sexta-feira, 27 de maio de 2022

Memória. José Mauricio de Carvalho

 


                             Memoria- Nascimernto do Brasil


 

A Constituição Federal no seu artigo 30 diz que: “compete aos municípios promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local, observada a legislação e ação fiscalizadora federal e estadual.” Compete também porque a União e os estados da federação igualmente precisam proteger os bens reconhecidos como de valor histórico-cultural. Por isso, a Constituição do Estado de Minas Gerais no seu artigo 166 determina que fará e que também cabe aos municípios: “estimular e difundir o ensino e a cultura e a proteger o patrimônio cultural e histórico e o meio ambiente e combater a poluição.”

Todo esse cuidado dos constituintes com a memória tem explicação. Ela é um marco fundamental da cultura, essencial na identidade de uma pessoa e de uma sociedade. Sem memória uma pessoa não tem identidade e um povo não se reconhece. Por isso, os povos cuidam de preservar suas memórias e isso é fundamental, mesmo que alguns não enxerguem isso.

Numa cultura, a memória é armazenada de múltiplas formas. Filósofos, historiadores e outros estudiosos consideram a recepção dos conhecimentos dos antepassados, como escreveu o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser nas Ficções filosóficas (p. 130): o “lugar que liberta dos erros provocados pelas meras aparências.” A preservação da informação é fundamental para todos os povos, e desde que a escrita se desenvolveu tornou-se um meio nuclear de registro dos fatos. Mas esse registro é insuficiente. Os judeus cuidam com carinho da memória oral porque ela é lugar da imortalidade, quem permanece vivo nas histórias narradas torna-se imortal. Os psicólogos, por sua vez, referem-se à memória como base das intervenções libertadoras é necessário lembrar do que nos faz mal para nos livrar dos seus efeitos. Sem a memória, acrescentam, não sabemos quem somos. Na cibernética memória é o lugar de armazenar informações.

Os diferentes campos da cultura mostram que a rememoração dos fatos é fundamental para o homem, para mostrar quem ele é e para abrir os caminhos do futuro. Por isso, tornou-se essencial guardar e reproduzir informações. Sem o adequado armazenamento o registro se perde e isso é indesejável para todas as culturas. E, a experiência vai mostrando que o registro da memória se faz em códigos de escrita e em códigos cibernéticos, mas também por outras formas. Flusser na obra Bodenlos: uma autobiografia filosófica observou que quando se emigra até os alimentos que se tinha na terra natal ganham destaque na recordação e o vocábulo que melhor qualifica a lembrança daqueles cheiros e gostos é (p. 298): “a palavra portuguesa saudade.”

Os primeiros grupos humanos guardavam suas informações em objetos, mas era pouco. Então construíram os monumentos, mas eles também não armazenavam o suficiente. Foi o que levou os povos a preservarem suas cidades emblemáticas e nas demais cidades o núcleo primitivo que deu início e identidade à povoação.

E estamos assim, apesar das dificuldades que isso implica, obrigados pelo significado a preservar aquilo que nos identifica como nação em nossas cidades, regiões ou estado nacional. Enfim, a preservar os bens materiais e imateriais que nos fornecem identidade e nos dizem quem somos para projetarmos o que seremos. Deles, o mais visível são os monumentos e conjunto arquitetônico que identificam uma povoação.

 

 

sexta-feira, 20 de maio de 2022

MARIA MONTESSORI- A CRIANÇA E O PROFESSOR e CECÍLIA MEIRELES- CRIANÇA E O ADULTO . Selvino Antonio Malfatti.

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Maria Montessori, uma das primeiras mulheres formada em medicina na Itália. Cecília Meireles pioneira na literatura, Brasil.

Pelos fortes traços de aproximação pode-se estabelecer um paralelo entre as duas educadoras: Maria Montessori e Cecília Meireles, uma brasileira, Cecília Meireles e outra italiana, Maria Montessori marcaram presença na educação na Década de Trinta, cada uma a seu modo.

Maria Montessori por ocasião dos setenta anos de sua morte  6 de maio, os educadores do mundo todo se voltam para o método educacional desenvolvido por ela.

Formada em medicina pela universidade de Roma foi uma mulher pioneira como médica na Itália. Consagrou-se como pedagoga científica pelo seu método o qual consiste relacionar o desenvolvimento biológico e mental através do treinamento dos movimentos musculares que são exigidos no cumprimento das tarefas. Isto ela chamou de desenvolvimento integral da criança.

Começou então sua projeção mundial como educadora.  Ela Ministrou cursos em diversos estados norte-americanos, Espanha, Índia, Holanda entre outros.

 

Montessori faleceu na Holanda em 6 de maio de 1952.

Cecília Meireles, por sua vez, (1901-1964) é uma educadora brasileira. Nasceu no estado do Rio de Janeiro. Em vida o torvelinho político envolveu Cecília. Em 1930, estoura a Revolução da Aliança Liberal cujo comando estava a cargo de Getúlio Vargas. Em 1932, deflagra a Revolução Paulista contra Vargas e o constitucionalismo. Nova Constituição de 1934 e o Golpe de Estado de 1937. No período ocorre o tenentismo, a intentona comunista, Ação Integralista e outros.

Cecília faleceu no Rio de Janeiro, em nove de novembro de 1964.

Ambas:

1.     Viveram em regimes ditatoriais: Cecília com Getúlio e Montessori com Mussolini

2. Tiveram grande presença educativa na década de Trinta.

 3. Ambas tiveram relação inicial amigável com os ditadores e depois romperam.

 4. Propuseram uma nova concepção na educação. Cecília uma escola nova e leiga e Montessori uma educação livre e novo método.

 5. Dedicaram-se de modo especial às crianças.

 6. Foram liberais.

 

MARIA MONTESSORI - educação das crianças:

Na essência a proposta de Montessori é de Rousseau. “...o filho ensina a mãe”.  Para ela, diferente da orientação tradicional, a criança deve ter uma orientação para se tornar autônoma e não submissa. Diferente de obediência irrestrita que acata ordens, a autonomia sabe acatar as ordens, mas sabe também ser autônomo. Por isso que a autora propõe que nunca se deve impedir uma criança de fazer o que quer só por ser pequena. Por ser pequena não deve impedi-la de tentar fazer o que tem em mente. No mundo as crianças estão viajando num meio de transporte e os adultos são seus guias.

CECÍLIA MEIRELES e a educação Infantil:

O que os livros de literatura infantil deveriam abrigar em seu bojo? Primeiramente deveriam ser livros agradáveis às crianças, o que elas demonstrassem prazer em ler. Por isso, não se deveria estabelecer a divisão de “literatura infantil”, para crianças, mas literatura das crianças, isto é, o que elas optaram para si. Desse modo, não seria uma literatura “a priori” feita por adultos, mas literatura infantil “a posteriori”, feita pelas crianças.

Outro aspecto a respeito do conteúdo da literatura infantil refere-se ao conteúdo espiritual dos livros. Para Cecília o ponto de partida sempre deve ser a criança para a criança e não o adulto para a criança. Os conteúdos científicos, literários e morais devem merecer o atrativo das crianças, antes dos educadores. Evidentemente o adulto colocaria ao alcance das crianças um universo de obras-primas e as crianças escolheriam o que lhes agradasse. Certamente não se deveria deixar totalmente ao critério das crianças, isto é, leva-las a uma biblioteca e escolhessem o que bem quisessem. O educador escolheria as melhores obras e destas a criança escolheria.

 

 

 

sexta-feira, 13 de maio de 2022

O racismo, mexendo no alicerce. José Mauricio de Carvalho

 




Karl Jaspers foi genial, desses gênios que conseguem se tornar referência mundial em dois campos diferentes do conhecimento. Ele o foi como médico psiquiatra e como filósofo. E viveu em dias extremamente duros, tempo da emergência da extrema direita na Alemanha, na década de 30 do século passado e da redução do pensamento científico ao materialismo positivista, herdado do século XIX. Isso o levou a enfrentar tanto o cientificismo redutor quanto o pensamento político torpe. E interpreto como torpe toda forma de radicalismo político inimigo da liberdade, do estado de direito e da democracia. Creio que não é preciso muita inteligência para entender isso. Vilém Flusser, o filósofo tcheco que viveu no Brasil mais de três décadas, enxergou na teatralidade nacionalista-racista, que ele assistiu no nazi-fascismo, o êxtase orgiástico das grandes manifestações e a inautenticidade dos sentimentos expressões semelhantes à histeria. Quanto a sua dimensão filosófica, esse nacionalismo-racista dos nazi fascistas, como é o pensamento político da extrema direita, ele escreveu em Ser judeu (2014, p. 222): “é subumanamente cretino. Como articulação existencial, é covarde e nojento.”

Voltando a Jaspers, o filósofo elaborou, na última etapa de sua vida uma filosofia da existência pautada na liberdade responsável. Ali a compreensão de liberdade vinha amparada e limitada, no âmbito político pelas leis do país. No que se referia ao positivismo materialista, a liberdade se sustentava no reconhecimento do espírito e nas suas exigências na construção de uma crítica da ciência. Uma síntese desse programa de vida ele propôs em sua Introdução ao pensamento filosófico (1993, p. 92): “Em 1931, no meu livro Situação espiritual de nosso tempo deixei dito que o marxismo, a psicanálise e o racismo (nazismo), (portanto em termos mais gerais, a sociologia, a psicologia e a antropologia biológica) são – desde o momento em que perdem o caráter científico para se tornarem concepções do mundo – os três grandes adversários espirituais do homem de nossa época. Contra eles só podemos defender-nos recorrendo à filosofia, atividade a que todo homem se entrega mas que se esclarece pelo trabalho dos filósofos, que a explicitam e sistematizam.”

Jaspers não falou sozinho da sociedade que via. Outros pensadores, filósofos e cientistas descreveram a sociedade de então. Em síntese, pode-se dizer: Ortega y Gasset tratou de uma sociedade que funciona como massas, Sartre de uma sociedade desocupada da liberdade existencial, Martin Buber e de uma sociedade que perdeu suas crenças, valores e religiosidade, Flusser de uma sociedade em crise de cultura, Bauman de uma sociedade líquida onde não há solidez nas relações pessoais e institucionais, e tantos outros que descreveram o que viam se passar. O resumo de tudo é o surgimento de uma sociedade de massas, uma sociedade pouco reflexiva, que deixou de admirar os pensadores, perdeu vergonha da ignorância, desgostou-se da democracia e queria um líder carismático que dirigisse a vida: um füher, um duce, um condutor, um mito.

O crescimento das manifestações racistas, homofóbicas, excludentes, antidemocráticas, fundamentalista, etc. não são fenômenos isolados ou fruto de algo estrutural na sociedade brasileiro que agora, do nada, emergiu. É fenômeno amplo e complexo fruto de um movimento amplo do ocidente. O nacionalismo-racista reapareceu no mundo em diferentes países depois que a Guerra Fria acabou e deu origem a conflitos setoriais, favorecendo o reaparecimento dos movimentos radicais da extrema direita. Trata-se de fenômeno contaminante, que vai se espalhando.

Para esses dias também contribuiu a destruição do humanismo, a desvalorização da razão ou a antirracionalidade, que esse tempo acirrou. Isso porque todos os filósofos que examinaram a cultura e sua crise no século passado já descreviam quase tudo que estamos vendo acontecer nesses nossos dias. O enfrentamento do racismo e todas as formas de antihumanismo deverá ocorrer com ações na justiça, mas somente se tornará efetivo se conseguirmos retomar a tradição judaico-cristã e do humanismo republicano de que todos os homens são irmãos diante de Deus e/ou membros de uma humanidade comum, ainda que singulares em sua história e sentido existencial.

 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

EMPRESA E HUMANISMO. Selvino Antonio Malfatti.

 




No Brasil é comum ouvir-se e ver impropérios, acusações e condenações a empresas. O diapazão são as supostas explorações dos empregados pelos empregadores através de suas ermpresas.

Isto iniciou quando o alemão Marx afirmou, opinativamente, sem base científica, que as empresas para sobreviverem aplicam a ”mais valia” sobre os trabalhadores. Estes são roubados nos seus salários e, através disso, os empresários se sustentavam, as empresas se financiavam e o mundo industrial se reproduz. 

A partir daí começou a dissociação entre empresa e sociedade. A empresa, a vilã, como um tumor alojado na sociedade corroendo-a. Precisa urgentemente ser extirpado. 

A mais valia, uma criação ideológica socialista, não foi submetida ao crivo da crítica e passou como uma verdade incontestável e digna de dogma de fé.

Na prática o que aconteceu foi uma ruptura da tradição sobre o conceito de empresa. Para Aristóteles a empresa pertence à atividade da razão prática. Esta conhece por experiência o que é melhor e como realizar esta atividade. A razão teórica pode auxiliar o mundo da experiência, mas esta é soberana sobre como realizar determinadas atividades.

Santo Tomás e Agostinho na idade média enfatizava a ideia de justiça nas relações de trabalho. “O trabalhador é digno de seu salário e de um salário digno”, como consta no Evangelho. Disso resulta que o trabalhador não pode ser explorado pelo seu patrão.

O movimento industrial introduziu a ideia de lucro na atividade produtiva. A ideologia da mais valia apontou o lucro como exploração. Nisso está a falha do silogismo. Lucro e exploração são conceitos distintos, não idênticos. Nem sempre o lucro é proveniente da exploração, isto é, pode haver lucro sem exploração.

O raciocínio de Marx:

Todo salário é o valor do trabalho embutido nele;

A apropriação de qualquer parte do salário é roubo.

Pronto. Instalada a confusão. Empresa, ladra do salário do trabalhador. 

Onde está o sofisma?

Que o salário é todo valor da produção do trabalhador.

O correto seria que o salário é um trato bilateral entre trabalhador e empresa. Ambos devem concordar, senão não há trato.

Por isso, a questão salarial do trabalhador na empresa deve levar em conta:

- Os empregados são auxiliares na produção e não explorados;

- Os lucros são retorno do trabalho do empresário;

- As empresas oferecem bens de consumo imediatos aos trabalhadores;

- Os empresários precisam continuamente reinvestir na empresa para mantê-la vida: manutenção.

A crítica à empresa acima não é em bem assim em outras partes do mundo, mormente na Europa. É o caso do livro de “L' avvenire della memoria”, (Egea, 2022), livro de Antonio Calabrò, cujo título em português: O Futuro da Memória.

Caladró, presidente do Musimpresa, quer evitar o saudosismo do passado ao querer propor uma sociedade melhor. Seria a retrotopia. Uma atitude em que sempre se imagina o passado melhor que o presente e como consequência, propor implantar uma sociedade do passado para o presente. Seria a nostalgia da Sociedade de Rousseau: natural, sem tecnologia, sem indústria. Caladrò, ao invés, quer uma sociedade inovação. Se ele olha para as raízes é para ter autoconsciência. Outra questão que quer evitar é uma sociedade sem a indústria, somente natural. Seria semelhante a uma alimentação humana puramente vegana. A proposta de uma sociedade sem indústria implica ausência do empresário, culpado de toda desgraça deste mundo: dinheiro, lucros, multinacionais, exportações, explorações, pobreza, miséria, degradação ambiental, cataclismos, numa palavra o capitalismo. 

Seus tentáculos avançam para a produção de conteúdos/símbolos, já com poucos rivais sobreviventes. Surge uma experiência coletiva de fabricação inteligente, não confiável à transmissão ao storytelling corporativo, ou capitalismo inclusivo, extensivo ao perímetro socioeconômico tradicional, mas à ciência e criatividade. Não se trata apenas de passar uma mensagem superficial ao público alvo da empresa, mas lançar mão da ciência e criatividade. Para tanto é preciso investir na memória, consultar mapas, arquivos das empresas, museus, folhear revistas corporativas, ouvir apresentações culturais mescladas aos ruídos de uma fábrica.

Uma indústria humanista não pode existir isolada. Ela deve sobressair do meio social onde habita. Ser um componente do meio social e não ser vista como um nicho de exploração humana. Ela é a sociedade e não somente um componente da sociedade, tal como uma escola amada por pais, professores e alunos, Como uma clube, local de encontro de lazer de jovens, adultose crianças. Um igreja que congrega para o espiritual toda a comunidade. Uma universidade, foco de saber da comunidade. 

A fábrica ou empresa, um esforço comunitário para o bem estar material e social da sociedade. 

 


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