sexta-feira, 26 de junho de 2026

DEUS MORTO? NÃO, OCULTO. Selvino Antonio Malfatti.

 

 


Um a um os conventos, lugar de meditação e contemplação, estão fechando. Cada um ao fechar as portas deixa um buraco negro, um vazio pronto para engolir o que o cerca. O mudo se digitaliza freneticamente e seus textos devorados deixando o vazio. Se precisa de uma informação digitaliza um IA. Se quer um medicamento digitaliza um “deliver”. Se quer um hotel ou qualquer agência,  digitalize uma plataforma. Tudo digitalizado o que se quer. O ser humano não existe mais. É um número, um código, um CPF. Desesperado tenta encontrar onde se agarrar dentro do pântano da digitalização que o suga. Mas nada. Tenta Deus, não o acha mais. É o que constata filósofo Byung- Chul Han.

Este pensador é um sul-coreano radicado e professor na Alemanha. Destaca-se pela crítica sistemática à sociedade contemporânea, digital caracterizada pela autoexploração, no seu livro: Sociedade do Cansaço. Nele desenvolve a ideia que o homem abandonou o imperativo de Kant dos “deves fazer” para os “podes fazer”, John Dewey que incentiva os indivíduos adquirirem sempre mais.

Na Alemanha estudou metalurgia, mas rapidamente passa para área da filosofia doutorando-se na área pela Universidade de Freiburg com tese sobre Heidegger. Han quer ser o contraponto das multidões que gritam, querem ser ouvidas, pressionam decisões, impõem ordens. Não raciocinam nem escutam levadas irracionalmente pela euforia, medo, raiva ou entusiasmo. Contrapõe-se também ao indivíduo inserido no contexto de um mundo virtual que dita ruidosamente ordens, estabelece metas, comemora conquistas públicas.

Em vez disso, Han busca o ouvinte, o interiorizado em si. Um humilde, paciente, silencioso atento às manifestações metafísicas ou ocultas. Fo o que aconteceu com os pensadores gregos que à sombra e no silêncio dos plátanos descobriram realidades geniais que até hoje nos admiram em religião, filosofia, química, física, astronomia, matemática pintura, escultura. Quase tudo saiu da meditação grega. Por isso, Han pensa encontrar aquele Deus considerado morto. Sabe que vive, mas precisa de ambiente para individuá-lo[i]. Sentir a experiência do sagrado na sombra dos plátanos.

O encontro de Han com a filósofa Simone Weil deu-lhe o suporte teórico para elaborar seu pensamento. O pensamento de Han baseia-se no cultural e Weil no espiritual. Han é a sociedade do desempenho, da positividade, enquanto Weil é da atenção, acolhimento.  Pensa que, conforme Weil, encontrar Deus é possível ao trilhar o caminho vislumbrado por ela conforme os passos ou disposições a serem seguidos:

De acordo com Weil para encontrar Deus a primeira atitude é ficar atento. Ele pode se manifestar a qualquer momento ou ambiente. O “eu” deve despir-se de suas vestes festivas e vestir-se da nudez que receber o manifestante. Ser um nada para receber aquele que é tudo. Ele chega até nós não pela via digitalizada mas contemplativa. Ficar atento a hora da chegada com azeite suficiente para iluminar a mente. O sagrado não chega ao som das fanfarras, mas ao som do violino.

A segunda atitude consiste em não apenas despir-se, mas assumir uma atitude radical de ser um ser novo, isto é, recriar-se, ser um novo ser. Como certos seres abandonam a velha carcaça e se revestem de uma nova natureza. Aquele velho homem deve ser abandonado e assumir uma renovada natureza possibilita adquirir um novo conhecimento para encontrar a Deus. Este novo homem não pensa ou age conforme a sociedade imersa no virtual, mas com um coração aberto ao divino.

Para encontrar Deus é preciso oferecer-lhe espaço não, porém, qualquer espaço, mas todo. Por isso é preciso esvaziar-se para estar plenamente vazio e poder ser por ele preenchido. Atualmente o ser humano está sempre preenchido com informação, entretenimento, consumo. Deve desvencilhar-se de tudo isso para Deus poder entrar.

A beleza digital é espetáculo, superficial, descartável. Deus é a beleza que se admira, contempla, profunda, perene. Esta, como Deus, nos desapropria e com Ele passamos a senti-lo no silêncio.

O homem social atual, conforme Han apenas sente dor, mas não sofre, não sente a dor profunda da alma. Para ter a experiência de Deus, não basta sentir a dor, é preciso provar profundamente o sofrimento.

O mudo de hoje é ruidoso, hiperativo. O silêncio deixou de existir. E é precisamente nele que Deus está. Por isso, silenciem e Deus se manifesta.

A lógica para o rendimento é a atividade ininterrupta. Para acolher o outro é preciso, ao contrário, parar e esperar. Da mesma forma praticar a inatividade favorece e proporciona a condição de encontrar Deus. Ele não se encontra na cadeia do ativismo, mas no espaço inativo.

O encontro entre Han e Weil acontece no cruzamento da crítica radical à sociedade atual. Weil buscam uma ontologia espiritual de atenção e esvaziamento e Han uma crítica cultural da sociedade digital e de desempenho. Em Weil há uma proposta de esvaziar-se, descer para encontrar o divino. Han, por sua vez entende que a modernidade é o empecilho para se realizar tal intento.

A crise do mundo, mais precisamente do homem, não é tanto econômica ou política, mas espiritual, perceptiva. Deus não está morto, mas ofuscado pelo mundo contemporâneo.



[i] A sociedade de desempenho é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo, até consumir-se completamente (burnout). (HAN, Byung- Chul. Falando de Deus , Vozes, 2025)

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