem-estar social, um dos
efeitos da globalização atual.
Em nosso tempo surgiram dois grupos. De um
lado, encontramos pessoas que sabem que as coisas não ficarão tão boas quanto
anunciam os papas do liberalismo, mas essa realidade lhes beneficia e eles não
querem abrir mão dela. De outro lado, estão os que tomam a ideia de um
progresso universal como o discurso de uma elite que se enriquece às expensas
das massas e estão desiludidos e sem direção. A existência de uma só narrativa
dá a entender que se sabe o que real e verdadeiramente está ocorrendo. E quando
as coisas não se ajeitam como o esperado é porque estamos indo para o caos. De
fato, a elite liberal não está sabendo como explicar o rumo das coisas em
nossos dias, mas segue repetindo o mantra do mercado e encontrou no migrante o
responsável pelos problemas. Quanto aos políticos liberais ficaram distantes
das causas defendidas até a pouco (id., p. 24): “o sistema político liberal
tomou a forma durante a era industrial para gerir um mundo de máquinas a vapor,
refinarias de petróleo e aparelhos de televisão. Agora, tem encontrado
dificuldade em lidar com as revoluções em curso na tecnologia da informação e
na biotecnologia.”
O historiador Yuval Harari resumiu em três
narrativas a visão de mundo que povoou a consciência humana até a pouco: a
liberal, a comunista e a nazista, apresentando-as como três visões que esgotam
a compreensão de mundo até recentemente. Narrativas são formas de relatar
acontecimentos ou fatos, numa sequência lógica e coerente, embora não
necessariamente exata. E, em certo sentido, essas leituras de mundo são
realmente narrativas, pois são descrições de fatos reais ou não, crenças e
valores diversos. E nessas três narrativas fatos não necessariamente
verdadeiros e crenças mal justificadas se misturam bem. A solução que ele
propôs para a insuficiência ou inconveniência delas é de deixa-las de lado como
descrições globais e acolher relatos locais, o que não parece ser a melhor
solução para as dificuldades e descaminhos atuais. Primeiro porque os problemas
ecológicos, econômicos, de segurança, de deslocamento populacional e ligados ao
mundo do trabalho não serão resolvidos com soluções locais, segundo porque a construção
de uma visão de mundo que possa ajudar o homem a reencontrar caminhos não pode
ficar restrita a essas três narrativas. Todas elas, assim parece, de alguma
forma trouxeram elementos nucleares dos valores que formam nossa tradição
cultural, elas os acolheram de determinado modo e trabalharam a partir disso. O
que é preciso fazer é recuperar nessas narrativas os valores fundamentais de
nossa cultura e em especial o da pessoa humana, sua dignidade e liberdade.
Nesse sentido, a tradição humanística do ocidente, os conhecimentos filosóficos
e jurídicos que vieram do mundo antigo e certos valores gestados no
cristianismo são fundamentais como formadores de uma visão de mundo que nos
parece mais exata. Uma nova forma de construir o que pensamos do mundo poderá
servir de caminho para uma humanidade hoje desiludida, desconcertada, incerta,
insegura, temerosa, perplexa com a insuficiência da narrativa liberal. No
entanto, o caminho não está nas outras narrativas mencionadas pelo historiador,
mas em superar a descrição de mundo como uma dessas narrativas, porque
narrativas aproximam fatos verdadeiros e não verdadeiros, crenças mais ou menos
razoáveis na sequência narrativa. Apresentar a compreensão de mundo como uma
dessas narrativas, colocando-as como únicas possíveis, fecha a porta para
leituras mais amplas e coloca em igualdade de condições qualquer tipo de
discurso que se construa sobre o mundo e a vida. Então o caminho não pode ser
esse, assumir a narrativa liberal como integralmente válida, nem excluir outras
formas de ver o problema.
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