domingo, 28 de fevereiro de 2021

ESPARTA E ATENAS – MAIS SEMELHANÇAS QUE DIFERENÇAS. Selvino Antonio Malfatti.

 



Eva Cantarella é professora universitária de direito romano e direito da Grécia antiga da Universidade degli Studi di

Milano e reitora da Faculdade de Direito da Universidade de Camerino. Autora de Diritto e teatro in Grecia e a Roma.

A título de aprofundamento propôs-se revisar as diferenças e semelhanças das Cidades-Estado de Esparta e Atenas. Chega à conclusão de que há mais semelhanças que diferenças entre elas em que pese de comumente se salientar as diferenças.

No rol das diferenças principalmente comandantes militares costumam chamar a atenção do caráter beligerante de Esparta, como Joseph Goebbels que se se dizia sentir como numa cidade alemã por que a Alemanha nazista era a “Nova Esparta”, cidade de conquistadores, capazes de através dos séculos preservar a raça pura, estes mesmos 6.000 combatentes dominaram os 360.000 mil invasores.

Para Robespierre e os Jacobinos, os espartanos eram o modelo de virtude cívica, exemplos de sentido de dever e sacrifício por si mesmos e pela coletividade. Como Leônidas e os Trezentos, dispostos a imolar-se para defender a pátria dos invasores bárbaros.

Em Stalingrado, nem mesmo durante a derrota, o marechal de campo Göring, chega a exclamar: "Viajante, se você for para a Alemanha (para Esparta), diga a eles que nos viu lutar em Stalingrado (nas Termópilas), obedientes à lei, pela segurança de nosso povo!"

 

 Afinal, os comunistas não eram os novos bárbaros, prontos para descer à Europa para destruí-la? E não importa se os alemães haviam invadido e não os russos, prontos para massacrar a Europa, como fizeram no Leste europeu?

Quanto Atenas recebe elogios de toda parte, mas não merece tanto. Dizia Donald Trump hà alguns anos: "Eu amo os gregos, oh, eu amo os gregos ..."Com ele se encerra a fila de presidentes e políticos norte-americanos que faziam questão de comparar os Estados Unidos à Atenas associando-a ao berço da democracia e da liberdade. Na Segunda Guerra Mundial se associou Atenas aos Estados Unidos e Esparta aos soviéticos.

A ideia volta a ganhar força sempre que se deseja exportar a democracia ateniense (norte-americana) para o resto do mundo. Dizia George W. Bush: "A América não é uma potência imperial, é uma potência libertadora".

 

Em tempos mais recentes, tem sido usado para justificar iniciativas infelizes. A comparação com Atenas volta continuamente quando se discute a necessidade de "exportar" a democracia para o mundo.

No entanto, a fama entre historiadores não é tão louvável. Quando se pergunta, como Atenas tratava seus aliados, historiadores não duvidam de classifica-los: “como vacas a serem ordenhadas continuamente”.

Eva Cantarella desmascara em parte este mito: Esparta igual autoritarismo, militarismo, armas, corpos sadios para a guerra. Atenas igual à democracia, educação, mente sã para as artes. Esparta aparece como uma miragem, envolta em brumas de um passado glorioso, com uma constituição de setecentos anos, mas agora desaparecida.  Ao contrário Atenas salienta-se como a cidade do Partenon e da democracia sempre viva.

Como foi destacado, muitas vezes predominam estereótipo, chavões, lugares comuns. Um deles é afirmar que Esparta desprezava a cultura. Os espartanos prezavam o poder da palavra e valorizavam ir direto ao assunto, sem rodeios e enfeites desnecessários que só servem para complicar em vez de clarear. É o famoso estilo lacônico dos espartanos, arte de sintetizar em poucas palavras todo um pensamento que os prolixos gastariam uma verdadeira verborreia.

A propaganda ateniense foi eficiente: conseguiu incutir que o estilo lacônico era ignorância. Por outro lado os espartanos também foram eficientes quando identificaram um estilo eloquente das mulheres, com os atenienses em superficialidades e discussões de futilidades.

Na verdade Esparta estendia a educação às mulheres no momento que as considerava parte do projeto cívico. Mas teve o preço: a eliminação do espaço privado da família e do indivíduo. Não havia lugar para laços afetivos entre mães e filhos. Tudo era público e os filhos não eram da família, mas do Estado.

Cantarella salienta que ambas, Esparta e Atenas, estavam engajadas num projeto político, diferindo no modelo: Esparta apoiava-se no Estado e Atenas na sociedade.

No entanto, é sintomático como espontaneamente as sociedades autoritárias se identificam com Esparta e as democráticas com Atenas. Os mais paradigmáticos se mostram ser o comunismo Soviético com Esparta e a democracia americana com Atenas.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

O OUTONO DA IDADE MÉDIA. Selvino Antonio Malfatti

 




Trazemos esta semana para a reflexão um pensador holandês, Johan Huizinga (1872-1945), em (Sacro e quotidiano, i segreti del Medioevo  - Sacro e cotidiano: os Segredos da Idade média).   

Considerado eminente filósofo e historiador da cultura do século XX, teve destaque em retratar os padrões culturais: descrever pensamentos e sentimentos, e suas manifestações em obras de literatura e arte.

Neste artigo comenta a Idade Média no período em que foram lançadas as bases do mundo moderno. Com certeza não aceita a afirmativa, sem comprovação científica, de Leonardo Bruni e Francesco Petrarca, de que a Idade Média foi um período de trevas, uma Noite de mil Anos, um hiato de barbárie do esplendor da cultura greco-romana e o alvorecer da Idade Moderna. Huizinda se propõe a uma crítica. Primeiramente se pergunta pelo início e com ele o quê e por quê? Não basta dizer quando começou, mas o quê começou?  Explicar o conteúdo implica em explicar o quê do conteúdo.

O que fez mover a engrenagem medieval?

A difusão do cristianismo? As crises demográficas, os climas, a economia, a ética dos séculos II a VII? O fenômeno migratório? Se colocados tais problemas não levarão ao “mito” evolucionista?

Parece que a Idade Média não fugiu à regra das sociedades de nascer, se desenvolver e entrar em declínio, isto é, teve seu outono ou ocaso.

Novamente a questão? O quê e por quê? Conteúdo e causas. Podem ser apontadas: perda da importância das instituições eclesiais, perda de confiança no modelo político, a substituição do universalismo pelos estados e nações, a ordem cósmica substituída pela concepção humana e a consequente secularização, a ética universal cede lugar ao individualismo, novos valores éticos como econômicos e tecnológicos, dão lugar aos religiosos e sobrenaturais.

Tudo isto nos leva a pensar em múltiplas intersecções de formas dialógicas: unidade e diferença, homogeneidade e diversidade, conservação e reforma, ordem e mudança, continuidade e descontinuidade e permanência e ruptura.

Mas há um fato novo em tudo isto: a dilatação do mundo. O pequeno mundo europeu com a parte conhecida do oriente, de repente, se expande em continentes em proporções até então não imaginadas. Os novos mundos abriram-se à exploração e o homem deixou para trás as antigas teorias e lançou-se ao explorando. Este é o conteúdo e a causa da Idade Moderna. Como diria Carlo Maria Cipolla: Foram os navios e os canhões que transformaram o mundo antigo e medieval.

A Idade Moderna incorporou as concepções cosmológicas da antiguidade e da Idade Média: pelo primeiro, um sistema de terras cercadas por mares imensos, montanhas, pântanos, desertos e florestas habitados por feras ou monstros. Jamais seria capaz de possuí-lo; pelo segundo uma imensa esfera, agora com um homem determinado pela vontade e secundado pela tecnologia conseguirá não só dominar, como possuir o sistema.

 

Frases famosas de Johan Uizinga:

La povera Europa si avviava verso la prima guerra mondiale come un'automobile sgangherata in mano di un conducente ubriaco per una strada tutta buche e cunette.

(A pobre Europa caminhava para a Primeira Guerra Mundial como um carro em ruínas nas mãos de um motorista bêbado em uma estrada cheia de buracos e buracos.)

Educators are aware that they can reach the youth only by making use of gang spirit and guiding it, not by working against it.

(Os educadores têm consciência de que só podem atingir os jovens fazendo uso do espírito de gangue orientando-o, não o combatendo.)

These are strange times. Reason, which once combatted faith and seemed to have conquered it, now has to look to faith to save it from dissolution.

"Estes são tempos estranhos. A razão, que outrora combateu a fé e parecia tê-la conquistado, agora deve recorrer à fé para salvá-la da dissolução."

Revolution as an ideal concept always preserves the essential content of the original thought: sudden and lasting betterment.

(A revolução como conceito ideal sempre preserva o conteúdo essencial do pensamento original: melhora repentina e duradoura.)

((“Fonte: https://le-citazioni.it/autori/johan-huizinga

 

 

 

 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Autodesenvolvimento e vida autêntica. José Mauricio de Carvalho

 


                                     Frankl


Ortega

Quando a filosofia existencial dirigiu o olhar dos filósofos para a vida concreta do homem, indicou não somente uma nova fase para o humanismo como olhou o homem, por inspiração fenomenológica, como objeto de estudo cuja existência faz com que o mundo apareça. Sim, os filósofos entenderam que cada homem é um mundo porque seu olhar para o que existe é único, mesmo que algumas coisas, que estão entorno ao sujeito, possam ser concebidas em comum e compartilhadas com os outros existentes. O olhar dos estudiosos se dirigiu para a experiência pessoal e única que torna singularíssima cada vida humana e a diferencia das demais. Cada homem seria ele mesmo, no tanto que fosse fiel a sua vocação, seu olhar ou ao seu núcleo íntimo.

A primeira consequência dessa forma de problematizar a existência humana é considerar que que o existente emerge do nada, busca o sentido de sua vida a partir de seu olhar para o mundo e, nessa busca, ele se sustenta em algo íntimo, segundo ensinou Martin Heidegger em Ser e Tempo. Seguir o caminho dessa singularidade pessoal é a maneira de ter uma existência autêntica, mas o homem não é obrigado a fazer isso e pode perder-se de si mesmo, comentou Ortega y Gasset no livro Entorno a Galileo. Essa constatação revela que o homem pode seguir ou não o caminho de seu verdadeiro ser. Caminho, observou Ortega y Gasset, influenciado pela sociedade e pelo tempo que se vive, mostrando que a fidelidade a si mesmo se exprime em ações e possibilidades numa sociedade concreta. No ensaio Ensimasmiento y alteración, Ortega detalhou como se desenvolve essa fidelidade em movimentos para dentro e para fora, processo em que cada um investiga o que crê de verdade e o que o faz ser fiel a suas verdades pessoais. Essas verdades íntimas e singulares são compartilhadas com as objetivas como as verdades da ciência, da filosofia e da religião.

Os filósofos da existência e raciovitalistas como Ortega y Gasset irão dizer que a vida autêntica vem do cumprimento de um projeto existencial, a realização de um sentido, ou mesmo de uma vocação, de uma missão que se singulariza na história de vida e no ambiente de cada homem. Algo maior e mais profundo que uma simples escolha intelectual, um ajuste interior esclarece em Meditación del Escorial. A psiquiatria existencial assumiu esse núcleo íntimo como orientador, não somente de uma vida autêntica, mas de uma vida saudável psicologicamente. Viktor Frankl foi o psiquiatra que melhor sistematizou essa tese em A questão do sentido em psicoterapia mostrando que o vazio existencial (viver sem sentido) estava na raiz de uma série de transtornos ou sintomas emocionais como depressão, violência e tentativas de suicídio. Isso porque o consultório de psiquiatras e psicólogos se encheu, no século passado, de pessoas que diziam que a vida não tinha razão de ser, que ela perdera a alegria de viver, que tinha tudo para ser feliz, mas não era, que andava triste sem motivo, dormia mal, mal comia, sentia-se triste, etc. Esse tipo de queixa, na grande maioria das vezes, indica o vazio existencial ou falta de uma razão para viver.

A experiência que viveu nos campos de concentração, que Frankl detalhou no livro Em busca de sentido, mostrou que o prisioneiro sem boa razão para viver, adoecia com maior facilidade e morria mais rapidamente. Esse fato, que pesquisas médicas recentes identificaram, foi o que Frankl registrou nos campos de concentração. Frankl verificou no que considerou o maior experimento que alguém podia fazer que, quando um prisioneiro se desconectava de um sentido, perdia o interesse de viver, adoecia e morria em seguida. Isso parece-lhe uma justificativa válida de sua constatação de que os mais aptos a sobreviver eram os que tinham uma razão para seguir vivendo, conforme reafirmou em O que não está escrito nos meus livros. (FRANKL, 2010, p. 115): “Esse foi o experimentum crucis. A capacidade primordial humana da autotranscendência e do autodistanciamento, como tanto enfatizo nos últimos anos, foi verificada e validada existencialmente no campo de concentração.”

Estudos de Ortega em La rebelión de las masas sobre o homem-massa, encontraram um homem sem compromisso com a excelência, infantil, acrítico, inculto e os trabalhos de Zygmund Bauman em Modernidade líquida tratou das características dessa sociedade de massas. Tratava-se de uma sociedade sem forma, onde não há firmeza. Essa sociedade é caracterizada, segundo o sociólogo, pela liquidez, volatilidade e fluidez de todas as suas relações. Ambos os autores mostraram o tamanho do desafio de descobrir um sentido ou missão existencial nesse espaço coletivo. Nesse tempo e espaço, com profunda crise de humanidade, é que temos o desafio de modificar o entorno para não submergir nele. Para Ortega y Gasset temos um movimento de dentro para fora, que se combina com a busca de um sentido, comparável a uma flecha em busca de um alvo. Vida autêntica não se alcança com um simples mergulho íntimo.

Frankl, por sua vez, ensinou a olhar esse movimento como a realização de um sentido presente no inconsciente, mas não num como foi descrito por Sigmund Freud, mas num inconsciente espiritual. Um inconsciente que não substitui a dimensão instintiva estudada pela psicanálise, mas que se forma pela repressão de valores espirituais e por reduzir a vida a pura relação com os fenômenos. Frankl ensinou a buscar o autoconhecimento que leva ao autodesenvolvimento. Isso somente virá com o respeito ao que nos entusiasma e desafia.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Manual para destruir a democracia. José Mauricio de Carvalho

 





 

Considerando os inúmeros interessados no tema, consolidam-se abaixo alguns passos para destruir as liberdades democráticas, o estado de direito e assegurar a implantação de uma ordem totalitária:

1.O primeiro e o mais importante dos passos é desqualificar os outros poderes do Estado, a ênfase deve ser sempre colocada na autoridade presidencial, imperial ou real. É importante propagar que legislativo e judiciário são integrados por gente corrupta e inimiga do povo. Esse é um ponto fundamental, a pedra angular desse pequeno receituário;

2. Divulgue continuamente que o governante (presidente, rei ou imperador) é alguém puro que luta pelo bem do povo contra a gentalha corrupta que ocupa os demais postos do Estado ou que já assaltaram o Estado. Verdadeiro pai do povo, honesto, puro, incorruptível e verdadeiramente interessado no bem de todos os homens bons. Isso dá ótimos resultados;

3. Associe o governante a Deus, sempre é bom que ele seja considerado defensor da autoridade divina, que fale em seu nome, ou ao menos que esteja entre seus servos fiéis, mesmo que suas ações sejam claramente contrárias aos ensinamentos religiosos. O que ele faz importa pouco, se ele for apresentado como bom devoto;

4. Repita, todo o tempo, que os adversários do governante são desqualificados moralmente. Um tipo de gente a quem não se deve dar atenção: ladrões, corruptos e assassinos, contra os quais é preciso proteger o santo governante;

5. Estenda esse tratamento violento e irracional a todos os críticos do governante, pois se afinal alguém o critica, deve integrar a matilha de ladrões, corruptos e assassinos que são seus adversários;

6. Não dialogue com os críticos, é gente má, comedora de criancinha, assassinos. Pode chamá-los de comunistas. Não importa o que isso signifique. Não estamos interessados em clareza conceitual. Apenas xingue, xingue, xingue. Sempre que possível lhes associe vícios: são invejosos, orgulhosos, egoístas, a vaidosos, soberbos, maledicentes etc. Não economize nos adjetivos desqualificadores, quando mais usar melhor.

7. Considere os apoiadores do governante como pessoas nobres, pois afinal de contas se apoiam um homem de tanto caráter e bondade é porque também eles, seus apoiadores, são dotados dessas qualidades extraordinárias. Isso é promissor pois;

8. Divide a nação em dois grupos, nós os bons e eles os maus e ajuda a mobilizar os partidários contra os críticos de dentro e de fora.

9. Se você seguiu esses passos até aqui agora pode aplicar o golpe de mestre, próprio dos doutores no assunto: o Argumentum ad hominem, que é uma falácia lógica nesse caso usada para evitar discutir as ideias dos adversários e destruir direto o autor delas. Trata-se de falácia porque conclui sobre o valor da proposição sem examinar seu conteúdo. Mas, afinal, que importa o argumento dos adversários?  Ninguém pensa muito mesmo.

10. Espalhe que o que assegura a ordem da sociedade não são as leis constituídas legitimamente por um parlamento eleito (o estado de direito e as forças de segurança na garantia constitucional da lei a da ordem), mas sua força militar que decide por conta própria e arbitrariamente o destino da sociedade. 

11. Eleja os críticos externos como integrantes de um movimento contrário ao nobre e santo governante, um complô internacional contrário a ele, fruto de um movimento qualquer;

12. Se você for mesmo bom e já tiver incorporado o espírito da coisa e já entendeu que não é preciso explicar em que consiste esse movimento, basta dar um nome qualquer pomposo (globalismo, esquerda, por exemplo) e dizer que ele é terrível, indescritível, anticristão;

13. Associe esse movimento a uma causa metafisicamente má, numa sociedade cristã diga, por exemplo, que é conduzido pelo anticristo. Em contrapartida, associe seus radicais companheiros de missão à pureza da fé religiosa. Isso dá ótimos resultados, pois mesmo fazendo absurdos essas pessoas se acreditarão servos de Deus;

14. Demonstre fidelidade absoluta ao governante, não é necessário pensar, a autoridade pensa por você. Afinal, os adversários são maus e o governante é bom. É o que importa;

15. A verdade é sempre a que sai da boca do governante. Tudo o mais é mentira. Filósofos e cientistas e suas manias de experiência e evidência não merecem crédito. Assim procedendo teremos um tempo de obscurantismo muito adequado às ditaduras e sistemas totalitários;

16. Crie uma milícia radical que ameace as instituições, a inteligência, promova ações contra as leis, ataque as instituições de Estado, divulgue acriticamente propaganda do governo, ocupe as mídias sociais, um grupo religiosamente fiel (como a Gestapo no nazismo e a KGB nos tempos dos da União Soviética) ao governante. Se necessário invada o parlamento e a corte maior de justiça, ações de intimidação ajudam à causa;

17. Ataque a imprensa livre e crítica, afinal jornalistas têm a péssima mania de verificar a informação e duvidam do que sai da boca santa do governante sem antes verificar a veracidade dos fatos. Ataque, ameace, intimide e humilhe os jornalistas que criticam o governante. Acuse-os também de mercenários, ajuda muito à causa;

18. Ataque os defensores dos direitos humanos e os ecologistas. São comunistas disfarçados.

A adequada execução desses passos é garantia de sucesso e implantação de um governo totalitário ou, no mínimo, uma ditadurazinha. 


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Emanuele Severino. Selvino Antonio Malfatti- Doutor em Filosofia

 



Com 90 anos (1929-2020) desaparece o filósofo italiano Emanuele Severino na Brescia, sua cidade natal. Concentrou sua pesquisa e elaboração filosófica em três teses: a verdade do ser, a morte e a eternidade de Deus.  Licenciado em Filosofia pela Universidade de Pávia, com a tese sobre Heidegger e a Metafísica, transitou também na história do pensamento ocidental sob os pontos de vista religioso, científico e filosófico. Batia de frente com as teses católicas ao negar o Além, a Salvação e outros temas. Paulatinamente vai sendo expelido da Universidade católica de Milão pelas suas posições ateias como sustentar que a fé é uma contradição e o cristianismo é uma alienação essencial do ocidente.

Para ele a pergunta “o que é a filosofia” é tão decepcionante pelas respostas tão díspares e numerosas que passa até a vontade de querer saber a resposta. Prefere apresentar a metáfora da matilha de cães correndo atrás de filosofia ferida de morte. Cada um se gabando a seu modo dizendo que foi ele que a reduziu a isto. Dizem: "Fui eu que a reduzi assim!", "Não, fui eu!", "Estávamos todos juntos!". Severino, no entanto, prefere outra explicação. Não foi a ciência moderna, nem a sociedade burguesa, nem o cristianismo. Ninguém a matou, apenas a matilha demonstra que o mundo  pode viver sem ela. Seu ferimento mortal consiste em ter-se auto-infligido o mortal propósito: querer ser a verdade absoluta do vir-a-ser do mundo. Esta vontade é a ferida mortal que condenou a filosofia à morte. Pergunta-se o filósofo: o que aconteceria se o devir do mundo (sair a voltar a nada) fosse uma evidência? Não seria uma loucura extrema?

Frases marcantes de Emanuele Severino:

“Nascere vuole dire […] uscire dal niente; morire vuol dire tornare nel niente: il vivente è ciò che esce dal niente e torna nel niente.“

(“Nascer significa [...] sair do nada; morrer significa voltar a nada: o viver é o que sai do nada e volta a nada ”.

“„La democrazia è una fede.“

("A democracia é uma fé. ")

“Ogni civiltà, e soprattutto quella occidentale, non è stata altro che edificante – anche e proprio quando ha prodotto l'estremo della distruzione e dell'orrore. Potrà mai accadere all'uomo di non essere edificante?“

(“Cada civilização, especialmente a ocidental, não foi nada além de edificante - mesmo e precisamente quando produziu o extremo da destruição e do horror. Pode acontecer ao homem não ser edificante?)

„È del tutto fuorviante condannare l'«Occidente» e il capitalismo per aver dominato e sfruttato il resto del mondo. I popoli non hanno morale. Se ne è mai visto uno sacrificarsi per un altro? Quando hanno potenza si impongono sui più deboli, come la natura riempie il vuoto.“

(É completamente enganoso condenar o "Ocidente" e o capitalismo por dominar e explorar o resto do mundo. Os povos não têm moral. Você já viu um sacrifício pelo outro? Quando têm poder, impõem-se aos mais fracos, pois a natureza preenche o vazio. ”)

„In quanto destino della necessità, la verità è l'apparire dell'esser sé dell'essente in quanto tale (ossia di ogni essente); e cioè l'apparire del suo non esser l'altro da sé, ossia dell'impossibilità del suo divenir l'altro da sé, ossia del suo essere eterno. L'apparire dell'essente è l'apparire della totalità degli enti che appaiono […] Le parti sono un molteplice. L'apparire di una parte è la relazione dell'apparire trascendentale a una parte di tale totalità […] Ciò significa che esiste una molteplicità di queste relazioni. In questo senso, molteplice non è solo il contenuto che appare, ma anche il suo apparire.“

(“Como destino da necessidade, a verdade é a aparência do próprio ser do ser como tal (isto é, de todo ser); ou seja, a aparência de não ser o outro de si mesmo, ou seja, a impossibilidade de se tornar o outro de si mesmo, ou seja, de seu ser eterno. A aparência do ser é a aparência da totalidade das entidades que aparecem [...] As partes são um múltiplo. A aparência de uma parte é a relação da aparência transcendental com uma parte dessa totalidade [...] Isso significa que há uma multiplicidade dessas relações. Nesse sentido, múltiplo não é apenas o conteúdo que aparece, mas também sua aparência. ”)

„La posizione di Parmenide è singolare perché è anche il punto di maggiore contatto con l'Oriente. […] La soluzione radicale di Parmenide è questa: il divenire non minaccia più, non può essere nocivo perché non esiste. […] Tutto l'angosciante, tutto il terribile, tutto l'orrendo del mondo è illusione; questo è il senso della doxa di Parmenide. Ebbene questa è anche la strada percorsa dall'Oriente: i Veda, le Upanishad, la ripresa buddista del bramanesimo sono tutti grandi motivi che convergono su questo punto: l'uomo è infelice perché non sa di essere felice, perché non sa che il dolore è al di fuori di lui, e che lui è un puro sguardo che non è contaminato dal dolore che gli passa innanzi, così come lo specchio non è contaminato dall'immagine che si riflette in esso.“ 

(“A posição de Parmênides é única porque também é o ponto de maior contato com o Oriente. [...] A solução radical de Parmênides é esta: tornar-se não mais ameaça, não pode ser prejudicial porque não existe. [...] Todo o sofrimento, todo o terrível, todo o horror do mundo é ilusão; este é o significado da doxa de Parmênides. Bem, este também é o caminho percorrido pelo Oriente: os Vedas, os Upanishads, o renascimento budista do Bramanismo são todos grandes motivos que convergem neste ponto: o homem é infeliz porque não sabe que é feliz, porque não sabe disso a dor está fora dele, e que ele é um olhar puro que não se contamina com a dor que passa diante dele, assim como o espelho não se contamina com a imagem que nele se reflete ”.)

(Fonte: https://le-citazioni.it/autori/emanuele-severino/)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


sábado, 23 de janeiro de 2021

Globalismo ou a destruição das boas causas. José Mauricio de Carvalho

 



O aumento do número de mortes no Amazonas e em todo o país resulta das aglomerações nas festas do final do ano e de uma nova variação mais contagiosa do vírus. Uma combinação ruim agravada pela má condução da pandemia pelo governo federal. Esse último fator mostra-se na pouca importância com que o governo tratou o assunto desde o início da doença, menosprezando o poder letal do vírus. A autoridade e seguidores veicularam maciça propaganda nas mídias sociais menosprezando o poder da doença. Propagaram o contrário do que ensinavam os especialistas em saúde pública. Sua estratégia pode ser resumida em dois pontos: menosprezo à letalidade da doença e ridicularização dos cientistas. O procedimento é semelhante ao que fizeram os nazistas quando usaram a ciência para justificar o racismo, isso contra as evidências. Com base nisso mataram milhões de pessoas com a justificativa de que eram vidas inferiores ou de segunda classe.

Esse desprezo à ciência e atitude irresponsável com a pandemia foi igualmente adotada pelo governante norte-americano recentemente derrotado nas eleições. E como ele justificou lá sua atitude radical e contrária a essa e outras boas causas? Com a mesma estratégia de cá, maciça propaganda na mídia, com um número infindável de mentiras, acusando lá de comunistas, como fazia a turma de cá chamando de petista, a todo crítico de suas ideias. Nesse meio tempo atacaram a imprensa livre porque os jornalistas, por dever de ofício, deviam verificar a autenticidade das notícias veiculadas. Como descobriram rapidamente e denunciaram a mentirada, lá e cá, foram atacados pelos governantes da mesma forma implacável.

Como foi possível legitimar o obscurantismo contra a ciência e ainda ter outros ganhos como o afastar-se de acordos internacionais de proteção ambiental? Como destruir a legislação de proteção ambiental sem provocar uma comoção pública? O governante derrotado nos Estados Unidos apresentou à classe média americana algo que ela gosta de ouvir, vamos colocar o país acima de tudo, vamos valorizar a América: America First era seu lema. E assim, parecendo defender o obvio e algo querido entre os americanos, implantou e levou adiante uma política de destruição da proteção ambiental, como se os Estados Unidos vivessem num planeta à parte das demais nações. A condução dessa política foi mais longe do que sonhava o americano médio, promoveu a rejeição das políticas internacionais e acordos internacionais batizados, reconheça-se genialmente, em terras tupiniquins, de globalismo. A política de destruição da legislação ambiental foi levada adiante, lá e aqui, sob o argumento de que era imposição de um certo poder global contrário aos interesses nacionais. Entenda-se acordos internacionais patrocinados pela ONU e que reúnem a quase totalidade das nações. E há mais, o desprezo pelos direitos civis e humanos que resultou do aumento de morte dos cidadãos pobres e negros nasceu pela tolerância aos grupos de supremacistas brancos. Seguindo seu mentor, o nosso governante quer dar à polícia o poder de matar sem punição quando merecido, ampliando na legislação elementos de proteção às ações violentas (a tese do excludente de ilicitude). E assim um instrumento legal para situações muitos especiais passará a ser a atitude normal das forças de segurança.  O que fazer com quem denuncia tais coisas? Intitulá-los lá de comunistas e aqui petistas, aproveitando-se desses conceitos desgastados nos dois países. Estratégia também muito utilizada para desacreditar as críticas é atacar a honra das pessoas (o famoso Argumentum ad hominem). Por isso atacam impiedosamente a todos que apontam essas coisas. Feito isso, vão passando a boiada.

 

A jogada mais genial para levar adiante esse discurso contra: as políticas globais de defesa dos direitos civis, direitos humanos, legislação ambiental, vacinação global contra COVID 19 e outras lutas da ONU (nomeadas de globalismo) é associá-las a um poder do mal, um governo mundial e supranacional que está se formando para servir ao anticristo, que já vive entre nós. Assim, por mais alucinada que essa tese possa parecer, a extrema direita aproximou-se de setores evangélicos para enganá-los e fazê-los ver nessas políticas internacionais a antessala do governo do anticristo, conforme interpretação torpe do livro do Apocalipse. E para agradar setores evangélicos radicais espalham que o anticristo é o Papa Francisco e seu auxiliar o Presidente da França, Emmanuel Macron. Não foi à toa que muitos evangélicos apoiaram os radicais trumpistas em seus protestos recentes contra todas as evidências da legitimidade da eleição do candidato democrata.

Portanto, a enxurrada de fakes news nas redes sociais, a alcunha de comunistas ou petista para qualquer crítico desse projeto político, o uso do Argumentum ad hominem para destruir a honra dos críticos, as críticas aos órgãos de imprensa, o aumento do racismo, o aumento da morte dos negros nos Estados Unidos, o desrespeito à Constituição (como na invasão do Congresso americano), a desconsideração aos cientistas e o discurso radical com componentes religiosos são partes do mesmo todo, que só pode ser entendido em seu conjunto.

 

 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Giorgio Galli - o estudioso dos sistemas bipartidários incompletos: Selvino Antonio Malfatti - pós-doutorado em Ciência Política.

 


 

As ciências humanas acabam de perder uma dos maiores pensadores de sua área: Giorgio Galli, professor da Universidade Estatal da Itália, em Milão. Nasceu em Milão em 10 de fevereiro de 1928 e faleceu em Camiogli em 20 de dezembro de 1920. Tinha 92 anos. 

Sua tese fundamental é sobre o sistema político italiano. Acha que é um sistema bipartidário incompleto. Os dois maiores partidos italianos, a democracia cristã e o partido comunista italiano, eram até o década de Noventa os candidatos naturais para formarem as maiorias partidárias e disputarem a Presidência do Conselho. No entanto, nem a Democracia cristã conseguia maioria absoluta (para ser maioria aboluta teria que conseguir 50% dos votos)  e só atingia 35% e nem o Partido Comunista, que fazia em torno de 29%.  A Democracia cristã alia-se ao partido socialista que faz uma média de 22% dos votos, forma maioria e deixa de fora o partido comunista. A alternância não se forma e a democracia cristã, eleição pós-eleição, exclui o partido comunista. Nisso consiste o bipartidarismo incompleto de Galli.

Isto vem ao caso com a celeuma criada na eleição americana, cujo modelo é de um sistema bipartidário completo, considerado perfeito, para ano qual só dois partidos formam maioria e absoluta, nem assim mesmo evitou a crise, apesar de tê-la superado.

Na Itália, logo após a derrota do Fascismo tem início a ação de reconstrução do Estado. Já durante o conflito, e pressentindo-se seu fim, nos bastidores do Vaticano organizava-se uma força política, sob a liderança de Alcide de Gasperi, para substituir o regime fascista. Se este regime totalitário estava em decadência, outro, também totalitário estava em ascensão, o comunismo. A nova organização católica devia ideologicamente ser capaz de apresentar-se como alternativa de ambos. O Fascismo, derrotado militarmente,  politicamente apresentara-se como uma alternativa ao liberalismo, propondo substituir a representação política pela representação econômico-profissional. Não eram os cidadãos e seus interesses que se deviam representar, de conformidade com a doutrina liberal, mas os diversos grupos econômicos. O Fascismo na Itália ideologicamente apresentava-se como uma força política capaz de pôr fim ao atraso econômico. Culpava o liberalismo pela defasagem econômica em relação aos demais países da Europa, pois, no liberalismo, tudo devia obedecer ao “laissez faire”. Em substituição ao “deixar fazer” era preciso introduzir o “obrigar fazer” propunham os mentores do Fascismo.

No entanto, outro regime rondava a Itália no fim da II Guerra Mundial. Tratava-se do comunismo. A Europa  tinha alguma experiência dele, e o que se sabia era o que acontecia no Leste Europeu e o que chegava da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas- URSS. Este regime também se apresentava como uma alternativa ao liberalismo. Em vez da representação, o comunismo propunha a vanguarda operária, encarnada no partido. O partido era a voz da maioria e ele gerenciaria o Estado. Economicamente propunha a coletivização dos bens de produção a proibição da propriedade privada e uma economia livre de lucros.

O modelo do bipartidarismo imperfeito irá encontrar outro inimigo, o interno, que o levará à bancarrota. Trata-se da currupção endêmica que tomará conta de todos os partidos e pessoas de todos os partidos, mesmo fora do trinômio Democracia Crista, Partido Socialista e Partido Comunista, cujo início tem lugar com a prisão do socialista Mario Chiesa, feito prisioneiro sob a acusação de envolvimento com o crime organizado. Neste momento começa o movimento Mani Pulite ou Tangentopoli que sacudirá todo o sistema político-partidário, levando à sua completa reformulação, inclusive com o fechamento dos partidos da Democracia Cristã e Socialista, os quais, com o concurso de outros três partidos, menores formavam o pentapartido da chamada Primeira República.(GALLI, Giorgio. Mezzo Secolo di DC.  Milano,  Rizzoli, 1993, p. 418)

Também neste caso, pelo o que acontecia no Leste Europeu e pelas notícias chegadas da URSS, o preço do regime era alto demais. Milhões de pessoas sacrificadas, outras tantas deportadas, bem como desaparecidas. Era o regime totalitário, da desolação, no qual até mesmo a consciência era invadida. Por isso, Galli mantém distância com o comunismo revolucionário, totalitário, fora da Europa.

Hitler E O Nazismo Magico: 1989

As Componentes esotéricas do III Reich

Esoterismo e politica 2010

Storia delle dottrine politiche 1995

Storia dela DC, 2007

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