sexta-feira, 14 de outubro de 2022

O espaço da religião na vida. José Mauricio de Carvalho

 



A morte da jovem iraniana Masha Amini nas dependências da polícia, após ter sido detida por descumprir a lei islâmica sobre o uso do hijab, aquele véu que cobre a cabeça especialmente das mulheres para preservar a modéstia e esconder os cabelos conforme determinação da doutrina islâmica, produziu uma onda de revolta no país. Como se sabe, o Irã é uma República Islâmica controlada por autoridades religiosas que se sobrepõem às civis. Assim é, embora o sistema político oficial seja a de uma república democrática, regime aprovado pela quase totalidade dos cidadãos depois da revolução de 1979. O pano de fundo da morte da jovem iraniana e dos protestos não é, portanto, não é uma revolta contra a forma ou sistema de governo (República e Democracia), mas do controle exercido pelas autoridades religiosas sobre a sociedade civil através de diferentes mecanismos, orientação dos aitolás e uma polícia de costumes. Enfim, temos uma organização política em que as autoridades religiosas se sobrepõem às civis e têm a última palavra nas questões de moral, governo e Estado.

O atual presidente do Irã é o ultraconservador Sayyid Ebrahim Raisol-Sadati, comumente conhecido como Ebrahim Raisi, e foi eleito em 3 de agosto de 2021. Ele trabalhou no sistema judicial do país como Procurador-Geral e Vice-Chefe de Justiça e adota integralmente as orientações religiosas do Alcorão. A maior autoridade do país é a autoridade religiosa, e cargo atualmente ocupado pelo aiatolá Ali Khamenei, que sucedeu ao aiatolá Khomeini, um dos líderes da revolução islâmica e da implantação desse regime no país em 1979.

Um controle semelhante da autoridade civil pela religiosa foi muito comum na Idade Média europeia e naqueles dias, na tentativa de manter o controle sobre os líderes e a sociedade civil, a Igreja Católica acabou cometendo erros históricos como: a perseguição das chamadas bruxas, a imposição da autoridade religiosa sobre a civil, na venda das indulgências, etc. Eram outros tempos que não é razoável condenar com base na mentalidade contemporânea, pois o mundo ocidental avançou muito para deixar romper com essa dependência. A evolução na compreensão histórica de um valor no seio de uma cultura foi denominada por Miguel Reale de historicismo axiológico.

No ocidente quem conduziu melhor a transição do modelo medieval para o atual foi a sociedade britânica com a proposta da moral social consensual. Os países do norte da Europa também assumiram rapidamente a liberdade religiosa quando avançou no continente a divisão da cristandade. Na experiência britânica cada cidadão tinha a sua religião e a assumia como culto público da divindade, mas o comportamento moral era consolidado em leis civis que nasciam do acordo dos representantes do cidadão no parlamento. A questão moral, com fundamento religioso ou filosófico, determinava a consciência individual e ditava as normas que o indivíduo queria seguir. Cada qual tinha sua orientação moral-religiosa, mas o comportamento social era ditado pelas regras civis.

Estabelecido o aspecto jurídico da construção da legislação civil não se pode deixar de considerar que o ocidente conservou na sua raiz moral a tradição judaico-cristã, não porque as religiões sejam iguais, cada uma tem sua teologia e moral, mas os preceitos morais fundamentais entorno ao valor central da pessoa humana eram comuns a essa tradição. Toda a discussão levada a cabo pela geração de Hermann Cohen, Martin Buber, Max Scheler, Emanuel Levinas acabaram demonstrando isso, a moral judaica não é distinta da cristã.

Assim, ao lado da herança filosófico grega, responsável pela forma lógica e racional de pensar o mundo e da organização do Estado pelo legado de Roma, o ocidente encontrou na tradição judaico-cristã as indicações para reconhecer o valor nuclear da pessoa humana, processo que a tradição filosófica moderna ajudou a consolidar.

Essa tradição ética, posta na raiz axiológica da cultura ocidental, ganhou contornos distintos dentro das religiões cristãs por que foram tratadas de modo diferente por seus teólogos, Agostinho, por exemplo, reviu o cristianismo na perseguição platônica e Santo Tomás fez o mesmo dialogando com Aristóteles. Platão e Aristóteles são filósofos gregos cuja forma de pensar era bastante diversa da tradição judaica e da maneira como ensinava e pensava Jesus de Nazaré, que os cristãos reconhecem como sendo mais que um profeta, mas o próprio Cristo, o enviado de Deus. Entre os protestantes também há teólogos notáveis como Karl Friedrich Bahrdt e Johann Funck.

Assim, em que pese o ocidente ser marcado por valores judaico-cristãos, de haver liberdade religiosa nos países democráticos do ocidente, e de ser importante a fé em Deus como instrumento de aperfeiçoamento pessoal, qualquer tentativa de controle moral da sociedade civil por uma moral religiosa representa um andar de marcha ré para a Idade Média. O episódio da jovem morta no Irã e todos os problemas daí decorrentes mostram a inadequação desse projeto.

 



sexta-feira, 7 de outubro de 2022

PARLAMENTO BRASILEIRO - POUCOS VOTADOS E MUITOS ELEITOS. Selvino Antonio Malfatti




 

Nas eleições de 2 de outubro registrou-se um fenômeno típico do sistema eleitoral proporcional: um mínimo (mínimo mesmo!) foi eleito por votos diretos do eleitor. Os demais por sobras de proporcionalidade. Apenas 5% eleitos e os demais por participação partidária. De um total de 513 deputados somente 25 foram eleitos. Isso significa que não temos um parlamento representativo, apenas nominal. Uma ficção!

A explicação pode ser encontrada na distinção entre democracias majoritárias e democracias consensuais fundamentadas no sistema eleitoral distrital e proporcional.

As democracias majoritárias e democracias consensuais, feita por Arend Lijphart, evidencia que, no fundo, elas decorrem do sistema eleitoral, isto é, as democracias majoritárias têm sua origem no sistema eleitoral distrital, em sua maioria, e as democracias consensuais geralmente são provenientes do sistema proporcional.  Isso porque cada sistema eleitoral objetiva um resultado específico. O sistema distrital quer obter da sociedade o que, naquele momento, mais almeja enquanto o sistema proporcional objetiva o número total de aspirações. No primeiro, faz-se uma hierarquia dos alvos imediatos, desde os mais urgentes até os menos importantes. No segundo, faz-se um levantamento abstrato das aspirações. O resultado aparece em forma de maioria absoluta no primeiro sistema e em maiorias relativas, no segundo. O que facilita esse quociente é o sistema eleitoral. O sistema distrital obtém, de distrito em distrito, as demandas mais significativas da sociedade até o resultado final. O sistema proporcional espalha a busca dentro da sociedade como um todo. Obterá um total, mas sem saber quais os mais importantes. No primeiro caso, temos uma democracia com um governo de maioria e, no segundo, obter-se-á um governo de consenso porque, após as eleições, os partidos deverão escolher aquelas prioridades, as quais entenderem que são mais importantes, mas não necessariamente aquelas que a sociedade entenda que sejam.

 

O sistema eleitoral distrital escolhe os candidatos dos partidos que estão de acordo com os anseios imediatos daquela microssociedade. E, como de um modo geral, em cada parcela da sociedade, há interesses mais importantes e iguais à comunidade toda, esse sistema faz que um partido que sintonizar com os interesses mais relevantes de cada distrito consiga mais de 50% dos votos, e outro, menos sintonizado, chegue a menos de 50%, mas próximo a ele. Na próxima eleição,’ a proposta do outro partido pode ser eleita prioritária e o partido anterior ficar em segundo lugar. Esses dois partidos se alternam de eleição em eleição fazendo maioria, estabelecendo-se assim um sistema bipartidário. O sistema bipartidário constitui o fundamento de uma democracia majoritária.

Por sua vez, no sistema proporcional, cada partido procura atender a alguns anseios de cada comunidade, tanto da maioria como das minorias, mas sem dar prioridade a nenhum, acaba tendo que abraçar a todos e, com isso, nenhum candidato ou partido fará maioria, configurando-se como resultado, uma gama de partidos mais ou menos iguais, mas sem que nenhum tenha obtido maioria. Esse sistema eleitoral provocou um multipartidarismo. Este, o multipartidarismo, que é o critério do modelo de democracia consensual.

Havendo um partido que faz maioria no parlamento,  no sistema bipartidário, se for um sistema de governo parlamentarista, essa maioria fará o executivo e, consequentemente, o governo possui maioria no parlamento, podendo assim aprovar as propostas programáticas. Se for presidencialista, geralmente o mesmo partido que elegeu o presidente faz também maioria no parlamento. Por isso, em ambas as alternativas, haverá um executivo forte. Ora, uma das características do modelo de democracia majoritária é um executivo forte.

Um executivo alicerçado nas alianças ou coligações e dependente de outros partidos para governar é decorrente do sistema multipartidário. Como consequência, haverá um executivo que depende das alianças parlamentares e, em decorrência disso, em igualdade de poder com o legislativo, no qual estão representados todos os anseios da sociedade. Por sua vez, a igualdade de poderes constitui um dos fundamentos do modelo democrático consensual.

O sistema eleitoral distrital força o afunilamento de interesses, prioriza metas concretas e tangíveis e favorece o surgimento de maiorias e, com isso, encaminha-se para o modelo majoritário de democracia.

O sistema proporcional favorece a dispersão da demanda, dando o mesmo valor a metas de maiorias e de minorias. Baseada apenas em critérios partidários é composta de uma maioria com base em uma negociação suprapartidária para obter o apoio dos partidos que participam do governo, originando-se  assim Inclusive uma democracia consensual. (LIJPHART, Arend.. As Democracias Contemporâneas. Trad. de Alexandre Correia e Francisco Bagio. Lisboa, Grandiva, 1989. (Democracies. Yale University Press London, Yale University Press, 1984)

 

 


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

ELEIÇÕES 2022 NO BRASIL. Selvino Antonio Malfatti

 



No dia 2 de outubro o Brasil realiza a maior eleição de sua história. São concorrentes, 6 candidatos para presidente: Lula, Bolsonaro, Ciro, Simone, Felipe e Soraya. Para governador são 26 candidatos, um senadores para cada membro da Federação, deputados federais e estaduais conforme cota da Justiça eleitoral.

O número de eleitores são 156 milhões

 

Conceitos básicos: Democracia, Eleitorado, eleição, partidos políticos, candidatos, poderes, (executivo, legislativo e judiciário) Justiça eleitoral.

 

1.    Por que eleições?

O principal fim da eleição numa democracia é renovar seus quadros eletivos, avaliar o desempenho dos integrantes e confirmar ou não os ocupantes atuais. Esta tarefa deve ser atribuída a uma autoridade constituída para este fim, no caso brasileiro a Justiça Eleitoral. Esta recebe um poder para promover, levar a bom termo e concluir um período eleitoral que aufira representantes legítimos para cargos políticos.

2.    Por que se fazem eleições?

As eleições são avaliações periódicas da democracia. Onde não houver eleição não há avaliação da democracia e consequentemente não se sabe se a democracia funciona. Há vários locais onde não se faz avaliação e consequentemente o sistema democrático permanece em dúvida. Ainda á o problema de como a democracia é avaliada e neste caso também permanece a dúvida. Geralmente é considerado legítimo o sistema que se submete a um terceiro avaliador, isto é, uma avaliação externa do sistema, como é o caso de uma eleição dentro do sistema. No caso, a convocação de novas eleições para os cargos que estão sendo exercidos. Neste caso os ocupantes ou serão confirmados ou destituídos. Evidentemente o instrumento deverá ser fidedigno para espelhar de fato a realidade.

Através da avalição se pode auferir o desempenho dos ocupantes dos cargos, a fidelidade aos compromissos assumidos e auferir o nível de satisfação dos subordinados.

Através de instrumentos adequados é possível chegar aos resultados e através deles poder corrigir as falhas no e do sistema.

A simples troca de funcionários não garante a lisura do esperado da eleição. Às vezes é preciso ir mais fundo inclusive intervir no sistema institucional. Se, por exemplo, o sistema permitir que candidatos com baixa representatividade forem eleitos, como no caso de candidatos sem votação ou inexpressiva causará uma distorção em todo sistema eletivo e minará os objetivos das eleições na sua legitimidade. Um sistema proporcional que permite eleger representantes sem votos anulará o sentido da eleição. Na verdade privilegiará o não votado em detrimento do votado. Mas se pergunta? Por que não se corrige? Por que não interessa aos eleitos por este sistema mudar, pois não se elegeriam com a mudança.

Outro problema que merece ser avaliado: a composição e duração do governo (o poder executivo). Um governante pode permanecer no poder até que merecer a confiança de quem lhe confiou o cargo. Isto significa que o cargo não deve ter duração fixa temporária, mas na dependência do bom desempenho. Deixou de merecer a confiança do eleitorado, seja substituído.

3.    A segurança dos dados.

Com a introdução da eletrônica nas eleições deve-se zelar pela segurança dos dados pessoais e institucionais, através das urnas. O sistema eletrônico nas eleições adotado pelo Brasil exigiu uma infinidade de atualizações. Isto pediu uma vigilância também eletrônica, isto é, no sistema como um todo com a incumbência de o próprio sistema encarregar-se de autovigiar-se. Todo um exército de especialistas foi convocado para que os dados não sejam adulterados desde os momentos iniciais até os finais.

Num sistema democrático virtual tudo estará aberto. Neste caso não somente o governo estará exposto como todo sistema governamental. Será um governo de flancos abertos cuja segurança está entregue à própria comunidade. E seus inimigos como serão controlados? O sistema será tal que deverá oferecer mais vantagens em protegê-lo do que ataca-lo. Este sistema, quando implantado, abrangerá todos os dados pessoais e institucionais. Sua proteção terá como garantia o povo informado como previu Tocqueville.

A democracia pode apenas ser vista como uma forma de governo. Esta atitude é pobre demais se comparada com a democracia como uma cultura de comunicação aberta. Isso é o que sugerem por Zac Gershberg e Sean Illing em The Paradox of Democracy. Entramos numa nova era em que a linguagem e a interação social assumem contornos absolutamente diversos das épocas anteriores. Sendo assim, a política e a democracia já não tem o mesmo sentido atualmente. Só para exemplificar, atualmente já é possível uma democracia direta de massas, coisa que no passado era apenas utopia.

Num contexto desses é fácil para qualquer político redirecionar valores para objetivos não previstos ou lícitos.

4.    A “ocasião faz o ladrão”.

A permanência por muito tempo de um funcionário num posto de distribuição de verbas leva-o à tentação de apossar-se de valores indevidos. A simples troca de funcionário evitaria isto. Por isso de tempos em tempos deverá haver uma alternância nos postos de direção, mormente os ligados a verbas. Como diria o Eça de Queiroz:

- Os políticos devem ser submetidos a eleições periódicas pela mesma razão que se devem trocar as fraldas das crianças.


sexta-feira, 23 de setembro de 2022

MULHERES NA FRONTEIRA DO PENSAMENTO CIENTÍFICO. Selvino Antonio Malfatti.

 


Senadora Rita Levi Montalcini (1909-2012) - prêmio Nobel de Medicina.

Nosso propósito é apresentar a participação feminina na ciência. Ao mirar o foco da pesquisa sobre o mundo feminino constatamos - constrangidos - que na maior parte ainda timidamente está saindo das sombras. Em que pese a pouca presença feminina na produção científica direta isto é compensado pelos sucessos alcançado quando se trata de citações e análise de obras de astrônomos, filósofos, matemáticos, físicos, químicos, biólogos, cientistas da computação, astrofísicos.

A pesquisadora Letizia Giangualano destaca que apenas 58 mulheres foram premiadas até hoje pela pesquisa científica, contra 975 medalhas recebidas. Estatisticamente somente 4%, isto equivale a 30% de todos os cientistas do mundo.

Embora os tempos tenham mudado desde que Agnodice, ginecologista e obstetra que teve que se disfarçar de homem para poder estudar medicina. E no cenário dos estudos e pesquisas femininas vislumbra-se o objeto: a ginecologia, como destaca Letizia Giangualano. No início do século XII desponta Trotula de Ruggiero. O desenrolar da fita das cientistas femininas tem uma marca indelével na história científica. Uma resenha de mulheres cientistas entre outras pode-se destacar: “O Gênio das Mulheres”, em  Brilliant Scientists from Antiquity to Today é o título do volume de Letizia Giangualano. Destacam-se:

“1. Hipátia (350-415)

Hipátia (ou Hipácia) foi uma das primeiras mulheres a conquistar seu lugar na história. Ela nasceu em Alexandria (Egito) e é considerada a primeira matemática da humanidade.

2. Elena Lucrezia Corner Piscopia, uma nobre veneziana, a primeira graduada italiana (1679), 2. A entomologista alemã Maria Sybilla Merian, a primeira cientista a documentar o ciclo de vida dos insetos. Em 1699 ela embarca em uma expedição científica à América do Sul para estudar insetos tropicais.

3. Wang Zhenyi. Ela nasceu durante a dinastia Qing, na China feudal. Nesta época, a educação formal era apenas voltada para homens ricos. Contudo, Wang Zhenyi nasceu em uma família de estudiosos, que valorizaram sua educação.

4. Maria Gaetana Agnesi publica Instituições Analíticas para o uso da juventude italiana, 5. 3. Mary Anning (1799-1847)

5. Mary Anning  (Mary Anning (1799-1847)  nasceu em uma cidade costeira da Inglaterra, chamada Lyme Regis. No século XIX, era comum que as pessoas não acreditassem na extinção das espécies de dinossauros.

7. Física e química Marie Sklodowska Curie é a primeira mulher a receber um Prêmio Nobel de Física em 1903.

7. Em 1943, a cientista da computação americana Grace Hopper participa da criação do primeiro computador digital.

8. Em 1986, Rita Levi Montalcini recebeu o Prêmio Nobel de Medicina.

9.No século XXI duas mulheres foram premiadas com o prêmio Nobel da química: Jennifer Doudna (americana) e Emmanuelle Charpentier (francesa)”.

No século XX e XXI pode-se dizer que as mulheres conquistaram sua autonomia científica realizando pesquisas em todas as ciências.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Guerra dos Farrapos – a epopeia gaúcha. Percival Puggina.

 

         No Rio Grande do Sul, logo após o 7 de setembro, festeja-se o 20 de setembro, data estadual que celebra a memória da Revolução Farroupilha.

Que fique claro, logo nas primeiras linhas: sou gaúcho porque sou brasileiro e não o contrário. Ser gaúcho é uma condição regional, do extremo sul do Brasil, nestas terras que Hélio Moro Mariante, em imagem poética, denominou “Fronteira do Vaivém” devido às andanças das linhas divisórias nas disputas entre portugueses e espanhóis. Ser brasileiro é uma condição anterior, tem raízes ibéricas; é a cultura matriz.

Da condição regional deriva um tipo humano mundialmente conhecido, pronunciado ao gosto do falante em qualquer dos dois idiomas. Esse tipo humano preserva elevada estima por sua história e tradição, que não nos fazem melhores que ninguém, exceto pelo fato exemplar de termos especial afeição por este pedaço de chão. Quem dera fosse tal sentimento compartilhado por todos os brasileiros em relação ao Brasil e ao seus respectivos estados e municípios. Estaríamos mais perto de constituir uma efetiva Federação, se assim fosse.

A essa característica, soma-se entre nós uma vocação bélica nascida, bem cedo, do desejo português de estender o extremo sul do vice-reino ao Rio da Prata, seu limite geográfico natural. Tal fato transformou a província numa praça da guerra de fronteiras, eventos a partir dos quais, no Continente do Rio Grande de São Pedro, os momentos de paz eram frequentemente interrompidos por conflitos de variadas motivações. E assim seguiríamos pela República adentro.

Em 1835, a pequena população do Rio Grande se sublevou.  O país vivia um período turbulento. D. Pedro I havia abdicado e o período regencial patinava em dificuldades políticas internas. A distante província sulina entregava sua população masculina às guerras do Império e este quase nada aplicava aqui dos tributos que arrecadava. Não havia estradas, nem pontes, nem escolas. Os gaúchos fizeram, então, o que mais sabiam: foram às armas. Era o dia 20 de setembro de 1835.

Os 10 anos ao longo dos quais se estendeu a epopeia farroupilha marcou mais fundo ainda a cultura regional. Os gaúchos de 35 perderam a guerra, mas a derrota não impediu que a data ficasse esculpida na alma do povo de modo mítico. Foram os objetivos pelos quais lutaram os farroupilhas que concederam maior grandeza à sua revolução:  autonomia que, depois, viria com a federação; a república, cujos ideais da “res publica” pareciam capazes de superar os embaraços da monarquia naquele período da história.

Nossos antepassados farroupilhas foram precursores de ideais nobres que ainda devemos perseguir, contanto que tomemos consciência de nosso lugar no tempo e no espaço. Ou seja, na história e no lugar do berço. 

Percival Puggina (77), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A atual sociedade de massas, diálogo com Flusser. José Mauricio de Carvalho

 




Muitas páginas foram escritas sobre o filósofo theco-brasileiro Vilém Flusser, outras mais sobre os temas que abordou. Assim caminha a razão humana, reavaliando o que se fez e construindo pontes para o enfrentamento dos problemas que a vida oferece e renova aproveitando-se de elementos herdados do passado.

Podemos olhar a obra de Flusser de várias perspectivas, dividindo-a, por exemplo, pelo momento histórico de sua elaboração destacando os escritos da juventude vivida na República Tcheca, mencionando aqueles da vida adulta elaborados no Brasil e, finalmente, indicando os elaborados nos dias da maturidade quando retornou à Europa fixando residência na França. Podemos também estudar o autor a partir de um conceito nuclear, como fez Rodrigo Duarte ao fazer a hermenêutica filosófica de Flusser girar entorno ao conceito de Pós-história ou então destacar a importância da dúvida na meditação filosófica como fez Gustavo Bernardo. Está bem dos dois modos, podemos dialogar com o autor por essas formas.  Prefiro, no entanto, dividir seus textos em duas partes. Inicialmente inserindo os escritos que explicam a crise de cultura que vivemos com suas causas e depois aqueles outros que descrevem a sociedade atual e a proposta de superação da crise. A primeira parte contempla o diagnóstico dos tempos de crise que vivemos e aí estão os estudos sobre a pós-história e a segunda na descrição da sociedade atual onde estão os textos sobre a sociedade telemática e seu destino.

A divisão aqui sugerida é didática porque a noção de pós-história culmina na superação da escrita em linha, da consciência histórica e sua substituição pelas imagens técnicas e os textos que descrevem a sociedade telemática inicia justo quando se processa essa substituição. Vemos surgir o mundo dos aparelhos e funcionários que utilizam as imagens técnicas, aquelas feitas pelos aparelhos (máquinas fotográficas, filmes, gravações, etc.) e usam mais recentemente as máquinas e o computador. Na prática é difícil dizer até esse texto estamos na primeira parte e agora passamos a segunda. Essa divisão tem ainda a dificuldade de incluir toda a preparação para a construção do conceito de pós-história a partir dos textos sobre a história dos tempos vividos no Brasil, como detalha Rodrigo Duarte.

A divisão proposta tem caráter hermenêutico. A noção de pós-história reconstrói, de forma criativa, a compreensão flusseriana de que o historicismo do século XIX estava superado e isso é interessante, mas não era novidade. Ortega y Gasset, por exemplo, explicara porque as ideias de Hegel e Marx já não serviam para tratar o mundo que ele vivia, embora tivessem sido essenciais para entender o século XIX. Flusser segue Ortega e os outros fenomenólogos como Edmund Husserl que recusaram um historicismo que progride em linha em direção a um futuro grandioso e inexorável e recusaram as ideias econômicas de Marx e Engels. Essa constatação é importante porque qualquer intelectual de nossos dias sabe que defender o humanismo ou uma sociedade mais fraterna não significa retornar ao marxismo ou ao socialismo marxista muito menos repetir historicismo do passado como o de Giambattista Vico, Joaquim de Fiori ou outro historicista como Johann Gottlieb Fichte e Friedrich Wilhelm Joseph Schelling. No entanto, a recusa dos historicismos passados não representa para os fenomenólogos uma recusa da consciência histórica ou possibilidade de pensar a história em fases como fez Karl Jaspers, pois sem a consciência histórica não há identidade possível às pessoas ou povos. Esse é um equívoco daqueles que desprezam os estudos históricos. Além do mais, perde-se um recurso extraordinário de recuperar no passado elementos para construir pontes para o futuro. Nisso está o problema dessa parte de suas ideias.

E o que faz Flusser recusar o pensamento histórico? Foi a sua experiência com os nazistas e a perseguição aos judeus durante a Segunda Guerra. Flusser avaliou que os instrumentos de destruição utilizados pelos nazistas estavam implícitos na objetivação da pessoa inserida no projeto historicista judaico-cristão que forma a espinha dorsal do ocidente. E então recusou o instrumento de destruição de sua família, voltando-se contra o ocidente e sua alma judaico-cristã, sua fé transcendente e os valores culturais. Ao recusar o historicismo da cultura ocidental que culminava na transformação do homem em coisa ou funcionário. Portanto, o homem massa ou funcionário não era um desvio de rota, mas algo da essência da cultura ocidental. Recusando a fé religiosa, a espiritualidade humana mesmo no sentido fenomenológico, Flusser construiu uma antropologia materialista de inspiração psicanalítica, seguindo outro judeu Sigmund Freud. O criador da psicanálise, à parte de sua enorme contribuição para entender a alma (psique) humana, de forma diferente de Flusser fez o mesmo que ele, atribuiu à fé e cultura judaica a razão da perseguição que aquele povo sofria. Flusser radicalizou a recusa do judaísmo e cristianismo recusando a cultura ocidental e desejando matá-la para colocar outra coisa no lugar. Nesse sentido a sociedade que via nascendo, a sociedade telemática ou de massas era o ponto de chegada do ocidente. Auschwitz fora um momento desse processo.

Quanto à descrição da sociedade atual, caracterizada pela sociedade telemática, podemos dizer que significa uma atualização bem elaborada da sociedade de massas de Ortega y Gasset. Flusser argutamente observou os aspectos de uma sociedade de massas que vive não mais num capitalismo industrial. Também que o homem massa não era apenas infantil, birrento e bárbaro como dizia Ortega, mas dominado pela linguagem da tecnologia, abandonou a consciência crítica, histórica, oportunizando a emergência de governos ditatoriais, figuras toscas e desumanas como o nazista Adolf Hitler e suas novas versões contemporâneas. Visão genial de por onde andamos nesses dias de reavivamento da extrema-direita e seu desprezo pelo humanismo, pelos estudos históricos e pela racionalidade, inclusive a científica. Para Flusser, existe, nessa sociedade telemática, uns poucos responsáveis pela programação dos aparelhos no centro da vida humana e seriam eles os responsáveis por vencer a mecanização do mundo, oportunizando o surgimento de uma sociedade de homens que se divertem entre as tarefas que executam. Esse homem lúdico que vive se divertindo é o seu modelo de homem que enxerga para essa sociedade em crise. No entanto, nem a vida é brincadeira, embora brincar seja parte da vida, nem nosso futuro pode depender de programadores que cortaram os laços com a consciência crítica, o humanismo e a consciência histórica. Isso porque, se a sociedade telemática de Flusser realmente se implantar, nela não haverá espaço para contatos que desfaçam a lógica do controle realizado pelos aparelhos.

Essa forma de examinar o pensamento de Flusser permite notar suas boas contribuições, tanto na superação do historicismo do século XIX, quanto na compreensão da crise vinda da atual sociedade de massas guiada por aparelhos, com funcionários vivendo entre aplicativos e outras criações da informática. Porém esse método mostra os limites do pensamento de Flusser perdido na recusa do humanismo, da consciência histórica, dos valores judaico-cristãos, da Filosofia e da fé em Deus, qualquer que seja sua forma de compreensão. Flusser perdeu-se ao se afastar de sua raiz ocidental e judaica.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

LIBERDADE ECONÔMICA E LIBERDADE POLÍTICA. Selvino Antonio Malfatti

 

                                                  Vale do Silício

 

PROBLEMÁTICA

As novas modificações no mundo cultural atual, produzidas pela internet, parecem que afetam somente os negócios, abrangendo com isso somente o mundo econômico considerado de forma global indústria, comércio e finanças.

Qualquer um de nós transfere seu pensamento para o Vale do Silício, Silicon Walley, pois é lá que se concentram as empresas expoentes da informática. E são estas empresas que levam adiante o novo modelo de economia com respingos inevitáveis na política.

Comportamo-nos como crianças que se extasiam diante das aparentes magias dos titãs da informática. A questão é que não são mágicas, mas ações reais que nos afetam no dia a dia no nosso pensar, agir e sentir. O perigo eminente é de nos darmos conta quando já fomos devorados. Não está escrita a ameaça, mas ela dança diante dos olhos: decifra-me ou te devoro.

POLÍTICA

A democracia pode apenas ser vista como uma forma de governo. Esta atitude é pobre demais se comparada com  a democracia como uma cultura de comunicação aberta. Isso é o que sugerem  por Zac Gershberg e Sean Illing em The Paradox of Democracy.. Entramos numa nova era em que a linguagem e a interação social assumem contornos absolutamente diversos das épocas anteriores. Sendo assim, a política e a democracia já não tem o mesmo sentido atualmente. Só para exemplificar atualmente já é possível uma democracia direta de massas, coisa que no passado era apenas utopia.

DEMOCRACIA ATUAL

O político e economista italiano Giuliano Amato conseguiu com êxito fazer uma associação entre um sistema econômico de livre concorrência com sistema político democrático. Isto foi possível na prática, pois Amato foi Primeiro Ministro italiano. Advertiu que a concentração econômica causa problemas não só na economia, mas também no convívio sócio político. Se isto ocorreu na Década de Noventa na Itália, com mais razão o problema se apresenta atualmente. Naquela época talvez fosse só um alarme, embora perigoso, imaginemos atualmente os poderosos da web o que fazem com a divulgação de dados, informações e opiniões. É um poder que abrange a capacidade de influenciar (capturar) legisladores e autoridades de supervisão. O poder da web sobre a posse, controle e difusão dos dados atinge não somente a esfera global da economia, mas o impacto sobre os indivíduos subjugando-os aos objetivos econômicos. Imaginemos estes dados disponíveis para a inteligência artificial ou algoritmos.!

REALIDADE E VIRTUALIDADE

Chegamos ao limiar entre o mundo real e o mundo virtual ou liquido como se expressa Baumann. Observemos Um trabalhador em banco como Home office.  Ele vive duas realidades: a fenomenológica física e a líquida ou virtual. Na verdade as duas são reais e não são e cada uma com suas qualidades. Se pelo banco é enviado um montante para outro banco sensorialmente nenhuma das realidades pode ser comprovada. A famosa definição de Aristóteles de que nada está no intelecto que primeiro não tenha passado nos sentidos, caducou. Nada passou pelos sentidos e, no entanto, Alguém passou um Montante de um Local para outro, sem auxílio dos sentidos.

Naquele momento a realidade física dos dois bancos não tem existência. Nem o dinheiro da operação existe e nem o banco receptor. Só existem no mundo criado na virtualidade. Não existe também o dinheiro a ser enviado e não existe também o banco que recebe. Tudo não passa de operações virtuais entre UM PROGRAMADOR, UM MONTANTE e um RECEPTOR. O operador está confortável num sofá, capturando um dinheiro de uma entidade virtual e transferindo-o para outra conta virtual. A realidade física é uma quimera.

NOVA ATIVIDADE VIRTUAL.

Um programador, em home office, com cargo de iOS. O que faz? Sua especialidade são os aplicativos, disponíveis na Apple. E isto não é nada pouco, pois atualmente a área de tecnologia está praticamente toda em home office. E o que fazem estes profissionais? Desenvolvem software, ou um produto que é entregue de forma digital. Para isso as empresas criaram uma equipe de funcionários, sem endereço físico e sem empresa. Os funcionários atuam conforme a necessidade da empresa focando nos resultados. Como foram avaliados em termos de salários. Isso dependeu do valor da moeda de cada país. Por exemplo, um programador nos EUA vale 8.000 dólares. Num país de moeda fraca o mesmo programador vale no máximo 3.000 dólares. Está acontecendo uma globalização do valor do profissional programador, só que para baixo. O pagamento passou a ser feito por Pessoa Jurídica. A novidade: saem bits em dólares e chegam bits em reais, repatriando o dinheiro.

REALIDADE E VIRTUALIDADE

Chegamos ao limiar entre o mundo real e o mundo virtual ou liquido como se expressa Baumann. Um trabalhador em banco como Home office.  Ele vive duas realidades: a fenomenológica física e a líquida ou virtual. Na verdade as duas são reais e não são e cada uma com suas qualidades. Se pelo banco é enviado um montante para outro banco sensorialmente nenhuma das realidades pode ser comprovada. A famosa definição de Aristóteles de que nada está no intelecto que primeiro não tenha passado nos sentidos, caducou. Nada passou pelos sentidos e, no entanto, Alguém passou um Montante de um Local para outro, sem auxílio dos sentidos.

Naquele momento a realidade física dos dois bancos não tem existência. Nem o dinheiro da operação existe e nem o banco receptor. Só existem no mundo criado na virtualidade. Não existe também o dinheiro a ser enviado e não existe também o banco que recebe. Tudo não passa de operações virtuais entre UM PROGRAMADOR (que já fez seu trabalho), UM MONTANTE e um RECEPTOR. O operador está confortável num sofá, capturando um dinheiro de uma entidade virtual e transferindo-o para outra realidade virtual. A realidade física é uma quimera. O próprio objetivo principal, o sistema bancário, sofreu uma derrota na sua privacidade individualidade. As fronteiras até então consideradas e inexpugnáveis deixaram cair os baluartes: o Programa  PIX derrubou a impenetrabilidade do sistema bancário e o deixou exposto.


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