sexta-feira, 1 de maio de 2015

Não furtarás. José Maurício de Carvalho - UFSJ




Conta a Bíblia Judaica (o Antigo Testamento da Bíblia Cristã) que um pouco antes de 1200 a. C., um judeu criado na corte do faraó, de nome Moisés, liderou um grupo de escravos na fuga do Egito. O grupo de libertos entrou no deserto em busca de uma nova terra para viver e a eles outras tribos nômades se associaram na fé comum e na mesma esperança. A fé desses homens os fez acreditar que o Deus que os retirara do Egito lhes daria uma terra livre da dominação. Acreditavam num Deus diferente dos encontrados na região, um Deus Vivo e Poderoso que caminhava com o povo e ouvia seu clamor. Esse Deus propunha-lhes, em contrapartida, uma forma de viver sem a qual seria impossível sobreviver no deserto e menos ainda se organizar como povo na terra da esperança. A história da fuga e da conquista da nova terra é um acontecimento extraordinário e foi retratado em muitos filmes: Êxodo (1956), o desenho O príncipe do Egito (1998) e o mais recente Êxodo: Deuses e Reis (2014).
Ao conceder-lhes a liberdade política e lhes oferecer uma nova vida, Deus lhes deu regras capazes de assegurar a liberdade íntima, mas também uma vida socialmente organizada. Independente da fé que se possa ter nesse Deus que libertou o povo do Egito, a caminhada pelo deserto e a instalação na nova terra somente foi possível porque essas pessoas se submeteram à autoridade de Moisés e as regras que ele lhes deu em nome de Deus. E Moisés apresentou a regra para viver em grupo, uma regra cujos mandamentos eram encontradas entre outros povos da região, mas não de forma tão simples e completa. Como não acreditar que aquela síntese provinha diretamente do Deus poderoso que estava realizando o extraordinário prodígio de libertar o povo de um reino poderoso e levá-lo a salvo pelo deserto? Assim entenderam os que seguiam Moisés. Eles tomaram a sério o código mosaico, embora as regras pudessem parecer um código banal ou uma síntese superficial. A história mostrou que não eram banais aquelas regras, o resultado do seu uso demonstrou que se tratava de uma orientação maravilhosa para viver em sociedade.
O episódio da entrega da lei, contada de vários modos, mostra que Deus deu diretamente a Lei a Moisés, consistindo o fato num extraordinário enigma em torno ao qual a inteligência humana se depara há muito tempo sem avançar muito, considerando-se que a Lei mosaica é a base da moral evangélica ensinada por Jesus de Nazaré, que resumiu os mandamentos sociais do decálogo no amor ao próximo. E essas regras se tornaram a base de moralidade ocidental.
Se observar todas as regras do decálogo é muito difícil para qualquer homem, o descumprimento ostensivo de qualquer delas inviabiliza a vida social. Fossem todas as regras bem seguidas e teríamos uma vida feliz, independente da fé em sua transmissão sobrenatural. Contudo, mesmo sem a fé religiosa, as normas do decálogo podem ser justificadas racionalmente como regra moral para todos os homens viverem de forma pacífica e civilizada. Obedecê-las exige esforço interior, uma educação íntima forjada pela consciência e socialmente justificadas e ensinadas pelas filosofias, famílias, escolas e igrejas. Ao reconhecê-la adequada, a consciência dá a si mesma uma orientação, um caminho para seguir.

Os judeus encontraram no decálogo uma direção para a vida social e puderam viver com base nas suas orientações. É algo assim que necessitamos nesse momento difícil da nossa história. Talvez se possa encontrar nas regras do decálogo, ou nas suas reformulações éticas, uma direção para vencer a violência, a irracionalidade, a falta de amor que assistimos surgir do egoísmo exacerbado e hedonismo ansioso que enchem o coração do homem de nossos dias.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O PAVILHÃO ZERO – FEIRA DE MILÃO 2015. Selvino Antonio Malfatti.






                              






Quem conhece Milão, sabe que o Castelo Sforzesco é um dos cartões postais da cidade. Pois bem, bem defronte ao castelo foi montada a Expo Gate, uma feira de exposição universal, reunindo         centenas de países expositores, inclusive o Brasil. A feira terá início em 1º de maio e se estenderá até 31 de outubro. O tema: “alimentando o planeta, energia para vida”. A princípio pareceria que se trata somente de culinária. No entanto, não é bem assim. Os mais variados assuntos estão presentes, entre eles um Pavilhão norte, denominado Pavilhão Zero, traz uma exposição da evolução dos primeiros sinais de comunicação humana, as inscrições rupestres.
Sabe-se que há 40 mil anos o “homo sapiens” migrou da África e se espalhou por todos os continentes. Depois desta migração mãos anônimas deixavam não só marcas da presença do homem, mas também dizia o que era, o que fazia, sua alimentação, caça, pesca e até no que acreditava. Estas inscrições podem ser vistas nas grutas da ilha de Sulawesi, na gruta do Castelo e mais comuns desenhos de caça e pesca em Chauvet, Lascaux de Altamira e assim por diante. Ainda hoje se podem constatar in loco, no Brasil, centenas destas inscrições e desenhos como dos índios guaranis na região central do Rio Grande do Sul.
Estes primeiros sinais eram uma proto-escrita. Mais quarenta mil anos, depois de cataclismos, guerras, migrações o homem já vivia em pequenas sociedades e estava de posse do fogo. Foi aí que inventou o alfabeto no Egito (2700 a.C), China (1200 a.C) e Mesopotâmia (600 a.C). Utilizou as letras para fixar leis e compor pequenos textos como testemunho de sua passagem. Alguns até elaboravam modestos versos de hinos ao sol ou às divindades divinas. Foram aperfeiçoando até atingir o estágio de poesia. Estes versos serão expostos no pavilhão para que a multidão possa vê-los. Serão mostradas poesias líricas de diversos países no Pavilhão Zero. Constarão versos de Dante, Esíodo, Virgílio da Itália, mas haverá também do africano Léopold Sédar Senghor, do chinês Bai Juvi, do árabe Imru ´al Qays, do japonês Nivasawa Kenyi e do indiano bengalês Rabindranath Tagore. Da parte das grandes potências Alesandr Puskin da Rússia e Walt Whitman dos Estados Unidos. Sobre o tema específico: Le opere dell’uomo. I frutti della terra. Antologia di poesie sulle arti per procurarsi il nutrimento.
Os responsáveis pela organização garantem que os que passearem no Pavilhão terão a sensação de sentir a evolução da História do homem no seu avanço cultural. É através da alimentação o homem cria a linguagem, os símbolos, o alfabeto, a poesia, o comércio e constrói a cidade. O alimento foi o motor da cultura.
No entanto se deve refletir e não confundir o combustível da cultura com ela mesma. O combustível de um carro não é igual ao carro. É apenas um motor. A realidade que daí advém difere em gênero e forma. Assim como o carro precisa do combustível o homem também o necessita. Mas a cultura que o homem produz não é seu combustível. Haja vista que o animal também se serve do mesmo combustível, mas não cria cultura. Ele até pode emitir sinais de inteligência, no entanto não conseguiu criar um instrumento material que a fixe para outra inteligência interpretá-la.
Por isso é louvável a iniciativa do Pavilhão Zero da Feira de Milão de possibilitar uma meditação sobre a especificidade da inteligência do homo sapiens. Ele não só pensa como consegue criar ferramentas para fixá-la e transmiti-la a outros seres humanos para todos os tempos e lugares.


(1. http://www.expo2015.org/it/esplora/aree-tematiche/padiglione-zero
2. https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=imagens+ca%C3%A7adas+inscri%C3%A7%C3%B5es+rupestres+mata+rs)


sábado, 18 de abril de 2015

Vencer o tempo do desconhecimento e dos preconceitos. José Mauricio de Carvalho - UFSJ




No final do século XIX alcançava o auge o preconceito e desconhecimento mútuo entre brasileiros e portugueses. No livro O Brasil Mental (1898) de autoria de José Pereira de Sampaio (Sampaio Bruno) tem-se uma ideia do desconhecimento mútuo reinante naqueles dias.  
Aquele foi um tempo impactado pelo positivismo, que não separava o desenvolvimento espiritual dos povos e da humanidade do estado social das sociedades. Assim, O Brasil Mental apresentará não somente o que se passa na inteligência brasileira, mas revelará O Brasil Social, ou melhor, tentará chegar ao primeiro pelo segundo. O pano de fundo das preocupações de Bruno é a França e seus filósofos para quem se voltam os olhares da população culta de Portugal.
O ponto de partida de semelhante empreendimento é o desconhecimento da vida espiritual brasileira pelo português culto que do Brasil somente conhece os  fatos econômicos, especialmente a exportação do café e a vitória militar sobre Solano Lopes, governante do Paraguai. Esse desconhecimento era mútuo, pois os intelectuais brasileiros também estavam pouco interessados no que se passava em Portugal. E Sampaio Bruno exemplifica o desconhecimento lusitano reproduzindo o assombro com que foi recebido em Portugal o livro de Silvio Romero denominado Filosofia no Brasil. Comentava-se entre gargalhadas nos bares e círculos sociais: "Com que então: a Filosofia no Brasil? Hein? Esta nem o diabo lembra! Se fosse a carne seca do Brasil, ou a feijoada do Brasil ... Mas, agora Filosofia no Brasil. Valha-nos Deus" E riam-se jubilosos da sua suficiência" (p. 44).
A ignorância acrescenta Bruno era alimentada pelo estereótipo do brasileiro tratado como comerciante grosseirão, identificado com o português repatriado e pouco culto. A culpa é nossa, diz o autor da obra, "pois que o tipo brasileiro, se não criamos, o deformamos nós" (p. 48).
E a leitura interpretativa de Bruno, apesar do louvável esforço para superar o preconceito reinante, está limitada pela redução do universo mental brasileiro ao positivismo, que ele também avaliou mal por conhecer pouco.
As considerações de Bruno sobre o positivismo transitam entre os limites da doutrina e sua presença na mentalidade brasileira, que ele atribuiu ao magistério de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, militar que "vulgarizou o positivismo entre os moços estudantes" (p. 95).
A influência de Benjamin Constant, que se aliara à escola francesa de Emile Littré no repúdio à religião da humanidade, tinha como centro irradiador a Escola Militar, embora seu magistério tenha ganhado projeção com a proclamação da República. No entanto, nem entre os positivistas Botelho de Magalhães tinha reconhecimento incontestável, havendo os que como Miguel de Lemos e Teixeira Mendes o criticaram, mantendo-se fieis à síntese subjetiva de Augusto Comte. Esses homens criticavam a República de Benjamin Constant e da elite militar por considerarem-na democrática e metafísica. Por sua vez, as posições de Benjamin Constant reservavam ao exército o papel constitucional de vanguarda do positivismo, o que não tem correspondência na história do movimento e desses fatos Bruno nada diz. Por outro lado, muitas das críticas que Bruno fazia ao positivismo, entre as quais a inadequação da lei dos três estados, já fora feita, muito antes por Luis Pereira Barreto.
Outro problema do livro de Bruno é que além de não diferenciar as vertentes do positivismo brasileiro, não enxergou as outras filosofias que inspiravam a renovação cultural do país iniciada na década de setenta, vinte anos antes da publicação de seu livro. Nos anos oitenta, nas escolas de direito, por exemplo, parcela substancial da intelectualidade se alinhava ao culturalismo que teve notável impacto na vida do país e cuja novidade Bruno não percebeu, embora tivesse conhecimento do movimento e dos textos produzidos. E esse culturalismo de inspiração kantiana rejeitava o monismo, reconstruía a Filosofia e antecipava várias teses que somente foram discutidas pelos neokantianos alemães vinte anos depois de Tobias Barreto ter divulgado suas teses. Tobias deu-se conta de o que havia de essencialmente humano não podia ser reduzido à coisa natural e nem podia objeto da ciência, diferenciando o homem enquanto objeto da ciência e enquanto possuidor de liberdade e de inspiração moral.

Se o livro de Sampaio Bruno aponta a ignorância mútua de brasileiros e portugueses sobre a vida mental dos seus países, ele próprio não escapa deste desconhecimento, suas preocupações abrem o caminho para a redescoberta mútua que ainda está longe de ser completada mais de um século depois. Esse é um desafio apenas iniciado com os esforços do Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro nos últimos trinta anos. É neste esforço que se organiza o XI Colóquio Antero de Quental dedicado ao estudo da filosofia jurídica luso-brasileira.

sábado, 4 de abril de 2015

UM MUNDO SEM VIOLÊNCIA: REALIDADE OU ILUSÃO? Selvino Antonio Malfatti.




É antigo o sonho de um mundo sem violência. Esta esperança está registrada na literatura, como a República de Platão e Utopia de Morus, mas principalmente nas religiões universais como o cristianismo e budismo. Em contraposição há também uma crença da perpetuidade do conflito como Heráclito entre os gregos e Maquiavel dos modernos. Dentre as religiões de cunho bélico se poderia citar o islamismo e judaísmo.
No mundo atual pode-se invocar o psicólogo evolucionista Steven Pinker (O Declínio da Violência) e o filósofo Peter Singer ( O melhor que se pode fazer). De acordo com eles estamos vivendo a era menos belicosa de história e o futuro nos reserva o pacifismo e o altruísmo. No entanto, o filósofo inglês, John Gray, sustenta exatamente o inverso: esta visão é fruto do mito do progresso que não tem fundamento na realidade.
A quem dar crédito? Ao que parece a tendência civilizatória é um dado irrefutável, embora não tenhamos nenhuma garantia de retrocesso. O verdadeiro mito é a saudade do passado sem se dar conta do que de fato aconteceu. Nas guerras tribais, por exemplo, morria 25 por cento da população. A conquista mongólica da China teve 60 milhões de mortos e não foi mais por que chegaram à conclusão que era mais vantajoso explorá-los do que matá-los. No ocidente a tortura era considerada normal, e hoje em dia se faz, mas às escondidas. Serravam-se pessoas vivas, inclusive diante das crianças por motivos pedagógicos. Hoje em dia o suplício público foi banido. É pouco, mas já é um avanço. Às vezes até parece que não existe. Se de fato a razão evitasse a violência não teríamos conhecido o Shoab alemão e nem o Gulag russo. É bem verdade que diminuíram sensivelmente as guerras entre Estados, mas cresceram conflitos endêmicos cruentos nos quais se perdeu a distinção entre civis e militares.
De ambos os lados os argumentos pretendem ser científicos, mas na realidade também ambas as posições são ideológicas.  A posição liberal diz que o melhor seja um Estado mínimo, ausente, para proporcionar o maior espaço individual. Isto favoreceria o autocontrole e, por empatia, reduz a violência. A posição intervencionista defende o contrário. A presença do Estado inibiria a violência e daria segurança à coletividade. A realidade desmente a ambos.
O capitalismo liberal segrega e descarrega os que não são assimilados pelo sistema. É como uma centrífuga: seleciona e incorpora e, ao mesmo tempo, descarta e expele. A violência está neste jogo de seleção e descarte. O socialismo não seleciona nada e todos continuam na mesma situação, daí para pior.  O programa habitacional da revolução soviética é um padrão: em vez de mais moradias, o empilhamento de famílias nas moradias existentes.
No entanto, qual deles poderia proporcionar o fim, ou ao menos, a redução da violência? Teoricamente seria aquele projeto que se absteria de intromissão na vida privada. Dissemos teoricamente. O outro projeto que se comprometeria proteger a vida coletiva, não dá nenhuma garantia à vida privada e, portanto, também teoricamente, seria o menos apto a proteger-se contra a violência.
Apesar dos pesares, a ética que pode diminuir e efetivamente diminui a violência é o respeito ao ser humano. Portanto, a cima das ideologias políticas, há a postura ética: a dignidade da pessoa, cujo ideal vem dos gregos, recebe contínuos aperfeiçoamentos através dos tempos. Esta sim, a ética da dignidade, se mostra apta a diminuir a violência.




sexta-feira, 27 de março de 2015

Um livro sobre os dilemas de ser psicoterapeuta. José Maurício de Carvalho - UFSJ




Acaba de ser publicado pela editora Vozes o livro Ser Terapeuta da Psicóloga e Filósofa Clínica Rosangela Rossi. O livro é um romance onde se encontram dois psicoterapeutas: um filósofo clínico e um outro de formação jungiana. A leitura é simples e instigante, mas ninguém se engane sobre a profundidade do abordado. É que o profundo pode ser dito e aqui é dito de modo simples, ou claro, como diria o filósofo espanhol Ortega y Gasset: a clareza é a gentileza do filósofo. E é tão bom quando é assim mesmo quando não tratamos de meditação filosófica, o profundo continua profundo, mas mostra sua proximidade conosco.
No romance os dois terapeutas habitam o mundo da autora e eles procuram tirar de si mesmos respostas para uma jornada interior de serenidade e equilíbrio. Muitas vezes os terapeutas não dão importância a isso, suas formações não chegam lá, só o tempo e a experiência revelam. O psicoterapeuta para ajudar alguém a mergulhar em si e iluminar suas dificuldades precisa ele próprio caminhar na luz benfazeja da serenidade íntima. Mais lindo seria o romance se fossem dois autores diferentes nesse diálogo, desde que trabalhassem com o mesmo cuidado e delicadeza de alma da autora. Rosangela vive intimamente esse diálogo devido a suas duas formações e o fato de fazê-lo não deixa de ser também encantador porque ela em sua vida procura agregar, soma e não afasta e rejeita um modo diferente de pensar o mesmo drama. É disso que se trata no fundo: o drama de como os terapeutas vivem o seu lado negro, o de conviver em paz com aquilo que atormenta e fere porque dói na alma.
O personagem principal do livro experimenta o desafio de voltar-se para a própria intimidade para ajudar quem o procura a conviver consigo mesmo, de passear pelo lado mais triste de si para ajudar o outro a fazer o mesmo, a respeitar o seu mundo e o seu núcleo mais íntimo, para respeitar o outro em suas escolhas legítimas. Denomino legítimas aquelas opções feitas não pelas dores, mas em fidelidade a si mesmo, naquilo que aproxima terapeuta e quem o procura como companheiros no destino da vida.
Em nossa realidade quotidiana tão corrida e desafiadora muitos acreditam que seu tormento está todo originado fora deles mesmos, mas não está. Muitas das nossas dores estão em nós mesmos, em não sabermos viver com o que nos fere nas entranhas e das entranhas da alma. E essas dores não serão curadas com fluoxetina ou outro anti-depressivo com função ansiolítica. Muito menos acabarão nas compras compulsivas, que esperam acalmar a alma com coisas cuja posse é vendida como felicidade e sucesso. Mas a felicidade não vem por esse caminho, embora o legítimo caminho da serenidade interior não invalide o desejo legítimo de possuir bens que assegurem uma vida digna.
No prefácio que preparei para o livro pude dizer que ele  "tem um objetivo desafiador, simples de falar, dificílimo de realizar. Ele pretende mostrar que o conhecimento da Filosofia Clínica criada por Lúcio Packter e da Psicologia Analítica de Jung tão diferentes em seus fundamentos e práticas podem conviver e orientar as buscas íntimas do psicoterapeuta. E não só essas teorias podem conviver, mas elas e muitas outras em infinitas combinações possíveis e abertas. Esse objetivo se apresenta em dois caminhos: o primeiro é o do homem comum que vive vida singular, que tem um lado escuro para ser iluminado, que vive continuamente dúvidas existenciais diante do que fazer. Sim, a vida é o que fazer como dizia Ortega y Gasset. O segundo é o caminho do terapeuta desafiado a construir uma prática clínica com informações colhidas em diferentes teorias, experimentando que o mundo da vida é mais quente, intenso e maravilhoso que nossas teorias para explicá-lo" (p. 13).
A preparação para ser psicoterapeuta é longa e difícil. Exige um prolongado estudo de teorias, do conhecimento das dificuldades pessoais e das doenças que afetam a consciência e o destino pessoal. Não se pode ser psicoterapeuta sem esses estudos, mas eles só não bastam. Talvez seja suficiente em algumas profissões um bom conhecimento das teorias, mas no caso não é. O conhecimento de si, a superação das próprias dores, o saber conviver com a angustia em si e no outro e muito importante e complementa o manejo clínico. E nesse esforço de busca íntima o terapeuta da alma é companheiro de todos os homens. Deve vencer a si mesmo antes de ajudar os outros a fazê-lo e essa jornada nunca está completa, ele precisa estar sempre clareando o seu lado mais escuro, suas inautenticidades.
Como já pudemos escrever no prefácio da obra o livro "é um desafio à liberdade: da autora que construiu diálogos improváveis e do leitor ao ver-se revirando intimamente em dúvidas e procuras das quais frequentemente não se ocupa" (p. 15).

O livro é também um alerta. Não podemos andar distraídos pela vida, distantes de nós mesmos, perdidos nos afazeres diários, ocupados com coisas que normalmente nos afastam de nós mesmos. A Filosofia, as Religiões e também a Psicologia estão aí a nos dizer isso, cada uma do seu jeito, com seus métodos e pressupostos distintos, mas com o mesmo compromisso de apontar caminhos de autenticidade existencial.

sábado, 21 de março de 2015

As Manifestações Públicas de 15 de março. Ricardo Vélez Rodríguez





Meu antigo professor Ricardo Vélez Rodríguez tem uma postura política clara.Além disso é um dos mais respeitados intelectuais no Brasil e exterior. Quero partilhar e socializar sua visão sobre as manifestações públicas de 15 de março. 

"Amigos, foi uma festa cívica! Com a minha esposa Paula, juntei-me aos 45.000 londrinenses que, nessa linda tarde de verão, exigiam o fim da safadeza lulopetralha e o respeito aos cidadãos de bem. Famílias inteiras, alegres, defendendo a liberdade que a petralhada tenta sequestrar. Como todo mundo viu, foi assim pelo Brasil afora. Milhões reivindicando o direito de ir e vir e de viver em paz com as suas famílias. Milhões de vozes criticando a safadeza dos lulopetralhas que tentaram sequestrar a nossa liberdade, ao longo destes treze anos de desgoverno. Não conseguirão os militantes do caos se apossar das nossas almas. Saí à rua porque quero um país próspero e digno para os meus filhos: Vitória, já adulta e que luta para sobreviver com dignidade; Pedrinho, com os seus três aninhos e que não abre mão de ser uma criança feliz. A Festa da Liberdade, em todas as cidades onde os brasileiros saíram as ruas, foi um belo testemunho de vida cidadã e de esperança. Quase três milhões de manifestantes pelo país afora não foi um espetáculo pequeno. As ruas e praças cheias de brasileiros exigindo decência na vida pública e defendendo a liberdade encarnaram a vontade do povo brasileiro.
Lamentáveis foram as palavras dos porta-vozes do regime, que tentaram dar a sua interpretação distorcida dos fatos na entrevista coletiva de domingo à noite. Rosseto cometeu a asneira de dizer que os manifestantes pertenciam ao grupo dos que não votaram em Dilma nas eleições passadas. Cardozo, o militante que utiliza o ministério da Justiça para fazer advocacia em prol dos corruptos, enfatizou a "democracia" do regime dilmista, que "tolera" passeatas. Nada de novo, a mesma lenga-lenga de sempre. Panelaço na certa, essa foi a resposta dos que assistimos, pela TV, à medíocre entrevista. Os brasileiros cansaram da mediocridade e das mentiras da Dilma e seu governo de ineptos. A vida ficará difícil para eles ao longo dos próximos meses, com certeza. A multidão acordou e não se acovarda.
Na sua bela crônica intitulada: "Nós, o povo", o meu amigo e jornalista Paulo Briguet escrevia na sua coluna do Jornal de Londrina (pg. 5, edição de 16 de março):  "Durante muitos anos, a palavra povo esteve nas mãos de seus sequestradores. Até bem pouco tempo atrás, só podia usa-la quem era companheiro da esquerda. Mas os escândalos do governo acabaram por destruir esse cativeiro semântico. Hoje as pessoas são livres para dizer: - Nós somos o povo. Não precisam mais mostrar a carteirinha do partido nem a estrelinha no peito. O povo somos nós. Somos nós que trabalhamos, que estudamos, que criamos filhos, que amamos nossas famílias, que pagamos impostos, que fazemos compras no supermercado, que abominamos o roubo, o crime e a chantagem. Somos nós que não temos privilégios, que nunca tivemos milhões ao nosso dispor, que não ajudamos as pessoas só para conquistar os seus votos e as suas consciências. Fazemos o bem sem esperar nada em troca. Somos nós, o povo".
Os Estados se corrompem, já dizia Aristóteles na sua Política(no século IV a.C.), quando os que mandam fazem-no em benefício próprio, excluindo o resto. Não é preciso roubar dinheiro do contribuinte. Basta com colocar o Estado a serviço de uma minoria. Ora, é isto o que o PT faz no Brasil há treze anos, com a maior cara de pau, ousando pousar ainda como paladino da ética e dos excluídos. É contra essa desfaçatez que saímos às ruas no dia 15 de março e é com esse propósito que voltaremos a sair quantas vezes for necessário. Dilma ainda não entendeu o recado. Na sua entrevista de ontem simplesmente repetiu ad nauseam o seu discurso corriqueiro de que está disposta a dialogar. Diálogo estranho esse que começa querendo negar o óbvio ululante. Os petralhas governam para si, roubam e não prestam contas a ninguém. E ficam bravinhos quando as multidões, nas praças e ruas, exigem que os governantes lhes falem a verdade claramente, sem tapujos. Não perdem por esperar!



sábado, 14 de março de 2015

INTERCÂMBIO CULUTRAL BRASIL – PORTUGAL. Selvino Antonio Malfatti.





As relações entre descobridores e terras descobertas por europeus no século XV passaram por algumas etapas. A primeira se caracteriza pelo domínio do colonizador. Os colonizadores iam incorporando as terras aos seus domínios. O espaço para os nativos diminuía sempre mais e eram empurrados para as periferias quando não dizimados. Isto perdurou praticamente até o século XVII.
Num segundo momento, começa surgir uma população de mescla de nativos com os colonizadores. Eram mestiços, crioulos, cafuzos emergindo os conflitos pelos contínuos atritos com os vindos das metrópoles. Os colonos de segunda geração já não aceitam pura e simplesmente serem dominados e querem participar das decisões sobre suas terras e bens. Boa parte se misceginavam com os nativos emergindo uma população que não era nem européia, nem nativa. Isto perdura até o século XVIII. Desta população nasce um sentimento de pertencimento que gerou um desejo de autonomia e mesmo independência. Esta situação aflorou com toda intensidade no século XIX culminando com a independência das antigas colônias. A partir deste fato cortam-se os laços políticos, culturais, econômicos e mesmo religiosos em alguns casos com as metrópoles. Isto perdura praticamente em todo século XIX, findando no início do próximo século XX.
Inicia-se então uma volta, uma retomada dos laços entre a pátria - mãe e a pátria - filho. De um modo geral foi o padrão seguido pelos anglo-saxões, pelos lusos e castelhanos. Alguns deram mais ênfase aos aspectos econômicos, científicos e tecnológicos, como os anglo-saxões e outros aos humanistas como Portugal e Espanha.
Brasil e Portugal no século XX e XXI desenvolvem um trabalho lento de redescoberta mútua. Portugal começa se enxergar no Brasil e este se espelhar naquele. Neste momento o perfil mais maduro está na cultura. E é por isso que vários projetos contemplam a aproximação para enriquecimento mútuo.
É neste contexto que se realizam encontros, congressos, jornadas e colóquios. Um deles é o colóquio Vicente Barreto e outro Antero de Quental, ora em Portugal, ora no Brasil. O Colóquio Antero de Quental de 2013, realizado no Brasil, enfatizou a ética e a política em Brasil e Portugal, pari passu. O Colóquio Antero de Quental deste ano, também no Brasil, na UFSJ, em São João Del Rei, Minas Gerais, pretende inventariar as mútuas influências na área do direito. Os temas e a programação,bem como os palestrantes constam abaixo. 

Programação Completa do XI Colóquio Antero de Quental –UFSJ
De 11 a 15 de maio de 2015
2ª-feira -11/05/2015 Palestra de abertura
Abertura oficial do evento
Conferência de abertura:

1.      Panorama Geral da Filosofia jurídica luso-brasileira no século XX
Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona
Debatedor: Dr. Rogério Medeiros -Desembargador do TJMG

2.      A relação entre moral e direito no anti-positivismo jurídico de Farias Brito
Dr. Selvino Antônio Malfatti -UFSM e Centro Universitário Franciscano
Debatedor: Dr. Fábio Abreu Passos -IPTAN

3.      O pensamento jurídico anti-positivista do jovem Paulo Merêa.
Dr. Ernesto Castro Leal -Universidade de Lisboa
Debatedor: Dr. Selvino Malfatti -UFSM e Centro Universitário Franciscano
Novas formas de positivismo jurídico

4.      O pensamento jurídico de Abel Salazar.
Dr. Noberto Cunha -Universidade do Minho
Debatedor: Dr. Adelmo José da Silva -UFSJ

5.      O pensamento jurídico de Pontes de Miranda
Dr. Adelmo José da Silva -UFSJ
Debatedor: Dr. Julio Aguiar de Oliveira -UFOP

3ª-feira –12/05/2015-

6.      O pensamento jurídico de Djacir de Menezes
Dr. Ricardo Vélez Rodríguez -UFJF
Debatedor: Dr. Thomas da Rosa Bustamante -UFMG

7.      O pensamento jurídico de José Hermano Saraiva
Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa
Debatedor: Dra. Mariah Brochado Ferreira -UFMG

8.      O pensamento jurídico de António Manuel Hespanha
Dr. Thomas da Rosa Bustamante -UFMG
Debatedor: Prof. Paulo Roberto Andrade -UFSJ

Neo-tomismo jurídico

9.      O neo-tomismo jurídico de Tristão de Athayde
Dr. José Luiz de Oliveira -UFSJ
Debatedor: Dr. Fábio Abreu Passos -IPTAN

10.  O pensamento jurídico de Leonardo van Acker
Prof. Paulo Roberto Andrade de Almeida -UFSJ
Debatedor: Dra. Constança Marcondes Cesar -UFS

11.  O pensamento jurídico de Manoel Gomes da Silva
Dr. Pedro Barbas Homem -Universidade de Lisboa
Debatedor: Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa

4ª-feira –13/05/2015 -

12.  O neo-tomismo jurídico de Mário Bigotte Chorão
Prof. Dr. Julio Aguiar de Oliveira -UFOP
Debatedor: Dr. Fernando Armando Ribeiro -TJMG

13.  O neo-tomismo jurídico de José Pedro Galvão de Sousa
Dr. Silvio Firmo do Nascimento -IPTAN
Debatedor: Dr. José Luiz de Oliveira -UFSJ

Culturalismo jurídico

14.  O culturalismo de Alcides Bezerra
Dr. Arsênio Correa -IBF
Debatedor: Antônio Paim -IBF

15.  O tridimensionalismo jurídico de Miguel Reale
Dr. José Mauricio de Carvalho -UFSJ
Debatedor: Antônio Paim -IBF

16.  O pensamento jurídico de Evaristo de Moraes Filho
Dr. Rogério Medeiros -TJMG
Debatedor: Dr. José Carlos Henriques -FUPAC/Itabirito

17.  Ordem e hermenêutica a partir do pensamento de Nelson Saldanha
Dr. Fernando Armando Ribeiro -TJMG
Debatedor: Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona

18.  O ecletismo jurídico de Goffredo Telles Júnior
Dr. Fábio Abreu dos Passos –IPTAN
Debatedor: Dr. Selvino Malfatti –UFSM

5ª-feira –14/05/2015 -
Do neo-kantismo à fenomenologia jurídica

19.  O pensamento jurídico de Cabral de Moncada
Prof. Bernardo Gomes Barbosa Nogueira -Centro Universitário Newton Paiva
Debatedor: Dr. Rogério Picoli -UFSJ

20.  O pensamento jurídico de Lourival Vilanova
Profa. Dra. Mariah Brochado Ferreira -UFMG
Debatedor: Dr. Luiz Paulo Rouanet -UFSJ

21.  O pensamento jurídico de Eduardo Abranches de Soveral
Prof. José Carlos Henriques -FUPAC/Itabirito
Debatedor: Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa

6ª-feira –15/05/2015 –

22.  O pensamento jurídico de Aquiles Cortes Guimarães
Dra. Constança Marcondes Cesar -UFS
Debatedor: Dr. Norberto Cunha –Universidade do Minho

Perspectiva existencial e raciovitalista

23.  O pensamento jurídico de Delfim Santos
Dr. Manuel Cândido Pimentel -UCP
Debatedor: Dr. Rodrigo Correa -UFSJ

24.  O pensamento jurídico de António José Brandão
Dra. Ana Paula Loureiro -Universidade de Lisboa
Debatedor: Prof. Bernardo Gomes B. Nogueira -Centro Universitário Newton Paiva

25.  O pensamento jurídico de L. Machado Neto
Dr. Paulo Ferreira da Cunha -Universidade do Porto
Debatedor: Dra. Mariah Brochado Ferreira -UFMG

26.  O pensamento jurídico de Aloysio Ferraz
Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona
Debatedor: Dr. Paulo Ferreira da Cunha -Universidade do Porto

16 h -Mesa Redonda de encerramento do XI Colóquio Antero de Quental
Dr. António Braz Teixeira -Universidade Lusófona
Dr. José Esteves Pereira -Universidade Nova de Lisboa
Dr. José Mauricio de Carvalho -Universidade Federal de São João del-Rei


Postagens mais vistas