sexta-feira, 13 de setembro de 2024

ALCIDE DE GASPERI -PAI DA EUROPA. SELVINO ANTONIO MALFATTI

 

                                                              ALCIDE DE GASPERI



Natural da província de Trento, Itália, foi o mais importante político da Itália do pós-guerra. No contexto europeu os “Pais da Europa” são Alcide de Gasperi, Konrad Adenauer, Robert Schuman e Jean Monnet.

De Gasperi sempre esteve ligado à Igreja Católica. Inimigo do regime fascista foi preso e condenado. Mas graças à intervenção do Papa Pio XI foi libertado. Para enfrentar o fascismo fundou o Partido da Democracia Cristã. Este partido se disseminou para a maioria dos países europeus e conduziu os destinos da Europa por meio século.

O período “degasperiano”, desde a fundação da Democracia Cristã até 1953, é um período particularmente desafiador para a Democracia Cristã . Primeiramente é um partido novo, com alguns participantes com experiência no extinto Partido Popular como Alcide De Gasperi e Luigi Sturzo. Em segundo lugar, não foi um partido que emergiu da sociedade italiana, mas em boa parte criado artificialmente em laboratório, mormente no Vaticano. Guindado ao governo deveria dar conta de algumas tarefas nada fáceis para um pós-guerra, no qual a Itália não somente foi perdedora, como ficou falida economicamente. Mas, a maior de todas as missões era de conter fascismo de direita, e o comunismo de esquerda, o segundo partido mais forte da Itália. Neste preciso período, a Democracia Cristã será atacada pelos amigos e inimigos, pelos seus apoiadores e opositores, precisamente quando estava se organizando.

Neste primeiro período predomina a figura carismática De Gasperi. É considerado como uma autêntica liderança: forte, decidido, de marcante influência pessoal. Faz-se sentir no enfrentamento dos problemas cruciais e na organização do novo partido. Sob sua inspiração a Democracia Cristã amadureceu, ou feita amadurecer, num ambiente eclesiástico e no laicato católico. Foi criada com o objetivo de contrapor-se às forças laicizantes e comunistas, para tutelar, defender e promover os interesses da Igreja e dos católicos na fase de reconstrução, reduzindo ao mínimo os inconvenientes decorrentes dos compromissos da Igreja com o Fascismo. Mas na prática significou muito mais que isto, como por exemplo, a incorporação dos eleitores católicos num regime democrático.

Nesta fase tornava-se crucial conseguir os máximos de recursos organizativos com o fito de conter a esquerda, máxime os comunistas. Passados os primeiros momentos, o partido deu  mostras de  estar atingindo os objetivos. Para o momento subsequente, era preciso continuar contar com o apoio da organização católica e por outro, defender a democracia republicana. O primeiro era tanto mais importante, pois em alguns setores da Igreja se pensava em criar outro partido. Isto se tornava crucial para o partido da Democracia Cristã. O apoio eleitoral da Democracia Cristã, neste período estava dependente do empenho do catolicismo da Democracia Cristã. Por isso, o partido não poderia perder nenhum apoio. O preço de optar pelo “partido dos católicos”, neste momento, talvez tenha sido inevitável para a Democracia Cristã radicar-se na sociedade italiana, e desempenhar o papel que lhe foi cometido. Isto não significa que não tenham advindo consequências negativas. Uma delas é o fato de que o partido conseguia mover-se com dificuldade pois sentia o peso da mediação católica, mormente da alta hierarquia, quando não do vértice do Vaticano. Mas há também as positivas, sendo que se pode apontar como uma das mais importantes é que a Democracia Cristã evitou que alguns setores eclesiásticos enveredassem para experiências do tipo salazarista, mantendo o mundo católico dentro dos limites democráticos. Nesse sentido, parece que a balança pende positivamente, pois, perante tantas dúvidas, mesmo da parte da hierarquia eclesiástica, a liderança degasperiana garantiu para a Itália a opção democrática.

Em consequência disso, o partido da Democracia Cristã tem como primeiro desafio de sua organização a assimilação dos dirigentes da ação católica nos seus quadros. Nesse sentido inicia um intenso trabalho de recrutamento de filiados para poder preencher os cargos em nível local e nacional. Nesse momento inicia o processo de desvencilhamento da tutela eclesiástica, pois precisa expandir-se além do seu raio de ação. É consenso se afirmar que o sucesso do primeiro período da Democracia Cristã se deveu á organização da ação católica atraída para o partido. Mas a Democracia Cristã não para aí, passando a partir de então a andar com autonomia, aceitando criticamente o apoio dos meios católicos. Isto por que De Gasperi, tinha consciência que um partido de uma religião, seria um contra senso. Poderíamos nos perguntar: como foi possível que de uma doutrina religiosa adviesse uma proposta política que conseguiu sublimar a opinião pública e imantou os interesses nacionais? Ocorreu aquilo que John Rawls denominou de “concepção política de bem”. Conforme o autor, uma concepção de bem em política é diferente de uma concepção religiosa ou filosófica. Esta última é abrangente, isto é, absoluta. A política é específica, isto é, é para aquele objeto concreto, de modo que, ao aceitar uma determinada ideia de bem em política não é necessário aceitar esta ou aquela religião. Com isso ela se torna razoável e não matéria de fé ou sentimento. É isto precisamente o que caracteriza um regime democrático. Caso fosse a concepção de bem absoluta, certamente cairíamos no totalitarismo, fundamentalismo ou outro regime, mas nunca o democrático. Uma proposta de bem político democrático pode ser aceito por toda sociedade, composta de cidadãos livres e iguais, pois que não pressupõe uma doutrina abrangente.

Com efeito, foi o que ocorreu com a Democracia Cristã a partir da concepção da lavra de De Gasperi. Ele, paulatinamente, passou a atuar politicamente de forma autônoma em relação à hierarquia eclesiástica. Estabeleceram-se metas e programas fora do manto da Igreja. Eram metas de uma sociedade civil, como a inserção da Itália na comunidade europeia, ou a industrialização. De Gasperi quando organizava a economia no sentido de o Estado fazer o papel de regulador criando uma estrutura para o processo econômico capitalista, fazendo conviver prosperidade e liberdade,  não tinha em mente uma determinada religião, mas um interesse que atingia a comunidade civil. Nisso, parece, que consistiu a possibilidade de êxito da Democracia Cristã na Itália e nos demais países europeus que a adotaram, como foi o caso da Alemanha e outros países.


sexta-feira, 23 de agosto de 2024

A velha democracia continua necessária . José Mauricio de Carvalho

 



A democracia, que parecia ser uma conquista sólida depois das Grandes Guerras do século passado, passa por maus momentos. Parece que a humanidade se esqueceu do que fizeram os sistemas totalitários no último século.

Um sistema político baseado em eleições livres e partidos políticos diferentes permitiu a alternância de visões de mundo. Isso mostrou, nas últimas décadas, que a verdade pode ser olhada por diversos ângulos e que o diálogo entre diferentes é fecundo. A crença numa única verdade já provocou muitos desastres, do terrorismo ao fanatismo religioso, das guerras terríveis ao massacre dos inocentes.

Em nossos dias há um desinteresse pela democracia. A classe média nos países mais desenvolvidos e mesmo nas nações em desenvolvimento não enxerga benefícios na democracia, não se sente influindo no destino do país, nem acha que o Estado garanta benefícios. Isso leva ao crescente desinteresse pelas eleições. Eleições parecem uma disputa entre personalidades distintas, com pouco resultado prático na vida. Pessoas de classe média mundo afora não sentem a vida melhorar com o jogo democrático. Assim vão aderindo às soluções antidemocráticas sugeridas pela extrema direita que piora muito a sua própria condição, embora não se deem conta disso.

 Além do desapontamento com o papel do Estado, cresce nessa classe média o medo do estrangeiro e do estranho, assim a corrosão da democracia e do estado do bem-estar social é alimentado por pessoas que adotam um (id., p. 16): “quietismo, obscuridade voluntária ou emigração interior.” Essas pessoas, diante das graves e profundas transformações culturais, mergulham na própria intimidade ou aderem à soluções anacrônicas. E aí, vivendo uma espécie da alienação voluntária, sem perceber que não há velhas respostas para novos desafios, contribuem aderindo ao conservadorismo moral para o agravamento dos problemas sociais. Por medo do crescente número dos consumidores falhos desejam um líder forte e autoritário que os defenda.

As análises de Bauman e Mauro no livro Babel, entre a incerteza e a esperança relacionam a crise do capitalismo com a atual onda autoritária. Parece-lhes que a emergência do nazi fascismo foi alimentada pelos abalos econômicos desde 2008, pelas mudanças no universo do trabalho, pelas transformações no mundo da economia. Elas modificaram a vida privada e deram origem a um cidadão perdido e infeliz porque não tem voz e nem visibilidade social. Nesse espaço social (BAUMAN e MAURO, Babel, entre a incerteza e a esperança. Rio de Janeiro: Zahar, 2016, p. 59): “a democracia econômica abriu caminho a um mercado que é obscenamente triunfante ... enquanto a ideia de uma democracia cultural acabou substituída pelo alienante marketing cultural de massas.”

Nesse modelo político-econômico, que é favorecido pelo nazi fascismo, possui representantes que apostam na fragilização da política e dos partidos, o que é facilitado por radicais de esquerda que, tal como eles próprios, insistem em virar as costas para a lei, para o sistema democrático e para a moralidade. Reações radicais de esquerda a esse movimento, como a Venezuela de Maduro, também não são o melhor caminho para os povos.

Nesse contexto, os liberais consequentes e respeitosos do estado de direito emudeceram e igualmente se calaram os sociais-democratas históricos, criando um ambiente propício à emergência de uma nova extrema-direita, com líderes limitados e populista, passando por cima de um centro calado e uma esquerda democrática desorientada. Enfim, o pensamento democrático ficou debilitado, fragilizando o próprio sistema democrático (id., p. 197): “a ignorância política é perpétua a si mesma, e a corda trançada da ignorância e da inação vem a calhar sempre que a voz da democracia tiver de ser abafada ou suas mãos forem amarradas.”

 Em meio a tantas mudanças, os partidos mais à esquerda dos países democráticos, bem como o centro democrático, não podem se descomprometer da democracia e nem de preservar políticas sociais que, se não são mais como as do século passado, são ainda necessárias para uma sociedade mais solidária.

As recentes tentativas de golpe nos Estados Unidos e no Brasil não são fatos insignificantes. Os inimigos da democracia, do estado de direito e do próprio pensamento histórico liberal, naquilo que esse último acolheu do humanismo, das causas ecológicas e da tradição axiológica do ocidente, ameaçam o cerne dos valores ocidentais. Não se pode esquecer que a democracia ocidental corresponde a uma democratização da ideias liberais que remonta ao século XVII. O liberalismo que, no início, limitava-se a representar os ricos proprietários, percebeu a necessidade de incorporar toda a sociedade no sistema político e social em benefício de todos. Assim já se sabe que não basta pedir mais liberdade para o capital deixando-o à vontade como se fosse Deus, em detrimento das outras liberdades.

A criação de uma sociedade mais solidária não é o objetivo da democracia, mas esse sistema político é atualmente o único que permite buscar uma sociedade mais equilibrada, isso porque o sistema (id., p. 83): “é condição necessária à livre discussão pública de certos assuntos – particularmente o da justiça social e o caráter ético dos assuntos públicos.” Filósofos como Emmanuel Lévinas, em meio às mudanças hodiernas, apontam lucidamente a democracia como o caminho mais curto para uma remoralização da sociedade.

Mesmo sendo difícil construir um mundo menos desigual é preciso ter esperança e confiança no amor, é possível ter um sentido pessoal e, talvez, aberto ao transcendente (Deus, humanidade, etc.). É desejável buscar uma sociedade onde a exclusão do pobre e do diferente não seja a regra e onde o sistema político supere os radicalismos e assegure a convivência dos diferentes.

 

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

VOTO = DEMOCRACIA? Selvino Antonio Malfatti.

 



Eleição nos USA. O candidato ex-presidente Donald Trump não aceita a derrota contra Joe Biden.

Eleição no Brasil. Ex-presidente Jair Bolsonaro não reconhece a vitória de Luís Inácio Lula da Silva.

Eleição na Venezuela. O opositor Edmundo González Urrutia  não aceita a derrota contra o presidente Nicolás Maduro.

Eleições municipais no Brasil em outubro. Como serão?

Nos três resultados eleitorais - Estados Unidos, Brasil e Venezuela - o perdedor não aceita a derrota, invocando fraudes que favoreceram seu opositor no pleito. Nos três casos a discórdia ocorreu com resultado. Por quê? Por que não bastam eleições, mas regras da eleição, a processo eletivo e lisura na apuração. Imaginemos:

Cenário 1 – Uma assembleia decide que haverá eleição. Espalha-se a notícia: alto falantes anunciam, jornais veiculam a notícia, rádios e canais de televisão informam nomes de candidatos de suas preferências.

Cenário 2- Eleição. Comparece o povo qualquer dia e qualquer hora, com crianças, jovens e adultos, gritando aleatoriamente nomes. Surgem protestos daqui e dali dizendo que crianças não podem votar. Uma confusão. generalizada.

Cenário 3- Apuração. Qualquer um atribui voto para qualquer um. Uns vociferam que o voto do delegado vale mais, outros que o voto é igual de todos, outros que o voto do pastor vale em dobro. Ninguém se entende

Nestes três cenários acima se constatam três momentos da eleição:  regras, processo e apuração.

Há um consenso em torno da aceitação da democracia e outro na condenação de outros regimes. Não se quer ditaduras, oligarquias, autocracias e o pior, o totalitário.

A História nos ensina que a passagem de um regime para outro, não se dá bruscamente. Só excepcionalmente ocorre uma ruptura repentina. O normal é que avance imperceptivelmente.

Vejamos como se transita de um regime democrático para um totalitário. Há um longo caminho a ser percorrido que precede este regime. Cada etapa prepara e torna mais fácil a próxima. A etapa antecedente molda a mente de cada um e da sociedade para aceitar a posterior. Esta dinâmica em tempos cruciais pode potenciar o processo. Quando ingressa nesta dinâmica algum ingrediente vivencial, identitário individual ou social se torna obsessivo e fora de controle. Esta psicose empana a mente deixando ter a correta percepção da realidade social e econômica. Podemos seguir a trajetória de um regime liberal para um totalitário.

Hitler liderava o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Tentou derrubar o governo alemão e foi preso. Durante o julgamento somou inimigos, mas também fanáticos seguidores. Na prisão escreve Mein Kamp (Minha Luta) expondo e esclarecendo seu pensamento político. Pretendia: expansão territorial, estado racial pura (ariano), eliminação dos judeus, ciganos e outros povos. 

Fora a prisão abandona o método revolucionário para conseguir o poder e opta por vias legais. Consegue isto em 1933 quando o presidente Paul von Hindenburg nomeou-o chanceler, cargo equivalente a primeiro ministro.

O programa do Mein Kamp vai tomando forma no seu governo. Desvia-se do rumo do governo e foca-se no aumento de poder. Para tanto passa a contestar as instituições, dissemina e incentiva a brutalidade, atira a culpa dos fracassos sobre grupos como judeus, divide a nação entre alemães puros e párias intrusos e exploradores. Dissemina o joio do ódio entre grupos e partidos e incentiva atos racistas.

O desfecho é conhecido. O líder totalitário ataca os demais poderes colocando-os no banco dos traidores. Fecha o congresso e o judiciário. Entrega ao exército e ao grupos de juízes escolhidos por ele o julgamento das acusações de ordem e de política. 

Institui o regime da rolha. Destrói a consciência individual, regime do terror, a desolação como diria Hanna Arend. 

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

SEXO DE JOVENS CATÓLICOS E EVANGÉLICOS. Selvino Antonio Malfatti

 



Sexo, o que é? Tentemos partir do conceito mais simples ao mais complexo. O primeiro e mais simples é um ato conjuntivo entre os órgãos de um ser masculino e um feminino. O mais complexo seria qualquer ato tanto masculino como feminino de origem ou fim libidinoso.

No passado embora houvesse “perversões” sexuais como; incesto, homossexualidade, zoofilia, pedofilia, pederastia, fetichismo, sadomasoquismo, transvestismo, narcisismo, autoerotismo, coprofilia, necrofilia, exibicionismo, voyeurismo, mutilações sexuais, o considerado normal era o sexo entre um ser masculino e um feminino. Atualmente, além das citadas práticas, a variedade é inumerável em quantidade e inqualificável nas formas.

Sexo sempre mereceu um controle de fora, desde as normas religiosas no passado até o controle próprio, o autocontrole atual.

Em que pese Aristóteles associar o sexo ao amor evidentemente não é mais exclusivamente assim nos dias atuais. Da mesma forma Tomás de Aquino vincula o sexo à finalidade do órgão que é a procriação.

A análise sociológica revela em contrapartida o sexo com objetivo exclusivo de prazer. Este será nosso foco(socióloga francesa Marion Maudet -No começo era o casal. Sexualidade, Amor e Religião entre os Jovens ).

Ainda a religião oferece resistências ao sexo como prazer. Sua orientação segue a raiz filosófica do amor e da procriação. Isto cria um conflito de consciência com a realidade social.

Faremos uma reflexão sobre esta realidade analisando principalmente duas vertentes religiosas cristãs no Brasil: os jovens católicos e evangélicos praticantes . Escolhemos população de 12 a 25 anos. Em ambos os grupos religiosos as orientações são recebidas nos centros religiosos como paróquias para os católicos e igrejas para os evangélicos.

Primeiramente os católicos. A partir de 1970 a vida sexual dos jovens católicos praticantes tem se aproximado dos não praticantes e não católicos. São as práticas mais comuns condenadas pela Igreja e praticadas em larga escala pelos jovens: masturbação, uso de contraceptivos, consumo de pornografia. O mesmo se pode dizer da primeira experiência sexual. Os jovens católicos portam-se como se não houvesse orientação religiosa. Em ambos, católicos e evangélicos, concordam que sexo antes do casamento é lícito.

Uma mudança ocorre com os jovens  quando chegam aos 25 anos.  Demonstram um apego mútuo do casal, valorizam o casamento e a fidelidade conjugal. A sexualidade é praticada no âmbito do casal e é neste ambiente que é legítima e satisfatória. As práticas sexuais modernas como “hookups”, poliamor são rechaçadas pelos casais que já veem no parceiro um futuro marido ou esposa. A orientação católica acompanha seus crentes neste processo por meio de cursos de preparação ao matrimônio, retiros espirituais e grupos de apoio.

E a questão da homossexualidade? Alguns jovens católicos praticantes separam radicalmente a fé e a orientação sexual. A vida sexual é uma coisa e a fé é outra. São esferas incomunicantes. Outros rompem com a fé religiosa, vivendo uma espiritualidade autônomas em relação à paróquia ou congregação religiosa. Rejeitam totalmente a orientação da religião.

Quanto aos evangélicos praticantes existem posições bem mais conservadoras. As orientações dos pastores são seguidas ao pé da letra. A Bíblia é algo imutável. Como a Bíblia condena sexo fora do casamento, então todo sexo deste contexto é pecado. Diz um pastor evangélico: “O sexo lidera a lista de pecados capitais evangélicos”. ( Marcos Botelho). O jornal italiano, “Corriere”, ao se referir aos escândalos de pederastia da Igreja católica diz: ” a cruz da Igreja é o sexo".

Estas considerações somente são válidas para jovens católicos e evangélicos, pois para os demais, vale tudo, quase uma pandemia sexual. Como dizem: como o diabo gosta.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

A democracia e seus inimigos. José Mauricio de Carvalho

 


A análise de Bauman sobre a liberdade na obra O mal-estar da pós-modernidade foi feita no contexto político. Quando alguém, num sistema democrático ele afirmou, perde uma contenda pode aguardar uma próxima oportunidade e o vencedor sabe que logo poderá ser derrotado num outro pleito. Nesse contexto, nenhuma derrota ou vitória é definitiva (id., p. 246): “a experiência dos que se empenham no jogo chamado liberdade é tão incerta, contingente e inconclusiva como o destino.” Portanto, a democracia encontra-se na raiz da liberdade.

A democracia, ao permitir a alternância de visões de mundo, mostra que a verdade pode ser olhada de diferentes modos e isso parece fundamental, pois uma única leitura da verdade já provocou desastres sem fim.  Bauman lembrou que (id., p. 248): “a história está cheia de assassínios de massa cometidos em nome de uma única verdade.” E pior ainda quando essa verdade se mistura com assuntos religiosos porque, nesse caso, as atrocidades não parecem absurdas, pois são feitas em nome de Deus. No caso (ibidem): “não são então os humanos os perpetradores da crueldade que assumem a responsabilidade, temendo assim serem censurados por sua consciência.”

Quando se pensa na verdade como estando na posse de um grupo, um partido ou uma ideologia isso sugeri que seja razoável o monopólio do poder e o controle de todos os outros indivíduos pela força. Por isso, a defesa da democracia aparece, na leitura de Bauman, como o caminho natural para evitar a opressão e a obediência cega a um determinado líder.

O pior do momento que vivemos é que as forças que pretendem eliminar as liberdades, creio que a seta de Bauman se dirige para a extrema-direita ou para ditadores de plantão, é que há aqueles que temem a liberdade. Esses não se importam em cedê-la voluntariamente (id., p. 250): “como demonstrou a experiência de nosso tempo de totalitarismo para além da dúvida razoável, com uma demasiada frequência o desejo de tirar a liberdade se encontra com o desejo de concedê-la.”  Assim, há aqueles que usam sua liberdade para renunciar a ela e assim perdem a possibilidade de experimentar e buscar um caminho próprio em meio às inseguranças da vida. Ao contrário, renunciam a ele para não viver a ansiedade que acompanha essas escolhas ou a insegurança quanto aos resultados. Bauman destacou que é um caminho inadequado renunciar a liberdade porque ela (id., p. 251): “é nosso destino: uma sorte de que não se pode desejar o afastamento e que não se vai embora por mais intensamente que possamos desviar dela os nossos olhos.”

A questão atual da liberdade inclui, ele avalia, a contradição entre aqueles muito ricos que querem mais dela para fazer literalmente tudo o que desejam e os mais pobres que não dispõe de quase nenhuma autonomia. A questão da liberdade se coloca de tal ordem que ela não pode ser assegurada pelos indivíduos, tanto porque é circunstanciada como porque individualmente nenhum sujeito é capaz de garanti-la individualmente (id., p. 255): “a liberdade individual não pode efetivamente ser atingida por esforços apenas individualmente; que para alguns poderem assegurar e desfrutar disso, algo deve ser feito para assegurar a todos a possibilidade de seu desfrute.” E, nesse contexto, parece ao nosso autor, que a única coisa justificável é ser solidário com os excluídos, aqueles que ele em outras obras denomina de lixo humano.

Fica-nos uma questão: é possível a democracia conviver com aqueles que embora vivam nela almejam destruí-la logo que possível? É possível admitir totalitários de plantão como foram Mussolini e Hitler no século passado, deixando-os disputar tranquilamente os pleitos e depois questionar o sistema para destruí-lo? Creio que o sistema precisaria se precaver desses oportunistas que, como serpentes venenosas, encontram-se escondidos na democracia para a matarem logo que aparece a oportunidade.

sábado, 27 de julho de 2024

ISMAIL KADARÉ, A VOZ DISCORDANTE DO TOTALITARISMO ALBANÊS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Em 1º de julho deste mês, o mundo intelectual perdeu um grande pensador, Ismael Kadare. Natural de Gjirokastër e falecido aos 88 anos em Tirana, Albânia. Viveu a devastação da Segunda Guerra em seu país. Sua produção intelectual reflete os horrores que ele e seu país passaram. A obra principal: “Os Tambores da Chuva”.

Possui uma perspectiva universal e foi por isso que angariou fama mundial e sua obra está traduzida em mais de quarenta línguas.

O regime ditatorial e comunista de Enver Hoxha a contragosto tolerava-o embora tentasse cooptá-lo.  Com sua ida para França, 1990, conquista o reconhecimento internacional. Conquistou os principais prêmios:  

Man Booker International Prize, 2005

Prêmio Asturias për Letërsinë, 2009

Prêmio"Lerici Pea", 2010

Prêmio Jerusalém], 2015[9]

Commandeur de la Légion d’Honneur (C. LH), França, 2016

Prêmio "Letërsia shqipe", Kosovo, 2017

Prêmio "Nonino". 2018

Prêmio Park Kyung-ni 2019

Várias vezes indicado para Prêmio Nobel.

Um dos momentos decisivos na produção intelectual de Kadaré foi quando a Albânia foi anexada ao bloco comunista em 1950. A partir de então os intelectuais de seu país tiveram que se submeter às normas do Socialismo  Realismo. Autores que se negassem a se submeter ao pensamento foram impedidos de publicar. Outros apenas plagiavam obras soviéticas. Tanto a didática como a filiação ideológica foram impostos aos escritores. Os temas não podiam sair do círculo ideológico: luta pela libertação nacional, celebração dos progressos do socialismo ou assuntos afetos ao socialismo.

Quando Kadaré publica Os Tambores da Guerra, cujo conteúdo narra a história de um general e de um padre que buscam os restos mortais de soldados italianos mortos na guerra,  foi recebido com fúria pelo governo. A principal acusação era a definição dada a um padre: “um bom homem”. As tribulações de Kadaré contra o regime continuaram. Após a publicação de Os Tambores da Chuva o ditador reclama que seus livros são publicados no exterior e com conteúdo de tristeza. O ditador provocou-o a publicar algo sobre o “heroico partido albanês”. Kadaré não deu a menor atenção. No entanto o ditador fê-lo assinar uma declaração onde confessa ter “escrito coisas contrárias ao bem do povo”  (povo entendido como partido) comportando-se como “inimigo do comunismo”. Esta declaração foi apenas paras evitar represálias piores.

No romance “O Palácio dos Sonhos” praticamente faz uma paródia da Revolução dos Bichos de Orwell e descreve o sistema burocrático e policiesco do regime otomano, entendendo-se como o regime comunista. Revivia o Grande Fratello, Grande Irmão.

A substituição do ditador Hoxha por Ramiz Alia vislumbrou alguma esperança. No entanto, teve que declarar numa entrevista: “O Estado albanês prometeu tudo sem procurar soluções eficazes, enganou continuamente os cidadãos, mas na realidade ninguém tinha intenção de fazer nada».

Obras:

Os tambores da chuva

O Dossier H

Concerto no fim do inverno

O Palácio dos Sonhos

A Pirâmide

Três Cantos Fúnebres pelo Kosovo

Abril despedaçado

O General da Armada Morta (Le général de l'armée morte) 2004

O jantar errado, (Darka e gabuar), Companhia das Letras, 2013.

O acidente, (Aksidenti), Companhia das Letras, 2010

Crônica na pedra (Kronikë në gur), Companhia das Letras, 2008

Uma questão de loucura (Çështje të marrëzisë), Companhia das Letras, 2007.

Vida, jogo e morte de Lul Mazrek, (Jeta, loja dhe vdekja e Lul Mazrekut), Companhia das Letras, 2004.

Obra: “O General da Armada Morta”

“Vinte anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, um general e um coronel capelão do exército italiano, recebem um mandato pesado e delicado: encontrar os restos mortais de muitos dos nossos soldados que morreram na Albânia. A missão logo se choca contra as rochas de um clima hostil, de uma terra impermeável, à qual se soma a frieza de um povo orgulhoso para quem a guerra parece ser uma condição de vida. Quando o general estava pronto para trazer o exército morto de volta para casa, percebe que exumou, além dos restos mortais (ainda faltavam muitos na chamada silenciosa), também desconfianças e ressentimentos antigos, atávicos em um povo diferente nos costumes, no sentido da vida, da morte e da honra, que “sempre teve gosto por matar e ser morto”. Relembrando os horrores da guerra na terra das águias.  ((www.qlibri.it › romanzi › il-generale-dell'armata-mortaIl generale dell'armata morta - Ismail Kadare -) Tradução automática e do autor


sexta-feira, 19 de julho de 2024

O discurso da extrema direita e os sonhos da classe média. José Mauricio de Carvalho

 



Há muita coisa acontecendo nos últimos tempos, mas de modo geral podemos dizer o que têm em comum os nossos dias é que nada parece seguro. O clima econômico, político, social, axiológico muda de forma tão rápida que deixa as pessoas sem chão. Essa situação é olhada pelos mais brilhantes intelectuais de nossos dias como um tempo de crise. E esses intelectuais são unânimes ao reconhecer a crise de cultura, divergem, contudo, na sua leitura e explicações dela. Alguns dos mais conhecidos estudiosos da crise de nossos dias são Ortega y Gasset com seu estudo das massas, Vilém Flusser e suas análises das consequências deixadas pelos campos de concentração, Max Scheler e suas considerações sobre as transformações dos valores, Karl Jaspers e Viktor Frankl e por seus estudos sobre a falta de sentido da vida em meio a tantas transformações; ou talvez da fata de autenticidade, diria metafisicamente Martin Heidegger; provavelmente também uma crise de como entender e viver a liberdade diria Jean Paul Sartre; do que fazer na história dissera antes Kierkegaard; de um mundo sem referências absolutas, notara Nietzsche; ou que se esqueceu de dialogar com Deus, retificou Martin Buber. Em resumo, um mundo pouco preocupado com questões transcendentes ou referências estáveis.

Bauman enxergou na raiz dessa crise de cultura a existência de profundas alterações no mundo econômico devido às dificuldades de um capitalismo financeiro e globalizado. De um lado, há problemas econômicos o que significa que o dinheiro virou variável independente, o trabalho foi reduzido a mercadoria deixando se ter ênfase na relação intersubjetiva, a desterritorialização do capital, tornou frágil os governos nacionais diminuindo a capacidade de atuar do Estado Nacional.  Por isso, a relação dos cidadãos com o Estado ficou fragilizada, porque Ele não consegue lhes oferecer, com qualidade, aquele mínimo que se tinha como consenso até alguns anos. O Estado social está em agonia e cumpre mal a tarefa de oferecer educação e saúde de qualidade. Por outro lado, aumenta enormemente os gastos com segurança e os resultados são criticáveis.

Além dessas alterações econômicas e sociais, as guerras e disputas locais que explodiram no final da Guerra Fria provocaram e continuam provocando o deslocamento de milhões de pessoas pelo mundo, tornando gravíssimo o fluxo migratório mundial. E diminuindo, em contrapartida, o número de empregos de qualidade. O resultado é o aumento do migrante que chega em quantidade crescente nos países mais desenvolvidos. O empobrecimento da classe média passou a ameaçar a organização social e o fato a ser usado pelos políticos, especialmente de direita, como sendo a causa das dificuldades da sociedade, mesmo quando claramente não o é. A grande migração e o aumento do número de pobres é um sintoma e não a causa que está ocorrendo. No entanto, a classe média empobrecida, vendo os empregos reduzirem, vendo as oportunidades diminuírem, enxerga no migrante e no pobre uma ameaça real. O primeiro concorre com os poucos empregos que existem e o segundo lembra a classe média que ela pode ser pobre.

O discurso de direita que tanto cresce mundo afora quer parecer que seu projeto resgatará a qualidade da vida dessa classe média, que esse nacionalismo lhes protegerá dos migrante e pobres. Nesse sentido, o discurso contra qualquer esforço para melhorar a vida dos mais pobres é taxado de comunista e qualquer tentativa de limitar a ação do capital, mesmo quando ameaça seriamente a natureza, é apresentado como ameaça à liberdade.

Assim vamos seguindo, com a extrema direita desejando repetir seus feitos do último século e levar a humanidade a repetir o século XX.

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