sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O DELATOR DO ESCONDERIJO DE ANNE FRANK. Selvino Antonio Malfatti.

 


Após 77 anos parece que foi descoberto o delator que revelou o esconderijo de Anne Franck e família. É o que revela a pesquisa do livro de Rosemary Sullivan “Quem traiu Anne Frank” (HarperCollins). 

Na busca do informante montou-se uma equipe poderosa que foi atrás do autor da delação.

“Os líderes dessa equipe - composta por Thijs Bayens, cineasta holandês; Pieter van Twisk, historiador e jornalista; e Vince Pankoke, ex-agente do FBI - com a ajuda de dezenas de pesquisadores, arquivistas, analistas forenses, historiadores, criminologistas e técnicos”. , revela Sullivan.

Utilizaram técnicas modernas como algoritmos de computador, estabelecendo conexões entre pessoas aparentemente não relacionadas, trabalharam por seis anos para desarquivarem um “caso arquivado”. A descoberta revelou nada mais e nada menos que foi um próprio judeu que traiu os Franck.

A pista surgiu quando perceberam que os membros do Conselho Judaico de Amsterdã foram levados para os campos de concentração, menos um membro. Trata-se do judeu Van den Bergh, que morava tranquilamente em Amsterdã.

Com decretada a dissolução do Concelho Judaico, seus membros perderam todas as proteções de que gozavam. Para alguém escapar tinha que ter em seu poder algo muito valioso para barganhar e convencer os nazistas a não enviá-lo para os campos de concentração. Foi o caso de van den Bergh.  O objeto da permuta foi o esconderijo dos Franck. Um deles, Otto Franck, recebeu inclusive um bilhete anônimo revelando o delator. 

Narra Sullivan:

“Em 4 de agosto de 1944, por volta das 10h30, um carro da polícia alemã parou em Amsterdã em frente ao prédio da Prinsengracht 263, sede da empresa Opekta Pectacon. Naquela casa, em um apartamento no último andar dos fundos, oito judeus estavam escondidos há dois anos e trinta dias: a família Frank, a família Van Pels e o dentista Dr. Pfeffer. A operação foi comandada pelo sargento-mor SS Karl Josef Silberbauer, austríaco, com policiais holandeses à paisana. Diz o Sr. Victor Kugler (chamado Kraler no Diário de Anne Frank): «A polícia queria ver os armazéns à beira da estrada, e eu abri as portas. Eu pensei, se eles não querem ver mais, ainda está tudo bem. Mas depois (...) o sargento-mor saiu no corredor e mandou que eu o seguisse. De repente, ele me ordenou que afastasse a prateleira da parede e abrisse a porta de fundos."

Estava descoberto o esconderijo.

No livro da autora é revelado também o nome do delator: o tabelião judeu Arnold van den Bergh. Era casado tinha três filhas. Membro do Conselho Hebraico, tendo como uma das principais funções, apontar nomes de hebreus para deportação. Para se tornar imune a suspeitas conseguiu ser inserido na lista de Hans Georg Calmeyer declarando que não pertencia à raça hebraica. Com isso manteve o emprego de notário até 1943, até que foi denunciado ao SS por um colega ariano. Isto o levou a perder os privilégios que detinha.

Para salvar a própria pele e de sua família passa a fornecer à polícia nazista endereços de hebreus escondidos. Foi então que, sem se dar conta, apontou o número 263 de Prinsengracht, que era da família Franck.

Mas como poderia hebreus serem vendidos aos nazistas por hebreus? Um dos cronistas do Holocausto, Jacob Presser, comenta: é ingênuo, absurdo e historicamente falso pensar que um sistema demoníaco como o nacional-socialismo, iria santificar suas vítimas. Ao contrário, isto iria degradar, emporcalhar e assemelhá-los entre si, vítimas e verdugos.

Como fica a questão ética dos atos de van den Bergh? É pacífico que qualquer um tem o direito de defender sua própria vida e dos que lhe são caros. O problema surge quando se analisam os meios utilizados. Não é lícito utilizar qualquer meio para atingir o fim. Tanto os fins como os meios devem ser lícitos. Parece que novamente Hanna Arend tinha razão: agiam como burocratas, sem escrúpulos. O mal não entra na ponderação, é banal, tanto para nazistas alemães como para delatores hebreus. Foi o que aconteceu com van den Bergh? Seu objetivo salvar a si e sua família estariam em tese moralmente justificáveis. No entanto, salvar a si em troca da condenação de outros, não resiste a qualquer julgamento legal, moral e ético em que pese não haver no período um estatuto legal dos direitos humanos o qual somente foi aprovado em 1948 pelas Nações Unidas e o Tratado de Roma em 1950. No entanto, já existia no ocidente esparso em estatutos e de modo tradicional uma consciência ética sobre tais direitos. E, embora se diga que não tencionava delatar diretamente os Franck, também não justifica. A questão não é esta ou aquela família, mas o ato deletério. 

A ação do delator foi um mal em si e pronto.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

CADÁVER INSEPULTO. Selvino Antonio Malfatti.

 




Lá se vão 30 anos do fim da URSS. 

O século XX assistiu  aos funerais de três regimes totalitários: 1. Fascismo, 2. Nazismo e 3. Comunismo. Um deles continua insepulto.

O primeiro, Fascismo, surgiu na Itália como ideologia e assume o poder em 1922. As principais características são: totalitário, nacionalista e antiliberal, comandado por Benito Mussolini. Em 1945 os nazistas foram derrotados na Itália e Mussolini preso por guerrilheiros italianos. Foi julgado e fuzilado juntamente com sua amante Chiaretta, sepultando o fascismo.

O segundo, Nazismo, “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, surgido na Alemanha em 1920. A Alemanha nazista teve fim quando as forças aliadas derrotaram os alemães em 1945, pondo fim a Segunda Guerra Mundial e sepultando nazismo.

 Falta o comunismo.

Para entender os eventos que levaram ao colapso do comunismo soviético há trinta anos vale a pena dar um passo para trás, reconectando-se com as origens desse sistema.

Antonio Gramsci, ao eclodir a Revolução socialista russa, procurou uma justificativa da não previsão de Marx que falava num capitalismo avançado. Dizia que isto aconteceu porque a Primeira Guerra Mundial despertou a “vontade coletiva” do povo russo, da qual surgiu a revolução. Contrapôs o fator econômico ao fator vontade. Já não era mais um determinismo, mas uma vontade guiando os fatos.

O passo seguinte é dado por Vladimir Lenin (1917-1924) que encontrou no partido a liderança disciplinada e coesa, evidentemente por imposição da chefia, para imantar a classe trabalhadora liderar a sociedade e colimar seu objetivo.

A proposta de Gramsci de uma economia planejada e administração central - ao invés de uma economia livre e competitiva – ela resultou em fome generalizada forçando o livre comércio dos produtos agrícolas para evitar o total colapso. Isto desviou a rota prevista de Marx que previa um abraçar comum dos países europeus ao socialismo provocando um efeito contrário: os partidos únicos, alemão e italiano, assimilaram um conteúdo ideológico oposto ao russo.

 Iosif Stalin (1924-1953)

Substitui Lênin imprimindo outra orientação ao socialismo russo. Em vez de um movimento ou revolução de caráter global restringiu-se a um só país. Com isso tornou viável, por força da dominação do Partido Comunista de manter o monopólio do poder. O passo seguinte seria:

“coletivização forçada no campo; industrialização acelerada baseada na produção para fins bélicos; terror em massa e campos de concentração para eliminar qualquer resíduo do pluralismo e explorar os grandes recursos naturais localizados nas regiões inóspitas daquele imenso país.”


 Nikita Khrushchov (1953-1964)

Foi o substituto de de Stalin. Foi deposto acusado de erros políticos e incompetência na gestão econômica.

Leonid Brejnev (1964-1982)

Foi líder do governo russo por 18 anos. Aumentou os gastos devido à corrida armamentista com os USA. Destacou na repressão à Checoslováquia, em 1968 e a invasão do Afeganistão em 1979.

Yuri Andropov (1982-1984).

Destacou-se como chefe da polícia secreta da URSS, a KGB. Após um ano no poder morre por problemas renais.

Konstantin Chernenko (1984-1985)

Destacou-se na reforma educacional e uma reestruturação burocrática. Também fica apenas um ano no poder e falece por problemas de saúde.

Mikhail Gorbachev de 1985 a 1991

Gorbachev tentou oxigenar o socialismo soviético através daquilo que denominou Perestroika e Glasnost oferecendo dupla abertura: política e econômica. Em vez de reformar o socialismo, o objetivo de Gorbachev, provocou sua desintegração.

Vladimir Putin (desde 1999)

Após a renúncia de Yelsin, Putin assume interinamente a presidência da Rússia e em seguida eleito. Destacou-se na integração da Rússia à Europa. Destacou-se no controle dos meios de comunicação e atuação de ONGs. Continua o sistema de repressão e massacre às oposições. 

Antes do fim da URSS ocorreu o fenômeno do despencar do cacho de uma a uma das repúblicas socialistas na ÙRSS, anexadas Rússia pela Rússia.

O Tratado de União de 1922 previa a liberdade de escolher entre permanecer unido ou separar-se da União das repúblicas socialistas.

Coube aos lituanos a primazia da iniciativa de proclamar sua independência, 11 de março de 1990. Mas Moscou não aceitou pacificamente e muito menos democraticamente. Envia a Armada Vermelha nove meses depois. Após choques violentos e cruentos. Perante a desaprovação de opinião mundial a Armada se retira e Mikhaïl Gorbatchev apresenta as desculpas.

Mais dois países bálticas proclamam sua independência em 1990, Estônia e Lituânia, seguidas pela Geórgia em 1991.

Em seguida seguem-se uma cascata de independências. São nove repúblicas entre agosto e outubro de 1991. São elas Ucrânia e Bielorrússia. A estas alturas a antiga URSS era formada pela própria Rússia e Kazakhstan, no fim de 1990.

Quando as populações dos países da Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária, Polônia e Romênia foram às ruas para exigir mudanças e democracia, diferentemente das outras vezes que a as tropas soviéticas intervinham, desta vez ficaram nos quartéis. Com isso, as revoluções conseguiram seus objetivos e os países se desligavam do bloco da URSS.

E o atual líder Vladimir Putin forjou um modelo político autoritário aos moldes da ideologia da “Mãe Rússia”, uma personificação nacional da Rússia, um misto de liberalismo (econômico) e autoritarismo (político).  

No entanto, o comunismo continua como uma alma penada vagando pelas mentes dos que não quiseram proceder uma crítica sincera e científica sobre a experiência comunista. 

Por isso seu cadáver continua insepulto.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

SE CRISTO VOLTASSE HOJE. Selvino Antonio Malfatti.


                    


No livro  Se Jesus Voltasse Hoje? (Se Gesù tornasse oggi?) , Enzo Fortunato imagina o novo retorno de Jesus e para tanto traz à meditação alguns escritores da atualidade que se manifestaram sobre o assunto, tais como: Flaiano, Michelstaedter, Tolstoj, Dostoevskij. 

Sobre o Deus de Flaiano imagina Jesus retornando à terra, importunado por jornalistas e fotógrafos, mas Ele somente atento aos humildes e doentes. Um homem traz sua filha doente e Lhe diz: não estou pedindo para curá-la, mas que a ame. Jesus a beijou e disse: na verdade este pai pediu o que eu posso dar. Depois destas palavras desapareceu numa glória de luz.

Flaiano viu no pedido a Jesus não o prodígio, mas o altíssimo dom da partilha, da comunhão, do sofrimento. Este seria o Jesus que retornaria, cheio de amor e compartilhante do sofrimento.

Já Tolstoy imagina um Jesus recebido por uma mídia indiferente: se Cristo viesse e apresentasse o Evangelho à imprensa os repórteres lhe pediriam autógrafos e nada mais.

Outros escritores seriam Michelstaedte e Dostoevskij que narram a seu modo e como pensam a segunda vinda de Jesus.  

O tema central do livro é passagem do Apocalipse:

"Fico na porta e bato, se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entro e janto com ele e ele comigo", (Apocalipse (3 : 20).”

Fortunato se coloca a questão: Se Cristo voltasse hoje? Esta é uma pergunta que vai direto ao coração do cristianismo.. de nosso viver, de nosso amor, de nosso agir. 

O que podemos aprender da análise dos grandes autores da literatura e da filosofia sobre a vinda de Cristo?  É que na verdade a mensagem evangélica  continua atual e com toda virtualidade.

Quando Jesus bate às nossas portas, nós o convidamos a entrar, mas deixamos do lado de fora sua verdade que são a paciência, o perdão, o amor, mas o AMOR resume todas as demais.

Fortunato disse que tentou visualizar Jesus com base nas imagens iconográficas que estavam gravadas na mente. Via-O vestido de branco, com a túnica vermelha atravessada ao lado. e quando Ele bater, abro a porta e nos olhamos.  Reagindo espontaneamente  disse-lhe: “Tentei seguir-Te” , e ao mesmo tempo me escusando: “Cometi todo mal? Tentei seguir-Te”.  E comecei a chorar e me transportei ao coração do cristianismo, naquele ato de “cum prehendere” que também é um abraço. Então nos fixamos novamente e entendi que Ele não voltou para me censurar, mas apenas para me amar e permitir que eu o ame.

Imaginei também, sob outro olhar, que Ele observava minha maneira de trabalhar, de fazer as coisas e de me comunicar. Às vezes eu estava irritado e indiferente e mandava tudo a... Ou, ternamente eu chamava a pessoa e dizia: “vem cá, irmão”. Não sei se Ele estaria compartilhando o que faço, mas imaginava-O dizer:  "Aqui tenta fazer melhor, aqui vai assim, aqui você vê que  se esconde o tentador, tenta desmascará-lo!“

E sempre O via voltando à pergunta: “onde estou?” E eu começava entender que estava no cerne do cristianismo: 

- no nosso viver, no nosso amor, nas nossas ações e no nosso pensamento.

 

 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Ano Novo. José Mauricio de Carvalho - Departamento de Filosofia da UFSJ

 


A contagem do tempo em anos é a forma humana de melhor identificar o que passou e colocar os fatos na ordem em que ocorreram. É mais simples localizar e ordenar os acontecimentos dessa maneira, situando-os nos séculos e lugares do mundo. Contudo, a celebração de cada novo ano no calendário solar mostra que vivemos no tempo com os olhos e a esperança no futuro. Já houve época em que a esperança era alimentada por ilusões. Hoje estamos mais maduros, não podemos nos iludir de que esperança se separe do compromisso de fazer boas escolhas e realizar com qualidade nossos trabalhos. Quando avaliamos que a vida é produto das escolhas, temos que assumir com responsabilidade a criação do futuro. O que vem não é mera continuidade ou repetição do passado.

Se a vida um que fazer contínuo, isto é, proceder escolhas todo tempo em meio à insegurança desse processo, então viver é olhar o horizonte. Olhar o futuro a partir de qual ponto? Do presente pessoal e do da sociedade. Escolhe-se, especialmente, pelo que se projeta além desse presente, pelo que dá sentido a ele, pelo que lhe enche de esperança. Entretanto, se o futuro não é continuação do já vivido, não se pode sonhá-lo sem considerar nossa história, sem o impacto e a incorporação do passado.

O ano novo virá para nós com novas realizações, novas pessoas, novas tecnologias, novos conhecimentos, novas criações, novas crenças, enfim, muitas coisas novas. Mas esse mundo antevisto nos sonhos de esperança não é produto do acaso, ele é criação do homem iluminado por um projeto. E que mundo é esse a surgir na esperança de hoje? É um mundo capaz de vencer a violência das cidades, de assegurar dignidade a crescente número de pessoas, de superar guerras e revoluções como solução para as diferenças políticas. Violência que cresce quando queremos uma vida mais rápida do que ela pode ser experimentada, quando aspiramos mais coisas do que somos capazes de adquirir e o mundo de fornecer, quando perdemos o afeto nas relações e o sentido da dignidade no trato com as pessoas. O presente vivido na pressa, dirigida para o consumo ansioso e sem obrigação da excelência numa vida autenticamente nossa, é tempo de violência, de corrupção, de drogas, de insatisfação e de gozo irresponsável.

Não quero apenas desejar um feliz ano novo, é necessário pedir que todos o construam mais próximo de nossa esperança, realizando responsavelmente seu trabalho, vivendo relações pessoais mais iluminadas pela amizade e benevolência, descobrindo o significado particular e o sentido da própria vida.

E se reconheço que a vida que me anima é semelhante, mas não igual a dos animais que diariamente estão à minha volta, se essa diferença dos outros seres vivos nasce da fé e esperança em Deus, não importa o nome de Deus ou a forma como Ele seja cultuado, então a obrigação de renovar o mundo, aquele compromisso mencionado no parágrafo anterior, ganha uma outra justificativa. Nessa fé nasce um pacto não só com a humanidade presente em cada homem, mas com Deus que espera nossa colaboração para fazer o sol nascer, todos os dias, sobre um mundo melhor. Então toda história da humanidade, que não está além dos fenômenos experimentados, torna-se transfigurada e iluminada pela esperança capaz de vencer a insegurança, a ruína, a angústia e a morte.

Façamos um 2014 feliz, pois não se justifica a esperança que não nasce do reconhecimento da dignidade humana e da responsabilidade pessoal pela construção de um futuro melhor. Pois esperança não é otimismo ou ingenuidade, esperança é responsabilidade, é esforço consciente para mudar o futuro, dedicação ao que nos distingue dos outros entes.


sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

O aniversário de Jesus. José Mauricio de Carvalho

 



Convencionou-se considerar 25 de dezembro a data do nascimento de Jesus. Pela descrição bíblica do fato, encontrada no evangelho de Lucas : (2,1-14), provavelmente o nascimento de Jesus deu-se em março. Em dezembro não haveria pastores no campo, devido à temperatura estar muito baixa para permanecer no campo. O que importa não é, nesse caso, a exatidão histórica do fato, mas que 25 de dezembro foi escolhido para comemorar o fato de que Deus enviou ao mundo seu Filho.

Nele se cumpriram as promessas e profecias do Primeiro Testamento e pela fé Nele a civilização ocidental cristã se consolidou assumindo os valores que ele deixou, em especial o pano de fundo do amor aos outros homens que que é a dignidade de cada um. O reconhecimento dos valores cristãos não significa, contudo, que eles sejam sempre cumpridos, ao contrário, vivê-los não é fácil. Difícil também são as obrigações com o próprio Deus, porquanto amá-lo sobre tudo o mais também exige esforço.

O cristianismo emergiu do povo judeu e introduziu na cultura ocidental um extraordinário mistério, um Deus em três pessoas. Esse povo desde sua origem acreditava num Deus pessoal e único, razão da sua vida. Aquele que tirou o povo do Egito, deu-lhe terra, leis e, finalmente, a promessa de um Enviado. Esse povo era o menos propenso a propor uma divindade com mais de uma pessoa ou de um Deus que, altíssimo em sua dignidade, pudesse se apresentar como homem. Não parecia razoável nascer como homem, sofrer como homem e, finalmente, morrer como um. No entanto, entre pessoas de extrema fé judaica é que surge essa boa e surpreendente notícia, uma proposta de vida, o anúncio de um Reino no qual as contradições humanas encontram resposta na transcendência e imanência do Deus Altíssimo, que se fez homem e veio morar conosco.

Maravilha de simplicidade e mistério profundo esse Deus. O menino cujo nascimento se comemora agora traduziu todo o programa de fé do primeiro testamento (não terás outro Deus, não tomarás seu nome em vão, honrarás teu pai e tua mãe, não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não darás falso testemunho, não desejarás as coisas do próximo) em dois princípios singelos e radicais: ame a Deus e ao próximo. Ame não apenas como no livro do Levítico

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo,” (Levítico 19,18) mas com maior exigência: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei!” (João 13,34) e naturalmente aquele outro e o primeiro mandamento que se resume em não ter outro Deus diante de ti a quem sirvas. Deus pede o melhor de nós.

 

O resumo de Jesus da mensagem do Primeiro Testamento é claro, como firme são suas orientações. Ao assumir a mensagem cristã não se pode invocar Deus contra os irmãos, não se pode invocar Deus contra seu próprio caráter, não se pode usar o nome de Deus para dividir, mentir ou discriminar. Deus está acima da razão, mas não age de forma irracional, brutal, violenta ou mercenária. O Reino de Deus cresce na paz e não na guerra, nem no conflito, terrorismo, radicalismo ou ignorância, que é pior quando vem dos próprios religiosos.

 

Num século em que vemos os dias repetirem o pior do passado recente, quando as teses nazistas se espalham no ar, será preciso cuidado para que o futuro não repita o passado, mas aprenda a evitar o que ele teve de ruim. Para que nosso futuro não tenha novos Auschwitz, que não foi simplesmente o genocídio de milhões de pessoas, mas uma proposta violenta de tratar homens como coisas. O nazismo fez isso retirando de cada homem a dignidade e o valor que o Filho de Deus veio anunciar. Nenhum homem é uma vida indigna. Que este seja um natal de paz e alegria aos homens justos e de boa vontade.

 

 

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

AS COTAS QUE IMPEDEM A JUSTIÇA E A IGUALDADE. Selvino Antonio Malfatti

 



 

Cada país tem seu problema peculiar para justificar as quotas e com isso cria argumentos próprios. Na França, por exemplo, é a super-representação nas escolas públicas dos filhos de executivos e para tanto se deve aumentar a proporção de alunos de origens menos privilegiadas. Não são propriamente quotas, mas proporções de porcentagens de participação. Na Itália, o receio da prevalência de estrangeiros sobre nativos em escolas públicas limita a matrícula daqueles, neste caso também não quotas mas proproções.

No Brasil argumenta-se que a desigualdade entre negros e brancos cria uma desproporção de matrículas em universidades,  embora a população de ambos se iguale.  As cotas corrigiriam a “injustiça”, igualando-os numericamente. Aqui teríamos caracterizadas as quotas.

Qualquer sistema avaliativo deve se alicerçar sobre a igualdade de condições na busca do bem. Além disso, numa divisão de bens o favorecimento de alguém não deve prejudicar outro. Numa divisão de vagas, por exemplo, reservar vagas para grupos não pode prejudicar outros. Se alguém for favorecido não pode implicar no prejuízo de outros. Ao atribuir uma vaga a alguém considerado minoria, não pode prejudicar outros que não pertencem a esta minoria.

Poder-se-ia partir de um exemplo. Em uma universidade há X vagas, isto é, X bens pretendidos. Suponhamos 100 (cem). A ela concorrem 200 pretendentes. A relação entre vaga e concorrente é de 2 candidatos para uma vaga, ou 2 por um.  Cada vez que uma vaga é preenchida por alguém diminui geometricamente a quantidade de vaga. As vagas estão na ordem aritmética e os pretendentes na ordem geométrica. Diminuindo uma vaga a porcentagem em relação aos candidatos diminui geometricamente. Ex. 100 vagas e 200 candidatos, a relação é 0,5 por vaga. Mas se diminui uma vaga e um candidato a relação será menor, isto é, 0,4974, se diminuir novamente um de cada, a relação será 0,4949...Bastaria inverter a relação que ficaria mais claro. Se houvesse mais vagas que pretendentes inicialmente, embora se diminuíssem as vagas, ainda sobrariam para todos os pretendentes.

Nas cotas ninguém é contra a intervenção para subsidiariedade. O que não pode acontecer é que, ao favorecer alguém, se prejudique outro. Impedir a outro de ter acesso ao bem, no caso a vaga. Então, qual seria a solução? 

Criar NOVAS VAGAS para subsidiar quem mais precisa e não consegue competir em igualdade de condições. Seria introduzir mais vagas destinadas a estes. Com isso se atenderia à necessidade sem prejudicar ninguém.

- Quem são os cotistas:

1. São considerados cotistas todos os candidatos que cursaram, com aprovação, as três séries do ensino médio em escolas públicas. ...

2. Outros exemplos: matrícula no SISU/UFSM

. Estudou os três anos em escola pública

- Renda per capita de um salário mínimo

- Declara-se preto, pardo ou indígena?

- Tem deficiência?

Percebe-se que o critério para ser cotista é subjetivo. 1. Estudar em escola pública – Pode alguém estudar em escola privada e pública ao mesmo tempo. E mais: qual a razão para discriminar o ensino privado em relação ao público?  2. Renda de um salário mínimo. Alguém pode ter um contrato de salário mínimo e ao mesmo tempo ser grande executivo. 3. Negro, pardo indígena. Dispensa comentários, pois não resiste à mínima crítica. Por que discriminá-los? 4. Deficiência? Somente seria justa quando a deficiência física impede o desenvolvimento intelectual. Bastaria citar Stephen William Hawking: deficiente fisicamente, mas gênio intelectual.

Em última analise enxerta-se o preconceito: branco tem posses ganhas ilegitimamente e não branco é pobre por exploração do branco. Não pode acontecer que um não-cotista branco, pobre perca a vaga por um cotista pardo, mas de posses??

Para se atingir a justiça é necessário garantir a igualdade de acesso. Com este objetivo estabelecem-se critérios para preencher as vagas. São os critérios da competição. Para o mesmo objetivo não pode haver dois critérios. Se para alguns é a competição e para outros a cor fere-se a igualdade e consequentemente a justiça. Estes critérios devem resguardar a igualdade à medida que todos igualmente podem chegar à vaga para evitar a injustiça. Digamos que o critério da competição seja o científico, isto é, uma classificação pelo desempenho do mérito. Estabelecido este critério, ele deve valer igualmente para todos. Qualquer privilégio cerceará a liberdade individual e provocará uma injustiça, isto é, não se atende à igualdade.

Se ao processo se estabelecerem critérios privilegiados que excluam alguns, infringe-se a igualdade por que já não permite a igualdade de condições da competição perante o bem, a vaga. Se nos apossarmos de algumas vagas para atribuí-las a candidatos fora do critério estabelecido, estamos claramente infringindo o princípio da igualdade, pois só alguns e não todos podem ter acesso a tais vagas separadas do global e destinadas a alguns. Por isso, devem ser criadas vagas fora da competição. 

Não estamos defendendo a condenação da subsidiariedade. Esta é válida. O que não é válido é misturar os critérios de acesso para iguais e desiguais, se isto acontecer. Pode-se comparar às competições olímpicas. Existem critérios para as olimpíadas e às paraolimpíadas, cada categoria abrigando suas peculiaridades.  Ambas são iguais cada um na sua especificidade.

O que se pretende é que se faça justiça respeitando as diferenças. Não seria distinção de raça, crença, status socioeconômico como se pretende atualmente no sistema de cotas. Isto leva à discriminação e com ela o desrespeito à igualdade ou democracia. Se se quisesse instituir critérios diferentes de acesso a vagas dever-se-ia instituir diferenças específicas, cada uma com seus critérios de seleção. O próprio candidato escolheria a que modalidade específica gostaria de competir e nela concorreria nas suas categorias: vagas para cotistas e não cotistas, independentes umas das outras e com critérios seletivos também diversos.

O que não se deve é introduzir critérios diferentes dentro da mesma especificidade criando privilégios para categorias como está sendo feito atualmente, instituindo distinção de cor, status socioeconômico, etnia e gênero, discriminação condenada pela justiça e pelo direito.

COTAS SEM JUSTIÇA É O MESMO QUE DESPIR UM SANTO PARA VESTIR OUTRO.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

POR QUE O CRISTIANISMO NÃO ATRAI MAIS OS JOVENS. Selvino Antonio Malfatti.

 


                 Papa João Paulo II e o cardeal Martini em1988 
                     https://www.corriere.it/cultura/

Aproxima-se a Festa de Natal, o advento do Cristianismo. Há uma ideia generalizada de que o Cristianismo não é mais aquele do tempo de seu fundador. Por motu proprio a Igreja católica promove uma crítica sobre si mesma através de dois grandes líderes, ambos cardeais: Cardeal Carlo M. Martini e o jesuita austríaco George Sporschill

A obra "Diálogos Noturnos em Jerusalém", (Cardeal Carlo M. Martini e o jesuita austríaco George Sporschill), discutem a questão conversando entre si em Jerusalém. A constatação é que a Igreja perdeu muitos jovens atualmente e a proposta é como reconquistá-los novamente.

Os autores tomam consciência do problema e fazem uma ilação hipotética perguntando: não seria uma tendência da fé e da Igreja no ocidente a caminho do desaparecimento? Quais as razões para tal estado?

1.         Indiferença. Esta surge por que a fé e com ela a Igreja, não influem mais em nada. Não curam doenças, não proporcionam ascensão econômica, não realizam bem estar socioeconômico. E não livram da morte. Se a Fé e Igreja desaparecessem nem seriam notadas. O que um jovem escolheria: um sacerdote, músico ou jogador.

2.         Aparato externo. A Igreja está se dando maior importância do que realmente tem.  Um professor colega de universidade, cônego da Igreja Anglicana, costumava dizer: a Igreja é como uma velha senhora que mora num castelo fora da cidade e pensa que ainda manda em todo mundo. Os jovens até mesmo ignoram esta senhora.

3.         “Sonhei com a Igreja...” diz Martini. Desilusão diante do que esperava e do que recebia. Queria autenticidade, humildade, fé e em vez, dissimulação, arrogância e ceticismo. Nada mais afasta os jovens que esta realidade anacrônica. Além disso, os jovens querem espaço para se manifestarem e não ouvirem como é atualmente.

4.         Clero. Primeiramente seu número diminui dia a dia. Boa parte, no seu agir, está mais à procura de bem estar material do que a vivência da fé.

5.         Pedofilia e sexo. Os jovens, sempre prontos para criticarem,  aceitam com tolerância seus próprios comportamentos relativos a sexo, mas não toleram desvios da Igreja. Este é um dos grandes problemas: "a Cruz da Igreja é o sexo". Não é de hoje, mas parece que nunca foi tão explícito.

6.         Imediatismo. Tanto a Igreja como os jovens já não suportam mais as contradições. Querem de imediato a verdade, enquanto a verdade está precisamente na contradição.

7.         Desatualização. A Igreja está atrasada em duzentos anos. Quem quer pertencer à alguma  sociedade retrógrada? Espanta a todos, principalmente os jovens que preferem o amanhã e vez do hoje e nunca o ontem.

8.         Família. Na atualidade o sentido de família não se parece nem um pouco do que era no passado.

a)        A característica principal era a unidade física que se estendia a outras dimensões. O compartilhamento do mesmo teto correspondia aos mesmos sentimentos, cultura, religião, economia. Havia divergências, mas eram exceções. A unidade física se estendia sobre os demais aspectos. A fé na maioria das vezes era o cimento da união.

b)        Dispersividade. Atualmente a família não passa de um condomínio de pessoas que diferem radicalmente umas das outras. O casal entre si, filhos entre si, casal entre filhos. Não é mais fé. Com poucas exceções, para os jovens a fé é a última na escala de valores

9.         Política. Há um tendência sempre mais crescente de a Igreja ter opções ideológicas, principamente fora do Primeiro Mundo. Nada mais contraproducente para a fé dos jovens. 

10.       Fé e preferâncias. Atualmente os jovens se servem do que lhes agrada na Igreja. Um verdadeiro self-service ou buffet. 

11.         Liberdade. A ideia de liberdade entre os jovens é entendida como ausência de limites religiosos, morais e legais, Seria o sentido etimológico de anarquia.

Estas seriam as causas do abandono da Fé e da Igreja por parte dos jovens. Como reverter este quadro? Os autores teriam uma resposta?

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