sexta-feira, 22 de outubro de 2021

DEZ ANOS SEM STEVE JOB E MUNDO VIRTUAL. Selvino Antonio Malfatti.

 





Fazem dez anos que o empresário norte-americano Steve Jobs (1955-2011)  criou a Apple e com ela "Macintosh", o "iPod", o "iPhone" e o "iPad". Foi um empreendedor e inovador na área de informática. A Apple teve sua maior importância no surgimento de computadores pessoais, filmes, música e telefones celulares.

A bibliografia mais significativa é de Walter Isaacson, intitulada Steve Jobs.

Na lenda de Górdio dar-se-ia o trono da Ásia a quem desatasse o nó Górdio. Nenhum pretendente conseguia o feito, até que Alexandre, o Grande, desembainhou a espada e cortou o nó. Alexandre desrespeitou as regras, pois o nó devia ser desatado e não cortado. Mesmo assim Alexandre tornou-se o soberano da Ásia.

Com Jobs aconteceu o mesmo cortando o nó Górdio da tecnologia. O que todos julgavam impossível, ele, serenamente, sem agredir ninguém, rompeu a barreira do som e tornou-se o rei, fundando a Apple. Existem outros cofundadores como Steve Wozniak e Ronald Wayne entre outros. A Apple tornou-se a líder mundial de projetos e comércio de insumos eletrônicos.

Jobs socialmente foi um sujeito difícil. Era conhecido como “quebra regras”, como ocupar estacionamento para deficientes. No entanto, intelectualmente e empresarialmente era um gênio. Sua biografia é fonte e serve de inspiração a todos os que a leem e releem.

Qual o conteúdo desta biografia de vida? O que esconde atrás das letras frias e ao mesmo tempo palpitantes?

Jobs inverteu a lei de marketing. : "Você não pode apenas perguntar aos consumidores o que eles querem, e aí tentar dar isso a eles. Quando você tiver construído isso, eles vão querer algo novo".  Daí que, em vez de ofertar o que o mercado procura, oferta para o mercado procurar. É o que acontece atualmente: o mercado oferta e os consumidores consomem. Pode-se citar como exemplos os iPod, iPhone e iPad. Antes eram grandes, pesados e complicados. No lançamento não se esqueceu de dourar a pílula. Ele os transformou em pequenos, leves e fáceis e atraentes. Era o “campo de distorção da realidade”. O sucesso foi grande.

Job descobriu como os consumidores identificavam aspectos físicos – roupas – com os produtos. Vestia uma malha preta da marca St. Croix de gola alta, um jeans 501 da Levi's, e tênis 991 da New Balance. Isso nos lembra o dono da Havam, Luciano Hang:  terno verde-bandeira.

Na Índia tomou contato com a filosofia hindu, inclusive frequentou ashram, tipo de monastério e adotou o budismo por toda vida.

Para Job tudo é possível desde que “seja a pessoa certa, na hora certa e no lugar certo.”

A vida de Job parece ser um prefácio da esperança de saber tudo online. Tudo o que queremos saber, em segundos, temos a resposta no Google. As bibliotecas, os museus, os centros de documentação tudo pode caber num verbete do Google. As invenções de Job propiciaram uma revolução cultural sem precedentes, mas perigosamente alicerçada sobre as nuvens. Qualquer descuido, mudança de programa, clicagem em tecla errada, tudo pode desaparecer. Este mundo atual todo líquido, sem vértebra, nem consistência teve início com a Criação da Apple, “uma reencarnação da criatura.”

E o pior está por vir: o mundo online ficará reservado para uma mínima minoria. Os demais serão dependentes. Será a inimaginável tirania da minoria na informação. Os demais serão prisioneiros quando precisarem de alimentação, saúde e viver. Ingressamos no mundo virtual de smartphones, sites, programas, aplicativos e senhas. Um inferno dantesco do mundo digital.

Sem desespero. A Humanidade sempre encontra um meio para sair do fundo do poço.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Vilém Flusser, dificuldades contemporâneas e fake news. José Mauricio de Carvalho

 


Entender o homem contemporâneo, seus desafios e sua forma de vida é um assunto que desperta curiosidade. Todas as pessoas chegam a esse tema intuitivamente, mas para cá nos trouxeram os grandes intelectuais da atualidade desde que Emmanuel Kant estabeleceu os limites da interpretação metafísica do mundo, isto é, aquela que vinha sendo utilizada desde os antigos gregos e Martin Heidegger em Ser e Tempo apertou os contornos da razão transcendental inaugurada por Kant (STEIN, A caminho de uma fundamentação pós-metafísica, 1997, p. 105): “Postos esses limites (da razão), não se pode mais responder a nenhuma dessas questões a que correspondem as três perguntas nas obras de Kant: a) que posso saber – Crítica da Razão Pura; b) que devo fazer? – Crítica da Razão Prática; e c) que me é dado esperar? Kant colocou que a metafísica resolveria esses problemas se conseguisse responder a pergunta que é o homem?”

Então, na tentativa de encontrar resposta para: o que posso saber do mundo e como confiar nesses conhecimentos, como devo agir e o que posso esperar com minha vida e escolhas, os escritores, filósofos e cientistas tentaram explicar quem é o homem.

Desse debate participou o filósofo tcheco que viveu grande parte da vida no Brasil. Para ele, o homem de hoje é um funcionário ou programador. O ponto de partida de sua análise foi a crise contemporânea da cultura. Como quase todos os intelectuais contemporâneos ele entendeu que vivemos numa sociedade em crise. Essa crise se mostra num vazio que lembra os dias do barroco, quando (FLUSSER, 1983, p. 9): “a vacuidade que ressoava nos seus passos (do homem barroco) era a do vazio debaixo do palco.” Hoje em dia, entretanto, o vazio social é diferente, não mais pode ser comparado ao do vazio do palco. Debaixo de nossos pés há outro vazio que o do tablado do teatro. Para Flusser, o homem contemporâneo age como um criminoso que quer apagar um crime. O maior de todos os crimes recentes foi cometido no campo de Auschwitz. O campo de concentração é mais que um fenômeno isolado, é um produto característico de nossa cultura (id., p. 11): “o inaudito em Auschwitz não é o assassinato em massa, não é o crime. É a reificação derradeira de pessoas em objetos uniformes, em cinza.” A razão é que, por traz do campo de extermínio, a contemporaneidade colocou para funcionar um aparelho capaz de transformar cada homem ou mulher num objeto, retirando dele sua singular humanidade. Em outras palavras, é a transformação das pessoas em objeto, um fenômeno social que se repete atualmente.

Assim sendo, resta o desafio de superar o caminho torto da objetivação das pessoas que aparece em outras organizações sociais contemporâneas que atuam como caixas-pretas. Essas organizações funcionam segundo uma programação que des-humanizam e que, a partir de certo momento, escapam (id., p. 14): “ao controle dos seus programadores iniciais.” A crise surge porque (id., p. 15): “perdemos a fé na nossa cultura, no chão que pisamos; isto é, perdemos a fé em nós mesmos.” E o homem contemporâneo tornou-se um funcionário das organizações contemporâneas. Isso nos leva ao tema da responsabilidade com o próprio destino e o de todos, que parece longe do horizonte existencial do homem de hoje. Para Flusser, isso se dá porque a irresponsabilidade é o que surge numa realidade que transforma tudo em coisa.

O essencial dessas considerações é a urgência do uso cuidadoso da razão, porque somente seu cultivo crítico e a procura honesta da verdade são capazes de superar a conversa fiada que marca os diálogos contemporâneos. Creio que pode acrescentar ao que foi dito as Fake News, que é ordinariamente a transformação da mentira em arma política e de encobrimento ideológico e que funciona como uma nova forma de programa oferecido a funcionários que a põem a circular.


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

PROCURAVA AS ÌNDIAS, DESCOBRIU A AMÉRICA. Selvino Antonio Malfatti.


O Desembarque de Cristóvão Colombo, por Dióscoro Puebla  (1831-1901)
                                        Museu do Prado, Madrid.
  


O dia 12 de outubro está próximo. É o fato histórico do Descobrimento da América, ocorrido em 12 de Outubro de 1492, pelo calendário gregoriano da era cristã. O navegador italiano Cristóvão Colombo, na ocasião a serviço da Espanha, chegou às Bahamas, pensando que havia chegado às Índias.

O Descobrimento da América insere-se no contexto do fim da Idade Média. Neste período, Idade Média, o critério da ciência era a Bíblia. Galileu derrubou mostrando experimentalmente o inverso. O cristianismo, religião monolítica na Europa, esface-se em dezenas de religiões após a Reforma. A produção intelectual, dominada pela Igreja, com o protestante Gutenberg deixou de ser ao desobrir a imprensa e imprimir uma Vulgata da Bíblia. A nova capital do cristianismo, Constantinopla, caiu nas mãos dos turcos em 1453. O heliocentrismo impôs-se sobre o geocentrismo. A terra como uma imensa planície plana, perdeu a credibilidade e vingou a esfericidade da terra. E é sobre esta tese que acontece o Descobrimento da América. Colombo levantou a hipótese de que, se terra fosse redonda, viajando do ocidente para o oriente se chegaria lá, concretamente, da Europa às Índias. Em 12 de outubro de 1492, com três caravelas lança-se mar em direção, pensava ele, às índias. Quando avistou terra estava convicto que chegara ao seu destino. Mas não era as Índias, mas a América.

Este feito de Colombo abriu caminho para exploração das terras americanas: do centro (América central), norte (Estados Unidos e Canadá) e sul (América do sul). Á época as conquistas de Colombo foram vistas como a expansão da fé, tanto por Espanha como por Portugal.

No entanto, atualmente surgem outras visões provocando contestações ao modo como Colombo agia: genocídio de nativos, perseguição, tortura e morte de mulheres e crianças e repressão cultural dos nativos principalmente no que se refere à religião.

Por isso movimentos contestatórios surgiram em vários pontos do planeta demonstrando repúdio à forma de agir do descobridor. Isto se externa na demolição das estátuas de Colombo. Merece destaque a derrubada da estátua de Colombo na Barranquilla, na Colômbia. O monumento político militar no Chile, embora retirado para restauração, provavelmente nunca voltará ao local. Na Argentina no governo de Cristina Kirchner foi determinado que a estátua fosse retirada do pátio da Casa Rosada. Em Boston foi decapitada a estátua. Nos Estados Unidos o “Dia de Colombo” foi substituído por Dia de Homenagem aos povos Indígenas. Outras manifestações surgiram nas mais vaiadas partes do mundo.

Um dos estudiosos das atitudes e das atrocidades de Colombo, narradas por Bartolomeu de las Casas (ex-membro da escolta de Colombo e depois monge), cita algumas:

- com golpe de espada separar partes dos corpos dos indígenas.

- jogar crianças para trás para ver quem atirava mais longe.

- atirar crianças para alimentar cães famintos.

- relações sexuais com meninas de 9 e 10 anos.

- escravidão de índios, mulheres e crianças.

- queima vivos dos escravos fujões. (A Conquista da América. Trechos de Bartolomé de las Casas)

Um balanço a cima das ideologias apontam erros e acertos de Colombo, sempre dentro do contexto da época..

1º Colombo, com três caravelas, lançou-se ao mar para chegar às Índias. Descobriu um continente, tomou posse e iniciou a colonização. É a América.

2º Cumpriu ordens dos reis da Espanha e iniciou a colonização.

3º Por conta própria escravizou, torturou e matou nativos em massa.

4º Chegou ser preso pelo governador, mas foi solto por ordens dos reis.

O historiador Franco Cardini no livro “A Desoberta da América”, frisa que para nós atualmente não é mais tão importante o ouro levado para a Espanha, mas:

“Se hoje provamos o chocolate feito com cacau, temperamos a massa com tomate, acompanhamos batata frita, fazemos polenta com milho, é também porque Colombo teve um sonho e conseguiu realizá-lo”:  a AMÉRICA.

 

 


sexta-feira, 1 de outubro de 2021

UNIVERSIDADE DE PENSAMENTO CRÍTICO E LIVRE? Selvino Antonio Malfatti.

 


             Reitor -Franco Anelli - Corriere


A Universidade Católica do Sagrado Coração, de Milão, completará em dezembro próximo cem anos. Emersa de um grupo de intelectuais liderados pelo Padre Agostino Gemelli, em 1921, com o objetivo de trazer de volta ao país o debate cultural, leia-e humanista. Atualmente atinge uma dimensão de cinco localidades, quase quarenta mil alunos e doze faculdades.

Para o reitor Franco Anelli o novo objetivo após os cem anos é “formar alunos capazes de elaborar um pensamento crítico e, portanto, livre”. E mais: “criatividade, pensamento critico. Para a universidade, o futuro é agora”.

Grandes líderes políticos frequentaram a universidade católica. Ainda se continuam presentes como o presidente da República Sergio Mattarella que nesta data inaugura o presente ano letivo. Dentre as pessoas de destaque podem ser citadas: Romano Prodi, Lorenzo Ornaghi, Amintore Fanfani, Ciriaco de Mita entre outros.

É a maior universidade privada da Europa e do mundo em número de inscritos. Pelo sistema internacional de classificação foi-lhe concedido cinco estrelas em: empregabilidade, ensino, instalações e engajamento.

Três pensamentos constituem o “Leitmotiv” da universidade projetada para o futuro conforme Franco Anelli: crítica, criatividade e liberdade. Pela crítica pretende-se chegar à ordem superior, originária à própria etimologia da palavra: separar e distinguir. No momento que se tiver diante de si o pensamento claro, será possível ser criativo e eleger as alternativas que se considerarem melhores e com isso ser livre.

O próximo passo, para enfrentar o futuro, será introduzir a diversidade diferenciando-se do passado. Aos docentes será possibilitado o acesso de ferramentas tecnológicas, mantendo o cuidado de não se preocupar como usar as ferramentas, mas usá-las no serviço da inovação e construir cursos de formas diferenciadas.

Outra mudança que deverá advir é a respeito dos conteúdos, isto é, o quê ensinar. Para tanto é preciso introduzir uma nova interpretação da realidade. O século XX já é passado, agora temos uma sociedade fundada no digital, novos objetos de troca, processos novos de tomadas de decisões e consensos, inclusive novo acesso aos cargos políticos. Novas realidades devem ser compreendidas e para tanto novas habilidades serão construídas. Devemos lançar o desafio da perspicácia para perceber o que ofertar para a nova realidade. Entender o que está por vir e ofertar habilidades para poder geri-las. Em outras palavras: é preciso antecipar-se ao futuro.

Para o reitor da universidade, estar atualizado hoje significa ser capaz de pensar, ser original e criativo. Não basta encher a cabeça das pessoas de noções, mas que saibam processá-las. Para tanto é preciso desenvolver a independência de pensamento, o dom da crítica e uma vocação de originalidade.

No momento atual temos uma crise de competências. O trabalho de vários profissionais está sendo posto em cheque como de médicos ou de professores. Mas para reconhecer as habilidades dos outros é preciso ter suas próprias. Para enfrentar as dificuldades que se apresentam são necessárias habilidades. E isto se consegue através da educação que transmita informação, noções, mas, sobretudo ferramentas para que a própria pessoa possa descobrir os meios para desenvolver a criatividade, sem se descuidar de submeter crítica. (Franco Anelli: «Creatività, pensiero critico. Per l’università il futuro è ora, di ANNACHIARA SACCHI – Corriere dela Sera).

As sugestões do Reitor nos apontam algumas direções para o ensino do futuro da universidade católica:

- o uso de tecnologias digitais.

- a adoção de novas metodologias

- novos enfoques nas relações humanas incorporando a diversidade.

- uso de dados coletados

- trabalho com projetos

- ensino híbrido (blended learning) ou, on-off

- Complementariedade entre ensino presencial e à distância

- Gestão administrativa do ensino

Pessoalmente penso que é um ensino essencialmente tecnicista e mecanicista: onde está o lugar do humano objetivo primeiro da universidade? (só a maquina ensina e avalia). O que acontece na avaliação? Uma máquina alimentada por um programador mecânico exige de um humano respostas elaboradas por um programador. 

Tal proposta não rompe com a tradição humanista de uma universidade católica?

Terá abandonado ao adversário o baluarte do humanismo rendendo-se ao tecnicismo?

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Como está a volta às aulas? Selvino Antonio Malfatti.

 


                                                    Volta às Aulas

Chegou de sopetão. De início mostrava-se inofensivo o Leviatã. De repente acionou a ceifadeira e ia botando no chão tudo o que encontrasse. Todo mundo perdido. Alguns diziam que não era nada. Seria fácil, fácil de debelar. No entanto, avançava semprer mais mortífera a fera monstruosa. Primeiramente atingia os idosos, depois os mais jovens com comorbidades, em seguida os adultos. Alastravam-se mortes por toda parte. Tentaram-se todas as estratégias, inclusive suspender as aulas presenciais. Todos passaram para o ensino remoto. 

Enquanto isso os pesquisadores trabalhavam dia e noite para conseguir a vacina. Depois de um ano, finalmente foi descoberta e a fera mortífera estava enjaulada. As medidas foram afrouxando até que decidiram permitir a volta às aulas dos estudantes.

Após um ano e meio de pavor, será que são as mesmas pessoas que voltam às salas de aula depois da pandemia? Umas tiveram que abandonar às pressas as aulas, pois o vírus estava avançando avassalador como uma larva de vulcão. Muitos voltam mais pobres por que os pais perderam o emprego, outros a casa, outros algum bem lucrativo para família. Pior, há quem volte sozinho por ter perdido um ente querido. Neste caso a volta vem acompanhada com a morte na alma. Embora não tenha sentido a dor da morte pessoalmente pressentiu sua presença rondando por perto. O medo apontou no horizonte. Alguns saltaram de crianças para adultos. O mal atingiu a todos não só pelo perigo, mas por não saber como enfrentar o perigo. Os que estavam em dificuldades econômicas, culturalmente pobres, socialmente marginais, idosos doentes. Estes caíram como folhas secas. Mas há também ricos, saudáveis, bem sucedidos, jovens vigorosos que igualmente caíram. Em síntese: caíram todos: de todas as classes, saudáveis e não saudáveis, jovens e idosos. A pandemia não foi seletiva, ao contrário, atingiu a todos.

Em que pese a vacina ter encurralado a fera a sensação de insegurança persiste e por isso o medo acompanha sempre todo mundo, até mesmo os jovens que parecem não se importar na sua algazarra.

Por isso ninguém voltará mais como era antes. Todos, de uma maneira ou outra, foram atingidos. Aquele mundo seguro, promissor e ao mesmo tempo frágil desmoronou. O antes não existe mais e o agora ainda não surgiu. Estamos soltos entre o passado que desapareceu e o presente que ainda não foi criado.

É verdade que ficamos felizes por voltar às aulas, mas onde está fulano? E este que está aí não é um perigo para mim? Ele pode me contaminar e me matar. Será então meu amigo? Colega de infortúnio? Como posso ser amigo de alguém quando o vejo dentro de mim como potencial inimigo?  O que devo fazer? Devo manter distância (a propaganda com precaução insiste nisso). A distância que devo manter dos demais se converte em o outro manter distância de mim. Onde? Na recreação, sala de aula, casas. Ficar longe, de quem, quanto? Até quando? A ordem: 

- Não toque, não se aproxime!

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

"Paz entre o Brasil e os republicanos" . Selvino Antonio Malfatti

 

 
Aquela parte do Rio Grande que se estende ao longo da fronteira, no Pampa, teve uma formação diferente do resto do Brasil. Ao mesmo tempo em que o rio-grandense marcava as fronteiras com os castelhanos, recebia deles fundamental influência. Era uma permuta de uma via de duas mãos. Os estancieiros eram, ao mesmo tempo, povoadores de terras e soldados. Rechaçavam qualquer tipo de tentativa de invasão, ao mesmo tempo formavam com eles uma irmandade.
Formou-se um linguajar próprio, quase uma língua, popularmente denominado ”portunhol”, que é uma síntese do português com o espanhol.  Constituem-se com sotaque diferente, palavras mescladas, palavras próprias. Quanto mais se aproxima da fronteira com uruguaios e argentinos, mais aumenta as idiossincrasias entre gaúchos de lá e de cá.
Quem percorre o Rio Grande ficará admirado pela quantidade de tradições que o fundamentam. O Tradicionalismo perpassa o modo de ser próprio do habitante do rio grande. Pode-se-se dizer que o relicário do tradicionalismo gaúcho é o Centro de Tradições gaúchas - CTG. 
O gaúcho possui danças próprias, vestimenta própria, utensílios próprios, maneira própria de fazer. O tratamento é pelo pronome “Tu” e não “você” como no resto do Brasil.
Gosta de se apresentar de peito aberto, isto é, sincero. Dificilmente usa palavrões. Trata a mulher com muito respeito, chamando pelo termo carinhoso de “prenda”. Perante a mulher o gaúcho se considera “peão”.
O gaúcho ama seu solo, o chama de rincão, e, como o quero-quero, está sempre pronto a defendê-lo. 
Não é briguento, mas “não leva desaforo” para casa. Em parte se pode dizer que é fanfarrão, mas só a primeira vista. Por tudo isto, comemora com prazer e espontaneamente o Dia 20 de Setembro.
Em cada recanto do solo riograndense há um CTG. Neles, desde a mais tenra idade, os participantes, meninos e meninas, aprendem os valores: a honradez, o respeito, a sinceridade, a solidariedade. A família, a religião e propriedade alheia são considerados sagrados. Dificilmente um membro de CTG se desorienta do caminho cívico.  O CTG é uma instituição tão calcada nos princípios da cidadania que outros estados estão adotando com entusiasmo como Santa Catarina e Paraná. Há perspectiva de Mato Grosso também adotar.
Por isso, entre os estudiosos da cultura rio-grandense, como Simon Schwartzman,  acham que não era só a questão político-econômica que fez o Rio Grande rebelar-se contra o resto do país na Revolução Farroupilha. Havia um sedimento cultural que amalgamava uma identidade própria.
Neste dia, 20 de Setembro, os gaúchos celebram A Revolução Farroupilha, fato este ocorrido de 1835 a 1845, no atual estado brasileiro do Rio Grande do Sul.
Logo após a independência do Brasil – século XIX – tem início uma série de Revoluções cada uma delas reivindicando algo específico que vai desde maior autonomia até a independência. Neste contexto surge a Confederação do Equador, a Cabanagem, Sabinada, Balaiada e a Revolução Farroupilha.
Esta só em parte é semelhantes às demais revoluções da época, pois os Farrapos tinham um ideal claro a ser atingido. É conhecida mundialmente, como atesta o escritor italiano Umberto Eco que lhe dedica várias páginas no livro O Cemitério de Praga, inclusive convolvendo heróis italianos e rio-grandenses, e narrando façanhas de Guerra dos Farroupilhas.
A Revolução Farroupilha se destaca das demais pela sua peculiaridade. Os farroupilhas tinham um Estado organizado com:

- uma constituição
- uma assembleia e um presidente eleitos
- uma capital
- símbolos estatais
- embaixadores para manter relações diplomáticas
Esta república manteve-se independente por 10 anos voltando ao seu antigo Estado brasileiro através de um convite pacífico do Duque de Caxias.

Que o conflito físico ou material entre a Província e o Império estava encerrado pode-se ver na participação do Imperador na Guerra do Paraguai em Uruguaiana. D. Pedro II, como um voluntário, parte para o front da guerra: Uruguaiana, justamente no ponto em que a Pátria fora violada. No Rio Grande do Sul mostra que não é um estranho: calça botas,  veste pala e usa chapéu de couro e participa ativamente da guerra. Neste momento qualquer veleidade separatista tornou-se página virada. (MALFATTI, S.A. Raízes do Liberalismo Brasileiro. Porto Alegre, Pallotti, 1985, p. 132)

Por tudo isso, o gaúcho é brasileiro por opção e por convicção.

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

CONDIÇÕES DA EXISTÊNCIA DA DEMOCRACIA. Selvinio Antonio Malfatti.

 


                                     G. SARTORI


Tendo em vista os últimos acontecimentos políticos no Brasil, mormente o que aconteceu no dia 7 de setembro - Desfile da Independência e Fala do Presidente - trazemos o pensamento de Giovanni Sartori, um dos maiores politólogos da atualidade. 

Parece que foi Alexis Tocqueville quem matou a charada: por que a democracia funciona na América e não funciona na França, embora ambas tenham as mesmas instituições? Tocqueville responde por que a primeira tem alma e a segunda é apenas corpo. É aquilo que Montesquieu denominou  “o espírito das leis”. Pode-se lançar mão da alegoria do corpo. Pode haver corpo belo, uma verdadeira obra de arte, como o Moisés de Miguel Ângelo, mas sem alma. Por mais que seu autor grite “fale”, ele permanecerá mudo. No entanto, qualquer ser animado, produzido pela natureza, sem ser obra de arte ultrapassa todas as comparações. O “corpo” de Miguel por mais belo que seja, falta-lhe a alma: o da natureza, ao invés, espontaneamente “fala”. A diferença é que o corpo de Miguel não tem alma, embora tenha tudo. O da natureza embora lhe falte tudo, tem a alma.

A democracia como corpo político tem vida na moral que perpassa suas instituições. As sociedades democráticas de arranjo arquitetônico institucional é apenas o corpo social, sem alma. Uma sociedade sem alma é um corpo sem vida. Embora possam ocorrer problemas em qualquer sociedade a que tem alma encontra solução e a outra não. Tomemos um exemplo: discriminação social. Numa sociedade democrática um dos princípios fundamentais é a igualdade de todos. Quando ocorrer alguma discriminação nas sociedades que a democracia tem alma, a própria sociedade que exige reparação. Na outra, a reparação é remetida à justiça a qual aplica a burocracia que nunca soluciona o problema. A democracia puramente institucional tem alma burocrática, é um corpo sem vida. Nela facilmente prolifera a colonização política, a corrupção, colapso dos partidos políticos.

Uma moral social cimenta a organização social e política alicerça os princípios da universalização da justiça, da reciprocidade de direitos e deveres, da solidariedade espontânea. Nestas sociedades a democracia é um valor moral que embasa o discurso ético-democrático. Numa sociedade moralmente democrática há uma união substancial entre o corpo –arcabouço externo – e a alma – princípio vital. É um só ser, unidos consubstancialmente. A democracia é a união substancial entre o corpo social com sua alma moral.

A pergunta que se faz: pode um corpo social adotar uma moral ou uma moral  encarnar num corpo? Isto responde à questão: pode qualquer sociedade ser democrática? Em outras palavras: todas as sociedades são aptas à democracia? As naturalmente democráticas e as artificialmente democráticas?

Neste ponto vem ao caso a pergunta de Giovanni Sartori: "a democracia é exportável? Eu respondo: surpreendentemente, sim; mas não em todos os lugares e nem sempre.”

A democracia pode admitir dois tipos de morais: a natural e a adquirida. A primeira é uma moral inata no meio social. As novas gerações vão assimilando sem se aperceberem os costumes, as leis, as práticas de seu meio. É aquilo que Tocqueville denomina espírito da sociedade e Giovanni Sartori “empoderador” da democracia. O primeiro apresentou como modelo a sociedade americana a qual, desde a mais tenra idade as novas gerações assimilam, como o respeito pela maioria, a aprendizagem do voto, a igualdade de direitos, as eleições, os poderes o papel do judiciário.

A segunda moral, a adquirida, basicamente e genericamente pode ser assimilada pela educação. Não se refere tão somente aquela formal, mas todas as práticas diárias que introduzem as práticas morais democráticas como as citadas por Tocqueville. Para tanto, toda sociedade de estar disposta a adquirir esta nova moral.

Vários exemplos podem ser mencionados de povos. Neste caso o princípio geral é o seguinte: quando a moral da religião do povo não for contrária à moral da democracia não há maiores problemas em aceitar a democracia. Os canadenses, por exemplo, apesar da composição étnica heterogênea, através da educação, conseguiram assimilar o espírito democrático. Os japoneses, calcados numa moral religiosa e heterogênea, mas não adversa à moral democrática “empoderaram-se” facilmente da moral democrática, pois a moral democrática não colidia com a da religião. A Índia teve um longo período de colonização inglesa que flexibilizou sua rigidez moral. Os uruguaios adquiriram o consenso democrático através das tentativas de “erro e acerto” com o reforço da religião. E assim poderíamos desfilar exemplos de assimilação da moral democrática. E quando chegam a este estágio de assimilar a democracia as próximas gerações já se educam naturalmente no espírito ou moral democrática. Mas há culturas ainda longe do espírito democrático. É o caso do Irã e do Afeganistão. Diz Sartori:

“, l’Islam a livello di massa è rigido, sclerotizzato, e cioè manca di flessibilità, adattabilità e capacità di risposte creative. Ne consegue che, più l’Occidente laico si ritiene in dovere di «liberare» l’Islam costringendolo alla democrazia, più l’Islam teocratico si ritiene in dovere di liberare la propria fede dalle incrostazioni occidentali e di contrattaccare islamizzando l’Occidente.”( (Tre scritti del 2007, 2011 e 2015 di Giovanni Sartori «Corriere della Sera»,)

 (O Islã em nível de massa é rígido, esclerótico, isto é, falta flexibilidade, adaptabilidade e capacidade para respostas criativas. Segue-se que, quanto mais o Ocidente secular se considera obrigado a "libertar" o Islã forçando-o à democracia, mais o Islã teocrático se considera obrigado a libertar sua fé das incrustações ocidentais e contra-atacar islamizando o Ocidente. Tradução livre)

O espírito da democracia, sua alma, é uma condição “sine qua non” da democracia. Pode-se adquiri-lo espontaneamente, por natureza, ou pela educação, artificialmente. Com o tempo a aquisição artificial torna-se natural nascendo um novo corpo social: democrático.

 

 

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