sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Conhecimento e experiência em Carlo Maria Martini. Selvino Antonio Malfatti.

 


O cardeal Carlo Maria Martini (Turim, 15 de fevereiro de 1927 - Gallarate, 31 de agosto de 2012), da Itália, no livro “Diálogo Noturnos em Jerusalém” propõe uma justiça oriunda do contato direto com o sistema prisional. O livro, escrito em parceria com o jesuíta alemão Georg Sporschill, foi lançado no Brasil na PUC-Rio, em 2008. Pensa que para se entender a realidade, como a justiça prisional, é preciso “ver” a realidade, conversar com os prisioneiros, ouvir o que têm a dizer, prestar atenção nos seus pensamentos em voz alta.

Seguindo esta hipótese Marta Cartabia e Adolfo Ceretti se propõem a reconstituir o pensamento de Martini no livro: “Un’altra storia inizia qui. La giustizia come ricomposizione”. (Outra história inicia aqui. A Justiça como Recomposição) Para estes, o pensamento de Martini não se fundamenta no especulativo, mas no prático, na ação. Diz Martini:

 

Porque a justiça não é tanto uma ideia que se coloca fora de nós, mas "uma exigência que postula uma experiência pessoal: a experiência, precisamente, da justiça ou, melhor, da aspiração à justiça que nasce da experiência da injustiça e da dor que dela deriva».

 

Martini defende que para se alcançar um conhecimento verdadeiro deve-se conhecer experimentalmente o objeto. São famosas as afirmações de alguns que querem anular qualquer outra conclusão que não a sua, por ter visto ou ter visitado. É o caso, por exemplo, do conhecimento sobre o sistema prisional. Quem pode alardear que visitou ou viu se acha numa posição de superioridade em relação de quem somente leu.

Para estes a compreensão dos delitos e penas é mais verdadeira que os outros que apenas conhecem por outras vias, geralmente por terceiros. Inclusive cita-se para reforçar o argumento de quem experimentou fisicamente o contato com os prisioneiros. Ao citar o cap. 25 de Evangelho de Mateus: “Estava no cárcere e me visitaste”, dá a entender que a própria autoridade bíblica confirma a hipótese.

Para os defensores da necessidade da experiência o ato de ver, por exemplo, nos envolve na experiência de ter “ouvido, visto, contemplado e tocado.” Desse ato surgem as grandes questões, mormente as questões paradoxais, como se de repente o mundo nos aparece invertido. Isto nos força a magna questões e como decorrência nasce uma realidade criativa e renovada.

No entanto, em contrapartida, isto pode acontecer com a reflexão especulativa, isto é, quando refletimos em nós o que está gravado na nossa consciência. Da mesma forma e talvez melhor, se manifesta o poder criativo da mente, livre do cipoal da experiência. Basta, para tanto, evocarmos a experiência de Descartes e Kant. O mundo da realidade enriqueceu-se do mesmo modo com a reflexão do que a realidade contribuiu para o mundo espiritual. No paradoxo da realidade, como no mundo prisional, onde para se colimar algo, primeiramente deve-se restringir legal ou moralmente. Para ser livre a liberdade deverá ser cerceada. No mundo da reflexão não há necessidade de restringir o que se busca.

Com certeza a experiência do contato com o cárcere avia-se um processo dialético entre o comunicante e o interlocutor. O comunicante, por assim dizer, pensa em voz alta e está muito pouco preocupado com a justiça teorizada. O que ele quer é sair da prisão. Ao interlocutor, por sua vez, o máximo que pode fazer é ouvir o reclamo e os pedidos do preso. Mas mais nada pode fazer por que a partir daí a questão passa ser teórica, com um juiz que tem a lei diante de si e dá um veredicto teórico para ou continuar na prisão ou ganhar a liberdade. Portanto, a decisão final será sempre teórica. Um juiz nunca decidirá sobre o que o detento disse, mas sobre se for legal ou justo e isto é do plano teórico ou especulativo.

Por isso, a tese de Martini, examinada pelos pensadores Marta Cartabia e Adolfo Ceretti, serve como ponto de partida para desdobramentos teóricos posteriores. È o que diz Aristóteles: nihil est in intellecto, quod prius non fueri in sensu. A partir do pensar em voz alta dos detentos, constrói-se o arcabouço especulativo para justificá-lo ou não.

Aliás, o próprio Martini se deu conta disso:


Os acontecimentos "em si mesmos são mudos, ou pelo menos ambíguos: (podem dizer uma coisa e até o contrário) é o que acontece, com o que chega a nós, mas que não necessariamente tem sentido em si mesmo. É apenas em comparação com um ideal que esses eventos começam a falar, a sugerir um sentido, um caminho a 

 

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O Papa Francisco e o enfrentamento do farisaísmo. José Mauricio de Carvalho - Dr. em Filosofia


 


Em sua vida terrena, Jesus esteve em conflito com poderes que oprimiam e impediam as pessoas de viverem plenamente. Jesus pregou para uns, curou outros, compartilhou seu amor misericordioso com todos. Entre suas lutas chama atenção o embate com os fariseus. Os fariseus formavam um grupo de judeus devotos da lei mosaica (contida nos 5 primeiros livros da bíblia) e se organizaram no século II a.C. Eles estruturaram o culto nas sinagogas e alguns deles se tornaram importantes sacerdotes. Formavam um grupo reconhecido e admirado pela população e se destacavam pelo cumprimento da lei. Com o passar dos anos acabaram escravos da lei e se afastaram tanto da chama que as alimentava que ficaram longe dos próprios planos de Deus. Isso sempre acontece com quem defende a letra fria da lei, mas não considera o espírito e valores que a nutrem. No caso das leis divinas o próprio Espírito Santo de Deus.

Por isso, não causa espanto os embates dos fariseus com Jesus. Foram eles que acabaram sendo o estopim da condenação de Jesus à morte. Jesus lhes fez uma advertência duríssima, resumida no capítulo 23 do Evangelho de Mateus: “13 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós fechais aos homens o Reino dos céus. Vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar. 14 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor. 15 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos. 23 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do coentro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem, contudo, deixar o restante. 24 Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo. 25 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais por fora o copo e o prato e por dentro estais cheios de roubo e de intemperança. 26 Fariseu cego! Limpa, primeiro, o interior do copo e do prato, para que também o que está fora fique limpo. 27 Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. 28 Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade!” 

A advertência de Jesus acima transcrita, mostra seu cansaço por pregar a misericórdia e o amor e o esforço dispendido para mostrar que é o Espírito de Deus quem salva e não o cumprimento frio da lei. A advertência mostra sua indignação com aqueles homens. Jesus criticou duramente todos que, em nome da lei e da tradição, maltratam, discriminam e oprimem as pessoas. Isso mesmo quando têm boas intenções e pregam a palavra de Deus. E essas palavras de advertência de Jesus são duras porque ele conhecia o coração humano. Ele sabia que é fácil ser fariseu, cumprir as obrigações e achar que assim assegurou a salvação pois tem Deus sob seu controle. Difícil é seguir Jesus, viver a fé cumprindo a lei iluminada pela justiça, a misericórdia, a fidelidade a Deus. Nesse caso há o risco de errar e sabe-se não ter o controle de Deus, que Age e Faz o que quer segundo seu Caráter e Misericórdia.

Relembro essa luta de Jesus contra o farisaísmo, que o levou à exaustão, porque a vejo renascer no esforço do Papa Francisco por defender o direito dos homossexuais formarem família. Ele observou que homossexuais "são filhos de Deus e têm direito a uma família. Ninguém deve ser excluído ou forçado a ser infeliz por isso." É evidente que a forma didática como Deus apresentou a Lei para os homens de outros tempos, onde a finalidade do sexo era exclusivamente gerar filhos, para uma sociedade com alto índice de mortalidade infantil e baixa expectativa de vida, contemplava a família heterossexual e a obrigação de terem filhos. Se esse é o valor, não faz sentido, contudo, condenar pessoas que hoje sabemos desenvolvem tal impulso por um processo de identificação ocorrido na infância e com componentes quase sempre inconscientes e fora do controle da vontade. Assim, se a prática homossexual não é a ideal na perspectiva da moral judaico-cristã, isso não significa que se deva amaldiçoar ou lançar na fogueira os homossexuais.

O essencial do que aqui destaco não é a luta do Papa em defesa dos homossexuais, mas o seu embate, por isso, com setores conservadores, dentro de fora da Igreja: os fariseus da contemporaneidade. Assusta o crescimento desse farisaísmo, dentro de fora da Igreja Católica. Um farisaísmo que se muniu de um discurso escatológico e de pura maldade, capaz de enxergar em qualquer ato de misericórdia e bondade a presença do anticristo. Esse clima de conservadorismo farisaico multiplicou-se nas redes sociais em críticas duras ao Papa, considerando-o aliado do anticristo. E há muitos vídeos nesse sentido. Vídeos assim são mais uma desgraça desses tempos de conservadorismo, pois há outras desgraças como a destruição da legislação de proteção ambiental, o desrespeito aos direitos civis, o aumento do racismo, a xenofobia, a humilhação do pobre, a politização da prática científica. É pura maldade, enxergar a presença do anticristo em atos de misericórdia e em tudo o que não está de acordo com a ignorância religiosa ou dureza de coração desses fariseus da contemporaneidade. Logo, embora o Papa Francisco esteja sofrendo forte resistência por sua posição misericordiosa, nesse e noutros casos, sendo criticado por radicais conservadores de vários credos, é importante que ele siga imitando Jesus Cristo. Isso mesmo que a maldade farisaica o flagele com a língua e possa levá-lo à cruz do sofrimento, da perseguição ou à morte.

 


 

 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

OS CANDIDATOS DE 15 DE NOVEMBRO -. RAPOSAS X OURIÇOS. Selvino Antonio Malfatti.



“A raposa, de fato, pode fazer muitas coisas, enquanto o ouriço pode fazer apenas uma!” (Isahiah Berlin) 

O pensador Isahiah Berlin escreveu uma fábula interessante: O Ouriço a Raposa. A princípio, a moral da história tem várias aplicações para as atividades dos humanos: pensadores, religiosos, industriais, educadores. No entanto, parece que o endereço mais certeiro é para os políticos.

Como em 15 de novembro teremos eleições municipais vejamos se a fábula pode se aplicar.

Conforme a fábula os candidatos pertenceriam a duas ideologias opostas: a das Raposas e dos Ouriços.

As Raposas parecem dispersivas nas promessas de campanha. Não têm uma única resposta para cada problema porque quase sempre paradoxais. Diz o pensador Isahiah Berlin: A raposa conhece muitas coisas, mas o Ouriço conhece uma só e muito importante. As Raposas aceitam projetos mais humildes, com menos esplendor, do dia a dia, pragmáticos. Contentam-se com a monotonia do pragmatismo e seus seguidores um grupo sem brilho. A raposa sabe muitas coisas. mas pensa com relativismo gnosiológico. Acham que o entendimento das coisas é falível e que o conhecimento perfeito é ilusão. Ao abordar o Plano estratégico as Raposas usam a manha. Dividem suas propostas de governo em partes e analisam separadamente cada uma delas. Tentam mostrar as características de cada uma e depois juntam para formar o bloco nem sempre coerente. As partes constituem o centro. Então, parece que quem se apodera do centro será dono das partes. Será bem assim?

Os Ouriços, ao invés, fixam-se numa única ideia e através dela pretendem solucionar todos os problemas. Sentem-se obcecados por um ideal grandioso, um farol que ilumina tudo. Os Ouriços atraem, como eles, sonhadores revolucionários, ideólogos da perfeição. Possuem um conhecimento monista e dele fazem derivar um absolutismo epistemológico. Para os Ouriços o conhecimento é infalível e o erro é má fé. Eles propõem uma visão única, central, um sistema coerente, sem contradições como um modelo centralizado. Não há partes, o bloco é monolítico, impenetrável.

As duas plataformas estão sobre a mesa. Cada eleitor poderá escolher seus candidatos. É preciso que os eleitores constituam um executivo e um legislativo de Raposas ou de Ouriços.

Então, você decidirá se quer um governo de Raposas ou de Ouriços. Uma Raposa ou um Ouriço para o Executivo e maioria de Raposas ou Ouriços para o Legislativo.

Se optares por Raposas terás um governo liberal, até com um pouco de anarquia. Mas poderás sentir o sopro do vento da liberdade.

Se preferires os Ouriços, terás governo centralizado, do qual tudo depende. Sentirás o peso da ordem e da planificação. Em vez de liberdade, a submissão.

É dia 15 de novembro. Quase 8hs. Pegar o título de Eleitor, conferir a Zona e a Secção, dirigir-se ao local, achar a urna e votar.

Aguardar o resultado: Raposa ou Ouriço?


 


A Raposa e o Ouriço. ( Isaiah Berlin  )

Mimì, a raposa de pelo vermelho, refugiou-se atrás de um arbusto de amora-preta. Ela escutou um leve alvoroço no subsolo, então até mesmo aquele barulho parou. Sua presa deve ter intuído o perigo, algo deve tê-lo deixado desconfiado. Mimì a raposa se camufla, finge estar morta e espera. Nem mesmo respira. Ela sabe que sua presa sairá assim que se sentir seguro do esconderijo por isso tem que deixá-lo todo o tempo que precisar para se mover. O tempo passa. Após uma longa espera paciente, um ouriço aparece na boca da cova. Precisa de um espaço muito curto para entrar em outro túnel escuro mais à frente, por isso olha em volta com cautela, examina o chão, retrai-se para dentro da cova, reaparece hesitando. Que animal prudente, que animal hipócrita, pensa a raposa. Raça de roedores de vegetação rasteira que não gostam de andar ao ar livre. Ele prefere seus labirintos subterrâneos, mesmo ao custo de escavá-los com unhas e dentes. Vai ter seu bom motivo para evitar se expor ao sol, porém não o invejo. Enquanto isso, o ouriço decide-se e já está finalmente a aberto. Ele parece ter acabado de sair da hibernação, ele é desajeitado, lento, pesado. Mimì a raposa dá um bom salto e zac! Mas o ouriço em um instante se transformou em uma bola espinhosa. A raposa grita de surpresa e dor e com a boca sangrando retira-se.

- Que animal estranho! - pensa a raposa sem desistir. Deve ter carne deliciosa embora a natureza a protege tão bem. Será muito melhor do que a carne de uma toupeira ou de um pássaro. Como gostaria de saboreá-lo para saber qual é o seu gosto!

E confiante em seus próprios recursos, Mimì, a raposa de pelo vermelho, inventa recorrer a mil artifícios, truques, expedientes, um mais engenhoso e sutil que o outro, para capturar o ouriço e devorá-lo.

No entanto, toda vez que o ouriço se enrola e assim enrolado, ele é inexpugnável.

Afinal, um ouriço não vale tanto desperdício de truques e nem tanta obstinação, diz ela a si própria raposa para se consolar. E cansada dos inúmeros truques ela decide deixá-lo em paz, aquele bicho estúpido.

 


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Karl Jaspers, o cuidado com a humanidade. José Mauricio de Carvalho – Pós doutorando do PPGP/UFJF.



Ele, entre outros filósofos da escola fenomenológica existencial, tem sido um dos autores que mais frequentemente examino há alguns anos. A ele dediquei capítulos de livros e muitos artigos além do livro Filosofia e Psicologia, o pensamento fenomenológico-existencial de Karl Jaspers (2006). Porém quero, ao invés de comentar suas ideias e crenças, dar voz ao filósofo para que ele se apresente. Jaspers escreveu, no final da vida, um texto necrológico, uma espécie de testamento intelectual, pelo qual gostaria de ser lembrado. Esse texto foi retirado do livro mencionado (CARVALHO, 2006, p. 253/4): “Karl Jaspers nasceu em Oldenburg, a 23 de fevereiro de 1883. Deve aos seus progenitores uma educação séria e um amor que o envolveu para sempre: no liceu, teve uma formação humanística: na Universidade; o acesso à Universidade da pesquisa científica. Gozou do nobre privilégio de poder viver na liberdade como professor que se assinalava os próprios deveres. Pelo ensino, ele contribuiu com a sua parte para a continuidade da tradição, apoiando-se confiadamente no sentido da Universidade do Ocidente. A maravilhosa cidade de Heidelberg, a venerável cidade de Basiléia, foram os lugares onde se esforçou, na pobre medida das suas forças, por desempenhar sua tarefa. Tudo o que lhe foi dado realizar não poderia tê-lo feito sem sua esposa, Gertrud Mayer. Desde o tempo de estudante, ela o rodeou de um amor sem limites, não consentindo a insinceridade, firme em suas exigências. Como se tivessem encontrado neste mundo vindos de um outro inimaginável, como se se recordassem sem o saber, eles viveram, como uma gratidão infinita, a realidade quotidiana da sua vida, ao longo dos anos instáveis, por mais de meio século. Foi nesta existência em comum que cresceu a pesquisa filosófica, cujo germe estava presente desde os anos da escola, mas que desabrochou então e se tornou vocação para ambos. Intimamente unidos, suportaram juntos a pena da doença, porque, após a juventude, ele não deixou mais de sofrer. Depois vieram os doze anos de angústia sob o nacional-socialismo. Miraculosamente protegidos, passaram pelo meio das forças temíveis. A perda da sua pátria política precipitou-o em um abismo em fundo, do qual só escapou, com a sua esposa, graças à origem comum de toda a condição humana, à amizade de alguns seres amados, na Alemanha ou dispersos pela face da terra, graças, enfim, ao sonho de uma cidadania mundial por vir. Acolhido em Basiléia, na tradição europeia, na liberdade, encontrou ali um asilo tranquilo. Foi essa a última dádiva que recebeu. No decorrer desses anos, dedicou todas as suas forças ao prosseguimento do seu trabalho filosófico, em si mesmo inacabável. Por este trabalho, inspirado mais em uma antecipação tateante do que em um saber já adquirido, experimentando os pensamentos sem possuir certezas, ele queria prestar o seu contributo na tarefa própria deste século: encontrar o caminho que conduz, do termo da filosofia europeia, à futura filosofia mundial (p. 3- 5).

No silêncio e isolamento nos tempos de perseguição, Jaspers se tornou tão admirado como figura humana como era como pensador. Hannah Arendt, uma de suas alunas famosas, lembrava em Homens em tempos sombrios que aquele professor perseguido (ARENDT, 2010, p. 85): “não era a Alemanha, mas o que restara da humanitas na Alemanha.” Isso porque ele permaneceu durante toda a vida na defesa da razão e da liberdade, atualizando a filosofia de Kant e desenvolvendo a filosofia na perspectiva da escola existencial. Isso lhe permitiu escrever páginas magistrais sobre (id., p. 86): “a consciência racional da liberdade, onde o homem se experimenta como um dado de si.

Assim, quando terminou a Guerra e havendo escapado por milagre da fome e da morte, reapareceu como a grande referência da venerável universidade alemã, espaço da pesquisa e da liberdade, da inteligência e moralidade. Aquele professor soube guiar seu país no reencontro com sua tradição intelectual e, sem deixar de ser psiquiatra famoso apareceu, diante de seu povo, como o grande filósofo da Alemanha livre. Assim, num país mergulhado em culpa e envergonhado de seu passado recente, Jaspers soube mostrar onde apanhar as referências da racionalidade para seguir vivendo.

Além de ser a grande voz da Alemanha no pós guerra, Jaspers mostrou a importância de uma cidadania mundial, uma cidadania que não deixa as referências de sua pátria, mas que não se afasta do movimento civilizatório do mundo ocidental. Isso porque Jaspers ligava os acontecimentos importantes dos diferentes países à história de todos eles. Ele fez então da Filosofia um tecido da cidadania mundial.

Jaspers é um desses homens que se tornaram grande pelo que representaram na luta pela liberdade, pela razão, pela consciência moral da humanidade. Sua lembrança é especialmente importante nesses tempos em que justo as referências mais elevadas, nobres e da inteligência foram ofuscadas pelo obscurantismo, pelas Fake News, pela superficialidade de uma sociedade de massas pouca atenta aos valores que a edificou.


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Kierkegaard, a crítica ao romantismo e a base da escola existencial. José Mauricio de Carvalho – Pós doutorando em Psicologia da UFJF.

 



Sören Kierkegaard (1813-1855) é um pensador dinamarquês cujas ideias influenciam filósofos importantes do século XX como Miguel de Unamuno (1864-1936) e Martin Heidegger (1889-1976). O núcleo de seu pensamento centra-se no significado da singularidade pessoal, o que dirige seu olhar e atenção para a realidade humana, com ênfase na capacidade humana de escolher e se responsabilizar pela escolha. Essa é uma posição cara aos existencialistas e que o psiquiatra Viktor Frankl considerou o eixo de sua antropologia.  O propósito desse artigo é examinar a crítica que Kierkegaard fez aos filósofos idealistas e literatos do romantismo, isso porque eles dedicavam o principal de suas preocupações ao estudo do processo amplo da história, dando pouco destaque à vida individual e ao papel da responsabilidade moral nas escolhas.

Entre suas obras destacam-se: O conceito de ironia (tese - 1841), Temor e tremor (1843), A alternativa (1843), Diário de um sedutor (1843), O conceito de angústia (1844), Migalhas Filosóficas (1844) e Pos-scriptum às Migalhas Filosóficas.

Vamos destacar além da crítica aos idealistas como suas ideias abriram caminho para a escola existencial no século XX. Sua crítica ao hegelianismo não foi como a marxista, pois o marxismo preservou a dialética e a sustentação historicista da realidade que viera de Hegel, ela atingiu o historicismo romântico de forma mortal. Kierkegaard rejeitou as teses hegelianas porque considerava a vida singular e concretamente vivida na primeira pessoa como o problema a ser esclarecido pela investigação filosófica. Por isso, importava pouco saber os rumos de evolução da razão, abordar a evolução da razão, se tais meditações não consideravam a realidade mesma de cada homem concreto.

O historicismo de Hegel, avaliou o filósofo, pouco tinha a dizer ao homem concreto, aquele que vive numa determinada sociedade durante num período específico da história. Para esse homem que trabalha, apaixona-se, ama, se decepciona, adoece, incorre em culpa, chora, se desespera, a compreensão totalizante do processo histórico diz pouco. E é assim porque na vida vivida na intimidade com seus dramas, o historicismo de Hegel ou o destino glorioso de uma classe social de Marx, dizem pouquíssimo. Pois a vida é o que se faz numa realidade concreta, como mais tarde diria Ortega y Gasset recuperando as lições desse pensador.

Tivemos oportunidade de mostrar no livro História da Filosofia Contemporânea (São João del-Rei: UFSJ, 2014, p. 45/6) que: “uma leitura inicial de Kierkegaard nos coloca em contato com uma reflexão crítica sobre o Cristianismo e seu significado na história dos homens. Ele não deixa de ser um autor cristão, mas de um tipo muito singular. Ele não se preocupa, por exemplo, em fazer interpretação da doutrina, oferecendo uma nova proposta como alternativa. E para onde levou sua reflexão crítica do Cristianismo? Para um desencanto com as interpretações da doutrina cristã feita pelas Igrejas. E qual o motivo da insatisfação? A distância que a doutrina está do homem concreto e de sua vida. Ele rejeita uma interpretação do cristianismo que pouco tem a dizer para quem está envolvido em sua rotina com alegrias e dramas. Sim, porque a vida é um misto de drama e alegria, com peso diferente para homens e gerações, para uns com mais alegria, para outros com mais drama. Tal é o peso da história. Jaspers, no ensaio dedicado ao filósofo, explicou a sua insatisfação com a doutrina cristã apregoada pelas igrejas do seguinte modo (Kierkegaard,1953, p. 90): O que importa é encontrar a verdade, a verdade que seja para mim, pela qual eu queira viver e morrer. Então surge a resolução: agora começarei a atuar interiormente".

Na citação acima Jaspers destacou que a mensagem cristã da forma como é veiculada pelas Igrejas não parecia ao filósofo capaz de comprometer intimamente a pessoa, não era algo pelo qual ela julgasse que valia a pena viver e morrer. E há, portanto, em Kierkegaard esse entendimento que a vida é de tal ordem que necessita ter uma razão, um motivo para levá-la adiante. E por que o cristianismo anunciado lhe parecia tão inadequado e distante da experiência do homem concreto? Por que lhe parecia inútil? Porque o cristianismo anunciado pelas religiões focava a atenção no futuro glorioso da humanidade, resultado da leitura romântica da história cultural da Europa. E aqui surge um problema complicado: até que ponto uma instituição historicamente situada consegue transmitir a mensagem cristã na pureza desejada por seu fundador? Será que defender a mensagem em sua pureza radical sem a base de apoio histórico que a sustenta é razoável? Isso pode ser sustentado numa vida como a humana? (...)

Apesar das dificuldades que essas questões suscitam, Kierkegaard deseja que o conteúdo do Cristianismo ao ser transmitido não seja rebaixado como fazem as Igrejas. Sendo rebaixado ele fica compreensível ao homem comum, mas perde sua profunda realidade renovadora da espiritualidade. Nesse sentido, o filósofo foca sua preocupação no encontro pessoal e direto com Cristo. Esse é o caminho para situar a mensagem cristã no nível de profundidade que desejava. Menos que isso é farisaísmo.

Despreocupado com o discurso das Igrejas, ele propõe o encontro pessoal com o Cristo, aceitá-lo como salvador pessoal ao mesmo tempo que se precisa dialogar com Ele. Levar a Cristo as próprias dores, fome, sede, medos como das guerras, das doenças, do sofrimento, da morte, que marcam a vida de cada um de nós.

E como lhe parece ser a vida? Segue-se a síntese proposta na obra já mencionada: “A imagem do juízo final, em que cada homem está entre tanta gente, mas se mantém absolutamente só diante de Deus é a alegoria que ele usa para dizer como é a vida como a vê e para a qual procura resposta. A vida na qual cada um está só diante de Deus e a ele deve responder. Ele fala para o homem, enquanto capaz de realizar a experiência da solidão verdadeira que é própria de nossa vida. É para essa solidão que ele busca resposta. E resposta para quê? Para o que deveria verdadeiramente nos ocupar quando tomamos consciência de que nossa vida é única e ninguém pode vivê-la por nós, quando entendemos que nossa vida é feita das escolhas muito delicadas e íntimas. Nascemos sós, morreremos sós, escolhemos como viver, e isso é a marca de nossa existência. Assim estamos diante de Deus. Esse tipo de solidão é que ficou mais tarde conhecida por solidão ontológica e não se confunde com o estado de estar isolado dos demais homens, vivendo numa ilha, por exemplo.” (id., p. 47)

Deixando de lado as suas críticas às Igrejas e centrando a atenção no que está na raiz de suas preocupações filosóficas é que nos deparamos com um pensador atualíssimo. Se estamos verdadeiramente sós na experiência da existência, essa realidade nos coloca diante de uma questão a que a meditação diária nos deveria levar: o que significa ser eu mesmo? A simples colocação dessa pergunta torna a vida humana diferente e perguntar parece urgente e necessário, ainda hoje na sociedade de massas mais que no tempo de Kierkegaard. A sua reflexão nos coloca diante do fato de que não teremos resposta para essa pergunta radical se esperamos que nossa vida seja conduzida de fora, se as decisões que temos que tomar tiverem que ser feitas por outrem. A vida assim pensada é aquela que cada um de nós experimenta na sinceridade íntima de ser o que é.

Essa crítica ao romantismo filosófico e literário, que alcança também as religiões cristãs, é apenas um aspecto do seu pensamento. Há muito ainda a dizer dele.


 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Economia pós-capitalista. Selvino Antonio Malfatti -professor titular UFSM.

 



Para o sociólogo Adam Arvidsson parece que o capitalismo chegou a um estágio tal que nem mesmo as tecnologias digitais conseguem gerar crescimento. Tamanha a estagnação.

Isto é o que consta na sua obra Changemaker – O Futuro Industrioso da Economia Digital. Defende a imperiosa necessidade de mudanças baseado na análise de perdas de conexões que constituíram os desafios que provocaram a passagem do feudalismo ao capitalismo. Da mesma forma atualmente aparecem novamente dois elementos que acionam os motores da economia industrial em direção ao um futuro industrioso de uma economia digital.

O dilema que se descortina é o seguinte: todos querem as mudanças, mas ninguém sabe como fazer. Disso se configura uma encruzilhada insuperável. O pessimismo da inteligência e um exacerbado otimismo da vontade. Todos querem a mudança, mas ninguém sabe como atingi-la. Apresentam-se como inovadores os keinesianos, os defensores do estado social, os fordistas, a escola austríaca, neoliberais entre outros. Conforme Arvidssnon as reformas não irão tão longe.

Primeiramente o capitalismo não será substituído por uma economia industriosa e igualitária de mercado, mas poderá ocorrer uma evolução do capitalismo, no sentido de que as elites se auto reproduzirão assimilando alguns elementos deste modelo de economia a outros que advirão. Este é um conceito já consagrado no capitalismo, como ocorreu com a passagem dos anos Oitocentos para Novecentos: de um capitalismo originalmente de elite (que não previa um consumo de massa) de quem capitalismo sob a pressão da classe operária, se abre ao consumo de massa, incorporando um como consumidores com consequências de abertura de novos mercados e em decorrência uma nova expansão.

O tema central do livro de Arvidsson é a questão: como fazer o trânsito entre uma economia industriosa e uma economia industrial?

Uma economia industriosa se caracteriza por um trabalho intensivo e capital pobre, por uma economia industrial que gire em torno a grandes organizações com fartos recursos disponíveis. Ora, isto se tornou possível com a digitalização, pois a tornou central. Contudo estamos numa era nem as tecnologias digitais parecem gerar crescimento. Estamos de posse de smartphone, computadores, inteligência artificial, algoritmos, mas não temos crescimento econômico, ao contrário estas ferramentas são operadas dentro de um sistema que se contrai e não tem outra perspectiva que incrementar o consumo.

Uma consequência é que o ideal de: até o último da lista ( the last of the list), inverteu-se: sempre aumenta mais a fila dos excluídos. A economia industrial, laboriosa e digital chegou até aqui e não sabe mais o que fazer. Não só não se incorporou o último, como a lista dos últimos aumentou.

Mas o paradoxo do azar mostrou o caminho: a pandemia do Coronavírus.  Diante desta encruzilhada que não importa que rumo tomar, pois sempre será o mesmo, a pandemia sacudiu o mundo econômico principalmente desatando-lhe as amarras da indefinição e imobilismo. Os empreendedores surgiram de toda parte e inovaram. E não foi nos estratos superiores, mas médios e baixos. Não foram os executivos das multinacionais, mas os pequenos e médios empreendedores que tomaram a direção do volante da economia rasteira e a levaram adiante. Com a ferramenta que dispunham um smartphone ou um celular conectado à internet chegou.

Já não se precisa ir ao restaurante para fazer as refeições fora de casa. O delivery traz o almoço no seu trabalho. Não precisa ir ao banco para ver saldos, movimentar conta, fazer aplicações. Na palma de sua mão está o celular com o qual você pode fazer tudo isso. Aulas presenciais podem ser dispensadas. Cirurgias à distância já são possíveis sem falar em consultas online. O mundo se libertou das amarras dos princípios capitalistas e socialistas. O homem pequeno e médio abriu as asas e voou num voo para o infinito.  A economia teve nova vida. Já nem depende mais das decisões dos grandes. Os nanicos tornaram-se gigantes. As compras e vendas são pela internet. As transações também. Dinheiro é só virtual. Sai de uma conta e entra em outra. Não tem mais presença física. É só um valor que consta em sua conta.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Hegel, Filosofia e História . José Mauricio de Carvalho

 



O idealismo alemão foi uma das manifestações do romantismo filosófico, existiram outras. No entanto, esse idealismo foi o movimento romântico mais significativo e teve vínculos profundos com a literatura romântica. Suas características marcantes foram: a crítica a uma visão mecânica da natureza, que vinha do início da modernidade e a recusa da consciência transcendental imóvel juntamente com a eliminação do dualismo mundo em si/ consciência, ambas postas pelo kantismo.

O maior dos idealistas alemães foi Georg Wilhelm Friedrich Hegel, cujas teses marcantes foram: a construção de um sistema filosófico com a pretensão de englobar todo o real integrando uma filosofia da natureza com a do espírito; o entendimento de que o real é captado por uma dialética triádica, com tese, antítese e síntese e a compreensão que a história registra os movimentos de uma razão absoluta no tempo.

Na História da Filosofia Contemporânea (São João del-Rei: UFSJ, 2014, 169 p.) pudemos apresentar Georg Hegel como cidadão de Stuttgart. Ele nasceu: “em 1770, num momento importante da história da Europa. Em 1789 ocorreu a queda da Bastilha, a fortaleza usada pelos reis de França para prender principalmente os adversários do regime. Começava a Revolução Francesa que implantou a República e eliminou o governo monárquico daquele país. O fato repercutiu em toda Europa, e Hegel dizia que aquele era um tempo privilegiado para se viver. Era um tempo de busca da liberdade e de maior igualdade entre as pessoas.” (p. 17)

No sistema hegeliano vemos uma razão que passa por diferentes momentos em sua evolução até se compreender como uma razão absoluta. Essa história foi detalhada pelo filósofo num livro denominado Fenomenologia do Espírito. Creio que a forma como Hegel descreve esse processo contribuiu para considerá-lo um filósofo difícil. Como já comentamos a Fenomenologia: “não contempla apenas o relato dos movimentos da consciência começando pela sensação e percepção, mas traz a descrição de um longo processo de evolução da razão que culmina na descoberta do Ser absoluto. Esse entendimento de que o Sujeito Absoluto é histórico tem por pressuposto noção retirada de Schiller, para quem o que tipifica propriamente o homem pode se modificar durante a história.” (id., p. 21)

O livro contempla uma distinção entre conhecer e pensar que se tornará importante no desenvolvimento da investigação filosófica que se seguiu a Hegel. “O conhecimento, ele disse, é a apreensão dos objetos, é uma forma de referenciar as coisas. Pensar é mais que isso, é apreender e descrever os conceitos das coisas. O domínio dos conceitos é o espaço das ciências e sua linguagem. Contudo, o saber humano é mais que o domínio dos conceitos, pois o conhecimento das coisas e sua conceituação precisam de um saber absoluto que os fundamente. Hegel encontrará esse fundamento na razão absoluta.” (Ibidem).

O ponto de chegada da evolução da consciência universal é o Espírito Absoluto e sua criação mais elevada é a Filosofia. É a essa questão que queremos dar atenção especial nesse texto, isto é, ao vínculo entre uma razão que se descobre nos movimentos dialéticos da História e a construção da Filosofia como o auge desse processo. O olhar que Hegel dirigiu para esse movimento da razão tornou-se a base do que passou a ser feito a partir de então pelo nome História da Filosofia, entendendo-se a forma de narra-la como uma atividade mais ampla que a História das ideias. O próprio Hegel explicou isso na Introdução à História da Filosofia, referindo-se à Filosofia como (4. ed., São Paulo: Nova Cultural, 1988): “a flor excelsa, o conceito de espírito na sua totalidade, a consciência e essência espiritual de todo o conjunto, o espírito do tempo como espírito presente e que pensa a si próprio” (p. 121). A Filosofia não é, para Hegel, uma teoria sobre o Absoluto, é sua forma superior de manifestação no mundo.

Um fato curioso, se a Fenomenologia do Espírito é um texto difícil, a Introdução à História da Filosofia é um livro tão genial, quanto simples. Hegel distinguiu Filosofia e a História da seguinte forma: “Na História apresenta-se o que é mutável, o que mergulha na noite do passado, o que já não existe; pelo contrário o pensamento é vero e necessário.” (Id., p. 89). Dessa forma ele quis dizer que se a História lida com coisas já acabadas, a Filosofia lida com uma Razão Viva, ainda que passando por etapas de desenvolvimento.

Na sua obra sobre a História da Filosofia, o Espírito Eterno, que Hegel nomeia de Absoluto, é a base de tudo, do mundo, da história, enfim, de todas as realizações que estão na terra (CARVALHO, 2014, p. 23): “Ele é que toca o processo e se manifesta no espírito subjetivo e objetivo, assim como superou a alienação em que esteve na natureza. Portanto, esse sujeito Absoluto é o fundamento do processo, do mundo e do homem que os filósofos buscaram estabelecer desde a antiga Grécia. Tudo quanto existe e a própria história estão nesse Absoluto, que é de onde tudo provém. Está no Absoluto não como uma cadeira está na sala, um objeto num determinado lugar, mas como parte de um Ser que tudo engloba e faz tudo dele depender.”

Quando surge a Filosofia, o Espírito atingiu a última etapa de sua evolução. No final da Fenomenologia do Espírito ele já explicara que a derradeira etapa do desenvolvimento do Espírito é a descoberta do Ser Absoluto. Esse ser absoluto não é definível como os demais seres, mas sua existência é pura indeterminação. Ele não é isso ou aquilo, ele apenas É, diz Hegel, acompanhando a fórmula usada no capítulo 3º do livro do Êxodo: Eu sou aquele que sou (versículo 14).

E a que conclusão esse estudo da História e da Filosofia permitem? Que o sistema hegeliano se completa com eles. E a Filosofia é o ponto de chegada desse sistema. Nessa Filosofia em particular, o saber absoluto mostra-se como ser absoluto, o que faz da Lógica hegeliana uma Ontologia. Ao tratar do saber absoluto, o filósofo chegou ao Ser Absoluto. A Lógica é o sistema da razão, o mecanismo do raciocínio puro e da própria verdade. O conteúdo da Lógica é o saber puro, o pensamento, que coincide com a exposição do ser absoluto como Ele é em sua essência: Eu sou aquele que é, como mencionado acima. Todas as filosofias, ao longo do tempo, contribuíram de alguma forma para esse processo, uma mais outras menos importantes, mas todas integrando esse movimento único da Razão Universal em seu eterno movimento.

 


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