sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A PROBLEMÁTICA DOS PERÍODOS CULTURAIS NA ATUALIDADE. Selvino Antonio Malfatti.





A civilização Ocidental sempre teve momentos ou períodos que marcaram determinadas épocas. Estes períodos possuem um conjunto de características que individualiza a época tornando-a distinta da outra, isto é, sui generis. É por assim dizer, uma metamorfose cultural, em oposição à metamorfose do poeta Ovídio do período da cultura romana. Ele mesmo já identificava eras culturais como a idade do ouro, idade da prata, idade do bronze e idade do ferro. A denominação atual tem outros nomes como: a época de Péricles de Atenas, o helenismo, período romano, o cristianismo medieval, o renascimento, o modernidade, o romantismo (belle époque), o moderno e o pós-moderno.  Agora já ingressamos em outra época cultural: o pós-pós-moderno.
Cada período tem um centro, uma ideia-mãe, um eixo que imanta as demais dimensões.  Por isso, nestes períodos, praticamente todos os aspectos são influenciados. Se analisarmos o período romântico, constatamos que a literatura, a pintura, escultura, a política e até mesmo a religião são românticos. Vejamos, por exemplo, alguns aspectos do período. François René de Chateaubriand escreveu “Le Génie du Christianisme”, obra de cunho romântico para defender a religião católica contra os ataques dos revolucionários franceses. Os revolucionários franceses, por sua vez, embasaram suas ideias em princípios românticos, como igualdade, fraternidade e liberdade. Os cientistas sociais enfatizavam a situação miserável dos pobres e a saída apontada era a distribuição dos bens retirados dos mais abastados.
A passagem de uma época cultural para outra se dá imperceptivelmente. O novo período não se desmembra do outro, apenas toma outra forma tornando-o distinto em relação ao anterior. É como a metamorfose de determinados insetos e mesmo a mutação das espécies.
A transição do pós-moderno para outra fase cultural,  ainda não recebeu denominação definitiva, sendo apenas designado por pós-pós-moderno. Como poderíamos descrever o novo período ? O que constatamos? Velocidade na comunicação, globalização das informações, robótica na produção de bens, era digital,conquista espacial, produção geneticamente modificada, valores (monetários) virtuais, valores (axiológicos) materiais, religião de extremos (radicalismos de uns e ceticismo de outros) são alguns dos componentes do pós-pós-modernismo.
Os períodos culturais são sempre menos duradouros, mais rápidos, podendo emendar algumas gerações. Quando teria iniciado o pós-pós- moderno? Os sociólogos pensam que o pós moderno tenha iniciado em 1979 e seu término ocorrera em 2004, dando início então o pós-pós-moderno. Atualmente, por exemplo, já convivem no mínimo três gerações culturais: a moderna, a pós- moderna e agora a pós-pós- moderna. Diz Daniela Coli, no jornal italiano Corriere della sera (10/0/2015), descrevendo o suceder de momentos culturais:

Nel 1979 Lyotard teorizza la fine dei grandi racconti come l’illuminismo, l’idealismo e il marxismo, perché né il progresso scientifico e tecnico, come prevedeva l’illuminismo, né la progressiva spiritualizzazione dell’uomo immaginata da Hegel, hanno prodotto una nuova umanità, come dimostra p.e. l’Olocausto. Né c’è riuscito il marxismo, un mix di illuminismo e hegelismo rovesciato, che ha prodotto una delle rivoluzioni più sanguinarie della storia e un regime più tirannico di quello degli zar. Per Rorty Dio è morto e i filosofi lo hanno rimpiazzato con romanzi metafisici spacciati per veri e razionali. Un critico della modernità come Strauss, non riteneva però riducibile la filosofia moderna alle metanarrazioni settecentesche e ottocentesche. “ Condorcet e perfino Comte – scrisse a Löwith il 15 agosto 1946 – non volevano rimpiazzare la cristianità: essi volevano sostituire il nonsense con un ordine intellegibile. Ma questo lo volevano anche Descartes e Hobbes. Soltanto quando la querelle fu in sostanza risolta, vi fu introdotta la religione e la cristianità, e questa successiva interpretazione del movimento moderno dominò l’ingenuo e insopportabilmente sentimentale secolo decimonono”.

No entanto, nem todos concordam como é o caso de Carlo Bordoni, no mesmo jornal de 2 de agosto, dizendo que o pós-moderno pode não estar morto, apenas apenas moribundo.

Não admira, portanto, que haja tantas incertezas no mundo atual. As pessoas se sentem perdidas culturalmente. Os referenciais já não são os mesmos para todas as pessoas da mesma sociedade. As novas gerações assimilam rapidamente os avanços culturais e as mais antigas vão ficando para trás. Crianças operam com desenvoltura computadores de última geração enquanto há idosos que nem conseguem sacar dinheiro em caixas de auto-atendimento. 


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Considerações sobre os pais. José Mauricio de Carvalho




O domingo que passou, devido à comemoração do dia dos pais, assistiu se multiplicarem nas redes sociais os cumprimentos aos pais. Também se viu agradecimentos tímidos, lembranças saudosas, mas quase nada sobre o sentido e valor da paternidade. E, em meio às mensagens e às mudanças nas famílias de hoje, terminei o dia pensando na importância do pai enquanto referência de afeto, segurança, dos valores morais e da esperança. Pouca novidade, Freud já associara a formação da estrutura moral à educação paterna. Por outro lado, Freud insistiu pouco na importância que tem as referências paternas na construção da vida singular, que é o modo próprio da vida humana.
O homem, apesar da racionalidade, é um animal. Como tal precisa aprender a viver com seus instintos e a realizar seus desejos como é possível numa sociedade civilizada. Neste sentido, a presença do pai junto aos filhos, especialmente enquanto ainda são pequenos, é referência imprescindível de orientação existencial. Ainda quando os filhos se rebelam, e frequentemente o fazem para experimentar trajetória própria, é o pai que eles têm em vista. E é este pai que eles aprenderão a imitar e respeitar à medida que seguem sua própria via existencial, mesmo quando seguem por caminho diferente. Mesmo envolvido na difícil tarefa de levar adiante a existência singular, mesmo criando cada geração seu estilo de viver, é o pai que cada um terá como referência quando a vida trouxer as crises. É a lembrança paterna, sobretudo da infância, o espaço onde cada qual encontra os elementos para seguir adiante e fazer diferente do pai, mas como o pai. E quanto mais velhos ficamos, mais reconhecemos o valor e o significado desta presença.
Quando o pai consegue ser presença de afeto e segurança, o que ele ensina não simplesmente reproduz os valores sociais, mas é orientação segura para vida, baliza do que é bom e do que não é. Neste nosso tempo de violência, irresponsabilidade e gozo ansioso, quanta gente pode dizer que teve um pai como referência? Quantos jovens que hoje enchem as casas de correções, quando destes que já não cabem em nossas cadeias estariam lá se tivessem tido, ao seu lado, principalmente na infância, um pai. Não importa a classe social, nem é preciso ser perfeito, mas é necessário ser alguém que ama e orienta. Quantos desses jovens perdidos não o seriam se tivessem tido um pai. Apenas um pai que eles também pudessem amar e de quem não se envergonhassem.
Ninguém pode deixar de cuidar da própria vida, de fazer diariamente suas escolhas. E não há como subtrair-se à responsabilidade pessoal nas escolhas do dia a dia, no campo pessoal ou profissional, no universo político ou religioso. A vida de cada um é essencialmente sua edificação, mas na hora de escolher, o que o pai ensinou ou deixou de fazê-lo, mostrará seu peso.
O que foi dito acima mostra que cada pessoa é responsável pelo rumo que der a seus dias. Em última instância é o indivíduo mesmo o grande agente de sua vida. No entanto, o que este dia dos pais sugere é que criar com trabalho e amor deixa a marca da presença paterna na vida singular. E não estamos falando ao longo deste texto do pai biológico, mas do que é presença. Não somos o primeiro homem, dizia Ortega y Gasset para explicar que aprendemos uma língua, ciência, costumes e crenças que já existem. Se tudo isso estará presente em nossas escolhas futuras como ele diz, também aprendemos a coragem, a perseverança, a experiência do amor e os valores na condução da vida pela convivência com o pai.
O dia dos pais passou, que ele possa, além dos cumprimentos da ocasião, ser oportunidade de reflexão sobre o compromisso de ser pai. Que ele aumente a consciência da responsabilidade com os filhos e com o futuro dos homens e do país. Se não formos melhores pais, não contribuiremos muito com o futuro da humanidade. Pois sem limitar os instintos, superar o egoísmo primitivo, não é possível a aceitação do outro, o reconhecimento de sua liberdade. Não se aprende a amar e a ir adiante das situações sem superar as limitações do egoísmo infantil.



sexta-feira, 7 de agosto de 2015

DIA DOS PAIS. Selvino Antonio Malfatti




















Em várias partes do mundo há um dia consagrado aos pais. A data não é unânime em todo mundo. Portugal celebra em 19 de março (Dia de São José – pai adotivo de Jesus), nos Estados Unidos, Inglaterra e numerosos países a celebram em junho pois foi este mês que foi celebrado pela primeira vez nos Estados Unidos em homenagem a um pai na data de seu nascimento.
A data comemorativa tem dois suportes valorativos: um, lembra a figura paterna no seio da família de concepção religiosa -geralmente cristã - e outra presta uma homenagem aos antepassados (grandfather ). No caso de família com sentido religioso, atualmente não é mais totalmente confessional, mas cultural. Da mesma forma, a ideia de "homenagem aos antepassados" também é cultural. No caso brasileiro, a data de agosto foi uma homenagem a São Joaquim, sacerdote na religião judaica. Ele era pai de Maria e avô de Jesus, pela religião cristã, cuja festa é celebrada em agosto. Por isso, poder-se-ia dizer hipoteticamente que a data obedeceu a critérios bi-confessionais: judaísmo e cristianismo.
A fundamentação cultural judaico-cristã evoca a figura paterna do próprio Deus, considerado um Pai. Na verdade o que se quer é apresentar um modelo axiológico no qual todos os pais pudessem se espelhar, como próprio Deus–Pai seria.  Quais as qualidades destacadas:
1.       Presença. O significado não quer dizer apenas uma presença física (embora seja também), mas viver junto com a família. Lembra acompanhar, participar, compartilhar, transmitir confiança e segurança. Evidentemente que isto pode ser mais espiritual que físico. Embora seja difícil e até mesmo extenuante após um dia de duro trabalho é preciso conversar. Se o ambiente estiver pesado, comece com uma observação de humor. A partir da primeira resposta o diálogo fluirá naturalmente.
2.       Afeição. Um pai presente desperta na família uma afeto mútuo entre os membros. O respeito à dignidade de cada um irá refletir-se em cadeia entre si. O pedir licença, desculpar-se, ser exemplo, fará com que os demais membros, principalmente as crianças, façam o mesmo. A interação afetiva proporcionada pelo pai começa ser a regra geral dentro da família. Ser modelo de bom pai, homem íntegro, cidadão exemplar. Suas ações são mais poderosas que suas palavras.
3.       Autoridade. Não é a o mesmo que poder. A autoridade tem legitimidade, o poder a força. O pai exerce na família uma autoridade legítima, isto é, obtém o consentimento dos demais devido a concordância na justiça de suas exigências, pois ele  mesmo se submete a elas.
4.       Limitação. Com afeição e autoridade, estabelecer limites que se desdobram desde o físico, entrando pelo econômico, lazer, moral, sexo e mesmo espiritual. O mundo não é uma galáxia infinda dando a qualquer a ser desfrutá-lo ao seu bel prazer. Ao contrário, é um Éden a ser preservado.
5.       Promessa. A promessa aponta para uma meta, um ideal a ser alcançado. Acenar e prometer devem ficar também dentro de suas próprias limitações. Despertar expectativas e não realizá-las causam muitos prejuízos psicológicos mais do que se nunca tivessem sido vislumbradas. O prometer e o cumprir devem andar de mãos dadas. Só assim é pai pode se apresentar como promessa de que agindo assim alcançarás o prometido.
6.        Religião. Como na maior parte das vezes o conceito de pai está associado ao culturalismo judaico-cristão, mas não necessariamente, perguntamo-nos o que é ser um pai neste contexto?  Deixemos responder um pai cristão. Trata-se do professor e filósofo português  Eduardo Abranches do Soveral. Um pai cristão que assim publicamente se declara, conforme ele, deve ter sempre presente:
a)      A Dignidade da pessoa humana. Cada homem é uma pessoa e não um indivíduo. Possui uma dignidade conferida pelo próprio criador e uma natureza assumida pela própria divindade. 
b)      A fraternidade dos homens. Os homens são irmãos por serem filhos do mesmo Pai, que é Deus. Esta fraternidade é a origem de sua liberdade e igualdade relativamente de uns para com os outros.
c)       Caridade pessoal. A caridade é de coração para coração e não para com os homens em sentido universal. A caridade começa com os mais próximos – pais, irmãos, vizinhos, companheiros de trabalho etc. – e depois estende aos demais. Isso tem sentido como um Corpo Místico de Cristo. Sempre na situação concreta e não geral. Cada um seja um Cristo na situação concreta. “És professor? Sê Cristo como professor. És aluno? Sê Cristo como aluno. empregado? Sê Cristo como empregado”.
ÉS PAI? SÊ CRISTO COMO PAI.





    

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Contando uma linda história. José Mauricio de Carvalho





A mais maravilhosa história da humanidade foi protagonizada há mais de dois mil anos por um jovem carpinteiro da cidade de Nazaré em Israel. Depois de ensinar alguns anos o caminho para Deus, assumiu com sua morte, as consequências de suas escolhas e ensinamentos. E assumiu com força inabalável. Ele percebeu, a certa altura da vida, que as autoridades religiosas judias não aceitavam sua mensagem, nem sua presença e caminhou serenamente para o destino trágico que a missão o conduzia. O Batismo no Jordão transformara o jovem carpinteiro em um novo homem e o levou à entregar a vida em sacríficio supremo. Foi a última forma que encontrou de combater o mal. Ao fazê-lo revelou aos homens a vontade de Deus e respondeu com o perdão a injustiça, a mentira e o julgamento fraudulento de que foi vítima. Viveu humildemente e morreu sublimemente: morreu por seus amados (Jo 15,13).
O jovem carpinteiro saiu do Batismo no Jordão elevado à condição de Rabino, mudou sua forma de viver com uma ética que abria os caminhos até Deus.  Seus últimos dias neste mundo foram relatados nos Evangelhos: a recepção com ramos em Jerusalém, a última ceia, a condenação, o testemunho de coerência diante dos juízes, a morte na cruz. Foi-lhe dada a forma desumana de executar escravos e inimigos perigosos de Roma. E a tudo suportou sem desespero, procurando a presença de Deus na sentença da cruz. Passou seus últimos momentos com o coração cheio de angústia, mas determinado a levar ao final sua missão. E com esta escolha libertou-se da angustia existencial e deu à sua vida um sentido maior, o de salvar os homens da maldade. Morreu, foi sepultado, e quando todos esperavam o fim da história começou a aparecer a seus discípulos e a pessoas que o conheceram. O absurdo dos fatos adquiriu, então, um sentido libertador. Apareceu de outro modo, com um novo corpo, mas ainda assim possível de ser reconhecido pelos discípulos. Ressurgindo renovou todas as coisas.
A linda história do Filho de Deus que viveu entre os homens, morreu ressuscitou e apareceu a muitas pessoas, mudou a história da humanidade. Primeiro trouxe valores desconhecidos: o amor até aos inimigos, a igualdade de todos os homens diante de Deus, a dignidade da pessoa humana, a liberdade de fazer escolhas e a responsabilidade necessária por elas. A tais valores soma-se a esperança de renovação do mundo e de uma nova vida que há de vir para todo homem depois de cumprida a jornada na terra.
Esta história já contada tantas vezes e com muitas variações é encenada na cidade de São João del-Rei durante a Semana Santa, mantendo-se um ritual que se repete, quase sem alterações, há dois séculos. Assim, a história do carpinteiro que era Deus ganhou, com a tradição, uma forma igualmente extraordinária de ser apresentada aos homens. A cerimônia foi recentemente filmada por Toninho Ávila e comentada pelo Pe. Ramiro José. Este último explicou o significado litúrgico dos fatos narrados: a presença viva de Cristo no ritual. Além dos eventos da Semana Santa gravaram também a via sacra realizada na Catedral de São João del-Rei, que é um outro modo de retratar os últimos momentos da vida de Jesus. Tudo isto pode ser adquirido por qualquer pessoa hoje em dia. Pode ser guardado como registro deste bem cultural imaterial, celebração que enriquece o casario dos séculos XVIII e XIX e que é o adorno desta celebração. Uma iniciativa interessante dos organizadores do vídeo. Ao assistir as filmagens comentadas nos vemos diante do desafio de reviver os últimos momentos do Senhor e reconstruir, para além da forma narrativa, o sentido de sua Presença em nossos dias.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

A ALEMANHA, O CONTRAPONTO DA GRÉCIA. Selvino Antonio Malfatti




É opinião corrente entre os gregos e até mesmo recorrente de que a desgraça da Grécia está relacionada ao sucesso da Alemanha. Com efeito, dizem: roubaram-nos a língua, a filosofia, a ciência, a arte, a matemática e nos deixaram na miséria. Vejamos o contexto.
No momento a Grécia tem como líder político Alexis Tsipras- socialista e a Alemanha  Angela Markel - conservador, ambos herdeiros de um passado distinto que se reflete no presente.  O professor Ricardo Vélez Rodríguez, em "Menos Platão e mais Aristóteles", neste espaço, sugeriu que a Grécia está nesta situação porque não se adaptou às instituições políticas dos países da zona do euro e não tem mecanismos opara desembarcar e ao contrário, a Alemanha não só assimilou como foi protagonista do euro europeu. Aproveitando o tranco concordo, mas acrescento que isso aconteceu também no sentido dicotômico de idealismo versus realismo. A Alemanha condimentou sua política econômica com mais Aristóteles - realismo, enquanto a Grécia fez o inverso, priorizou Platão - idealismo. Por onde começamos?

Penso que uma data significativa para ambos pode ser o fim da II Guerra Mundial. A Grécia, libertada da ocupação nazista, alinha-se com os aliados e por isso sai vencedora; a Alemanha, causadora da guerra, a perdedora. A primeira, ainda durante o período bélico mundial, envolve-se numa guerra civil de cunho ideológico-político - socialista versus conservador – conflito que continuará após o término da conflagração mundial.
A Alemanha assina uma rendição incondicional e a guerra chega ao final. Já antes do término, os líderes aliados discutem o que fazer com a economia alemã. A decisão a que chegaram foi de destruir a indústria alemã e transformar o país numa economia agrícola. Era o Plano Morgenthau. Só após o fim da guerra este Plano foi mitigado. Assim mesmo, a Alemanha até 1947 definhava economicamente. Um dos problemas era o modelo econômico de mercado adotado pelos Estados Unidos, Inglaterra e França de um lado e o modelo estatizante da União Soviética. Ambos excluíam-se mutuamente. A solução encontrada foi dividir a Alemanha: uma parte ficaria com a Rússia e aí poderia implantar o seu modelo econômico e outra ficou com os demais aliados e que passariam a adotar o seu modelo.
Outra medida dos aliados foi de controlar a economia alemã através de salários e preços congelados e com isso controlariam a economia funcionando. Era aquilo que chamavam de inflação reprimida. O resultado era o pior possível. A oferta e demanda se autoeliminavam. Os preços deixavam de refletir o valor do dinheiro. Consequência: queda na produção, e em decorrência: escassez. Voltou-se tudo a estaca zero: economia de escambo em vez de monetária. As empresas passaram a trocar aquilo que produziam por aquilo que necessitavam. O efeito dominó não demorou. Os empregados também queriam ser pagos em mercadorias. E eles mesmos passaram a praticar o escambo, isto é, trocavam mercadorias que tinham por aquelas que necessitavam. Os trabalhadores não tinham mais incentivo para trabalhar e mesmo ganhar dinheiro. Queriam somente mercadorias. Como era necessário ter emprego para ter direito às papeletas de racionamento, conseguiam emprego, mas somente iam trabalhar duas ou três vezes semanais. O resto do tempo era dedicado a bicos e trocas. Esta situação econômica levou o país a quase total paralisia, chegando ao ápice em 1948.
A virada ocorre com Ludwig Erhard ao ser nomeado Diretor da Administração Econômica Bizonal propondo um plano econômico de reforma monetária junto com uma completa abolição dos controles sobre a economia. Os aliados receberam com ceticismo e desconfiança a reforma. Mas pouco a pouco o mercado negro desapareceu, os preços se estabilizaram, as mercadorias apareceram, os trabalhadores sentiram vontade de trabalhar e ganhar dinheiro e o povo sentiu vontade de comprar. Já em 1948, a Alemanha cresceu 143% e nas décadas seguintes uma das maiores taxas de crescimento do mundo.
E o que aconteceu com a economia da Alemanha oriental? Praticamente se tornou satélite da URSS, sem autonomia, subordinando-se às decisões superiores de Moscou, enquanto a ocidental, paulatinamente, retoma a vida autônoma. Nesse contexto, o renascimento dos partidos políticos, na ocidental, ocorreu com as primeiras eleições administrativas em 1946, quando se apresentaram  à disputa os democratas cristãos, os sociais democratas e os liberais, permanecendo esses grupos por quase meio século na arena política. Na zona dominada pelos soviéticos, os sociais democratas e os comunistas são obrigados a se fundirem, dificultando a competição para os demais partidos, como os democratas cristãos.
Em 14 de agosto de 1949, realizam-se as eleições na República Federal da Alemanha que dão a vitória aos democratas cristãos sob a liderança de Konrad Adenauer, o qual, em setembro, forma o primeiro gabinete de centro-direita, com os liberais e outros partidos conservadores. Adenauer escolhe para ministro Ludwig Erhard que leva adiante uma proposta político-econômica de economia social de mercado. Há que se frisar que a economia social de mercado não se identifica com o liberalismo econômico e nem com socialismo. A proposta é originária de ideias político-econômicas da própria Alemanha. A economia social de mercado pode ser entendida como uma combinação de liberdade de mercado com a eficiência proveniente da competência, bem como a garantia de uma existência digna para os setores menos favorecidos da sociedade.
O sucesso do plano foi secundado por alguns fatores que não dependeram diretamente do ministro Erhard. Entre eles, pode-se destacar que a situação catastrófica em que se encontrava a Alemanha não era da responsabilidade de nenhum partido recém-constituído. Em segundo, havia um ambiente cultural propício para a operacionalização de novas ideias econômicas, desenvolvidas durante o período nazista, com o objetivo de reorganizar a Alemanha após o fim da guerra.
Com o democrata cristão Adenauer no governo, no cargo de chanceler, e Erhard como ministro da economia, a Alemanha reingressa no concerto das nações democráticas ocidentais. A União Cristã Social – CDU e CSU – permanece hegemônica até 1966, quando se inaugura um governo de coalizão com os sociais democratas.
A trajetória político-econômica da Alemanha foi de trabalho, poupança, austeridade, não gastar mais que se ganha, um programa conservador? Se isto é conservadorismo, então, esta foi a ideologia que levou a Alemanha a uma das nações mais ricas da Europa. Deem-lhe o nome que quiserem, mas que a receita não é só boa, como ótima. Por outro lado, a Grécia insiste em implantar um modelo de distribuição de benesses, emprego, redução da jornada de trabalho, incentivo ao consumo, facilidade de crédito. È um programa progressista? Se isto for progressismo então esta ideologia levou a Grécia à pobreza.  A Alemanha adota uma visão aristotélica, isto é, realista enquanto a Grécia fixa-se numa mentalidade platônica ou idealista.
Aí está posto o paradoxo - aparência de falsidade - mas verdadeiro: o realismo de Aristóteles, leva ao progresso, e o idealismo de Platão, à estagnação. Então, por que a Grécia não adota também mais Aristóteles e menos Platão?




sexta-feira, 17 de julho de 2015

A crise grega – menos Platão, mais Aristóteles! Ricardo Vélez Rodríguez - Professor da Faculdade Arthur Thomas (Londrina)



Em face da crise do euro, com os gregos querendo desembarcar da União Europeia, lembro-me de artigo muito pertinente escrito por meu amigo João Carlos Espada (A Grécia e as ‘infelizes dicotomias’ continentais, jornal Público, Lisboa, 6/7) em que ele identificava um problema: não foi imaginado pelos criadores da zona do euro um mecanismo de desembarque para as nações que, como os gregos hoje, não se sentissem à vontade nela. Ora, faltou esse mecanismo de desembarque. Se houvesse, não estaria passando a Europa unida por tantos sobressaltos.
É claro que eu, como meu amigo Espada, não tenho simpatias por Alexis Tsipras nem por seu grupo de esquerda radical, o Syriza. Baste lembrar que a primeira providência do jovem líder grego depois de eleito foi receber o embaixador do arquirrival da União Europeia, o czar Putin. É botar gasolina na fogueira.
Passo a refletir sobre a crise do euro à luz dos conceitos filosóficos, sendo fiel à minha profissão de professor de Filosofia. Falta à União Europeia, hoje, mais flexibilidade na gestão dos conflitos. Resumiria esse imperativo no título do meu artigo: menos Platão, mais Aristóteles.
Lembremos que, diante da crise que os gregos enfrentavam no século 4.º a. C., com Atenas perdendo terreno para a sua rival Esparta, a solução platônica consistiu em incrementar o modelo educacional ateniense, tirando o ensino das mãos dos sofistas, estrangeiros em geral, e passando-o às dos atenienses, sob o rígido controle do governo da polis. O modelo ateniense deveria ser incutido na mente das novas gerações pela pedagogia platônica, a Paideia, toda ela a serviço da construção da máquina do Estado, sob a previdente condução do rei filósofo. Ora, esse modelo funcionava em Atenas e em nenhum outro lugar. Quando Platão tentou sugeri-lo a Dionísio, tirano de Siracusa, foi posto em prisão e seus discípulos tiveram de fazer uma vaquinha para libertar o mestre.
Aristóteles não tinha origem ateniense, era um bárbaro macedônio civilizado, tendo estudado na Academia platônica. Mas tinha uma visão ampla do mundo e uma concepção política aberta à diversidade. Viajou pelo Médio Oriente, pelo Mediterrâneo Oriental e pelo Egito e escreveu sua obra sobre as constituições do mundo antigo, tendo identificado 158 formas diversas de governo. Formou nessa mentalidade aberta o seu pupilo, o jovem Alexandre, que seria o famoso conquistador do mundo antigo, construtor do primeiro império globalizado da época.
Dessa magnífica obra aristotélica chegou até nós a Constituição de Atenas, preservada do criminoso incêndio da Biblioteca de Alexandria por zelosos amanuenses bizantinos, egípcios e árabes, que a trouxeram até nós. Ora, o postulado fundamental da política em Aristóteles é que há duas condições para conquistar a estabilidade no seio do Estado: a primeira é que este se organize a partir das tradições em que a comunidade acredita e a segunda, que se estabeleça um regime que traduza a média da opinião, postulado que passou à posteridade, na Idade Moderna, pela mão, sobretudo, de François Guizot, o primeiro-ministro do reinado de Luís Felipe na França.
A comunidade do euro foi organizada mais pensando na unanimidade platônica (herdada por Hegel, que certamente influenciou muito a intelligentsia alemã e a chanceler atual, Angela Merkel). Faltou a média da opinião de Aristóteles.
Não foram criados mecanismos que possibilitassem aos países integrantes um eventual desembarque da zona do euro. Era isso o que justamente temia Margaret Thatcher quando foi posta em discussão a adoção pelos parceiros europeus da moeda única.
Lembremos parte do seu discurso pronunciado no Conselho da Europa, reunido em Roma em outubro de 1990, no qual a então primeira-ministra britânica desaconselhava a adoção da moeda única por seu país. A sra. Thatcher afirmava que os trabalhistas não teriam problema em entregar a soberania nacional. O Partido Trabalhista, dizia ela ironicamente, “talvez concordasse com a moeda única e com a abolição da libra esterlina. Talvez, sendo totalmente incompetente na administração da política monetária, ficasse feliz em delegar toda a responsabilidade a um banco central (europeu), como fez em relação ao FMI. O fato é que o Partido Trabalhista não tem competência para lidar nem com dinheiro nem com a economia” (Papéis de Margaret Thatcher, documento número 869, 30 outubro de 1990, http://www.margaretthatcher.org/document/108234).
Ora, a União Europeia, na rigidez dos seus princípios organizacionais, lembra mais Platão e o Bloco Continental imaginado pelo imperador Napoleão Bonaparte do que uma federação de Estados livremente unidos por um pacto flexível, costurado à sombra do bom senso aristotélico. Um banco central operante pressupõe mecanismos de união política que hoje estão ausentes da comunidade. Eis o cerne do problema. A ordem imposta de fora é problemática. “As baionetas”, aconselhava a velha raposa Talleyrand a Napoleão, “servem para muitas coisas, menos para sentar em cima delas.”

Voltando ao bom senso britânico, considero pertinentes as palavras com que João Carlos Espada conclui seu artigo: “As instituições sociais não são fabricadas especificamente por ninguém. Emergem de um longo e complexo processo de interação descentralizada que não é suscetível de comando central – mesmo que esse comando central seja exercido pela chamada Razão, ou mesmo pela Razão libertadora de preconceitos e tradições não racionais (...). Não pretendo com isto concluir que a criação do euro tenha sido necessariamente um erro. Mas foi seguramente um erro gigantesco ter criado o euro sem uma cláusula de saída ordeira. E é um erro gigantesco identificar a moeda única com a União Europeia. A moeda única deve ser apenas uma opção possível para aqueles países que queiram subscrevê-la”.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Evangelii Gaudium, a Igreja do Papa Francisco.José Mauricio de Carvalho - UFSJ





O Papa Francisco resumiu os desafios da Igreja de nosso tempo na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. No documento o Pontífice toca num aspecto sensível e atual: a necessidade de uma nova presença da Instituição no mundo. O nosso tempo, com seus desafios, pede uma atuação singular da Igreja. Embora dirigida a todos os cristãos, a exortação do Papa Francisco dirige-se principalmente ao clero, estimulado a adotar uma atitude que o Pontífice denomina missionária. Poderíamos traduzir Igreja Missionária como aquela que vive no espírito acolhedor e amoroso do Fundador. Simples assim, o Papa quer uma Igreja que se entusiasme na singela alegria de anunciar o Senhor. Uma Instituição que saiba separar o que é essencial na sua missão dos acessórios incorporados ao longo de sua história.
O essencial da exortação do Papa Francisco encontra-se no início do documento: aqueles que se deixam tocar por Jesus "são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria" (p. 3). E essa maravilhosa relação pessoal de sentido em razão do encontro com Cristo, no entendimento do Papa, a resposta para o sofrimento dos homens de hoje. Esta Igreja está desafiada anunciar a "doce alegria do amor de Deus" (p. 4).
A alegria do anúncio vem da fidelidade ao Evangelho. Se o convite para anunciar o Senhor for deixado de lado em nome de outras doutrinas e procedimentos a Igreja se afasta do essencial. Escreve o Papa: "Se tal convite não refulge com vigor e fascínio, o edifício moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo: é que, então, não estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentuações doutrinais ou morais, que derivam de certas opções ideológicas. A mensagem correrá o risco de perder o seu frescor e já não ter o perfume do Evangelho" (p. 34/35).
Para anunciar com alegria o Evangelho a Igreja, principalmente seus ministros, precisam distinguir o fundamental do acessório. Como diz o Papa Francisco, esta distinção é necessária "tanto para os dogmas da fé como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral" (p. 32). Separar o principal do secundário é desafio permanente da Igreja, que tem que transmitir a eterna boa nova em meio aos ruídos do mundo. Logo o anúncio precisa ganhar a forma dos tempos, para que o ensinamento conserve o eterno frescor da formulação original. Explica Francisco: "as enormes e rápidas mudanças culturais exigem que prestemos constante atenção ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade" (p. 36).
Para efetivar tal desafio é importante refletir sobre a verdade com liberdade apoiando-se na Filosofia, Teologia e na prática pastoral livremente tratadas. Essa atitude "ajuda a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da palavra" (p. 36). A deixar que as circunstâncias histórico-culturais limitem a transmissão da verdade corre-se o risco de falseá-la, mesmo quando a verdade circunstanciada carrega a melhor das intenções.
O Papa é realista. Entende que as pessoas não são, de modo geral, santas e perfeitas, frequentemente vivem um longo e difícil caminho de aperfeiçoamento pessoal. Para essas pessoas Cristo é esperança de crescimento e salvação. Porém, é necessário anunciar Cristo "com misericórdia e paciência, às possíveis etapas do crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia" (p. 39). De tal modo que o confessionário deve ser o lugar da misericórdia, não da tortura. Creio que se pode dizer o mesmo das homilias. E aqui palavras do Papa em seu esforço de aproximar-se de Jesus: "um pequeno passo, no meio das grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre seus dias sem enfrentar sérias dificuldades" (p. 39/40).
É essa Igreja renovada pelo amor misericordioso de Deus que o Papa anuncia em seu documento. Ela não pode permanecer intra-muros, mas deve sair para o mundo para renová-lo. Indo ao mundo não deve se ocupar da autopreservação, com a suposta segurança doutrinal, que estigmatiza as pessoas e as condena. Uma Igreja de saída para o mundo é uma Igreja sensível às dores. Capaz de ir até onde está o mal sem se deixar contaminar por ele. Não se pode ocupar com a glória, títulos, bem-estar, segurança material e teórica, narcisismo e elitismo do clero.
E se essa Igreja errar ao sair para o mundo, esse erro parece ao Pontífice menos grave do que permanecer preso "em um emaranhado de obsessões e procedimentos" (p. 43) que emperram a instituição de viver na alegria e graça do Senhor.
Se este é o tempo e tantas são as faces do mal que nele surge, o homem deste tempo precisa de pastores alegres, generosos e acolhedores. Pastores encantados com o Evangelho e que o vivam e o apresentem com alegria. E é na alegria do Evangelho que a Igreja trará resposta às dúvidas, incertezas e inseguranças do homem de hoje.
Pois bem se as palavras de Francisco servirem para tornar a Instituição mais carinhosa, amiga e generosa, mais atenta ao sofrimento humano, elas soprarão como a voz do Espírito Santo a renovar e trazer vida nova à Igreja de Jesus. Creio que a compreensão de Francisco está próxima do que diz o filósofo alemão Immanuel Kant no ensaio O fim de todas as coisas (1985): "o amor é então, enquanto livre acolhimento da vontade de um outro, submetido a suas máximas, um indispensável complemento da imperfeição da natureza humana (para tornar necessário aquilo que a razão prescreve mediante a lei)" (p. 176). E completa: "Nunca se deve desprezar o fato de que somente a dignidade moral do amor que o cristianismo traz consigo (...), poderia conservar-lhe também no futuro os corações dos homens" (idem, p. 180).





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