sexta-feira, 8 de março de 2019

Universidade de pesquisa, a venerável instituição do ocidente.José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei













A universidade de pesquisa, com liberdade de pensamento e de investigação, na qual professores e estudantes se associam na criação, aplicação e transmissão do conhecimento foi uma das grandes conquistas do ocidente. Ela se consolidou como instituição fundamental associada ao destino dos povos europeus quando o modelo alemão se transportou e foi assimilado em outros países.

A universidade, como instituição, existe desde a Idade Média, mas nos tempos modernos ganhou prestígio quando ajuntou o estudo da ciência com a tradição humanista. Em nenhum lugar ela atingiu esse objetivo com tanta qualidade, profundidade e prestígio como na Alemanha. Em nenhum lugar o seu cerceamento e perseguição a amordaçou tanto quanto na Alemanha de Hitler.

Essa instituição, que compromete o professor e o aluno de forma integral e livre, é um legado dos povos civilizados. Ela necessita receber alunos bem formados nas instâncias de base para alcançar os altos objetivos da formação humanística associada à pesquisa científica. Essa instituição foi modelo enquanto teve o nobre privilégio de poder viver na liberdade, seguindo regras próprias de funcionamento e aferição de qualidade, avaliando seus docentes e estudantes segundo deveres estabelecidos e pré-acordados. Essa instituição se perdeu de si mesma quando, durante o nazismo, o governo perseguiu e afastou docentes e alunos acusados de não colaborar e de não pensar com o sistema. Essa instituição somente voltou a ter reconhecimento quando pode novamente recuperar a liberdade. Foi então que pela qualidade do ensino oferecido contribuiu com a sua parte para a continuidade da tradição humanística e científica das nações livres do ocidente, depois de liberta dos nazistas e não mais fechada em si mesma, pode a universidade alemã se mirar na Universidade no Ocidente. Nessa tradição de liberdade, o campus universitário, tornou-se uma venerável comunidade de esforços, onde docentes e estudantes, na medida de suas limitações, esforçam-se para realizar a nobre missão que deles esperam a sociedade.

Em nosso país, onde temos um sistema público e privado, atuando de forma complementar, havendo pois espaço para os dois sistemas, fica na responsabilidade do sistema público, especialmente federal e de algumas estaduais, a tarefa de levar adiante mais diretamente a tradição ocidental da universidade de pesquisa. Seus resultados podem ser avaliados pela integração que mantém com as principais universidades do mundo. Não se pode perder de vista que também no ensino essas instituições têm excelentes resultados.

Ao lembrar essa tradição e a perseguição que sofreu na Alemanha a Universidade de pesquisa, que não foi diferente de outras experiências totalitárias pelo mundo, manifesto minha indignação contra manifestações repetidas nas redes sociais que reduzem o trabalho de nossas universidades públicas a formação ideológica dos alunos, o que não somente não é verdade como esconde um fato perverso dessa mentalidade grotesca. E o grotesco é o seguinte. Não se pode defender princípios humanitários, cuidado com o planeta, respeito aos direitos humanos ou qualquer boa causa, coisas com as quais o ocidente civilizado encontra-se comprometido há décadas, sem que isso seja, de pronto, associado a ideologia e desqualificado.

Triste tempos de ignorância das massas onde essas críticas não têm fundamentação adequada, objetividade desejada e a clareza requerida. A Universidade pública brasileira é uma instituição que está longe de ser perfeita, mas está mais longe de ser uma fábrica de ideologia, que forma cidadãos míopes, imbecis e inúteis. Muito ao contrário, formam-se nela os melhores quadros de cientistas e profissionais para nossa sociedade. E ainda, alguns comprometidos não com ideologias, mas com as boas causas da humanidade. Quanto a ideologias nela há de tudo.

sexta-feira, 1 de março de 2019

A ALMA DA EMPRESA. Selvino Antonio Malfatti.






O CAPITALISMO é um modelo econômico, jurídico, político, social e filosófico que, quando parece morrer e extinguir-se, rebrota sempre mais vigoroso. Até mesmo em países que o mataram e sepultaram, ressurge de suas próprias cinzas. Qual a explicação? São várias. Enumero apenas algumas:

1.    É considerado natural, isto é, imanente à natureza humana. Desde que o homem desceu das árvores e andou com suas próprias pernas, instituiu de modo consuetudinário a propriedade, limites da ação individual, obediência a autoridade, estruturas sociais e crença em algo superior a si mesmo. Estes princípios encontra-se em profusão entre os gregos, cuja síntese está no Discurso Fúnebre de Péricles, que invoca a vida, a propriedade, a igualdade em dignidade de todos.

2.    Mais eficiente. O capitalismo crê na supremacia da ação individual sobre a coletiva. Quem dirige sua própria empresa o faz com mais empenho do que um terceiro dirigindo o mesmo negócio.

3.    Autocorreção. Toda vez que necessita de mudanças acionam-se mecanismos internos que corrigem os desvios.

É precisamente sobre este segundo e terceiro aspecto que o livro de Antonio Caladrò versa: “A Empresa Reformista. Trabalho, Inovação, Bem Estar, Inclusão” (L’impresa riformista. Lavoro, innovazione, benessere, inclusione - Editora Bocconi).

O capitalismo, economicamente, abriga o princípio da livre iniciativa e consequentemente o empreendedorismo individual. Acompanha-o a contínua autocorreção e, por tabela, a reforma, a verdadeira alma do capitalismo.

Nos dias atuais qual a necessidade premente da empresa?


Certamente deixar de ser um ente frio e cínico. Um absente na comunidade. Uma empresa convive com seres humanos e deve se submeter aos valores superiores do humanismo. O modelo de empresa ausente aos problemas de seu meio não tem mais guarida, o chamado capitalismo selvagem. Com certeza vêm à mente aos leitores os desastres de Brumadinho em Minas Gerais e da boate Kiss de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Em ambas, a irresponsabilidade das empresas, causou centenas de mortos.


E não se diga que foi por acaso, um desastre natural. Em Minas Gerais teve como antecedente Mariana. Também não se diga que o acaso não poderá ocorrer no futuro. A KINROSS em Paracatu, Minas Gerais, tem 475 milhões de m2, Brumadinho tinha 12 milhões. Compoem seus rejeitos arsênico, cianeto e mercúrio. Se romper, por um século, vai matar a vida do São Francisco até a foz.

Uma empresa atualmente precisa inserir em sua gestão os valores humanos, em que pese estar na era digital e robótica. Deve prover o bem estar de seu entorno físico e social, em que pese ser, nacional, global ou multinacional. Uma empresa estrangeira não pode portar-se como estranha ao meio em que atua e não somente não prejudicar sua vizinhança, como promover seu crescimento. Sempre colocar-se numa posição de respeito às leis, costumes e valores locais e em nenhum momento prejudicar seus habitantes. Os rejeitos devem ter uma destinação não prejudicial à população e nem oferecer perigo para os moradores.

Em síntese:para uma empresa estrangeira, não fazer o que não faria em seu país.

Na questão do trabalho, a nova civilização empresarial necessita prementemente de engenheiros, técnicos, profissionais de padrão, mas juntamente de filósofos, sociólogos, psicólogos, dentro da ideia de que todos os homens são naturalmente filósofos espontâneos. Hodiernamente não faz mais sentidos o dilema entre o técnico-científico e o humanista. Isto por que no científico perpassa o humano e no humano a ciência. Atualmente relacionam-se na economia a robótica, a big data e internet das coisas com serviços hig-tec, pesquisa e cultura. Diz Caladró: “Na economia do conhecimento, o centro de gravidade continua sendo a indústria manufatureira. O coração permanece antigo”.

O núcleo do pensamento de Caladrò é a reivindicação de um capitalismo de modelo empresarial renovado, crítico, que desperte novas responsabilidades perante o mundo ambiental, social e político. Para competir com os mercados globais, deve inovar, sim, e para tanto precisa de pesquisa, de talentos e não atalhos e favores.


O empresariado atual deve alargar sua visão, deixar de praticar ou tolerar a corrupção, de renunciar a competição mesquinha, sair da corda bamba da mentira e falsidade. A empresa renovada deve premiar a cidadania de quem trabalha, estuda, se sacrifica, de quem  luta e não de quem fica em casa esperando que o Estado resolva os problemas sociais. A empresa renovada não quer o álibi da preguiça como desculpa pelo insucesso.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Martin Buber por José Maurício de Carvalho.



O filósofo Martim Buber (1878-1965) viveu a maior parte da vida no século XX. Embora tenha o olhar do filósofo e formação intelectual vasta, viveu no espírito da fé judaica na qual foi criado. A formação filosófica e essa crença religiosa são o pano de fundo de seu pensamento, mas Buber deixa ver, em seus escritos, os problemas que marcam o século passado e a sensibilidade própria daqueles dias.
Logo ele procurou dar resposta aos problemas de seu tempo: Buber viveu os dias difíceis das Grandes Guerras, da perseguição nazista, dos campos de concentração, da criação da terra de Israel, da crise da ciência e da cultura. Martim Buber era austríaco de nascimento, nasceu em Viena, e experimentou a crise daqueles dias partilhando os dramas e dúvidas do mundo germânico. Os alemães perceberam singularmente a crise de civilização que atingiu o ocidente e que consolidou uma sociedade de massa, padronizada e superficial. Eles tinham um olhar e uma preocupação com a questão. Disso é exemplo o filósofo espanhol Ortega y Gasset que fez boa parte de sua formação filosófica na Alemanha e ali se envolveu com esses assuntos.
Ortega y Gasset dedicou, alguns anos depois, um cuidadoso estudo sobre a crise da cultura: A rebelião das massas. Em 1896, Martim Buber matriculou-se na Universidade de Viena para cursar Filosofia e História da Arte. Entre 1901-1904 cursou o doutorado em Filosofia na Universidade de Berlim. Em 1930 tornou-se professor honorário na Universidade de Frankfurt, cargo que abandonou com a subida de Adolf Hitler ao poder em 1933. Em 1938 transferiu-se para Jerusalém onde se tornou professor de Antropologia e Sociologia na Universidade Hebraica.
Como resumir as preocupações de Martim Buber? Elas parecem se desenhar em quatro eixos temáticos que se retroalimentam 1) um estudo fenomenológico do diálogo e do encontro tomados como legítimos problemas filosóficos; 2) um método hermenêutico que reconhece a relevância das lendas hassídicas para a compreensão do judaísmo; 3) uma metodologia histórica construída com o legado de Dilthey e Gadamer usado no estudo da bíblia (hebraica) e da história antiga; 4) uma abordagem filosófica dos problemas sociais (Sociologia, Antropologia, Linguística), que sem deixar de ser filosófica, isto é, sem renunciar à inspiração teórica e primitiva da filosofia ocidental serviu de base para pensar a missão dos povos e a vida em sociedade.
Esses quatro eixos trabalham juntos e se influenciam mutuamente. Para entender Buber é necessário articular os eixos como no livro recentemente publicado Martin Buber, a filosofia e outros escritos sobre o diálogo e a intersubjetividade.

https://www.youtube.com/watch?v=1zpNzR8oka0&fbclid=IwAR1DemQkXgfZPvyM2zhA6I3C6yt1OKQgNVFWf6LB8YKMUJe6gq0bnvjPHuc
https://www.youtube.com/watch?v=1zpNzR8oka0


sábado, 16 de fevereiro de 2019

O tempo das fake news, o avanço da antifilosofia. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei



Desde o século passado, autores como o espanhol José Ortega y Gasset comentam a crise da cultura ocidental, associando-a à emergência de uma sociedade de massas. Trata-se de uma sociedade baseada na superficialidade das análises vindas da petulância do especialista, que se comporta como sábio em assuntos que ignora; na infantilidade desse homem-massa comparado à criança mimada, pois quer o que sabe que não pode e da preguiça desse mesmo homem, que julga que o mundo está aí pronto para ele gozar sem esforço.
No livro Ética (São João del-Rei, UFSJ, 2010) pude comentar que as coisas pioraram recentemente, pois o homem-massa de hoje, sem perder as características descritas por Ortega, também se tornou um hedonista compulsivo, desejoso de gozar a qualquer preço e descomprometido com a liberdade responsável. Ele não se preocupa em descobrir o sentido de sua vida, mergulhando na frustração existencial de uma vida sem sentido, que o psiquiatra Viktor Frankl associou à violência, drogadicção e depressão.
Creio que há ainda um outro aspecto desse personagem que é o de haver se tornado um grande mentiroso. Mentiroso é o homem-massa que incorporou o que Karl Jaspers denominou de espírito antifilosófico, isto é, aquele que vive pela mentira e a proclama. Porque justamente a Filosofia se desenvolveu conclamando as pessoas a amarem a verdade, pois era a principal condição para filosofar. Jaspers considerou que o mentiroso vive no espírito da antifilosofia. Esse inimigo da filosofia, ele diz em Razão e Contrarrazão no nosso tempo (JASPERS, s.d., p. 87/8)): “está decidido a nada saber da verdade, é o espírito antifilosófico, sob o rótulo do verdadeiro, exalta tudo quanto contradiz, menospreza e desnatura a verdade.” Nesses tempos de redes sociais e fake news as palavras de Jaspers soam com uma atualidade e veracidade assustadoras (id., p. 88): “a sua violência impede qualquer exame refletido. Abre a porta ao arbitrário, interdiz o domínio do indivíduo sobre si próprio. O seu capricho prefere à seriedade uma afetividade apaixonada e movediça. Faz do incrédulo um fanático imbuído de convicções enganadoras, para depois o deixar novamente cair no niilismo.” Esse homem não preza a procura da verdade, faz vistas grossas a suas limitações, age de modo dogmático e interesseiro. Jaspers lembrou que (id., p. 90): “a corrida para o abismo começa a partir do momento em que é traída a simples verdade.”
 A vida na mentira encontra-se em O homem e a filosofia (CARVALHO, 2018, p. 115) “não tem como ser saboreada, (...), nem parece boa quando se abdica de pensá-la. Quando pensa sistematicamente na verdade, modifica seu entorno e a si mesmo. O pensamento torna as realidades experimentadas mais evidentes, filosofar faz a vida mais séria, embora não mais pesada.”
Pelos males que o espírito antifilosófico promove para a sociedade humana creio que é preciso recuperar o compromisso com a filosofia e a verdade (ibidem): “O renovado chamado a pensar filosoficamente renasce hoje em dia do desamparo pessoal e da crise de civilização, que surge quando tudo perde a evidência e é preciso reatar o compromisso com a verdade. Não podemos viver na ignorância e na falta de significado para a vida.”
E a procura pela verdade filosófica provoca a renovação, ela reaparece na fidelidade com que se procura respostas para os novos problemas. Essa é uma procura permanente pois não pode ser alcançada completamente, a história da filosofia é a história da continua pergunta pela verdade. E a abertura à verdade parece ser um dos maiores desafios nesses dias de fake news.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

SHOAH, O MAL. Selvino Antonio Malfatti.


Esperando para embarcar...


Fim da primeira Guerra Mundial. A Alemanha, derrotada, humilhada e espoliada. Quem são os culpados? Era preciso encontrar os responsáveis. Um bode expiatório. Dinheiro não existia mais. Estava com os hebreus. Crédito estava zero. Os hebreus o controlavam. O povo estava desesperado, sem comida, sem habitação e sem vestuário. Tudo era controlado pelos hebreus, os únicos que não se ressentiam da depressão. Era um nicho de bem estar no meio da penúria. E o pior: a Alemanha estava nesta situação por que os hebreus lhe tomara tudo. Solução? Retomar o que pertencia à Alemanha, eliminando os hebreus.

Após uma reunião do Alto Comando de Hitler, em 1942, próximo a Berlim, discute-se qual a estratégia a ser adotada, como Solução Final. Fuzilar os hebreus? Não, seria muito estressante para os soldados. Então, foram aprovadas três ações simultâneas: morte, eliminação e extermínio.
Quem visitou os campos de morte e extermínio de hebreus como eu, e anda de cabeça baixa pela câmara de gás, refeitório, dormitório,sanitárias, começa sair da realidade e transpor-se aos relatos deixados e imaginar os que vivenciaram os locais. O que faziam? O que sentiam? O que pensavam? A adolescente Anne Frank que, depois de anos encerrada numa peça, emparedada, acaba naquele inferno, estuprada e morta? Ou Viktor Frank junto aos infelizes, consolando e animando os colegas de infortúnio pela logoterapia? Ou Hannah Arend meditando sobre o mal. 

O objeto não poderia deixar de ser o Mal, por que nos campos de extermínio, aí só existia o mal. Qualquer hora do dia, qualquer atividade, qualquer momento sempre o mal sobressaía. O mal estava presente em tudo, desde o ar, a comida, o trabalho, o descanso, as pessoas, os soldados. O mal impregnava tudo. Pois todos estavam diante do espectro da aniquilação comandado por algum sonderkommamndo com conduzia os prisioneiros para. 


- descida ao vestiário
- quartos com "chuveiros"
- fornalha de incineração


Era o extermínio sem testemunho. Ou ao menos se pensava. Atualmente já se conhecem alguns sonderkommando, como Shlomo Venezia, cuja tarefa era levar os corpos das câmaras de gaz para a incineração. Após algum tempo eram também incinerados. Ele conseguiu escapar e escreveu Sonderkommando auschwitz.
Cabia a ele a tarefa descrita acima, qual seja, eliminar a prova testemunhal.

É possível encarar friamente o mal? Olhá-lo de frente e defini-lo? Visto assim, nu e cru, se percebe que o mal não é radical, mas, sim, extremo. Não tem profundidade, nem dimensão demoníaca. Como um fungo que se alastra em todas as direções vai devastando tudo. No entanto, o mal não tem raízes, é superficial. Só o bem tem profundidade e é integral diz Hannah Arend.

O mal atribuído aos seres não é apenas a ausência de bem, uma falta dele, mas a existência real, moral ou física, sempre exista em outro, tal como o bem. Dizemos a bondade de Deus ou a maldade de satanás. Se fosse personificada a bondade ou maldade poder-se-ia inverter os termos e seu significado continuaria idêntico. Se fosse possível dizer “Deus é o bem” também se poderia dizer que o Bem é Deus. Da mesma forma se fosse possível dizer que o mal é satanás, então se teria de admitir a existência substancial da maldade. Se fosse dito que aquele homem é mau não quer dizer que ele personifica a maldade, mas que a qualidade “má” está nele. Ele não tem apenas ausência de bem, mas presença de maldade.  Da mesma forma quando se diz que aquela maçã é ruim, quer significar que nela há a ruindade.

Em meio da desolação podia-se, aqui ou acolá, vislumbrar algum broto que nascia. Era a esperança de Victor que sentia dentro de si o dia que poderia bater à porta de sua casa e dizer sou eu, de Anne comemorando a Páscoa, protegendo a esperança como uma vela acesa ao vento, de Hannah insistindo para si mesma que o bem haveria de sobressair.

Aqui e acolá, a esperança estava viva. Em Budapeste, Perlasca e Wallenberg. Em Istambul, Angelo Rocalli. Na Tessalôncia, Guelfo Zamboni e sabe-se quantas pessoas com suas instituições  que se tornaram diques contra o mal do Reich.

E o dia chegou para Victor bater a porta de sua casa, Hannah assistir o julgamento de Adolf Eichmann e Anne comemorar a Pácoa....




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

FASCISTA!!!!!!. Selvino Antonio Malfatti




Chamam-se de fascistas mutuamente, os de direita e de esquerda - liberais e socialistas. No Brasil, os defensores das Reformas trabalhistas chamam seus opositores de fascistas e vice-versa. A impressão que se tem é que nem um nem outro ou não sabe o que significa ou já perdeu o sentido do significado. A mesma coisa que alguém chama o outro de FDP, ou, como os antigos colonos descendentes de italianos, blasfemando, ofendiam a Deus, Maria e santos sem o menor remorso. Mas, o que significa fascista?
A origem remonta ao termo romano, os “fasces”, um feixe de varas apontando para a UNIDADE e AUTORIDADE. Benito Mussolini, pai do fascismo italiano, adoto-o como símbolo. O mesmo fez Francisco Franco da Espanha. Isto se pode dizer de governos de direita.
No entanto, os de esquerda também o adotaram, como Hitler, através de National Socialist German Workers Parry (Partido do Nacional Socialismo dos Trabalhadores Germanos). O “parentesco “ ideológico de Hitler com a esquerda radical se pode ver pelo desfecho na eleição de Hitler.
Mais uma vez os comunistas tiveram candidato próprio, obtendo em torno de 10% da votação. Segundo estudos e análises divulgados naquela época, desesperançados de eleger seu candidato no segundo turno, setecentos mil eleitores comunistas votaram diretamente em Hitler, a tal ponto se tornara evidente o parentesco totalitário de comunistas e nazistas. (A querela do Estatismo, Antonio Paim).

Outros governos da Europa Central abrigaram o fascismo entre as duas grandes guerras. Na Inglaterra, Oswald Moosley, foi o criador da União Britância dos Fascistas. Inclusive foi ministro por este partido.
Portanto, o fascismo historicamente esteve presente tanto na direita como na esquerda.
No fascismo como ideologia, de um modo geral, há um apelo à classe trabalhadora, de natureza populista. No entanto não há uma doutrina política coerente que se possa atribuir ao fascismo. O aparecimento dos fascistas ocorria nos movimentos de oportunistas que exploravam demagogicamente o medo e os ódios para alcançar apoios políticos.
Os conteúdos mais comuns é o nacionalismo, com o fim de conseguir a unidade nacional apelando para a culpa de raças ou divisões de classes, Comunismo, ódio e desprezo pela democracia são outros ingredientes. As instituições democráticas eram usadas para conseguir ou aumentar o poder. No passado, apregoavam, que era preciso um Homem Forte (o Duce, italiano ou Fúhrer, alemão ou o Caudi, espanhol) o qual resolveria os problemas de seu país.
Atualmente a palavra fascista é usada por extremistas, como uma arma política verbal, ofensa para desmoralizar o adversário. Com ou sem fundamento, é usada no sentido ofensivo, sem conhecimento do conteúdo ideológico. É mais comum ser usado pela esquerda contra adversários de direita. Com menos frequência, porém, os de direita também usam contra a esquerda.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Escravidão em Minas, detalhando a história. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei






O livro Quilombo do Campo Grande apresenta fatos e documentos interessantes sobre a escravidão na região das Minas Gerais. O autor, Tarcísio Martins, esclarece que é preciso distinguir os negros que vieram para Minas Gerais, fundamentalmente bantos, dos grupos sudaneses que foram para o nordeste. Essa seria realidade irrelevante não fosse o papel singular que a instituição teve em Minas.
O escravo nas Minas, observou Martins, não vivia como nos engenhos cortando cana, plantando roça, acendendo as fornalhas e limpando objetos. O trabalho nas Minas era muito insalubre e pouco produtivo, nada rendia ao dono, a não ser que o negro encontrasse um rico filão de ouro ou preciosos diamantes. Ou então se ele não garimpasse certa quantidade de ouro. Assim, era essencial motivar os negros a encontrar e retirar quantidades consideráveis de metais preciosos que tornariam rico o dono ou explorador do local. Essa circunstância tornou a libertação de escravos um fato mais comum em Minas do que nos outros estados brasileiros. Explica o autor: “a possibilidade do negro se tornar livre nas Minas Gerais era infinitamente maior do que no engenho. O hábito de libertar o negro que achasse um grande veio de ouro ou um grande diamante foi costume que se consagrou de fato e direito”. (MARTINS, 2008, p. 266) Dessa forma, o preceito de servir toda a vida foi quebrado na prática.
Outra diferença marcante da escravidão em Minas era que, enquanto no nordeste o Senhor de engenho, vinha para o Brasil com toda a família o deslocamento para as Minas era feito só. Então, logo que se estabeleciam, esses aventureiros portugueses compravam negras jovens com quem coabitavam. Eles “ligavam-se a negras africanas ou mulatas, que por sua procura, atingiam altíssimos preços e dada a sua fecundidade, a população aumentava rapidamente de pardos”. (Id., p. 267)
Essa realidade singular colocava o negro escravo numa condição diferente de outras praças, quer porque muitos realmente compravam a liberdade e não eram raros os que enriqueciam depois de libertos, como porque muitas negras assumiam a condição de esposas de fato, ainda que não de direito, e seus filhos eram inseridos na sociedade. O filho do contratador João Fernandes de Oliveira com a mestiça Chica da Silva, por exemplo, foi “ungido cavaleiro da Ordem de Cristo, recebendo o hábito de Cristo só reservado aos brancos nobres, preparando-o, na verdade, para ser o herdeiro do Morgado de Grijó, a maior fortuna privada de Portugal na época”. (Id., p. 274).
Essa situação de alteração na vida social levou ao apartheid mineiro que foi o impedimento dos mulatos ocuparem cargos públicos importantes nas vilas, considerando que esse grupo se tornara numeroso, rico e influente, levando os portugueses brancos a assegurar o poderio político nas vilas, já que tinham a posição econômica ameaçada por esses mestiços. Essa circunstância fez com que a argumentação contra a inumanidade da escravidão ou sua abolição não fosse tema de debates na região, até porque era possível ser contemplado pela boa sorte de encontrar uma pedra ou um veio de ouro que tornasse livre e, muitas vezes, rico, um antigo escravo. A preocupação reaparece quando as Minas se esgotaram.
Toda a elite mineira, mestiça ou não descomprometia-se do trabalho produtivo considerado coisa de escravo. Engrossaram aquela nobreza ociosa que o Marquês de Pombal desejou erradicar e que foi tema dos teatros da Arcádia. No caso, despreocupação com o trabalho produtivo não se originava dos hábitos medievais, mas da associação entre trabalho manual e a condição de escravo. Também contribuiu para essa mentalidade o catolicismo tradicional com suas festas suntuárias, onde a comunidade dispendia recursos não compatíveis com sua realidade econômica. O livro de Martins ajuda a entender a singularidade da escravidão em Minas.


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