terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
Martin Buber por José Maurício de Carvalho.
O filósofo Martim Buber (1878-1965) viveu a maior parte da vida no século XX. Embora tenha o olhar do filósofo e formação intelectual vasta, viveu no espírito da fé judaica na qual foi criado. A formação filosófica e essa crença religiosa são o pano de fundo de seu pensamento, mas Buber deixa ver, em seus escritos, os problemas que marcam o século passado e a sensibilidade própria daqueles dias.
Logo ele procurou dar resposta aos problemas de seu tempo: Buber viveu os dias difíceis das Grandes Guerras, da perseguição nazista, dos campos de concentração, da criação da terra de Israel, da crise da ciência e da cultura. Martim Buber era austríaco de nascimento, nasceu em Viena, e experimentou a crise daqueles dias partilhando os dramas e dúvidas do mundo germânico. Os alemães perceberam singularmente a crise de civilização que atingiu o ocidente e que consolidou uma sociedade de massa, padronizada e superficial. Eles tinham um olhar e uma preocupação com a questão. Disso é exemplo o filósofo espanhol Ortega y Gasset que fez boa parte de sua formação filosófica na Alemanha e ali se envolveu com esses assuntos.
Ortega y Gasset dedicou, alguns anos depois, um cuidadoso estudo sobre a crise da cultura: A rebelião das massas. Em 1896, Martim Buber matriculou-se na Universidade de Viena para cursar Filosofia e História da Arte. Entre 1901-1904 cursou o doutorado em Filosofia na Universidade de Berlim. Em 1930 tornou-se professor honorário na Universidade de Frankfurt, cargo que abandonou com a subida de Adolf Hitler ao poder em 1933. Em 1938 transferiu-se para Jerusalém onde se tornou professor de Antropologia e Sociologia na Universidade Hebraica.
Como resumir as preocupações de Martim Buber? Elas parecem se desenhar em quatro eixos temáticos que se retroalimentam 1) um estudo fenomenológico do diálogo e do encontro tomados como legítimos problemas filosóficos; 2) um método hermenêutico que reconhece a relevância das lendas hassídicas para a compreensão do judaísmo; 3) uma metodologia histórica construída com o legado de Dilthey e Gadamer usado no estudo da bíblia (hebraica) e da história antiga; 4) uma abordagem filosófica dos problemas sociais (Sociologia, Antropologia, Linguística), que sem deixar de ser filosófica, isto é, sem renunciar à inspiração teórica e primitiva da filosofia ocidental serviu de base para pensar a missão dos povos e a vida em sociedade.
Esses quatro eixos trabalham juntos e se influenciam mutuamente. Para entender Buber é necessário articular os eixos como no livro recentemente publicado Martin Buber, a filosofia e outros escritos sobre o diálogo e a intersubjetividade.
https://www.youtube.com/watch?v=1zpNzR8oka0&fbclid=IwAR1DemQkXgfZPvyM2zhA6I3C6yt1OKQgNVFWf6LB8YKMUJe6gq0bnvjPHuc
https://www.youtube.com/watch?v=1zpNzR8oka0
sábado, 16 de fevereiro de 2019
O tempo das fake news, o avanço da antifilosofia. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei
Desde
o século passado, autores como o espanhol José Ortega y Gasset comentam a crise
da cultura ocidental, associando-a à emergência de uma sociedade de massas.
Trata-se de uma sociedade baseada na superficialidade das análises vindas da petulância
do especialista, que se comporta como sábio em assuntos que ignora; na
infantilidade desse homem-massa comparado à criança mimada, pois quer o que
sabe que não pode e da preguiça desse mesmo homem, que julga que o mundo está
aí pronto para ele gozar sem esforço.
No
livro Ética (São João del-Rei, UFSJ,
2010) pude comentar que as coisas pioraram recentemente, pois o homem-massa de
hoje, sem perder as características descritas por Ortega, também se tornou um
hedonista compulsivo, desejoso de gozar a qualquer preço e descomprometido com
a liberdade responsável. Ele não se preocupa em descobrir o sentido de sua vida,
mergulhando na frustração existencial de uma vida sem sentido, que o psiquiatra
Viktor Frankl associou à violência, drogadicção e depressão.
Creio
que há ainda um outro aspecto desse personagem que é o de haver se tornado um
grande mentiroso. Mentiroso é o homem-massa que incorporou o que Karl Jaspers
denominou de espírito antifilosófico, isto é, aquele que vive pela mentira e a
proclama. Porque justamente a Filosofia se desenvolveu conclamando as pessoas a
amarem a verdade, pois era a principal condição para filosofar. Jaspers
considerou que o mentiroso vive no espírito da antifilosofia. Esse inimigo da
filosofia, ele diz em Razão e Contrarrazão
no nosso tempo (JASPERS, s.d., p. 87/8)): “está decidido a nada saber da
verdade, é o espírito antifilosófico, sob o rótulo do verdadeiro, exalta tudo
quanto contradiz, menospreza e desnatura a verdade.” Nesses tempos de redes
sociais e fake news as palavras de Jaspers soam com uma atualidade e veracidade
assustadoras (id., p. 88): “a sua violência impede qualquer exame refletido.
Abre a porta ao arbitrário, interdiz o domínio do indivíduo sobre si próprio. O
seu capricho prefere à seriedade uma afetividade apaixonada e movediça. Faz do
incrédulo um fanático imbuído de convicções enganadoras, para depois o deixar
novamente cair no niilismo.” Esse homem não preza a procura da verdade, faz
vistas grossas a suas limitações, age de modo dogmático e interesseiro. Jaspers
lembrou que (id., p. 90): “a corrida para o abismo começa a partir do momento
em que é traída a simples verdade.”
A vida na mentira encontra-se em O homem e a filosofia (CARVALHO, 2018,
p. 115) “não tem como ser saboreada, (...), nem parece boa quando se abdica de
pensá-la. Quando pensa sistematicamente na verdade, modifica seu entorno e a si
mesmo. O pensamento torna as realidades experimentadas mais evidentes,
filosofar faz a vida mais séria, embora não mais pesada.”
Pelos
males que o espírito antifilosófico promove para a sociedade humana creio que é
preciso recuperar o compromisso com a filosofia e a verdade (ibidem): “O
renovado chamado a pensar filosoficamente renasce hoje em dia do desamparo
pessoal e da crise de civilização, que surge quando tudo perde a evidência e é
preciso reatar o compromisso com a verdade. Não podemos viver na ignorância e
na falta de significado para a vida.”
E a procura
pela verdade filosófica provoca a renovação, ela reaparece na fidelidade com
que se procura respostas para os novos problemas. Essa é uma procura permanente
pois não pode ser alcançada completamente, a história da filosofia é a história
da continua pergunta pela verdade. E a abertura à verdade parece ser um dos
maiores desafios nesses dias de fake news.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019
SHOAH, O MAL. Selvino Antonio Malfatti.
Esperando para embarcar...
Fim da primeira Guerra Mundial. A Alemanha, derrotada,
humilhada e espoliada. Quem são os culpados? Era preciso encontrar os
responsáveis. Um bode expiatório. Dinheiro não existia mais. Estava com os
hebreus. Crédito estava zero. Os hebreus o controlavam. O povo estava
desesperado, sem comida, sem habitação e sem vestuário. Tudo era controlado
pelos hebreus, os únicos que não se ressentiam da depressão. Era um nicho de
bem estar no meio da penúria. E o pior: a Alemanha estava nesta situação por
que os hebreus lhe tomara tudo. Solução? Retomar o que pertencia à Alemanha, eliminando os hebreus.
Após uma reunião do Alto Comando de Hitler, em 1942,
próximo a Berlim, discute-se qual a estratégia a ser adotada, como Solução
Final. Fuzilar os hebreus? Não, seria muito estressante para os soldados.
Então, foram aprovadas três ações simultâneas: morte, eliminação e extermínio.
Quem visitou os campos de morte e extermínio de hebreus
como eu, e anda de cabeça baixa pela câmara de gás, refeitório, dormitório,sanitárias, começa sair da realidade e transpor-se aos relatos deixados e
imaginar os que vivenciaram os locais. O que faziam? O que sentiam? O que
pensavam? A adolescente Anne Frank que, depois de anos encerrada numa peça,
emparedada, acaba naquele inferno, estuprada e morta? Ou Viktor Frank junto aos
infelizes, consolando e animando os colegas de infortúnio pela logoterapia? Ou Hannah Arend
meditando sobre o mal.
O objeto não poderia deixar de ser o Mal, por que nos campos de extermínio, aí só existia o mal. Qualquer hora do dia, qualquer atividade, qualquer momento sempre o mal sobressaía. O mal estava presente em tudo, desde o ar, a comida, o trabalho, o descanso, as pessoas, os soldados. O mal impregnava tudo. Pois todos estavam diante do espectro da aniquilação comandado por algum sonderkommamndo com conduzia os prisioneiros para.
- descida ao vestiário
- quartos com "chuveiros"
- fornalha de incineração
O objeto não poderia deixar de ser o Mal, por que nos campos de extermínio, aí só existia o mal. Qualquer hora do dia, qualquer atividade, qualquer momento sempre o mal sobressaía. O mal estava presente em tudo, desde o ar, a comida, o trabalho, o descanso, as pessoas, os soldados. O mal impregnava tudo. Pois todos estavam diante do espectro da aniquilação comandado por algum sonderkommamndo com conduzia os prisioneiros para.
- descida ao vestiário
- quartos com "chuveiros"
- fornalha de incineração
Era o extermínio sem testemunho. Ou ao menos se pensava. Atualmente já se conhecem alguns sonderkommando, como Shlomo Venezia, cuja tarefa era levar os corpos das câmaras de gaz para a incineração. Após algum tempo eram também incinerados. Ele conseguiu escapar e escreveu Sonderkommando auschwitz.
Cabia a ele a tarefa descrita acima, qual seja, eliminar a prova testemunhal.
É possível encarar friamente o mal? Olhá-lo de frente e defini-lo? Visto assim, nu e cru, se percebe que o mal não é radical, mas, sim, extremo. Não tem profundidade, nem dimensão demoníaca. Como um fungo que se alastra em todas as direções vai devastando tudo. No entanto, o mal não tem raízes, é superficial. Só o bem tem profundidade e é integral diz Hannah Arend.
Cabia a ele a tarefa descrita acima, qual seja, eliminar a prova testemunhal.
É possível encarar friamente o mal? Olhá-lo de frente e defini-lo? Visto assim, nu e cru, se percebe que o mal não é radical, mas, sim, extremo. Não tem profundidade, nem dimensão demoníaca. Como um fungo que se alastra em todas as direções vai devastando tudo. No entanto, o mal não tem raízes, é superficial. Só o bem tem profundidade e é integral diz Hannah Arend.
O mal atribuído aos seres não é apenas a ausência de bem,
uma falta dele, mas a existência real, moral ou física, sempre exista em
outro, tal como o bem. Dizemos a bondade de Deus ou a maldade de satanás. Se
fosse personificada a bondade ou maldade poder-se-ia inverter os termos e seu
significado continuaria idêntico. Se fosse possível dizer “Deus é o bem” também
se poderia dizer que o Bem é Deus. Da mesma forma se fosse possível dizer que o
mal é satanás, então se teria de admitir a existência substancial da maldade. Se fosse dito que aquele homem é mau não quer dizer que
ele personifica a maldade, mas que a qualidade “má” está nele. Ele não tem
apenas ausência de bem, mas presença de maldade. Da mesma forma quando se diz que aquela maçã
é ruim, quer significar que nela há a ruindade.
Em meio da desolação podia-se, aqui ou acolá, vislumbrar algum broto que
nascia. Era a esperança de Victor que sentia dentro de si o dia que poderia
bater à porta de sua casa e dizer sou eu, de Anne comemorando a Páscoa, protegendo a esperança como uma vela acesa ao vento, de Hannah insistindo para si mesma que o bem haveria de sobressair.
Aqui e acolá, a esperança estava viva. Em Budapeste, Perlasca e Wallenberg. Em Istambul, Angelo Rocalli. Na Tessalôncia, Guelfo Zamboni e sabe-se quantas pessoas com suas instituições que se tornaram diques contra o mal do Reich.
E o dia chegou para Victor bater a porta de sua casa, Hannah assistir o julgamento de Adolf Eichmann e Anne comemorar a Pácoa....
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
FASCISTA!!!!!!. Selvino Antonio Malfatti
Chamam-se de fascistas mutuamente, os de direita e de esquerda - liberais e socialistas. No Brasil, os
defensores das Reformas trabalhistas chamam seus opositores de fascistas e
vice-versa. A impressão que se tem é que nem um nem outro ou não sabe o que
significa ou já perdeu o sentido do significado. A mesma coisa que alguém chama
o outro de FDP, ou, como os antigos colonos descendentes de italianos, blasfemando, ofendiam a Deus, Maria e santos sem o menor remorso. Mas, o que significa fascista?
A origem remonta ao termo romano, os “fasces”, um feixe
de varas apontando para a UNIDADE e AUTORIDADE.
Benito Mussolini, pai do fascismo italiano, adoto-o como símbolo. O mesmo fez Francisco Franco da Espanha. Isto
se pode dizer de governos de direita.
No entanto, os de esquerda também o adotaram, como Hitler,
através de National Socialist German Workers Parry (Partido do Nacional
Socialismo dos Trabalhadores Germanos). O “parentesco “ ideológico de Hitler
com a esquerda radical se pode ver pelo desfecho na eleição de Hitler.
Mais
uma vez os comunistas tiveram candidato próprio, obtendo em torno de 10% da
votação. Segundo estudos e análises divulgados naquela época, desesperançados
de eleger seu candidato no segundo turno, setecentos mil eleitores comunistas
votaram diretamente em Hitler, a tal ponto se tornara evidente o parentesco
totalitário de comunistas e nazistas. (A querela do Estatismo, Antonio Paim).
Outros governos da Europa Central abrigaram o fascismo entre as
duas grandes guerras. Na Inglaterra, Oswald Moosley, foi o criador da União
Britância dos Fascistas. Inclusive foi ministro por este partido.
Portanto, o fascismo historicamente esteve presente tanto
na direita como na esquerda.
No fascismo como ideologia, de um modo geral, há um apelo
à classe trabalhadora, de natureza populista. No entanto não há uma doutrina
política coerente que se possa atribuir ao fascismo. O aparecimento dos
fascistas ocorria nos movimentos de oportunistas que exploravam demagogicamente
o medo e os ódios para alcançar apoios políticos.
Os conteúdos mais comuns é o nacionalismo, com o fim de
conseguir a unidade nacional apelando para a culpa de raças ou divisões de
classes, Comunismo, ódio e desprezo pela democracia são outros ingredientes.
As instituições democráticas eram usadas para conseguir ou aumentar o poder. No passado, apregoavam, que era preciso um Homem Forte (o Duce, italiano ou Fúhrer,
alemão ou o Caudi, espanhol) o qual resolveria os problemas de seu país.
Atualmente a palavra fascista é usada por extremistas,
como uma arma política verbal, ofensa para desmoralizar o adversário. Com ou sem
fundamento, é usada no sentido ofensivo, sem conhecimento do conteúdo
ideológico. É mais comum ser usado pela esquerda contra adversários de direita.
Com menos frequência, porém, os de direita também usam contra a esquerda.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
Escravidão em Minas, detalhando a história. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei
O
livro Quilombo do Campo Grande
apresenta fatos e documentos interessantes sobre a escravidão na região das
Minas Gerais. O autor, Tarcísio
Martins, esclarece que é preciso distinguir os negros que vieram para Minas
Gerais, fundamentalmente bantos, dos grupos sudaneses que foram para o
nordeste. Essa seria realidade irrelevante não fosse o papel singular que a
instituição teve em Minas.
O
escravo nas Minas, observou Martins, não vivia como nos engenhos cortando cana,
plantando roça, acendendo as fornalhas e limpando objetos. O trabalho nas Minas
era muito insalubre e pouco produtivo, nada rendia ao dono, a não ser que o
negro encontrasse um rico filão de ouro ou preciosos diamantes. Ou então se ele
não garimpasse certa quantidade de ouro. Assim, era essencial motivar os negros
a encontrar e retirar quantidades consideráveis de metais preciosos que
tornariam rico o dono ou explorador do local. Essa circunstância tornou a
libertação de escravos um fato mais comum em Minas do que nos outros estados
brasileiros. Explica o autor: “a possibilidade do negro se tornar livre nas
Minas Gerais era infinitamente maior do que no engenho. O hábito de libertar o
negro que achasse um grande veio de ouro ou um grande diamante foi costume que
se consagrou de fato e direito”. (MARTINS, 2008, p. 266) Dessa forma, o
preceito de servir toda a vida foi quebrado na prática.
Outra
diferença marcante da escravidão em Minas era que, enquanto no nordeste o
Senhor de engenho, vinha para o Brasil com toda a família o deslocamento para
as Minas era feito só. Então, logo que se estabeleciam, esses aventureiros portugueses
compravam negras jovens com quem coabitavam. Eles “ligavam-se a negras
africanas ou mulatas, que por sua procura, atingiam altíssimos preços e dada a
sua fecundidade, a população aumentava rapidamente de pardos”. (Id., p. 267)
Essa
realidade singular colocava o negro escravo numa condição diferente de outras
praças, quer porque muitos realmente compravam a liberdade e não eram raros os
que enriqueciam depois de libertos, como porque muitas negras assumiam a
condição de esposas de fato, ainda que não de direito, e seus filhos eram inseridos
na sociedade. O filho do contratador João Fernandes de Oliveira com a mestiça
Chica da Silva, por exemplo, foi “ungido cavaleiro da Ordem de Cristo,
recebendo o hábito de Cristo só reservado aos brancos nobres, preparando-o, na
verdade, para ser o herdeiro do Morgado de Grijó, a maior fortuna privada de
Portugal na época”. (Id., p. 274).
Essa
situação de alteração na vida social levou ao apartheid mineiro que foi o impedimento dos mulatos ocuparem cargos
públicos importantes nas vilas, considerando que esse grupo se tornara
numeroso, rico e influente, levando os portugueses brancos a assegurar o
poderio político nas vilas, já que tinham a posição econômica ameaçada por esses
mestiços. Essa circunstância fez com que a argumentação contra a inumanidade da
escravidão ou sua abolição não fosse tema de debates na região, até porque era
possível ser contemplado pela boa sorte de encontrar uma pedra ou um veio de
ouro que tornasse livre e, muitas vezes, rico, um antigo escravo. A preocupação
reaparece quando as Minas se esgotaram.
Toda
a elite mineira, mestiça ou não descomprometia-se do trabalho produtivo
considerado coisa de escravo. Engrossaram aquela nobreza ociosa que o Marquês
de Pombal desejou erradicar e que foi tema dos teatros da Arcádia. No caso,
despreocupação com o trabalho produtivo não se originava dos hábitos medievais,
mas da associação entre trabalho manual e a condição de escravo. Também
contribuiu para essa mentalidade o catolicismo tradicional com suas festas
suntuárias, onde a comunidade dispendia recursos não compatíveis com sua
realidade econômica. O livro de Martins ajuda a entender a singularidade da
escravidão em Minas.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
O LEGISLATIVO NUM ESTADO DEMOCRÁTICO. Selvino Antonio Malfatti
Convenhamos, A cada eleição presidencial a prática se repete. O candidato monta seu programa, busca partidos
que o apoie e se lança ao cargo. Se eleito, instala-se um governo quase sempre autocrático.
A praxe numa democracia deveria ser o
inverso: o partido tem seu programa, escolhe um líder que se identifique com
ele e o lança candidato. Isto funciona nas democracias europeias. Aqui, e penso
que na América latina em geral, não acontece.
O caso mais típico foram as Medidas do presidente Collor, oriundo de um minúsculo partido. Logo após
a posse, além de trazer de volta a moeda o Cruzeiro, anunciou medidas
impactantes. As
principais: redução da máquina administrativa com a extinção ou fusão de
ministérios e órgãos públicos, demissão de funcionários públicos, o
congelamento de preços e salários e confisco das poupanças. Previa ainda o
confisco dos depósitos bancários superiores a Cr$ 50.000,00. O desespero das
pessoas e o desnorteio da economia provocaram até suicídios.
Pode-se avaliar seu amor pelo partido que o elegeu presidente: já vai para a oitava troca de partido.
No contraponto podemos apresentar o caso da Inglaterra na
questão do Brexit. Os conservadores –
partido - posicionam-se a favor de a Inglaterra sair da União Europeia.
Inclusive, por causa da derrota do partido no referendum, o primeiro ministro
Cameron demitiu-se. Seu sucessor, Theresa May, está procurando uma saída
honrosa. Como se percebe, o "a favor ou contra" é do partido, e não de pessoal.
Os nossos partidos são apenas fisiológicos, isto é, do
período em que se aglutinavam interesses em torno de uma pessoa. O partido
precisa ter uma espinha dorsal ideológica e não girar em torno de pessoas.
O que fazer? Mudar a mentalidade do eleitor ou buscar
outro modelo ou critério pelo qual o autocratismo ceda lugar à democracia. A
mudança de mentalidade é demorada e não ocorre tão rápida como a lei. Haja vista, oitenta anos de comunismo na Rússia, não dessaraigou a religião. Então,
por que não mudar a lei?
Uma das sugestões seria submeter o programa de governo do
partido à votação do parlamento. Primeiramente, todo partido que quisesse concorrer à presidência,
apresentaria sua proposta ao parlamento. Este escolheria três propostas. Para
cada uma das vencedoras o respectivo partido escolheria um candidato. As três
propostas, com seus candidatos, disputariam as eleições executivas nos três
níveis. O candidato se comprometeria, antes da eleição, a respeitar caso
eleito, as propostas apresentadas e segui-las à risca.
Percebe-se que a disputa para a escolha do dirigente do
executivo obedece a três níveis: os políticos, os partidos e o parlamento.
1. O
Político.
Nasce, então, uma atividade específica diversa das
demais: o político. Seu objeto é o bem comum da polis, da comunidade. Suas
habilidades também são específicas: ouvir, explicar, transformar em bem comum
as reivindicações particulares. Ser um intermediário dos “eus” e do nós.
2. Partido.
É a congregação da especialidade ou generalidade dos
políticos. Cada político se dedicará ao bem comum dos diversos interesses
presentes na comunidade. Os interesses dos agricultores devem ser inseridos no
bem comum da comunidade. O bem comum específico deve ser transfigurado em bem
comum geral. Não basta um determinado interesse ser atendido, mas todos e
concatená-los no bem comum geral. Esta é a tarefa dos partidos.
3. Parlamento.
É o laboratório, o hospital, o fórum, a universidade do
político e do partido. É no parlamento que iniciam e se concluem as
experiências. Um político ou partido sem parlamento, num sistema democrático, é
como um peixe sem a água. Não terá oxigênio e sem ele é um ser morto. O
parlamento é a vida do político e do partido. Tudo deve começar nele, ir para a
sociedade e voltar para ele.
A sugestão é mudar o ponto de apoio: do executivo pessoal
para o legislativo partidário.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
A DIMENSÃO POSMODERNA DA SOCIOLOGIA EM BAUMAN. Selvino Antonio Malfatti.
No Brasil, ora se pensa em eliminar a sociologia do
currículo escolar, ora se quer incluí-la. Surge agora uma nova dimensão para
ela: o potencial crítico alternativo, proposto por Sygmund Bauman, (1927-2017). Isto, evidentemente, em vez de acalmar os
ânimos os acirra ainda mais, pois esta postura pode justificar várias
aplicações concretas.
Este “alternativo crítico”, explicita um futuro que está
potencialmente no presente e que pode ser antecipado do que ocorrerá no futuro.
A partir daí, não se nega o que os antecessores refletiram, mas implicitamente
os absorve. Desde os sete pilares, quais sejam, Montesquieu como precursor,
Comte o verdadeiro pai, inclusive lhe dando o nome, Marx na busca do móvel
social, Tocqueville identificando o conteúdo social, Durkheim encontrando o
fato social, Pareto a lei dos pouco vitais, e o sociólogo por excelência, o
antomásia da sociologia, Weber.
A estes seguem-se: de Georg Simmel a Theodor Adorno, de
Norbert Elias a Charles Wright Mills, de Leo Löwenthal a Marshall McLuhan, sem
deixar de citar Zygmunt Bauman com seu conhecimento subjetivo, confrontando-se
com Weber que tanto prezava o conhecimento racional objetivo, inclusive nos
valores. Mas a proposta de Bauman não é nem objetiva nem subjetiva, mas ambas.
É a objetividade da subjetividade.
Em Bauman estão presentes o olhar peculiar sobre a
Sociologia de cada um de seus antecessores. Nenhum está errado, mas também
nenhum deles por si só é completo. Cada um apresenta mais um ponto de vista,
que no conjunto se completa.
Façamos um exercício “do alternativo crítico” da
atividade econômica do futuro. Se nos fixarmos atualmente numa fábrica, podemos
constatar que a mão de obra humana sofre uma diminuição sempre maior, mas nem
por isso diminui sua produção, aliás, aumenta. Com este dado - mão de obra
humana sempre menor - podemos prever sociologicamente que no futuro não haverá
mais mão de obra humana na fábrica, mas que continuará produzir sempre mais.
Desaparecerão os seus trabalhadores? No sentido presencial de tempo e espaço,
sim. Quais as alternativas a esta tendência? As fábricas serão construções fantasmas
movidas à distância. Os robôs substituirão a mão de obra humana. Há os que
controlam os estoques. Há os que
controlam as máquinas de fabricação que o fazem por controle remoto podendo
estar em casa ou em lugares de lazer. Há os que vendem em contato direto com os
compradores e com a mínima manifestação deles, acionam suas máquinas para
colocarem onde o comprador quiser. Os pagamentos são automáticos. A mão de obra
humana não desaparece, mas se torna invisível.
Ela está presente Google, do Face- book, no YouTube, do
Twitter, no Flickr, do Linkedln, da Netflix, no Maps, no WhatsApp e tantos outros, como time top, Windows, Office, World, Explorer,
Podcast, software, wi-fi, Bluetooth. O ser humano está ausente física e
temporalmente, mas presente virtualmente nestas ferramentas.
A este mundo, conforme Bauman, podemos chamar de
sociedade liquida na qual as relações são voláteis e volúveis, falta-lhes liga,
pois como surgem também desaparecem. São
paisagens de nuvens visíveis só por instantes para em seguida desaparecerem.
Poderíamos nos perguntar como conviver humanamente num
mundo deste? A resposta seria dada por Bauman pela nova dimensão da sociologia.
Qual a nova dimensão?
Descobir e construir alternativas possíveis, sem
renunciar aspectos da realidade, quer visíveis, quer ocultos, mas desagradáveis
aos indivíduos e à sociedade. Em parte é um resgate quase perfeito de Comte que
propunha estudar a sociedade para fazer os indivíduos felizes.
Para Bauman, eliminar os espinhos poupando as rosas.
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