sexta-feira, 12 de julho de 2024

Por que ler Bauman. José Maurício de Carvalho.

 


                                                 Friedrich Wilhelm Nietzsche

Uma questão que se nos apresenta desde que temos contato com um autor é: o que ele traz? O que ele comenta e como o faz? Nós falamos de um dos clássicos da Sociologia contemporânea, mas as repostas de Bauman para a crise de cultura ou as dificuldades de nosso tempo vão para muito além da Sociologia. Há dois campos em que suas questões logo dialogam, com a Filosofia e com a Economia. Talvez ainda haja um terceiro campo por onde passam seus estudos, a Psicologia.

Entendemos que os grandes intelectuais têm com seu tempo um compromisso vital, entendê-lo, decodifica-lo e apresenta-lo aos contemporâneos. O que o tornará um clássico é a qualidade do conteúdo que oferecerá na compreensão dos seus dias, dos seus problemas e de como eles dialogam com as grandes questões humanas. E não há como começar a entender Bauman se o percebemos acompanhar a enorme quantidade de intelectuais que se debruçaram com o tema da crise de cultura. Vivemos um tempo de crise, dias diferentes de quando a humanidade caminha serena em suas rotinas.

Desse entendimento partilham intelectuais de várias áreas como filósofos, historiadores, sociólogos, antropólogos e de tantas outras. E se são unânimes na identificação da crise, divergem, contudo, na sua leitura e explicações dela. Alguns dos mais conhecidos são Ortega y Gasset e seu estudo das massas, Vilém Flusser e seus estudos sobre os campos de concentração, Max Scheler e suas considerações sobre valores, Karl Jaspers e Viktor Frankl sua avaliação sobre a falta de sentido da vida; ou talvez de uma autenticidade, diria metafisicamente Martin Heidegger; provavelmente também uma crise de como entender e viver a liberdade diria Jean Paul Sartre; do que fazer na história disse Kierkegaard; de um mundo sem valores absolutos, dissera Nietzsche; ou que deixou de considerar Deus, retificou Martin Buber.

Bauman enxergou na raiz da crise a existência de profundas alterações no mundo econômico e as próprias dificuldades do capitalismo globalizado. De um lado há problemas econômicos o que significa que o dinheiro virou variável independente, o trabalho foi reduzido a mercadoria deixando se ser elemento na relação intersubjetiva, a desterritorialização do capital, tornou frágil os governos nacionais reduzindo o estado de ação do Estado do bem estar social.  Por isso, a relação dos cidadãos com o Estado ficou fragilizada, porque esse não consegue lhe oferecer com qualidade aquele mínimo que ele se acostumou a ouvir ser obrigação do Estado. As guerras e disputas locais provocaram o deslocamento de milhões de pessoas pelo mundo, tornando gravíssimo o deslocamento migratório de grande quantidade de pessoas. E a presença do estrangeiro em grande quantidade passou a ameaçar a organização social e ser usado pelos políticos de direita como sendo a causa das grandes dificuldades da sociedade, mesmo quando claramente não o é.

E esse mundo em transformação acelerada afeta a vida das pessoas e torna a existência subjetiva um desafio de sentido, isso porque a sociedade de consumo estimulou tratar as dores e dúvidas da existência fora de um esforço pelo sentido. Sem qualificar a rotina a pessoa passa a nela viver apenas o gozo irresponsável apontado pela sociedade na distração e do consumo. Em certo sentido esse é um quadro que veio se desenhando há mais de um século e que se acelerou desde o final do último século. Porém já encontramos notícias desses assuntos na conhecida obra de Friedrich Nietzsche, Assim falou Zaratustra onde o filósofo antecipou a antítese entre o homem que tomava a vida nas mãos e o contrário dele, o hedonista irresponsável ou o niilista arquetípico que nada faz de notável, não aceita correr riscos e busca apenas conforto na rotina, gozo consumista e segurança.

A sociedade de massa e de consumo de nossos dias ajuda a promover esse novo hedonismo. Ela orienta a forma de viver: sente a vida vazia? Consuma! O reflexo consumista é melancólico identifica o desafio existencial, os medos e a finitude e os reduz a sentir vazio, frio, deprimido e o combate com a necessidade de encher o íntimo de coisas quentes, ricas, prazeirosas. Claro que as indicações de consumo são amplas, não se limitam a alimento (pode ser roupa, passeio, distração em geral, sexo irresponsável, relações efêmeras, tudo o que apenas distrai e não tem razão maior). O resultado de tal vida é que estamos vendo crescer pelo mundo: a depressão, o medo, a insegurança, consumo de drogas, ou ainda um conservadorismo anacrônico que procura voltar a costumes e antigos padrões existenciais que não respondem mais aos novos desafios. A questão é que essa proposta redunda em amores líquidos, relações sem consistência, além da tristeza, infelicidade, nervosismo, insônia, como descreveu o psiquiatra Viktor Frankl. O simples atendimento do desejo não resolve a questão existencial, o desejo quer gozar. Assim cada desejo satisfeito acende outro numa aspiral crescente e acelerada, alimentando a ansiedade e, no fundo, a insatisfação com a vida se a tanto ela se limita.

E o que nos permite pensar as considerações de Bauman sobre a crise de cultura, as soluções propostas e os dilemas que elas abrem? Que o encontra-se como sempre esteve preso ao mundo material e dos prazeres que ele necessita para viver, mas não lhe oferece sentido. Esse mundo o domina e aniquila, deixando-o na solidão, na depressão, na insegurança, no tédio que se segue ao prazer e na ameaça de se perder nas coisas, de se tornar uma coisa entre tantas. Fica-nos o desafio do sentido, das buscas de um ente que se descobre em movimento, mas que é preciso se abrir a coisas maiores entre os desafios banais do que fazer no dia a dia.

Então vemos reaparecer os alertas que a filosofia fez nos últimos tempos. Não há como fugir do mundo e de seus desafios, mas a forma como se faz isso faz toda a diferença. Sem abertura a algo maior, a pessoa fica na sua limitação e infelicidade. E sem se questionar sobre o que há, sem encontrar um sentido para o ordinário, fica-se no muito limitado. Tenho que encontrar um sentido pessoal, mas há referências culturais que não se pode desconhecer, que não se pode perder. Elas ajudam na qualificação da vida. A cultura me oferece a Ciência, a Filosofia, a Religião, a Arte e preciso apanhar na cultura o que meu tempo tem a dizer de cada um desses elementos. Somente assim consigo me orientar e estar à altura do meu tempo. Desses aspectos culturais a Filosofia abrirá um diálogo com a transcendência no espaço da razão e nos ajudará a superar esses dilemas.  Caberá a cada um buscar apoio e conhecimento em cada uma das grandes construções culturais.

 

 

sexta-feira, 5 de julho de 2024

MAIS QUE UMA ELEIÇÃO FRANCESA. Selvino Antonio Malfatti.

 

                                Emmanel Macron e Marine le Pen


Sou Marine Le Pen, do Rassemblement National (Reagrupamento Nacional) e eu Daniel Macron do Renascimento . Pelo barulho na imprensa as eleições em França causaram uma comoção nacional. São lamentações, imprecatórios, acusações, desacatos, enfim todo tipo de desconfortos. O que mesmo aconteceu? A vitória da direita. Sim, da direita. Não era tanto Marine Le Pen, mas a direita ou os vitoriosos. Povo acostumado com a esquerda: greves, aumentos de salários, férias e dias feriados. O povo humilde do campo e da cidade no rigor do trabalho. Estudantes em festas, empresários sobrevivendo, comércio com estoques vencidos, camareiras batendo camas, turismo cheios de promoções. De repente, vence a direita. A expulsão do paraíso e a obrigação do trabalho. Um quadro desenhado para todos entenderem.

Venci estrondosamente a esquerda: 33% por 28%, sem dó. Os jornais buscam os ideais dos republicanos como tábua de salvação. Todos os perdedores terão o dever moral de se unir para o segundo turno. O resultado está claro. Não deixa dúvidas:

Reagrupamento Nacional: 33%

Nova Frente Popular: 28%

Republicanos: 20%

Vejo que a estratégia da esquerda é fazer ver ou sugerir que as eleições francesas não são unicamente eleições francesas, mas está em jogo a União Europeia, o continente, o ocidente. A França foi uma das fundadoras da EU, juntamente coma Alemanha e Itália. É o motor da Europa.

Embora não defenda explicitamente a Frexit, porém, cuidado. Dizem que seu partido, Reassemblement National, tem uma postura clara eurocética, próximo da Rússia de Putin, e atitude dúbia em relação à Ucrânia. O partido promove uma desunião europeia como consequência uma Europa marginalizada. Este é o panorama do cenário do nacionalismo populista ocidental, liderado por Donald Trump. Pede para lembrar a Conferência Nacional do Conservadorismo, que se realizou nos dias 16 e 17 de Abril em Bruxelas, que dizia: “Como ocidentais, não temos apenas o direito, mas também o dever moral de preferir a nossa civilização a todas as outras.» É evidência de xenofobia. David Engels, o líder neoconservador europeu. Defender o Estado Nacional é a proposta da direita. Defender a França da ameaça que a imigração e o multiculturalismo lhe representam.

Antes, a direita de Marine Le Pen era execrada. A partir de 2011 começou o processo de desdiabolização. Expulsou por telefone o pai Jean-Marie Le Pen do partido, um claro parricídio político, mudou o nome do partido, Frente Nacional, para Reassemblement National, para dar a impressão que se tornara um cordeiro inofensivo, privado das garras. A partir daí, Marine com 47 anos, passou a se distanciar do pai, mas manteve as estruturas antigas do partido com postura nacionalista e contra os imigrantes. Agora se apresenta maquiada.

Neste final de semana haverá o segundo turno nas eleições francesas. Se houver vitória de Marine e derrota de Macron, como ficará o poder na França? Dois leques se abrirão: 1º Le Pen faria uma maioria razoável para formar um governo. Teríamos um governo de um primeiro ministro de um partido e o Presidente de outro: uma coabitação. 2º Um Parlamento sem maioria. Consequência, uma acefalia governamental. Provavelmente, após negociações outra coabitação.

Conclui a oposição que as duas situações são péssimas. Tudo vai depender da escolha do eleitorado.

Conclusão

Por isso, para a oposição justifica-se a união das esquerdas para derrotar a direita para o bem da França, da Europa e do ocidente.

Em tempo:

O labour party (Partido Trabalhista), neste final de semana, de esquerda na Inglaterra, alcançou a maioria e, portanto voltará ao poder. É a gangorra da democracia. Super saudável. Só alguns não entendem.

 

sexta-feira, 28 de junho de 2024

OS CATÓLICOS NAS ATUAIS ELEÇÕES EM FRANÇA. Selvino Antonio Malfatti.

 

A semana de 6 a 9 de junho ocorreu as eleições para o Parlamento Europeu. O grupo de Centro Direita- O Partido Popular Europeu (PPE)- é o maior e o mais antigo grupo político no Parlamento Europeu. Fundamentalmente é originário do Partido da Democracia cristã, presente na maioria dos países europeus, após a democratização do após Guerra. 

Nesta eleição o partido, de Emmanel Macron, Renascimento, foi um perdedor.  Macron ficou tão furioso com a derrota contra sua rival Marine Le Pen que dissolveu o parlamento francês e convoca novas eleições para julho. No espectro político francês e dentro da direita destaca-se o segmento dos católicos.

O resultado das eleições pode levar a três situações:

1.   Emmanel Macron, do partido Renascimento, misto de direita e esquerda, vence as eleições com maioria absoluta. Neste caso reconduz seu primeiro Ministro Gabriel Attal. No entanto é muito improvável, pois tem pela frente o partido de Marine le Pen, Rassemblement National, e a coligação da .esquerda,  Nova Frente Popular.

2.   Macron vence com maioria relativa. Deve apelar para alianças.

3.   Nenhum partido obtém maioria. Indefinição total.

4.   Um terceiro partido obtém maioria. Neste caso Macron deverá deixar o partido vencedor formar o ministério. Será a “coabitação”.

È neste contexto que o eleitorado católico precisará decidir entre os principais partidos: quatro principais partidos políticos em disputa – Nova Frente Popular, Ensemble, Les Républicains e Reagrupamento Nacional – e seus 577 candidatos.

Lidera a pesquisa do Ifop-Fiducial o Reagrupamento Nacional (RN) Marine Le Pen com 36,5%, em segundo vem Nova Frente Popular (NFP) com 29%, o Ensemble com 20,5% (do presidente Macron), e os Republicanos com 7% das intenções de votos.

Nas eleições europeias de 2024 o eleitorado católico mostrou-se disperso e radicalizado, oque contradiz sua postura habitual de avesso aos extremismos, mas mudou na última década. Estudos recentes como dos sociólogos Guy Michelat e Michel Simond, demonstram estas mudanças. Algumas conclusões são significativas: nem todos os católicos votam como católicos (a fé não determina o voto). Isto só acontece com os católicos praticantes (frequência à missa) e 70%, são de direita, isto é, do governo, herdeiros do gaullismo e da “democracia cristã”. Formam um grupo de oposição à Frente Nacional. Os católicos não praticantes preferem o lepenismo, seguidores de Marine le Pen, da extrema direita.

A maioria dos católicos foi de direita. Com isso atuaram como estabilizadores e moderadores na política dentro da direita europeia. Parece, porém, que as escolhas políticas dos católicos estão mudando. Agora se alinham ou á extrema direita ou extrema esquerda. Isto devido em parte ao crescimento do islamismo. Os líderes Le Pen, Zemmour, Dupont-Aignan e Lassalle, de direita, obtiveram 42 % dos votos expressando um claro protesto. Uma atração especial imanta nos católicos pelo partido Reconquete!, de extrema direita, liderado por Éric Zemmour. Teme a substituição da raça branca cristã da França pelos árabes e sua religião.

Conclusão.

Nem os católicos de direita, nem os de esquerda votarão em Macron, mas dispersarão os votos na direita.

 

RESULTADO DE 9 DE JUNHO:

RN - Rassemblement national       31,37%

Besoin d'Europe - Coalition Besoin d'Europe (Renaissance, Modem, Horizons, Parti Radical, Union des démocrates et indépendants)     14,60%

Réveiller l'Europe - Coalition Réveiller l'Europe (Parti socialiste, Place publique)     13,83%

LFI - La France Insoumise      9,89%

LR - Les Républicains    7,25%

LE - EELV - Les Écologistes - Europe Ecologie Les Verts 5,50%

La France fière - Coalition La France fière (Reconquête!, Centre national des indépendants et paysans)       5,47%

Gauche Unie - Coalition Gauche Unie (Parti communiste français, Gauche républicaine et socialiste)        2,3

 

 

                                      

 

 

 

                            

 

 

 

 


sexta-feira, 21 de junho de 2024

RESULTADO DAS ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU. Selvino Antonio Malfatti

 


No mundo atual podemos identificar agremiações políticas como grandes blocos: Oriente e Ocidente. Neste último os mais importantes são a União Europeia, Mercosul, OTAN entre outros. O Brasil fica no Ocidente, pertence ao Mercosul e a OTAN.  Com a União Europeia possuímos vários tratados e herdamos sua cultura. Por isso interessa sobremaneira o resultado das eleições para seu Parlamento cujas decisões irão repercutir no nosso país. 

ELEIÇÕES PARA O PARLAMENTO EUROPEU

Nas eleições europeias para o Parlamento não há partidos políticos, mas grupos políticos. Os eleitores votam nos partidos de seus países que apoiam os grupos políticos europeus. Exemplo: se no seu país há o partido popular e o eleitor vota nele está votando no grupo político do Partido Popular Europeu. O eleitor vota num partido nacional que apoia o grupo transnacional. Aqui no Brasil denominamos de alianças de partidos, mas na Europa são grupos políticos.

1.   SITUAÇÃO DOS GRUPOS POLÍTICOS NO PARLAMENTO EUROPEU

 

PPE -186 cadeiras

S&D- 135 cadeiras

RE-79 cadeiras

ECR-73

ID-58 cadeiras

Verdes/ALE-53 cadeiras

NA-45 cadeiras

The Left-36 cadeiras

Outros

2.   RESULTADO DAS ELEIÇÕES

PPE - Ganhou 10 cadeiras

S&D- Perdeu 4 cadeiras

RE- Perdeu 23 cadeiras

ECR- Ganhou 4 cadeiras

ID-Ganhou 9 cadeiras

Verdes/ALE - Perdeu 18 cadeiras

NA- Perdeu 17 cadeiras

The Left - Perdeu 1 cadeira

Outros

1.   PROGAMAS DOS GRUPOS POLÍTICOS

Abaixo apresentamos os programas dos grupos políticos. Muitas vezes o grupo tem programas iguais ao do Brasil, mas o sentido não é o mesmo. Para nós a segurança é interna, para eles é externa, ameaças à paz. Para nós as prioridades são: saúde, educação e segurança. Na Europa é segurança, paz e clima.

As eleições não foram unanimemente em todos os países no mesmo dia. Ocorreram de 6 a 9 de junho, no horário estabelecido por cada país. A maioria foi o dia 9 de junho.

O total de deputados é de 751. A distribuição é feita pelo critério da população. A Alemanha mais populosa tem 96 cadeiras. Os grupos políticos variam em número de eleição para eleição. Nesta foram oito, como a cima citados.

2.   RESUMO DOS PROGRAMAS DOS GRUPOS POLÍTICOS EUROPEUS.

1.   Partido Popular Europeu

O Partido Popular Europeu (PPE) é o maior e o mais antigo grupo político no Parlamento Europeu. Fundamentalmente é originário do Partido da Democracia cristã, presente na maioria dos países europeus, da democratização do após Guerra.

PPE – que agrupa os partidos democrata-cristãos, liberais e conservadores em países europeus – tem 176 eurodeputados e o alemão Manfred Weber como presidente.

No centro do programa eleitoral do grupo estão três eixos fundamentais: migração, clima e defesa.

2. S&D - Aliança Progressista dos Socialistas e Democratas, presidido por Iratxe García Pérez, é o segundo maior grupo do Parlamento. Ocupa 139 lugares

- O programa do S&D centra-se na igualdade social e ambiental, focando-se em temas como o fornecimento de energia renovável e acessível, o combate à fraude fiscal, fornecimento de habitação a preços acessíveis e eliminação das disparidades salariais entre homens e mulheres.

3. RENOVAR EUROPA - Valérie Hayer, deputada francesa do partido de Macron, como presidente. composto pelo Partido da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa e pelo Partido Democrata Europeu. O partido Renascimento, de Emmanuel Macron. Possui 102 deputados

- A segurança e a defesa estão entre as prioridades do partido

- tornar a UE mais eficiente e financeiramente sólida.

3. VERDES/ALIANÇA LIVRE EUROPEIA

- Os Verdes/Aliança Livre Europeia é uma coligação de quatro partidos liderada por Philippe Lamberts e Terry Reintke. Atualmente estão representados no Parlamento Europeu por 72 deputados de toda a Europa.

- justiça climática e ambiental, o partido tem um Acordo Verde e Social para a Europa e aponta à neutralidade carbónica até 2040.

4. CONSERVADORES E REFORMISTAS EUROPEUS

- Fazem parte do ECR forças políticas como os Irmãos de Itália, o espanhol Vox, o Partido Lei e Justiça, da Polónia, entre outros partidos associados a movimentos conservadores e nacionalistas.

- O grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) tem 68 deputados de 17 países da UE, sendo o quinto maior grupo no Parlamento. Ryszard Legutko copreside ao grupo com Nicola Procaccini.

- O ECR defende a soberania nacional, descentralização do poder - considera que os Estados-membros devem ter autonomia na tomada de decisões.

5. ID-IDENTIDADE E DEMOCRACIA

- partido conta com 59 deputados. O seu presidente é o italiano Marco Zanni.

- conta com eurodeputados de oito Estados-membros, sendo a maioria proveniente do partido de extrema-direita italiano Liga Norte e do francês Rassemblement National.

6. O CHEGA, caso eleja eurodeputados,

- redução da imigração,

7. ID

- reforço dos controlos fronteiriços.

- cooperação europeia se baseie em “nações livres e soberanas”. O grupo não adotou nenhum manifesto e é omisso relativamente a propostas climáticas e ambientais.

8. GUE/NGL- ESQUERDA UNITÁRIA EUROPEIA/ESQUERDA NÓRDICA VERDE

-reúne 37 deputados

- Martin Schirdewan e Manon Aubry copresidem

- políticas dos trabalhadores, o ambiente, o feminismo, a paz e os Direitos Humanos.

4. QUEM GANHOU EM QUEM PERDEU.

O grupo político de centro-direita é o grande vencedor. Os dois grandes perdedores são extrema esquerda e estrema direita. Individualmente perdedor foi Macron da França e o vencedor foi Meloni da Itália. Macron ficou tão furioso com a derrota contra sua rival Marine Le Pen que dissolveu o parlamento francês e convoca novas eleições para julho. Mas as projeções do resultado não são nada boas, pois seu partido rival Rassemblement National prevê 32% dos votos enquanto seu partido Renascimento não chegará a metade. Isto tudo às vésperas das Olimpíadas. Dará o filme Tubarão?

Ao contrário da França a presidente do Conselho de Ministros da Itália, Giorgia Meloni, é só sorrisos. Venceu com seu partido conservador Irmãos da Itália, subindo como líder europeia.

Da mesma forma que em outros países, na Alemanha venceu a direita com ampla margem. O Partido Popular Europeu obteve 30 cadeiras, Renovação 8 e os Verdes 16.

Na nossa pátria-mãe, Portugal, o Partido Socialista foi o mais votado com 32% elegendo oito eurodeputados e Aliança Democrática obteve 31%, com 7 deputados.

CONCLUSÃO

Em quase toda a Europa os resultados privilegiaram o centro-direita.

 

 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Um capítulo curioso da modernidade líquida José Mauricio de Carvalho

 






Vamos tratar, neste texto, do impacto que a crise de cultura teve na vida sociopolítica do ocidente. Sabemos que o Estado Moderno se consolidou depois de forte empenho de seus líderes centrais. Como parte da consolidação do poder centralizado firmaram-se inicialmente padrões de medida, distância, superfície e volume que promoveram a uniformização de procedimentos necessários à centralização conduzida por monarcas absolutos. Essas práticas serviram para dar uniformidade de procedimentos em benefício da administração central.

A atuação do Estado precisava ter uma padronização capaz de assegurar homogeneidade de procedimentos para promover uma atuação uniforme do poder central em todo o território. Por isso, Bauman comentou no livro Globalização que (Rio de Janeiro: Zahar, 1999, p. 37): “o que estava em jogo na principal batalha dessa guerra era o direito de controlar o ofício cartográfico.” Esse controle significava que o poder central precisava que fosse reconhecida sua interpretação das fronteiras contra qualquer outro entendimento que dele retirasse parte de seu território ou o colocasse fora de sua administração. Isso fazia todo sentido dentro do propósito de centralização do poder contra uma forma de poder regionalizado ou feudal que vigorou durante a Idade Média.

A diferença de representação do território significava a afirmação do poder central, em detrimento da perspectiva dos cidadãos e significava a afirmação de um olhar sobre todos os outros. E a diferença precisou ser superada à força, pois (id., p. 39): “nem toda criatura humana ocupa o mesmo lugar e, portanto, contempla o mundo da mesma perspectiva, nem todas as visões se equivalem.” O esforço de imposição da visão do poder central permitia superar as diferentes perspectivas que produziam os diversos modos de representação do território.

A centralização do poder pode ser identificada com o processo de modernização, que significava tornar hegemônica e eliminar toda representação do espaço que não aquela do monarca absoluto. Assim, o processo consistia em impor que a leitura do espaço fosse feita a partir do mapa oficial e não o contrário, isto é, deixar que a representação do espaço fosse elaborada a partir de olhares locais.

A construção dos Estados pela implantação de um plano de centralização e racionalização administrativa acabou sendo projetado também para as cidades. Técnicos e governantes criticavam os urbos espontâneos da Idade Média e propunham como alternativa as cidades planejadas, conforme um código já existente no século XVIII que estabelecia, na reprodução feita por Bauman, que (id., p. 43): “serão erguidos armazéns públicos para guardar todas as provisões necessárias e com salas de reuniões públicas – tudo uniformizado e de aparência agradável. Fora desse círculo serão dispostos regularmente os distritos urbanos – todos do mesmo tamanho, de forma similar e divididos por ruas iguais.” 

Os habitantes dessa cidade teriam habitações conforme suas ocupações e responsabilidades, formando quarteirões mais sofisticados que outros, embora todos assegurando a dignidade dos moradores. A organização da cidade precisava considerar também as funções de trabalho, vida doméstica, compras, culto, esporte, etc. Quanto ao lixo humano produzido, a saber, velhos improdutivos, doentes em geral, pessoas com transtornos mentais, eles serão recolhidos em instituições próprias e isoladas das cidades. Todo esse esforço de controle e planejamento não tinha correspondência com a realidade existente.

O esforço descrito significava um novo planejamento da vida social e política pela razão, como ocorria em outras partes da vida cultural. Temos um esforço moderno para racionalizar a criação e uso do espaço nacional e urbano, inclusive dele afastando o lixo humano. Esse esforço foi confirmado no século passado com a arquitetura moderna onde nomes célebres como Le Corbusier ratificaram a proposta de planejamento urbano e (id., p. 49): “proferiu uma sentença de morte contra as cidades existentes – refugo podre de história rebelde, descuidada, infeliz e urbanisticamente ignorante.”

A crise que assistimos alcança essa área da cultura devido a grandes mudanças na vida social com a globalização da economia e, paradoxalmente, com o fechamento das fronteiras nacionais a migrantes vindos de áreas de guerras ou pouco desenvolvidas constantes nesse momento da história. O afastamento dos setores produtivos da realidade local retirou o compromisso da elite econômica com os problemas do povo, esse permaneceu, ao contrário, vinculado aos locais onde habita. Por outro lado, o enfraquecimento dos processos econômicos minou a sustentação do Estado do Bem estar social e promoveu a ascensão da extrema direita em diversos países do mundo ou mesmo na União Europeia como acaba de ocorrer.

 

sexta-feira, 7 de junho de 2024

PECADOS E VIRTUDES. Selvino Antonio Malfatti.

"O riso mata o medo, e sem medo não pode haver fé. Aquele que não teme o demônio não precisa mais de Deus". Umberto Eco.

O Papa Francisco se ocupou dos pecados durante várias ocasiões como na audiência de 28 de fevereiro.  Analisou várias ações consideradas pecados pela teologia católica e algumas igrejas cristãs como a ortodoxa e anglicana. A homilia veio a propósito da acusação de alguns membros do clero de se envolverem em atos libidinosos. Talvez o papa quisesse mudar o foto dos escândalos do clero para uma simples reflexão. Conforme ele há dois pecados principais. Mereceram por diversas vezes a desaprovação do papa: inveja e à vanglória. Mas em várias ocasiões faz alusão a sete pecados capitais. 

Esta religião se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade a qual exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na consciência e na sociedade. Do pecado provém a culta. Mas o que é a culpa? É um sentimento individual ou coletivo de uma ação ilícita.

O cristianismo apresenta como causa da culpa o pecado dos primeiros seres humanos. A filosofia se perguntaria: mas culpa de quê? De seres semi-humanos recém emersos da evolução, semirracionais, sem noção de moral? Que pecados poderiam cometer? Desobedecer a Deus? Pobres e coitados humanos! E mais, esta culpa passa de geração em geração. O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não sou culpado porque então sou culpado?

Este é o pecado original, origem da vulneração da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

O pecado original deu origem aos desvios sociais e a culpa individual. Embora a teologia cristã contrapôs aos pecados as virtudes, a ênfase maior incide sobre os pecados. Não eram as virtudes que brilhavam, mas o lusco fusco dos pecados que davam o rumo do convívio social e comportamento individual. Na vida social não eram os santos que sobressaíam, mas os pecadores. Disso decorreu o paradoxo do pecado: in ligno vincebat, in ligno quoque vinceretur  ( -o pecado- vencia na cruz e pela cruz seria vencido).

A Igreja cristã selecionou 7 pecados capitais e as virtudes 

1. Com soberba/humildade.

Individualmente é uma pretensão de se considerar superior aos demais. Isto se manifesta no comportamento social do soberbo em relação aos semelhantes: desprezo, arrogância, humilhação. O antídoto seria a humildade que é o agir com simplicidade.

2.      Avareza/pobreza

Apego desordenado aos bens matérias, como dinheiro, terras, capitais. O avarento se torna sovina, mesquinho e sórdido. A pobreza não significa a ausência absoluta de bens. A pobreza é um estado de espírito: desapego, simplicidade, frugalidade. Pode existir um pobre avarento como um rico pobre. 

3.      Impureza/pureza

O cristianismo na idade antiga e média dava ênfase ao ascetismo nas relações carnais. Dizia-se que era preciso submeter os desejos da carne. Por isso, era necessária a renúncia e limitação dos desejos para se alcançar a graça de Deus. A Idade Média encarnou todo este ideal na meta da mortificação da carne. Daí que as virtudes desejadas eram a castidade, abstinência, celibato entre outras.

4.      Ira/mansidão

Um dos conceitos mais intensos atualmente é o ódio. É um sentimento permanente contra tudo de mágoa e rancor. Muitas vezes não tem uma causa identificada, pois é uma atitude agressiva permanente. Seu antônimo na virtude é brando, pacífico, meigo. Mostrar-se sempre submisso, acatar ordens de todos não chegará a assustar ninguém. 

5.      Gula/temperança

É considerado um vício de quem bebe ou come demasiado, embora satisfeito, continua comento ou bebendo ó pelo prazer. Seu reverso, a virtude, é a moderação, parcimônia, meio termo, equilíbrio. Significa também prudência, comedidamente. 

6.      Inveja/generosidade.

Sentimento doentio de ciúme para com alguém que possui algo que ele não tem e gostaria de ter. A virtude da generosidade se manifesta no desinteresse, fazer o bem sem esperar retorno. Se ninguém se dispuser a querer ser melhor que outros, tirar-lhe vantagens, mesmo despojando-o não haverá maior ou menor. 

7.      Preguiça/trabalho

É um dos pecados que recebeu maior ênfase do pontífice. O pecado da preguiça é falta de vontade de trabalhar e não tomar atitude para realizar tarefas ou trabalhos. Deixar tudo como está. A ética do labor coloca o trabalho como prioridade de vida.  Através de um ethos de vida. Nada de gozar a vida com o dinheiro ganho ou os bens adquiridos. Gastar somente o necessário para sobrevivência. A orientação é ser prudente e diligente. Afastar a preguiça, pois tempo é crédito para conseguir graça de salvação. Combate-se a preguiça pelo trabalho.

A meta do cristão é posicionar-se ao oposto do pecado: sede santos como vosso pai do céu é santo. 



sexta-feira, 31 de maio de 2024

O DNA BRASILEIRO. Selvino Antonio Malfatti

 



Qual a tua identidade no mundo como brasileiro? És americano?  Sul-americano? Latino? Como és visto pelos outros que não são brasileiros? Quando se encontram juntos franceses, ingleses, espanhóis, italianos, portugueses o que tem de comum entre si? Consideram-se europeus. E se juntassem argentinos, brasileiros, chilenos, uruguaios o que considerariam terem em comum? Sul-americanos? Sentir-se-iam orgulhosos de serem sul-americanos?

Numa ocasião que estive na Europa percebi que ao se juntarem algumas nacionalidades a palavra que se ouvia era: somos europeus. Na América latina só uma vez ouvi em Buenos Aires de um garçom: somos do Mercosul. Em outras ocasiões cada um se representava pelo seu país.

Isto evidencia a não existência de um eu comum na América e menos ainda na América Latina.  Individualmente se identifica como brasileiro, argentino, chileno etc. E por que isto? A hipótese é que houve uma ruptura com a pátria-mãe e por isso se desvinculou da raiz a que pertencia: a Europa. Não podemos ser europeus, mas nem por isso nossa matriz histórico-cultural não seja a Europa. Claro que não somos europeus, mas herdamos sua cultura. Numa abrangência mais ampla a Europa é ocidental. Sugiro, por isso que nos identifiquemos como ocidentais. O que nos une como ocidentais? Não é a geografia, não é a língua, não é a nacionalidade, mas a cultura. È um DNA axiológico que remonta à Grécia antiga como, uma economia de mercado, uma ordem jurídica e um regime político democrático. Estes três valores atravessaram os séculos, sobreviveram às guerras na Europa e migraram para as novas terras através dos descobridores europeus. Temos um liame cultural com a Antiga Grécia de Sócrates, Platão e Aristóteles, Homero, Heródoto, Tucídides, Eurípides ou Sófocles. O poeta e escritor Paul Valéry divisou os valores dos pensadores gregos: “Devemos-lhe a disciplina do Espírito (…). Devemos-lhe um método de pensamento que tende a relacionar todas as coisas ao homem, ao homem completo. » As invasões dos bárbaros que fragmentaram o império romano, não destruíram suas raízes culturais. A influência do Cristianismo assimilou a cultura grega e  conseguiu um centro de poder na Europa e devido a isso não  foram sepultados aqueles valores. Há de se destacar o papel dos mosteiros cujos monges copiavam e difundiam a cultura grega, logo após conhecerem Aristóteles através do árabe Averrois. As ordens religiosas eram transnacionais e intercambiavam a cultura.

Os valores adormecidos germinaram pelo Renascimento e tomaram vigor no Iluminismo, nas universidades europeias, Bolonha, Oxford. O Iluminismo inicialmente uma esnobação em cafés, salões e lugares de emulação intelectual, a "belle èpoque". Desde um demolidor Voltaire até o suprassumo da racionalidade Kant discutiam-se os valores relacionados com o homem. Sua obra “A paz Perpétua” é o maior modelo de uma Europa e do ocidente unidos em torno dos valores humanos.

Estes valores atravessaram séculos e mantiveram-se vivos na Europa. Com os Descobrimentos foram estendidos à América e atualmente fazem parte não só da Europa, mas do Ocidente. Como dizia Erasmo de Roterdam: “O mundo inteiro é a pátria de todos nós”, na Querela Pacis. »

Em que pese a península ibérica, Portugal e Espanha, terem ficado à margem do Renascimento, pois seguiram praticando as normas do Concílio de Trento, no período iluminista recuperaram o atraso, introduzindo reformas culturais nas metrópoles e nas colônias como exemplo em Portugal o ministro iluminista Marquês de Pombal. Com isso os futuros países ficaram conectados à cultura do ocidente e por isso mantiveram-se fiéis àqueles valores.

Portanto, nosso DNA brasileiro é dos valores do ocidente europeu.


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