sexta-feira, 22 de julho de 2016

Apresentando o livro Ortega y Gasset e o nosso tempo. José Mauricio de Carvalho




O livro Ortega y Gasset e nosso tempo já pode ser encomendado à editora, mas o lançamento oficial e a venda nas livrarias se inicia no próximo dia 4 de agosto. E do que trata o livro? É uma obra para pensar as dificuldades de nossos dias. Ele trata de questões fundamentais para hoje: Como viver em nosso tempo? Como tratar dos espaços existenciais e de nossas relações? Por que viver parece tão difícil? Como o homem lida com limitações como a morte, e também com as incertezas, esperanças, crenças, descobertas e perdas que pontuam a existência? Como dar um sentido à vida? É em busca dessas respostas que se examinou as ideias de Ortega y Gasset.
Como Ortega y Gasset trata das dificuldades de nosso tempo? Ele explica inicialmente que perdemos a capacidade de compreender a vida como mudança na qual continuamente surgem novos e inesperados problemas. Ortega encontra a raiz dessa dificuldade no século XIX e seu historicismo progressista que ensinou que a vida é continuidade. Daí a perplexidade com o inesperado: o surgimento das ciências humanas e seus métodos, as mudanças nos sistemas políticos, a desilusão pela ausência de progresso moral. A perplexidade que marcou o século XX com as dificuldades citadas permanece com as surpresas desse início de milênio: o terrorismo religioso, a revolução das comunicações, a pressa vertiginosa, tudo culminando na falta de sentido.
E o que Ortega pensa desse viver sem sentido? Viver para algo é o que permite enfrentar e suplantar riscos, todo esforço precisa de sentido. Não pode haver esforço pelo esforço ou pelo sacrifício, como diz Ortega, dos motivos elencados pelo rei Felipe II, de Espanha, para a construção do Mosteiro Escorial.  O resultado de um esforço sem sentido é a melancolia, a tristeza. E a OMS insiste que o século XXI é o século da depressão ou da tristeza profunda. E Ortega anunciou isso muito antes desse quadro ser comprovado pela OMS.
Há outras questões fundamentais na obra. Um desses temas é o estudo das massas que, por exemplo, permitem entender melhor os dias que vivemos, pois encontramos, o que parece ser, uma nova geração de homens massa. A categoria massa elaborada por Ortega y Gasset permite falar de uma nova geração marcada pelo hedonismo ansioso, pela pressa e relações horizontalizadas, o que é novo, mas cuja origem é a mesma falta de compromisso com a excelência pessoal do homem massa ou da busca do sentido de que falava Ortega.
Este livro sobre Ortega foi pensado para dar a conhecer a obra do pensador espanhol e a atual hermenêutica de seu pensamento. Creio que agradará todos os estudiosos da Filosofia, pois se vai a ela pelo olhar iluminado de Ortega. Porém, é livro para um público maior. Ele foi pensado para homens sabedores dos riscos de um tempo onde o perigo de viver parece maior que em dias mais estáveis. O entendimento de que estamos num tempo de crise de valores, política, (econômica, etc.) é percebido hoje como nos dias em que viveu Ortega. Essa desconfiança que o homem contemporâneo tem das crenças que guiaram as gerações anteriores, essa dificuldade hodierna de estabelecer consensos válidos, pede novas leituras da realidade humana. Podemos avançar no conhecimento de nosso tempo estudando Ortega e o destaque que dá à fidelidade de cada um consigo mesmo e com a cultura pela retomada da excelência.


sexta-feira, 15 de julho de 2016

BRASIL. UMA SOCIEDADE NA UTI. Selvino Antonio Malfatti




A sociedade brasileira atualmente está como alguém em estado terminal na UTI.A análise não abrange a totalidade, mas o geral. Uma sociedade que está perdendo motivação, entusiasmo, espírito de equipe, e por isso está perdendo sua força vital. Demonstra diminuição, quase extinção, de esforço, vontade de trabalhar, energia: os órgãos responsáveis pela organização estão seriamente comprometidos, como raciocínio e memória. Eles são responsáveis pela direção. O país de modo geral perdeu o pensamento, o cérebro que dirige a sociedade. Falta acionar a mente para se colocar projetos de médio e longo alcance. Perdemos o coração, representado pelos recursos humanos, tanto pela evasão de capacidades como desperdício com recursos mal empregados. Os trabalhadores, os braços da sociedade, já não sentem aquele entusiasmo, ideal. Não diga com visão de todo, mas até para si e suas famílias. Trabalham somente pelos salários. As pesquisas, com projeções futuro, como o sistemas nervosos que garantem vida longa e saudável, deterioram-se e mal sobrevivem ao presente. A sociedade engessou o sistema circulatório com a falta de integração entre processos e pessoas. Com isso, o sistema imunológico, através dos órgãos linfáticos da vida social, parou de garantir a saúde social. Em consequência, o organismo social, está seriamente avariado. A vida social sofre com os processos sociais, verdadeiros sistemas circulatórios. Pois falta a integração entre as pessoas, instituições e sistema político. A sociedade, analogicamente, está sofrendo o stress, dores de cabeça, problemas psicológicos e desequilíbrios de toda sorte.  Evidentemente isto não tem nada a ver com a interpretação do avanço do Planeta Nibiru. 
Friso, não a totalidade da sociedade, mas a generalidade. Por isso, é preciso diagnosticá-la e promover um tratamento terapêutico tão rigoroso quanto caso merece. O que é preciso fazer para reverter o quadro o salvar o paciente? Voltar à educação cívica e ética.
Nenhuma pessoa isolada e nenhuma sociedade como um todo nascem com uma cultura cívica pronta. Ela é adquirida ao longo da vida e provavelmente por toda a existência. Em que momento se daria início a educação da cidadania? Há um consenso dos pensadores na resposta: desde o nascimento. É nos braços da mãe que o futuro cidadão está recebendo inconscientemente os hábitos elementares de cidadania. Por isso o cidadão ético começa a ser preparado desde a mais tenra idade. Começa pela família pela qual, conforme pensa Weber, as crianças aprendem as regras através da autoridade paterna ou materna. No momento em que as crianças ingressam na escola a ética é aprendida em sintonia com as habilidades cognitivas básicas tais como ter posturas corretas quer de pé, quer esteja sentados. Aprendem que é necessário respeitar regras como esperar a vez para falar e ouvir os demais em silêncio.
Numa segunda etapa as regras ético-morais são assimiladas nos grupos e associações, através de papéis que eles mesmos e os demais desempenham neles. Neste momento escola e comunidade interagem. Num clube de lazer o pré-adolescente é um “associado” e como tal lhe competem por lei direitos e deveres, mas há também regras éticas com seus iguais e superiores, tais como lealdade, honestidade, solidariedade, cooperação e outras. Além disso, podem desenvolver o senso crítico avaliando a própria conduta, de seus pares e de seus superiores. Se um superior não cumpre com suas obrigações ou cumprindo de tal forma que vai além delas isso servirá para refletir e discutir sobre o agir. Isto leva a despertar uma aspiração para agir de acordo com os princípios da justiça, pois se constata que o agir correto favorece a quem o pratica, tanto no aspecto pessoal como social. O agir correto começa a fazer parte do normal e o mal, o reverso. Passa-se a gostar do agir ético e sentir prazer com a justiça.
No terceiro momento, o indivíduo passa assimilar os princípios éticos em si, sem necessidade de ter pela frente um modelo material. Agora a justiça, a honestidade, solidariedade são valores em si e aceitos como bons porque racionalmente são bons. Quando tivermos cidadãos que amarem a justiça pela justiça quando se tornarem políticos teremos uma política ética. Este cidadão-político saberá respeitar as diferenças: étnicas, religiosas e ideológicas.  Gerenciará o patrimônio público: erário, prédios, artes. Distinguirá as esferas dos poderes: executivo, legislativo e judiciário, bem como sua hierarquia. Entende-se que, se obtivermos através da educação, um cidadão que é um colega solidário, um administrador fiel, um religioso devoto, um profissional competente, um burocrata compreensivo e também um político honesto.

A educação para ética deverá atingir o cidadão em três dimensões: sua vida, seu projeto e sua atividade profissional. A primeira questão é tipicamente existencial, isto é, está afeta ao âmbito íntimo. É uma cosmovisão pessoal diante da vida. A segunda diz respeito àquilo que cada um se propõe como ideal de vida, isto é, um objetivo que alcançado dará satisfação. E o terceiro, como decorrência do segundo, a vivência. Não há uma dissociação entre estas três dimensões. Elas estão assentadas sobre uma filosofia ética como ponto de partida, de trânsito e de chegada. A ética é o meio e o fim da vida, do projeto e da cidadania. Este será o cidadão projetado pela educação que trará, como consequência, o homem desejado para a polis..

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Buber e a coexistência. José Mauricio de Carvalho




Coexistir é realidade humana fundamental, em nenhum momento da vida o homem está completamente isolado do mundo. Logo viver é relacionar-se e a consciência humana o reconhece pela intencionalidade. Isso ensinou Edmund Husserl, o criador do método fenomenológico, ao dizer que consciência é sempre de algo. O caráter relacional da existência foi igualmente reconhecido pelo filósofo espanhol Ortega y Gasset que descreveu a vida como "um que fazer". Isso representa, antes que qualquer outra realidade, o sentido relacional do existir, no caso de Ortega numa circunstância. Os diversos filósofos da existência consideraram o problema de algum modo, pois não importa que aspecto da existência se considere, estamos coexistindo. A coexistência se revela em nossa história, corpo, pensamento, sociedade ou psicologia. O que varia é o modo como se olha as relações. Ainda que Buber não seja propriamente um existencialista faz uma análise das relações que se aproxima das análises da existência.
Uma das mais criativas análises do caráter relacional da vida encontra-se em Eu - Tu, livro de 1923, obra prima de Martin Buber. O livro é  pequeno, mas denso em suas três partes. O estilo é pouco sistemático, mas vivo e dinâmico. O autor utiliza frases soltas intercaladas com trechos de aprofundamento, lembrando os aforismas e metáforas dos ensaios de Friedrich Nietzsche. A primeira parte do livro descreve o aspecto nuclear das relações, a segunda considera um tipo especial de relação expresso na história dos indivíduos e da sociedade e a terceira aborda as relações com Deus (Tu eterno). A estas três partes o autor apensou um post-scripitum (de outubro de 1957) onde esclareceu aspectos pouco compreendidos da obra, notadamente das relações entre os homens e com Deus.
Neste pequeno artigo apresenta-se apenas a primeira parte do livro, procurando-se indicar a riqueza das análises de Buber sobre as relações. Essas relações se resumem em dois pares de vocábulos Eu-Tu e Eu Isso, sendo o Isso substituível por Ele ou Ela. Para Buber, quando se fala Tu ou Isso, pronuncia-se palavras-princípios, que são os pares de vocábulos que resumem as relações possíveis com o mundo. E como Buber descreve esse mundo relacional?
Ele o faz diferenciando o Tu e o Isso. O primeiro refere-se à aquilo que não pode ser objetivado e portanto, não pode ser possuído pela consciência. Como tal é um nada pois está além da possibilidade de ser objetivado. O Isso em qualquer de suas formas Ele, Ela, Ele e Ela, Ela e Isso, exprime a experiência do mundo, ainda que a experiência, como fenômeno, se restrinja ao experimentador, e não algo entre ele e o mundo.
Ao examinar as relações, o filósofo menciona três esferas onde elas se dão: a primeira é a natureza, a segunda são os homens e a terceira os seres espirituais. Na primeira esfera a relação permite a classificação. Diz Buber (p. 54): "Eu posso classificá-la numa espécie e observá-la como exemplar de um tipo de estrutura e de vida". A segunda esfera de relações é entre os homens e elas não se objetivam como Isso e nem posso ter delas experiência. Essas relações são inexperienciáveis porque não se deixam apreender como o fenômeno e não têm utilidade ou função. Eu - Tu exprime unicamente um encontro ou relação. Nesse sentido, para haver encontro é necessário a presença e não sobrevive sem ela. O que fica sem a presença é o Objeto que não é duração, mas fixidez, interrupção, ou ausência de relação. E aqui temos um tópico nuclear do caráter relacional do homem, as relações Eu - Tu, na ausência do Tu se convertem em Eu - Isso, o que significa que o que ficou depois da presença foi uma reprodução fixa da vida, em si dinâmica e com profundidade inatingível.
Em contrapartida, algo do mundo pode estabelecer com o Eu uma relação de Tu. Nesse caso o fenômeno possui um significado oculto, místico. O que o homem primitivo queria exprimir de seu encontro com as coisas era uma realidade de mistério onde os fatos (p. 63): "são todos fenômenos elementares de relação." Esse encontro mágico com o mundo tinha um sentido maior, o  que fazia com que uma pedra tivesse poder. O que houve mais tarde foi que o Tu dessas relações primitivas foi objetivado, e o mundo foi classificado em grupos e gêneros. Deixou de ser Tu e tornou-se um Isso.
O homem primitivo, diz Buber, estabelece esse tipo de relação com a natureza porque coloca a palavra Eu - Tu antes de experimentar o Eu e posteriormente, quando ele objetiva o ente dá origem ao Isso. O Isso depende da cisão com o mundo e é o que se mostra na consciência fenomenológica, explica o filósofo (p. 65): "eu vejo a árvore é proferida de tal modo que ela não exprime mais uma relação entre o homem Eu e a árvore Tu, mas a percepção da árvore-objeto pelo homem consciência. A frase erigiu a barreira entre sujeito e objeto, a palavra - princípio Eu - Isso, a palavra da separação foi pronunciada."
Outro aspecto importante relacionada à forma primitiva de pensar se refere à nostalgia do primitivo. O conceito não se refere a uma espécie de culto do passado, mas a saudade do vínculo com o universo, experimentado na placenta, e que se perdeu com o nascimento. Esse entendimento se encontra na mística judaica e assim se exprime (p. 66): "o homem conheceu o universo no seio materno, mas ao nascer tudo caiu no esquecimento." A criança vive essa dinâmica nas suas experiências e perplexidades. O seu desenvolvimento encontra-se "indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da nostalgia do Tu, às realizações e decepções deste anseio."
A conclusão dessa primeira parte é que o Eu só se torna Eu na relação com o Tu. Muitas vezes, mas nem sempre, a relação com o Tu desaparece para dar origem ao Isso. Há casos em que fica o Isso em si, à espera de uma nova  relação.O mundo, no entanto, somente pode ser classificado quando deixa de ser Tu para tornar-se Isso. Como nem sempre assim ocorre o mundo aparece na duplicidade, ele é o Ser que não se objetiva e os entes que se objetivam. O Ser é aquilo que (p. 71): "o confronta, mas sempre como uma presença e cada coisa ele a encontra somente enquanto presença, aquilo que está presente se descobre a ele no acontecimento e o que acontece, se apresenta a ele como Ser". E, finalmente, na relação com o Tu surge o amor, pois o amor não se manifesta quando o que se intenta é experimentar e utilizar. Algo que lembra o imperativo categórico de Kant em que as relações éticas somente são possíveis quando o outro (ou Tu) é um fim em si mesmo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

BREXIT: uma tradição britânica. Selvino Antonio Malfatti.




A Britânia nunca aceitou se integrar ao Império Romano, símbolo da Europa continental, na antiguidade. Na Idade Média emancipou-se do cristianismo europeu, aproveitando a Reforma de Lutero, fundando a igreja anglicana com sua própria autoridade, o Arcebispo de Cantuária. Na Idade Moderna não acolheu as reformas científicas como as unidades de pesos e medidas adotadas na Europa, permanecendo com as próprias. Na atualidade, o Reino Unido só aceitou participar politicamente da União Europeia, pois não acolheu o euro, isto é, ficou de fora monetariamente da Europa continental. E no momento atual, 22 de junho de 2016, aprova por plebiscito a saída da União Europeia. Por isso, para quem conhece a trajetória histórica da Inglaterra não foi nenhuma surpresa. O britânico parece que adota o lema paulista: non ducor duco. Seria o mesmo que dizer: não me associo a ninguém, os demais que se associem a mim.
E foi o que aconteceu. Os ingleses votaram o “leave” e decidiram sair da União Europeia. Todos sabiam que o Reino Unido torcia mais para acabar com a União Europeia do que incentivá-la. A consolação é que vale mais perder um membro revoltado do que teimar em mantê-lo através de concessões, status especiais, privilégios e outras formas algumas vezes até humilhantes.
Consumados os fatos, saída do Reino Unido da União Europeia, surgiram as explicações. E a velha explicação, que na verdade não explica nada: a culpa é dos “velhos” que votaram o “leave” preferindo o passado ao futuro, às recordações aos sonhos, o bom senso à ilusão. Os jovens, ao invés, preferem o crescimento sem fronteiras, livre educação continental e fronteiras de trabalho mais amplas, por isso votaram “remain”.
Será, no entanto, tão simples assim? Apenas um conflito de gerações? Evidentemente, não. É um argumento fajuto. Basta apenas ler os dados. Somente 36% dos jovens compareceram às urnas. E todos teriam sido europeístas? Basta verificar que somente um terço dos jovens preferiu ir às urnas e os outros dois terços ficaram em casa. O mais quer se poderia dizer, neste caso, é que os jovens deserdaram das urnas. Portanto, a explicação de conflito de gerações não se sustenta.
Na verdade, o que acontece realmente, é que a União Europeia era apenas nominal. Se observarmos os fatos, o intercâmbio é cada vez mais rigoroso com os países em dificuldades e sempre mais distante da ideia de solidariedade, um projeto coletivo de progresso social. Não basta ter um hino, uma bandeira para criar um povo culturalmente identificado. Atrás de tudo continuam os velhos problemas: a gravíssima crise da economia global e com ela a zona do euro, os salários, as aposentadorias, a educação, a pesquisa, a cultura e os serviços essenciais não se fazem com decretos como se faz crer. E parece que a escolha dos britânicos sinalizou para isso.
No entanto, permanecem as perguntas no ar em relação aos efeitos da decisão para a Europa e para o resto do mundo.
1.    Entre positivos podem ser enumerados, entre outros, a absorção das empresas pela União Europeia que se afastarão do Reino Unido. Mas os efeitos no comércio serão majoritariamente negativos devido às restrições em relação à Londres e às incertezas bancárias. De um modo geral, tanto a Inglaterra como a União Europeia, se ressentirão da decisão do Reino Unido.
2.    O Reino Unido costumava apor numerosos vetos. Agora a União Europeia estará livre deles e poderá por isso ter mais agilidade em suas decisões, inclusive conquistar novos mercados.
3.    Em contrapartida, vislumbra-se um cenário econômico-político anglo-saxão, reunindo Reino Unido, Estados Unidos e provavelmente Canadá concorrendo com a União Europeia. Para tanto, esta deverá atrair novos mercados. Se não fosse a fragilidade, esta seria uma oportunidade para o Mercosul de aliar-se à União Europeia. Resta saber: os orientais, com quem se alinharão.

Quanto à decisão, diz um provérbio antigo: quer ir? Então vá! Bye, bye. Ou, mais ou menos parafraseando Cícero:  Si mundus vult decipi, decipiatur.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

AS INSTITUIÇÕES POLÍTICAS AMERICANAS VISTAS POR TOCQUEVILLE. Selvino Antonio Malfatti.


NOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA o governo está alicerçado sobre a maioria, e esta é a democracia. É a democracia de um governo senão de todos, ao menos da maioria. Se essa maioria não se consegue diretamente, ao menos seus representantes serão a expressão da maioria. As minorias devem se submeter.  Sua engenharia política é denominada de sistema representativo.
ESTE SISTEMA é invenção anglo-saxônica. Nasceu ao longo da história inglesa e se disseminou pelo mundo. Aliás, uma das características dos anglo-saxões é de  ”construírem sua própria cidade”, como disse um historiador da antiguidade.  Construíram seu sistema de medidas como Mil, Polegadas, Pés, Jarda, Rod, Milha, Légua etc. que, embora outros países tenham outras, eles continuam com a sua. Um exemplo atual é a moeda. Praticamente quase toda Europa adota o Euro, a Inglaterra permanece com a Libra. E a partir de agora, abandona também a Comunidade Europeia.
O SISTEMA REPRESENTATIVO inglês tem como suporte último a soberania do povo. É um sistema hierárquico de elos interligados desde o mais alto até o ínfimo. Em última instância está o povo.

            TOCQUEVILLE CONSTATOU que isso acontecia na América. A começar pelo legislativo, eleito diretamente e por curto espaço de tempo. As duas casas, dos deputados e senadores, são eleitas pelo mesmo eleitorado e seus movimentos são simétricos. Analisam as mesmas matérias, procedem da mesma forma e, algumas vezes, agem juntas. Acresce-se a isso, o costume de os eleitores traçarem um plano de conduta para o deputado. É praticamente a fórmula da democracia direta.
            O PODER JUDICIÁRIO, ao menos nas instâncias inferiores e em quase todos os estados, é eleito diretamente e pela maioria. Seus salários dependiam da maioria do legislativo.
            CONTUDO, a mais significativa das instituições norte-americana era o sistema eleitoral, o distrital. Primeiramente, produziu duas grandes correntes de pensamento, expressas em partidos: o republicano e o democrata. Estes dois partidos se alternam no poder, ora um, ora outro, contabilizando uma média de 94% dos votos. Há outros, mas estes dois constituem as maiorias que dão estabilidade ao governo.  Este sistema, ao mesmo tempo que tornava o país governável, pelas maiorias que produzia, poderia ser uma ameaça às minorias nos seus direitos individuais. Tocqueville encontra uma explicação sociológica para o fato de esta maioria não se tornar tirana. É a igualdade natural dos povoadores da América e a ausência de divergência de interesses. Em outras palavras, a sociedade era compactamente homogênea quanto à ideologia, isto é, liberal. Isso significa que, por ser homogeneamente liberal, poderia incorporar e praticar os princípios democráticos.  No entanto, Tocqueville antecipa e alerta para o perigo de que pode se revestir um princípio absoluto da maioria, quando foge ao âmbito da política. Ele mesmo cita o exemplo do sistema carcerário. Os detentos atuais vivem uma situação deprimente. Alguém levanta a bandeira dos direitos humanos e a maioria acata. Passa-se então a construir prisões mais humanas, sempre com o apoio da maioria. No entanto, os miseráveis das prisões antigas são esquecidos e não há mais ninguém que zele por eles. Isso tudo com o apoio da maioria. Outra questão cruciante apontada por Tocqueville, no ange os direitos individuais, foi a escravidão. Sobre isso havia algo que se impunha inexoravelmente: sua extinção. No entanto, os Estados Unidos ficariam entre duas alternativas que o levariam a um beco sem saída: se fosse concedida a liberdade aos negros, eles cometeriam abusos; se não fosse concedida, eles a tomariam à força. Quanto à primeira, houve abusos, mas superados, embora alguns com violência. Quanto à segunda alternativa, com certeza nem Tocqueville imaginaria: um negro eleito presidente: Barack Hussein Obama Segundo, do Partido Democrata, elege-se presidente, enfrentando seu adversário do Partido Republicano, John Mccain, nas eleições presidenciais de novembro de 2008, nos Estados Unidos da América.
CENTO E CINQÜENTA anos depois, Tocqueville, através de Paul Gray, “revisita” os Estados Unidos para fazer um balanço sobre suas previsões, mormente no que concerne a questão das minorias. O problema levantado por ele no século XIX, da fraqueza e indefesas minorias, agora elas se constituem na sua força. Primeiramente, as minorias se tornaram tantas que há uma maioria de minorias. Em segundo, quando uma minoria pretende reivindicar algum direito é exatamente o método da fraqueza que é invocado. Além disso, as minorias, além de sua proliferação ruidosa, lançam mão do argumento da fraqueza e, com isso, conseguem acesso a poderosos meios de influência da opinião pública, a mídia, e através dela, defendem, de forma barulhenta, seus direitos.   
                        TOCQUEVILLE FAZ uma reflexão sobre a questão da maioria e coloca que, acima dela, deve estar a justiça. Essa é a maioria do gênero humano e não apenas de uma determinada comunidade. Era necessário um legislativo que representasse a maioria, mas sem ser escravo de suas paixões. Um executivo com força própria e um judiciário independente dos outros dois poderes. Tocqueville queria aproximar os princípios liberais e democráticos. Entendia que todos são chamados a participar do governo, no entanto, através de um processo racional e justo, com uma representação detentora real de poder e o controle através de sua divisão.
                        DESSA FORMA, percebe-se que os norte-americanos conseguiram aproveitar o que havia de bom nas instituições políticas inglesas e afastar o que elas tinham de nocivo. Afastaram, por exemplo, a aristocracia, a desigualdade estruturada, a discriminação racial, a intolerância religiosa e outras. Aproveitaram-se do sistema de vigilância dos poderes - pesos e contrapesos - a eletividade dos cargos públicos, a preocupação com os direitos individuais e, acima de tudo, do processo eleitoral distrital que propicia o afunilamento de interesses.



sexta-feira, 17 de junho de 2016

Viver o sentido José Mauricio de Carvalho






Tratar da vida parece inevitável. Ela é o que somos na nossa relação com o mundo. Pode ser mais ou menos intensa, mais ou menos meditada, mais ou menos amada, mas é o que no fundo nossa existência mesmo é. Vivemos no que fazemos, especialmente em nossas escolhas. Nem todos dedicam a atenção devida às escolhas que fazem, mas são elas que tecem nossa existência. E por que não dão atenção a algo tão sério? Por conta das dificuldades naturais que estão na vida e que são entre outras: as atribulações que nos alcançam, as dores que nos penetram, a correria dos nossos dias, as ilusões de uma felicidade proposta como compra ou venda, a grande pressa que está longe de ser a ausência de viver. Tudo isso tira o foco e distrai. E há ainda a inconsciência de nossos desejos mais profundos e a despreocupação com o futuro que desejamos dar à aventura que somos.
Para enfrentar os problemas da sobrevivência e do bem estar que almejamos, criamos a ciência e a técnica, e elas se tornaram imprescindíveis e sua aprendizagem cada vez mais exigente. E por isso essa é uma tarefa a que quase  todos se dedicam, desde a tenra infância. Aprender uma ciência ou uma técnica é o principal desafio de nosso tempo. Os pais ensinam desde cedo que ser bom profissional é condição para  ter sucesso em muitos campos. E estão certos tanto em dizer que a ciência é fundamental, quanto na preocupação com a profissionalização dos filhos. E a isso se soma, muitas vezes, a preocupação com a saúde física e psicológica e haja aula de línguas, ginástica, natação e academia ao lado do ensino regular. Os melhores pais ainda se dedicam à conversa amorosa com os filhos, ao exercício do diálogo e a compreensão, magnífica tarefa de dar e reconhecer a razão. Muitos fazem isso com sucesso, mas essa é a tarefa por excelência dos avós que são mais vividos. Esses últimos tocam nas questões essenciais, com maior ou menor sucesso ou intensidade.
Aprender ciência é fundamental, mas não é tudo o que fazemos, há outras coisas importantes como a arte, a religião e a meditação filosófica. Porém, a ciência moderna ganhou grande destaque porque seu sucesso é enorme no controle da natureza e nos agrada estar no controle do mundo. O que fazemos quando criamos todas essas coisas e experimentamos tantos amores é viver.
O essencial para viver vem do viver mesmo. Algumas coisas aprendemos olhando e conversando com quem nos rodeia, outras aprendemos em nós mesmos. Com nossos erros e acertos. Para entender a vida como um tecido que fazemos a cada momento é essencial aprender a ir ao futuro. E essa criação é também uma arte, ou uma forma distinta de arte para a qual muito ajudam a ciência, a religião, a filosofia e o cultivo do belo. Porém essa arte magnífica que é viver é uma abertura para o futuro. Abertura que significa deixar para traz algo que pode ter sido magnífico, mas que não esgotou nosso propósito de amar, de explorar as possibilidades de viver, de preencher toda esperança de experimentar algo bom. Essa força que nos move para frente guiada por uma bússola interna é o que entendemos ser o sentido. O sentido é o que nos move e nos moverá com propriedade se estivermos atentos a essa bússola íntima. É ela que o filósofo espanhol José Ortega y Gasset denominou magistralmente de fidelidade íntima. Ao dedicar nossa vida a fazer as coisas conforme essa fidelidade íntima teremos uma existência mais do nosso jeito.
E o olhar para frente é o que estabiliza cada movimento. Algo assim como o ciclista que somente se mantém sobre a bicicleta enquanto a pedala e a faz andar numa direção. O ciclista pode parar e andar para trás, mas não com a mesma força e com o mesmo ímpeto de quando se lança em direção à linha de chegada. Assim é o sentido de nossa vida.

sábado, 11 de junho de 2016

Estado, Política e sociedade, na Interpretação de Touraine. Selvino Antonio Malfatti


Dos três elementos constitutivos da realidade política da América Latina - Estado, sistema político e sociedade - o mais importante evidentemente é sistema político, e no seio deste, a organização partidária. Os regimes populistas, quando atuam por partidos, estes se tornam populistas. Por sua vez, partidos populistas e representação excluem-se mutuamente. Não há, nesses casos, uma relação de representantes e representados. O partido tem "chefe", o qual, por seu carisma, consegue a mobilização através da lealdade de seus membros e não pela imantação de conteúdos unificadores. Os atores políticos de partidos populistas estão mais interessados nas benesses proporcionadas pelo Estado do que pelos interesses e necessidades da sociedade. O apelo ao povo é tão somente para se conseguir chegar ao poder. Colimado o desiderato os atores aninham-se no Estado transformando-o os interesses particulares em interesses nacionais. O líder, após chegar ao poder através de uma ampla mobilização popular, molda o Estado e adapta-o aos objetivos populistas. O apelo se faz tendo como fator mobilizador em direção um problema, o qual, superado, daria bem-estar a toda sociedade. Como exemplos, podem ser citados Juan Peron na Argentina, José Figuerez da Costa Rica, Eduardo Frei do Chile e Getúlio Vargas do Brasil. O apoio popular teve como idéia-eixo a indústria nacional com Peron, agricultura com Figuerez, reforma agrária com Frei e a industrialização com Vargas. Conforme o Touraine, o Brasil e o México, constituem-se mais em nacionalistas e desenvolvimentistas do que puramente nacional-populistas porque as elites dirigentes foram resultado da ação do Estado, protetor das oligarquias locais. Não eram os líderes, no Brasil, que controlavam o Estado, mas este controlava aqueles. Isto significa que o Estado é uma força centralizadora. Quem quisesse progredir deveria permanecer em sua réstia, e não tentar possuir "motu próprio". No México, a situação é diversa, devido ao papel do partido. Este se constitui num modelo de Estado. É um partido - Estado. A ideologia subjacente é o progressismo, o qual, com Cárdenas, se manifestou na nacionalização do petróleo, reforma agrária e nas leis sociais. Nas organizações políticas e democráticas os partidos políticos têm pelo menos três grandes funções: representação, agentes de mobilização, portadores e projetos através de seus programas. As três funções podem ser colocadas em situações reais de super desenvolvimento do sistema político ou do Estado, de fraco desenvolvimento do sistema político ou médio desenvolvimento. Em situação de super desenvolvimento, o Estado é centralizador e o promotor da integração, como é o caso do Brasil. Em tal situação os partidos são fracos e sem autonomia. Nestes países, além do Brasil, podemos citar também México. A mobilização se dá através do Estado. Os próprios partidos servem de instrumento de controle social. O Brasil, após a década de oitenta está superando esta situação, principalmente pelos seus partidos e sindicalismo. No outro extremo, há países onde o sistema político é forte e o Estado fraco. Estes países têm fraca integração social. Um dos exemplos típicos é o Chile. Nestes, parece, o regime político democrático tem mais chances de vingar. Os partidos políticos são fortes, tais como a Democracia Cristã, Partido Socialista e Partido Comunista. Estes partidos cumprem as três funções que lhe são ínsitas tais como: doutrinar, mobilizar e representar. Neste país, o centro do sistema político, a referência maior, é o partido. Aproxima-se deste modelo o Uruguai através de seus partidos Blanco e Colorado. E há os tipos intermediários, nos quais o partido nem forte, nem fraco e conseqüentemente, nem o Estado é muito forte, nem muito fraco. É nesta situação que o Nacional-Populismo encontra seu terreno mais fértil como é o caso do Peru, Venezuela, Equador, e outros.
O Parlamento, por sua vez, oscila de acordo com o modelo. Somente onde há partidos fortes é que o parlamento pode assumir seu papel de representação. E como na América Latina, os modelos ora privilegiam o Estado forte, com partidos fracos, ora Estado fraco e partidos fracos, a função do parlamento é sempre limitada. Onde o Estado é forte a ação preponderante cabe ao Executivo, e onde Partido e Estado são fracos, abrem-se espaço para movimentos pára-políticos, marginais como terrorismo e revolucionarismo. Ora, estes movimentos são os responsáveis pelas crises institucionais que intermitentemente assolam os países latino-americanos. 

Touraine crê que a solução do problema está dentro do homem. Tampouco crê na solução marxista. A idéia de classe, ligada à luta revolucionária, foi substituída pela idéia de movimento social, emerso de uma dinâmica social. Não eliminou conflito do movimento, mas civilizou-o pela idéia de dinâmica e principalmente pela idéia de atores sociais. Este conceito, por sua vez, transfere o "motu" da história do externo para o interno. Não são as leis de superestruturas ou infra-estruturas que comandam a história, mas atores conscientes. Por isso, às forças econômicas, Touraine contrapõe as forças morais. É nesse sentido que ele tenta uma síntese entre Marx e Weber. O substrato cultural, decorrente do sujeito, é o móvel social.

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