sexta-feira, 25 de março de 2022

QUEM APOIA UCRÂNIA E QUEM APOIA RÚSSIA. Selvino Antonio Malfatti.

 




Pouco a pouco, o apoio à Ucrânia ou Rússia vai se clareando. No Brasil de um modo mais explícito, o PT e o Partido Operário, vão se posicionando, ora em favor da Rússia enquanto outros procuram manterem-se neutros ou em favor da Ucrânia. Aqueles culpam o “imperialismo yankee” pela resistência da Ucrânia liderada por Volodymyr Olexandrovytch Zelensky, um “palhaço”, conforme seus adversários. Estes almeja autonomia para a Ucrânia para poder escolher seu próprio destino. Em resumo os totalitários são pró Rússia e os partidos liberais pró Ucrânia. Da parte da Rússia é uma guerra de “purificação” e da Ucrânia uma luta para sobrevivência democracia.

Evidentemente a democracia da Ucrânia não é por ora. Vale o provérbio latino: “primum vivere post philosophare”. (primeiro viver, depois filosofar). A Ucrânia precisa primeiramente viver e depois refletir sobre regimes, ideologias, parlamento e outros.

Para vencer Putin não bastam sanções, é o que pensa a jornalista Anne Applebaum, numa entrevista ao Jornal Le Monde. Os ucranianos têm que derrotar o czar russo Putin e depois preocupar-se com a democracia. Sabem os ucranianos que o presidente russo vê nas democracias ocidentais uma ameaça ao próprio estado russo avesso às liberdades. Por isso invadiu a Ucrânia por que o modelo político de seu país - autocrático e cleptocrático- colide de frente com o modelo democrata e ético do ocidente. Putin tem tonturas só em pensar que uma ex-colônia da Rússia se torne uma democracia integrada ao modelo político do mundo ocidental.

A Rússia argumenta como justificativa para invadir a Ucrânia: 1. Que há um expansionismo exagerado da OTOAN em direção ao leste europeu. 2. Que a Ucrânia ameaça a Rússia se aderir à aliança militar da OTAN. 3. Que a soberania da Rússia fica ameaçada pela soberania da Ucrânia. Puro desvio de foco.

Primeiramente a desculpa da invasão: combater os nazistas presentes na Ucrânia. O mesmo argumento de Hitler contra os judeus: a “purificação”, palavra esta pronunciada por Putin no dia 16 de março durante uma conferência televisionada. O alvo teria sido toda população russa refratária ao regime imposto autocraticamente. Esta purificação está forçando cada vez mais a classe média e intelectuais ao exílio, como aconteceu com Alexei Navalny, condenado a nove anos adicionais de prisão, mas envenenado antes da prisão. Na escalada proibiu o grupo Memorial que lançava a público os crimes do stalinismo.

Em segundo, a necessária ação rápida e incruenta para o restante da população. Paulatinamente transforma-se numa guerra de política de terror de abrangência global sobre a população tendo como alvo indiscriminadamente militares, civis, mulheres, crianças, idosos e doentes. Daí o caos, desolação, angústia, vidas destruídas. Silenciosamente o objetivo seria aniquilar a jovem democracia emergente. Por isso o falante emudeceu de repente. Proibiu pronunciar a palavra: guerra.

Por quê? Fracasso interno e externo. Interno por que não esperava tamanha resistência da Ucrânia. O exército ucraniano frustrou as pretensões russas de esmagar rapidamente a oposição. Mostrou-se como um punhado de soldados gregos impedindo o avanço dos persas nas Termópilas e externamente a ação da OTAN entregando armas à Ucrânia e o congelamento da moeda russa. Mas o terror continua manifesto nas ações contra Mariupol.

 

 


sexta-feira, 18 de março de 2022

A PESQUISA – DE PREFERÊNCIA A PURA. Selvino Antonio Malfatti.

 



Há poucos dias foi criada na Itália a Fundação Blaumann sob a inspiração de Giovanni Franceschini. Nasceu sob os auspícios do empresariado da Bréscia. Propõe-se dar um novo enfoque à ciência. Visa apoiar a pesquisa teórica fundamental, sem pretender diretamente às aplicações, ao prosseguimento do que existe ou a novas tecnologias calcadas no que sabemos, mas tem em mente entender a realidade em profundidade. Frente ao conhecimento já possuído se perguntar: o que está por trás dele? Para tanto, esforçar-se para melhorar a estrutura conceitual para entender melhor a realidade. Disso decorre refletir para formular um juízo axiológico sobre a ciência pura e como pode ser sustentada. A constatação é que estamos nos desviando deste valor, inclusive na lógica dos investimentos.

A civilização ocidental originou-se graças à criação de um cabedal de ferramentas conceituais desenvolvidas coletivamente através da História de diversos povos, em diferentes épocas e por inúmeros atores pensantes. Este conjunto forma a cultura. A riqueza da nossa civilização não é material, mas espiritual. É saber pensar e saber fazer.

Contemple-se o cenário do final da Segunda Guerra Mundial. A Europa estava em ruínas e seus bens materiais em grande parte destruídos. Apesar disso, em algumas décadas, a Europa voltou a ocupar os lugares mais ricos do mundo. Por aconteceu isto? Simplesmente por que sua cultura subsistiu à destruição.

Sua riqueza assenta-se na capacidade de pensar, nas ferramentas conceituais. Os povos destituídos desta cultura permaneceram os mesmos. O cabedal dos conhecimentos científicos faz parte deste patrimônio comum da cultura. O pensamento científico tem seu objeto material, mas não é material, porém, imaterial ou conceitual. O corpo humano material é o mesmo para um médico e um curandeiro. O que  os difere é o cabedal conceitual de cada um. Por isso, tecnologia, medicina, plantas industriais, química, sistemas complexos, gestão de informação e outros, nada disso existiriam se não tivesse um pensamento científico básico. O que os difere é o pensamento e não a realidade material. É um patrimônio coletivo mental e não um baú. Este patrimônio tem vida, desenvolve-se  crescendo continuamente.

Sempre, desde o Liceu e Academia da Grécia, às primeiras universidades europeias do século XI, como de Bolonha e Pádua, aos maiores centros de conhecimento do mundo moderno, a cultura e mais especificamente a científica, é sempre ligada à educação. O conhecimento cresce ao ser transmitido e se transmite ao crescer.

Pode-se constatar que sempre as universidades são centros da criação e transmissão do conhecimento científico.

Diante disso conclui-se que é preciso investir em universidades. Há países que investem muito pouco como alguns europeus e América Latina. O nível de investimentos no Brasil para as universidades é muito aquém do esperado. No mínimo precisaria duplicá-los para alcançar o mínimo europeu ou norte-americano.

 

sexta-feira, 11 de março de 2022

Artur do Val na terra da cegueira. José Mauricio de Carvalho

 



As observações desumanas e maldosas do deputado Artur do Val sobre como aproveitar-se da fragilidade das mulheres ucranianas em fuga desesperada da guerra causaram indignação em alguns setores da nossa sociedade. O deputado é figura pública e conhecido da internet. Ostenta muitas fotos ao lado de Sergio Moro, candidato à Presidência por seu partido (Podemos), que agora quer se descolar dele e também com Bolsonaro. Com esse último se aproxima pela adesão a ideias que ele deixou escapar com naturalidade e que depois quis consertar. Não é possível, o que ele pensa é claro. Ou alguém considera que se pensasse o oposto, iria se pronunciar dessa forma nos vídeos que lotaram as redes sociais? Sua justificativa é que é jovem e falava para seus amigos. Em outras palavras, vocês têm um público enorme para converter em objeto sexual.

No ambiente de cegueira generalizada em que vivemos não é difícil mostrar como essa mentalidade torpe se espalhou. Ela começou desvitalizando o amor em suas formas legítimas, incluindo as manifestações de humanidade e respeito aos pobres, carentes e necessitados. Toda atenção a esses desvalidos encontra imediatamente a caracterização de comunista, ou coisa de esquerda, cuja experiência histórica como sistema político totalitário foi inaceitável. Porém humanismo não é comunismo, assim como as limitadas ideias históricas e econômicas de Marx, que apesar dos muitos erros próprios de se tempo, também não foram responsáveis pelas as atrocidades cometidas por ditadores assassinos. A brutalidade, desumanidade, violência são próprias de governos totalitários como o foi também o nazi fascismo inimigo do comunismo. Inimigos políticos, mas irmãos siameses nas práticas desumanas que utilizaram.

O humanismo é a essência da ética ocidental, é o núcleo de sustentação do cristianismo. Mas o que fez com o humanismo e o cristianismo o nazi fascismo contemporâneo? Com o primeiro baniu da cena cultural, junto com a Filosofia, a Arte e tudo aquilo que preservava o valor da pessoa humana e a colocava acima das coisas. Tudo foi reduzido a inutilidades. Deixaram ao homem a condição de coisa. O deputado Artur do Val mostrou só uma face disso. Quanto ao cristianismo foi reduzido a teses e práticas tão distantes dos ensinamentos do Mestre de Nazaré como são os pontos extremos do universo. Não há cristianismo compatível com violência, nem arminhas e muito menos com igrejas cujo propósito fundamental é o enriquecimento de seus donos. Não é que a riqueza não é um valor, apenas não é o valor principal nem o objetivo da vida cristã.

A homofobia, o machismo e outras manifestações semelhantes são difundidas livremente em nossos dias, solapando por dentro o humanismo e o respeito ao diferente. Por que a indignação contra o deputado que apenas mostrou como se torna alguém objeto na prática, reduzindo a frágil mulher refugiada de guerra em objeto de exploração sexual?

O amor à terra onde se nasceu e vive é próprio do homem, não é mal nem contrário ao humanismo. O mesmo não se pode dizer do nacionalismo cego e irracional que as versões contemporâneas das várias formas de nazi fascismo e totalitarismo que se espalharam pelo mundo. E há mais. A agressão ao regime democrático em nome de um poder absoluto e violento, o ataque à imprensa livre, o racismo, o nacionalismo cego, o desvirtuamento do cristianismo, tudo isso reapareceu em nossos dias e é parte da destruição do humanismo e seus valores. As palavras de Artur do Val são uma pequena consequência dessa mentalidade.


 

sexta-feira, 4 de março de 2022

BIDEN X BOLSONARO Selvino Antionio Malfatti.

 



 

Dois líderes políticos iniciaram praticamente juntos seus mandatos presidenciais: o norte-americano Joe Biden - LIBERAL SOCIAL e o brasileiro Jair Bolsonaro - LIBERAL CONSERVADOR. Este, do maior país da América do Sul e aquele, do maior país da América do Norte.  O primeiro iniciou seu mandato em 20 de janeiro de 2021, enquanto que o segundo em 1º de janeiro de 2019.

O primeiro alinhando-se à ideologia política Liberal social e o segundo liberal conservador. Parece proveitoso estabelecer um paralelo, pois os da esquerda do Brasil criticam ferozmente Jair Bolsonaro, mas complacente com Biden, enquanto os da esquerda americana não estão nada contentes com seu presidente, mas tecem elogios ao brasileiro. Na disputa eleitoral Biden derrotou um conservador, o republicano, Trump e Bolsonaro um socialista, o petista Haddad.

Biden conseguiu a maioria dos votos em 2021 em relação a Trump, enquanto Bolsonaro ultrapassou em votos seu rival Haddad. Temos uma vitória invertida dos candidatos: um vence um conservador e outro um socialista.

No livro “A aposta de Biden", Massimo Gabbi, constata que o Protetorado do Mundo exercido pelos Estados Unidos não existe mais. Seria aquela liderança que determinados países exerceram em determinadas épocas. Poderíamos citar: os egípcios e assírios, no período pré-helênico. Atenienses e macedônios, pré-romanos. Romanos pré-cristianismo. Império cristão e papado, na idade média. Claro que existiam lideranças políticas nacionais que não acatavam, como os cartagineses no império romano, Tebas e Corinto no período helênico.

Estes países ou sociedades políticas se destacaram como líderes globais entre seus pares. Estenderam suas influências em todas as dimensões da existência humana da época: militar, política e cultural. O declínio destas lideranças geralmente começou a ser minado de dentro para fora, ou pelas lutas internas.

Os americanos exercem esta liderança desde a II guerra mundial. Os vencedores da guerra a almejavam. Os perdedores acatavam-na tacitamente. Mas atualmente o declínio está patente. E a contestação avoluma-se sempre mais. É o que está acontecendo com o Protetorado Americano. Do oriente ao ocidente, de norte a sul do planeta, de nações de Primeiro mundo ao de Terceiro.

Atualmente os americanos de Biden enfrentam duas crises internas: o sistema ideológico bipartidário, pelo qual na prática somente dois partidos chegavam ao poder, com ampla maioria de votos (democratas e republicanos); e a crise econômico-administrativa: classe média se empobrecendo, infraestrutura anacrônica como saúde e defesa.

O presidente americano Biden ainda está convencido que pode retomar a liderança, agora sob outra orientação político-ideológica. Pensa que as políticas neoliberais conservadoras podem ser substituídas por outras de cunho mais social, liberal social, como o relançamento industrial, reabilitação ambiental, proteção social, e uma revalorização da classe média...É uma guinada ideológica, mas sem mexer com os dogmas!

Claro que não inicia na estaca zero. Já na época de Trump este volver à esquerda, para o social, teve início com o pacote de 1.900 milhões de dólares para fazer frente os efeitos da Covid na economia, além de uma política de apoio às famílias. O grande problema, porém, está no setor político interno. É o que ser costuma de denominar de “crise da democracia americana”. Todos estão recordados do impasse da última eleição. O candidato oposicionista Trump não aceitava a derrota, pediu recontagem de votos, acusou os adversários de roubo, desrespeito às regras eleitorais entre outras.

A proposta está na mesa: reformar a democracia americana sob a orientação social. Evidentemente que o diapasão seja o liberalismo, mas até então, ninguém nos Estados Unidos se atreveu: à esquerda volver.

No Brasil, Bolsonaro se apresenta como um liberal conservador, mas nem por isso deixa de enxergar o social. Perdoou a dívida dos estudantes com o Fies e as dívidas das Igrejas, implantou uma renda mínima durante o período da pandemia, substituiu Bolsa Família por Auxílio Brasil, e na esfera internacional comprometeu-se com a defesa do meio ambiente. São alguns exemplos de ingerência de um conservador no social.

Continuará esta convergência de ambos para o social? Ou assumirão suas identidades ideológicas: Biden priorizando o social e Bolsonaro o mercado?

 

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Lições de morte. José Mauricio de Carvalho

 



 

Dois acontecimentos violentos na cidade do Rio de Janeiro ocuparam os noticiários da semana. O primeiro foi a morte do congolês Moïse Kabagambe, um jovem de 24 anos, assassinado com 39 golpes com taco de golfe pelo proprietário de um quiosque na Barra da Tijuca, um policial militar. Para cometer esse ato bárbaro teve ajuda de outros funcionários do quiosque. Como explicar que se possa desferir quase quarenta golpes com um taco de golfe em alguém imobilizado. E o motivo da agressão? Pelo que foi apurado o jovem foi cobrar pagamento por serviços prestados ao quiosque e esse foi o motivo da agressão. O fato revoltante provoca naturalmente a tentativa de entender as razões do brutal espancamento e ir buscá-las num racismo estrutural, ou no passado de escravidão e exclusão dos negros em nosso país. Outros motivos também podem ser evocados para ajudar a entender os fatos e não quero contestá-los. Ficam aí para estudo de sociólogos e jornalistas que avaliam a violência urbana.

O outro fato foi a morte de outro negro, Durval Teófilo Filho em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro por Aurélio Alves Bezerra, sargento da Marinha e seu vizinho. O que levou o militar a atirar três vezes contra um homem desarmado na porta do condomínio onde moravam? Ao que foi apurado o medo do militar de estar diante de um bandido. O que leva um militar da marinha, cuja vida pessoal mostra ser um cidadão relativamente pacato a cometer um assassinato brutal como esse? Que motivos podem ser evocados para ajudar a entender os fatos, o mesmo racismo estrutural e o passado de escravidão. Não quero contestá-los, ficam para exame de sociólogos e outros profissionais que estudam a violência urbana.

Independente de outras razões que possam ser elencadas e levantadas há duas que não podem ser desconsideradas. A primeira é a incapacidade do Estado de lidar e controlar a situação social no Rio de Janeiro. Esse controle foi perdido há algumas décadas e não foi mais recuperado. Sabemos que, onde o Estado não tem o controle social, como ocorre nos grandes desastres naturais ou guerras e onde cada cidadão tenta resolver suas dificuldades ou defender-se por conta própria o resultado é catastrófico. Isso já vem acontecendo no Rio de janeiro há algum tempo, entregue a quadrilhas de traficantes de drogas e milicianos que disputam a bala o controle da cidade diante do vazio de poder.

A outra razão é mais recente. Ela se alimenta do nacionalismo antidemocrático de extrema direita que está ganhando força nos últimos anos, em alguns países, quando o fim da guerra fria acirrou os conflitos regionais e a migração em grande escala. Essa nova direita é formada por grupos violentos, inimigos da democracia, do estado de direito, da liberdade pessoal e da ordem constitucional. Onde surgiram esses grupos assumiram uma ideologia nacionalista, violenta, xenófoba, racista e radical. Quem não pensa e age como eles é vagabundo e marginal (comunista). Algumas vezes essas ideologias se misturam ao fanatismo e ignorância religiosa e, nesses casos, o resultado é ainda pior como na recente união entre a extrema direita e evangélicos nos Estados Unidos. Fascistas e nazistas reapareceram em diferentes países depois de um século quando a humanidade esqueceu os desastres que o extremismo de direita provocou há poucas décadas. E há entre eles alguns que negam o holocausto e os assassinatos brutais e atrocidades que cometeram, negando tudo que foi devidamente filmado, fotografado e documentado. Especializaram em negar obvio, o fato documento e espalhar fakes news.

As guerras e atrocidades cometidas pelo fanatismo religioso são mais antigas mas igualmente terríveis. Totalitários de esquerda não são melhores que os de direita, mas a ênfase nos nazifascistas se deve ao momento. São eles que estão em voga enxergando comunismo onde comunismo não existe porque no século passado surgiram e foram financiados pelo grande capital para combater o comunismo. Precisam, hoje, enxergar o inimigo, mesmo quando e onde ele não existe para justificar o injustificável.

São essas duas últimas razões que unem e explicam o que está se passando no país: a perda de controle do Estado e a emergência da extrema direita. Há quem se julgue no direito de resolver por conta própria os assuntos da vida social e agir de forma violenta pela ausência de forças de segurança que atuassem conforme a lei e no estrito cumprimento da ordem.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

FLORENÇA – UMA SÍNDROME DE STENDHAL. Selvino Antonio Malfatti

 



Florença, cidade toscana da Itália, mereceu um livro de Pierre Antonetti, professor de literatura de Marselha, com o título de “A vida cotidiana de Florença no Tempo de Lorenzo, o Magnífico”, da série a HISTÓRIA VISTA DE BAIXO, por Pier Luigi Vercesi. Ele descreve Florença como um território muito pequeno, que repentinamente eclodiu numa floração fantástica. A cidade era constituída por uma comunidade muito minga, 40 mil habitantes, com o agravante de no século XV recém tinha se recuperado da Peste que a assolava desde 1348, conforme o Decameron de Boccaccio.

Ainda hoje qualquer analista se surpreende e fica estupefato ao deparar repentinamente com Florença. Há arte em toda parte: nas ruas, nos prédios, nas igrejas sem falar nos museus. Não se sabe por onde começar, onde olhar primeiro, ou dar maior atenção ou deter-se. Tudo é magnífico como seu líder Lourenço de Medici. E a pergunta inevitável: mas como surgiram num só lugar e ao mesmo tempo tantos gênios artistas e pensadores? Às margens do Arno toda cidade é uma obra de arte. Só para citar alguns: Dante, Giotto, Leonardo da Vinci, Maquiavel, Michelangelo. E também devemos mencionar Masaccio, Beato Angelico, Botticelli, Ghiberti, Donatello, Verrocchio, Benvenuto Cellini, Leon Battista Alberti, Marsilio Ficino e muitos outros. Todo este ambiente cultural costuma-se denomina-lo de Renascimento italiano.

Florença, uma cidade republicana, mais precisamente um Principado, governada pela família Médici, apoiada por uma oligarquia constituída de bancos, comércio e indústria. Lourenço de Medici, o Magnífico, um homem de letras, empolgou a elite local, nacional e até internacional em torno da arte, literatura, filosofia e Política.

Incentivada por  Lourenço a cidade sofreu uma remodelação completa, as casas de madeira deram lugar as de pedra e tijolos, as moradias familiares substituíram os palácios. O exemplo dos Medici foi seguido pelas famílias Spinelli, Pitti, Strozzi, e Rucellai, entre outras.

As condições econômicas da maioria da população parecem não ter influído no projeto artístico de Florença. Este seguia inexorável seu objetivo: encantar a cidade. Havia populações de “miseráveis”, pobres e modestos. O foco de Lourenço não era solucionar a pobreza, mas ornamentar com arte a cidade. Com certeza passava ou não pela sua cabeça: “pobres sempre tereis entre vós”. Beleza não cai do céu, se não for conquistada, de per si não virá.

Se não foram as estruturas econômicas que explicam o boom artístico, certamente o ambiente cultural pode explicar. Os Mecenas, entre eles Lourenço, serviam de intermediários entre os artistas e a produção das obras.  Houve um líder que sublimou e canalizou o conteúdo que aflorava espontaneamente. Foram criadas as condições propícias para germinar o que era apenas um potencial. Miguelangelo, por exemplo, recebeu de Lourenço um atelier. O fenômeno pode ser explicado “ex a se” e não “ab alio”. Estava dentro da cidade e não fora.  

Todo este esforço e movimento cultural de Florença se denominou de Renascimento. Costuma-se dividi-lo em três fases que vai do século XIV ao séculoXVI: Trecento, Quattrocento e Cinquecento.

1.    O Renascimento do “Trecento” italiano se manifesta particularmente em Florença. Esta - tal uma Atenas - ergue-se como um centro político, cultural e econômico regional. Nesta fase despontam os gênios artísticos e intelectuais Giotto, Boccaccio e Petrarca.

2.    No segundo período, o “Quattrocento”,  o Renascimento dissemina-se por toda península. É o auge do Renascimento na Itália. Pontificam Botticell, Da Vinci, Rafael, e como coroamento, Michelangelo.

3.    No terceiro período, o “Cinquecento”, o Renascimento conquista a Europa, desdobrando-se em outras dimensões culturais como estéticas, filosóficas e políticas. Um delas é o maneirismo artístico, a Contrarreforma religiosa e o Barroco da Igreja Católica. Destacaram-se na literatura Ariosto e Torquato de Tasso. Na política culmina com Nicolau Maquiavel.

O historiador francês Yves Renouard (1908-1965)  assim se expressa:

“O gênio germinou em Florença nos séculos XIV e XV mais do que em qualquer outra cidade do mundo. Certamente Atenas no século V de Péricles e no século IV reunira um número incrível de homens de gênio. Mas nunca tantos gênios surgiram em poucas décadas como em Florença...”

Por isso, podia concluir: O Espírito respira onde quer.

 

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

O que você precisa conhecer para estar à altura do seu tempo. José Mauricio de Carvalho

 


Talvez pudéssemos escolher um título mais ao gosto de quem faz sucesso nas redes sociais. Prefiro a elegância. Além da clareza que o mestre Ortega y Gasset conclamava, creio que quem se envolve com a Filosofia deve escrever com distinção, com elegância e tratar com respeito os interlocutores.

Do que queremos tratar neste pequeno texto? De algumas coisas que uma pessoa civilizada não pode deixar de considerar para ser cidadão e viver atualmente. Houve tempos em que o homem acreditou que a terra fosse plana, que o sol fosse Deus, que a terra era fixa no céu ou que o faraó ou um imperador fosse um Deus. São coisas que ficaram para traz, fizeram sentido no passado, mas hoje não são aceitas. Foram superadas pelo desenvolvimento da cultura. Dado ao andar dos tempos fiz uma lista de como algumas questões devem ser tratadas em nossos dias.

1.Quando começou a observar a natureza mais sistematicamente, nos primórdios da civilização, o homem se encantava com tudo o que descobria no mundo e ficava maravilhado com suas descobertas. Esse maravilhamento diante do novo deu origem à Filosofia e até hoje é usado como uma das explicações de sua origem. No entanto, com o passar dos anos o encantamento passou a se referir à capacidade de não se deixar limitar pelo conhecimento fenomênico (observado no funcionamento do mundo). Aquele encantamento original foi perdendo força porque as ciências, especialmente a partir da Idade Moderna, passaram a explicar o funcionamento do mundo e esse deixou de ser um mistério. Os filósofos deixaram à ciência a tarefa de explicar o funcionamento do mundo e cuidaram de mostrar porque ela é confiável. A partir da modernidade não se faz filosofia à parte da ciência, ou contra ela.

2. A Filosofia passou, então, a se dedicar a questões sobre a finalidade do que existe examinando as condições de abertura à transcendência. Ao fundamento do conhecimento porque o mundo não se resolve a si mesmo. O homem conhece o mundo com a ciência, mas depois precisa abrir-se para outras questões mais amplas que demandam uma fundamentação racional e onde a ciência e seus métodos não alcançam.

3. A Filosofia mostra a raiz axiológica da cultura, apresenta os fundamentos da ética e vai aos limites do conhecimento. Sendo imprescindível exige de quem a prática o diálogo generoso, a abertura ao argumento alheio já que a verdade fundamental somente se mostra parcialmente. Não há justificativa para a arrogância, mas no espaço da razão permanece o que parece mais razoável àquela geração e propicia a independência íntima frente à verdade.

4. A abertura ao sagrado, observado em todas as civilizações, deu origem a várias religiões. Não se justifica a imposição de uma a outras ou a briga entre elas. Cada homem pode escolher a sua. Mas nesse caso, a experiência de Deus não justifica ações contrárias à ciência e a razão. Muitos erros terríveis foram cometidos ao longo dos tempos devido ao fanatismo religioso, pois o encontro como Deus não mostra nada antirracional e anticientífico. Porém a experiência de Deus é fugaz. As considerações sobre Ele ilustram os limites do filosofar, não há segurança além da razão, a razão confere segurança à verdade e valoriza o esforço individual.

5. A Filosofia se pratica pela apreensão da realidade, pelas discussões sobre o Ser, sobre o papel luminoso do amor, o significado e limites da razão e a procura da paz. Não se idolatra ninguém, não há mestre que exclua seus pares, mas filosofar é participar de um grande diálogo universal.

6.  A compreensão do presente somente se esclarece quando se recuperam os fatos da história. O conhecimento da história vivifica os dias que vivemos. Nenhuma informação é tão necessária para sabermos o que somos e o desenvolvimento da cultura do que o conhecimento histórico. Por isso, ele não pode ser negligenciado.

7. O homem é objeto de várias ciências, mas mantém uma dimensão a ser examinada pela Filosofia. Ele tem contradições, imperfeições, incompletude e liberdade que escapam a análise exata das ciências. A consciência se mostra na dualidade sujeito-objeto.

8. A liberal democracia no Estado de Direito é o sistema político melhor sucedido na história na condução dos Estados Nacionais modernos, não é perfeito, mas consegue corrigir seus erros. A democracia liberal resiste ao ataque de totalitários e fanáticos.  Reúne a liberdade do indivíduo e o respeito à leis nacionais e estabelece limites do convívio social.



10. A democracia é um regime político, não é para ser usado em todas as dimensões da vida porque em ciência a palavra está com cientistas, em filosofia quem consegue formular as melhores respostas aos grandes problemas existenciais, em religião às suas autoridades legitimamente constituídas pelas instituições. Sociedades doentiamente democráticas se tornam massa amorfa e empobrecida que tiram de cada homem a oportunidade de desenvolver a própria singularidade e viver um sentido próprio na vida.

 

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