Um a um
os conventos, lugar de meditação e contemplação, estão fechando. Cada um ao
fechar as portas deixa um buraco negro, um vazio pronto para engolir o que o
cerca. O mudo se digitaliza freneticamente e seus textos devorados deixando o vazio. Se
precisa de uma informação digitaliza um IA. Se quer um medicamento digitaliza
um “deliver”. Se quer um hotel ou qualquer agência, digitalize uma plataforma. Tudo digitalizado o
que se quer. O ser humano não existe mais. É um número, um código, um CPF. Desesperado
tenta encontrar onde se agarrar dentro do pântano da digitalização que o suga.
Mas nada. Tenta Deus, não o acha mais. É o que constata filósofo Byung- Chul
Han.
Este pensador é um sul-coreano radicado e professor na Alemanha.
Destaca-se pela crítica sistemática à sociedade contemporânea, digital
caracterizada pela autoexploração, no seu livro: Sociedade do Cansaço. Nele
desenvolve a ideia que o homem abandonou o imperativo de Kant dos “deves fazer”
para os “podes fazer”, John Dewey que incentiva os indivíduos adquirirem sempre
mais.
Na Alemanha
estudou metalurgia, mas rapidamente passa para área da filosofia doutorando-se
na área pela Universidade de Freiburg com tese sobre Heidegger. Han quer ser o
contraponto das multidões que gritam, querem ser ouvidas, pressionam decisões,
impõem ordens. Não raciocinam nem escutam levadas irracionalmente pela euforia,
medo, raiva ou entusiasmo. Contrapõe-se também ao indivíduo inserido no
contexto de um mundo virtual que dita ruidosamente ordens, estabelece metas,
comemora conquistas públicas.
Em vez
disso, Han busca o ouvinte, o interiorizado em si. Um humilde, paciente,
silencioso atento às manifestações metafísicas ou ocultas. Fo o que aconteceu
com os pensadores gregos que à sombra e no silêncio dos plátanos descobriram
realidades geniais que até hoje nos admiram em religião, filosofia, química,
física, astronomia, matemática pintura, escultura. Quase tudo saiu da meditação
grega. Por isso, Han pensa encontrar aquele Deus considerado morto. Sabe que
vive, mas precisa de ambiente para individuá-lo[i].
Sentir a experiência do sagrado na sombra dos plátanos.
O encontro de Han com a filósofa Simone Weil deu-lhe o suporte teórico
para elaborar seu pensamento. O
pensamento de Han baseia-se no cultural e Weil no espiritual. Han é a sociedade
do desempenho, da positividade, enquanto Weil é da atenção, acolhimento. Pensa que,
conforme Weil, encontrar Deus é possível ao trilhar o caminho vislumbrado por
ela conforme os passos ou disposições a serem seguidos:
De acordo
com Weil para encontrar Deus a primeira atitude é ficar atento. Ele pode se
manifestar a qualquer momento ou ambiente. O “eu” deve despir-se de suas vestes
festivas e vestir-se da nudez que receber o manifestante. Ser um nada para
receber aquele que é tudo. Ele chega até nós não pela via digitalizada mas
contemplativa. Ficar atento a hora da chegada com azeite suficiente para iluminar
a mente. O sagrado não chega ao som das fanfarras, mas ao som do violino.
A segunda
atitude consiste em não apenas despir-se, mas assumir uma atitude radical de
ser um ser novo, isto é, recriar-se, ser um novo ser. Como certos seres
abandonam a velha carcaça e se revestem de uma nova natureza. Aquele velho
homem deve ser abandonado e assumir uma renovada natureza possibilita adquirir
um novo conhecimento para encontrar a Deus. Este novo homem não pensa ou age
conforme a sociedade imersa no virtual, mas com um coração aberto ao divino.
Para
encontrar Deus é preciso oferecer-lhe espaço não, porém, qualquer espaço, mas
todo. Por isso é preciso esvaziar-se para estar plenamente vazio e poder ser
por ele preenchido. Atualmente o ser humano está sempre preenchido com
informação, entretenimento, consumo. Deve desvencilhar-se de tudo isso para
Deus poder entrar.
A beleza
digital é espetáculo, superficial, descartável. Deus é a beleza que se admira,
contempla, profunda, perene. Esta, como Deus, nos desapropria e com Ele
passamos a senti-lo no silêncio.
O homem
social atual, conforme Han apenas sente dor, mas não sofre, não sente a dor
profunda da alma. Para ter a experiência de Deus, não basta sentir a dor, é
preciso provar profundamente o sofrimento.
O mudo de
hoje é ruidoso, hiperativo. O silêncio deixou de existir. E é precisamente nele
que Deus está. Por isso, silenciem e Deus se manifesta.
A lógica
para o rendimento é a atividade ininterrupta. Para acolher o outro é preciso,
ao contrário, parar e esperar. Da mesma forma praticar a inatividade favorece e
proporciona a condição de encontrar Deus. Ele não se encontra na cadeia do
ativismo, mas no espaço inativo.
O encontro
entre Han e Weil acontece no cruzamento da crítica radical à sociedade atual.
Weil buscam uma ontologia espiritual de atenção e esvaziamento e Han uma
crítica cultural da sociedade digital e de desempenho. Em Weil há uma proposta
de esvaziar-se, descer para encontrar o divino. Han, por sua vez entende que a
modernidade é o empecilho para se realizar tal intento.
A crise do
mundo, mais precisamente do homem, não é tanto econômica ou política, mas
espiritual, perceptiva. Deus não está morto, mas ofuscado pelo mundo
contemporâneo.
[i] A
sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de
desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (burnout). (HAN, Byung- Chul. Falando de Deus , Vozes, 2025)
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