sábado, 8 de junho de 2013

A EXPERIÊNCIA DA VIDA EM MOVIMENTO. José Maurício de Carvalho.




A psicóloga Regina Beatriz de Resente Silva fez o lançamento da segunda edição do seu livro A mulher de 40, em outubro próximo passado. O livro resume as transformações físicas e emocionais pelas quais passa a mulher na meia idade, faz um histórico da vida sexual feminina na sociedade ocidental destacando as mudanças ocorridas no último século, aborda a experiência da sexualidade neste período da vida e finalmente, apresenta os quarenta anos como o começo da nova etapa da vida, ocasião da experiência mais próxima do envelhecimento. Quando do lançamento da primeira edição fizemos um comentário da descrição de Regina Beatriz sobre este momento da existência.  Falamos das partes do livro. A segunda edição permite tocar numa questão específica que se tornou urgente e que a autora faz com rara felicidade: situar a passagem pelos quarenta sem fantasias, sem falsos consolos, mas apresentando-a  como um tempo onde é possível estar bem.
O que faz da abordagem de Regina Beatriz uma leitura tão feliz? Ela não fantasia os 40. Trata-se de um tempo onde “a textura da pele muda, bem como o tônus muscular” (p. 57). É o momento da vida em que a mulher vive o climatério e a maioria passa pela menopausa. O corpo já não é mais o mesmo e o fato afeta o modo de viver a sexualidade. Contra esta posição serena e objetiva da autora a pressão irreal da mídia e da indústria de cosméticos que apresentam a mulher de quarenta como uma espécie de extensão das de quinze ou vinte. Há pouco tempo uma revista de circulação nacional destacou na capa o que denominou de geração sem idade, comparando mãe e filha, apresentando-as como companheiras de baladas, igualmente belas, igualmente disponíveis para o sexo. Nada mais falso, irreal e gerador de frustrações.
A abordagem é feliz porque apresenta a passagem pelos quarenta como um tempo de sofrimentos e perdas, mas principalmente de mudanças, ocasião de “estabelecer prioridade, rever valores, usufruir conquistas, dar uma reviravolta” (p. 113). Não se é mais o que se foi na juventude, a nossa história nos fez diferentes.
A leitura de Regina Beatriz é feliz porque mostra que se o corpo não é mais o mesmo e o desejo sexual também não, isto não significa que a mulher não possa viver a sexualidade de forma prazerosa. Em certo sentido a vida sexual pode ficar mais leve, quer porque o medo da gravidez já não está presente, quer porque os anos e a história pessoal permitem olhar de forma mais serena os medos e fantasias da sexualidade. A mulher ainda tem medos, mas os enfrenta com mais serenidade. Compreendeu que a vida, inclusive a sexual, é singular. Pode contar com ajuda médica e psicológica para lidar melhor com as limitações da idade e das fantasias. Pode estimular o desejo e desmistificar os preconceitos. Ela pode descobrir que “o sentido de suas ações, tanto no sexo como na vida, não está em evitar o fracasso, mas em ousar experimentar” (p. 79). Ela pode fazer muito se souber escolher com o que dispõe como corpo e experiências. Há uma frase linda que merece ser repetida: “À mulher de 40, mais consciente que aos 20 e aos 30, fica a sugestão: aproprie-se de sua vida, seja autora de sua história. As escolhas são suas” (p. 81). Clara percepção daquilo que o filósofo Ortega y Gasset ensinou no último século, a vida é o que fazer com a circunstância de que dispomos.

A interpretação da autora é feliz porque mostra os quarenta como um momento de passagem para a velhice. A mulher então “chora mais, ri mais, seleciona mais, lê mais, pensa mais, pois sabe que não tem o tempo todo ao seu dispor” (p. 85). Experimenta então o que a analítica existencial propõe, a consciência da morte é um estímulo para uma vida mais autêntica, uma vida com escolhas que têm mais a ver mais conosco e menos com o outros. Ela conclui: “o processo de envelhecimento é gradual, é lento e decorre de uma sucessão de acontecimentos (...) que transcorrem de modo vagaroso ao longo da vida. Envelhecer é um processo (...), não é uma doença” (p. 87).

sexta-feira, 31 de maio de 2013

GERAÇÃO CANGURU E A NOVA FAMÍLIA. Selvino Antonio Malfatti.



                      Fonte: Ks95808 FOTO SEARCH COM.BR

Uma geração de jovens, a partir de 1990, tende a estender a permanência na casa dos pais por mais tempo e, alguns, até indefinidamente mesmo que já tenha alcançado a autonomia econômica. Se verificarmos as estatísticas pode-se constatar este fenômeno, inclusive crescendo década após década. No Brasil, por exemplo, na década de noventa, jovens com até 25 anos, havia 17% residindo com os pais. Em 2000, subiu para 21% e na década seguinte pulou para 25% a estatística. Desse modo, parece que está se invertendo o costume ou necessidade de os pais morarem com um filho depois de envelhecer. Agora são os filhos que envelhecem na casa paterna ou materna.
Alguns fatores influíram para que isso fosse possível e efetivamente acontecesse. Apontaria: o diálogo entre pais e filhos, a maior liberdade para os filhos, a maior compreensão dos pais. Nas gerações anteriores os pais, mormente o pai, era o que decidia. Cabia aos filhos, e mesmo às vezes a própria esposa, acatar as determinações. O espaço para a liberdade era muito restrito, aos filhos restava a obediência. Dizia-se quer se os filhos quisessem decidir deveriam formar seu próprio lar. Havia situações que os próprios pais incentivavam a saída.
Certamente o que aconteceu foi um aplainamento do modus vivendi dentro da família. A nova geração não é igual a dos pais. Tem gostos, expectativas e maneiras de pensar diferentes. Além disso, há uma gama de diversidade entre os próprios filhos. Uns gostam de festas e as querem promover dentro de casa, outros de convidar namorados e lá permanecerem e há os que gostam de ficar no seu canto e não serem incomodados. Todas estas arestas deviam e foram removidas. Os pais também querem sua privacidade, o espaço para sua liberdade e a satisfação de suas aspirações Há, com o se percebe, duas realidades convivendo: a da geração dos pais e a dos filhos. Houve uma readaptação entre as duas, operada pela influência mútua que possibilitou a convivência. Ambos cederam abrindo o espaço para a aproximação. E nessa mútua influência ambos abdicaram de vantagens e ambos obtiveram ganhos.
Os filhos perderam parte de sua autonomia. Se estivessem na sua própria casa teriam mais opções, como horários, espaços físico-sociológicos, individuais. No entanto o principal ganho é o econômico, pois não pagam aluguel e a maioria deles nem a alimentação. Este dinheiro liberado pode ser aplicado em aperfeiçoamento profissional, lazer e mesmo investimentos patrimoniais. Os pais também tiveram que abrir mão de sua privacidade, horários, espaço físico e psicológico. Mas, em compensação, agregaram companhias agradáveis e até mesmo eventuais ajudas nas tarefas caseiras. Sentem-se menos sós, mais seguros e tranqüilos numa eventualidade de doença. Podem deixar a casa aos cuidados dos filhos e viajarem, fazerem refeições fora, se divertirem. E se vierem os netos então será uma bênção multiplicada.

As conseqüências desta tendência ainda não podem ser avaliadas com segurança, mesmo porque pode haver retrocesso ou tomar outros rumos. Parece certo, porém, que a família nuclear – pai, mãe e filhos – está sofrendo uma mutação. Se ocorrer a família extensa é outra questão. Parece que a possibilidade de um patriarcado ou matriarcado está remota, pois exigiria uma gerontocracia, isto é, subordinação ao mais velho de toda gama parental. O que se delineia é um convívio mais harmônico entre os parentes próximos e mesmo os do mesmo sangue ou sobrenome. Haja vista as promoções dos “encontros” de famílias que estão cada vez mais numerosos.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A previdência social e as aposentadorias. José Maurício de Carvalho.















O século XXI chegou com o país crescendo e oferecendo melhores condições de vida aos brasileiros. Há um longo caminho para atingirmos o padrão das sociedades mais adiantadas, mas a melhoria é real. E esta é uma boa notícia, aspiramos mesmo por uma vida melhor, mais confortável e com acesso aos bens produzidos pela tecnologia que não para de avançar e pelo modo de vida capitalista, que produz em quantidades crescentes. No caso brasileiro, o crescimento econômico não chega a ser tão acelerado que se sinta o efeito da mudança tão rapidamente como queremos, mas em períodos mais longos a mudança é sentida. E uma das mudanças mais significativas e observáveis é o envelhecimento progressivo da população, o que nos desafia a conviver de forma respeitosa com crescente número de pessoas idosas. Novos profissionais para cuidarem deles, lugares onde possam viver com segurança e qualidade, atendimento prioritário nos serviços públicos, aposentadoria digna, acessibilidade, etc.
O Brasil de hoje não é mais o país dos jovens como há quarenta ou cinqüenta anos, onde a população infantil era enorme e os velhos representavam percentagem insignificante. A enorme mortalidade daqueles dias era compensada com o nascimento de muitas crianças. Não era incomum encontrarmos famílias com oito ou até mais filhos. Hoje estes números soam absurdos, as famílias são menores e é maior a expectativa de vida. Isto significa possuir uma população adulta que ruma para ser envelhecida. Este perfil etário da sociedade brasileira é ainda mais acentuado nas nações mais ricas da Europa e na América do Norte. Ali o fenômeno é mais visível e os problemas decorrentes do envelhecimento da população mais urgentes e graves.
As atuais dificuldades da sociedade européia devem servir de alerta para vivermos esta nova etapa de nossa história de forma mais leve e humana. A queixa crescente dos aposentados de que a renda das aposentadorias diminui com os anos coloca em questão a relação entre tempo de contribuição e a idade necessária para obter o benefício. Governos populistas e a dificuldade da sociedade de conviver com mudanças necessárias somente protelam medidas que precisarão ser mais duras e dolorosas quando aplicadas. Hoje se estuda nos países europeus o aumento da idade mínima da aposentaria dos 63 para 66 anos. É muito para os nossos padrões, mas é a realidade deles e o que nos aguarda para logo.
A hipótese de conceder aposentadorias para quem nunca contribuiu, de conceder benefício crescente para quem contribuiu durante poucos anos são medidas que só se sustentam se a sociedade tiver outros meios de aporte para a Previdência Social. E a sociedade brasileira também reclama que já paga muitos impostos, o que sugere que este caminho também não poderá ser seguido.
Deixando de lado o problema como se apresenta para as comunidades nacionais para trazê-lo para a vida privada dos cidadãos, fazer uma previdência complementar à pública e construir uma reserva para a velhice são duas medidas absolutamente necessárias aos jovens de hoje que aspiram ter vida longa e de mais qualidade que a das gerações anteriores.
Para tratar os velhos de hoje e de amanhã com o respeito que merecem é necessário, da parte dos gestores públicos, planejamento rigoroso do sistema previdenciário e seriedade absoluta na solução dos problemas previdenciários. Enfim, deixar de lado o jeitinho e o improviso. Para as pessoas que pensam em uma vida digna na velhice o planejamento dos ganhos e aposentadoria complementar são medidas imprescindíveis. Viver no limite da renda e com níveis altos de endividamento não permitirá velhice tranqüila, a não ser por um golpe de muita sorte, o que é, claro, uma chance desprezível.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O cuidado com o espaço urbano. José Maurício de Carvalho.





As cidades são povoações de importância e com maior amplitude que os pequenos aglomerados humanos. Como organização do espaço edificado pelo homem contrapõe-se, portanto, à vida rural e das pequenas povoações. A construção de uma cidade exige, pela quantidade das pessoas reunidas no espaço concentrado, cuidados que normalmente não são necessários nos baixos adensamentos demográficos.  
Na medida em que se localizam num dado espaço geográfico as cidades correspondem a uma forma de diálogo com o meio natural. O que estamos experimentando com as grandes aglomerações é que é necessário ter cuidado com o ambiente. O motivo é que quanto melhor for a relação com ele, menos dificuldades terão os grupos humanos porque a natureza não se pauta pela moralidade e devolve em forma de desastre todos os desaforos que os homens lhe fazem. Assim, o cuidado com as áreas permeáveis, a manutenção dos espaços verdes, o tratamento dos esgotos antes lançá-los à natureza é o que se espera do poder público e de cidadãos conscientes de que a sobrevivência humana depende destes e de outros cuidados.
Além do diálogo com a natureza, as cidades revelam a personalidade e o nível cultural de seus habitantes, expresso no cuidado com a coisa pública, na limpeza do espaço coletivo, na qualidade das edificações e obras públicas, na manutenção dos passeios, na garantia de acessibilidade, na preservação das características que identificam as diferentes gerações. Assim, quando visitamos uma cidade organizada e grande capital como Paris, nós podemos identificar áreas de ocupação de diferentes séculos. Podemos notar como a cidade foi crescendo com quarteirões dos séculos XV e XVI, XVII e XVIII e assim sucessivamente. Mesmo em outras capitais européias onde os séculos não estão tão bem definidos, encontra-se bem estabelecida a área de preservação que é antiga e as áreas de ocupação recente em harmoniosa convivência. Nas áreas antigas e mais novas o tipo de edificação que se executa é diferente, mas não importa se antiga ou nova, nas cidades organizadas, nenhuma construção é executada sem projeto aprovado, cuidados ambientais e qualidade arquitetônica do projeto.
Nas cidades históricas a atenção com as intervenções no espaço construído pede ainda maior cuidado que nas demais, tanto para assegurar que as novas edificações representem o próprio tempo e a concepção urbana contemporânea, quanto para que as intervenções em áreas antigas sejam fundamentalmente no sentido de preservar o que foi feito, reconstruir o que se puder e, em último caso, fazer edificações que não choquem com o antigo, antes esteja em harmonia com ele. O patrimônio edificado deve ser o ponto de partida para se pensar o crescimento das cidades e a ocupação contemporânea. Este patrimônio construído interfere no modo de viver das pessoas e por isto precisa ser olhado com atenção.
No caso de cidades históricas, num tempo em que a preservação delas representa mais que a memória do povo, o que por si só já é importantíssimo, somos chamados a intensificar as ações preservacionistas. Cidades históricas bem cuidadas, limpas, com espaços públicos preservados, representam alternativa econômica com importância crescente no desenvolvimento dos povos.  O turismo é um setor importantíssimo da economia que nosso país frequentemente desconsidera e o mal é maior quanto mais significativo é o patrimônio histórico e arquitetônico desprezado.
Este é mais um desafio da cidadania no século XXI, cuidar do espaço público como um lugar de todos nós e fazer a cidade, que é nossa segunda casa, um lugar agradável de viver, um registro das gerações que nos antecederam e uma alternativa de renda que cresce com o turismo e aponta para um futuro melhor para os que chegam.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

CULPA. Selvino Antonio Malfatti.





Estamos vivendo sob a égide da culpa. As pessoas estão se culpando por que não se prepararam mais, não trabalharam mais, não se qualificaram mais. As famílias estão se culpando. Perguntando onde erraram, por que não deram mais atenção ao companheiro ou companheira, aos filhos. Por que só se preocuparam com o trabalho, o dinheiro, o bem estar material? A sociedade se culpa por que não previu o futuro, não se modernizou, descurou de infra-estruturas. A culpa invade nosso organismo social, o imobiliza, engessa e o mata. Ela destrói as famílias quando um lança a culpa no outro. Enlouquece o indivíduo quando não a supera.
A culpa é inerente à natureza humana. Há uma culpa originária que todas as culturas a enunciam. A culpa, a cima de tudo não é uma razão, mas um sentimento. É algo do qual se quer livrar-se. Apesar de alguém ter certeza de que pode ser feliz, não o é porque subsiste o sentimento de culpa. Junto com a culpa vem o remorso que mata por dentro a esperança de felicidade. Por mais que se queira explicar a si mesmo que não há motivo de culpa, ela reaparece enchendo a alma. É como Caim que vaga pelas florestas, corroído pelo remorso pela morte do irmão Abel. Neste caso há uma causa, o assassinato do irmão. E quando sem causa se sente a culpa? Desde que o homem teve consciência de si, sentiu-se culpado.  Por que um pagão como Anaximandro diria que não há culpa maior do que o de ter nascido? Por que Platão diria que a culpa é por não conhecer a verdade? O cristianismo solucionou com o mistério ou mito do pecado original. Assim se podem desfilar os grandes pensadores da humanidade como Rousseau que encontrou na sociedade seu bode expiatório. Se não fosse a sociedade o homem poderia ir ao encontro de seus desejos, satisfazer suas paixões e entregar-se à felicidade da vida, sem culpa. O indivíduo é bom, não tem culpa. A sociedade é má, a culpada.
Nietzsche, na mesma linha, vê na sociedade não só estratégias de controle, mas formas de poder. Há os que querem demonstrar que o mundo não é como deveria ser. Eles dizem aos homens o que devem fazer, como se portar, até mesmo ordenando-lhe agir contra a sua natureza. O próprio Deus seria um desses pretensos idealizadores de felicidade. Embora todos esteja mortos - monarcas, nobres, inclusive Deus -  Mas algo sobreviveu: o sentimento de culpa.
Já Freud tira Deus do céu e o acomoda no coração do homem. Nele faz o papel de juiz, o Superego. Este impõe ao homem um código moral que inevitavelmente é transgredido, engendrando o sentimento de culpa.
E os filósofos da existência, como vêem a culpa. Para Jaspers é uma situação limite, dela o homem não pode furtar-se. Heidegger vê na culpa um modo de ser do ser-aí, uma atribuição substancial do ser humano. Em última análise, em ambos a culpa é um trajeto inexorável. Tudo o que o homem fizer, ele pode ter certeza que será culpado. Se fizer o bem, ou se fizer o mal, ou mesmo se não fizer nada, sentir-se-á culpado. A culpa é a condição humana. E o pior dos paradoxos da culpa: quanto menos culpado se é, mais culpa se sente. Um santo se sente mais culpado que um assassino psicopata.
O que fazer para se livrar da culpa? Diz o cristianismo que a culpa originária pode ser banida pelo batismo. Mas quanto às demais culpas? Por mais que se queira apagar elas subsistem. É como o mito da Hidra de Lerna que, a cada cabeça que Hércules cortasse, nasciam duas. Contudo, se esta é a condição humana de viver acompanhado de culpa, terá que fazer como Hércules: continuar cortando as cabeças até que a última cicatrize.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

A meditação sobre a dignidade. José Maurício de Carvalho





Foi publicado recentemente o livro Pessoa e Dignidade Humana de Urbano Zilles, pela CRV de Curitiba. A obra examina o que a tradição culturalista brasileira considera seja o valor nuclear da cultura ocidental cristã: a pessoa humana. O livro é de cunho filosófico, mas o autor se vale da condição de sacerdote e teólogo conhecedor do debate que sobre o tema realizaram os pensadores cristãos para complementar sua investigação filosófica. A obra originou-se num curso oferecido no programa de pós-graduação em Filosofia da PUC/RS.
Não parece que há um tema tão atual e necessário para nosso país onde o noticiário estampa quotidianamente crimes contra a pessoa em números assustadores. Não há nada tão atual num mundo onde o terrorismo atua desrespeitando os direitos fundamentais do homem, notadamente o de viver, o primeiro deles. Estamos ainda perplexos com as bombas que mataram três pessoas e feriram dezenas durante a Maratona de Boston na semana que passou. Embora nesta altura ainda não se saiba os motivos, sabe-se que o ato foi executado por dois jovens de origem russa, mas que viviam há décadas nos Estados Unidos.
O que se apreende no livro de Zilles é que os conceitos pessoa e dignidade “não são empíricos, mas situam-se na dimensão espiritual” (p. 7). Dimensão espiritual, esclareça-se, é o lado de dentro do Homem. Conforme ele explica: “o ser humano não existe sem a dimensão empírica, mas não se reduz a ela” (idem, p.7). Justo por isto, a ciência, olhando-o como poeira cósmica ou um ente minúsculo num planeta ínfimo localizado num canto qualquer de um universo em expansão, ou ainda, vendo-o como um complexo mecanismo biológico, não fornece elementos para justificar sua dignidade. Além disto, o humanismo ocidental encontra-se sob suspeição de modo que é necessário repensar a condição humana para justificar a dignidade da pessoa. Para fazê-lo, Zilles recupera o exame do problema recordando o que se pensou sobre o assunto na tradição filosófica do ocidente. Ele esclarece que a Ética aprofundou o exame do problema lembrando que “ampliamos o conceito de pessoa, considerando pessoas aos bárbaros, aos índios, aos negros, às mulheres, aos deficientes físicos, aos gays, enfim, aos diferentes” (p. 11). No entanto, considerar todos os homens pessoas não é posição unânime entre os filósofos, bastando lembrar o que pensam Peter Singer e H. T. Engelhardt. Este último diz que “alguns membros de outras espécies de animais são pessoas e alguns da espécie humana não o são” (idem, p. 11). Reintroduz-se assim o conceito excludente de pessoa já existente em outros tempos. O autor considera que as imagens de homem elaboradas na cultura ocidental: a filosófica, a teológica e a científico-biológica, embora distintas, “não se excluem mutuamente quando entendidas adequadamente” (p. 13). Estes seriam os elementos nucleares da obra.
O livro de Urbano Zilles é coerente com sua trajetória intelectual de pensador católico para quem o tomismo é tomado como perspectiva ou instrumento de diálogo com o mundo moderno. Neste mundo os filósofos se defrontam com assuntos científicos e técnicos e não podem deixar de reconhecer a força destes elementos culturais, embora muitas vezes eles sejam insuficientes para o esclarecimento de temas como a dignidade humana. Para o assunto, ele mostra, mais contribuíram os filósofos e teólogos cristãos. Desta forma, ao reconstituir o debate sobre a dignidade, o autor o fará sem preconceitos, destacando o contributo dos teólogos cristãos e dos filósofos. Destaque-se como prova do que se disse acima o destaque que ele dá ao legado de Kant e Husserl para a Ética, a reconstrução histórica do debate sobre a dignidade humana e, especialmente, o esforço de situá-lo nos marcos da natureza e da cultura. 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

DIA DO TRABALHO. José Maurício de Carvalho.





O mês de maio que entra na próxima quarta-feira começa todos os anos com as comemorações do Dia do Trabalho. Escrever sobre o trabalho é tocar num aspecto nuclear da vida. Muitas vezes se dá pouca importância a ele, mas uma das maiores dificuldades da vida é perdê-lo. As manifestações e protestos na Europa estão aí para lembrar esta verdade. No plano individual o trabalho é meio de assegurar a sobrevivência, mas o trabalho é mais que ganha pão. Quando iniciou o trabalho o homem começou verdadeiramente a mudar a vida e sua história. No momento em que os primeiros objetos segurados pela mão humana passaram a ser instrumento de trabalho, eles abriram a inteligência a novos desafios: estimularam a criação do símbolo e da linguagem e eles transmitiram pensamentos e favoreceram a comunicação.
Comunicando o homem saiu de seu mundo interior e partilhou com os outros sua perspectiva de vida. O trabalho é base da cultura, tudo o que o homem objetiva para fazer a vida mais interessante e melhor, não importa se é entalhar uma porta, levantar um muro, plantar um jardim, preparar a refeição, projetar uma casa nova, varrer, espanar, escrever livro ou poema, tratar doenças, fabricar, comerciar, ensinar, tudo se faz com o trabalho. Não há trabalho sem importância. O trabalho é fundamental não apenas porque fornece o provento, mas porque permite a dupla transcendência de vencer os limites da natureza e do tempo. O trabalho muda a face da natureza e o futuro do homem. Nada é tão importante para a existência entendida como tarefa do que estas transcendências.
Por isto nada é mais inadequado ou mal colocado do que falar do trabalho como castigo. Quando sentimos a presença de Deus em nossa vida o trabalho é um convite do criador do mundo para participarmos de sua obra. Deus criou o mundo e o deu ao homem, mas não o deu pronto, não queria uma criança, mas um parceiro. Entregou-lhe um mundo por fazer, para ser mudado, embelezado. É bobagem achar que Deus castiga, pior ainda julgar que o faz pelo trabalho. O que foi dito mostra o nível atual do desafio humano. Trabalhar para mudar a face do mundo, para fazer história, para torná-lo mais belo e limpo, para prover a sobrevivência, promover o desenvolvimento sustentado e participar da obra da criação. É o trabalho o caminho para o enriquecimento legítimo e o que mais promove satisfação com a posse de bens. É ele que faz a casa que construo ter valor, o carro ser mais que um objeto de transporte e o remédio mais que o alívio da doença. O que se paga com o resultado do trabalho é parte de mim, entra na minha vida de maneira diferente do que o que me alcança por acaso ou ilegitimamente.
Embora o trabalho seja tanta coisa neste primeiro de maio enxerguei uma dimensão poética no trabalho quando vi o maestro João Carlos Martins reger a orquestra do Sesi na cidade de São Paulo. O homem passou por nova cirurgia para continuar trabalhando, mesmo podendo parar. O regente franzino tornou-se gigante diante da orquestra, emocionando mais uma vez a multidão. Ele faz o trabalho ser não só tarefa consciente, uma escolha, mas algo lúdico, ato supremo de criação, concretização de uma vida boa. Enquanto ecoava pelo parque os sons da nona sinfonia de Ludwig Von Beethoven (1770-1827), a orquestra do Sesi e seu artista maestro fizeram a vida expressão de beleza incomparável e o trabalho celebrar emoção e alegria de viver.
Um primeiro de maio para encher a alma humana de poesia, esperança e confiança no futuro. Um primeiro de maio de um regente poeta que não para de trabalhar.

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