sexta-feira, 18 de março de 2016

A coluna vertebral de um país. José Mauricio de Carvalho



Quando Max Weber publicou sua obra mais conhecida, A ética protestante e o espírito do capitalismo, ele pôs em evidência uma questão interessante, a relação entre a produção econômica e a crença religiosa. Desde então o assunto mereceu aprofundamento, debates e ampliações. Não se pode deixar de registrar a contribuição de Viana Moog com Bandeirantes e Pioneiros e Richard M. Morse com O espelho de Próspero. Entramos nesse debate, em 1995, com o livro Caminhos da moral moderna a experiência luso-brasileira (Belo Horizonte: Itatiaia, 1995 - coleção reconquista do Brasil), onde procuramos mostrar que não só a crença religiosa, mas a organização política e jurídica da sociedade são decisivas para seu desenvolvimento e enriquecimento. Comentamos que a proposta pombalina de modernização do Estado português, preservando a monarquia absoluta, o padroado e a adoção, por Melo Freire, do idealismo jurídico na construção do primeiro Código de Direito Civil de Portugal (e também do Brasil por extensão), igualmente explicam as dificuldades que tivemos de entrar no clima da modernidade. Muita coisa ocorreu desde o século XVIII, mas os problemas que daí vieram interferiu por muitas décadas no destino do país, se é que ainda não interfere.
O espírito do capitalismo, para Max Weber, é um código de conduta que se revela na dedicação ao trabalho, na preparação para a profissão, na entrega diária, à excelência profissional. Nesse sentido, o trabalho não seria necessário apenas para assegurar a sobrevivência, mas fundamental como parte da vida humana. Para essa mentalidade contribuiu a ação, embora não intencional, de Lutero que deu ao trabalho um sentido divino ao aproximar a vocação dos homens da missão terrena. Mesmo sem pretender, Lutero estimulou as pessoas a se dedicar, com excelência, ao trabalho e a ter cuidado com o mundo. Um pouco do que o Papa Francisco pede ao falar da preservação do planeta passa pela mesma crença no embelezamento da obra de Deus. Porém, só cuidará do mundo como quer o Papa Francisco quem acreditar que é tarefa do homem torná-lo belo, limpo e agradável com o trabalho dedicado, disciplinado e bem preparado. Não sei como fazer isso quando mesmo sob ameaça de dengue, zika e outras doenças, as pessoas não conseguem organizar a própria casa com capricho e sem deixar água parada. A televisão diariamente o lixo espalhado pelas cidades e casas, que é onde se localizam os principais focos do mosquito. Pobre casa comum do Papa Francisco tão desleixada por tantos.
A questão de Weber pode ser aprofundada se entendemos que nossa relação com o mundo passa pela forma como organizamos a vida e os valores, que Miguel Reale ensinou ser a base da cultura. Como produto do esforço e dedicação do homem, a cultura se afasta do mundo natural. Por outro lado, o homem somente vive e se insere perfeitamente na cultura quando experimenta os bens culturais e incorpora os valores que eles contemplam. Por isso, a cultura é marcada pela objetividade, temporalidade e historicidade. Os valores culturais, por sua vez, constituem a coluna vertebral do povo, pois sem eles não haverá compromisso com a excelência, nem rumo ou esperança. Por isso, nada faz mais mal a nosso povo que lhe quebrar a hierarquia de valores, pois sem os valores em que se acredita, perde-se no que crer e para que viver.
Todos esses episódios tristes da política nacional, se de um lado, nos fazem ter um resto de esperança pela ação reparadora da justiça, mas por outro lado exigem rumos diferentes para que a política, como expressão do destino do povo possa se pautar por valores importantes base da vida social: a verdade, a sinceridade, a honestidade, a correção e a excelência no que se faz.


sexta-feira, 11 de março de 2016

O DESPERTAR DO SENSO DE NUDEZ NO SER HUMANO. Selvino Antonio Malfatti.




A escritora e pensadora Anna Meldolesi, italiana, publica o livro: Il Millenario senso Del Pudore (O Milenar Senso de Pudor), no qual discute os conceitos de tabu, censura e contradições da nudez, fazendo um balanço entre convenções e hipocrisias humanas.
O livro mereceu um comentário de Pierluigi Battista no Jornal Corriere. Conforme Battista a escritora entende que quando o ser humano estava coberto por uma pele natural, mais ou menos há três milhões de anos, um milênio a mais ou a amenos, não faz diferença. Neste período a humanidade não tinha qualquer preocupação com o senso de pudor e, portanto, estava isenta desta tortura causada pela nudez.
Afirma que o pudor é ambíguo, dispersivo e mesmo intimidante. Vejamos: as mulheres vão à praia de biquíni, mas jamais sairiam de casa de roupas íntimas em que pese partes visíveis sejam as mesmas. Com os homens acontece o mesmo. Na praia também usam sungas ínfimas, mas jamais sairiam de casa de cuecas. O livro de Meldolesi analisa precisamente esta dicotomia: como é permitida uma forma de vestir-se num determinado ambiente e em outro a mesma forma é considerado ataque ao pudor? Milhares e milhares de anos se passaram, nos quais a nudez não foi objeto de críticas. Mas ultimamente, desde Eva Herzigova, como uma reencarnação de nossa primeira progenitora juntamente com seu companheiro Adão, a nudez ficou escondida atrás de uma folha de parreira.
O intrigante em Meldolesi é de saltar o arco temporal de milhões de anos para o decênio. Esta mudança ocorreu de repente. Poucos anos faz que o topless era considerado o máximo da afronta e impudência.
Como surgiu o senso de pudor? A escritora explica com argumentos biológicos. Quando as mulheres começaram a preferir homens menos peludos para procriar àqueles cobertos de pelos nasceu também uma cultura de ocultar seu próprio corpo. A partir deste momento nasceu o costume de se fabricarem roupas e sentir vergonha quando fosse desnudado.
O senso de nudez causou nos seres humanos muitas coisas boas, mas também ruins. Entre as primeiras se podem citar a moda, a arte, os tecidos e uma elaboração cultural. Mas criou também coisas ruins como neuroses, angústias e frustrações. Modificou os critérios de beleza e alimentou tabus. Despertou construções de teorias filosóficas, mas fez nascer sistemas repressivos e libertários. A nudez criou a censura. Fez surgir comportamentos narcisistas e, amparada na tecnologia, exasperou o exibicionismo.
A autora Meldolesi enfatiza a velocidade com que o senso de pudor está se modificando não só entre decênios, mas de quinquênio e de ano para ano. Qualquer parte do corpo, de mulher e de homem, pode ser motivo de propaganda comercial ou erótica. O corpo, despojado do pudor, se tornou objeto de exploração em qualquer dimensão da atividade humana. A mudança de senso de pudor modificou a língua, o léxico e riqueza mesma do vocabulário. Em alguns idiomas mais, outros menos. Até mesmo palavras novas surgem como no inglês que distingue “naked” significando nudez natural, inocente, pura. “Nude” é encontrada na arte, na artificialidade, na estilização. “Bare”, por sua vez, quer dizer qualquer coisa descoberta. A transformação do conceito de nudez ocasionou uma mudança cultural vertiginosa que não necessita mais de milhões de anos, mas no máximo de décadas.
Em que pesem os méritos da escritora, comentados por Battista no jornal Corriere, teceria algumas observações a título de colaboração. 
A antropologia não apresenta fatos de mulheres (fêmeas) escolherem seus parceiros (machos). O que se conhece é que os machos dominavam as fêmeas e com elas se acasalavam. 
Também não há indícios de que estes primitivos se acasalavam para procriar. O objetivo era satisfazer o instinto sexual e disso decorria a procriação. Entre os primitivos habitantes da América não havia homens peludos, no entanto, cobriam "suas vergonhas" e o senso de pudor inexistia ou era muito tênue.
Penso que a explicação puramente biológica do pudor de Meldolesi, comentada por Battista, é incompleta e limitada. Não significa que não tenha acontecido. No entanto, parece-me que a inserção de um conteúdo cultural o tornaria mais completo. Por exemplo, de um modo geral em sociedades onde a religião se impôs sobre todos os membros e condenava a nudez havia o senso de pudor. Assim aconteceu com o judaísmo, islamismo e cristianismo, entre outras. Onde a religião se absteve de levar em conta a nudez, como nas mitologias e politeísmo antigos, ou fetichismo dos primitivos habitantes da América o senso de pudor foi secundário e em consequência a nudez deixava de ser problema.
Logo, é preciso levar em conta outras condicionantes que não sejam somente as biológicas.

  

sexta-feira, 4 de março de 2016

Os segredos da política e a necessidade de revelar verdades. José Mauricio de Carvalho - Professor do IPTAN





Todas as vezes que o serviço secreto americano força as operadoras e companhias de internet a permitir acesso às mensagens dos usuários, o fato coloca em questão a garantia dos cidadãos de ter a intimidade preservada. Trata-se de matéria constitucional em muitos países. É o novo mundo da informática, colocando em público os segredos dos cidadãos, fato que é justificado pelo terrorismo e fanatismo religioso de nosso tempo. Contudo, a questão não é nova, os governos sempre encontram motivos para vasculhar a vida dos cidadãos.
A mesma perplexidade ocorrida recentemente com a espionagem americana ocorreu na Alemanha, muito antes das ameaças terroristas de hoje. No início dos anos sessenta, a revista Der Spiegel revelou que o governo alemão fazia escutas telefônicas, apesar do direito dos cidadãos à intimidade ser assegurada na Constituição. O assunto teve grande repercussão no país e na Europa. Em outras palavras, os políticos justificam o acesso à vida privada dos cidadãos, mas não gostam quando a própria vida ou a administração pública é vasculhada pela imprensa ou a polícia. Se o primeiro fato é discutível, o segundo é fundamental e do desejo da sociedade. Pessoas que entram na política assumem que a própria vida e trabalho terão dimensão pública.
A pesada rotina da maioria das pessoas as levam a não se interessar pela vida política, a não se preocupar com os contratos do Estado para fazer estradas, hospitais, escolas, aeroportos, portos, ferrovias, etc. No entanto, os episódios recentes denunciados pela Polícia Federal na operação lava jato, envolvendo empresários ladrões e maus políticos, mostram que a insinceridade e a mentira não podem permanecer acobertadas na gestão pública. E se o acesso à vida privada dos cidadãos encontra justificativa nos riscos à sociedade, mais razão há para que a verdade na gestão das coisas do Estado seja revelada. Uma gestão pública feita em segredo é um fato negativo para a sociedade.
A vida pública precisa ser transparente, pois interessa à sociedade saber como os recursos são gastos, mas especialmente é importante acompanhar a forma como é feita a gestão do Estado, pois isso funciona como instrumento de educação social. Do mesmo modo que a operação lava-jato ensina que não se pode desconhecer a gerência do Estado, o processo de punição dos culpados é parte do fórum da auto-educação política. A corrupção que está em evidência na operação lava-jato não se limita à esfera federal, encontra-se igualmente presente na administração dos pequenos municípios e também ela precisa ser combatida e punida pela sociedade brasileira.
O filósofo alemão Karl Jaspers enxergou nas tentativas de ocultar os negócios do Estado a prevalência de interesses contrários aos da sociedade. Assim ele diz em Introdução ao pensamento filosófico (9. ed., São Paulo, EPU, 1993): "só o interesse público é absoluto: que a batalha pela verdade e pela sinceridade possa continuar a fazer-se com normais possibilidades de êxito; a batalha pela ordem de prioridade dos interesses e pelo bem comum, que transcendente a todos os interesses: a liberdade, res-pública (coisa pública)" (p. 99).
Os políticos, os governos e seus funcionários pretendem manter suas ações escondidas, porém os últimos acontecimentos do país mostram que é preciso que eles estejam bem visíveis, não apenas para que se veja a punição aos corruptos, mas para que a verdade ganhe notoriedade na condução dos negócios do Estado.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

COMO SE FORMOU A CRENÇA DO PURGATÓRIO CONFORME JACQUES LE GOFF. Selvino Antonio Malfatti.
















No dia 12 de janeiro, com 90 anos, faleceu o historiador francês Jacques Le Goff. Foi um especialista em história da cultura medieval. Durante muitos anos perdurou a ideia de que a Idade Média foi uma noite de mil anos. O que aconteceu é que o progresso não foi propriamente material, mas espiritual. Não foi somente um período de “queima de bruxas”, excomunhões, anátemas, ignorância generalizada. Foi outro tipo de cultura, com outro ritmo e outros valores. Floresceu a arte, a pintura, escultura e arquitetura nas catedrais, igrejas e abadias, a música, a literatura, a filosofia. E houve também progresso material, como as universidades e hospitais que são testemunhas visíveis. Isso tudo Le Goff resgata nos seus estúdios históricos.
Talvez a maior contribuição de Le Goff tenha sido a particularidade de reconstituição da ideia de Purgatório no cristianismo medieval. Desde a crença num estado temporário até a transformação em “lugar” intermediário entre Céu e Inferno. 
Quando uma alma, ainda com resquícios de pecado, precisa livrar-se deles cairia no Purgatório. Esta alma não é tão pecadora que merecesse a condenação eterna, mas não tão pura que pudesse partilhar com os eleitos. Este estado de não ainda totalmente puro para alcançar o Céu, mas também não totalmente merecedor da exclusão total, o Inferno, transforma-se em realidade, o Purgatório, com o mesmo status das categorias de Céu e Inferno. Aquilo que era apenas um estado torna-se “lugar” intermédio. A descoberta do “lugar” para o estado conseguiu superar a contradição de que ajudava os mortos orar por eles. Se estivem no Céu não precisavam de oração ou ajuda e se estivessem no Inferno não lhes adiantava nada as súplicas. Não importa se Céu, Inferno e Purgatório existem ou não. O que importa é que foi criada uma explicação lógica para uma crença religiosa tradicional.
Conforme Le Goff, isto temporariamente aconteceu na Baixa Idade Média, em torno do século XII. E antes? Acompanhemos a pesquisa de como um estado de alma indefinido se transmuda em “lugar” temporário definido.
Conforme Le Goff, historicamente a ideia de Purgatório somente foi consagrada na Baixa Idade Média. Há, porém, resquícios desta representação na religião judaico-cristã, como é o caso de Shéol, que abriga alguns elementos importantes. Um deles é o estado de trevas que caracteriza o mundo dos mortos. Há ainda a montanha e o rio que separam um e outro. Há também referências de um “lugar” intermediário, como no livro de Esdras e no Apocalipse. Alguns pensadores medievais que se ocuparam com a ideia de purgatório: SANTA PERPÉTUA ( sec. III d.C), ABÉRCIO Sec. II e III) d.C), ATOS DE PAULO E TECLA (sec. II d.C.), CLEMENTE DE ALEXANDRIA  (sec. II d.C), TERTULIANO (sec. II d.C),  CIPRIANO DE CARTAGO (sec. III d.C.), ORÍGENES (sec. III d.C.), LACTÂNCIO (sec. IV d.C), BASÍLIO MAGNO (sec.IV d.C), CIRILO DE JERUSALÉM (sec. IV, d.C), JOÃO CRISÓSTOMO (sec. V d.C.) entre outros. Todos eles de uma forma ou de outrA, direta ou indiretamente, se ocuparam da questão do Purgatório.
Nos Santos padres – como Ambrósio, Jerônimo e Agostinho (sec. IV e V d.C) – as almas poderiam sofrer um provação antes do Juízo Final. No entanto, onde se localizaria esta provação era uma incógnita. É o que consta quando fala na eficácia da intervenção de santa Mônica que suplicava perante Deus pedindo a conversãoi do filho Agostinho. Acreditava, inclusive, que as preces poderiam comover a Deus, desde que o morto tivesse uma vida não pecaminosa. A ideia de Purgatório começou a ter foros oficiais com o papa Gregório, O Grande, em 593, mas somente foi proclamado como dogma em 1439, no Concílio de Florença. A ideia consagrou-se, conforme Le Goff, como um “lugar” de purificação após a morte, e, passado o tempo e o consequente pagamento da pena, a alma encontrará Deus.




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Para viver melhor é preciso considerar os problemas.José Mauricio de Carvalho





Para viver melhor, além de resolver os inevitáveis desafios da sobrevivência e do conforto pelo estudo e trabalho sistemáticos e ainda pela qualidade e compromisso com que se enfrenta esses compromissos, há dois outros desafios fundamentais. Nenhum deles pode ser esgotado, mas podem ser continuamente apresentados, considerados e revistos.
O primeiro se dá em nossa intimidade, no enfrentamento da angústia existencial que nasce da incerteza de nossas escolhas, dos rumos que damos à nossa vida e do inevitável desfecho de nossa vida corporal e psíquica. Não toco na sobrevivência do espírito que é da fé de cada um. Porém nesse mundo enfrentamos a angústia de viver e responder desafios depois que se sai do ventre materno. Primeiro vem a angústia da vida social, de enfrentar o jardim de infância, a escola e suas exigências. Angústia que é ativada na adolescência quando os hormônios afloram a necessidade do sexo, mas também da aceitação e do amor, num momento em que o corpo muda e mergulhamos na insegurança de sermos aceitos. Angústia que se renova no fim da adolescência com a escolha da profissão com a qual vamos ganhar a sobrevivência, mas que também precisa ser fonte de alegria e realização. Angústia na escolha da companheira de uma vida, cuja presença de amor representa mais que a perpetuação dos genes, criação da prole e superação da rotina, mas identidade alma, de carinho, enfim de um companheirismo que está acima dos outros que também estabelecemos com os amigos e colegas de profissão. Angústia diante do envelhecimento e de suas limitações, da necessidade da comunicação precisa com a qual compartilhamos o mundo pessoal, nossas respostas ao encantamento da vida, de suas belezas, perplexidades, mas também de seus dramas e crises. Trata-se de uma aprendizagem dificílima e poucos de nós conseguem levar essa tarefa adiante comprometido com a excelência das escolhas e com a fidelidade íntima que leva a uma vida feliz.
O segundo dos desafios se dá no âmbito social, onde nossa existência é compartilhada com todos os homens, com o destino comum da humanidade, mas desafio vivido numa pátria pela qual se concretiza, em nosso tempo, essa humanidade comum. E para a nossa afirmação como sociedade nacional é preciso o enfrentamento dos desafios materiais e dos outros problemas sociais, econômicos, morais, jurídicos e políticos que podem ser resumidos por cultura. O enfrentamento desses problemas exige respostas a muitos desafios, mas todos começam pela imprescindível reflexão sobre nossa realidade, a origem e a compreensão de seus problemas, como acentuou recentemente Paulo Margutti em Desenvolvimento, Cultura, Ética: as ideias filosóficas de Mário Vieira de Mello, publicado em São Paulo, pela Loyola (184 p).
Apesar dos pontos frágeis da interpretação de Vieira de Mello sobre a realidade brasileira, que Margutti aprofunda e discute em seu livro, ele valoriza o esforço que Vieira de Mello fez para entender a realidade nacional ao qual se soma seu próprio esforço de interpretação. Se quisermos entender nossas dificuldades e começar a enfrentá-las de modo eficiente será preciso discutir essas questões, mesmo que seja para discordar é preciso debater. Não impor, mas esclarecer e clarear o caminho. O filósofo e diplomata Vieira de Mello analisou inúmeros problemas da Europa, Estados Unidos e do Brasil de forma independente, diz Margutti, "voltada para uma crítica desassombrada do mundo contemporâneo" (p. 178). Só fazendo assim vamos ampliando a consciência de nossos problemas e dos caminhos a trilhar. Ele passa, como disse Vieira de Mello, pelo enfrentamento dos problemas morais que costuram a cultura, pelo entendimento de nossos descaminhos e pela decisão pessoal e coletiva de mudar.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os jardins de Castelo Branco em Portugal. Selvino Antonio Malfatti.





Meu orientador de pesquisa de pós-doutorado, Professor José Esteves Pereira, chamou-me a atenção do belíssimo jardim de Castelo Branco de Portugal. Daí que tive a inspiração de trazer ao público este aspecto de Portugal que, certamente, faz parte do acervo cultural luso-brasileiro.

PORTUGAL NÃO POSSUI UM LOOK DE JARDINS MUNDIALMENTE RECONHECIDOs COMO OS JARDINS DE VERSAILLES NA FRANÇA OU SCHÖNBRUNN NA ALEMANHA, MAS TEM TAMBÉM SEUS JARDINS QUE ENCANTAM. TRATA-SE DE CASTELO BRANCO, ABAIXO DESCRITO.
"O DESLUMBRANTE JARDIM DE CASTELO BRANCO QUE A MAIORIA DOS PORTUGUESES DESCONHECE.
De influência barroca, com cinco lagos e imponentes estátuas, é um espaço único pela originalidade e elegância que deve integrar o seu roteiro na sua próxima visita à cidade
Foi um bispo da Guarda, D. João de Mendonça (1711-1736), que encomendou e provavelmente orientou as obras do Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco. Mais tarde, já no fim do século XVIII, o segundo bispo da diocese da cidade, D. Vicente Ferrer da Rocha, fez ali obras de algum relevo. Em 1911, o jardim passa para as mãos da câmara municipal local por arrendamento e, em 1919, é adquirido pela autarquia a título definitivo. Este jardim barroco, em forma retangular, que muitos portugueses ainda não conhecem, é dominado por balcões e varandas com guardas de ferro e balaústres de cantaria.
Apresenta cinco lagos, com bordos trabalhados, nos quais estão instalados jogos de água. No patamar intermédio da Escadaria dos Reis, existem repuxos e jogos de água surpreendentes. Por entre os canteiros de buxo erguem-se simbólicas estátuas de granito, em que se destacam «Novíssimos do Homem», «Quatro Virtudes Cardeais», «Três Virtudes Teologais», «Signos do Zodíaco», «Partes do Mundo», «Quatro Estações do Ano», «Fogo» e «Caça».
Dispostos à maneira de escadório, encontram-se representados os apóstolos e os reis de Portugal até D. José I. No patim superior, encontram-se estátuas alusivas ao Antigo Testamento e à simbologia da água como elemento purificador. O Jardim Alagado, tanque floreado de curvas bem delineadas e canteiros de flores, tem ao centro um repuxo de cantaria por três golfinhos entrelaçados e encimados por uma coroa. Veja a galeria de imagens deste jardim.
A intervenção de restauro que foi feita
O interesse e curiosidade da iconografia do conjunto escultórico resulta do facto de haver uma aliança singular entre o universo religioso e universo panteísta. Este jardim beneficiou de uma profunda e complexa intervenção de restauro e conservação, no âmbito do Programa Polis, a nível de tratamento de vegetação, reintrodução de espécies vegetais originais, recuperação dos sistemas de águas, iluminação cénica e drenagem.
A intervenção contemplou também na limpeza da cantaria e recolocação de estátuas nos locais originais, recuperação dos muros e do tanque principal, sob a cascata de Moisés. Durante a intervenção foi descoberto o sistema hidráulico perfeitamente intacto, construído em 1725. Nessa altura, procedeu-se à sua conservação e restauro.
Os muros de azulejos que pode admirar
Os muros delimitadores do Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco apresentam painéis de azulejo figurativo, monocromo, azul sobre fundo branco, representando várias vistas de Castelo Branco, da antiga quinta e do bosque e da Capela de São João com o respetivo cruzeiro. Aparecem, ainda, painéis de azulejo retilíneos, com os ângulos curvos, emoldurados a cantaria e a faixa cerâmica, a representar os desenhos de Castelo Branco, efetuados por Duarte de Armas, no século XVI, bem como a representação do bispo D. João de Mendonça".
artigo do parceiro:

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sobre a honestidade e a política.José Mauricio de Carvalho



Nada fez tanto sucesso nas redes sociais que a afirmação de nosso ex-presidente de que não há no Brasil ninguém mais honesto do que ele. Sucesso considerando-se a quantidade de comentários e partilhamentos. Foi o fato que mais circulou na Internet e nas mídias. De engraçado a imagem do ex-presidente com as vestes papais em aura de santidade. Não entendi se tantos compartilhamentos foi porque muita gente teve consciência de que era tão honesta como Lula, tão desonesta como ele ou nenhuma das alternativas anteriores. Enfim, como não tenho condição de auferir a verdade da afirmação (não estou na consciência do ex-presidente), vou deixar à justiça a tarefa de verificar a afirmação. Aproveito, contudo, a oportunidade para tratar da honestidade.
Quando se pensa em honestidade não há como não se lembrar do ensaio  intitulado Sobre a Discordância entre a Moral e a Política, a propósito da paz perpétua, escrito pelo filósofo alemão Immanuel Kant. Depois de explicar que política e moral são duas ordens distintas e que, portanto, a prática mostra a distância entre elas, Kant defende a honestidade como valor fundamental da sociedade, afirmando que ela não é incompatível com a prática política. Kant disse: "Quando estas duas coisas não podem coexistir em um mesmo mandamento, há realmente um conflito entre a Política e a Moral, mas se ambas devem ser inteiramente unidas, o conceito do contrário é absurdo e a questão de saber como resolver aquele conflito não se apresenta mais como problema. Embora a proposição: a honestidade é a melhor política, contenha uma teoria que infelizmente, a prática com muita frequência contradiz, a proposição igualmente teórica: a honestidade é melhor do que qualquer política, está infinitamente acima de toda objeção, sendo mesmo condição indispensável da política" (Textos seletos, Petrópolis, 1985, p. 130).
O texto de Kant veio a calhar toca em dois pontos importantes. Primeiro, na vida política o comportamento moral é difícil, segundo, embora difícil a consciência honesta pode presidir qualquer ação social, inclusive na política. Portanto, é bem possível a um político ser verdadeiramente honesto e então descobrimos um Lula kantiano, não porque ele faz o que diz, mas porque afirma, como bom kantiano, que não há incompatibilidade entre a vida política e a honestidade. Ao confirmar a afirmação kantiana, Lula coloca nossa classe política numa situação complicada, pois não é um filósofo que diz que é possível ser honesto e político, é um político contemporâneo. Assim, os políticos pegos na mentira, além de responderem criminalmente pelo mal feito, cometem imoralidade. Devem se punir diante da própria consciência, o que exigiria, no mínimo, arrependimento, um pedido público de perdão e reparação do mal, para que pudessem pagar na cadeia por seus crimes, mas com a consciência redimida.
Além disso, a fala de Lula é importantíssima porque anuncia a necessidade da moral, ou do seu acirramento, num tempo em que os valores e a religião encontram-se em baixa. De fato, é preciso retomar a discussão sobre os costumes e seus fundamentos para assegurar que a sociedade possa bem viver. Sem moral não se pode esperar bom funcionamento do corpo social, pois é a constrição da consciência de cada um que o obriga a agir corretamente: o motorista a levar responsavelmente seus passageiros, o médico a operar com excelência, o eletricista a bem ligar a eletricidade e assim sucessivamente. A retomada da moral como um importante agente do tecido social é talvez o que de mais importante ficou do episódio do ex-presidente.


Postagens mais vistas