sexta-feira, 16 de junho de 2023

A velha e sempre nova democracia. José Mauricio de Carvalho

 



No mundo antigo a democracia desponta como a grande novidade da flor do Peloponeso. Flor porque aquela península assistia a fabulosa reunião de Cidades-Estados da antiga Grécia com uma inédita experiência democrática. Na Cidade-Estado, o poder não pertencia a um monarca, mas aos cidadãos, esse é o princípio que regia aquela forma de governo. Ainda que diferente da democracia representativa do Estado Moderno, aquele sistema, em meio ao despotismo oriental então prevalente, revela uma experiência única de governo, semente do atual sistema democrático.

O propósito grego de encontrar a raiz da realidade, a arkhé, os fez entender que o que governa o destino da polis, não é uma pessoa, mas algo indeterminado. A ordem da cidade espelharia o mesmo equilíbrio que Anaximandro sugeria ser o fundamento do mundo. Existia, pois, uma disputa contínua entre cidadãos com interesses distintos que, com igualdade de direitos, reuniam-se em assembleias para decidir o próprio destino. Política é destino, comentou contemporaneamente o filósofo Karl Jaspers. Para os gregos, o mundo dos homens não é diferente da natureza: ambos são partes de uma única realidade. As disputas no interior da polis explicam, adicionalmente, o fortalecimento da filosofia entre os gregos porque era necessário bem argumentar para que uma proposta fosse admitida entre eles. Isso porque era impensável uma decisão política não pautada na razão e em boas explicações.

O Estado moderno recuperou a ideia de democracia a partir do século XVIII e o sistema alimentou a socialização das sociedades depois da revolução francesa dando origem, segundo Ortega y Gasset, ao homem-massa. Massa ocorre quando a democracia política torna-se um modelo para toda a vida social. Esse homem-massa limitado e infantil não compreendeu a cultura como resultado do esforço ingente das diferentes gerações pelos tempos afora. Perdeu-se o entendimento que para a sociedade atingir o nível em que se encontra precisou de esforço e talentos diferenciados e muitas excelências. Assim, acreditando que tudo estava aí pronto para ele gozar, o homem-massa tornou-se um parasita dos tempos e da sociedade, mas assumiu o protagonismo da história. Ele trouxe aquele ideal político para todas as instituições sociais e isso promoveu uma corruptela da democracia. O homem-massa não é apenas o medíocre inculto, ele se tornou o ideal de homem comum e promoveu a decadência da democracia. Não é preciso aprofundar a origem do homem-massa, mas não podemos desconsiderar o extraordinário e desordenado crescimento demográfico, que impessoaliza as relações nas cidades cada vez mais populosas; a especialização das tarefas, que pede conhecedores de tecnologias sofisticadas e absorventes, mas cujo domínio técnico resulta na ignorância de todo o resto. Um técnico inculto e uma crença emocional, este é o homem-massa.

Embora inadequada para muitas organizações sociais, o sistema democrático que se consolidou no mundo ocidental constitui a melhor forma de decidir politicamente o destino de uma sociedade moderna, grande e plural. Por isso, lembrava Delfim Santos, filósofo português contemporâneo, que quando a democracia é criticada não o é a autêntica democracia mas uma corruptela daquele sistema. Ele disse (SANTOS, democratismo, v. I, p 39): “é sobre isso que, em geral, recai a crítica dos antidemocratas. Eles atacam como democracia aquilo que não é democracia e caem por vezes na incoerência de que, sendo antidemocratas, defendem os mais altos interesses da democracia.” A crítica pode atingir um ou outro político que fazem mal uso do sistema, mas se a crítica os atinge ela enaltece os princípios democráticos.

Infelizmente a crise da cultura que ganhou força no último século, alimentou investidas políticas antidemocráticas, mas não há nada que se compare ao sistema democrático quando falamos da escolha dos representantes do povo que decidirão o seu destino. A democracia apazigua a disputa de legítimos e contraditórios interesses e profundas diferenças de uma sociedade plural.

Recentemente houve no Brasil outra investida antidemocrática. Não é uma exceção em nosso país, mas é uma serpente que sai do ovo para picar a liberdade. Se a democracia entra (id., p. 44): “em crise é porque, sendo um regime de liberdade, procura constantemente renovar-se e pôr-se de acordo com todos os interesses fundamentais da vida.” E assim, mesmo tendo seus limites é, na forma da democracia livre conduzida no estado de direito, o melhor sistema que podem assumir sociedades plurais contemporâneas como a nossa. A democracia é a melhor maneira de defender os desafios de hoje: o estado de direito, a justiça, a educação, a racionalidade e a ciência, a proteção ambiental, a liberdade, a cultura, a memória, a igualdade moral, a proteção social da vida, da velhice e dos incapazes e, finalmente, assegurar o respeito entre todos os homens.


sexta-feira, 9 de junho de 2023

AS TAREFAS DOMÉSTICAS NA PANDEMIA E A IGUALDADE PROFISSIONAL . Selvino Antonio Malfatti.

 




O objetivo de uma pesquisa foi explicar as relações de trabalho através da estrutura do convívio familiar. Um olhar superficial sobre o convívio no ambiente de convivência familiar pode parecer que seu status quo, isto é, determinadas funções profissionais cabem ao marido e outras à esposa. Tomemos um exemplo: o marido é gerente de empresa e não se envolve nas lides familiares como cuidar das crianças, a higiene e limpeza dos cômodos, preparar a comida e outros. E a esposa, por sua vez não se envolve com as atividades profissionais do marido. A suposição é que a pandemia, pela obrigatoriedade de conviverem juntos os gêneros, poderia quebrar esta estrutura e permitir um trânsito profissional.

Uma pesquisa sobre o assunto pode comprovar ou não a hipótese. Se comprovar bastaria desfazer a estrutura que se desfaria também o status quo. Caso não comprove, então devem ser pesquisas outras causas.

Uma das tentativas de explicação foi feita na França. Anualmente a Universidade de Sorbonne na França anualmente destina bolsas de pesquisa para temas específicos. Desde 2022 o tema escolhido foram as consequências sociais da pandemia no seio familiar, com foco na estrutura familiar.

O que determina a divisão do trabalho entre homem e mulher ou entre os gêneros no convívio familiar? Revisemos algumas teorias. Dentre elas podemos citar a natural, a solidariedade, o conflito, a estrutural-funcional, compreensiva entre outras. Cada teoria dá sua própria explicação. Para a natural a desigualdade seria natural, isto é provocada pela própria natureza que destina funções afetas ao gênero masculino e outras ao feminino. A teoria do conflito quer explicar pela luta entre os gêneros, cabendo a supremacia ao macho por ser mais forte. A solidariedade aproxima-se da natural. Homens e mulheres dividem as tarefas pela capacidade, gosto, vocação. A estrutural–funcional dispõe que as tarefas sejam distribuídas pela forma como cada gênero se sente mais à vontade no seu desempenho. E a compreensiva entende que as tarefas são distribuídas pelo sentido que se atribuem a elas.

A hipótese que se levanta é esta: a pandemia que confinou a família nas quatro paredes do lar provocou uma nova divisão de trabalho entre os membros da família? Os maridos se envolveram mais nas tarefas domésticas como a higiene da casa, cuidado dos filhos, preparar a comida, lavar a roupa? Por sua vez os filhos, os mais velhos, também se envolvem nas atividades, antes exclusivamente das mulheres? Por sua vez as mulheres estendem mais suas atividades no setor profissional, antes exclusivamente dos homens, como atividades ligadas à informática, direção de empresas, negócios, orientação gerencial?

Pesquisadores que se dedicaram ao tema, como a socióloga, Julie Landour, do Jornal Le Monde e professora de sociologia na PSL Paris-Dauphine University e pesquisadora do Institute for Interdisciplinary Research in the Social Sciences constata que o local onde se acontece o convívio familiar, por si só, não altera o status quo na hierarquia profissional. O gerente homem de empresa continua o mesmo gerente e a mulher doméstica continua a mesma doméstica, embora após a pandemia os tenha confinado ao mesmo local exercendo atividades diferentes. A conclusão a que chegou a socióloga foi a seguinte:

"A transformação das condições de trabalho por si só, e em particular sua localização dentro das casas, não é suficiente para atuar na divisão de trabalho por gênero".

Para que se possa dizer que houve igualdade de gênero, será preciso que ambos dediquem tempo e energia na atividade profissional de igual intensidade e ao mesmo tempo dispensem tempo e energia em  “preparar a comida, lavar a roupa, fazer a limpeza, cuidar dos filhos.”

Quando se busca a igualdade de gênero no local do trabalho a resposta é negativa. Por si só, o local não influi na desigualdade de gênero, conclui Julie Landour.

Com esta conclusão, a igualdade profissional de Gênero continua em aberto.

 

 

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

O amor. José Mauricio de Carvalho

 



O amor é um destes temas universais e perenes que tocam nosso coração e inteligência. É assunto de todos os grupos humanos e é tratado pelos tempos afora com a mesma paixão e interesse. E sendo universal em seu encantamento é descrito em diferentes criações culturais como: nos poemas mais lidos, nos romances mais famosos, nas criações filosóficas e nos tratados científicos. E assim, por diferentes olhares e pelos tempos afora, o amor é assunto, por excelência, humano. O que surge para o homem de mais sagrado, grandioso e sublime aparece em sua consciência como amor, segundo a síntese de Jo. 4-8: “Deus é amor.”

A história do ocidente privilegiou quatro olhares para o amor. Na antiguidade, Platão considerava que Eros (amor) era a capacidade de pensar e que conclama a perfeição, elevando o olhar do particular sensível para o inteligível. Separando o divino da contaminação sensível chega-se a mais alta beleza: o amor contemplação. Na modernidade e noutro contexto, René Descartes observou que quando estamos unidos a um objeto e julgamos um bem possui-lo, nós o desejamos. Para ele, isso era amor. Um de seus discípulos famosos chamado Baruch Spinoza, deu sublimidade a essa interpretação dizendo que o amor é ir ao amado com serenidade e alegria, ou uma forma de beatitude. O romântico Domingos Gonçalves de Magalhães, julgou necessário distinguir no amor o impulso físico ou sexual dos sentimentos vividos intimamente na relação com o amado.

Nos dias atuais, quando passamos por uma crise de cultura que se arrasta há décadas, encontramos um homem frequentemente perdido em suas escolhas existenciais, com pouca clareza quanto ao sentido de sua vida e com escolhas que fariam a vida valer a pena. Suas relações pessoais possuem intenções confusas e um propósito não manifesto de não interagir. Essa realidade social instável se manifesta, na síntese de Zygmunt Bauman, nos encontros humanos ficando (Vida em fragmentos, Rio de Janeiro: Zahar, p. 123): “a estabilidade e a confiabilidade das relações humanas não em melhores condições.” Isso significa que as forças sociais, especialmente as práticas econômicas, conspiram contra vínculos estáveis, inclusive as relações de amor, (id., p. 124): “porque elas são disfuncionais no quadro do capitalismo corporativista. (...) O jogo da vida é rápido, totalmente absorvedor e consumidor da atenção, tornando nulo o tempo para parar e traçar projetos elaborados.” Encontramos, por resultado, uma vida fragmentada, onde o tempo perde a linearidade e onde o indivíduo se desconecta de seu passado e seu futuro, resultando em relações humanas mais estéticas do que éticas, não por adesão a gostos elaborados, mas para eliminar o compromisso com o outro, como aparece no romance A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera.

Embora seja necessário examinar o sentido do amor nessa crise de cultura, vamos destacar o olhar que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset tem para o amor de homens e mulheres. Ele parte dos incômodos do amor, isto é, cada homem ou mulher que cruza conosco passa diante de nós como uma máscara debaixo da qual gesticula doendo gozoso o mistério de sua personalidade erótica. Essa partida para o tema, considerando uma força vital que alimenta o coração faz do amor não uma escolha racional, mas um entregar-se ao amado mesmo quando não se querer. Portanto, amor é emoção profunda e total. O que vem depois pode alimentá-lo ou mata-lo: cumplicidade, companheirismo, amizade, projetos comuns, afinidade, etc.

Ortega enxerga que a mulher, considerando a distinção fenomenológica, tem uma alma (psique) mais potente que o homem e esse mais força no espírito (pensamento). Por isso, o filósofo avaliou, a mulher conhece melhor sua intimidade, transita mais suavemente entre o sim e o não e esse equilíbrio ela realiza maravilhosamente e de forma delicada. A alma é o espaço entre os desejos fisiológicos e o pensamento, lugar dos sentimentos.

Como a vida tem muitos limites e dificuldades, o amor, em suas muitas formas (filial, fraternal, pela humanidade, romântico ou a caridade cristã) é lugar de descanso em nessa trajetória. E, para o pensador, geralmente a mulher conhece melhor este maravilhoso repouso que consiste em ser arrebatado, em viver, pelo amado. E o amor é uma tal forma de descanso que a distância do amado torna a vida mais pesada, e os lugares onde se viveu junto um lugar de boas e/ou tristes recordações.

Ortega observou que a beleza física torna a pessoa um objeto estético, capaz de atrair olhares, mas não paixões ou amores. Esses nascem por outras razões, ocultas ou inconscientes para nós. E assim, ainda que essa leitura esteja influenciada por nossa cultura e pela crise atual, essas são importantes sugestões do filósofo. Elas servem para nos ajudar a dialogar com nossa realidade social, o que é sempre complexo.

Apesar de nossas atuais dificuldades culturais, o amor continua sendo um dos mais importantes moventes da vida, um de seus sentidos mais maravilhosos e uma experiência riquíssima para todos os que são capazes de enxergar no outro alguém a ser amado.

 

 


sexta-feira, 26 de maio de 2023

A ética e a vida. José Mauricio de Carvalho

 




Quando o filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche mencionava a aristocracia em seus textos sobre moral, tinha em vista antigas elites que não se preocupavam em justificar sua liderança. A moralidade enquanto costume, para ele, apenas afastava os grandes homens de seu destino. Se ele obedece leis externas não estará atento a suas exigências. Sendo assim, o espírito livre não é moral, porque nunca buscará fora um limite para seus impulsos. Zygmunt Bauman disse que Nietzsche afirmara isso considerando a moral cristã um projeto dos escravos de Roma, porém a liderança que o Nietzsche mirava era a medieval que vivia em castelos. Esse grupo de nobres constituía uma minoria distante da maioria (Vida em fragmentos, Zahar, 2011, p. 59): “nem construindo e nem precisando construir pontes por sobre o abismo que os mantinha separados, sem esperar por nenhuma comunicação dos comuns e dos de baixo, nem sentir a necessidade de comunicar qualquer coisa a eles.”

Em contrapartida, quanto a elite moderna, escreveu Bauman, quando pensou seu papel entendeu que necessitava justificar sua liderança perante as massas. Elas, então, precisaram de razões para liderar o que queria dizer que (id., p 60): “precisavam de uma ética – um código de regras para todos e para todas as ocasiões da vida, regras ubíquas, atingindo cada recanto e cada fenda do espaço dominado, direcionando ou detendo, conforme o caso exigisse, cada movimento para todos que habitassem aquele espaço.” Quanto à maioria moderna, em contrapartida, não necessitava de regras éticas uma vez que estavam numa situação que os obrigava por uma força brutal, as suas necessidades materiais. Essa maioria, que Bauman acolheu com a nomenclatura marxista de dominados, não necessitava, pois, de regras éticas. A ideia de que ela possuía algum modelo ético está distante da realidade e assim, segundo Bauman, não perderam o que não tinham. Para esses grupos não houve perda de padrões éticos, pois nunca acolheram as éticas dos filósofos como nunca entenderam a noção de mercado dos economistas. Para Bauman a maioria não é tocada por esses conceitos.

A interpretação de Bauman, em que pese acolha a ideia de crise de cultura que é fecunda, leva a conclusão de que (id., p. 64): “a crise da ética não necessariamente augura uma crise de moralidade. E ainda menos obviamente o fim da era da ética proclama o fim da moralidade.” Nesse sentido, as pessoas que vivem nesse novo tempo precisarão decidir o que fazer e se depararão com dilemas morais sem ter por referência uma regra moral. E nessa situação precisam se posicionar com a autonomia moral e também com sua responsabilidade. Essa conclusão de que a massa não necessita de um modelo ético como pano de fundo de suas escolhas morais parece injustificável, ainda que ela de fato não se detenha em construir e nem em fundamentar princípios. Reduzir as escolhas da maioria a responder a necessidades materiais tem o óbvio limite de acolher a visão materialista de um homem reduzido ao econômico, que foi próprio do marxismo do século XIX, visão superada nos séculos XX e XXI como disse Ortega há quase um século. O reconhecimento de que essa maioria, mesmo sem ter o controle da vida econômica, acabou assumindo o protagonismo da vida social, como mostrou Ortega y Gasset em A rebelião das massas, está mais próximo do que vemos acontecer. E há mais, a adesão das massas a uma interpretação rasa do evangelho cristão em nossos dias mostra o quanto o homem necessita de referências transcendentes para guiar-se no dia a dia. Isso considerando que essa interpretação, que lhe é ofertada em muitas religiões, está longe de uma leitura hermenêutica dos evangelhos. De todo modo, à parte dessas diferenças, podemos destacar uma confluência entre os dois filósofos, tanto Bauman quanto Ortega entenderam que as massas que assumem o protagonismo social no mundo pós-moderno não possuem um modelo ético, nem buscam a excelência da ação em suas escolhas quotidianas.

 

sexta-feira, 19 de maio de 2023

O TOTALITARISMO WOKE - A NOVIDADE DO SÉCULO VINTE UM: Selvino Antonio Malfatti

 


Já não se pode dizer que seja um caso isolado o “woke”. Pulula em diversas culturas, em territórios não contínuos, em línguas nada afins, em lugares diversos tanto distantes como próximos. Enfim, já é um fenômeno pancultural. Ouvimo-lo: na Irlanda, no Canadá, Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, Brasil, União Europeia entre outros.

O que significa ou o que é “woke”? O verbo é o passado de “wake”, despertar. Como adjetivo significa bem informado, atualizado. Estar atento para as injustiças sociais, mormente o racismo. É um despertar para os problemas sociais, mormente o racismo e desigualdade. Além da raça (envolve também a imigração), questões trans, segurança e saúde na União Europeia. O perigo está no exclusivismo do "woke". 

No mundo político mundial, entenda-se onde há liberdade de opinião, expressas nas redes sociais, é iminente a aprovação de novas leis abrangentes que permitiriam aos governos censurar cidadãos pelas manifestações nas  plataformas de comunicação. A desculpa é prevenir “danos” e para tanto há uma onda de governos que querem colocar na mira da censura empresas de tecnologias. A tática é sempre a mesma: achar um inimigo comum na sociedade acusá-lo publicamente e culpa-lo pelos prejuízos causados à sociedade e apresentá-lo como alvo a ser atacado por todos. Nada mais semelhante que a estratégia de Hitler contra os Hebreus. Unem-se políticos, ONGs e agentes facilitadores para divulgar a necessidade e proteger o público contra as falsas informações, conhecido como “fake News”.

A Irlanda está prestes a aprovar uma lei que pode prender quem for considerado de posse de material de “discurso de ódio”. Nos Estados Unidos pela Lei Restrict o governo pode monitorar a atividade na internet se for considerado de risco à segurança. No Canadá o governo pode filtrar os conteúdos divulgados na internet. Na Austrália funcionários governamentais podem exigir remover conteúdos sociais. No Reino Unido pode haver exigências para censurar publicações. No Brasil está prestes a quererem implantar penalidades para “fake News”.

O mais ameaçador instrumento do controle das redes no Brasil é o PL 2630/2020 que, caso aprovado, “matará a internet moderna” conforme uma publicação da Telegram de 9 de maio deste. A votação na câmara dos deputados ainda não tem data desde que retirado pelo deputado comunista Orlando Silva.

Um dos alvos prediletos, pela importância das redes sociais é a União Europeia. A Lei de Serviços Digitais obriga as grandes empresas de tecnologia a compartilharem os dados com pesquisadores credenciados e a moderação ficaria a cargo de ONGs governamentais.

Concomitante ao avanço da expansão do “woke”, o Complexo Industrial da censura, cresce na mesma proporção e até mais a resistência. Citaremos algumas:

-  Está previsto um evento público em Londres, junho, e construir uma contrapartida ao Complexo Industrial, através da resistência  “o movimento global ao totalitarismo”.

- Na Irlanda em oposição à “criação de um crime de pensamento” estão sendo propostas emendas para que seja derrotado.

- No Canadá a romancista Margaret Atwood criticou a onda Woke dizendo que burocratas não tem nada a sugerir aos criadores  e um deputado criticou o “"O Projeto C-11 é perigoso por si só, mas também é um precedente para um governo que deseja estender essa forma de controle tecnocrático a outras áreas além do conteúdo online. Ele estabelece a base e o campo de testes para a inteligência artificial e algoritmos serem usados para controlar as massas."

- Na Nova Zelândia há ação direta de think tank com o “Projeto de Desinformação”. Os think tank explicitam melhor as ideias de debates sobre temas políticos, econômicos e científicos. Existem quase duas centenas deles no mundo, como Austrália, Brasil e União Europeia geral.

- Há evidentes sinais de que o mundo está se unindo contra a pressão “woke” através de censura promovida pelos “Woke” no mundo todo, objetivando um totalitarismo. A reação é a defesa de liberdade de expressão. (Michael Shellenberger, um ambientalista e Alex Gutentag, colunista na Tablet Magazine)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sexta-feira, 12 de maio de 2023

ÀS MÃES E EDUCADORAS – MARIA MONTESSORI E CECÍLIA MEIRELES. Selvino Antonio Malfatti

 






ÀS MÃES E EDUCADORAS – CECÍLIA MEIRELES E MARIA MONTESSORI.  Selvino Antonio Malfatti

    Para o Dia das Mães trago à reflexão duas mães e duas educadoras: Cecília Meireles e Maria Montessori.

    Pelos fortes traços de aproximação pode-se estabelecer um paralelo entre as duas mães e educadoras: Cecília Meireles brasileira e Maria Montessori, italiana. Ambas marcaram presença na educação na Década de Trinta, cada uma a seu modo, cada uma em seu país.

    Maria Montessori por ocasião dos setenta anos de sua morte 6 de maio, os educadores de mundo todo se voltam para o método educacional desenvolvido por ela.

    Formada em medicina pela universidade de Roma foi uma mulher pioneira como médica na Itália. Consagrou-se como pedagoga científica pelo seu método o qual consiste relacionar o desenvolvimento biológico e mental através do treinamento dos movimentos musculares que são exigidos no cumprimento das tarefas. Isto ela chamou de desenvolvimento integral da criança.

    Começou então sua projeção mundial como educadora.  Ela Ministrou cursos em diversos estados norte-americanos, Espanha, Índia, Holanda entre outros.

    Montessori, reconhecida internacionalmente faleceu na Holanda em 6 de maio de 1952.

    Cecília Meireles, por sua vez, (1901-1964) é uma educadora brasileira. Nasceu no estado do Rio de Janeiro. Em vida o torvelinho político envolveu Cecília. Em 1930, estoura a Revolução da Aliança Liberal cujo comando estava a cargo de Getúlio Vargas. Em 1932, deflagra a Revolução Paulista contra Vargas e o constitucionalismo. Nova Constituição de 1934 e o Golpe de Estado de 1937. No período ocorre o tenentismo, a intentona comunista, Ação Integralista e outros.

    Cecília, respeitada em seu país, faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de novembro de 1964.

Ambas:

1.    Viveram em regimes ditatoriais: Cecília com Getúlio e Montessori com Mussolini

2. Tiveram grande presença educativa na década de Trinta.

3. Ambas tiveram relação inicial amigável com os ditadores e depois romperam.

4. Propuseram uma nova concepção na educação. Cecília uma escola nova e leiga e Montessori uma educação livre e novo método

 5. Dedicaram-se de modo especial às crianças.

 6. Foram liberais.

CECÍLIA MEIRELES e a educação Infantil:

O que os livros de literatura infantil deveriam abrigar em seu bojo? Primeiramente deveriam ser livros agradáveis às crianças, o que elas demonstrassem prazer em ler. Por isso, não se deveria estabelecer a divisão de “literatura infantil”, para crianças, mas literatura das crianças, isto é, o que elas optaram para si. Desse modo, não seria uma literatura “a priori” feita por adultos, mas literatura infantil “a posteriori”, feita pelas crianças.

MARIA MONTESSORI a educação das crianças:

Na essência a proposta de Montessori é de Rousseau. “...o filho ensina a mãe”.  Para ela, diferente da orientação tradicional, a criança deve ter uma orientação para se tornar autônoma e não submissa. Diferente de obediência irrestrita que acata ordens, a autonomia sabe acatar as ordens, mas sabe também ser autônomo. Por isso que a autora propõe que nunca se deve impedir uma criança de fazer o que quer só por ser pequena. Por ser pequena não deve impedi-la de tentar fazer o que tem em mente. No mundo as crianças estão viajando num meio de transporte e os adultos são seus guias.


Outro aspecto para ambas a respeito do conteúdo da literatura infantil refere-se ao conteúdo espiritual dos livros. Para Cecília o ponto de partida sempre deve ser a criança para a criança e não o adulto para a criança. Os conteúdos científicos, literários e morais devem merecer o atrativo das crianças, antes dos educadores. Evidentemente o adulto colocaria ao alcance das crianças um universo de obras-primas e as crianças escolheriam o que lhes agradasse. Certamente não se deveria deixar totalmente ao critério das crianças, isto é, levá-las a uma biblioteca e escolhessem o que bem quisessem. O educador escolheria as melhores obras e destas a criança escolheria a que a agradasse.

 


sábado, 6 de maio de 2023

ORIGENS DO PENSAMENTO LIBERTÁRIO – ROUSSEAU. Selvino Antonio Malfatti

 




Não seria fácil encontrar um filósofo-pai com tantos paradoxos e contradições no decorrer da vida como Jean-Jacques Rousseau. A começar que nasceu de um parto cuja mãe morreu no seu nascimento. Foi entregue pelo pai a seu tio que por sua vez o enviou a um sacerdote para estudar. Apaixona-se por sua protetora Thérése Levasseur com a qual tem cinco filhos. Não tendo recursos para criá-los e sustentá-los os entrega a um orfanato. Esta será a saga e trajetória de vida e pensamento de Rousseau.

Comecemos com a concepção de homem individual, em Rousseau. Seus fundamentos estão principalmente no "Emílio".  Conforme ele existe uma oposição entre a educação da natureza, livre, e a educação da sociedade, deformadora. O homem e o cidadão distinguem-se. O cidadão é o homem em sociedade. O cidadão e o homem são inimigos, pois enquanto o homem é universal, a unidade numérica, absoluto, inteiro, sem relação com nada, a não ser consigo mesmo ou com seu semelhante, o cidadão é apenas uma fração com denominador e seu valor depende do social. As instituições sociais, por sua vez, quanto mais desnaturarem o homem, transformarem o "moi" em "commum", melhores o serão, pois é exatamente esta a função da vida em sociedade: liquidarem com o homem.

Ainda, conforme ele, constatamos dois tipos de educação: a pública e a doméstica. A pública é a educação do cidadão, dada pelo Estado. Educação para fazer os homens se parecerem uns com os outros.  A educação para a contradição. É a educação das instituições sociais como "Religião", "Moral", "Educação", "Casamento", praticados na educação do Emílio.

A educação doméstica é a do homem, da mãe ou da natureza. Por ela, se conseguiria formar uma sociedade constituída de tipos ideais com "Emílios", "Sofias", "Vigários", "Empregadas", e outros. Uma educação em que que o filho ensina a mãe. a natureza a cima do progresso. 

O homem individual, natural para Rousseau, seria puro, casto, bom, generoso, isto é, teria todas as qualidades que a bondade natural tem. Para ele, progresso, a ciência como, por exemplo, a Medicina, desprezados e considerados antinaturais. O homem, quando de posse da ciência e tecnologia, deturpa a natureza.

O homem da natureza, errante nas florestas, sem indústria, sem ciência nem tecnologia, sem domicílio, sem guerra e sem ligações com seus semelhantes, sem desejo de prejudicar ninguém, sem reconhecer sua própria individualidade, autossuficiente e único, não tinha passado nem continuidade. Era o homem sempre criança. Neste estado, não havia desigualdade entre os homens. Isto tudo se quebra quando o homem dá o salto para a sociedade. Como isto ocorreu? Diz Rousseau:

"O primeiro que, tendo cercado o terreno, se lembrou de dizer: “isto é meu” e encontrou pessoas bastante simples para acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil".

Os dois direitos de igualdade e de propriedade nascem de um ato antinatural, violento. E por ele, o direito de liberdade do outro, ficou limitado perante o usurpador de uma propriedade. O direito de propriedade, que para os jus-naturalistas era um direito natural, para Rousseau não passa de um roubo. Para ele, somente alguém poderia invocar este direito quando a sociedade lhe conferisse, e assim mesmo, sempre provisoriamente.

A multiplicação da espécie humana, somada às dificuldades de subsistência geraram dificuldades. Estas premiram os homens no esforço de utilizarem sua inteligência e conseguiram inventar. As invenções provocaram relações: grande e pequeno, forte e fraco, devagar, medroso, ousado. Surge, então, o interesse comum, e com ele, a concorrência. Estabelecem-se compromissos. E quanto mais o homem era estimulado, mais usava sua razão para progredir. Começou a usar instrumentos, fez habitações, e com elas, surgiu a família. Nela nasce a linguagem. Reunião de famílias dá origem às tribos. O homem começa a elaborar conceitos e com eles as desigualdades. Nascem os deveres civis, e com eles a ideia de prêmio e castigo. O passo seguinte será a moralidade. Deve ser abolida: o homem tem a natureza para guiá-lo.

Estava instituída a sociedade libertária.

O projeto agora é voltar à natureza. Renegar a civilização e entronizar o homem natural. 


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