sexta-feira, 16 de março de 2018

O JUSTO DO SEU TEMPO.. Selvino Antonio Malfatti
















Se buscarmos o ideal de proeminência social entre as diversas culturas certamente serão encontras muitas diferenças. Só para citarmos alguns exemplos: os gregos e romanos tinham como ideal o herói, o cristianismo celebra o santo e os hebreus cultivam o justo. Com efeito, a Bíblia possui 215 versículos que mencionam o JUSTO, 106 versículos que se referem ao SANTO. Por sua vez, Heróis bíblicos estão associados à fé e fora da cultura judaico-cristã louvam a coragem bélica
Da ideia bíblica de JUSTO nasceu em Milão, na Itália, o Jardim dos Justos ou Gardens of the Righteous Worldwide – GARIWO.  O objetivo é fazer conhecer e difundir a memória dos Justos. Entende que a lembrança do bem seja uma ferramenta educativa e serve para dissuadir e prevenir genocídios e crimes contra a Humanidade. A exemplo do cristianismo que possui o Dia de Todos os Santos, o Gariwo conseguiu criar pelo Parlamento Europeu, do Dia dos Justos, celebrado anualmente nem 6 de março.
A atividade tem como suporte instituições, escolas, voluntários, de uma Comissão Científica Internacional e de “embaixadores”.
O fundador do Jardim dos Justos é Gabriel Nissim, intelectual hebreu, animado pela paixão social e senso de Justiça. Concebeu a ideia de promover a figura do Justo, fora do âmbito israelita. Contudo, creditou para si críticas, ressentimentos, inveja, e inimigos, atitudes estas bem contrárias ao Justo.
Evidentemente não é para menos. Quais os critérios para enquadrar alguém como Justo? Valores hebreus, oriundos da Bíblia, que por sua vez é essencialmente hebraica? Por que estes valores podem ser generalizados? E as demais civilizações com seus valores ficam excluídas? As civilizações indianas, japonesas, árabes por que são excluídas? E mesmo a cristã que em alguns aspectos contradizem a hebraica?
Seja como for, no livro O Bem Possível -Ser Justos, defende a ideia do bem no seu próprio tempo. Inicialmente a ênfase da ideia de Justo recai sobre a defesa dos hebreus ameaçados de genocídio. Como por exemplo, Justo foi o vice-presidente da Bulgária, Dimitar Peshev, salvando da deportação todos os judeus de seu país ou Armin Vegner, que por primeiro denunciou o genocídio dos armênios.
Gabriel, todavia, tomou consciência de era necessário o salto do tempo para “aggiornare” o conceito de Justo e adequá-lo aos tempos atuais. É o novo cenário onde se visualiza a internet, das redes sociais, do smartfhone. O foco passou a ser os juveníssimos que não estão mais dispostos a ouvir exemplos nobres, já encobertos pelo mofo do tempo e até mesmo atrelados a conveniências. Diz ele:
“É necessário explicar - diz Nissim - que os Justos não são santos e não são heróis. Os santos pertencem à transcendência e à fé religiosa. Os heróis elevados à categoria de mitos,  de personagens ideais, nos quais cada um de nós, às vezes, se espelhou ou se espelha, sonhando imitações improváveis. O Justo de Hoje, no entanto, pode realmente ser cada um de nós, com méritos, fraqueza e misérias. Mas disposto a ouvir o impulso mais humano. Um desafio que não conhece obrigações ou conveniências, mas responde a um impulso que não pode ser retido "

Até mesmo um “boa vida” como Peshev pode ser Justo, quando contribui para uma sociedade melhor, evitando o genocídio. Ou como aquele muçulmano que salva pessoas dos ataques de ISIS  ou Jihadistas contra o museu de Bardo. Ou como a pobre mulher grega de Lesbo que abre as portas aos fugitivos. Nissim concorda com Spinoza: “um homem Justo não o é por só um dia, mas por toda vida.


sexta-feira, 9 de março de 2018

O desafio da moralidade José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.










Desde que publicou o livro La Rebelión de las Masas, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset colocou em discussão sua tese de que se vive uma crise de moralidade. Essa crise não significa que as pessoas estão menos propensas a fazer escolhas éticas, como uma leitura superficial pode sugerir. Em outras palavras, não significa que os políticos, os policiais, os agentes do Estado, as pessoas em geral de hoje são mais desonestas que as de ontem. Não é exatamente disso que se trata. Pode ser que o fenômeno indicado por Ortega esteja na raiz disso e ajude a explicar porque as pessoas estão menos atentas aos ideais éticos, mas a questão é mais profunda.

O que parece explicar o enfraquecimento moral é uma fragilização dos controles do Estado, um movimento que veio com o liberalismo conservador, uma onda que se iniciou no final do século passado. O movimento foi liderado por Margareth Thatcher e Ronald Reagan, a primeira ministra inglesa e o presidente americano. Juntos articularam um programa político que visava a redução do papel do Estado na vida da sociedade com um agressivo programa de privatizações ancorado no chamado Consenso de Washington que serviram de modelo para vários países, inclusive para o Brasil. Esse projeto político pretende a redução da presença do Estado na economia, pela valorização do mercado, conforme ensinava Friedrich Hayek. Esse projeto incluía privatizações de estatais, redução de impostos diretos e sobre a propriedade e aumento dos impostos sobre o consumo, combate a força dos sindicatos, eliminação do salário mínimo e acabando com aquilo que ficara conhecido como Estado do bem estar social, que ganhara força entre os estados democráticos depois da crise de 1929.

O movimento conservador no ocidente foi paralelo ao fim da URSS decorreu do fracasso das reformas pretendidas por Mikhail Gorbachev, presidente e secretário-geral do Partido Comunista Soviético, eleito em 1985. A tentativa de renovação do comunismo veio com medidas que ficaram conhecidas como Perestroika e Glasnost. Essas reformas vieram com a tentativa de reduzir os gastos como o auxílio a países comunistas como Cuba e Coreia do Norte, diminuir a presença de tropas soviéticas em guerras setoriais, como a do Afeganistão, e os custos da política armamentista. Foi uma tentativa fracassada de tornar mais eficiente o controle estatal da economia. Essas medidas aceleraram desavenças internas e não produziram o fortalecimento da economia. O fim do socialismo real colocou em cheque toda a ação social do Estado numa espécie de divinização do mercado.

De modo geral o enfraquecimento dessa presença do Estado na sociedade afrouxou o controle estatal sobre o mercado e os donos do capital (nacional e internacional) corromperam os agentes públicos nos Estados onde a força da organização estatal era menor. Em outras palavras a governança piorou em países como o Brasil, mas pouco em lugares como a Noruega, Estados Unidos ou Canadá. E quando se fragiliza o Estado, não como controlador da economia, mas como agente confiável de controle social, há uma decadência dos costumes e o desrespeito a ordem legal. O que ocorreu no Haiti é prova disso. O Estado praticamente acabou em razão do grande desastre natural e da fragilidade das autoridades. A ONU mandou para lá uma força militar internacional para assegurar o respeito às leis que o Estado já não garantia.

Na perspectiva individual, a moralidade é sempre resultado da escolha pessoal e isso significa que o homem de ontem ou de hoje se coloca diante do dilema moral toda vez que escolhe. O que Ortega observou é que estávamos num tempo onde o compromisso com a excelência foi deixada de lado ou porque os homens não tinham um conhecimento à altura do tempo ou se comportavam como criança mimada, que quer coisas que sabe que não deve. Essa circunstância sugere que mesmo se a governança do Estado melhorar e o controle sobre os agentes públicos for muito eficiente, a sociedade permanecerá em crise moral se o homem contemporâneo não reencontrar o caminho da valorização da excelência pessoal nas tarefas que tem para executar. É essa a dimensão do desafio a enfrentar.



sexta-feira, 2 de março de 2018

O CAMINHAR NO SILÊNCIO.. Selvino Antonio Malfatti.





Em diversas partes do mundo, mormente em civilizações de Primeiro Mundo, surgem sinais de alerta sobre o avanço da robotização em detrimento da humanização. Estes sinais provem das mais diversas áreas do saber como filosofia, psicologia, sociologia, antropologia e até mesmo das ciências denominadas experimentais. Os alertas apontam para o perigo do cientificismo, hedonismo, utilitarismo, enfim um mundo onde só existe cada um.

Nesta esteira encontramos o pensador francês David Le Breton, professor da Universidade de Estrasburgo, que em 2015 lançou o livro: El Silencio e Elogio del Caminar. Propõe formas concretas para enfrentar a desumanização dos dias atuais. Uma das formas seria o silêncio.

Constata o filósofo que estamos sempre conectados com o ruído, mormente o portátil. Há dispositivos grudados em nós que nos lembram a toda hora que estamos conectados, quando recebemos uma mensagem ou nos alertam sobre os horários. Este mundo que nos circunda veio juntar-se ao do século XX, como tráfego de carros e todo tipo de contaminação acústica. Se adotarmos o silêncio estamos numa postura de resistência, protegendo nossa dimensão interior, nos revestindo de uma redoma contra as pressões exteriores. O silêncio é o instrumento para mantermos uma conexão com o interior. O silêncio visibiliza o interior, enquanto o ruído a neutraliza.

Outra forma de nos manter conectados com o interior é o caminhar transcorrido em silêncio. A esta conclusão Le Breton chegou ao fazer o Caminho de Compostela. Ao caminhar mais de trinta dias em silêncio, ao término, constatou que se transformou completamente. Era outra pessoa. Isso devido a dois fatores conjugados: caminhar e silêncio. 

Diz Le Breton que caminhar é uma forma de tomar consciência de si, de sentir seu corpo, no respirar, no silêncio. Não pode ser um caminhar com objetivo: vou à padaria comprar pão. Não. Um caminhar sem fim, sem meta, sem buscar nada. O português tem uma palavra definidora: ao léu.

Ele constata que já não conseguimos ter uma conversação com os demais. Utilizamos ferramentas tecnológicas para nos comunicar. E estas nos desligam do nosso interior. Há culturas que enfatizam o mundo interior, como a japonesa com a filosofia do zen. Nas remotas tradições cristãs se valorizava o silêncio. Inclusive a própria educação abria um espaço para a meditação silenciosa. Era uma forma de compreender o que não se poderia dizer. E nisso consistia a sabedoria.

Na filosofia portuguesa há um corrente de pensamentro que aparentemente  parece uma “contraditio interminis”: a experiência mística. A experiência religiosa que nos possibilita transpor o limiar do racionalismo para entrar num mundo místico. Este valor conferido à experiência mística constitui uma peculiaridade da Filosofia Portuguesa. Admitir a experiência religiosa como mais uma forma gnosiológica é poder alçar-se a um mundo acessível a poucos.
Acatada como válida para o conhecimento a experiência religiosa abre o leque das possibilidades de formas de conhecimento e confere legitimidade à sensação, intuição, sentimento, imaginação e crenças. Uma das mais significativas é a ética que transcende a lei, norma, mandamento. O noumeno dos mitos leva ao sagrado, ao divino, à união mística.

Quando entramos no ambiente do silêncio, que pode ser pela caminhada, encontramos outras vozes, outros interlocutores, outras realidades, escondidas por trás dos aparelhos penduricados em nosso corpo.








sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O TRABALHO DO FUTURO. Selvino Antonio Malfatti.



Que o mercado de trabalho está em rápida evolução não é mais novidade para ninguém. Dois setores básicos estão e serão afetados: as formas contratuais e as tarefas.
Conforme o Forum de Davos, até 2020. prevê-se uma redução de 7.1 milhões de vagas de trabalho, a maior parte nos setores administrativos. No mesmo período haverá um aumento de 2 milhões de vagas no setor de tecnologia, matemática e engenharia. Vê-se que a defasagem será de 5,1 milhões de vagas de trabalho.
A tendência é a substituição do homem pela máquina nos postos de trabalho, aliás, a constante tendência desde a Revolução Industrial.
E se olharmos para uma previsão mais futura, para a década de trinta, ocorrerá até mesmo a substituição do homem pela máquina em setores que se poderia considerar monopólio da atividade humana: agricultura, pesca, manufatura e até mesmo o comércio.
Contudo, as previsões para os setores de educação e saúde ainda parecem imunes. Os cuidados com a saúde, mesmo as coadjuvadas pela tecnologia biomédica parecem que por ora não poderão dispensar a presença humana no atendimento do paciente. Da mesma forma na educação parece que por enquanto não se podem dispensar professores de quadro-negro. Menos ainda provável se pode imaginar a substituição de um psicólogo por uma máquina de auscultar na terapia.
Diante desta constatação sociológica vem o questionamento político. A educação está prevendo estas mudanças e provendo fechar as lacunas? O poder público, o Ministério da Educação, está atento a estas demandas que batem à porta? O que se está fazendo para preparar as próximas gerações perante as demandas que estão chegando rapidamente?
Apresentam-se três processos urgentes, urgentíssimos atualmente diante desse quadro: a tecnologia e a internet, o envelhecimento da população e aquecimento global.
O comércio continuará a acomodar-se até chegar ao total e-comércio. Consequentemente sempre mais empresa investirão sobre a publicidade e sobre as marcas online que vão da imagem à venda. Gerentes administrativos de e-comércio atualmente já estão consagrados.
Somos hoje em dia uma sociedade informatizada., desde os celulares, até os computadores de grandes empresas administrativas. Cada minuto são criados, imaginados e compartilhados milhões de dados. E muitas vezes até mesmo dados sensíveis são difundidos, como cirurgias à distância.
Por isso a educação deve preparar profissionais capacitados a gerenciar tais dados. E a educação pública está desempenhando este papel? Nossas crianças já estão aptas a usar o touch screen e os tablets, mas a verdadeira tarefa é prepara adultos capazes de manusear e interpretar, e aplicar os dados e não somente saber dar o click. O que se necessita é preparar profissionais que dominem a máquina e não somente sejam guiados por ela.
Por fim, faz-se necessário profissional de larga visão global. Que não tenha somente em mente lucro a qualquer custo, mas um lucro responsável. Respeitar as mudanças climáticas significa pensar em novas vagas de trabalho como os green Jobs, reduzindo o impacto ambiental das megaempresas. Enfim, pensar que a depredação não é o melhor negócio, ao contrário, a preservação é o negócio.
O que se descortina é um cenário onde a máquina tecnológica domine praticamente todos os setores da vida humana. Como se sabe a máquina não tem alma e por isso está desprovida de sentimentos humanos. Neste ambiente irá predominar a frieza nas relações, a banalidade da dor e o cálculo da vantagem. Em vez de homens se formarão robôs. Desenvolver-se-á uma sociedade sem sentimentos como um cadáver sem alma. Por isso o alerta que se faz é de não se esquecer do lado humano junto com a tecnologia. Ambos deverão caminhar pari passu.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A liberdade por inteiro inclui a dignidade da pessoa. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.



















Na antiga Grécia, por volta do século VI a. C., desenvolveu-se uma nova forma de governo proposta por Sólon. Ela foi criada para se contrapor aos regimes autoritários das oligarquias que dirigiam a Cidade Estado de Atenas. Nela os cidadãos podiam decidir o futuro da cidade, exercendo a liberdade cidadã. Porém, mesmo em Atenas onde foi criada e se estruturou essa forma de governo chamada democracia, ela não era ampla, pois excluía mulheres, escravos, crianças e estrangeiros.  

Esses antigos gregos pensavam a vida da cidade como parte de uma ordem natural, por exemplo, se referiam a Atenas como a linda flor que adorna o Mediterrâneo, como uma flor embeleza o jardim. Era um sistema distinto das democracias modernas, mas uma realidade muito diferente dos sistemas teocráticos ou de poder absoluto então prevalentes na antiguidade onde os súditos estavam nas mãos do Rei.

A democracia grega tinha como limite ser uma espécie de ditatura das maiorias que impunha sobre as minorias sua vontade. Contudo, esse sistema desenvolveu dois freios poderosos para preservar a minoria, o primeiro racional. Como os assuntos eram discutidos antes de decididos, os cidadãos tinham o direito de pensar livremente, argumentar e defender suas ideias. Assim se desenvolveu a Filosofia como forma de corretamente pensar e argumentar nas praças. Bons argumentos, boas justificativas eram capazes de mudar a opinião dos membros da Assembleia. O outro freio à ditadura das maiorias era jurídico, Sólon criara contra as ditaduras oligárquicas um sistema onde os promotores podiam arguir a adequação constitucional das leis aprovadas pela Assembleia de cidadãos. Quando o promotor convencia os juízes da inconstitucionalidade a lei era revogada. A democracia ateniense foi o melhor sistema de liberdade política do mundo antigo, nele o povo era dono da cidade e podia gozar de certa liberdade privada, embora não se aprofundasse a noção de liberdade íntima.

A liberdade íntima contraposta a realidade externa, contudo, ganhou força e atenção com o cristianismo, onde o homem era livre diante de Deus. Quando o cristianismo se espalhou pelo Império Romano, popularizou-se esse outro sentido de liberdade. Era uma liberdade que nascia do diálogo com Deus. Essa forma de liberdade ganhou força na Idade Média e se preservou mesmo quando a liberdade política perdeu força no feudalismo. E ainda se manteve no início da modernidade quando se formaram as monarquias absolutas na base dos estados nacionais que nasciam.

As democracias modernas se desenvolveram quando a liberdade de escolher os rumos da vida privada se somou à liberdade de trabalhar e eleger governantes. Essa última assegurava a cidadania. A democracia moderna nasceu pois diferente da antiga. O amadurecimento da vida social nessas democracias mostrou que não bastava a liberdade formal de escolher governantes e o trabalho para que o cidadão se sentisse responsável pelo Estado. Os primeiros representantes do sistema liberal e democrático enfrentaram o que se chamou questão social: proteger crianças, velhos e inválidos, organizar o ensino público para democratizar as oportunidades e um sistema de segurança, para permitir que as pessoas pudessem viver e enriquecer em segurança. Com o tempo novos direitos foram incorporados à noção de cidadania, completando a liberdade formal de empreender e eleger.

Portanto, desenvolveu-se no ocidente um sistema único de governo que respeita as liberdades e dignidade dos cidadãos. A democracia liberal não se resumiu pois à liberdade formal de empreender e escolher governantes, mas fazer isso preservando a dignidade cidadã. Dignidade que se concretizou no estado de direito e num sistema público de proteção social. Portanto, quando se busca um sistema de governo livre, onde todo cidadão se sinta dono de seu país, chega-se a uma sociedade menos desigual. Explicar isso é necessário para indicar que uma sociedade que defende os direitos civis das minoriais e mais fracos não é comunista, nem discípula de Maduro, nem de petista como se tenta estigmatizar hoje qualquer defesa dos direitos civis. O desafio de nossos dias é defender a democracia liberal de forma plena, onde todos possam ser cidadãos livres e dignos. É esse sistema, que se desenvolveu no ocidente, que precisa ser recuperado nesse tempo em que parece natural e razoável apenas a liberdade para o Grande Capital se reproduzir e crescer, eliminando toda rede de proteção social taxada, sem mais de comunista ou petista e excluída de antemão sem qualquer análise ou discussão.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

OS MISTERIOS DE EROS, FILIA E ÁGAPE. Selvino Antonio Malfatti














https://www.youtube.com/watch?v=yIi72FRnZp8


Cansado da zoeira do Carnaval retirei-me e vieram-me alguns pensamentos que teimavam em se entrecruzarem  na mente.
As almas se contemplam, extasiam-se, querem comunicar-se. Mas elas são intocáveis e incomunicáveis. Etéreas. Buscam-se abrasadoramente, queimam-se em chamas, mas permanecem sós. Elas se querem, mas não podem se possuírem. Buscam uma ponte que as possa fundir-se, torná-las unas.

Os corpos entrelaçam-se. As mãos se apertam. Uma uma sensação de  frescor penetra pelas veias da boca sedenta. Perpassa o corpo fazendo-o suspirar de satisfação.



As almas se encontraram através dos corpos. Eles são seus instrumentos. Elas se abraçam pelos dedos, braços, pernas dos corpos. Elas se estreitam, se beijam, se retorcem. Penetram-se pelo corpo. Elas são um numa só carne, bem vindo Eros.

Haverá espetáculo mais belo que o encontro de duas almas? Haverá delírio maior que a fusão de duas almas? Haverá felicidade que se comparece ao olhar de duas almas que se amam. Os olhos jamais viram, nem os ouvidos jamais ouviram, nem ninguém jamais sentiu o que este encontro irrompeu. É a Filia

Elas sentiram o céu abrir-se, a felicidade jorrar aos borbotões. O próprio Deus a inclinar-se e enlevá-las. Elas ressuscitaram, se transfiguraram, se tornam imortais.
Eros e Filia comemoram o ágape.

Mas os corpos, coitados, permanecem na sua condição. Quanto mais suas almas se amam, tanto mais sofrem. Quanto mais se contemplam, tanto mais envelhecem, quanto mais sentem prazer, tanto mais gemem de dor, quanto mais louvam, tanto mais pecam. As almas entoam o aleluia, os corpos murmuram o “miserere mei, Domine”. Elas se comprazem com as doçuras celestiais enquanto eles se abrasam no fogo do inferno.

As almas não podem esquecer seus corpos. Tudo o que elas podem fazer é por ele que o fazem. As almas devem voltar, tomar em seus braços os corpos e levá-los perante Ele e suplicar por eles. Eles também devem viver, ser felizes, ressuscitar. Transfigurar-se e se tornarem iguais às almas. As almas devem voltar à terra para que os corpos possam subir ao céu. Então sim, unos, inteiros, homens.São trio: Eros, Filia e Ágape que entoam o Te Deum.

Não só almas puras, mas os corpos também. Porque o corpo não pode fazer o mal a não ser pela alma. Ele não pode por si ser soberbo, se sua alma não é. Não pode ser ganancioso se sua alma não é. Ele não pode ser impuro se sua alma não é.  O corpo é são se a alma for sã. A alma não pode ser piedosa a não ser pelo corpo, não pode ser caridosa, senão pelo corpo, nem mesmo santa se não for pelo corpo. Corpo e alma estão irremediavelmente selados a ser um pelo outro. Isto é o Amor de si mesmo que pode ser estendido aos outros. Pela minha alma posso amar a alma do outro, através de meu corpo pelo olhar, pelo abraço, palavra, sorriso. Minha alma se externa pelo corpo e pelo corpo do outro posso chegar a sua alma. 
Eros e Filia são um na plenitude do Ágape.

  


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O TRABALHO FEMININO – A CONSCIÊNCIA DO PRÓPRIO VALOR. Selvino Antonio Malfatti

















O reconhecimento do trabalho feminino, foi uma luta no sentido de fazê-lo existir visivelmente, reconhecê-lo política e juridicamente. Como se expressa Nancy Fraser:

“Por que o trabalho invisível, por excelência o trabalho doméstico e o cuidado, foi sempre atribuído às mulheres, um trabalho não reconhecido, naturalizado e desvalorizado”. (Fraser, 2014)

Apesar de a revolução feminista colocar na pauta das discussões radicalmente o sistema social patriarcal, alicerçado sobre a família e sobre o sujeito social universal: o trabalhador masculino, branco, operário, por tempo indeterminado. Implantou o sistema de dependência/independência, base do ocultamento e da desvalorização do trabalho feminino.

A questão para a explicação da situação do trabalho feminino é a insinuação de que o responsável é o sistema capitalista. Acontece que em todas as culturas e todas as formas de produção tiveram esta experiência. Até mesmo nos primitivos indígenas se encontra tal fato, como entre as tribos brasileiras, não tendo nada a ver com o capitalismo. A divisão das tarefas era feita por critérios de idade e sexo. E, há de se considerar que como pano de fundo, está a criação, alimentação e educação das crianças. Elas constituem o peso preponderante.

Entre os indígenas as mulheres, em grande parte, ocupavam-se dos trabalhos domésticos, cuidado das crianças e também agricultura. Os homens trabalhavam na derrubada da mata, plantio, caça e pesca, fabricação de canoas, armas de guerra, defender a aldeia. Como se vê, numa sociedade tribal, que nada tinha a ver com capitalismo, basicamente as mulheres ocupavam-se dos trabalhos domésticos e os homens atividades fora das habitações.

Entre os antigos predominava o sistema patriarcal. Os homens detinham o poder primário e ocupavam as funções políticas e religiosas que quase sempre se identificavam. Na família o pai mais antigo detinha o poder sobre escravos, filhos e mulheres. Aqui também, num sistema de sociedade patriarcal, às mulheres cabiam atividades domésticas e aos homens atividades fora da habitação.

Por que razão este modelo de trabalho, mulheres domésticas e homens em atividades extra domésticas, pode ser encontrada em praticamente todas as civilizações que saíram do estágio nômade para o sedentário até a era industrial ocidental. Qual a razão desta divisão? Que critério foi adotado?

Entendo que não se pode reduzir a uma razão só. Foram as mais diversas, cada povo, cada época adotou um critério seu. Podemos enumerar alguns: 1. Conveniência – Era conveniente que uma parte do grupo familiar cuidasse do lar e outra buscasse recursos fora de. O trabalho do lar coube às mulheres e crianças e o fora do lar aos homens. Com certeza seria inconveniente levar as crianças para o trabalho fora do lar. Isto provavelmente aconteceu com os grupos tribais 2. A dominação – o elemento masculino impôs pela força o condicionamento feminino no lar. Foi o que aconteceu, por exemplo, com as civilizações do oriente, como árabes e os bárbaros. As mulheres eram servas, senão escravas dos homens 3. Consentimento – os dois gêneros, masculino e feminino, decidiram consensualmente que fariam isso. Este modelo pode ser encontrado entre os hebreus, devido à ideia de igualdade de gêneros. Existem outros, mas estes dão uma ideia de multiplicidade de razões.


Mas por que somente com a revolução industrial aconteceu a paulatina liberação da mulher do lar? Inicialmente o trabalho feminino nas fábricas ajudava na renda familiar. Mas, com a abertura política liberal para participação de outras categorias na política, que não somente os proprietários, abriu-se espaço para que a mulher também tivesse representação. Primeiramente nos sindicatos e depois junto com o marido na política. Pouco a pouco, as mulheres passaram a participar autonomamente. Este processo levou um século, de 1830 a 1928. O que não havia sido feito em 5.000 anos, com a revolução industrial e abertura política liberal capitalista, se alcançou num século.

         Até a segunda década do século XX, o voto era tão somente extensivo ao sexo masculino. A extensão do voto às mulheres ocorre em 1918, àquelas que tivessem mais de 30 anos e que fossem proprietárias ou esposas de proprietários. A universalização do sufrágio na Inglaterra ocorre em 1928 com a Lei do “Flapper vote” (voto das moças).

Resumidamente o processo de abertura política seguiu a seguinte evolução: classe média rural, classe média urbana, operários, mulheres casadas e finalmente, o “flapper vote”, as solteiras. E precisamente é neste contexto que surge a liberação da mulher das atividades exclusivamente domésticas. Portanto, não foi o capitalismo que enclasurou as mulheres nas atividades domésticas. Ao contrário, o capitalismo ensejou a sua liberação. Não estamos dizendo que foi pacífico. Não. Houve muito derramamento de sangue feminino até a liberação.

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