sexta-feira, 24 de março de 2023

QUARESMA. Selvino Antonio Malfatti.

 



 

O catolicismo , e algumas religiões cristãs como a Igreja Ortodoxa, a Anglicana, a Luterana, tem um período de seu ano litúrgico denominado Quaresma, cuja origem etimológica é Quarenta.

O cristianismo se alicerça sobre três grandes pilares: o pecado/culpa, redenção e o perdão. Dentre eles o mais problemático é o pecado por que gera a culpa coletiva e hereditária da humanidade. O pecado original. Exige arrependimento individual e coletivo para obter o perdão. Só com isso se restabelece a ordem na sociedade. Mas o que é a culpa original. É uma crença e sentimento coletivo de perda. O cristianismo apresenta como causa o pecado dos primeiros seres humanos. Prudentemente apresenta um corte da história humana: a presença da razão. Um “antes” e um “depois”. Evidentemente não há uma autocritica mais profunda do surgimento da razão. Foi instantâneo? Como a intervenção direta de Deus, pintada por Miguel Ângelo, em um Adão descansando no cotovelo do mapa do Brasil recebendo o elã espiritual do Deus da velha Europa?

Contudo subsistia o problema do mal. No início da Idade Média, um bispo, Santo Agostinho de Hipona, enfrenta a questão do mal. E a conclusão é que a causa do mal é o pecado e este tem uma origem inerente à natureza humana, é originário à natureza. No entanto, contrariando Pelágio, é necessária a graça de Deus. Não bastou o sacrifício de Cristo.

 HiponaHipona,

E o pecado cometido por culpa de quê? Que pecados poderiam cometer? Desobedecer a Deus? Pobres humanos! Coitados! E mais: uma culpa colossal que passa de geração em geração. Se não deveriam provar do fruto, senão conheceriam o bem e o mal, como poderiam fazer bem ou mal antes da desobediência, sem conhecer o bem e o mal? O problema está nisso: se a causa de todas as culpas é a primeira culpa da qual não há culpado porque então culpado?

Os personagens no ato do Pecado original: Deus, Adão e Eva, a serpente, o fruto. Desenvolvimento. A serpente insta Eva a provar do fruto, ela aceita, oferece a Adão este também aceita. São flagrados por Deus nus, são expulsos do Paraíso devem trabalhar sofrer e morrer.  A Salvação acontece com Jesus que se oferece em sacrifício para o perdão do Pecado Original e os demais pecados. 

Até mesmo a Igreja demorou para reconhecer o Pecado Original: século XVI d.C, no Concílio de Trento.

Este é o pecado original, origem da vulneração da natureza humana, da dor e do mal no homem e na sociedade. É um pecado de raiz, transmissível e geral aos seres humanos. O homem não se faz pecador, nasce com o carisma: “minha mãe me gerou em pecado”, diz o Salmo 51. Além disso, o pecado original é fonte de todos os demais pecados.

A questão é que o problema está invertido. Em vez de partir da hipótese do pecado (culpado), se deveria partir da virtude (inocência). Quem disse que somos maus, pecadores? Com certeza não foi Deus! Muito menos o sexo é algo repugnante.

Não existe nada para perdoar. Tudo que Deus fez é bom. Ele viu que tudo era bom. Foi uma obra perfeita, em que pesem as paixões e incoerências, mas superadas com livre arbítrio. Será que Deus deu o livre arbítrio como armadilha para induzir o homem ao pecado e condená-lo? Não se esconda de Deus. Sua nudez não é má. Não precisa ir longe para encontrá-lo. Ele está dentro de nós.

Diz o filósofo Baruch Spinosa:

‘Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?”

 


sexta-feira, 17 de março de 2023

DEZ ANOS DE PONTIFICADO DE FRANCISCO I . Selvino Antonio Malfatti.

 



Fazem 10 anos  que está no meio de nós. Foi só alegria. Continue conosco, Francisco. 

Qualquer instituição costuma de tempos em tempos proceder a uma análise crítica ou uma avaliação de si mesma. Esta análise pode ser de iniciativa  interna ou externa. Interna quando for de dentro para fora e externa se for de fora para dentro.

Precisamente em 13 de março de 2013 o cardeal Mario Jorge Bergoglio sucede no Trono de São Pedro a Bento XVI e torna-se papa. Marcou época, pois o primeiro Papa não europeu desde Gregório III (século VIII), o primeiro do continente americano, Cardeal de Buenos Aires e, portanto, fora dos muros do Vaticano. Durante o conclave longe das apostas dos fiéis e boa parte da hierarquia eclesiástica. Mereceu do cardeal esloveno Franc Rodé logo após a eleição o comentário: “Será um desastre”.

Nossa análise será de caráter externo, isto é, vista não pelo próprio agente, mas esporadicamente por ele e por outras pessoas ou órgãos.

Quando a fumaça branca brilhou sobre o céu do vaticano, todos ficaram na expectativa de quem seria. E o conclave mostrou o cardeal Bergoglio. Já era conhecido entre os cardeais, pois havia sido membro de órgãos da Cúria e voz corrente é que havia se posicionado em segundo lugar na eleição de Joseph Ratzinger. Continuava apesar disso a descrença. Já estava com 76 anos e as chances se esvaíam junto com a idade. Inclusive, ele próprio, ria dos conterrâneos que acreditavam nele como vitorioso. “Ninguém o esperava”, era o que se ouvia após o resultado da eleição.

Sem maiores pretensões destacamos em seguida os carismas de Bergoglio.

Bergoglio, como cardeal, costumava frequentar as periferias da metrópole. Ele mesmo dizia que Jesus preferia as periferias existenciais. Para ele o centro de Deus era a periferia do homem. Dizia ele que o Bom Pastor não deve ficar om as ovelhas da sacristia, mas ir buscar as 99 que não estão na igreja. Para salientar sua preferência, em suas viagens, preferia países distantes, de minoria católica, passando de lado de países numerosos e de maioria católica. Conversa com ateus, acolhe grupos transexuais, desabrigados e os recebe em alojamentos em Santa Marta. Inclusive é alcunhado de “papa das periferias”.

Suas viagens podem ser resumidas:

 Europa (17 viagens)

 Ásia (10 viagens)

 América (8 viagens)

 África (5 viagens)

 Oceania (0 viagens)

Francisco I dedicou-se também à ecologia. Inclusive com uma Encíclica: “Laudato Si”. Confronta a ecologia mundana que polui e a ecologia integral de Deus que enlaça o social e o ambiental. Une o grito da Terra e o grito dos pobres. O grito da Terra é um apelo à conversão interior. Não há saída, pois não existe um Planeta B. Condena a “gula dos recursos naturais”, mas também a tagarelice dos Encontros que deixam de tomar medidas efetivas. Inclusive sugere inserir no Catecismo da Igreja Católica o “pecado da ecologia”.

Um desvio novo ressurgiu no seio do cristianismo atual. Trata-se do clericalismo ou a influência temporal do clero na vida social, econômica e política. Para o papa não passa de um mundanismo espiritual nos moldes do domínio temporal sobre o espiritual. Nem o inverso Francisco defende. Considera um flagelo, pois coloca uma casta de sacerdotes superiores ao povo de Deus. Pertencem ao clericalismo aqueles que fazem da religião um trampolim para a escalada econômico social. Abusam da autoridade e exploram os pobres.  O remédio contra o clericalismo é o “cheiro das ovelhas”, ao caminhar junto com o povo de Deus.

O sínodo é um momento sagrado. É um caminhar juntos sob a inspiração do Espírito Santo. Por isso está longe de ser um Parlamento ou uma aferição de opiniões. A etimologia do sínodo dá a pista para o sentido eclesial. É um caminhar juntos, ouvir os outros inclusive com suas diferenças. É o carisma da Igreja de Francisco. Este é um modelo caro para o papa. Para tanto, promoveu reuniões e debates diocesanos, continentais, em preparação às assembleias sinodais previstas em Roma nos anos de 2023 e 2024, nos meses de outubro. Esta é fórmula da descentralização através da corresponsabilidade entre sacerdotes, leigos, em suma todos os batizados.

No entanto, o que angustia o papa são os rumos que está tomando o Caminho Sinodal alemão com a preocupação expressa do surgimento de um cisma tendo em vista algumas propostas radicais, como exemplo a ordenação de mulheres e abolição da obrigatoriedade do celibato.

A misericórdia se alcança pelo perdão através da confissão. Este é o procedimento tradicional e comum na Igreja católica. E também, que Deus sempre e tudo perdoa. Inclusive em 2016 lançou o Jubileu da Misericórdia. A parábola do Filho Pródigo é sua preferida, inclusive elegendo-a como lema: “Escolhido por que perdoado.” Não importa quantas recaídas houver, Ele sempre perdoa.

A cultura do Encontro deve prevalecer à cultura da rejeição. A cultura do Encontro é mais uma marca registrada de Francisco. Sua arquitetura  é forjada pelas iniciativas de paz, expressa na Encíclica Fratelli Tutti. Conjuntamente com o mundo árabe, através do Grande Ímã Al-Azhar Ahmed Al-Tayyeb, foi assinado em 2019: Documento sobre a Fraternidade Humana para a Paz Mundial e a Coexistência Comum. Neste documento são abordados temas polêmicos com fanatismo religioso, liberdade religiosa, direito das mulheres.

“Como eu gostaria de uma Igreja pobre, para os pobres!”, são palavras de Francisco. O sentido de pobre entendido pelo papa não é o pauperismo, mas o “não ser escravo da riqueza, não viver para a riqueza.” Dentre os pobres Francisco destaca os imigrantes, os quais o levaram a Lampedusa.

Evidentemente, os pobres são aqueles que constam no próprio  Evangelho.  Para Francisco “Os pobres são o nosso passaporte para o paraíso”.

 

 

sexta-feira, 10 de março de 2023

FIM DOS TEMPOS DA DEMOCRACIA. Selvino Antonio Malfatti


 


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Todos se apercebem quando um livro é simplesmente repetição do que outros escreveram e, ao contrário, há algo novo. No primeiro caso as teorias já consagradas são simplesmente repetidas. No segundo caso as próprias teorias tradicionalmente aceitas são postas em discussão e uma a uma são desmanteladas, tais como informática e internet comparável à máquina a vapor e eletricidade, as revoluções sociais e tecnológicas serem base da economia moderna? Ou, a sociedade da informação, com sua inteligência artificial, o último estágio do progresso?

Atualmente é lugar comum justificar qualquer coisa contrapondo à democracia, como se esta fosse o parâmetro da justiça, quando justamente a democracia está submetida à justiça. A justiça é a condição da democracia.

É o que o livro de Franco Bernabè e Massimo Gaggi, quer nos alertar. (“Profetas, Oligarcas e Espiões”)  O desenvolvimento digital não é simples progresso dos tempos atuais, mas uma alteração nas relações entre sociedade, economia e Estado. Em detrimento dos sistemas parlamentares e classe média.

Sobre os autores. Bernabé foi líder de grandes indústrias exercendo a presidência da CEO da ENI e da Telecom Itália, Energia e Comunicações. Gaggi foi vice-editor do jornal Corriere e há vinte anos vem decodificando a sociedade americana como colunista da Nova York.

Ambos passaram por grandes crises desde o pós-guerra. O 11 de setembro com o Atentado das Irmãs Gêmeas que deram origem ao Patriot Act, lei da vigilância em massa. A multidão de turbulentos que invadiu Capitol Hill, o Congresso Americano.

No início da Internet, como numa Lua de Mel, tudo era atraente e ilusoriamente gratuito. Este mundo novo que se vislumbrava e deslumbrava era propriedade da Big Tech.  No entanto, não será o domínio da tecnologia da web que frouxa os freios e contrapesos, alicerces da democracia, mas é a forma como essas concentrações de poder será submetida. Na verdade por trás delas está o poder econômico. Por isso, o primeiro a ser dominado será o poder econômico.   Neste, três variantes precisam ser colocadas nos limites: identificar os riscos do descontrole da tecnologia, chegar a um consenso de regras aplicáveis e introduzir um travão para domesticar os monopólios. O tabuleiro de jogo de forças pode ser definido: 1º A Europa tem vontade política, mas não tem força. 2º Os Estado Unidos tem a força, mas não consegue força política. 3º A China se aproveitando para monopolizar o poder político e econômico. Por isso, não basta deixar à mão invisível guiar a política, o algoritmo, mas manter o controle pelo debate democrático submetendo-o à justiça,

O que provocou o nascimento, crescimento e a consolidação de uma oligarquia venenosa para o funcionamento da democracia foi o processo de desregulamentação dos anos Noventa que permitiu à indústria da internet criasse raízes tão profundas que os impérios financeiros, dela originários, ocultassem os do passado. A vontade de Reagan era não matar no berço o recém-nascido. Quando se deu conta, contudo, já não tinha volta. Já não é tarde imaginar  como era antes de “curtir”?

Neste momento pululam os “arrependidos”. Como paradigma pode-se citar Evan Williams, conhecido como pai do Twitter, declarou publicamente: “Achei que dar às pessoas mais liberdade para trocar ideias e informações online era suficiente em si mesmo para criar um mundo melhor. Eu estava errado, a internet está quebrada”. Muitos agora lembram quantos denunciaram o mais tóxico do Vale do Silício: o Facebook. Tal como o ópio, o facebook criou em boa parte da juventude uma sensação generalizada de ansiedade, insegurança e irresponsabilidade. O setor editorial com certeza está em crise. O pensamento crítico foi sufocado. Em vez de bibliotecas surgiram “salas” que alimentam as ofensas, acusações, ódios, os piores instintos. Não há raciocínio, apenas exaltação da pornografia e crimes contra vida, homicídio, infanticídio e aborto.  

Qual a origem?

- A Seção 230, nos Estados Unidos, que protege as empresas. Ela praticamente as isenta da responsabilidade pelos conteúdos publicados por terceiros. Á chamada a Lei de Decência nas Comunicações (Communications Decency Act).

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 4 de março de 2023

Ministério da Verdade. Selvino Antonio Malfatti



Está nascendo mais um órgão no governo. É da Procuradoria Nacional da Defesa da Democracia pela (AGU) Advocacia-Geral da União, cuja função seria o “enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas”. Procuradoria Nacional da Defesa da Democracia pela (AGU) Advocacia-Geral da União, cuja função seria o “enfrentamento à desinformação sobre políticas públicas”.

De imediato a oposição encontrou semelhança com a proposta de Orwell, num dos quatro ministérios.

O novo organismo foi batizado pela oposição de Ministério da Verdade, por que, como na Revolução dos Bichos, o personagem Napoleão decidia o que os animais podiam ou não podiam dizer. Quem discordasse era afastado à força.

É estranho que tal instituição até agora não foi necessária, ou só aparece como órgãos similares em governos longe dos trilhos da democracia. Diante disso há uma desconfiança generalizada e que o verdadeiro objetivo é censura aos opositores. Reforça esta suspeita o fato de a maioria dos membros terem vinculação com a esquerda. Participam ainda da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e entidades dos meios de comunicação.

Alguns opositores louvam-se na esperança de diálogo com o governo, outros pela via legislativa, mas boa parte está cética. O senador Eduardo Girão pensa que a primeira proposta apresentada em janeiro era muito radical daí veio a reação da sociedade e do congresso. Conforme ele a proposta está se encaminhando para ser bem aceita, conforme opinião do partido PT. 

No entanto, pede-se muita cautela de uns e de outros - governo e oposição - para que avance para o aperfeiçoamento ou a ideia seja abandonada. O governo não quer o debate e a oposição acha o órgão desnecessário.

Mas de onde vem a ideia do Ministério da Verdade?

Nada mais nada menos que "1984" de George Orwell. Nesse é descrita uma sociedade totalitária ou Estado totalitário. O Grande Irmão vai estendendo seus tentáculos até não deixar mais possibilidade de o cidadão ter um mínimo de autonomia, quer externa que interna, como os dois amantes. O personagem Winston é funcionário de um dos quatro ministérios, o da Verdade. Os demais, o da Paz, Fartura, e Amor encarregado do Direito, da Justiça e da Segurança Pública, uma sistema de informações ou de espionagem. 

Ao Ministério da Verdade estão afetos as notícias, entretenimento, educação e cultura. A ele compete promover modificações em documentos com referência ao passado. O Partido sempre diz a "Verdade". Para tanto pode alterar o significado das palavras, a renovação da língua denominada de "novilíngua",ou, como pretendem alguns da atualidade.

A ambiguidade da proposta está no fato de ter duplo alcance. O governo pode ajustar a informação aos seus objetivos dizendo que há: “fatos inverídicos ou supostamente descontextualizados levados ao conhecimento público de maneira voluntária com objetivo de prejudicar a adequada execução das políticas públicas, com real prejuízo à sociedade”....

E onde fica a verdade? 

Até agora continua valendo a pergunta de Pilatos: 

- O que é a verdade?


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

O BRASIL NA ERA DO MINORITY REPORT. Selvino Antonio Malfatti.

 



Para quem acompanha a política dos poderes no Brasil, há uma similitude com o filme de ficção MINORITY REPORT. Nele se desenvolve a ideia de que é possível prever com precisão crimes que irão acontecer. Com isto o poder judiciário pode se antecipar e neutralizar o ato reduzindo os crimes a zero. Nesta lógica o poder supremo de uma sociedade seria o judiciário e a ele os demais poderes se submeteriam. E a ficção sofre seu revés quando um dos agentes entra na previsão de um crime.

A tese da superioridade de um poder sobre os demais é abordada exaustivamente pela ciência política. Podemos citar alguns como John Locke (Segundo Tratado), Charles de Montesquieu (O Espírito das Leis), Silvestre Pinheiro Ferreira (O Governo Representativo) e outros. Para Locke o poder superior é o de prerrogativa, para Montesquieu o poder real, para Silvestre o conservador. Não é um poder físico, mas moral. Nenhum dos poderes tem fisicamente superioridade sobre os demais, mas um é moralmente superior.

No Brasil, com o governo de Bolsonaro, começa a despontar a supremacia de um poder: o judiciário. Isso aconteceu quando o judiciário inova ao agir contra si mesmo. Desde o momento que iniciou a anulação de sentenças, estava agindo contra os demais poderes e tornando-se um superpoder: contra o legislativo por não acatar suas leis aprovadas e contra o executivo por passar por cima de leis sancionadas.

Todos os brasileiros sabem das consequências da anulação dos julgamentos de Lula no Lava Jato pelo ministro Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal - STF.

- as duas condenações contra Lula, nos casos Triplex do Guarujá e Sítio de Atibaia, foram anuladas. Com isso Lula poderá concorrer a reeleição, pois está livre do impedimento da Ficha Limpa.

A partir desde momento Lula passou para a proteção do escudo do STF e gozar de Passe Livre.

O judiciário é um poder com suas próprias atribuições. Não é nem maior e nem menor aos demais poderes.

No entanto, pela interferência do STF, o judiciário tornou-se um superpoder, desequilibrando a harmonia dos poderes. É muito provável que não foi proposital, mas as circunstâncias abrir caminho para isso. A partir do momento em que as reivindicações deixaram de seguir seu curso, o processo, e se dirigiram diretamente ao supremo e este acolheu. Estava aberta a brecha do desequilíbrio. As petições não passam mais pelo legislativo e muito menos pelo executivo, mas diretamente ao STF. E este gostou, inclusive incentivou a emergência de um superministro do Supremo. E está prestes a surgir a figura de “Superministro do Supremo”. Claro que não tem nada a ver com o Poder Moderador. Este era moral e o do Supremo físico. Mais próximo dos superministros do absolutismo francês: Mazzarino e Richelieu.

Quando se constata que ministros do supremo anulam sentenças para guindar alguém ao poder, só podemos nos acautelar que outros atos semelhantes poderão advir e levantar as mãos para o alto e pedir para nos livrar da tirania.

E aí está o perigo: uma tirania do judiciário.

sábado, 18 de fevereiro de 2023

A PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA NOS REGIMES DITATORIAS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Em regimes ditatoriais ou totalitários qualquer discordância ou oposição deve ser silenciada. Não nos iludamos: tolerância zero para oposição.

O bispo de Matagalpa, Rolando Alvarez, da Venezuela, por ser crítico do regime está sofrendo as consequências. O bispo foi condenado, em 10 de fevereiro, a 26 anos e quatro meses de prisão. Foi cassada para sempre sua nacionalidade nicaraguense e seus direitos cívicos.

Isto ocorreu no momento que ele se recusou a embarcar no avião que ele e mais de 200 prisioneiros seriam enviados como refugiados a Washington. Na ocasião foi insultado por um funcionário do governo chamando de “arrogante, desequilibrado, louco e feroz”. Conforme Daniel Ortega a Igreja católica foi cúmplice de uma tentativa de golpe.

As investidas contra a religião católica são frequentes. O bispo Silvio Baez foi condenado ao exílio em 2019. No início do mês, cinco padres foram condenados a dez anos de prisão. Com isto as maiores autoridades episcopais da igreja foram neutralizadas.

Num artigo Andrea de Angelis, em Vatican News, reforça as ideias da perseguição do governo da Nicarágua ao clero católico.

No início de fevereiro um tribunal da Nicarágua condenou o bispo Rolando José Álvarez Lagos a 26 anos de prisão, por se recusar a embarcar no avião com 222 pessoas, padres seminaristas, opositores ou críticos do regime. O bispo foi considerado Traidor da Pátria e deverá permanecer na prisão até 2049.

Até sentença do julgamento apareceu antes do julgamento com o bispo de Matagalpa. O julgamento estava previsto para começar em 15 de fevereiro, mas a condenação veio antes. (https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2023-02/nicaragua-condenado-bispo-matagalpa-prisao-alvares-ortega-igreja.html)

Católicos nas mãos de ditadores na Nicarágua:

- Em 2021 Ortega vence as eleições com 75% dos votos num ambiente de candidatos oposicionistas presos com acusações de fraudes por organizações internacionais.

- Documentos provam torturas e violações dos direitos humanos.

- Confinamento de dezenas de prisioneiros políticos em condições subumanas

- Autoridades eclesiásticas foram acusadas de tomar partido e comprometerem-se com golpistas.

- O núncio papal foi expulso do país juntamente com 18 freiras Missionárias da Caridade.

- Padres foram presos e estações católicas de rádio foram fechadas.

Na lista Mundial das perseguições da América Latina constam os seguintes países: Nicarágua, Venezuela, Honduras e El Salvador.

Além da Nicarágua ainda os cristãos sofrem perseguições e restrições nos países abaixo:

Venezuela, Honduras e El Salvador.

 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

ESTE NÃO É O SOCIALISMO VERDADEIRO! Selvino Antonio Malfatti

 





Quando se apontam as falhas das experiências socialistas é comum ouvir-se a frase:

- Este não é o socialismo verdadeiro! - 

A jornalista da Gazeta do Povo, Bruna Komarchesqui, se dispôs a discorrer sobre o assunto.

O que até agora se tem mostrado é que nenhum socialismo deu certo. Sobre as tentativas que superam duas dezenas e o que se poderia concluir é que cem por cento fracassou. O que se constata é que no entusiasmo inicial da implantação de algum socialismo, os intelectuais se derretem em tecer elogios, mas quando começam aparecer rachaduras no edifício, logo se apressam em se desculpar dizendo que “este não é o verdadeiro socialismo”. Assim aconteceu com a Rússia, Cuba, China, Coreia e outras.

O socialismo tem falhas? Não. Não é o socialismo que tem falhas, mas ele próprio é a falha. O socialismo é uma contradição “in terminis”, assim como vivo e morto. Não podem existir simultaneamente socialismo e liberalismo.

O controle democrático do poder? Esta ilusão foi muito bem estudada por Friedrich Hayek. Este conclui que a realidade mostra que acontece o contrário, isto é, o socialismo leva à concentração do poder nas mãos do Estado. Esta é a conclusão do pensamento liberal. Curiosamente o lado socialista chega à mesma conclusão. O partido, e no caso socialista é o poder visível do Estado, amordaça a sociedade com suas tenazes e concentra em si todo poder. É a conclusão de Robert Michels em os “Partidos Políticos.” Portanto, ambos chegam à idêntica conclusão. Michels aponta razões práticas que evitam a renovação e o poder continue sempre nas mãos dos mesmos.

       “Conforme Michels a lógica democrática deveria reger-se pela substituição contínua dos mais antigos pelos mais jovens para não deixar que os cargos de direção se incrustem no poder. No entanto, o que acontece é exatamente o inverso. Os partidos socialistas têm uma sólida organização, fazendo que a representação se assente mais no passado que no presente. É a lei da inércia que leva a isso, uma preguiça gregária que renova o mandato dos mesmos chefes. Contudo, isso não ocorre por falta de normas. Há uma determinação de que, em cada congresso anual, o partido deva renovar-se pelo voto secreto, bem como, com maioria absoluta, todo o comitê de direção composto de sete pessoas. Entretanto, o que se observa é que, em cada congresso, se distribui aos delegados cédulas impressas com os nomes dos membros da direção anterior. Isso mostra não somente uma continuidade de mandatos como também uma forma de pressão para consegui-los”.(MALFATTI, S. A teoria das elites como  uma ideologia para perpetuação no governo. Revista Thaumazein v. 1, n. 2 (2008) ›

 

 O socialismo tem falhas? Não é o socialismo que tem falhas, mas ele próprio é a falha. O socialismo é uma contradição “in terminis”, assim como vivo e morto. Não podem os dois existir politicamente simultaneamente.

São várias as tentativas de implantação do socialismo. São duas as formas clássicas. A dita via “democrática” e a revolucionária. Ambas acabam sendo violentas. Citaremos algumas experiências:

      Chile

Após eleito e assumir o poder Salvador Allende promove, por decreto, a reforma agrária, a nacionalização do cobre, carro chefe da exportação, estatização dos bancos e indústrias.

As consequências se fizeram sentir imediatamente. Aumento de desemprego, a moeda se desvalorizava, a inflação atingia o teto de 381% e os produtos despareceram das prateleiras.

Ao autogolpe planejado, Pinochet promove um golpe militar e Allende se suicida.

      Alemanha Oriental

Após a pacificação em 1949, os soviéticos, que ficaram com várias ocidentais,  fundaram a República Democrática Alemã, com a construção do Muro de Berlim como “proteção antifascista” dividindo a Alemanha ao meio. A ocidental, liberal e democrática, e oriental socialista.

Quando as duas foram reunificadas pela derrubada do Muro de Berlim se pôde ver a defasagem da oriental: o PIB da oriental era apenas um terço da outra, não havia parâmetros que aproximassem as duas em produtividade, tecnologia, expectativa de vida e outros.

      Coreia do Norte

A Coreia do Norte possui uma fachada liberal, como a realização periódica de eleições. No entanto, a realidade mostra uma ditadura stalinista totalitária, com um culto quase teocrático de A Coreia do Norte oficialmente se descreve como um Estado socialista autossuficiente e formalmente realiza eleições. Vários analistas, no entanto, classificam o governo do país como uma ditadura stalinista totalitária, particularmente por conta do intenso culto de personalidade em torno de Kim Il-sung e sua família.

Caracteriza-se pela estagnação econômica, violação dos direitos humanos e liberdades públicas e controle dos meios de divulgação.

Poderíamos desfilar experiências socialistas. Preferimos buscar os passos  geralmente seguidos pelos líderes socialistas.

1º Apresentação à sociedade do socialismo como um ideal perfeito: paz, bem estar social e econômico. Seria um paraíso terrestre.

2º Necessidade de pequenos ajustes: desapropriações, acomodações coletivas, comida racionada.

3º Eliminação dos inimigos do povo; fuzilamentos, prisões, deportações.

4º Implantação da ditadura: fim das liberdades públicas.

5º Instalação do totalitarismo: domínio da consciência - liberdades internas.

Assim sucedeu na Rússia, China, Cuba e outras experiências socialistas.

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