sexta-feira, 10 de março de 2023

FIM DOS TEMPOS DA DEMOCRACIA. Selvino Antonio Malfatti


 


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Todos se apercebem quando um livro é simplesmente repetição do que outros escreveram e, ao contrário, há algo novo. No primeiro caso as teorias já consagradas são simplesmente repetidas. No segundo caso as próprias teorias tradicionalmente aceitas são postas em discussão e uma a uma são desmanteladas, tais como informática e internet comparável à máquina a vapor e eletricidade, as revoluções sociais e tecnológicas serem base da economia moderna? Ou, a sociedade da informação, com sua inteligência artificial, o último estágio do progresso?

Atualmente é lugar comum justificar qualquer coisa contrapondo à democracia, como se esta fosse o parâmetro da justiça, quando justamente a democracia está submetida à justiça. A justiça é a condição da democracia.

É o que o livro de Franco Bernabè e Massimo Gaggi, quer nos alertar. (“Profetas, Oligarcas e Espiões”)  O desenvolvimento digital não é simples progresso dos tempos atuais, mas uma alteração nas relações entre sociedade, economia e Estado. Em detrimento dos sistemas parlamentares e classe média.

Sobre os autores. Bernabé foi líder de grandes indústrias exercendo a presidência da CEO da ENI e da Telecom Itália, Energia e Comunicações. Gaggi foi vice-editor do jornal Corriere e há vinte anos vem decodificando a sociedade americana como colunista da Nova York.

Ambos passaram por grandes crises desde o pós-guerra. O 11 de setembro com o Atentado das Irmãs Gêmeas que deram origem ao Patriot Act, lei da vigilância em massa. A multidão de turbulentos que invadiu Capitol Hill, o Congresso Americano.

No início da Internet, como numa Lua de Mel, tudo era atraente e ilusoriamente gratuito. Este mundo novo que se vislumbrava e deslumbrava era propriedade da Big Tech.  No entanto, não será o domínio da tecnologia da web que frouxa os freios e contrapesos, alicerces da democracia, mas é a forma como essas concentrações de poder será submetida. Na verdade por trás delas está o poder econômico. Por isso, o primeiro a ser dominado será o poder econômico.   Neste, três variantes precisam ser colocadas nos limites: identificar os riscos do descontrole da tecnologia, chegar a um consenso de regras aplicáveis e introduzir um travão para domesticar os monopólios. O tabuleiro de jogo de forças pode ser definido: 1º A Europa tem vontade política, mas não tem força. 2º Os Estado Unidos tem a força, mas não consegue força política. 3º A China se aproveitando para monopolizar o poder político e econômico. Por isso, não basta deixar à mão invisível guiar a política, o algoritmo, mas manter o controle pelo debate democrático submetendo-o à justiça,

O que provocou o nascimento, crescimento e a consolidação de uma oligarquia venenosa para o funcionamento da democracia foi o processo de desregulamentação dos anos Noventa que permitiu à indústria da internet criasse raízes tão profundas que os impérios financeiros, dela originários, ocultassem os do passado. A vontade de Reagan era não matar no berço o recém-nascido. Quando se deu conta, contudo, já não tinha volta. Já não é tarde imaginar  como era antes de “curtir”?

Neste momento pululam os “arrependidos”. Como paradigma pode-se citar Evan Williams, conhecido como pai do Twitter, declarou publicamente: “Achei que dar às pessoas mais liberdade para trocar ideias e informações online era suficiente em si mesmo para criar um mundo melhor. Eu estava errado, a internet está quebrada”. Muitos agora lembram quantos denunciaram o mais tóxico do Vale do Silício: o Facebook. Tal como o ópio, o facebook criou em boa parte da juventude uma sensação generalizada de ansiedade, insegurança e irresponsabilidade. O setor editorial com certeza está em crise. O pensamento crítico foi sufocado. Em vez de bibliotecas surgiram “salas” que alimentam as ofensas, acusações, ódios, os piores instintos. Não há raciocínio, apenas exaltação da pornografia e crimes contra vida, homicídio, infanticídio e aborto.  

Qual a origem?

- A Seção 230, nos Estados Unidos, que protege as empresas. Ela praticamente as isenta da responsabilidade pelos conteúdos publicados por terceiros. Á chamada a Lei de Decência nas Comunicações (Communications Decency Act).

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 4 de março de 2023

Ministério da Verdade. Selvino Antonio Malfatti



Está nascendo mais um órgão no governo. É da Procuradoria Nacional da Defesa da Democracia pela (AGU) Advocacia-Geral da União, cuja função seria o “enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas”. Procuradoria Nacional da Defesa da Democracia pela (AGU) Advocacia-Geral da União, cuja função seria o “enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas”.

De imediato a oposição encontrou semelhança com a proposta de Orwell, num dos quatro ministérios.

O novo organismo foi batizado pela oposição de Ministério da Verdade, por que, como na Revolução dos Bichos, o personagem Napoleão decidia o que os animais podiam ou não podiam dizer. Quem discordasse era afastado à força.

É estranho que tal instituição até agora não foi necessária, ou só aparece como órgãos similares em governos longe dos trilhos da democracia. Diante disso há uma desconfiança generalizada e que o verdadeiro objetivo é censura aos opositores. Reforça esta suspeita o fato de a maioria dos membros terem vinculação com a esquerda. Participam ainda da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e entidades dos meios de comunicação.

Alguns opositores louvam-se na esperança de diálogo com o governo, outros pela via legislativa, mas boa parte está cética. O senador Eduardo Girão pensa que a primeira proposta apresentada em janeiro era muito radical daí veio a reação da sociedade e do congresso. Conforme ele a proposta está se encaminhando para ser bem aceita, conforme opinião do partido PT. 

No entanto, pede-se muita cautela de uns e de outros - governo e oposição - para que avance para o aperfeiçoamento ou a ideia seja abandonada. O governo não quer o debate e a oposição acha o órgão desnecessário.

Mas de onde vem a ideia do Ministério da Verdade?

Nada mais nada menos que "1984" de George Orwell. Nesse é descrita uma sociedade totalitária ou Estado totalitário. O Grande Irmão vai estendendo seus tentáculos até não deixar mais possibilidade de o cidadão ter um mínimo de autonomia, quer externa que interna, como os dois amantes. O personagem Winston é funcionário de um dos quatro ministérios, o da Verdade. Os demais, o da Paz, Fartura, e Amor encarregado do Direito, da Justiça e da Segurança Pública, uma sistema de informações ou de espionagem. 

Ao Ministério da Verdade estão afetos as notícias, entretenimento, educação e cultura. A ele compete promover modificações em documentos com referência ao passado. O Partido sempre diz a "Verdade". Para tanto pode alterar o significado das palavras, a renovação da língua denominada de "novilíngua",ou, como pretendem alguns da atualidade.

A ambiguidade da proposta está no fato de ter duplo alcance. O governo pode ajustar a informação aos seus objetivos dizendo que há: “fatos inverídicos ou supostamente descontextualizados levados ao conhecimento público de maneira voluntária com objetivo de prejudicar a adequada execução das políticas públicas, com real prejuízo à sociedade”....

E onde fica a verdade? 

Até agora continua valendo a pergunta de Pilatos: 

- O que é a verdade?


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

O BRASIL NA ERA DO MINORITY REPORT. Selvino Antonio Malfatti.

 



Para quem acompanha a política dos poderes no Brasil, há uma similitude com o filme de ficção MINORITY REPORT. Nele se desenvolve a ideia de que é possível prever com precisão crimes que irão acontecer. Com isto o poder judiciário pode se antecipar e neutralizar o ato reduzindo os crimes a zero. Nesta lógica o poder supremo de uma sociedade seria o judiciário e a ele os demais poderes se submeteriam. E a ficção sofre seu revés quando um dos agentes entra na previsão de um crime.

A tese da superioridade de um poder sobre os demais é abordada exaustivamente pela ciência política. Podemos citar alguns como John Locke (Segundo Tratado), Charles de Montesquieu (O Espírito das Leis), Silvestre Pinheiro Ferreira (O Governo Representativo) e outros. Para Locke o poder superior é o de prerrogativa, para Montesquieu o poder real, para Silvestre o conservador. Não é um poder físico, mas moral. Nenhum dos poderes tem fisicamente superioridade sobre os demais, mas um é moralmente superior.

No Brasil, com o governo de Bolsonaro, começa a despontar a supremacia de um poder: o judiciário. Isso aconteceu quando o judiciário inova ao agir contra si mesmo. Desde o momento que iniciou a anulação de sentenças, estava agindo contra os demais poderes e tornando-se um superpoder: contra o legislativo por não acatar suas leis aprovadas e contra o executivo por passar por cima de leis sancionadas.

Todos os brasileiros sabem das consequências da anulação dos julgamentos de Lula no Lava Jato pelo ministro Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal - STF.

- as duas condenações contra Lula, nos casos Triplex do Guarujá e Sítio de Atibaia, foram anuladas. Com isso Lula poderá concorrer a reeleição, pois está livre do impedimento da Ficha Limpa.

A partir desde momento Lula passou para a proteção do escudo do STF e gozar de Passe Livre.

O judiciário é um poder com suas próprias atribuições. Não é nem maior e nem menor aos demais poderes.

No entanto, pela interferência do STF, o judiciário tornou-se um superpoder, desequilibrando a harmonia dos poderes. É muito provável que não foi proposital, mas as circunstâncias abrir caminho para isso. A partir do momento em que as reivindicações deixaram de seguir seu curso, o processo, e se dirigiram diretamente ao supremo e este acolheu. Estava aberta a brecha do desequilíbrio. As petições não passam mais pelo legislativo e muito menos pelo executivo, mas diretamente ao STF. E este gostou, inclusive incentivou a emergência de um superministro do Supremo. E está prestes a surgir a figura de “Superministro do Supremo”. Claro que não tem nada a ver com o Poder Moderador. Este era moral e o do Supremo físico. Mais próximo dos superministros do absolutismo francês: Mazzarino e Richelieu.

Quando se constata que ministros do supremo anulam sentenças para guindar alguém ao poder, só podemos nos acautelar que outros atos semelhantes poderão advir e levantar as mãos para o alto e pedir para nos livrar da tirania.

E aí está o perigo: uma tirania do judiciário.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA NOS REGIMES DITATORIAS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Em regimes ditatoriais ou totalitários qualquer discordância ou oposição deve ser silenciada. Não nos iludamos: tolerância zero para oposição.

O bispo de Matagalpa, Rolando Alvarez, da Venezuela, por ser crítico do regime está sofrendo as consequências. O bispo foi condenado, em 10 de fevereiro, a 26 anos e quatro meses de prisão. Foi cassada para sempre sua nacionalidade nicaraguense e seus direitos cívicos.

Isto ocorreu no momento que ele se recusou a embarcar no avião que ele e mais de 200 prisioneiros seriam enviados como refugiados a Washington. Na ocasião foi insultado por um funcionário do governo chamando de “arrogante, desequilibrado, louco e feroz”. Conforme Daniel Ortega a Igreja católica foi cúmplice de uma tentativa de golpe.

As investidas contra a religião católica são frequentes. O bispo Silvio Baez foi condenado ao exílio em 2019. No início do mês, cinco padres foram condenados a dez anos de prisão. Com isto as maiores autoridades episcopais da igreja foram neutralizadas.

Num artigo Andrea de Angelis, em Vatican News, reforça as ideias da perseguição do governo da Nicarágua ao clero católico.

No início de fevereiro um tribunal da Nicarágua condenou o bispo Rolando José Álvarez Lagos a 26 anos de prisão, por se recusar a embarcar no avião com 222 pessoas, padres seminaristas, opositores ou críticos do regime. O bispo foi considerado Traidor da Pátria e deverá permanecer na prisão até 2049.

Até sentença do julgamento apareceu antes do julgamento com o bispo de Matagalpa. O julgamento estava previsto para começar em 15 de fevereiro, mas a condenação veio antes. (https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-02/nicaragua-condenado-bispo-matagalpa-prisao-alvares-ortega-igreja.html)

Católicos nas mãos de ditadores na Nicarágua:

- Em 2021 Ortega vence as eleições com 75% dos votos num ambiente de candidatos oposicionistas presos com acusações de fraudes por organizações internacionais.

- Documentos provam torturas e violações dos direitos humanos.

- Confinamento de dezenas de prisioneiros políticos em condições subumanas

- Autoridades eclesiásticas foram acusadas de tomar partido e comprometerem-se com golpistas.

- O núncio papal foi expulso do país juntamente com 18 freiras Missionárias da Caridade.

- Padres foram presos e estações católicas de rádio foram fechadas.

Na lista Mundial das perseguições da América Latina constam os seguintes países: Nicarágua, Venezuela, Honduras e El Salvador.

Além da Nicarágua ainda os cristãos sofrem perseguições e restrições nos países abaixo:

Venezuela, Honduras e El Salvador.

 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

ESTE NÃO É O SOCIALISMO VERDADEIRO! Selvino Antonio Malfatti

 





Quando se apontam as falhas das experiências socialistas é comum ouvir-se a frase:

- Este não é o socialismo verdadeiro! - 

A jornalista da Gazeta do Povo, Bruna Komarchesqui, se dispôs a discorrer sobre o assunto.

O que até agora se tem mostrado é que nenhum socialismo deu certo. Sobre as tentativas que superam duas dezenas e o que se poderia concluir é que cem por cento fracassou. O que se constata é que no entusiasmo inicial da implantação de algum socialismo, os intelectuais se derretem em tecer elogios, mas quando começam aparecer rachaduras no edifício, logo se apressam em se desculpar dizendo que “este não é o verdadeiro socialismo”. Assim aconteceu com a Rússia, Cuba, China, Coreia e outras.

O socialismo tem falhas? Não. Não é o socialismo que tem falhas, mas ele próprio é a falha. O socialismo é uma contradição “in terminis”, assim como vivo e morto. Não podem existir simultaneamente socialismo e liberalismo.

O controle democrático do poder? Esta ilusão foi muito bem estudada por Friedrich Hayek. Este conclui que a realidade mostra que acontece o contrário, isto é, o socialismo leva à concentração do poder nas mãos do Estado. Esta é a conclusão do pensamento liberal. Curiosamente o lado socialista chega à mesma conclusão. O partido, e no caso socialista é o poder visível do Estado, amordaça a sociedade com suas tenazes e concentra em si todo poder. É a conclusão de Robert Michels em os “Partidos Políticos.” Portanto, ambos chegam à idêntica conclusão. Michels aponta razões práticas que evitam a renovação e o poder continue sempre nas mãos dos mesmos.

       “Conforme Michels a lógica democrática deveria reger-se pela substituição contínua dos mais antigos pelos mais jovens para não deixar que os cargos de direção se incrustem no poder. No entanto, o que acontece é exatamente o inverso. Os partidos socialistas têm uma sólida organização, fazendo que a representação se assente mais no passado que no presente. É a lei da inércia que leva a isso, uma preguiça gregária que renova o mandato dos mesmos chefes. Contudo, isso não ocorre por falta de normas. Há uma determinação de que, em cada congresso anual, o partido deva renovar-se pelo voto secreto, bem como, com maioria absoluta, todo o comitê de direção composto de sete pessoas. Entretanto, o que se observa é que, em cada congresso, se distribui aos delegados cédulas impressas com os nomes dos membros da direção anterior. Isso mostra não somente uma continuidade de mandatos como também uma forma de pressão para consegui-los”.(MALFATTI, S. A teoria das elites como  uma ideologia para perpetuação no governo. Revista Thaumazein v. 1, n. 2 (2008) ›

 

 O socialismo tem falhas? Não é o socialismo que tem falhas, mas ele próprio é a falha. O socialismo é uma contradição “in terminis”, assim como vivo e morto. Não podem os dois existir politicamente simultaneamente.

São várias as tentativas de implantação do socialismo. São duas as formas clássicas. A dita via “democrática” e a revolucionária. Ambas acabam sendo violentas. Citaremos algumas experiências:

      Chile

Após eleito e assumir o poder Salvador Allende promove, por decreto, a reforma agrária, a nacionalização do cobre, carro chefe da exportação, estatização dos bancos e indústrias.

As consequências se fizeram sentir imediatamente. Aumento de desemprego, a moeda se desvalorizava, a inflação atingia o teto de 381% e os produtos despareceram das prateleiras.

Ao autogolpe planejado, Pinochet promove um golpe militar e Allende se suicida.

      Alemanha Oriental

Após a pacificação em 1949, os soviéticos, que ficaram com várias ocidentais,  fundaram a República Democrática Alemã, com a construção do Muro de Berlim como “proteção antifascista” dividindo a Alemanha ao meio. A ocidental, liberal e democrática, e oriental socialista.

Quando as duas foram reunificadas pela derrubada do Muro de Berlim se pôde ver a defasagem da oriental: o PIB da oriental era apenas um terço da outra, não havia parâmetros que aproximassem as duas em produtividade, tecnologia, expectativa de vida e outros.

      Coreia do Norte

A Coreia do Norte possui uma fachada liberal, como a realização periódica de eleições. No entanto, a realidade mostra uma ditadura stalinista totalitária, com um culto quase teocrático de A Coreia do Norte oficialmente se descreve como um Estado socialista autossuficiente e formalmente realiza eleições. Vários analistas, no entanto, classificam o governo do país como uma ditadura stalinista totalitária, particularmente por conta do intenso culto de personalidade em torno de Kim Il-sung e sua família.

Caracteriza-se pela estagnação econômica, violação dos direitos humanos e liberdades públicas e controle dos meios de divulgação.

Poderíamos desfilar experiências socialistas. Preferimos buscar os passos  geralmente seguidos pelos líderes socialistas.

1º Apresentação à sociedade do socialismo como um ideal perfeito: paz, bem estar social e econômico. Seria um paraíso terrestre.

2º Necessidade de pequenos ajustes: desapropriações, acomodações coletivas, comida racionada.

3º Eliminação dos inimigos do povo; fuzilamentos, prisões, deportações.

4º Implantação da ditadura: fim das liberdades públicas.

5º Instalação do totalitarismo: domínio da consciência - liberdades internas.

Assim sucedeu na Rússia, China, Cuba e outras experiências socialistas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

AS VEIAS DA AMÉRICA LATINA – ABERTAS PARA A ESQUERDA. Selvino Antonio Malfatti.

 





Praticamente só faltava o Brasil. Os demais países, uns mais, outros menos, exibem coloração sanguínea. Após a eleição de outubro, o Brasil também entrou para o mesmo rol.

A partir de 1º de fevereiro se definiu o legislativo, dividido em duas casas: deputados e senadores – o Congresso. O espelho da ideologia de um país se reflete nele.

A posse da nova legislatura aconteceu também em 1º de fevereiro. São 513 deputados federais e 27 senadores. Logo após a posse aconteceu a eleição dos presidentes da câmara e do senado.

O importante não seria o nome, mas a ideologia escolhida ou eleita. Mas como a política no Brasil se move pelo fisiologismo o nome do escolhido ideologicamente não é significativo, pois as escolhas do eleitorado não se reflete dos eleitos. Para a câmara dos deputados o cenário aponta para o nome de Artur Lira (PP-AL), juntamente com Chico Alencar (PSOL – RJ).  O Partido aloca-se no centro-direita do espectro ideológico. No Brasil o PP tem fortes vínculos com a ideologia dos governos militares e de seu partido, ARENA. Por isso, Artur Lira pode constituir-se num elo entre o candidato vencedor Lula e o vencido Bolsonaro.

Já o PSOL é um partido entre esquerda e extrema esquerda.  Autodenomina-se “democrático” no sentido de que se sustenta através das massas, contrapondo-se à representação. Está mais próximo da corrente revolucionária que reformista.

No senado a ideologia anda nebulosa. A disputa será entre os candidatos Rodrigo Pacheco (PSD-MG e Rogério Marinho (PL-RN). Em que pese o senador Eduardo Girão (Podemos-CE) ter apresentado sua candidatura, à primeira vista parece que não terá chances de vencer embora se mostrou preparado nos debates que envolvem temas de profundidade, como a competência dos poderes e sua posição em defesa da vida na questão do aborto.

Pacheco é uma candidatura visivelmente petista-lulista. Seus adversários conservadores enfeixam mais de 50% dos congressistas. Pacheco é seu contraponto. Com ele Lula terá seus projetos facilitados, em que pese apresentar-se como um partido ético e liberal no qual defende a livre associação, liberdade econômica, individual e social, tudo encimado pelos valores.

 Lira representará a direita e a esquerda: será apoiado pelo PL e PT. Deverá transitar no limiar entre as duas ideologias. Como pessoalmente não possui uma ideologia definida não lhe será difícil a função da ambivalência.

O candidato Marinho representa o resultado conservador da eleição presidencial. Com Marinho, o Senado estaria mais perto do resultado das urnas, que evidenciou que a população deseja parlamentares mais alinhados a princípios conservadores. Nisso refletiria um senado mais autônomo tanto em relação do Judiciário como do Executivo.

No entanto, o candidato Rodrigo Pacheco, elegeu-se presidente.

O equilíbrio será difícil, pois Lula venceu a eleição para o executivo, mas não conseguiu formar maioria no legislativo, enquanto Bolsonaro perdeu no executivo, mas emplacou maioria no legislativo.

Como o móvel da prática política brasileira não é o ético, mas o econômico, tanto faz formar ou não maioria legislativa. O móvel é o fisiológico e não ético. Então vamos ao mercado, a ágora grega.

Feita a eleição, "allons" à pauta.

   

sábado, 28 de janeiro de 2023

A HERANÇA PÓSTUMA DE BENTO XVI. Selvino Antonio Malfatti

 





Há poucos dias o mundo foi tomado de comoção pelo falecimento do papa emérito Bento XVI. Todo mundo esperava e sabia que ia acontecer uma hora ou outra, como o falecimento de um ente querido à beira da morte. Mas a emoção é inevitável.

Bento de XVI, além da graça da santidade, ele era respeitado pelo seu humanismo, filosofia, teologia, antropologia e outras especialidades científicas. O mundo sabia que nele estava depositada a cultura cristã acumulada de séculos. E por isso que, quando viu a morte colhê-lo, ficou literalmente órfão. Aos órfãos deixou uma pequena herança póstuma: uma escatologia do cristianismo. Isso para que não sintamos medo. O não sentir medo é recorrente na teologia da Igreja: Nada menos do que 366 vezes é repetido: "Não temas", na Bíblia. Não temer o quê?

1.   Pecado

Se você fez algo errado e sentiu-se culpado e o remorso o acompanha dia e noite martelando na consciência. Liberte-se pela confissão. Após a confissão sente-se confortado, leve e feliz por entregar-se a Cristo. Justamente porque o pecado separa a pessoa de Deus. Para libertar-se do pecado é preciso arrepender-se e voltar novamente a Deus. Por  isso, não é preciso ter medo do pecado mas fazer o que Deus pede.       

2.    Raiva

Às vezes outras pessoas podem, sem ser por maldade, espalhar inverdades a seu respeito. Isto poderá provocar em ti uma raiva. Ao entregar a Deus Ele o ajudará a vencer. Por isso, não sinta medo da raiva, mas aplique o remédio certo para vencê-la.

3.   O medo

Não temer o medo. Quando o sentires lembre-se do que aconteceu com os apóstolos e o Senhor. Os apóstolos sentiam medo do mar e o mestre mostrou-lhe que junto com ele não precisava ter medo. O medo é um estímulo aversivo que provoca um desejo de luta ou fuga. Quem confia em Deus sabe que não precisa ter medo. Basta pedir a ajuda de Deus.

4.   Dor

Se sentires tristeza por ver os pais se separarem, confia no senhor, pois a reconciliação deles trará muito alegria para ti, Não deve temer o futuro, pois Deus pode provocar-lhe a reconciliação e a alegria virá novamente para ti.

A dor, que pode ser física ou psíquica, também pode ser ajudada fisicamente ou espiritualmente. A dor física pode ser aliviada pela medicina e a espiritual com o auxílio de Deus. Por isso, seja confiante em Deus e não tenha medo.

 

Bento XVI contrapõe o “medo” ao amor e confiança. Assim como os filhos podem temer o pai ou amá-lo, da mesma forma podemos ter uma relação temerosa com o pai ou amável com o "Abbá! Pai!"

Na oração que o mestre nos ensinou, guardada desde o início do cristianismo, a Igreja escolheu : “seja feita a tua vontade”.

E é precisamente o tratamento que os cristãos dão a Deus que afasta deles todo medo. Como uma criança que está nos braços do pai nada teme.

 

Como homenagem póstuma publicamos, em anexo, um texto extraído do livro: O que é o Cristianismo. «Che cos’è il cristianesimo» (Mondadori): il suo testamento spirituale.

“ Uma expressão essencial da relação com os mortos é, em todas as religiões tribais, o culto aos ancestrais, visto principalmente no passado em oposição à visão cristã da vida e da morte. Horst Bürkle propôs uma nova apropriação e representação do culto aos ancestrais que me parece digna de consideração. Ele mostra que o individualismo que se desenvolveu no Ocidente e representa a mais forte resistência ao culto dos ancestrais é, na realidade, também oposto à imagem cristã do homem que se vê protegido no misterioso corpo de Cristo.

 

O vínculo do homem com Cristo não é apenas um relacionamento eu-você, mas cria um novo nós. A comunhão com Jesus Cristo introduz-nos no corpo de Cristo, isto é, na grande comunidade de todos os que pertencem ao Senhor e, portanto, atravessa também a fronteira entre a morte e a vida. Nesse sentido, a comunhão com aqueles que nos precederam é parte essencial do ser cristão. Permite-nos encontrar formas de comunhão com os mortos, que talvez na África se apresentem de forma diferente da Europa, mas em todo o caso permite-nos fazer uma transformação significativa do culto dos antepassados.

 

Agora, porém, surge a questão de como a crença em um Deus pode superar o mundo dos deuses. Verbite Wilhelm Schmidt argumentou que a crença no Deus único está na origem da história da religião e foi progressivamente mais e mais ofuscada pelas múltiplas divindades, até que foi capaz de suprimir os deuses mais uma vez. Ele mesmo finalmente admitiu que tal desenvolvimento não pode ser provado.

 

Em vez disso, de alguma forma sempre se soube que os deuses não são simplesmente o plural de Deus, Deus é um Deus no singular. Ele existe apenas na unidade. A pluralidade de deuses se move para outro nível. De fato, o mundo em suas diversas esferas é regido por divindades que só podem dominar uma parte. (…)

 

Ao longo da história das religiões, Deus foi considerado como um monarca que tem poder sobre tudo, mas não o exerce. O único Deus verdadeiro não precisa de adoração, porque ele não ameaça ninguém e não precisa da ajuda de ninguém. A bondade e o poder do único Deus verdadeiro condicionam sua insignificância ao mesmo tempo. Ele não precisa de nós e o homem pensa que não precisa dele.

 

Com a proliferação da crença nos deuses, cresceu o desejo de que o verdadeiro Deus pudesse libertar o homem do regime de medo no qual a crença nos deuses se desenvolveu amplamente. Segundo a crença cristã, exatamente isso havia acontecido com Jesus: o único Deus entra na história das religiões e depõe os deuses. Acima de tudo, Henri de Lubac demonstrou que o cristianismo era percebido como uma libertação do medo em que o poder dos deuses enredara os homens. Afinal, o poderoso mundo dos deuses desmoronou porque o único Deus entrou em cena e acabou com seu poder.

 

Tentei descrever esse evento um pouco mais de perto na obra coletiva Gott in Welt, publicada por ocasião do sexagésimo aniversário de Karl Rahner, e pude estabelecer que existem duas maneiras de abandonar a fé nos deuses. Primeiro as religiões monoteístas originárias da raiz de Abraão, nas quais o único Deus como pessoa determina o mundo inteiro. Ao lado deles, há uma segunda saída, ou seja, as religiões místicas com o budismo Hinayana como forma central. Aqui não há um Deus pessoal, mas mesmo o Deus único se dissolve, torna-se evanescente. O caminho do Buda tende para a aniquilação.

 

Na realidade, essa forma severa de dissolução mística de todas as figuras individuais não se impôs, mas, em última análise, sempre permaneceu como uma representação final e alcançou um poderoso efeito atrativo precisamente nas culturas outrora cristãs da Europa. Na esfera lingüística alemã encontrou expressão na frase atribuída a Karl Rahner: "O cristão de amanhã será um místico, ou não existirá mais". Aparentemente, isso visa uma interiorização e um aprofundamento interior da fé. (…) Para muitos, ao contrário, apenas esconde o programa de apresentar todas as formas concretas de fé como secundárias para chegar, em última análise, a uma devoção impessoal, tal como Luise Rinser indica como a forma superior de ser cristão que ela conseguiu entretanto.

 

A escritora alemã me explicou pessoalmente que o objetivo de publicar a troca de cartas com Karl Rahner era demonstrar que ela era mística e que a longa jornada espiritual que fizera com Rahner resultou finalmente na explicação mística do cristianismo. Não ficou claro para mim até que ponto Luise Rinser queria envolver Rahner na transformação do cristianismo em uma religião mística. Em todo caso, ele queria oferecer uma explicação para a famosa frase de Rahner como uma abertura para o futuro.(Tradução realizada mecanicamente pelo Google e revisada pelo autor do Blog Reflexão).

 

“Un’espressione essenziale del rapporto con i morti è in tutte le religioni tribali il culto degli antenati, che perlopiù venne considerato in passato in opposizione con la visione cristiana della vita e della morte. Horst Bürkle ha proposto un’appropriazione e una rappresentazione nuova del culto degli antenati che a me sembra degna di considerazione. Egli mostra che l’individualismo che si è sviluppato in Occidente e rappresenta la più forte resistenza nei confronti del culto degli antenati si contrappone, in realtà, anche all’immagine cristiana dell’uomo che ci vede protetti nel misterioso corpo di Cristo.

 

Il legame dell’uomo con Cristo non è solo un rapporto io-tu, ma crea un nuovo noi. La comunione con Gesù Cristo ci introduce nel corpo di Cristo, vale a dire nella grande comunità di tutti quelli che appartengono al Signore e oltrepassa perciò anche il confine tra morte e vita. In questo senso la comunione con quanti ci hanno preceduto è parte essenziale dell’essere cristiano. Ci permette di trovare forme di comunione con i morti, che forse in Africa si presentano diversamente dall’Europa, ma in ogni caso ci consentono di operare una trasformazione ricca di senso del culto degli antenati.

 

Ora, però, si pone la questione di come la fede in un unico Dio possa superare il mondo degli dèi. Il verbita Wilhelm Schmidt ha sostenuto la tesi che la fede nell’unico Dio si pone all’origine della storia della religione e venne progressivamente sempre più oscurata dalle molteplici divinità, finché fu in grado di sopprimere ancora una volta gli dèi. Egli stesso ha alla fine ammesso che un tale sviluppo non può essere dimostrato.

 

Piuttosto, in qualche modo si sapeva sempre che gli dèi non sono semplicemente il plurale di Dio. Dio è un Dio al singolare. Egli esiste solamente nell’unità. La pluralità degli dèi si muove a un altro livello. Di fatto il mondo nei suoi diversi ambiti è retto da divinità che possono dominare solo su una parte. (…)

 

Nell’estensione della storia delle religioni Dio è stato considerato come un monarca che ha sì potere su tutto, ma non lo esercita. L’unico vero Dio non ha bisogno di culto, perché non minaccia nessuno e non ha bisogno dell’aiuto di nessuno. La bontà e la potenza dell’unico vero Dio condizionano nello stesso tempo la sua insignificanza. Non ha bisogno di noi e l’uomo crede di non aver bisogno di lui.

 

Con la proliferazione della fede negli dèi crebbe la nostalgia che il vero Dio potesse liberare l’uomo dal regime di paura nel quale si era ampiamente sviluppata la fede negli dèi. Secondo la convinzione dei cristiani, con Gesù era successo proprio questo: l’unico Dio entra nella storia delle religioni e depone gli dèi. Soprattutto Henri de Lubac ha dimostrato che il cristianesimo venne percepito come liberazione dalla paura nella quale la potenza degli dèi aveva imbrigliato gli uomini. In fondo il possente mondo degli dèi crollò perché entrò in scena l’unico Dio e pose termine alla loro potenza.

 

Io ho cercato di descrivere un po’ più da vicino questo evento nell’opera collettanea Gott in Welt pubblicata in occasione dei sessant’anni di Karl Rahner, e ho potuto stabilire che vi sono due vie d’uscita dalla fede negli dèi. Dapprima le religioni monoteiste originate dalla radice di Abramo, nelle quali l’unico Dio come persona determina il mondo intero. Accanto a queste vi è una seconda uscita, vale a dire le religioni mistiche con il buddismo Hinayana come forma centrale. Qui non vi è alcun unico Dio personale, bensì anche l’unico Dio viene dissolto, diventa evanescente. La via del Buddha tende all’annichilimento.

 

Nella realtà questa forma severa di dissolvimento mistico di tutte le singole figure non si è imposta, ultimamente però è rimasta sempre come rappresentazione finale e ha raggiunto una potente efficacia attrattiva proprio nelle culture d’Europa una volta cristiane. Nell’ambito linguistico tedesco ha trovato un’espressione nella frase attribuita a Karl Rahner: «Il cristiano di domani sarà un mistico, oppure non esisterà più». In apparenza questo mira a un’interiorizzazione e a un approfondimento interiore della fede. (…) Per molti, invece, nasconde solo il programma di presentare come secondarie tutte le forme concrete della fede per giungere ultimamente a una devozionalità impersonale, come quella che Luise Rinser indica come la superiore forma dell’esser cristiani nel frattempo da lei conseguita.

 

La scrittrice tedesca mi ha personalmente spiegato che lo scopo della pubblicazione dello scambio epistolare con Karl Rahner era quello di dimostrare che lei era una mistica e che il lungo percorso spirituale da lei compiuto con Rahner sfociava da ultimo nella spiegazione mistica del cristianesimo. Non mi è divenuto chiaro fino a che punto Luise Rinser volesse coinvolgere Rahner nella trasformazione del cristianesimo in una religione mistica. In ogni caso voleva offrire una spiegazione della famosa frase di Rahner come apertura verso il futuro.”( Che cos’è il cristianesimo» (Mondadori): il suo testamento spirituale”

 


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