sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Lições de uma viagem à Espanha. José Mauricio de Carvalho






Estando recentemente na Andaluzia-Espanha para evento acadêmico não poderia deixar de visitar, ainda que apressadamente, alguns lugares representativos da região. E fui a eles com o olhar encantado do turista e crítico do estudioso. De um lado, desejoso de conhecer elementos da presença árabe na região, em razão da influência que deixaram na Península Ibérica em Portugal e Espanha e de outro, querendo entender como os espanhóis mantêm esses monumentos grandiosos e o significado que o turismo tem para eles.
Para exemplo da presença árabe nada é mais representativo que o Palácio de Alhambra (Calat al Hambra ou fortaleza vermelha), o magnífico monumento situado junto à cidade de Goa e reconhecido pela Unesco, como patrimônio da humanidade, desde 1984. Este maravilhoso monumento foi edificado entre os anos de 1333-1391 pelo sultão Yusut I e seu filho Mohamed V. Os reis de Castela tomaram a fortaleza um século depois, em 1492, ano em que Colombo chegou à América. Portanto, um ano de glória para a Espanha. O Palácio ainda conserva parte dos arabescos originais em ouro, vermelho e azul, boa parte deles reconstituída em processos de restauro bem conduzidos. No palácio vê-se a presença da água, em fontes e canais muito importante na cultura árabe. Muita coisa foi feita no interior da fortaleza posteriormente, inclusive um mosteiro. Unindo o magnífico conjunto de edificações um maravilhoso jardim com canteiros e fontes. Como deles não havia qualquer registro histórico fidedigno foram reconstituídos de modo a dar uma ambiência próxima ao que seria o lugar. Também foram levantadas de novo as torres que o exército de Napoleão Bonaparte explodiu. Todo esse ambiente recomposto e maravilhoso remete à Idade Média e a ocupações posteriores. Contudo, muito do que ali está é uma recomposição pura e simples, boa parte sem qualquer purismo histórico, apenas para dar majestade ao que já é monumental.
Outro conjunto de edificações que chama atenção é a Plaza de España em Sevilla, o mais impressionante conjunto arquitetônico da cidade. Construída em 1929 para a exposição ibero americana, a Plaza de España foi levantada em tijolo e cerâmica em estilo neo-clássico e gótico, com um canal interior e semi-circular e quatro pontes em estilo mourisco, tudo ornado por um jardim maravilhoso. Apenas para lembrar os estilos arquitetônicos empregados neste conjunto de edificações estavam quinhentos anos deslocado do seu tempo, como os jardins e fontes de Alhambra (patrimônio cultural da humanidade) é uma reinvenção.
Felizmente para os espanhóis, os milhares de turistas que visitam o monumento e deixam uma fortuna da região não se colocam essas questões acadêmicas que muito encantam as autoridades e técnicos preservacionistas no Brasil. E isso para não falar de cidades inteiras que estão sendo reerguidas em outros países europeus apenas por serem referência afetiva para os povos, mas que naturalmente depois de refeitas irão arrecadar milhões de dólares anualmente. É uma boa lição a ser aprendida se quisermos ter de fato um turismo na região que falha a pena.


sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

CANTE ALENTEJANO É PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE. Selvino Antonio Malfatti.




No momento em que se estreitam mais e mais os laços culturais entre Brasil e Portugal com promoções, projetos e programas conjuntos como Os Colóquios de Tobias Barreto, em Portugal, e Antero de Quental, no Brasil, queremos destacar uma conquista cultural de Portugall que, sobretudo, engrande os países lusófonos. Trata-se do reconhecimento pela UNESCO do Cante Alentejano como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
O Cante Alentejano caracteriza-se como um canto de coro, sem instrumentos. Alternam-se um cantor só e um coro. Entre as pausas há um alto que arremata as estrofes. A sequência segue uma cadência que, depois de concluída, inicia novamente. Inicia-se com um ponto o qual cedendo lugar ao alto interrompe para dar lugar ao coro, a este juntam-se o ponto e o alto. Terminada a estrofe, inicia-se o processo novamente. (em anexo há o Cante: Rosa Branca, desmaida, para ilustrar e apreciar).
Os especialistas associam o cante aos gregos e romanos, posteriormente teria sido assimilado pelo canto gregoriano e tradição árabe. Esta canção era comum nas lides das lavouras portuguesas, nas horas de ócio, em atividades domésticas e até mesmo em solenidades religiosas.
Atualmente, devido à mecanização da lavoura, com o conseqüente êxodo rural, bem como a presença de rádio e televisão o gênero musical está em decadência. O cante ficou confinado a grupos oficiais e especializados. Tem se apresentado em grupos folclóricos e festas populares ou mesmo apresentações eruditas. Evidentemente não se deve confundir com o Fado, que ha dois anos também é Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, mas com outra estrutura.




https://www.youtube.com/watch?v=M9Glstve450


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A CRISE DE LIDERANÇAS POLÍTICAS NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti.



D. Pedro II, numa estação de trem.

Um líder político é diferente de um dirigente. O dirigente cumpre uma função. O líder é uma pessoa que se identifica com seu povo e seu povo se identifica com ele. O Mestre definiu bem o líder político: é quando “eu conheço minhas ovelhas e elas me conhecem”. O líder é diferente do populista vaidoso e egoísta. Este só quer seu próprio bem. O líder mesmo é simples, desprendido e espontâneo. Ao natural as massas o buscam por que sentem atração por ele. Além disso, e aqui está o diferencial essencial: embora seu governo não esteja bem, ainda assim as massas acreditam nele e lhe são fiéis, desprendidamente. É o carisma como definiu um sociólogo. Quando segmentos são fieis a alguém por alguma vantagem, não há um verdadeiro líder, mas um aval daqueles interesses.
Um líder democrata é diferente de líderes de outros em regimes. O líder democrata deve preencher alguns requisitos para poder ser considerado assim. Deve emergir de sociedades que tenham livre liberdade de expressão. Ele mesmo respeitar e ser respeitado na manifestação de idéias, sentimentos e crenças.  Pertencer a sociedades que tenham liberdade de constituir-se e integrar-se em grupos organizados. O líder numa democracia deve surgir através de eleições livres e limpas. Esta emergência como fruto da competição entre outros líderes e partidos. Não pode surgir onde não houver fontes alternativas de informação. E seu governo manter-se dentro dos limites constitucionais em sociedades livres.
Por isso, o líder político não se iguala a qualquer dirigente político. Os faraós do Egito, os déspotas da Babilônia e do mundo antigo oriental, os imperadores romanos eram dirigentes políticos. Este líder político é o produto de uma forma peculiar de governo: a democracia. É muito reduzida e podemos dizer recente, embora deite suas raízes na história. Podemos encontrar seu berço na democracia direta dos antigos gregos atenienses. Nos tempos modernos ela se transmuda em representativa. Nesta ainda não temos lideranças políticas, por que primeiramente ela aparece como a representação de notáveis e posteriormente com a representação restrita através do voto econômico – isto é – o censitário. Foi somente nos Novecentos que surgiram partidos de massas com o voto universal, e é dessa democracia que falamos com suas lideranças políticas.
O mundo atual está em crise de lideranças políticas. Na Europa, o presidente da França, François Hollande, está longe de ser um líder, o da Itália, Giorgio Napolitano, uma figura apagada, O Vladimir Putin da Rússia um tirano, a rainha da Inglaterra e a primeira ministra da Alemanha, Isabel II e Ângela Merkel respectivamente, poderiam se aproximar do modelo de lideranças políticas. As demais lideranças seriam dirigentes ou governantes vaidosos.
Na América, é um desastre. Barac Obama, que apareceu como uma esperança, logo perde o brilho. Na Argentina, Cristina Kirchne, está afundando no próprio atoleiro. O Uruguai, com seu presidente chacareiro, José Mujica, não convence. No Brasil, basta cotejar o mapa geográfico com o eleitoral.
Aliás, o Brasil na sua história, teve poucas lideranças políticas. Vez que outra aponta alguma. Pode-se dizer que D. Pedro II, se alçou à condição de verdadeiro líder com exemplo de desprendimento e simplicidade, conseguindo construir uma nação. Grau médio de liderança conseguiu Juscelino Kubitschek. Certamente se a morte não o tivesse ceifado repentinamente Tancredo Neves estaria entre os grandes. De resto são ou foram dirigentes ou populistas vaidosos, mas sem liderança.






sexta-feira, 21 de novembro de 2014

José Mindlin e a vocação de reunir livros. José Maurício de Carvalho



No dia 28 de fevereiro do ano de 2010 morreu aos noventa e cinco anos o empresário, advogado e jornalista José Mindlin. É uma pena que homens extraordinários morram. O país perdeu um deles e dono de um dom raríssimo: era amigo dos livros.  E ele possuía uma amizade bonita que ia além das palavras, era uma espécie de devoção aos livros que Midlin alimentou durante toda sua vida. No final de sua longa existência conseguiu reunir cerca de 45000 volumes dos mais representativos da cultura ocidental e brasileira. Por este trabalho em defesa da cultura e das letras foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 2006, um dos raros momentos de reconhecimento ao seu amor à cultura.
Quem foi José Mindlin? Ele nasceu em São Paulo em 1914 quando o mundo assistia o início da I Grande Guerra. Era filho de judeus russos cuja família mudou para o Brasil (São Paulo) em busca de paz e segurança. Do pai aprendeu o amor pela cultura e a dedicação aos livros, paixão que alimentou em toda sua vida. Trabalhou desde cedo, começando a atividade profissional como jornalista no Estado de São Paulo quando ainda não tinha quinze anos de idade. Concluído o ensino médio fez Direito na Universidade de São Paulo e, posteriormente, cursos na área jurídica nos Estados Unidos da América. Largou a carreira brilhante de advogado que se iniciava em 1949 para se dedicar a sua vocação empresarial tendo organizado a Metal Leve. A empresa se dedicava à fabricação de peças para automóveis e chegou a ter 7000 mil funcionários e duas fábricas nos Estados Unidos. Ser empresário não é uma vocação fácil, mais difícil quando se lidera 7000 pessoas. Em 1996, com mais de oitenta anos de idade vendeu a empresa para a Mahle e se entregou por inteiro à outra vocação que o consumira vida afora: descobrir e adquirir livros importantes da cultura ocidental e brasileira. Para se ter uma noção do que ele reuniu basta mencionar o exemplar dos Lusíadas de Camões da primeira edição (1572), os originais do Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa e a primeira edição ilustrada dos Triunfos (1488), de Petrarca, livro mais antigo que o Brasil. Uma vida plena é a realização de uma vocação e pode ser mais de uma como no caso de Mindlin.
Um fato que nos mostra a dimensão moral desta vocação. Ele doou 25000 livros que tratavam da cultura brasileira para a Universidade de São Paulo. Os livros são para os homens e para enriquecer o espírito. Ao fazê-lo adotou a atitude típica e generosa dos filantropos norte-americanos que deixam parte de sua fortuna ou bens para obras de caridade ou para instituições culturais. Isto é quase uma regra entre eles, o sentimento de gratidão à nação e o espírito público da vida bem sucedida. Atitudes assim são ainda raras entre nós, mas começam a acontecer.
Outro episódio marcante que dá a dimensão moral desta vida foi o pedido de demissão da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em 1975, depois da morte na prisão do jornalista Vladimir Herzog, que ele havia indicado pessoalmente para chefiar o jornalismo da TV Cultura.

 Mesmo sem conhecer a intimidade deste intelectual amigo dos livros, empresário de sucesso, advogado por formação, benemérito da USP e imortal da Academia de Letras, estas linhas são o reconhecimento das vocações importantes que ele cultivou e homenagem a um homem da cultura que colocou sua vida a serviço da sociedade brasileira. Que nosso país possa ter, cada vez mais, homens dedicados aos diferentes aspectos da cultura, como Mindlin foi no cuidado com os livros, sem precisar deixar de ser advogado e empresário.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Talian como Referência Cultural Brasileira. Selvino Antonio Malfatti.























Entre os dias 17 e 20 de novembro no Seminário Ibero-Americano da Diversidade Linguística, em Foz do Iguaçu – PR, será assinada Certificação do Talian como Referência Cultural Brasileira, junto com Assurini e Guarani Mbya.
O Talian não é propriamente um dialeto da língua italiana trazido pelos imigrantes italianos. Mas não se pode dizer que não seja um dialeto. Efetivamente existem vários dialetos como o Furlan, o Bergamasco, o Vêneto. Há indícios de que o Talian é um dialeto italiano autóctone brasileiro. Num estágio que fiz na Itália conheci uma família de Vêneto que falava praticamente igual ao Talian. Minha hipótese é de que nasceu na combinação de vários dialetos e mesmo com contribuição da língua portuguesa. 
Quando os imigrantes embarcavam na Itália, já iniciava outra realidade e era preciso adaptar-se e mesmo criar. Daí que várias palavras se moldaram e outras novas surgiram. 
A alimentação era diferente, os costumes variavam, a religiosidade não era igual. Enfim, era outro ambiente e os imigrantes precisavam comunicar-se. Desse novo conjunto de fatores, físicos e culturais, nasceu o Talian.
Por muito tempo foi a língua “oficial” dos descendes italianos principalmente no Rio Grande do Sul, mas também em Santa Catarina e Paraná. Falava-se o Talian nas famílias, vizinhanças, reuniões comunitárias, até mesmo o Sermão do padre nas missas era em Italian.
O maior golpe do Talian aconteceu no governo de Getúlio Vargas porque o Brasil declarou Guerra à Itália e o Talian foi proibido de ser falado. Eu mesmo o aprendi por acaso. Nasci durante a 2ª guerra e meu pai foi convocado. Minha mãe e eu fomos morar com a nona (avó) que só se comunicava em Talian. Foi aí que aprendi. Os outros meus irmãos que nasceram depois não o aprenderam.
Como nossa comunidade de imigrantes residia praticamente no meio de colonizadores alemães – região de Lajeado no Rio Grande do Sul, cujos imigrantes alemães chegaram antes e já tinham núcleos urbanos - aprendíamos também alemão. Dizia-se que se deveria saber três línguas: o Talian usado em casa e com vizinhos, o alemão para ir à cidade e o português para a escola.
A aproximação do Talian com o italiano gramatical é visível. Haja vista que quem sabe o Talian rapidamente aprende o Italiano gramatical. Mas há expressões originais e peculiares que não têm tradução similar. Atualmente é pouco falado, só sendo usado por pessoas idosas que ainda o falam ou por quem se dedica a estudos lingüísticos. Há uma cidade gaúcha, Serafina Correa, que o adota como língua co-oficial.
No entanto  o que ainda o mantém vivo é que há uma literatura escrita no Talian. O mais famoso e conhecido livro é “Vita e Storia di Nanetto Pipetta (Vida e História de Joãozinho Cachimbinho). É um personagem que encarna o imigrante italiano e passa por todas as situações: trabalho na roça, vida familiar, religião, diversões, namoro e assim por diante. O livro sinteticamente se autodefine como “Ciacore e sfrotole”. ( Fofocas e causos). Foi escrito por um filho de imigrante, Aquiles Bernardi, frei capuchinho, em comemoração aos 50 anos da imigração italiana. Originalmente publicado em “Staffeta Riograndense” e depois, no período de Getúlio, no Correio Riograndense. O livro no período de Getúlio foi condenado e teve que abrigar-se na clandestinidade. Mas os imigrantes o liam nas rodas ou nos filós e o passavam de mão em mão. Quando chegava alguma autoridade do governo o escondiam até dentro do pão. Dessa forma conseguiu sobreviver e ainda atualmente há pessoas que escrevem em Talian.
O interessante é que o personagem Nanetto Pipetta no livro original havia se afogado no Rio das Antas, mas atualmente foi revivido e a história continua percorrendo os diversos municípios de colonização italiana. Novos escritores levam adiante a estória de Nanetto mantendo vivas as tradições dos imigrantes italianos e a língua Talian.
Abaixo um texto escrito por Silvino Santin, professor de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria. O trecho descreve uma cena típica nas localidades de imigração italiana do interior do Rio Grande do sul: confraternizações de vizinhos. No caso havia um prato especial: marrecões selvagens com sopa, bifes, massas e...tudo regado a vinho caseiro. Claro, cantos e discursos...Vejam um trecho em Talian do Nanetto, agora revivido nos dias atuais, numa cena descrita numa capela do interior e que culmina com uma festa de noivado de dois jovens.





Nanetto Pipetta
Mareconi de tute le maniere e de tuti i gusti
Silvino Santin
Santa Maria - RS


Ma ndemo ai mareconi. Romai i gera tuti pronti. I pi grossi e veci i noea rento el brondon par la supa o la menestra de agnolini. Ghe manchea sol quei del menarosto, che suito el nono Minelo el se ga messo a taiarli, salarli e consarli. Nanetto el ga proà giutarghe, ma no’l ghe tirea rento. Genarino, al veder la bona voia del tosato, lo ga mandà giutarghe a Narciso ndar su al salon dela cesa pareciar le tàole par la doménega de mesdì.
Dopo tuto pronto, tuti stufi, ma contenti, i ze ndai ognuno a casa sua par riposar.
Doménega de matina, verso le oto e meda, le campane le ga sonà i tre segni, de meda in meda ora, come de costume. L’è vero che messa no ghin saria, ma, quando no ghe gera el prete, la ministra Zelinda, che tuti i la cognossea par zia Linda, la tirea le orassion e la ledea le Sacre Scriture e, come la gera stà na bona maestra de scola, la fea anca na predicheta. No ocor dirlo, tuti i ghe piasea parché la parlea ciaro e fianco, e, anca, se qualchedun el volesse parlar, tuti i lo scoltava. No se pol smentegar che i cantori no i ghe manchea. Novo Treviso el gavea la tradission de ver sempre brai cantori. Mantégnerla la gera una question d’onore. El comadante dei canti, da tanti ani, l’era Genarino.
Finie le serimónie, le otanta o sento persone, sensa prèssia, le va fora dela cesa e drite rento el salon. Magnar ghinera par tuti, e d’avanso. Gente, disposta a giutar par finir de meter su la tola, no ghin manchea. Là in fondo la cosina se vedea el nono Minelo comandando quei che i girava el menarosto. Insieme se vedea Nanetto, pi parlando che menando la manivela.
Tuto pronto e tuti a tola. Prima de scomissiar, la zia Linda la ga tirà na pìcola orassion. Ma na sorpresa, Gugelmo, el compare de Genarino e bon de s-ciopetade, el leva su e el dise:
– Vanti scomissiar, Nanetto el ga da far un discorso.
Abramo, el paron dela risera, l’è ndà d’acordo e i tosatei i ga scomissià osar:
– Nanetto! Nanetto! Nanetto!
No ghe gera altro da far. Nanetto, che romai el gavea ciapà coraio co un par de bicereti, el salta su e el scomìssia:
– Sarò corto, parché la fame la ze longa. Vardì in tàola, i mareconi, in vita zolando e magnando riso, valtri lo savì, i par tuti compagni, ma qua in tàola i se presenta de tante maniere. I mareconi i deventa brodo, carne lessa, col col pien, menestra de agnolini, bifi milanesi de peto, carne in tòcio e, sora tuto, gràssie al nono Minelo, mareconi al menarosto. E adesso, cosa che no i ghenavea mai proà, i sentirà el gusto del vin. E bon apetito a tuti.
Tuti i se ga maraveià dele parole de Nanetto e le man le ga s-ciocà de sgorlar i biceri vodi.
Da qua in vanti, poche parole e tanto mastegamento. La léngua, fata par parlar, adesso la laorea par parar do mareconi, polenta e vin.
A mesura che i piati i se svodea, i biceri i se raversea e le mastegade le se fermea, le ciàcole le cressea. Piampianeto un batolamento.
Là par le tante, salta fora Abramo, el paron dela risera dei mareconi, e el osa:
– Narciso, ndove sito? Te sè che mi son vegnesto par via de altri afari.
Narciso, el ciama la Rosina, medo invergognà e sensa parole, el mostra le lianse, e i se le mete sul deo dela man drita. Dopo, el ciama Nanetto, invitando lu e la Gelina par esser i primi compari par le nosse del’ano che vien.
Tuti i volea un discorso, ma nissuni i se ga presentà. Nanetto suito el se tira fora parché lu romai el gavea discursà. Par finir le serimònie, Genarino el ghe ga dimandà, dà che no ghe gera preti, che la zia Linda la benedissa le lianse.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Brasil e Democracia. José Maurício de Carvalho.



Delfim Santos - filósofo portugês

O processo eleitoral terminou muito bem, depois de caminhar não tão bem. Tivemos uma eleição tranquila, o candidato Aécio Neves, com a elegância que lhe é habitual, cumprimentou a Presidente eleita e lhe desejou sorte, ela agradeceu o reconhecimento da maioria, convidou a oposição ao diálogo e entendeu que precisa melhorar a administração do país. Terminamos o pleito como as boas democracias, embora o debate político não tenha tido a qualidade que desejaríamos.
Disse certa vez o filósofo português Delfim Santos sobre os pleitos eleitorais: "A democracia é uma forma de governo e uma nação é democrática quando o respectivo partido (vencedor nas eleições) tem o poder" (Obras Completas, v. I, 1982, p. 39). Vencida a etapa eleitoral, fica para o nosso futuro o aperfeiçoamento do debate político. Ele deverá ser realizado em torno a pontos definidos dos programadas partidários, marcando as posições diferentes sobre os diferentes assuntos. Assim qualificaremos a política, fornecendo sua prática a antevisão do futuro, uma espécie de antecipação do destino nacional. Sem debate político qualificado não temos uma democracia que satisfaça seus membros, pois o que vence num processo eleitoral são teses e não pessoas.
A democracia liberal que adotamos é o regime da liberdade na escolha dos governantes, mas ela não só assegura a escolha pela maioria dos seus dirigentes,  também exige do vencedor o respeito as leis em vigor (estado de direito), à independência dos poderes e ao funcionamento das instituições, em suma, o convívio pacífico e o respeito às minorias na forma da lei. Ninguém está acima delas, se alguém a descumpre deve pagar na forma que a lei estabelece, seguido o ritual estabelecido.
Na hipótese contrária, isto é, se a minoria impor, por caminhos diferentes do voto, (incluídas todas as formas de violência) suas escolhas ou seu programa de governo, passaremos a um regime de autoridade, que nega os fundamentos da liberdade e do mercado. É necessário que isso fique claro. Um regime de autoridade é negação da vida e da luta permanente que a vida faz de adaptação à circunstância e aos problemas.
Não custa lembrar nessa hora pós eleitoral o jurista paulista Miguel Reale. Ele advertia em seus muitos trabalhos, que o liberalismo não é apenas expressão do capitalismo, pois a liberdade econômica por si só não assegura o bom funcionamento do mercado. Além disso, não se pode deixar de lado a liberdade dos menos favorecidos, para que possamos falar verdadeiramente de liberdade positiva. Parece que foi o que também quis dizer Tancredo Neves em lindo discurso de boas vindas feito para os pracinhas no final da Segunda Guerra. Nele Tancredo dizia que eles haviam lutado e vencido pela democracia e pergunta: por qual democracia nossos irmãos arriscaram suas vidas? E dá a seguinte resposta: "pela democracia social e econômica, em que todos quaisquer que sejam as suas origens, o seu credo e a sua cor, seja assegurado, segundo as suas aptidões, a igualdade de oportunidades em busca da felicidade. A democracia do ensino gratuito em todos os graus, inclusive profissional. De uma completa assistência médica e hospitalar para todos os que dela carecem e não possam arcar com as despesas. A miséria é uma afronta aos povos cultos" (São João del-Rei, O Correio, 04.10.1945).
Não há como gozar dos benefícios da democracia e não respeitar suas condições de existência, pois só se meditamos sobre cada um de seus pontos de sustentação entendemos a razão de todos eles. E na democracia liberal, pelo vínculo à tradição cristã do ocidente, proclama a solidariedade nacional pela qual a vida de alguns não se faz distanciada da vida dos restantes. Nada comove tanto a um estrangeiro do que ouvir de um suíço que eles não admitem ver um compatriota na indignidade.  É esse sentimento de solidariedade nacional que a democracia real cria.
Em razão de esse regime ser o sonho de mais de uma geração de brasileiros, da luta de nossos pais e avós por sua implantação, que hoje precisamos cuidar dele como de uma jóia que herdamos. Uma jóia para se lapidar é verdade, pois a democracia como a vida está em contínuo aperfeiçoamento. No entanto, não faz sentido falar em divisão do país, depois de um processo eleitoral maduro, muito menos em explodir Minas para transformar o Estado numa grande lagoa. Aliás de todas as divisões propostas na Internet, nenhuma corresponde completamente ao último quadro eleitoral. E não custa lembrar que Minas é o coração de ferro do Brasil, não seremos lagoa. Porém nossa água, não se preocupem os paulistas, vamos dá-la de graça se a tivermos, isto é, se acordarmos a tempo de impedir a destruição da floresta amazônica e lutarmos contra o aquecimento global.
Assim, concluído o processo eleitoral é hora de deixar de lado a histeria e voltar à rotina e ao trabalho, à seriedade nos compromissos e no amor a essa grande nação respeitando o grande território que herdamos dos portugueses.
Não seria fora de propósito lembrar de nossa história que o nordeste foi durante os primeiros séculos da colonização a região que mais gerou riquezas, as demais viveram em sua função. E quando o eixo da atividade econômica deslocou-se para Minas devido à descoberta do ouro, os paulistas não só fizeram aqui fortuna, mas construíram uma economia agrícola forte em seu Estado para alimentar as pessoas que trabalhavam nas Minas. Foi também o que fizeram os tropeiros do sul. Ao ouvir algumas pessoas se pronunciarem na Internet, os comparo ao irmão mais novo que acabando o curso superior e com bela proposta de emprego, vira as costas ao outro irmão arrimo da família que o sustentou e pagou seus estudos e a mãe que sacrificou para lhe dar o carro novo.

O Brasil é uma só e grande nação. Com limites e grandezas compartilhadas. Somos o que somos juntos. Seremos a nação dos sonhos de nossos heróis se os honrarmos no nosso compromisso diário de superar os desafios que a vida traz. E há por certo muito a fazer.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O NOVO QUADRO POLÍTICO-PARTIDÁRIO DO BRASIL A PARTIR DE 2015. Selvino Antonio Malfatti.



Lembro-me que, quando crianças meus filhos ao lhes comprar algum livro, perguntavam:
- Tem desenhos? 
Se a resposta fosse positiva, vibravam.
 - Oba!

Nesta postagem vou apresentar um artigo em forma de "desenhos". Espero agradá-los e ouvir as interpretações

1.Para a Presidência.
Reelege-se Dilma Rousseff, - do Partido dos Trabalhadores – PT-  com uma pequena e apertada maioria: 51,6%. Portanto, praticamente metade dos brasileiros a apóia e outra metade é oposição. Por isso, tem uma maioria muito restrita. Para governar terá que não só ouvir seus aliados, mas prestar atenção no que a oposição reivindica. 
Pelo mapa vê-se que é incrível como persiste a constatação sociológica de Roger Bastide: Os Dois Brasil.





2.Governadores.
Os partidos que mais elegeram governadores nesta eleição para 2015 foram o PMDB (7), PSDB (4), PT (4) E PSB (4).


 3. Deputados.

O Partido dos Trabalhadores - PT, continua com a maior bancada de deputdos:70 deputados, embora perdesse 18 cadeiras. O segundo é o PMDB com 66, seguido pelo PSDB, com 54. deputados. Em seguida vem o PSD com 37 deputados.






 4. Senadores
O PMDB diminuiu um senador, de 19 passou para 18, assim mesmo terá o maior número deles. O PT também perde um senador e ficará, portanto, com 12 senadores. O PSDB terá 10 senadores, contras os 12 anteriores.




Por isso, bem se poderia concluir que quantitativamente:
"TUDO COMO DANTES NO QUARTEL D´ABRANTES".
embora nas entrelinhas se possa fazer outras leituras.









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