sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O ESPÍRITO DA REVOLUÇÃO CUBANA. Selvino Antonio Malfatti.





Acabo de ler o livro A TRAGÉDIA DA UTOPIA, de autoria de Percival Puggina. (A tragédia da Utopia. Santo André, Armada, 2019).

Este livro tem uma característica especial: o autor quis ver in loco a exaltada revolução em Cuba. Em linhas gerais a revolução cubana é mais uma revolução socialista que se propõe botar a baixo o Velho e instituir o Novo. Uns a enaltecem aos céus e outros a condenam às profundezas do inferno. Puggina, porém, não se contentou. Foi buscar in loco o peculiar da revolução cubana. Viajou para Cuba, instalou-se no hotel, fazia refeições em restaurantes, ouvia pessoas, conversava com elas, embora elas nunca se abrissem de verdade, lia o jornal Granma. Observou como trabalhavam, vendiam, compravam, trocavam. Inseriu-se na realidade. Viveu o pós-revolução. Sentiu-a na pele. 

ComoTocqueville que foi procurar a alma da Revolução americana do século XIX, e a descreveu na Democracia da América, Puggina foi testemunhar a verdade da revolução cubana, e a expressou na "Tragédia da Utopia". E o que achou?  A revolução,para a população, um discurso cheio de promessas, idealistas, pílulas douradas com o engodo de mentiras. Para os opositores, a execução no paredon. Perante a opinião pública, retórica filantrópica. para os opositores, diante de qualquer suspeita, execução sem dó nem piedade. Este é o espírito da revolução: ternura retórica e crueldade real.

1.    Líderes da revolução. Os principais líderes da revolução foram: Fidel e Raul Castro e o argentino Che Guevara, e não muitos outros. O poder não se dividia.

- Fidel e Raul Castro. Encarnaram como ninguém o espírito da revolução: retórica e crueldade, travestidos de piedade e ódio. Jactavam-se de salvadores, protetores do povo, mas na prática, tiranos  ávidos de derramamento de sangue. Como destaca Puggina, ainda no torvelinho da revolução, Fidel Castro dirige-se ao povo, mais precisamente às mães, garantindo-lhes que haveriam de resolves todos os problemas sem derramar uma gota de sangue, sem disparar um só tiro. No entanto, a prática evidenciou um comportamento inverso: execuções sumárias, “paredon” para opositores. Oficiais e soldados fuzilados, como no quartel de Moncada, Em la Cabaña 55 foram mortos no paredon. O presente para as madres mais de 500 mortos. Chefes e líderes do regime anterior executados em transmissões ao vivo. Convocavam o povo e pediam aclamação pelas mortes, considerando-as legítimas. E anunciavam perante a opinião pública mundial de ter “a consciência e as mãos limpas de sangue”. Os julgamentos tinham como único critério: justiça de tribunais revolucionários.
Calcula-se que o saldo de mortos na revolução cubana tenha sido aproximadamente de 100 mil.


- Che Guevara.  "É preciso endurecer mas sem jamais perder a ternura:  hay que endurecerse, pêro sin perder Ia ternura jamás," O invólucro de Guevara é digno de um nicho de santo. É acolhedor, afável, palavras ternas e macias. No entanto, nada disso habitava seu interior. Nele habitava o ódio, a insensibilidade, a frieza sem compaixão. A afirmativa de Hannah Arend a respeito do carrasco nazista Adolf Eichmann de que o mal para ele é banal, em Guevara é pior, pois para ele o mal é válido, digno de admiração tanto quanto o bem. Por isso o aclamado herói Guevara, está destituído de qualquer sentimento humano,de remorso, pratica as execuções sumárias, mostrando prazer e orgulho disso.

2.    Admiradores
Sempre que surge algo novo pululam admiradores ávidos de novidades. O Evangelho chama de prurido da novidade. Não deixou de ser com a revolução cubana. Além disso, foi  uma revolução socialista na América podendo ser vista ao vivo e a cores com a possibilidade de ampliar à vontade.
Um dos expoentes máximos de admiração pela revolução no Brasil foi o Cardeal D. Evaristo Arns que chama Fidel de “queridíssimo” e que vê nas conquistas da revolução “sinais do Reino de Deus”.  

Mas ninguém supera o frade Frei Beto em “O Paraíso Perdido”.  Para ele se cumpria a escatologia: surgia, afinal, o Homem Novo, um misto de ternura e crueldade: “O homem novo deve ser filho espiritual do casamento entre Che Guevara e Santa Teresa de Jesus”. O fruto do psicopata sanguinário Che Guevara e a caridosa Santa Teresa. Isto saiu da boca de um religioso. Salta aos olhos o ideal dos revolucionários e admiradores de Guevara. Sem o mínimo de razão crítica associam a santidade à morbidez. Isto dito por um religioso professante da teologia da libertação e apoiado por religiosos e intelectuais, na sua maioria de católicos. Aplaudido pelo público, diria Puggina: “Eu não tenho dúvidas de estes aplausos foram muito mais orientados ao revolucionário Guevara do que à grande santa de Espanha...” E conclui: “QUEM LHE APARECER LOUVANDO O REGIME CUBANO, OU VIVE NUMA CEGUEIRA IDEOLÓGICA, OU É UM PARVO QUE TEM DOIS OLHOS E SE DEIXA CONDUZIR POR CEGOS.”







sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Considerações sobre a liberdade humana. José Mauricio de Carvalho



Dizer algo da liberdade significa descrever uma experiência de todo homem. O ponto de partida parece ser o seguinte, liberdade não é redutível a outra dimensão da vida e se trata de algo que empiricamente verificado. Sem muita especulação sabemos que podemos ou não realizar uma viagem, e se for uma viagem de férias escolher um ou outro destino. Podemos escolher tomar uma cerveja ou não. Portanto, liberdade traduz uma experiência simples que todo homem faz de que ele pode dar caminhos diferentes para sua vida. Se vida, como diz o filósofo espanhol Ortega y Gasset, é o que se faz, liberdade significa que se pode fazer as coisas de mais de um modo. Portanto, se trata de uma realidade comum para as pessoas.
A simplicidade com que podemos reconhecer a liberdade não nos livra de mergulhar em questões difíceis quando se trata de explicar teoricamente no que ela consiste, tanto porque o homem depende de processos que são biologicamente determinados, sofre limitações na forma de expressar e viver seus afetos, quanto encontra limites sociais em sua ação. A liberdade não é exterior ao ato de escolher, de fazer surgir, em nossa existência, uma realidade diferente da que já se tem, mas isso só se realiza dentro de limites. Portanto, a primeira coisa a se fazer quando se pensa a liberdade é não contrapor a possibilidade de se fazer tudo o que se quer às dificuldades decorrentes dos condicionamentos presentes no dia a dia. Não se trata de afirmar a autonomia contra os limites, nem de, devido aos condicionantes da circunstância deixar de admitir a realidade da liberdade.
As diferentes concepções antropológicas que se desenvolveram no ocidente reconhecem essa situação, mas realçam aspectos diferentes dessa realidade, umas supervalorizando as possibilidades de escolha, outras realçando os limites da vida emocional ou a circunstância social. Posições como a de Sartre estão no primeiro grupo, outras como a de Freud destacam os limites estabelecidos inconscientes da vida mental e há aqueles, como Marx, que supervalorizam os limites da realidade social e econômica.  
  Considero que a supervalorização de um ou outro lado não é a melhor forma de tratar o assunto. A liberdade humana é possibilidade de escolha que dentro de limites. O corpo do homem atende a processos e seus instintos o instigam numa direção, mas ele tem no pensamento uma possibilidade real de orientar esses aspectos. Os limites sociais são reais, mas há sempre um espaço de escolha nessa circunstância. Filósofos como Ortega e Psiquiatras como Frankl e Jaspers destacam que o homem possui uma dimensão animal que lhe limitam o caminhar, mas destacam a capacidade humana colocar perguntas, transcender as situações e de modificar a circunstância. A ação do homem transforma o mundo. Dito de outro modo, mesmo reconhecendo as necessidades, processos, forças condicionantes e limites da dimensão social, ele pode ir além dessas medidas por sua condição decisional. Dessa forma ele supera o seu modo de ser coisa.  
Autores como Frankl, Ortega y Jaspers destacam que a liberdade se relaciona com o modo como a pessoa vive o sentido de sua vida. Sentido que ela precisa descobrir no seu núcleo mais íntimo para o espanhol ou no inconsciente espiritual para Frankl.  Assim, as escolhas que concretizam a liberdade passam pelo plano intelectual e emocional, pois o homem escolherá a partir desses dois aspectos, já que ele não é nem só uma coisa e nem outra. Frankl entendeu que, em relação as questões emocionais, há uma dimensão inconsciente, porém é a espiritual a que move a outra, governada por pulsões.
Assim o assunto é complexo e envolve muitas variáveis e dificuldades.
J




sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O DESAFIO ATUAL - CIÊNCIA OU RELIGIÃO. Selvino Antonio Malfatti



A pergunta não é tanto se a Religião tem futuro, mas se é justo depositar o sentido de nossa vida confiando apenas numa mensagem que apareceu há apenas dois mil anos, como é o caso do Cristianismo? Por que deveríamos a nos limitar a perscrutar um horizonte limitado?  Como se a história da humanidade pudesse ser circunscrita a um par de milênios?

Na nossa história biológica nada consta de uma origem de seres sobrenaturais, não se alude a uma transcendência. A “estória” de Adão e Eva, em pensadores como William King, não passa de um embuste e um drama bem elaborado. Nossa história humana tem aproximadamente quarenta milhões de anos quando apareceram os primatas, dos quais emerge o ramo humano. Abstraindo as etapas secundárias, chegamos a nós, Homo Sapiens, que começa a pisar o solo terrestre há pelo menos duzentos mil anos.

Por muitos séculos a Igreja católica, por exemplo, valeu-se das teorias de pensadores pagãos para sustentar que os humanos têm o privilegio de viver num planeta criado especialmente para eles. Um planeta fixo, no centro de um espaço delimitado. Na verdade nosso planeta não está parado e navega num espaço quase infinito. A física do universo não é diferente da física da terra. Imaginar um além-paradisíaco no alto dos céus não faz mais sentido. Vender o céu tornou-se uma empreitada quase desesperada. A Igreja pôde sobreviver concentrando-se sobre a vida terrena, aqui e agora, privilegiando formas de assistência social.

Infelizmente estamos presos a esquemas mentais antiquados. Ainda temos pela frente a tarefa de alargamento de nosso pensamento, em relação ao tempo e espaço. Não podemos prescindir de que a vida fervilhava de variadas formas bem antes de nossa existência por que se há sessenta e cinco milhões de anos atrás os dinossauros não tivessem sido extintos, talvez a vida humana nem tivesse emergido.

Dizem que a religião nunca foi tão importante como neste momento histórico. Penso que nos séculos passados a religião era mais importante que atualmente. Condicionava a vida dos seres humanos e formava o espírito coletivo dos povos. Acredita-se que o Senhor caminhava no nosso flanco. Conforme o pensador Mircea Iliade em todos os tempos e em qualquer canto da Terra no coração dos seres humanos arde a chama do espírito religioso. Mas as religiões nascem e morrem. Ocorrerá isto ao cristianismo também?

Afirma de Bortoli que parece que o homem quer substituir Deus pelo Eu. Já o livro de Keith Hopkins “A world full of Gods” (Um mundo cheio de deuses) a invenção da divindade manifesta o desespero de viver e o terror da morte. Para tornar os dias suportáveis um bom álibi é sonhar com uma vida ultraterrena. Mas o problema persiste por que o homem se põe a questão e ele mesmo dá a resposta.

Atualmente teólogos escrevem livros usando antigas imagens travestidas com termos modernos. Sempre as mesmas palavras: sagrado, alma, sobrenatural cuja realidade não consegue dar uma explicação plausível. Se fecharmos os livros e pensarmos o conteúdo, constatamos que não passa de um exercício dialético do qual nada sobra. Já o filósofo Francis Bacon advertia que determinada linguagem, com um saber recheado de eloquência, cria mundos fictícios convencidos de serem reais.
No entanto, não parece tão simples assim. A questão do universo ainda está em aberto. Sobre os seres que nos cercam alguns são criações humanas como carros, computadores, telescópios e outros. Sim são criações humanas desde as mais simples até as complexíssimas. Não surgiram por geração espontânea, mas primeiramente pensadas e depois construídas.
Se saltarmos para a vida, deparamo-nos com células, bactérias, algas, fungos, plantas, animais. Nenhum desses foram criações do homem, ao menos não “ex nihilo”.
Se nos estendermos para o universo ficaremos literalmente boquiabertos. Dentro deste espaço e tempo sem limites, ao menos até agora não se encontraram, coexistem em forma de matéria, planetas, estrelas, galáxias, constituindo o conjunto do cosmos material.

A ideia de evolução atualmente já é consenso que não é restrita ao biológico, conforme Darwin, mas cósmica. Isto é, a matéria está dotada de capacidade de chegar à vida, em todos os níveis, que pode ter acontecido em algum tempo e espaço no cosmos. Daí se disseminou-se pelo cosmos. 

Então, quem desafia: a religião à ciencia, ou a CIÊNCIA À RELIGIÃO. 








sexta-feira, 23 de agosto de 2019

GULAG X KONZENTRATIONSLAGER –. Selvino Antonio Malfatti



COMUNISMO

Em que pese Marx ter orientado a classe política de que a emancipação da classe dos trabalhadores deva ser obra de si mesma, seu seguidor Vladimir Uljanov, apelidado de Lenin, pensou contrariamente. Entendia que a classe trabalhadora não tinha condições de ter uma autêntica visão revolucionária, e a consciência da missão a ela destinada. Então, deveria ser criada, uma classe política de vanguarda que pensaria pela classe operária. Era o partido bolchevique que. em vez de representação faria, a cooptação.

No sistema cooptativo organizado pelos comunistas não há alternativa para a agremiação no poder. As eleições são um simulacro, desde que o voto é aberto e só há uma lista. A ascensão dá-se por cooptação, isto é, os que estão por cima escolhem aqueles que irão ocupar os vários postos dos diversos níveis de governo. No caso da União Soviética, o responsável maior pelo Partido Comunista ( denominado de secretário-geral) era ao mesmo tempo o chefe do órgão administrativo correspondente (soviet). A rigor não há Parlamento porquanto este reúne-se transitoriamente e é “eleito” pela forma indicada, não havendo a mais remota possibilidade de uma atuação independente. Tampouco havia Poder Judiciário autônomo. O sistema cooptativo soviético corresponde a uma das formas do totalitarismo surgido no século XX.

Quando as eleições russas elegeram uma Assembleia constituinte, na qual os bolcheviques eram minoria, Lenin a dissolve. Em seu lugar institui a Ceka (a futura KGB) policialesca encarregada de espalhar o terror entre os opositores. A possível democracia do socialismo cedeu lugar ao regime de ferro e fogo, totalitário. Surgiam os profissionais ditadura, o poder absoluto do partido e de seu dirigente.

GULAG

Todo aquele que se opusesse ao regime político da União soviética, era muito provável que seria enviado para algum Gulag. Embora pudesse atingir qualquer cidadão  comum – ladrões, heresias religiosas, homossexuais, prostitutas, gays e ação de vadiagem, furto, roubo, agressão, homicídio e estupro -  a maioria esmagadora era de dissidentes políticos.  No Gulag de Kengir, em 1954 havia 650 presos comuns e 5200 presos políticos. Os Gulags existiam antes da Revolução bolchevique, chamados de Katorga com as mesmas penas: trabalhos forçados, pena de morte , privação da liberdade. Os bolcheviques continuaram, com a diferença da potencialização das penas numa escala de dezenas de vezes maior, inclusive com registro de canibalismo.

Conforme o Livro Negro do Comunismo, Martin Malia, calculou um número de mortes de entre 85 e 100 milhões de pessoas.






NAZISMO

Na Alemanha, nas eleições de 1930, a aliança de Weimar obtém apenas 46% das cadeiras. Os partidos autoritários e totalitários conseguem 41% das mesmas, enquanto os nacional-socialistas já detêm 18 delas. Em 1932 tem lugar a eleição presidencial. O marechal Hindenburg candidata-se à reeleição. Necessita de um segundo turno para se reeleger, tendo como oponente Adolf Hitler. Os comunistas, percebendo que não elegeriam seu candidato, votam em Hitler, evidenciando a proximidade ideológica dos dois totalitarismos: nazismo e comunismo. E com as eleições de 1932 e 1933, Hitler se torna o chanceler.

KONZENTRATIONSLAGER

Tão logo o regime nazista conseguiu chegar ao poder, em 1933, providencia uma série de centros de detenção, destinados à prisão dos denominados “inimigos do povo.” Entre eles constavam os professos da ideologia comunista ou social-democrata e ciganos da etnia romani, testemunhas de Jeová, homossexuais e acusados de comportarem-se antissocial.

A agressão em massa da Alemanha deu-se após a anexação da Áustria em 1938. Esta data marca a ação de prisão e encarceramento de judeus alemães nos campos de concentração em  Dachau, Buchenwald e Sachsenhausen. Nesses campos o objetivo final, solução final, era o extermínio principalmente de judeus. Ficou conhecido como holocausto por abrigarem prisões, trabalhos forçados, experimentos científicos, mortes por câmaras de gás, execução ou à mingua.

Se começarmos a contar a partir de 1945, o número mais citado para o total de judeus mortos no período do Holocausto é o de 6 milhões de pessoas.

DOIS MODELOS, MESMA PRÁTICA.

O Gulag incubou-se no comunismo. Foi de esquerda? Parece que há unanimidade. O Konzentrationslager tem sua paternidade no nazismo.  Foi de direita? Ao que tudo indica, há consenso.  Temos então dois modelos contrários com os métodos de atuação idênticos: privação da liberdade, crueldade, extermínio, insensibilidade à dor.
O comunismo é uma ideologia totalitária. O nazismo é uma ideologia totalitária. O conceito de totalitário é usado quando o Estado identifica-se com a vida de seus componentes, família, cidadãos e instituições. As características de ambos respondem positivamente. Da mesma forma seus conteúdos e métodos atestam que sim.

Eram ateus nazismo e comunismo? O líder do nazismo, Hitler, não se dizia ateu, mas fez da religião um self-service, isto é, escolheu dentre os ensinamentos o que lhe convinha. Adotou o Movimento Cristão Alemão, antissemita e racista.
Já o comunismo se declarou explicitamente ateu com Marx, Lenin e Stalin. Conclui-se que ambos não manifestavam – nazismo e comunismo - nenhum entusiasmo religioso. Em que pese o cumunismo ter provocado dezenas de milheres mais vítimas, os comunistas só citam o nazismo. Por sua vez, embora o nazismo supera disparado em violência o fascismo, o mais citado é este. Sem mesmo conhecer o que é um e outro, a acusação mais frequente sempre recai no fascismo. Ambos são ruins, no entanto o nazismo é pior e o comunismo é péssimo.

Além dos regimes políticos comunista e nazista ocorreram outros no século XX, no oriente e ocidente, como chinês, Laos, Hong-Cong entre outros, todos com maior ou menor intensidade de crueldade.

Mas nenhum superou Gulag e Konzentrationslager, as duas pústulas do século XX. 

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A desqualificação da racionalidade: a vitória da contrarrazão. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei



Um dos capítulos mais tristes do século passado ocorreu depois que a extrema direita assumiu o poder na Itália e Alemanha. Ocorreu aquilo que Karl Jaspers qualificou como chegada da contrarrazão. Ele assim denominou todo movimento contrário à razão, ou seja, que nega resultados evidentes da ciência ou estabelece raciocínios frágeis ou maus argumentos filosóficos. Num ambiente assim, o exercício do pensamento não assegura, por si só, as melhores escolhas, ao contrário, o pensamento pode surgir em argumentos muito pouco respeitáveis. Recentemente tivemos um exemplo disso que foi pedir aos ambientalistas, que reclamavam do aumento do desmatamento da Amazônia com dados do próprio governo, que deixassem de ir ao banheiro todos os dias para melhorar o meio ambiente.
O aumento da destruição da mata amazônica não é invenção de cientistas ou de ONGS interessadas em se apropriar da Amazônia. A destruição da floresta para promover atividades agropecuárias em grande escala ou o grande garimpo afetam o equilíbrio climático, o ritmo das chuvas, favorece o aquecimento do planeta, todos problemas de graves consequências para as próximas gerações. Problemas que afetarão gravemente a produção de alimentos e aumentarão as catástrofes naturais. Ora quando a ciência revela aquilo para o que está preparada, e nos limites de sua competência, então ela é um saber respeitável que precisa ser acolhido. Nesses casos, a recusa de admitir seus resultados constitui um obscurantismo sem par e desconhecer os resultados da investigação científica por interesses políticos ou ideológicos, uma completa idiotice.
Também distorceram os fatos os nazistas quando, por razões ideológicas, justificaram a existência de raças superiores e de vidas indignas que não mereciam ser vividas com base nas teses da eugenia e da supremacia da raça ariana. O contrário da razão encontra-se em raciocínios errados, geralmente mistificados. Por isso, a razão deve confrontar os diferentes argumentos presentes no espaço social. Esse confronto deve permitir afastar o que é falso e o que é ideologicamente perigoso. Preservar argumentos inadequados da razão por interesses ideológicos é um desastre para a sociedade humana. A razão é mais que a inteligência, pois ela está sempre confrontando os argumentos do pensamento.
No entanto, e isso também não é pouco importante, a própria ciência estimula formas inadequadas de pensar como quando quer transformar em absoluto o conhecimento baseado na razão experimental que utiliza. Nesse caso, desqualifica crenças que são importantes para o desenvolvimento humano ou petrifica os resultados de um certo tempo. A ciência precisa se manter nos limites próprios de seus métodos, renovar-se com as pesquisas, mas essa crítica à ciência é diferente de manipular os seus dados com propósitos ideológicos, como fez o governo brasileiro ao recusar os dados do Inpe sobre a destruição da floresta. Esconder os dados do desmatamento atual não muda a verdade, talvez afete menos a imagem do país por algum tempo, enquanto prevalecer a mentira. No entanto, como mentira tem perna curta, logo a verdade aparecerá e essa imagem ficará muito mais desgastada. Para homens do século XXI, desconhecer os resultados da ciência ou utilizá-la com propósitos imorais em escolhas mal feitas são práticas obscurantistas.
Na medida em que desconhece os dados da ciência, reduz o investimento nas universidades, o atual governo se mostra inimigo da razão, da inteligência e menospreza a verdade. E isso é um problema para qualquer sociedade. Se ela deixa de querer a verdade, se ela despreza o argumento, ela estimula sua própria destruição. O saber dogmático, rasteiro e míope faz renascer dificuldades que esperávamos houvessem sido superadas com a destruição do nazi-fascismo e do comunismo soviético.


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

PLURALISMO E RELATIVISMO – A Verdade dos Outros. Selvino Antonio Malfatti



Não restam mais dúvidas. O Brasil está infestado pelo joio da intolerância. É prática comum nas redes sociais, principalmente, nas conversas, nas trocas de ideias, na avaliação acadêmica. O diálogo sereno, a avaliação imparcial, o respeito critico, foi banido. Nos outros não há verdade. Predominam os odiadores, os aborrecedores, os “haters”, os “trolls”.
Enclausurados em nossas salas acústicas, onde ouvimos pelas redes sociais os ecos de nossos próprios sons, isto é, opiniões dos que pensam como nós, na verdade voltamos ao estágio primitivo. No centro da aldeia finca-se uma estaca e a partir dela enxerga-se o mundo. Os antropólogos, como William Graham Sumner, denominaram isto de etnocentrismo. É a atitude de quem considera o grupo, o “nós”, a ”tribo” superior ao grupo externo, o “seu”, o “outros”.  A terapia para tal doença é o “pluralismo”, que consiste em sair das câmaras de eco e ouvir a verdade dos outros.
Há, porém, um cuidado com outra armadilha: o relativismo. A diferença entre ambos – pluralismo e relativismo – consiste em que o primeiro possui um número limitado de valores humanos. Não pretende alcançar a todos, mas os reconhece  plausíveis e não se nega à crítica dos mesmos. O segundo, o relativismo, acha que tudo é possível, isto é, todos os valores de cada um são válidos. Um pluralista se apavora com o apedrejamento de mulheres adúlteras como pregam os talibãs, um relativista considera válido. (Giancarlo Bosetti «A verdade dos outros. A descoberta do pluralismo em dez histórias "(Bollati Boringhieri, páginas 198).
A questão do pluralismo e relativismo esteve subjacente ao pensamento filosófico. Ora mais visível ora velado. Pode-se exemplificar com Maquiavel, considerado o fundador do pluralismo. Ao contrastar os valores pagãos – força, justiça e coragem - e cristãos – caridade, misericórdia e sacrifício - deixou clara uma contradição aparente e fez brilhar o paradoxo. Eles são somente aparentemente contraditórios. Existem princípios válidos, ainda que em conflito entre eles, como liberdade e igualdade, clemência e justiça, amor e imparcialidade. Tudo o que decorre de uma única construção monista é sempre duvidosos.  Outro exemplo é o mito da Torre de Babel; Deus desgostou-se não da altura da torre, mas da monotonia da linguagem. Falar muitas línguas foi um presente e não um castigo.
Uma das lições mais convincentes do pluralismo nos foi deixada pelo filósofo Orígenes. Aos trinta e três anos encontrou-se em Antioquia com Giulia Namea, esposa de imperador Septínio Severo, que havia decapitado seu pai. Giulia Namea pediu conselhos a Orígenes sobre a educação de seu filho, conforme os textos sagrados. Orígenes disse-lhe que os textos sagrados não devem ser tomados literalmente e que a salvação é extensiva a todos e não somente para os cristãos.
Falamos no início deste texto sobre a problemática da intolerância que grassa em nossa sociedade. Todos concordam que é preciso estancar o ódio. Para tanto, devemos fazer como os renascentistas. Perguntar-se onde e quando começamos errar. E eles identificaram corretamente: quando entronizamos a intolerância e admitimos o monismo gnosiológico. A partir daí, em vez do pluralismo, nos guiamos pelo relativismo.  Então, corajosamente, voltaram atrás até onde haviam abandonado a tolerância e o pluralismo. Esta atitude salvou a ciência, filosofia, arte, convívio religioso. Foi o Renascimento.
Nós também temos que fazer um feedback, uma autocrítica, e retomarmos o nossa marcha na direção correta. A pergunta: o que nos desviou?   O abandono da hierarquia, o esquecimento do respeito, difusão da mentira. Por isso, é preciso voltar e retomar:
1.    A hierarquia – Com ela se consegue garantir o pluralismo e afastar o relativismo, considerar os demais como inimigos, difundir o erro.
2.    Exigir respeito – É o princípio do sistema democrático. Com isso cada um pode ter garantia da verdade.
3.    Usar as redes sociais para externar a verdade e não para haters.
4.    Antes de falar, pensar se é verdadeiro, se conveniente e se ajuda alguma coisa.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

VELHICE E APOSENTADORIA. Selvino Antonio Malfatti - IFLBR




O Brasil está prestes a superar o modelo previdenciário antigo para o novo. Não que o antigo não tenha valor ou seja pior. É apenas a passagem de um modelo para outro, da mesma forma que escrita datilografica e eltrônica. Se não superar a fase, permanecerá defasado com todas as consequências.

Em praticamente todos os países há uma correlação entre velhice e aposentadoria. Quando se fala em velhice, imediatamente vem à mente aposentadoria. É uma conquista social dos tempos atuais.  Cada língua tem uma designação, muitas vezes relacionando uma a outra. No Brasil, por exemplo, quem é idoso passa a maior parte do tempo nos aposentos e portanto, ele está aposentado. Vejamos algumas línguas atuais e sua designação para velhice e aposentadoria.

Aposentadoria                                            Velhice
Português – 
- Brasil: aposentadoria                               
                   
-Portugal: reforma                                     
Velhice
Italiano: pensione
vechiaia
Alemão: Ruhestand
Alter
Inglês:retirement                                                           
old age
Francês: retraitre                                                                   
la vieillesse
Espanhol:   jubilación                                                         
vejez
Russo:    выбытие                                                              
starost'
Chines:       Tuìxiū                                                                 
Wǎnnián

As pessoas projetam a vida na seguinte prospectiva: na infância somos imantadas pelos brinquedos; na juventude, o estímulo é a preparação para o trabalho com vistas ao emprego; na vida adulta o fascínio do dinheiro do trabalho; na velhice, a almejada aposentadoria. Então, a velhice é a fase ápice da vida com a pílula dourada da aposentadoria.

Como é apresentada a velhice pela sociedade? Após o período de trabalho abre-se um tempo para dispor para o que se quiser, mormente como desfrute, lazer. Mas, na realidade, este “para o que quiser”, o que é? Um “dolce far niente”? Ou, um “amaro far niente!”? 

Pessoalmente, para a maioria não é “um nauseante fazer nada”?  Um tempo que não passa, um tempo inútil? E a velhice, como estrato social, como é vista pelos governantes? Um peso para a sociedade? Um gasto inútil, um investimento sem retorno.

Neste quadro concebeu-se a aposentadoria como solução para a velhice. Mas isto basta? É suficiente colocar nas mãos um troco? Não haveria algo mais digno, isto é, que acenasse para a vida em vez de acenar para a morte?
Poderia ser diferente? Evidentemente. Basta ver o histórico da expectativa de vida. Na antiguidade, a perspectiva de vida era em torno de trinta anos, depois, a morte. Claro que havia, excepcionalmente, pessoas que chegavam aos sessenta ou mesmo setenta. Na idade média a situação não se modificava muito. A situação começou a modificar-se a partir da idade contemporânea, devido em grande parte ao avanço da ciência, máxime da medicina, aliado aos novos hábitos principalmente de higiene.

Na história sempre se projetou o progresso para um patamar superior. Isto aconteceu com a expectativa de vida. Hoje já projetamos para os oitenta anos e mesmo noventa.
Inexplicavelmente, não se projeta mais nada, além da aposentadoria para a velhice. Envelhecer e vegetar.

Diante disso há que se pensar que esta população idosa não pode permanecer ociosa, e nem ela mesma o quer. Não é a renda que está em jogo, mas o grau de satisfação pessoal. Quantas inteligências não aproveitadas! Quantas habilidades, jogadas fora. Quanta energia desperdiçada. Por que não se organiza uma economia paralela para os idosos? Pode-se aproveitá-los nas pesquisas, no governo, nas artes, em confecções, em manufaturas?

A velhice não pode ser o fim, mas outra etapa, talvez a mais gratiticante.



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