sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

FLORENÇA – UMA SÍNDROME DE STENDHAL. Selvino Antonio Malfatti

 



Florença, cidade toscana da Itália, mereceu um livro de Pierre Antonetti, professor de literatura de Marselha, com o título de “A vida cotidiana de Florença no Tempo de Lorenzo, o Magnífico”, da série a HISTÓRIA VISTA DE BAIXO, por Pier Luigi Vercesi. Ele descreve Florença como um território muito pequeno, que repentinamente eclodiu numa floração fantástica. A cidade era constituída por uma comunidade muito minga, 40 mil habitantes, com o agravante de no século XV recém tinha se recuperado da Peste que a assolava desde 1348, conforme o Decameron de Boccaccio.

Ainda hoje qualquer analista se surpreende e fica estupefato ao deparar repentinamente com Florença. Há arte em toda parte: nas ruas, nos prédios, nas igrejas sem falar nos museus. Não se sabe por onde começar, onde olhar primeiro, ou dar maior atenção ou deter-se. Tudo é magnífico como seu líder Lourenço de Medici. E a pergunta inevitável: mas como surgiram num só lugar e ao mesmo tempo tantos gênios artistas e pensadores? Às margens do Arno toda cidade é uma obra de arte. Só para citar alguns: Dante, Giotto, Leonardo da Vinci, Maquiavel, Michelangelo. E também devemos mencionar Masaccio, Beato Angelico, Botticelli, Ghiberti, Donatello, Verrocchio, Benvenuto Cellini, Leon Battista Alberti, Marsilio Ficino e muitos outros. Todo este ambiente cultural costuma-se denomina-lo de Renascimento italiano.

Florença, uma cidade republicana, mais precisamente um Principado, governada pela família Médici, apoiada por uma oligarquia constituída de bancos, comércio e indústria. Lourenço de Medici, o Magnífico, um homem de letras, empolgou a elite local, nacional e até internacional em torno da arte, literatura, filosofia e Política.

Incentivada por  Lourenço a cidade sofreu uma remodelação completa, as casas de madeira deram lugar as de pedra e tijolos, as moradias familiares substituíram os palácios. O exemplo dos Medici foi seguido pelas famílias Spinelli, Pitti, Strozzi, e Rucellai, entre outras.

As condições econômicas da maioria da população parecem não ter influído no projeto artístico de Florença. Este seguia inexorável seu objetivo: encantar a cidade. Havia populações de “miseráveis”, pobres e modestos. O foco de Lourenço não era solucionar a pobreza, mas ornamentar com arte a cidade. Com certeza passava ou não pela sua cabeça: “pobres sempre tereis entre vós”. Beleza não cai do céu, se não for conquistada, de per si não virá.

Se não foram as estruturas econômicas que explicam o boom artístico, certamente o ambiente cultural pode explicar. Os Mecenas, entre eles Lourenço, serviam de intermediários entre os artistas e a produção das obras.  Houve um líder que sublimou e canalizou o conteúdo que aflorava espontaneamente. Foram criadas as condições propícias para germinar o que era apenas um potencial. Miguelangelo, por exemplo, recebeu de Lourenço um atelier. O fenômeno pode ser explicado “ex a se” e não “ab alio”. Estava dentro da cidade e não fora.  

Todo este esforço e movimento cultural de Florença se denominou de Renascimento. Costuma-se dividi-lo em três fases que vai do século XIV ao séculoXVI: Trecento, Quattrocento e Cinquecento.

1.    O Renascimento do “Trecento” italiano se manifesta particularmente em Florença. Esta - tal uma Atenas - ergue-se como um centro político, cultural e econômico regional. Nesta fase despontam os gênios artísticos e intelectuais Giotto, Boccaccio e Petrarca.

2.    No segundo período, o “Quattrocento”,  o Renascimento dissemina-se por toda península. É o auge do Renascimento na Itália. Pontificam Botticell, Da Vinci, Rafael, e como coroamento, Michelangelo.

3.    No terceiro período, o “Cinquecento”, o Renascimento conquista a Europa, desdobrando-se em outras dimensões culturais como estéticas, filosóficas e políticas. Um delas é o maneirismo artístico, a Contrarreforma religiosa e o Barroco da Igreja Católica. Destacaram-se na literatura Ariosto e Torquato de Tasso. Na política culmina com Nicolau Maquiavel.

O historiador francês Yves Renouard (1908-1965)  assim se expressa:

“O gênio germinou em Florença nos séculos XIV e XV mais do que em qualquer outra cidade do mundo. Certamente Atenas no século V de Péricles e no século IV reunira um número incrível de homens de gênio. Mas nunca tantos gênios surgiram em poucas décadas como em Florença...”

Por isso, podia concluir: O Espírito respira onde quer.

 

 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

O que você precisa conhecer para estar à altura do seu tempo. José Mauricio de Carvalho

 


Talvez pudéssemos escolher um título mais ao gosto de quem faz sucesso nas redes sociais. Prefiro a elegância. Além da clareza que o mestre Ortega y Gasset conclamava, creio que quem se envolve com a Filosofia deve escrever com distinção, com elegância e tratar com respeito os interlocutores.

Do que queremos tratar neste pequeno texto? De algumas coisas que uma pessoa civilizada não pode deixar de considerar para ser cidadão e viver atualmente. Houve tempos em que o homem acreditou que a terra fosse plana, que o sol fosse Deus, que a terra era fixa no céu ou que o faraó ou um imperador fosse um Deus. São coisas que ficaram para traz, fizeram sentido no passado, mas hoje não são aceitas. Foram superadas pelo desenvolvimento da cultura. Dado ao andar dos tempos fiz uma lista de como algumas questões devem ser tratadas em nossos dias.

1.Quando começou a observar a natureza mais sistematicamente, nos primórdios da civilização, o homem se encantava com tudo o que descobria no mundo e ficava maravilhado com suas descobertas. Esse maravilhamento diante do novo deu origem à Filosofia e até hoje é usado como uma das explicações de sua origem. No entanto, com o passar dos anos o encantamento passou a se referir à capacidade de não se deixar limitar pelo conhecimento fenomênico (observado no funcionamento do mundo). Aquele encantamento original foi perdendo força porque as ciências, especialmente a partir da Idade Moderna, passaram a explicar o funcionamento do mundo e esse deixou de ser um mistério. Os filósofos deixaram à ciência a tarefa de explicar o funcionamento do mundo e cuidaram de mostrar porque ela é confiável. A partir da modernidade não se faz filosofia à parte da ciência, ou contra ela.

2. A Filosofia passou, então, a se dedicar a questões sobre a finalidade do que existe examinando as condições de abertura à transcendência. Ao fundamento do conhecimento porque o mundo não se resolve a si mesmo. O homem conhece o mundo com a ciência, mas depois precisa abrir-se para outras questões mais amplas que demandam uma fundamentação racional e onde a ciência e seus métodos não alcançam.

3. A Filosofia mostra a raiz axiológica da cultura, apresenta os fundamentos da ética e vai aos limites do conhecimento. Sendo imprescindível exige de quem a prática o diálogo generoso, a abertura ao argumento alheio já que a verdade fundamental somente se mostra parcialmente. Não há justificativa para a arrogância, mas no espaço da razão permanece o que parece mais razoável àquela geração e propicia a independência íntima frente à verdade.

4. A abertura ao sagrado, observado em todas as civilizações, deu origem a várias religiões. Não se justifica a imposição de uma a outras ou a briga entre elas. Cada homem pode escolher a sua. Mas nesse caso, a experiência de Deus não justifica ações contrárias à ciência e a razão. Muitos erros terríveis foram cometidos ao longo dos tempos devido ao fanatismo religioso, pois o encontro como Deus não mostra nada antirracional e anticientífico. Porém a experiência de Deus é fugaz. As considerações sobre Ele ilustram os limites do filosofar, não há segurança além da razão, a razão confere segurança à verdade e valoriza o esforço individual.

5. A Filosofia se pratica pela apreensão da realidade, pelas discussões sobre o Ser, sobre o papel luminoso do amor, o significado e limites da razão e a procura da paz. Não se idolatra ninguém, não há mestre que exclua seus pares, mas filosofar é participar de um grande diálogo universal.

6.  A compreensão do presente somente se esclarece quando se recuperam os fatos da história. O conhecimento da história vivifica os dias que vivemos. Nenhuma informação é tão necessária para sabermos o que somos e o desenvolvimento da cultura do que o conhecimento histórico. Por isso, ele não pode ser negligenciado.

7. O homem é objeto de várias ciências, mas mantém uma dimensão a ser examinada pela Filosofia. Ele tem contradições, imperfeições, incompletude e liberdade que escapam a análise exata das ciências. A consciência se mostra na dualidade sujeito-objeto.

8. A liberal democracia no Estado de Direito é o sistema político melhor sucedido na história na condução dos Estados Nacionais modernos, não é perfeito, mas consegue corrigir seus erros. A democracia liberal resiste ao ataque de totalitários e fanáticos.  Reúne a liberdade do indivíduo e o respeito à leis nacionais e estabelece limites do convívio social.



10. A democracia é um regime político, não é para ser usado em todas as dimensões da vida porque em ciência a palavra está com cientistas, em filosofia quem consegue formular as melhores respostas aos grandes problemas existenciais, em religião às suas autoridades legitimamente constituídas pelas instituições. Sociedades doentiamente democráticas se tornam massa amorfa e empobrecida que tiram de cada homem a oportunidade de desenvolver a própria singularidade e viver um sentido próprio na vida.

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

HANS KÜNG – UMA ESPIRITUALIDADE SEM DOGMA. Selvino Antonio Malfatti

 



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O filósofo e teólogo H. Küng nasceu em 19 de março de 1928, na Sursee, na Suiça, no cantão de Lucena. Em 1954 é nomeado sacerdote em Roma e já em 1960, com 32 anos, torna-se titular da cadeira de teologia da Universidade Católica de Tübingen, na Alemanha, e em seguida funda o Instituto de Pesquisas Ecumênicas. Participou em 1962 e 1965 do Concílio Vaticano II, destacando-se por propostas inovadoras. Por ter criticado o dogma da Infalibilidade papal em 1979 foi revocada a autorização de ensinar Teologia. Em 2013 aposenta-se por motivo de saúde. Sofria do mal de Parkinson. Falece em 6 de abril de 2021, com 93 anos, em Tübingen.

Hans Küng, denominado teólogo da liberdade, publicou um livro, digamos popular, intitulado: “Christ sein” (“Ser cristão”, Ed. Vozes, 1979). Diz ele que escreveu este livro:

“Para os que creem, mas se sentem inseguros”, para aqueles que costumavam crer “mas não estão satisfeitos com a sua descrença” e para aqueles que estão fora da Igreja e não estão dispostos a abordar “as questões fundamentais da existência humana com meros sentimentos, preconceitos pessoais e explicações aparentemente plausíveis”.

Hans Küng confessa que nunca escreveu nem disse algo que não acreditasse. Com certeza anuncia uma qualidade característica sua: sinceridade. Esta sinceridade custou-lhe cargos (perdeu a cátedra de professor de teologia), desaprovação pública da Igreja a seus pensamentos filosófico-teológicos (rejeição ou condenação de suas doutrinas religiosas), perdeu o posto de teólogo oficial da Igreja.

Qual o âmago de sua doutrina? A combinação da espiritualidade e liberdade.

Para ele a espiritualidade é algo inerente ao ser humano, é sua ontologia. Chama-se tradicionalmente de espírito ou alma. É nisso que consiste a liberdade, a energia de agir, como ser desprendido da escravidão da matéria, livre de agir deterministicamente. A capacidade de agir livremente, livre de estímulos, é a própria essência da espiritualidade.

Por isso, ao associar a teologia à espiritualidade dá prioridade também à liberdade. Na teologia tradicional a liberdade está submissa ao espírito. Este é a faculdade superior, o diretor da liberdade. Para Küng, o próprio espírito é a liberdade. Não é sua superiora, mas sua essência, o próprio ser. Por isso podia dizer que uma coisa era a religião oficial, a manifesta, e outra é aquela que está no coração de cada um, a latente.

Com isso, Küng abre a porta para crença pessoal que pode ser diferente da oficial. E nisso está batendo de frente com a teologia oficial da Igreja que quer a submissão do individual ao oficial. Defende, por isso, uma fé natural, inerente em cada um. Como consequência, a fé da Igreja oficial vem em segundo lugar, precedida da religiosidade natural individual.

Costuma-se, e com razão, destacar na obra de Küng quatro características: teoria, sistematicidade, clareza e honestidade. 1. Teoria – sua obra cobre não só aspectos do pensamento, mas iguala-se aos grandes pensadores universais como Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás. Como exemplo podemos citar : a Encarnação de Deus. 2. Sistematização – sua produção intelectual inclui organização didática, hierarquia de conteúdos e conclusões sintéticas e abrangentes. 3. Clareza – Foge do estilo grandiloquente, hermético e pedante. Prefere o face a face com o leitor como ensaísta. 4. Honestidade – um pensador no qual “dolus non est” conforme a definição de Karl Barth.

 

 

 


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

O fundo judaico-cristão do mundo ocidental. José Mauricio de Carvalho

 




Quando terminou a Segunda Grande Guerra os países ocidentais reunidos na ONU decidiram recriar o Estado de Israel. Era o que parecia mais necessário considerada a perseguição histórica aos judeus radicalizada pelos nazistas que assassinaram seis milhões de pessoas. Essa perseguição aconteceu especialmente depois de 70 d.C., quando acontece a segunda grande deportação dos judeus de sua terra. A criação de um Estado político, concretizada em 14 de maio de 1948, era diferente da missão espiritual dos judeus concebida pelos místicos judeus de consistirem o povo numa espécie de sal da terra. Se a proposta se concretizou no fim da Segunda Guerra começou a ser debatida antes.

Parece que a proposta anterior mais consistente sobre um Estado judeu foi concebida por Theodor Herzl, ainda no século XIX. Ele publicou, em 1896, a obra O Estado Judeu, livro que teve grande aceitação entre os judeus europeus, especialmente entre os que viviam no Oriente e que habitavam a Europa Ocidental. É evidente que a criação política de um Estado era um projeto que precisava manter aberto o diálogo com outras crenças religiosas, pois o Estado político não seria formado apenas pelos judeus ortodoxos, embora a maioria praticasse o judaísmo, o que os identificou enquanto não tinham um Estado. Herzl avaliou que o único modo de os judeus viverem em paz e a melhor forma de combater o antissemitismo era a criação de um Estado, onde pudessem se reunir os judeus de todo o mundo, mesmo os que tivessem aderido a outras crenças. No entanto, se a tese de Herzl se limitava à uma articulação geopolítica restrita à criação de um Estado territorialmente localizado e burocraticamente administrado, era preciso pensar na consistência dessa proposta. Neste livro, Herzl defendeu um território habitado por judeus e palestinos vivendo em paz no mesmo território. Essa posição, que limitava o problema judaico à construção de um Estado Político, era limitada e sofreu críticas como a de Martin Buber que via no compromisso moral de fraternidade a unidade espiritual necessária para o novo Estado. Disso precisariam participar todos os habitantes do novo Estado.  

Embora haja nesse ponto muito a examinar e comentar sobre as teses que precederam a criação do Estado de Israel, vou dirigir meu olhar mais especificamente para a aproximação entre a crença judaica e a cristã que os estudiosos da cultura reconhecem estar na base do ocidente e a que Buber deu especial atenção. Sabemos que a tradição judaico-cristã do ocidente e toda a moralidade ocidental deita raízes na ideia de pessoa humana e inspira a criação de sociedades mais justas, com base nos mandamentos de Moisés e no ideal de amor ao próximo de Jesus.  Buber não discorda dos moralistas que viam na moral cristã a base da ética ocidental, mas enfatizou que a Bíblia judaica oferece as bases para um humanismo tão rigoroso quanto o cristão e que o humanismo judeu é na essência semelhante ao cristão. Todo seu esforço em L´hebraisme et l´humanité é mostrar que em essência os textos do Primeiro e do Segundo Testamento são conformes e apontam para uma sociedade mais justa e fraterna, o que nada tem de comunista. Nisso Buber repete Hermann Cohen, outro notável filósofo judeu. Ele diz (1962, p. 44):Quem abre a grande Bíblia da antiguidade hebraica, verá nos livros de história as longas andanças de Javé; nos livros dos profetas o convite a superar a injustiça, as contínuas súplicas a Deus para obter a purificação; no livro de Jó, o convite a reconhecer a necessidade das contradições interiores, que a vontade não pode vencer, e aqueles que lutam contra si próprio não podem escapar, contradições das quais nos arrebata somente a redenção; e em toda parte se encontrará o sentimento, e a experiência dessa divisão e em toda parte o esforço para a unidade.”

O pano de fundo do reconhecimento de uma unidade humanista era mostrar que não apenas não havia sentido em considerar o judaísmo estranho ao cristianismo, como lhe parecia necessário que judeus e cristãos convivessem no novo Estado emergente. Deviam se respeitar e juntos construir o reino de paz anunciado pelos Profetas.

O filósofo investigou, detalhada e cuidadosamente, no que consiste a experiência de Deus feita pelo povo judeu no livro Santo, especialmente no Êxodo. E a centrou no diálogo face a face com YAHWEH feito por Moisés.

Porém avalio que as página mais lindas de Buber consistem no seu reconhecimento de que poucos judeus (creio que nenhum outro) viveram uma experiência tão íntima com Deus como Jesus de Nazaré. Independente de considerá-lo (Profeta ou Filho de Deus), Buber mostrou que foi essa experiência essencialmente judaica de Deus, vivida em íntima profundidade com o Grande Tu, que levou Jesus de Nazaré a chamaR YAHWEH de Pai. Foi pelo encontro direto com YAHWEH, que Jesus enfrentou religiosos ortodoxos e fariseus radicais que limitavam a fé judaica ao cumprimento de regras, realização de cultos regulamentados e outros procedimentos exteriores, perdendo o que havia de essencial nas páginas do Livro Santo: o amor entre os homens e a Deus. O espírito judaico mais elaborado, não importa se reconheça ou não a divindade de Jesus, o considera um homem de profunda espiritualidade pela atualização e divulgação da mensagem profética.

Isso fica dessas considerações de Buber, o convívio respeitoso entre a fé judaica e a fé cristã, pois como ele reconheceu, ela consiste no dizer diretamente ao coração de YAHWEH o que está no coração de cada um de nós quando busca o perdão das faltas, a proteção nessa vida e a salvação eterna.


 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O DELATOR DO ESCONDERIJO DE ANNE FRANK. Selvino Antonio Malfatti.

 


Após 77 anos parece que foi descoberto o delator que revelou o esconderijo de Anne Franck e família. É o que revela a pesquisa do livro de Rosemary Sullivan “Quem traiu Anne Frank” (HarperCollins). 

Na busca do informante montou-se uma equipe poderosa que foi atrás do autor da delação.

“Os líderes dessa equipe - composta por Thijs Bayens, cineasta holandês; Pieter van Twisk, historiador e jornalista; e Vince Pankoke, ex-agente do FBI - com a ajuda de dezenas de pesquisadores, arquivistas, analistas forenses, historiadores, criminologistas e técnicos”. , revela Sullivan.

Utilizaram técnicas modernas como algoritmos de computador, estabelecendo conexões entre pessoas aparentemente não relacionadas, trabalharam por seis anos para desarquivarem um “caso arquivado”. A descoberta revelou nada mais e nada menos que foi um próprio judeu que traiu os Franck.

A pista surgiu quando perceberam que os membros do Conselho Judaico de Amsterdã foram levados para os campos de concentração, menos um membro. Trata-se do judeu Van den Bergh, que morava tranquilamente em Amsterdã.

Com decretada a dissolução do Concelho Judaico, seus membros perderam todas as proteções de que gozavam. Para alguém escapar tinha que ter em seu poder algo muito valioso para barganhar e convencer os nazistas a não enviá-lo para os campos de concentração. Foi o caso de van den Bergh.  O objeto da permuta foi o esconderijo dos Franck. Um deles, Otto Franck, recebeu inclusive um bilhete anônimo revelando o delator. 

Narra Sullivan:

“Em 4 de agosto de 1944, por volta das 10h30, um carro da polícia alemã parou em Amsterdã em frente ao prédio da Prinsengracht 263, sede da empresa Opekta Pectacon. Naquela casa, em um apartamento no último andar dos fundos, oito judeus estavam escondidos há dois anos e trinta dias: a família Frank, a família Van Pels e o dentista Dr. Pfeffer. A operação foi comandada pelo sargento-mor SS Karl Josef Silberbauer, austríaco, com policiais holandeses à paisana. Diz o Sr. Victor Kugler (chamado Kraler no Diário de Anne Frank): «A polícia queria ver os armazéns à beira da estrada, e eu abri as portas. Eu pensei, se eles não querem ver mais, ainda está tudo bem. Mas depois (...) o sargento-mor saiu no corredor e mandou que eu o seguisse. De repente, ele me ordenou que afastasse a prateleira da parede e abrisse a porta de fundos."

Estava descoberto o esconderijo.

No livro da autora é revelado também o nome do delator: o tabelião judeu Arnold van den Bergh. Era casado tinha três filhas. Membro do Conselho Hebraico, tendo como uma das principais funções, apontar nomes de hebreus para deportação. Para se tornar imune a suspeitas conseguiu ser inserido na lista de Hans Georg Calmeyer declarando que não pertencia à raça hebraica. Com isso manteve o emprego de notário até 1943, até que foi denunciado ao SS por um colega ariano. Isto o levou a perder os privilégios que detinha.

Para salvar a própria pele e de sua família passa a fornecer à polícia nazista endereços de hebreus escondidos. Foi então que, sem se dar conta, apontou o número 263 de Prinsengracht, que era da família Franck.

Mas como poderia hebreus serem vendidos aos nazistas por hebreus? Um dos cronistas do Holocausto, Jacob Presser, comenta: é ingênuo, absurdo e historicamente falso pensar que um sistema demoníaco como o nacional-socialismo, iria santificar suas vítimas. Ao contrário, isto iria degradar, emporcalhar e assemelhá-los entre si, vítimas e verdugos.

Como fica a questão ética dos atos de van den Bergh? É pacífico que qualquer um tem o direito de defender sua própria vida e dos que lhe são caros. O problema surge quando se analisam os meios utilizados. Não é lícito utilizar qualquer meio para atingir o fim. Tanto os fins como os meios devem ser lícitos. Parece que novamente Hanna Arend tinha razão: agiam como burocratas, sem escrúpulos. O mal não entra na ponderação, é banal, tanto para nazistas alemães como para delatores hebreus. Foi o que aconteceu com van den Bergh? Seu objetivo salvar a si e sua família estariam em tese moralmente justificáveis. No entanto, salvar a si em troca da condenação de outros, não resiste a qualquer julgamento legal, moral e ético em que pese não haver no período um estatuto legal dos direitos humanos o qual somente foi aprovado em 1948 pelas Nações Unidas e o Tratado de Roma em 1950. No entanto, já existia no ocidente esparso em estatutos e de modo tradicional uma consciência ética sobre tais direitos. E, embora se diga que não tencionava delatar diretamente os Franck, também não justifica. A questão não é esta ou aquela família, mas o ato deletério. 

A ação do delator foi um mal em si e pronto.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

CADÁVER INSEPULTO. Selvino Antonio Malfatti.

 




Lá se vão 30 anos do fim da URSS. 

O século XX assistiu  aos funerais de três regimes totalitários: 1. Fascismo, 2. Nazismo e 3. Comunismo. Um deles continua insepulto.

O primeiro, Fascismo, surgiu na Itália como ideologia e assume o poder em 1922. As principais características são: totalitário, nacionalista e antiliberal, comandado por Benito Mussolini. Em 1945 os nazistas foram derrotados na Itália e Mussolini preso por guerrilheiros italianos. Foi julgado e fuzilado juntamente com sua amante Chiaretta, sepultando o fascismo.

O segundo, Nazismo, “Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães”, surgido na Alemanha em 1920. A Alemanha nazista teve fim quando as forças aliadas derrotaram os alemães em 1945, pondo fim a Segunda Guerra Mundial e sepultando nazismo.

 Falta o comunismo.

Para entender os eventos que levaram ao colapso do comunismo soviético há trinta anos vale a pena dar um passo para trás, reconectando-se com as origens desse sistema.

Antonio Gramsci, ao eclodir a Revolução socialista russa, procurou uma justificativa da não previsão de Marx que falava num capitalismo avançado. Dizia que isto aconteceu porque a Primeira Guerra Mundial despertou a “vontade coletiva” do povo russo, da qual surgiu a revolução. Contrapôs o fator econômico ao fator vontade. Já não era mais um determinismo, mas uma vontade guiando os fatos.

O passo seguinte é dado por Vladimir Lenin (1917-1924) que encontrou no partido a liderança disciplinada e coesa, evidentemente por imposição da chefia, para imantar a classe trabalhadora liderar a sociedade e colimar seu objetivo.

A proposta de Gramsci de uma economia planejada e administração central - ao invés de uma economia livre e competitiva – ela resultou em fome generalizada forçando o livre comércio dos produtos agrícolas para evitar o total colapso. Isto desviou a rota prevista de Marx que previa um abraçar comum dos países europeus ao socialismo provocando um efeito contrário: os partidos únicos, alemão e italiano, assimilaram um conteúdo ideológico oposto ao russo.

 Iosif Stalin (1924-1953)

Substitui Lênin imprimindo outra orientação ao socialismo russo. Em vez de um movimento ou revolução de caráter global restringiu-se a um só país. Com isso tornou viável, por força da dominação do Partido Comunista de manter o monopólio do poder. O passo seguinte seria:

“coletivização forçada no campo; industrialização acelerada baseada na produção para fins bélicos; terror em massa e campos de concentração para eliminar qualquer resíduo do pluralismo e explorar os grandes recursos naturais localizados nas regiões inóspitas daquele imenso país.”


 Nikita Khrushchov (1953-1964)

Foi o substituto de de Stalin. Foi deposto acusado de erros políticos e incompetência na gestão econômica.

Leonid Brejnev (1964-1982)

Foi líder do governo russo por 18 anos. Aumentou os gastos devido à corrida armamentista com os USA. Destacou na repressão à Checoslováquia, em 1968 e a invasão do Afeganistão em 1979.

Yuri Andropov (1982-1984).

Destacou-se como chefe da polícia secreta da URSS, a KGB. Após um ano no poder morre por problemas renais.

Konstantin Chernenko (1984-1985)

Destacou-se na reforma educacional e uma reestruturação burocrática. Também fica apenas um ano no poder e falece por problemas de saúde.

Mikhail Gorbachev de 1985 a 1991

Gorbachev tentou oxigenar o socialismo soviético através daquilo que denominou Perestroika e Glasnost oferecendo dupla abertura: política e econômica. Em vez de reformar o socialismo, o objetivo de Gorbachev, provocou sua desintegração.

Vladimir Putin (desde 1999)

Após a renúncia de Yelsin, Putin assume interinamente a presidência da Rússia e em seguida eleito. Destacou-se na integração da Rússia à Europa. Destacou-se no controle dos meios de comunicação e atuação de ONGs. Continua o sistema de repressão e massacre às oposições. 

Antes do fim da URSS ocorreu o fenômeno do despencar do cacho de uma a uma das repúblicas socialistas na ÙRSS, anexadas Rússia pela Rússia.

O Tratado de União de 1922 previa a liberdade de escolher entre permanecer unido ou separar-se da União das repúblicas socialistas.

Coube aos lituanos a primazia da iniciativa de proclamar sua independência, 11 de março de 1990. Mas Moscou não aceitou pacificamente e muito menos democraticamente. Envia a Armada Vermelha nove meses depois. Após choques violentos e cruentos. Perante a desaprovação de opinião mundial a Armada se retira e Mikhaïl Gorbatchev apresenta as desculpas.

Mais dois países bálticas proclamam sua independência em 1990, Estônia e Lituânia, seguidas pela Geórgia em 1991.

Em seguida seguem-se uma cascata de independências. São nove repúblicas entre agosto e outubro de 1991. São elas Ucrânia e Bielorrússia. A estas alturas a antiga URSS era formada pela própria Rússia e Kazakhstan, no fim de 1990.

Quando as populações dos países da Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária, Polônia e Romênia foram às ruas para exigir mudanças e democracia, diferentemente das outras vezes que a as tropas soviéticas intervinham, desta vez ficaram nos quartéis. Com isso, as revoluções conseguiram seus objetivos e os países se desligavam do bloco da URSS.

E o atual líder Vladimir Putin forjou um modelo político autoritário aos moldes da ideologia da “Mãe Rússia”, uma personificação nacional da Rússia, um misto de liberalismo (econômico) e autoritarismo (político).  

No entanto, o comunismo continua como uma alma penada vagando pelas mentes dos que não quiseram proceder uma crítica sincera e científica sobre a experiência comunista. 

Por isso seu cadáver continua insepulto.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

SE CRISTO VOLTASSE HOJE. Selvino Antonio Malfatti.


                    


No livro  Se Jesus Voltasse Hoje? (Se Gesù tornasse oggi?) , Enzo Fortunato imagina o novo retorno de Jesus e para tanto traz à meditação alguns escritores da atualidade que se manifestaram sobre o assunto, tais como: Flaiano, Michelstaedter, Tolstoj, Dostoevskij. 

Sobre o Deus de Flaiano imagina Jesus retornando à terra, importunado por jornalistas e fotógrafos, mas Ele somente atento aos humildes e doentes. Um homem traz sua filha doente e Lhe diz: não estou pedindo para curá-la, mas que a ame. Jesus a beijou e disse: na verdade este pai pediu o que eu posso dar. Depois destas palavras desapareceu numa glória de luz.

Flaiano viu no pedido a Jesus não o prodígio, mas o altíssimo dom da partilha, da comunhão, do sofrimento. Este seria o Jesus que retornaria, cheio de amor e compartilhante do sofrimento.

Já Tolstoy imagina um Jesus recebido por uma mídia indiferente: se Cristo viesse e apresentasse o Evangelho à imprensa os repórteres lhe pediriam autógrafos e nada mais.

Outros escritores seriam Michelstaedte e Dostoevskij que narram a seu modo e como pensam a segunda vinda de Jesus.  

O tema central do livro é passagem do Apocalipse:

"Fico na porta e bato, se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entro e janto com ele e ele comigo", (Apocalipse (3 : 20).”

Fortunato se coloca a questão: Se Cristo voltasse hoje? Esta é uma pergunta que vai direto ao coração do cristianismo.. de nosso viver, de nosso amor, de nosso agir. 

O que podemos aprender da análise dos grandes autores da literatura e da filosofia sobre a vinda de Cristo?  É que na verdade a mensagem evangélica  continua atual e com toda virtualidade.

Quando Jesus bate às nossas portas, nós o convidamos a entrar, mas deixamos do lado de fora sua verdade que são a paciência, o perdão, o amor, mas o AMOR resume todas as demais.

Fortunato disse que tentou visualizar Jesus com base nas imagens iconográficas que estavam gravadas na mente. Via-O vestido de branco, com a túnica vermelha atravessada ao lado. e quando Ele bater, abro a porta e nos olhamos.  Reagindo espontaneamente  disse-lhe: “Tentei seguir-Te” , e ao mesmo tempo me escusando: “Cometi todo mal? Tentei seguir-Te”.  E comecei a chorar e me transportei ao coração do cristianismo, naquele ato de “cum prehendere” que também é um abraço. Então nos fixamos novamente e entendi que Ele não voltou para me censurar, mas apenas para me amar e permitir que eu o ame.

Imaginei também, sob outro olhar, que Ele observava minha maneira de trabalhar, de fazer as coisas e de me comunicar. Às vezes eu estava irritado e indiferente e mandava tudo a... Ou, ternamente eu chamava a pessoa e dizia: “vem cá, irmão”. Não sei se Ele estaria compartilhando o que faço, mas imaginava-O dizer:  "Aqui tenta fazer melhor, aqui vai assim, aqui você vê que  se esconde o tentador, tenta desmascará-lo!“

E sempre O via voltando à pergunta: “onde estou?” E eu começava entender que estava no cerne do cristianismo: 

- no nosso viver, no nosso amor, nas nossas ações e no nosso pensamento.

 

 

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