sexta-feira, 4 de agosto de 2017
Opção Preferencial pela Riqueza. J.O. de Meira Penna
NO DIA 29 DE JULHO DESTE, OCORREU O FALECIMENTO DO EMBAIXADOR centenário J. O. DE MEIRA.Nasceu no Rio de janeiro em 1917. FOI UM DOS MAIS NOTÁVEIS PENSADORES POLÍTICOS BRASILEIROS DA ATUALIDADE. IDEOLOGICAMENTE POSICIONOU-SE PELO LIBERALISMO CONSERVADOR ADERINDO À ESCOLA AUSTRÍACA.
EM SUA MEMÓRIA, TRANSCREVEMOS UM TEXTO DE UM DOS MAIS EXPRESSIVOS LIVROS DE SUA AUTORIA: A OPÇÃO PREFERENCIAL PELA RIQUEZA.
PREFÁCIO
Desejo chegar a uma resposta plausível para a questão que enche toda esta obra e domina o momento atual brasileiro: a chamada "questão social". Se reconhecemos, em nosso país, a existência de contrastes excessivos de renda, fortuna, educação, saúde e cultura - que fazer para corrigir essa situação? Insisto que a pergunta "que fazer?" encontra-se tanto no conservadorismo ético da razão prática de um Kant, quanto no título de um livro revolucionário de Lenin. Pode-se, naturalmente, encolher os ombros diante da miséria. Podem-se aceitar as desigualdades. Pode-se mesmo enfatizá-las, glorificá-las nietzscheanamente, pretender que o darwinismo social selvagem constitua ideal de progresso: muita gente, hoje, exasperada com a retórica de esquerda, já aceitaria como legítima essa postura (é o caso do egoísmo heróico e "objetivista" da judia russa Ayn Rand, favorecida com um verdadeiro culto nos EUA!). No Brasil, esse tipo de reação é bastante comum - embora quase sempre silenciosa ou inconsciente. Há gente que pensa: negro é burro mesmo; o que se deve fazer é obrigá-lo a trabalhar (uma reação aliás mais encontradiça entre gente branca humilde do que na classe A...). Há também gente para a qual a questão social permanece, como antes de 1930, "uma questão de polícia"... O reconhecimento do caráter excessivo, criticável e corrigível da miséria, da ignorância e da insalubridade da massa de nossa população constitui, no entanto, a postura oficial da parte mais esclarecida da elite brasileira. O protesto social pode ter sua origem em considerações políticas ou em cogitações religiosas. Pode ser uma reação simples mente patriótica: envergonhamo-nos dos baixos índices sociais do país, quando confrontados com o paradigma estrangeiro. O protesto é também fruto da compaixão. É certamente o resultado de uma educação cristã, sedimentada no que se chamaria o "inconsciente coletivo": consequência natural do imperativo de fraternidade humana, num sentimento talvez irracional, porém certamente efetivo e generalizado. O problema social se reduziria, então, à escolha do método mais rápido ou 2 adequado para a superação de uma situação reconhecida como insatisfatória. O imperativo do "desenvolvimento" brasileiro se prende, talvez, não tanto ao desejo positivo de adquirir um padrão de vida compatível com o nível geral da sociedade ocidental, quanto ao desejo mais imediato de supressão daquelas mazelas do subdesenvolvimento. Segundo me parece, três escolas se enfrentam na oferta de modelos concorrentes para a solução da "questão social": 1) a escola liberal (ou mais propriamente "libertária") que argumenta com o capitalismo puro. Só este, no jogo livre da concorrência, no respeito absoluto à propriedade, na obediência às regras do mercado e na integração à economia mundial, com centro no Atlântico Norte, seria capaz de acelerar o desenvolvimento e vencer a barreira da miséria, ainda que à custa de uma etapa inicial de exacerbação das injustiças; 2) a escola social-estatizante, a mesma que foi adotada entre nós a partir da Revolução de 1930, com marcos de crescente dependência em relação ao paternalismo oficial no Estado Novo getuliano (1937-45), no ciclo juscelinista (1956-61), no regime militar, particularmente após 1969, e na chamada Nova República. Essa escola costumava ser acoimada de "direita" até a 2a. Guerra Mundial e se prendia a raízes contraditórias, como o positivismo castilhista da Primeira República, a doutrina social da Igreja dos católicos conservadores e dos integralistas, e o corporativismo fascista. Mas havia, naturalmente, o impacto mimético do modelo marxista vigorante na Europa. Hoje, as principais correntes social-estatizantes ou nacional-socialistas, como gosto de chamá-las1 , são de esquerda ou herdeiras do patrimonialismo "fisiológico" tradicional. O traço comum entre os seguidores dessa escola é que a "redenção do proletariado" só se poderá processar pela intervenção do Estado na economia e através de uma legislação social e previdenciária cada vez mais "avançada"; 3) a terceira escola parte de um pressuposto inteiramente diverso; eis que salienta o aspecto fundamentalmente moral de toda a questão. Seu postulado básico é que a superação da pobreza não depende tanto, objetivamente, do regime sócio-político ou da estrutura legal da propriedade quanto da existência e desenvolvimento de uma ética econômica. 1 Vide meu Ideologia do Século XX. Em outras palavras, a pobreza e as alegadas "injustiças" não resultam desta ou daquela política, nem são corrigíveis por qualquer mudança estrutural básica. Elas dependem de fatores culturais e históricos, só a longo prazo transponíveis. Isso 3 quer dizer que a progressiva homogeneização da estrutura social e cultural do país (para o estabelecimento de um módico equilíbrio de renda) deve partir da educação, no sentido mais profundo e mais amplo da palavra. A paideia nacional estará apta a criar as condições para que surja, no Brasil, uma sociedade mais harmônica, mais justa e mais eficiente. A ética econômica implica a exigência universal de três virtudes, infelizmente ainda pouco encontradiças em nosso meio social: a virtude de trabalho, a virtude de poupança e a virtude de honestidade. As três virtudes econômicas básicas resumem-se no recebimento gratuito do dom da eficiência, pois trabalho, poupança e honestidade devem coincidir com a eficiência produtiva numa economia livre, sem a qual nem o subdesenvolvimento, nem a má distribuição dos bens econômicos poderão ser vencidos. Acentuando que os modelos aventados para o desenvolvimento brasileiro sempre partiram das opções acima oferecidas,e geralmente em combinações de receitas com ênfase nesta ou naquela opção, notamos que ninguém mais, em nosso país, sugere um capitalismo absolutamente puro, nem tampouco um socialestatismo totalitário, o qual já caiu de moda depois das "cinco modernizações" de Deng Xiaoping e da "perestroika" de Gorbachov. Hoje, até mesmo representantes oficiais do PCB falam em "privatização" da economia; o próprio guru socialista Fernando Henrique Cardoso sugere a substituição das empresas do Estado por "empresas públicas", sem se dar muito ao trabalho de definir do que se trata; e o "social-democrata" Covas prega um "choque capitalista"... A questão seguinte diz, portanto, respeito à ética econômica. Como impô- la? Como persuadir a sociedade de sua necessidade? Como educar o povo na sua prática? Como estabelecer o imperativo categórico de honestidade, trabalho e poupança? Como alcançar a eficiência na performance e ser agraciado com o talento do achievement (MacCIellan)? Essas são certamente as questões mais árduas. Aquelas que a sociologia moderna até agora só superficialmente abordou a nível teórico. Mas, por que não lembrar que esse papel da ética está implícito, desde o século XVIII, na obra de Locke, de Adam Smith, de Burke e, posteriormente, de Tocqueville, Stuart Mill e dos outros pró-homens do Liberalismo, como está, hoje em dia, mais explícito nos trabalhos de Mises, Hayek, Friedman e dos demais neo-liberais-conservadores. Na filosofia liberal, em suma, está a resposta à questão da superação da injustiça e da pobreza. Nos ensaios que se seguem - alguns dos quais reproduzem textos 4 publicados em meu livro Psicologia do Subdesenvolvimento, hoje completamente esgotado - procuro abordar o problema de moral, levantado pela pobreza e o atraso, as atitudes contraditórias diante da riqueza de protestantes e católicos, e a questão mais imediata de nossa "vocação" para o desenvolvimento. Creio na oportunidade do tema: pela quarta vez nestes últimos 60 anos (depois das tentativas abortadas de Getúlio Vargas, de Juscelino Kubitschek e dos militares de 1964-79) estamos tentando dar nova partida ao processo de modernização. Talvez desta vez sejam melhores as perspectivas, pois o mundo todo sofre os contrachoques da Revolução neo-liberal que principiou na década passada, no Ocidente. Acima de tudo, inicio uma abordagem filosófica dos problemas da Ordem, da Justiça e da Liberdade, que espero poder tratar mais extensamente em outra ocasião.
Brasília, abril de 1991(Disponível: http://portalconservador.com/livros/J.O.de-Meira-Penna-Opcao-Preferencial-Pela-Riqueza.pdf)
sexta-feira, 28 de julho de 2017
CONHECIMENTO: CORPO, MENTE E AMBIENTE. Selvino Antonio Malfatti.
É ideia corrente entre os partidários da evolução que nosso sistema nervoso central tenha evoluído para incrementar a capacidade de pensar. No entanto, não se pode generalizar, visto que há seres, como as acídias que, ao nascerem possuem um cérebro, com medula espinhal e órgãos sensoriais sensíveis à luz. As acídias conseguem mover-se e o fazem no sentido de encontrar um lugar onde possam fixar-se. Isto acontece pouco depois de nascerem abrigando-se nas rochas ou destroços subaquáticos. A partir deste momento, advém um processo estupefaciente: começam a reabsorver o próprio cérebro, semelhante à evolução ao contrário, voltam ao estágio inferior. A explicação para este fenômeno pode dar-se através da relação entre órgão e função. Finda a função, descarta-se o órgão.
Esta teoria é defendida pelo neurocientista colombiano
Rodolfo Linas afirmando que: o desenvolvimento do sistema nervoso central é
impulsionado para realizar ações e não para pensar. Isto significa uma inversão
copernicana na relação entre cérebro e corpo. Em consequência, não é mais o
corpo que é servo do cérebro, como argumenta o cognitivismo, mas ao contrário, o
cérebro é a ferramenta que permite que o indivíduo possa interagir com o meio.
Com isso o baricentro do conhecimento desloca-se do centro cognitivo para a
ação que o ambiente permite. Levanta-se esta questão a propósito do livro de
Fausto Caruna e Anna Borghi intitulado: “O Cérebro em Ação” (Il cervello in
azione) editado por Il Mulino.
O cognitivismo representava a mente separada do corpo e
do ambiente. A mente desencarnada do corpo que a abriga e desvinculada do
ambiente no qual interage. Pela nova prospectiva pode-se falar em mente
corporificada e aterrada. Esta visão representa um conhecimento integrado com o
corpo através da ação e plasmado pelo ambiente.
Podem ser encontradas raízes desta postura em John Dewey,
através de uma posição pragmática. Nele nossa vida cognitiva não é feita de
representações teóricas, mas de experiências práticas. Na mesma esteira
alinha-se Husserl propondo que o corpo não seja um objeto físico, mas uma e mesma
substância com a psique.
Para explicar melhor o fenômeno costuma-se lançar mão de
duas metáforas: a do sanduiche e a da quiche. A primeira representa o
cognitivismo. As duas fátias de pão são
insípidas se não fosse o recheio e na verdade só o recheio interessa. As duas
partes, a sensorial e a motora que representam o corpo e o ambiente, tem um
papel secundário. O importante é o conhecimento que resulta da interação.
Em contrapartida a metáfora da quiche, uma torta sem
cobertura, recheada de cremes e frutos do mar formam um todo. Não se encontram
relações entre os processos perceptivos, cognitivos e motores de sequência
temporal. Nós não percebemos um fenômeno depois raciocinamos sobre o que fazer
e agimos. Ao contrário os processos são fundidos e integrados. Em vez de
sequência se pode falar mais de circularidade: percepção, pensamento e ambiente
constituem um todos.
Do exposto pode-se concluir que o corpo
não é mais um mero instrumento físico conduzido pela mente, como um robô guiado
por um software. Conforme os pensadores e pesquisadores Caruana e Borghi o
corpo forma uma unidade com a atividade cognitiva que
interage conjuntamente com o ambiente. São simultâneos e não escalonados.
Estamos diante de dois modelos: o tradicional
cognitivismo ou racionalismo e o proposto experimentalismo ou pragmatismo. Ambos possuem fundados argumentos e
resultados comprovados. Pode-se pensar no cognitivismo de modelo francês e o
pragmatismo de modelo anglo-saxônico. Qual deles está na vanguarda? Ambos
caminham pari passu, com resultados surpreendentes para cada um. Ambos exibem conquistas intelectuais em todos
os ramos do conhecimento, físicos ou teóricos.
Não se chegou à Lua e depois foram criados instrumentos para chegar até ela. Ao contrário foram criados meios e depois se alcançou o fim. Mas, antes disso acontecer, houve contato com a experiência, diferente do objeto, que passou a ser teorizada. Com isso foi possível alcançar o objetivo. A partir deste momento o pensamento adquire vida autônoma, vida própria, dispensando a experiência.
Não se chegou à Lua e depois foram criados instrumentos para chegar até ela. Ao contrário foram criados meios e depois se alcançou o fim. Mas, antes disso acontecer, houve contato com a experiência, diferente do objeto, que passou a ser teorizada. Com isso foi possível alcançar o objetivo. A partir deste momento o pensamento adquire vida autônoma, vida própria, dispensando a experiência.
sexta-feira, 21 de julho de 2017
A vida como encontro. José Mauricio de Carvalho
Não há fato mais banal que o
reconhecimento de que a vida humana se tece nos relacionamentos. Essa é uma
realidade decorrente do caráter social do homem. No entanto, quando pensamos a vida
humana como encontro queremos dizer mais do que simplesmente que estamos ao
lado dos outros e que nos tocamos mutuamente. Autores importantes como Ortega y
Gasset e Martin Buber, embora pensem a vida humana diversamente, destacam relevância
da vida como encontro.
Buber pensará o tu como um mundo
próprio, diante de quem é possível estabelecer o encontro. Seu olhar perspicaz
se dirige para o que ocorre no momento do encontro e ele destacará a
importância do que ocorre entre os dois eus, ambos serão moldados pelo entre
que surge entre eles. E ainda mais significativo é o fato de cada Eu descobrir
que esse Tu a quem cada qual dirige a palavra pode ser o próprio Deus. Esse
Deus que Buber insiste devemos chamar de Tu, ou Grande Tu, é o mesmo que Jesus
de Nazaré chamou de Pai. Nesses dois casos o que se destaca é a relevância da
intimidade desse encontro com Deus. E Buber destacará o fato de que num mundo
em que Deus não se mostra facilmente a construção de uma vida autenticamente
humana fica dificultada e a relação com outros homens como Tu fica prejudicada.
O horizonte existencial do homem se limita ao encontro o isso, que é a forma do
pensador se referir às coisas.
De modo semelhante Ortega destacará o
encontro com o Tu na vida pessoal, mas o foco para Ortega não é o entre os
interlocutores, mas a experiência da outra perspectiva na minha vida. Cada qual
vive a própria existência e a experimenta como radical solidão. O que se passa
com o outro é um episódio a que assisto, sua dor de dente dói nele. Posso
imaginar que sofre, mas não posso vivê-la por ele, mas posso me educar assim.
Apenas o indivíduo pode ocupar seu lugar no espaço e apenas ele pode escolher
sua própria trajetória existencial. Sua referência fundamental é a cultura como
a realidade de referência que é capaz de orientar a existência de forma
autêntica pelo balizamento do que o pensador denomina fidelidade ao núcleo mais
íntimo de si e respeito aos outros.
É importante destacar que em ambos os
pensadores o encontro é a base de uma existência autenticamente humana e em
ambos a presença do outro (Tu para Buber e o Nós para Ortega) é anterior à
consciência subjetiva, isto é, à descoberta de nossa vida singular ou de nosso
eu. E assim, num e noutro caso a educação é o elemento decisivo na construção
de uma vida humana, educação não apenas como aprendizagem do funcionamento do
mundo natural, mas educação enquanto preparo para viver em sociedade como
cidadão e para conviver humanamente.
Os esclarecimentos e aprofundamentos
desses pensadores confirmam o que a Psicologia identificou, percebe-se a enorme
importância de encontros pessoais e intensos como parte de uma vida humana. Encontros
que são fundamentais na infância, embora conservem sempre esse caráter
pedagógico. Encontro não significa a destruição de cada eu, mas sua afirmação
diante do Tu, como diz o poeta: “que tenho de ver-te e não te posso ver, de ti
separado por meus próprios olhos; que estás aí sentada, nascida tão totalmente
fora de mim, isso me dói, como dores de parto”. Assim, de um lado é importante
cuidarmos da educação de nossas crianças na formação de sua humanidade, por
outro esse é processo de que devemos sempre nos ocupar. Esses encontros
fundamentais são pautados na ética e no amor, ou em ambos.
sexta-feira, 14 de julho de 2017
Agradecimentos. José Mauricio de Carvalho
A
palavra inicial é de profunda gratidão aos professores Adelmo José da Silva,
Paulo Roberto Andrade de Almeida e Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz,
organizadores de Uma filosofia da
cultura, escritos em homenagem a José Mauricio de Carvalho. Não o havia
feito formalmente até aqui. Gratidão ainda aos outros treze colegas que
completaram os capítulos e resenhas do livro e ao professor Tiago Adão Lara que
preparou a apresentação. Dada a contribuição mais relevante dos colegas foi
generosidade escreverem os capítulos e resenhas desse livro que mostra três
eixos: 1. História da Filosofia
Contemporânea, especialmente a Portuguesa e Brasileira; 2. Ética e Filosofia
Política e 3. Psicologia e Filosofia Clínica.
O
nexo que une os eixos é uma filosofia da cultura, inserida no culturalismo
brasileiro, movimento que nasce do neokantismo e foi desenvolvido em diálogo
com o culturalismo de Heidelberg, que entrou para a história da filosofia como Escola
de Baden. A filosofia da cultura comentada nesse livro tem cinco pontos
fundamentais que foram capturados no capítulo de Mauro Sérgio de Carvalho Tomaz:
1. A cultura é objetivação de valores, embora produto coletivo ela se
desenvolve e se renova pela ação de pessoas concretas; 2. A Filosofia penetra
nos espaços culturais, identifica os problemas e propõe respostas, trata-se de concepção
entre o neokantismo e as filosofias da existência; 3. Os valores estruturadores
da cultura formam uma hierarquia entorno à pessoa humana que se aprofunda e
ajusta às exigências da vida, mas também expressa um estilo de vida herdado da
moral judaico-cristã, da herança racional da Grécia e da organização
jurídico-política de Roma; 4. Sendo a cultura materialização de valores, o fim da
existência se expressa como moralidade e 5. Se o valor nuclear da cultura
permanece, os demais expressam uma época conforme estejam em plenitude ou ruína,
segundo as palavras de Ortega y Gasset. A síntese desses pontos foi assim capturada
por Mauro Sérgio (2016, p. 121): “O autor compreende que, enquanto vivente, o
homem vai se modificando a partir do que projeta ser, de modo que seu objetivo
é aproximar a função transcendental, inicialmente concebida pelo criticismo
(kantiano), da espessura concreta da existência”. No capítulo que escreveu Anna
Maria Moog também avaliou tratar-se da aproximação entre a perspectiva
existencialista e a ótica neokantiana do culturalismo.
O
livro O homem e a filosofia mereceu ainda
resenha de Leônidas Hegenberg, notável lógico e professor no ITA. Antônio Paim a partir da sua publicação, passou
a falar de uma terceira geração de culturalistas na qual me insere, ao lado de
Ricardo Vélez Rodriguez profundo conhecedor da filosofia brasileira. No
capítulo que escreveu Ricardo Rodríguez, meu orientador no doutorado, fez
brilhante síntese do culturalismo e do trabalho da nova geração de
culturalistas da qual ele é o representante mais ilustre. Sua contribuição principal
está em Tópicos especiais de filosofia
contemporânea onde explica a problemática da cultura, da ciência
contemporânea, da comunicação e da educação. Antônio Paim, por sua vez, estabeleceu
a linha de desenvolvimento do culturalismo dizendo que a primeira geração dos
culturalistas brasileiros foi liderada pelos jusfilósofos Tobias Barreto e
Alcides Bezerra, e a segunda foi formada por Miguel Reale, Djacir Menezes e ele
próprio. Também comenta, no capítulo que escreveu, a proposta de um curso de
filosofia brasileira que está em Curso de
Introdução à Filosofia Brasileira e menciona o trabalho de catalogação da
produção filosófica nacional, tarefa de vários anos de investigação que rendeu os
livros: Antologia do Culturalismo,
onde se encontram textos raros de representantes da Escola e Contribuição contemporânea à filosofia
brasileira, com três edições da EDUEL, a última em 2001.
Nesse
primeiro eixo, ou da historiografia das ideias, quase tudo devo às orientações
de Antônio Paim e Miguel Reale, o primeiro pela organização das ideias e ao
segundo pelo método de investigação. Como observou Anna Maria em seu capítulo, a
contribuição mais significativa dos estudos da filosofia luso-brasileira, além
da catalogação, consiste num novo esquema interpretativo para o desenvolvimento
da moralidade luso-brasileira da renascença ao século XVIII. Até então se
distinguia dois ciclos: um barroco, que incluía parte dos séculos XVI e XVII e
um segundo que ia até meados do século XVIII. Ao propor uma divisão em três
ciclos tornou-se possível uma melhor compreensão do que se passava no Brasil,
normalmente denominado de saber de salvação, que estava mais próximo do segundo
ciclo português, embora estivesse cronologicamente ocorrendo durante o terceiro
ciclo, mas do qual não se aproximava na mentalidade e problemas considerados.
Além de esclarecer o fundamental da hipótese de Caminhos da moral moderna, a experiência luso-brasileira, Anna
Maria resumiu a questão e concluiu (2016, p. 114): “na compreensão de José
Mauricio, a tipificação do saber de salvação só se aplicaria ao que se passou
no Brasil colônia, mas é pobre para referir ao que se passava em Portugal no
mesmo período”. Esse livro comentado por Anna Maria foi trabalho de pós-doutorado
feito sob orientação de José Esteves Pereira. No capítulo que escreveu o notável
professor da Universidade Nova de Lisboa também analisou esse livro. Ele fez uma
síntese do pensamento português, enriquecendo o que está no livro. Ele apontou
detalhes importantes de como a abertura erasmiana fecundou e modificou o pensamento
moral do período, dando clareza a sua construção lógica. Nesse comentário
lembrou os estudos de José da Silva Dias, seu professor e outro grande conhecedor
da história das ideias em Portugal. E mostrou, além do que havia dito Anna
Maria, que o segundo capítulo onde se examina o legado político pombalino
expresso no código jurídico escrito por Pascoal José de Melo Freire, ganha
clareza com o entendimento ético-jurídico do período, assunto que ele
desenvolveu no seu magnífico livro sobre Antônio Ribeiro dos Santos, tese de
doutoramento, defendida em Coimbra, em 1980. O livro deixa claro que nossas
dificuldades éticas se devem a uma modernização a partir do capitalismo ético
normativo e do idealismo jurídico, com os quais a geração pombalina quis superar
o debate moral. E nesses estudos sobre a filosofia portuguesa também devo muito
a António Braz Teixeira, grande conhecedor do assunto, que sempre comentou as lacunas
em meus estudos com elegância e generosidade.
Como
parte dos estudos sobre o pensamento brasileiro, mas também integrado ao eixo
de ética e política está o livro O
pensamento filosófico e político de Tancredo Neves. Esse livro foi
examinado por Paulo Roberto Andrade de Almeida. Também integra esse eixo o
livro A vida é um mistério resenhado por
Paulo Margutti, onde se estuda o tradicionalismo brasileiro e a contribuição de
Severiano de Resende. Ambos os livros são caros ao coração são-joanense porque resgatam
contribuições de conterrâneos ou pessoas ligadas à nossa terra que se tornaram
figuras nacionais. Na resenha de A vida é
um mistério, Paulo Margutti resume os
quatro ciclos do tradicionalismo brasileiro e mostra a inserção de Severiano de
Resende no último, destacando o estudo que fez dos temas mistério e existência
e a aproximação com as teses de Henri Bergson, hipótese de que desconfia. No
capítulo sobre Tancredo, Paulo Roberto resumiu, com maestria, a trajetória
intelectual de Tancredo que fundamentava a liberdade humana e política na metafísica
cristã. Ele mostra como foi construído o projeto liberal de Tancredo associado
às sólidas noções da democracia cristã. Tancredo também defendeu o estado de
direito, as políticas sociais, justificou teoricamente a opção nacional pela República,
e o papel da religião na vida das pessoas e Estados. Paulo delineou o fundamental
do que está no livro.
Sobre
a tradição filosófica contemporânea, os estudos que dediquei a Ortega y Gasset
e Karl Jaspers foram examinados por vários professores. Antônio Paim fez a
resenha do livro sobre Karl Jaspers, Mauro Sérgio e Constança Marcondes Cesar comentaram
o livro Ortega y Gasset e o nosso tempo. Adelmo José da Silva também comentou os
estudos sobre Ortega. Os trabalhos dedicados aos fenomenólogos portugueses
Delfim Santos e Joaquim de Carvalho foram mencionados no capítulo de Anna Maria
Moog. No cuidadoso comentário do livro Ortega
e o nosso tempo, Constança Marcondes Cesar reconheceu a importância do
autor e as atualizações feitas nos conceitos criados pelo filósofo espanhol, como
o de homem massa.
Nas
resenhas de Mônica Aiub sobre o livro Diálogos
em Filosofia Clínica, de João Bosco Batista a Estudos de filosofia clínica,
uma abordagem fenomenológica ao lado das resenhas de Antônio Paim, à já
mencionada obra Filosofia e Psicologia, o
pensamento fenomenológico existencial de Karl Jaspers e Subjetividade e corporeidade na Filosofia
e na Psicologia estão representados os estudos de Psicologia e Filosofia
Clínica. Fica assinalado nesses e em outros livros não comentados que, por
conta de sua especificidade como técnica psicoterápica, a Filosofia Clínica não
é parte da chamada filosofia prática, em moda na Europa. Ela é uma técnica psicoterápica
próxima as da Psicologia fenomenológica, embora dialogando singularmente com a
tradição filosófica. Como faz a Psicologia Fenomenológica, a Filosofia Clínica
confere destaque à história de vida em circunstância da pessoa. Há ainda o
reconhecimento da singularidade existencial, a abordagem do sentido da vida, a confiança
de que o homem pode reestruturar sua estrutura de pensamento, superando as dores
da alma. São pressupostos que a psicologia fenomenológica buscou na filosofia
existencial. Os movimentos inerciais da estrutura de pensamento recordam os deslocamentos
dos campos da Psicologia da Gestalt, a identificação dos elementos com os quais
cada pessoa aprende a fazer a analgesia da alma e a superar os choques da EP se
aproxima das técnicas da psicologia fenomenológica. Diferenças existem, mas as
psicologias fenomenológicas têm diferenças entre si.
Por
sua vez, as resenhas dos livros Ética,
feitas por Selvino Malfatti, Ética e
Filosofia do Direito, por Arsênio
Eduardo Correia e Mauá e a ética
saint-simoniana elaborada por Shirley Dau integram o eixo de ética e política.
O comentário de Arsênio contempla o principal livro que dediquei a Miguel Reale,
observa o que há de singular no tridimensionalismo jurídico dele e sua
contribuição ao culturalismo. No comentário ao livro Ética, levado a cabo por Selvino Malfatti fica claro que tomamos a
moralidade judaico-cristã como base nos modelos éticos prevalentes no ocidente,
mas que eles também dependem do debate moral da Antiga Grécia e dos jusfilósofos
romanos. Além dessa raiz cultural profunda, Selvino identificou os grandes
momentos do debate ético do ocidente e mostrou que hoje em dia não é possível discutir
valores fora dos procedimentos consagrados pela moral social, laica e
consensual. E concluiu Selvino (2016, p. 151): “Pudemos constatar que a
hipótese de José Mauricio de Carvalho de que um conjunto de valores afetos à
individualidade do homem, também denominados direitos do homem, evidenciou-se
como consciência deles nas diversas experiências do Ocidente. Através de
contínuas assimilações de legados de povos diversos e em tempos históricos
diferentes, a consciência dos valores do homem constitui uma confluência
cultural fazendo parte dos valores da pessoa humana”. Finalmente, na resenha
que elaborou, a Professora Shirley Dau estudou o livro sobre o socialismo de
Saint-Simon e sua repercussão no Brasil. Ela apreendeu tanto a inspiração
culturalista da análise, a interpretação da ideia de história do século XIX, quanto
a inspiração ético-política do socialismo de competência do filósofo francês.
Essa
rápida referência aos capítulos e resenhas do livro é uma forma sincera de agradecer
aos autores e organizadores. Todos os participantes desse empreendimento o
fizeram mais por amizade que pelos méritos dessas teses. Esses livros singelos e
seus problemas nasceram da pesquisa acadêmica que a Universidade Pública
proporciona aos seus docentes. Assim, nesse agradecimento não poderia faltar
uma palavra de gratidão à UFSJ e seus dirigentes, inclusive ao Prof. João Bosco
de Castro Teixeira, Presidente dessa Academia e seu primeiro Diretor. Foi ele também
o diretor no antigo Colégio São João, um espaço inesquecível de cultura,
esporte e amizade, instituto destinado a formar o cristão e o cidadão e onde se
encontram, ao lado da família, as raízes de minha formação humanista e cristã.
sábado, 8 de julho de 2017
AS SERVAS. .Selvino Antonio Malfatti.
O livro The
Handmaid's Tale (A Serva) vem vencendo décadas de publicações e
republicações sucessivamente. Depois de ser encenado para cinema, agora será
levado à TV italiana como novela com o título: La Ancella.
Pergunta-se: por que levar à TV uma obra que já carrega
algumas décadas? Evidentemente a cima de tudo pelo seu valor cultural. Mas se
pode ler nas entrelinhas outras razões. Estou pensando que se se mostrar um
lado da moeda pode- se indagar pelo outro. Refiro-me à escalada de atos
terroristas acontecendo na Europa devido ao fanatismo de um grupo religioso. No
livro citado o fanatismo imaginariamente proveio de cristãos, mas, na Europa, concretamente,
o que está acontecendo hoje é com muçulmanos. No livro o regime decorrente é totalitário,
direcionado contra as mulheres. No entanto, em minhas viagens pelo mundo de
civilização islâmica, no mínimo, de fato que se constata é a desigualdade escancarada em
relação ao homem e à mulher. Elas não
são portadoras dos mesmos direitos que os homens. A começar que aos homens é
permitida a poligamia, mas as mulheres estão proibidas de poliandria. Ao estupro, por exemplo, é plicada a pena de apedrejamento. Os homens
podem ocupar todos os cargos, as mulheres um mínimo. Não se vê contato entre homens e mulheres.É dificílimo ver mulheres trabalharem
no comércio, praticamente só homens. Na dimensão religiosa nem se pode falar.
São algumas hipóteses que se podem levantar sobre as
razões levar a obra aos canais de televisão. Mas parece que a mais provável é um alerta.
A trama é relativamente simples, mas as questões
abordadas envolvem a ética, a política, e o direito e, evidentemente, a
filosofia.
Desenvolve-se tendo como cenário os Estados
Unidos da América, país devastado pelas guerras e radiações atômicas. Os sobreviventes são
raros, mormente as mulheres. Os que detêm o poder resolvem impor a procriação
obrigando as mulheres a gerarem. Para tanto estabelecem um total controle sobre
o sexo feminino nos moldes de um Estado totalitário. As poucas mulheres que
sobraram com capacidade para procriarem, as servas, são constrangidas à
procriação coercitiva, enquanto as demais são reduzidas à escravidão. A mulher,
sem nome, passa a ser denominada de “Offred” , isto é, “Dofred”, seu patrão, e apenas se sabe que
vive na República de Gilead e que pode afastar-se de casa somente uma vez por
mês, para ir ao mercado. Os produtos comprados não têm nomes, mas apenas
desenhos, pois não é permitido às mulheres lerem. Aparentemente, “Dofred” está
resignada ao seu destino. Internamente, porém, lembra-se de seu passado, sabe
seu verdadeiro nome, e para sacudir o jugo pede para engravidar, pois esta é a
única esperança de salvação.
O livro pode ser dividido em cinco itens:
11. O
Enredo.
A devastação das guerras e a poluição são os elementos
predominantes. Neste ambiente, um grupo de extremistas cristãos toma o poder e
implanta um estado totalitário em que as mulheres são despojadas de todos os
direitos.
São divididas em categorias: esposas, filhas,
não-mulheres e servas., todas propriedade dos homens e a eles submetidas. Não
podem ler, sair sozinhas de casa e proibidas de trabalharem. As que recebem o
pior tratamento são as servas, as únicas férteis de todas das categorias,
reduzidas a animais de procriação.
No topo da hierarquia social e política do Gilead está o
Comandante da República. Calcado no preceito bíblico, segundo o qual, os
maridos que tivessem mulheres estéreis poderiam relacionar-se com as próprias
servas para gerarem filhos. Louvados neste preceito bíblico os Comandantes
apropriavam-se de servas, mulheres férteis, num regime de completa escravidão
com o único objetivo de procriação.
2. A
Serva
Em torno da figura de Offred e seu patrão, o Comandante,
é contado o relacionamento com as demais servas e do Comandante com sua esposa.
Offfred, a Serva, lembra como era a vida anterior e está
determinada não somente sobreviver como encontrar a filha desaparecida.
3. Cenas
chocantes
Logo após a publicação do livro algumas escolas
simplesmente rejeitaram o livro e o proibiram devido a cenas de realismo por
demais cruéis como é a cena da mutilação sexual.
4. A
questão do feminismo
Após a publicação, o livro tornou-se um baluarte do
feminismo, inclusive algumas mulheres tatuavam-se com frases recorrentes do
livro. Contudo os próprios intérpretes das figuras feministas, como de Offred,
negam a intenção, afirmando que a personagem é apenas uma figura humana, sem
nenhuma conotação política.
5. Conteúdos
5.1.
Política.
Enquanto numa utopia do tipo platônica ou de Morus se
imagina um estado imaginário ideal, na Gilead se vive em extrema opressão, por
isso pode ser caracterizada como uma distopia. Os comandantes, mais
precisamente, o Comandante, têm a todos submetidos, mormente as mulheres.
Estas, até mesmo religiosamente, devem ser rezar para que o Comandante
engravide o máximo de servas.
5.2.
Ética
Esta é absoluta, pois não há meio termo ou a possibilidade
de consenso. É uma ética só, a qual todos devem praticá-la. Tem como pano de
fundo de que os fins justificam os meios. As mulheres não podem trabalhar, não podem
aprender a ler, não podem possuir nada. Para cada categoria de mulheres havia
uma cor nas vestimentas e era absolutamente proibido usar outra cor.
5.3.
Direito
A antiga constituição foi queimada. Em vez de Estado de
direito é Estado de dever, isto é, policialesco. As mulheres férteis, as
servas, são obrigadas a gerarem filhos. É um Estado totalitário no qual ninguém
tem direito algum.
sábado, 1 de julho de 2017
O caminhar do povo brasileiro pela história. José Mauricio de Carvalho Academia de Letras de São João del-Rei
O Brasil mergulhou, nestes últimos anos, numa crise política que levou, inicialmente, ao afastamento da Presidente da República e, agora, mostra como a corrupção alimenta o processo eleitoral e o enriquecimento dos políticos. As coisas chegaram a um ponto insustentável nos governos do PT, mas é ilusão acreditar que o problema não existisse antes ou que não fosse tão extenso. Essa crença nasce do discurso antipetista, parte da polarização danosa que tomou conta do país. O afastamento do projeto social democrata e a implantação do projeto liberal conservador nem livrou o país da corrupção, nem promoveu a retomada do desenvolvimento. E as coisas pouco mudaram porque o que alimenta a corrupção e a crise econômica são fatores complexos inclusive o ambiente internacional dos negócios. O surto de desenvolvimento da era Lula, por exemplo, não ocorreria num ambiente externo desfavorável como o de agora. E internamente ainda se vive a tradição patrimonialista que mistura as coisas do Estado com a dos mandatários, fazendo com que o mal feito seja verificado desde as prefeituras mais pequeninas até a união federal, roubo democraticamente distribuído por todos os partidos. E esse ambiente, que se deteriorou nos últimos anos, foi alimentado pelo financiamento empresarial das campanhas e a multiplicação das legendas de aluguel. Para que se dimensione o absoluto descalabro a que isso chegou basta mencionar o Partido da Mulher Brasileira. Qual o projeto político desse partido? E igual a ele há um bom número de pequenas legendas feitas para vender apoio ou alimentar vaidades. O conjunto de fatores mencionados agravou o estado geral de corrupção que não resulta de nenhum Partido isoladamente, mas desse ambiente favorável alimentado por todos eles.
Para que se reduza significativamente a
corrupção e se resgate a dignidade da atividade política será necessário mudar
muita coisa: acabar com o financiamento empresarial das campanhas (que parece
feito, mas que pode ser ressuscitado), eliminar os privilégios parlamentares e reduzir
o número de políticos, baratear as campanhas, reduzir os partidos (para no
máximo uns seis ou sete), punir as autoridades corrompidas e seus corruptores.
Sem essas ações a corrupção ou ficará oculta ou reduzirá pouco. É também
fundamental elevar o nível educacional da população e discutir a moralidade nas
escolas e fora delas.
O ambiente suprapartidário de falcatruas
não é aceito internacionalmente. Assim, a gestão pública horrorosa das coisas do
Estado (os problemas de segurança pública: explosão dos bancos, bandos de
marginais armados aterrorizando a população, número enorme de crimes, péssima
gestão da saúde, má qualidade da educação, os ridículos transportes públicos, as
estradas inqualificáveis, etc.) tudo com que aceitamos, mas que não é admitida
internacionalmente. Essa má administração foi punida pelos americanos com a
interrupção da compra da carne e a perda da ajuda internacional para a
manutenção da floresta amazônica. Pouca coisa funciona bem.
Esse ambiente de corrupção e má gestão
tirou o foco da noção de pátria como casa do povo. Casa entendida como ambiente
cultural.Esse ambiente é sustentado por crença comum, que é uma fé, religiosa
ou não. Pode ser um princípio fundador que esteja na origem do povo, ou um
projeto político em que a sociedade se engaje por acreditar. De todos os modos
precisará ser um ethos, uma casa
comum que nasce da convivência e da crença compartilhada que amarra a vida do
povo, que o instiga a vencer as dificuldades enquanto enfrenta as lides diárias.
Esse ethos
é espaço compartilhado de crenças que liga cada um a terra dos avós e dos
filhos. Essa noção de espaço nacional perdeu-se e é vilipendiada pela atual geração
de políticos corruptos e empresários bandidos (ressalvadas as exceções).
Reativar esse ethos que nos liga aos
heróis conhecidos, ao trabalhador que sucumbe no esforço diário e ao militar
anônimo que morre pela pátria, confiando num futuro melhor, numa democracia
mais justa e num país bom para viver. E há muitos que assim fizeram e fazem.
São esses heróis conhecidos ou não que precisam inspirar nosso destino em dias
como esses que passamos.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
NOVE PRINCÍPIOS PARA “MANTER-SE COM O FUTURO”. Selvino Antonio Malfatti
Há um instituto de pesquisa, nos Estados Unidos, chamado
Escola de Arquitetura e Urbanismo do Massachutts Institute ol Technology – o
Media Lab. Neste, os mais renomados
cientistas das várias áreas tecnológicas desenvolvem pesquisas para melhorar a
vida humana: aperfeiçoar o que existe e suprir as deficiências. Procura
constantemente avançar nos conhecimentos tecnológicos. O Instituto parte da premissa
de que a tecnologia pode trazer mais felicidade ao homem. Nos últimos dez anos, o Media Lab avançou
sobremaneira nos conhecimentos da “revolução digital” e na expressão humana. Dele
saíram as pesquisas sobre cognição e aprendizagem, música eletrônica e
holografia, mas também em pesquisas que facilitam e suprem as deficiências
humanas como Alzheimer, depressão e socialização .
Recentemente foi editado um livro de Joi Ito - Mantendo-se
com o Futuro - no qual apresenta Nove Princípios para se manter nos
próximos anos. Estes são uma pauta filosófica para poder viver
inserido no que vai acontecer proximamente.
OS NOVE PRINCÍPIOS
OS NOVE PRINCÍPIOS
I – Emergência de base substitui Autoridade de cima.
Autoridade.
Sistema que abrange produção, organização e distribuição
do conhecimento de cima para baixo. O pressuposto é que o conhecimento resida
ao alcance de poucos e que sua socialização depende de sua decisão.
Emergência
Graças à internet o conhecimento emerge de baixo para
cima. As ferramentas das redes fazem com que você mesmo decida provocando um
movimento de disseminação coletiva do conhecimento.
II – Puxar substitui empurrar (Pull X push)
Empurrar
Modelo de gerenciamento pelo qual se adquirem e se
armazenam recursos. O controle é global e se emitem ordens de centro para
margens.
Puxar
Os recursos são exauridos do interior do projeto somente enquanto necessários. A partir daí afluem das bordas através de redes de relações amparadas nas novas tecnologias das comunicações.
3 - Bússola substitui
cartografias
Cartas
Modelo segundo qual, antes de agir, apresenta uma compreensão detalhada da situação e um trajeto pré-definido. Deparando-se com obstáculos, é redesenhado o mapa.
Bússola
Num mundo veloz e repleto de imprevisibilidade é necessário valer-se da criatividade e estar prontos para mudar a rota. Diante de obstáculos se os contorna e prossegue.
4- O risco substitui segurança
Segurança
Para se ter segurança, quando o custo for elevado para se colocar um produto no mercado ou disseminar uma ideia ao grande público, é preciso conseguir um projeto com protocolos e aprovações.
Risco
Com ferramentas 3D, os processos de produção são rápidos e seu custo baixo. Por isso, esta opção é preferível para ideias e objetos embora sujeitos a falhas eventuais.
5– Desobediência substitui concordância
Concordância
Na sociedade industrializada e voltada para a produção acredita-se que somente um número restrito de pessoas tenha capacidade criativa. Os demais devem se concordar com as ordens vindas deles.
Desobediência
Novos processos, mormente os de automação, abrem-se novos cenários do trabalho. Diante deste quadro terá mais sucesso quem se fizer perguntas, fia-se no instinto e se nega a seguir as regras quando são empecilhos.
6- A prática substitui a teoria
Teoria
Abordagem assentada sobre rigorosas previsões e monitoramento dos processos concluídos. Nenhuma proposta será aprovada senão após rigoroso estudo.
Prática
Num futuro de alta velocidade, esperar acarreta custos mais elevados que improvisar. Por isso é melhor produzir imediatamente novos protótipos e mudar de rota, calcados no princípio “aprender fazendo”.
7 - Diversidades substitui capacidade
Capacidade
Acredita-se que as pessoas mais inteligentes e melhor qualificadas numa disciplina também são as mais preparadas para resolver os problemas de seus setores.
Diversidades
Em tempos complexos os grupos variados são os mais
produtivos. A delegação de tarefas não segue o critério do título, mas a
demonstração de maior aptidão para qualidades cognitivas.
8 – Resiliência substitui força
Força
Tradicionalmente as grandes empresas se blindam para s protegerem de possíveis falhas. Para tanto, rodeiam-se de recursos extras, programam estruturas de gestão hierárquicas e processos impenetráveis para terceiros.
Resiliência
As empresas empregam um investimento tal que, se falhar, no máximo não há grandes prejuízos, mas um aprendizado das falhas. Por isso, se pensa que é mais lucrativo desistir do que resistir.
9- O sistema substitui o objeto
Objeto
O quadro tradicional industrial calca-se sobre preços de produtos individuais e o lucro é uma consequência do valor individual ou corporativo.
Sistema
Hodiernamente é sempre mais urgente considerar o impacto
de um objeto como um todo num sistema de relações entre as pessoas, suas
comunidades e os ambientes culturais que vivem.
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