sexta-feira, 29 de maio de 2015

O PAPEL SÓCIO-ULTURAL DE UMA BIBLIOTECA PÚBLICA. Selvino Antonio Malfatti.




Volta e meia se ouve que alguma biblioteca pública foi fechada. Geralmente quem toma esta decisão? Quase sempre algum burocrata exercendo uma função pública. Ora, entregar a decisão do fechamento ou não de uma biblioteca pública a técnicos frios e burocráticos é no mínimo lamentável. O que eles levam em conta? Se o prédio oferece segurança, condições, e não é deficitária. Isso é significativo? É. Mas não é só isso que está em jogo.
O fechamento de bibliotecas atualmente não é um fenômeno isolado. É uma prática generalizada. Acontece aqui no nosso país – a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, a biblioteca pública de Porto Alegre, do Rio Grande do Sul, por exemplo, e várias outras, foram simplesmente fechadas sem compensações ou alternativas. A prática se generaliza na Europa e até mesmo nos Estados Unidos.
Embora atualmente existam “bibliotecas virtuais”, através de aparelhos como Ebooks, Kindle, e-readers, tablet, kindle paperwhite e outros, pelos quais podemos trazer a biblioteca até nós em vez de irmos a ela, o papel que uma biblioteca real desempenha ainda é insubstituível. E por isso, não justifica seu fechamento, sem uma compensação.
Há dois tipos de fechamento. O primeiro tem como fator preponderante as diminuições crescentes de investimentos e dotações orçamentárias. As que fecham, neste caso, querem evitar a falência. O segundo, o fechamento é temporário, para reformas. Só que estas ditas reformas se prolongam indefinidamente. Por que, antes de fechar, não se pensou em algum local que as abrigasse?
Quais as conseqüências do fechamento de bibliotecas, mormente as públicas? É o mesmo que abortar crianças, embrutecer jovens e desamparar idosos. Antes que cresçam são mortos, ao começar conhecer a vida do espírito são forçados a viver como brutos e quando podem deleitar-se da cultura são destinados à solidão. O que será da próxima geração de leitores, pesquisadores, estudiosos e mesmo sonhadores através de ficção? Será o apocalipse cultural? Ou um mundo do virtual “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago para um mundo real?
Olhemo-nos bem nos olhos. Os livros são caros, principalmente os novos e os clássicos. Por outro lado, a missão de uma biblioteca é de dispô-los a todos. Todos mesmo: jovens e idosos deveriam ter a possibilidade de ler aquilo que querem, quando quiserem, independente da situação econômica de cada um. Os livros fazem o mesmo papel para o espírito que o oxigênio, a água e o sol para os seres vivos. Todos têm o direito de ter acesso.
Quando se fala em biblioteca a maioria de nós pensa no empréstimo de livros. Mas não é só para isso que servem. As bibliotecas são lugares calmos, confortáveis que muitos buscam para fugir do burburinho do dia a dia e dar-se ao luxo de pensar e sonhar, viver o espiritual. São também lugares de encontros, de trocas de idéias, de estudos. A biblioteca é um coração que pulsa  no bairro que moramos, de nossa cidade ou do país do qual somos cidadãos.
Penso que cada um está passando o filme de sua infâncoia e juventude em sua mente. Desde a infância olhávamos com admiração e respeito para o prédio da biblioteca de nossa cidade. E se tivéssemos qualquer tempinho vago entrávamos na biblioteca nem que fosse apenas para folhear o jornal ou as revistas, ver quem estava lá e conversar, dar uma olhada no catálogo para ver as novidades. E na maioria das vezes saíamos com um livro em baixo do braço. Voltávamos para casa, saltitantes, orgulhosos, sentindo-nos semideus. Lembro-me que no colégio onde estudava como interno, havia certos livros proibidos de serem lidos. O motivo não vem ao caso. Não tive dúvidas: associei-me à biblioteca pública da cidade e lia tudo o que tinha vontade.
Se você está lendo este artigo certamente não é dado a práticas de abortar agentes culturais. Ao contrário esmera-se para aprimorá-los. Por isso deve ser um defensor de bibliotecas públicas. Aliás, diga-se de passagem: no dilema de fechar ou não uma biblioteca é como estar diante de uma encruzilhada de dois caminhos. Um leva para as trevas, cegueira e outro para a luz, a visão. Basta escolher.



sábado, 23 de maio de 2015

CRISTÃOS, MUÇULMANOS E OUTRAS RELIGIÕES NO MUNDO. Selvino Antonio Malfatti - UFSM


















Recrudescem sempre mais atualmente as relações entre cristãos e muçulmanos. Conforme relato bíblico isto aconteceu já no nascimento das duas culturas religiosas: judaísmo e islamismo. Abraão era casado com Sara que não lhe dava filhos. Ela concorda então que Abraão se relacione com a escrava Agar, nascendo daí Ismael. Posteriormente, Sara engravida e nasce então Isaac. Os dois irmãos viviam em brigas contínuas, por isso, Ismael, juntamente com sua mãe, são mandados embora. Da descendência de Ismael advieram os árabes tendo como religião predominante a muçulmana e da descendência de Isaac os hebreus cuja religião foi o judaísmo da qual  sendo, depois, cristianismo  uma continuidade do judaísmo. Cada uma dessas possui uma psicologia própria e distinta uma da outra. O sociólogo Max Weber assim as caracteriza. O islamismo nasceu como uma religião de guerreiros cujo objetivo era conquistar o mundo. Eram como os cruzados cristãos, mas sem o seu ascetismo sexual. Em torno do século VII d.C, surgiu o misticismo maometano, cujo resultado foi um simbolismo complexo muito, utilizado pelos poetas. Já o cristianismo iniciou como uma doutrina de artesãos jornaleiros itinerantes. Permaneceu sempre como uma religião urbana e cívica. Em todos os períodos manteve este caráter: antiguidade, Idade Média e Época moderna. A cidade do Ocidente, diferente de todas do mundo da época, possuía um corpo de cidadãos, foi palco do cristianismo. Isto pode ser aplicado às comunidades religiosas, ordem de monges mendicantes da Idade Média.
As relações entre as duas religiões quase sempre foram marcadas pela belicosidade. Na Idade Média, as famosas cruzadas dos cristãos tinham por objetivo arrebatar os territórios da Judéia em poder dos muçulmanos. Pouco depois os árabes muçulmanos se propõem a tomar a Europa cristã. Conseguem chegar até a Espanha, mas na França, em Poitiers,  são derrotados e contidos. Somente no século XV são definitivamente expulsos da Europa, localizados na península ibérica. Ora maiores ora menores as animosidades se estenderam através dos séculos.
A partir, porém, do século XX, 1915, a animosidade ressurge com uma intensidade inaudita. Trata-se do massacre dos cristãos armênios na Turquia. A partir daí os ataques aos cristãos são sempre mais intensos, ora públicos ora privados. Atualmente os cristãos estão numa situação difícil em todos os continentes onde predomina maioria muçulmana. O jesuíta italiano Paolo Dall´Oglio ainda está prisioneiro. Em toda parte ouvem-se vozes desesperadas de cristãos em cidades cercadas pelos muçulmanos. O Oriente Médio que viu nascer e expandir-se o cristianismo inicial talvez em pouco tempo não haverá mais cristãos. A Turquia atual que há algum tempo era habitada por 19% de cristãos, atualmente não passa de a 0,2% de deles. Neste ano de 2015 faz 100 anos que ocorreu o massacre – alguns definem como martírio – de cristãos neste país. Fala-se em torno de meio milhão de cristãos mortos, de várias etnias como armênios, sírios, caldeus, assírios e outros.
Hoje são atacados no norte da Nigéria. Moças são raptadas e tornadas escravas dos muçulmanos. Não só nos países muçulmanos os cristãos enfrentam dificuldades. Na Índia, por exemplo, sofrem sob a pressão dos fundamentalistas. Na Ásia, as minorias cristãs são discriminadas pelos governos comunistas. Boa parte dos muçulmanos iguala ocidente com cristianismo. Haja vista a confusão entre a política externa norte-americana nesses países com a vingança sobre os cristãos de qualquer país ocidental. Atentados surgem por toda parte como das Torres Gêmeas, do jornal francês, do metrô na Inglaterra, só para exemplificar.

É preciso voltar ao bom senso. A religião deve ficar fora da política. Pertence ao foro íntimo. A política perpassa toda sociedade e por isso é publica. Cada um individualmente vive o público e o privado, mas a sociedade como um todo só conhece o público.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Que esperança sobra quando falha o Estado. José Maurício de Carvalho - UFSJ



Muitos americanos foram às ruas protestar contra a morte do jovem negro Freddie Gray, de 25 anos, que se feriu ou foi ferido enquanto estava sob responsabilidade da polícia de Baltimore depois de ser preso, sem razão legal, em 12 de abril próximo passado. A maioria da população norte-americana revela-se indignada contra a discriminação dos negros pelas autoridades policiais e descumprimento dos direitos civis. Um pequeno número entre esses manifestantes promoveram grande confusão na cidade de Baltimore, saquearam e incendiaram lojas, enfrentaram a polícia levando as autoridades decretarem toque de recolher.
Milhares de manifestantes se reuniram no dia 1º de maio para protestar contra a exposição universal na cidade de Milão, um evento bilionário que deve se estender por seis meses na elegante cidade italiana. A manifestação pretendia denunciar o enorme investimento naquele evento num momento em que a economia anda mal e os Estados mostram-se fracos e sem recursos para enfrentar a crise. No meio dos manifestantes uma centena protagonizou ação violenta, queimando latas de lixo, veículos e objetos do mobiliário urbano, transformando a cidade italiana num caos. Essa última confusão bastante semelhante às ações do Black Bloc que promoveu grande anarquia no Brasil nos últimos meses. Black Bloc, recordem, é um movimento anarquista cujas manifestações violentas pipocam em diversos países do mundo. Basta algo ter visibilidade mundial lá estão eles se esforçando para instalar o caos. A atuação desses grupos é tão mais violenta quanto fracas e inseguras se mostram as autoridades locais. Esses grupos violentos parecem se inspirar nos movimentos contra a globalização que tiveram início nos anos 90 na Europa e Estados Unidos, cuja forma de agir era semelhante. Vestiam-se de negro e usavam capuz para impedir a identificação.
De comum entre os dois eventos a incapacidade do Estado de responder eficazmente os problemas atuais. No primeiro a incapacidade norte americana de superar o preconceito racial e garantir a efetivação dos direitos civis para os negros. No segundo a incapacidade dos governos de enfrentarem com eficiência a grande crise econômica que se iniciou em 2008 e cujas consequências ainda andam pelo mundo, inclusive no Brasil. Nos dois eventos a presença de uma minoria, organizada e anárquica a enfrentar os agentes do Estado no esforço para destruí-lo.
Essa realidade mundial pode merecer várias leituras e interpretações, mas não deixa de mostrar que, onde o Estado atua mal, as consequências são quase sempre em ordem crescente: a manifestação inconformada, a revolta e a violência. Entre nós se multiplicaram grupos de justiceiros, aumentam o registro dos crimes e a ação inconformada da população que, vez ou outra, espera fazer justiça com as próprias mãos.
Na raiz da insatisfação, lá de fora e daqui, um tempo onde as pessoas não sabem a que ater vida e a direcionam ao consumo ansioso e gozo irresponsável, cuja frustração culmina em mais violência. Um tempo em que as guerras convencionais foram substituídas pela violência intra-nacional e onde o hedonismo ansioso se nutre de drogas alucinógenas e estimulantes, essas últimas capazes de acelerar o funcionamento do cérebro e induzir a hiperexcitabilidade.

A realidade mais especificamente humana, a individualidade e liberdade, exigem para sua manifestação, um Estado organizado capaz de assegurar a ordem, promover o dever e de funcionar bem nos serviços que presta. Sem responder aos desafios de nosso tempo, os Estados contribuem para popularizar a desesperança e desassossego. Assim caminhamos num tempo de intranquilidade, não por causa da bomba atômica e dos riscos do cataclismo nuclear, mas da violência urbana que pode alcançar qualquer um em qualquer parte.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

DESCONFIAVA-SE, MAS NINGUÉM TINHA CERTEZA – HEIDEGGER ANTISSEMITA? Selvino Antonio Malfatti.










Depois da publicação de “Os Cadernos Negros” (schwarze Hefte) a posição que Martin Heidegger ocupa na filosofia deverá ser revista e está sendo. Neles se podem encontrar traços de nazismo anti-semita. Alguns, com exagero evidentemente, querem dar um “adeus” ao filósofo. No entanto, no mínimo se pode discutir se de fato Heidegger merece o título de “o mais importante pensador do século vinte, como sustentava a vice-presidente da “International Heidegger Society”, Donatela di Cesare.
Nestes Cadernos fica evidenciado o claro anti-semetismo, ou o anti-sionismo. Mas, o mais grave e que foi a gota d´água: a negação do Holocausto, classificado por Heidegger como suicídio praticado pelos próprios hebreus. Esta idéia de holocausto ou suicídio já vinha há tempo. Até mesmo a morte de Cristo (não de Jesus), foi considerado um suicídio. Quando os hebreus perceberam que a mensagem de Jesus se encaminhava para uma religião universal, os judeus queriam “algemar” a Jesus. Este, para salvar sua mensagem, se suicida como Cristo. Conforme a crença, não foram nem os judeus, nem os romanos que mataram a Jesus, mas foi o Cristo que se suicidou. Em que pese a fraqueza de argumentação, em favor desta teoria interpretativa, invocam-se existem fatos concretos, como o suicídio coletivo de Massada.
Para Heidegger os hebreus eram os porta-vozes de uma filosofia instrumental, através do neo-sionismo. Este significa a negação da humanidade e a institucionalização do Gherman judeu, isto é, o Ser judeu. Uma estrutura político religiosa de dominação do mundo.
O confronto entre judeus e alemães começou quando Theodor Herzl propõe, no final do século XIX, criar o Estado de Israel. Para tanto era preciso submeter toda a imprensa mundial aos líderes judeus ( Umberto Ecco descreve a reunião no cemitério de Praga, no romance do mesmo nome). Além disso, todo sistema financeiro caiu nas mãos dos judeus. Então, na Alemanha ocorre o confronto direto entre o gherman judeu e o gherman alemão. Quando Hitler ascende ao poder os judeus emitem uma ordem de boicotar o sistema financeiro alemão. Com isso, Hitler estava algemado e a Alemanha estava presa. Foi neste contexto que Hitler coloca os judeus fora da lei. Para se vingarem e salvarem sua ideologia praticam o suicídio ou o Holocausto, conforme Heidegger.
Para ele em Auschwitz e em outros campos de extermínio, os judeus eram mortos através de técnicas altamente avançados (as câmaras de gás). Por isso, pensava ele, não era nem mais e nem menos do que um suicídio coletivo. Pensa que, após a guerra, os Aliados transformaram a Alemanha num gigantesco campo de concentração sustentando, a partir disso, que as verdadeiras vítimas da guerra foram os alemães. As ditas vítimas da perseguição nazista mereceram da parte dos aliados uma cruel e imperdoável indiferença moral. Os judeus, através do Holocausto, de vítimas tornaram-se algozes, salvaram sua doutrina e conquistaram seu objetivo: criar o Estado de Israel.

Este pensamento se fosse de algum membro de seita exotérica, até seria compreensível. Mas vindo de um Heidegger, considerado o maior pensador do século XX, no mínimo é discutível, criticável, senão motivo de espanto. Daí que a estupefação dos pensadores e de milhares de seguidores.Mas, vamos aos Cadernos Negros para conferir.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Não furtarás. José Maurício de Carvalho - UFSJ




Conta a Bíblia Judaica (o Antigo Testamento da Bíblia Cristã) que um pouco antes de 1200 a. C., um judeu criado na corte do faraó, de nome Moisés, liderou um grupo de escravos na fuga do Egito. O grupo de libertos entrou no deserto em busca de uma nova terra para viver e a eles outras tribos nômades se associaram na fé comum e na mesma esperança. A fé desses homens os fez acreditar que o Deus que os retirara do Egito lhes daria uma terra livre da dominação. Acreditavam num Deus diferente dos encontrados na região, um Deus Vivo e Poderoso que caminhava com o povo e ouvia seu clamor. Esse Deus propunha-lhes, em contrapartida, uma forma de viver sem a qual seria impossível sobreviver no deserto e menos ainda se organizar como povo na terra da esperança. A história da fuga e da conquista da nova terra é um acontecimento extraordinário e foi retratado em muitos filmes: Êxodo (1956), o desenho O príncipe do Egito (1998) e o mais recente Êxodo: Deuses e Reis (2014).
Ao conceder-lhes a liberdade política e lhes oferecer uma nova vida, Deus lhes deu regras capazes de assegurar a liberdade íntima, mas também uma vida socialmente organizada. Independente da fé que se possa ter nesse Deus que libertou o povo do Egito, a caminhada pelo deserto e a instalação na nova terra somente foi possível porque essas pessoas se submeteram à autoridade de Moisés e as regras que ele lhes deu em nome de Deus. E Moisés apresentou a regra para viver em grupo, uma regra cujos mandamentos eram encontradas entre outros povos da região, mas não de forma tão simples e completa. Como não acreditar que aquela síntese provinha diretamente do Deus poderoso que estava realizando o extraordinário prodígio de libertar o povo de um reino poderoso e levá-lo a salvo pelo deserto? Assim entenderam os que seguiam Moisés. Eles tomaram a sério o código mosaico, embora as regras pudessem parecer um código banal ou uma síntese superficial. A história mostrou que não eram banais aquelas regras, o resultado do seu uso demonstrou que se tratava de uma orientação maravilhosa para viver em sociedade.
O episódio da entrega da lei, contada de vários modos, mostra que Deus deu diretamente a Lei a Moisés, consistindo o fato num extraordinário enigma em torno ao qual a inteligência humana se depara há muito tempo sem avançar muito, considerando-se que a Lei mosaica é a base da moral evangélica ensinada por Jesus de Nazaré, que resumiu os mandamentos sociais do decálogo no amor ao próximo. E essas regras se tornaram a base de moralidade ocidental.
Se observar todas as regras do decálogo é muito difícil para qualquer homem, o descumprimento ostensivo de qualquer delas inviabiliza a vida social. Fossem todas as regras bem seguidas e teríamos uma vida feliz, independente da fé em sua transmissão sobrenatural. Contudo, mesmo sem a fé religiosa, as normas do decálogo podem ser justificadas racionalmente como regra moral para todos os homens viverem de forma pacífica e civilizada. Obedecê-las exige esforço interior, uma educação íntima forjada pela consciência e socialmente justificadas e ensinadas pelas filosofias, famílias, escolas e igrejas. Ao reconhecê-la adequada, a consciência dá a si mesma uma orientação, um caminho para seguir.

Os judeus encontraram no decálogo uma direção para a vida social e puderam viver com base nas suas orientações. É algo assim que necessitamos nesse momento difícil da nossa história. Talvez se possa encontrar nas regras do decálogo, ou nas suas reformulações éticas, uma direção para vencer a violência, a irracionalidade, a falta de amor que assistimos surgir do egoísmo exacerbado e hedonismo ansioso que enchem o coração do homem de nossos dias.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

O PAVILHÃO ZERO – FEIRA DE MILÃO 2015. Selvino Antonio Malfatti.






                              






Quem conhece Milão, sabe que o Castelo Sforzesco é um dos cartões postais da cidade. Pois bem, bem defronte ao castelo foi montada a Expo Gate, uma feira de exposição universal, reunindo         centenas de países expositores, inclusive o Brasil. A feira terá início em 1º de maio e se estenderá até 31 de outubro. O tema: “alimentando o planeta, energia para vida”. A princípio pareceria que se trata somente de culinária. No entanto, não é bem assim. Os mais variados assuntos estão presentes, entre eles um Pavilhão norte, denominado Pavilhão Zero, traz uma exposição da evolução dos primeiros sinais de comunicação humana, as inscrições rupestres.
Sabe-se que há 40 mil anos o “homo sapiens” migrou da África e se espalhou por todos os continentes. Depois desta migração mãos anônimas deixavam não só marcas da presença do homem, mas também dizia o que era, o que fazia, sua alimentação, caça, pesca e até no que acreditava. Estas inscrições podem ser vistas nas grutas da ilha de Sulawesi, na gruta do Castelo e mais comuns desenhos de caça e pesca em Chauvet, Lascaux de Altamira e assim por diante. Ainda hoje se podem constatar in loco, no Brasil, centenas destas inscrições e desenhos como dos índios guaranis na região central do Rio Grande do Sul.
Estes primeiros sinais eram uma proto-escrita. Mais quarenta mil anos, depois de cataclismos, guerras, migrações o homem já vivia em pequenas sociedades e estava de posse do fogo. Foi aí que inventou o alfabeto no Egito (2700 a.C), China (1200 a.C) e Mesopotâmia (600 a.C). Utilizou as letras para fixar leis e compor pequenos textos como testemunho de sua passagem. Alguns até elaboravam modestos versos de hinos ao sol ou às divindades divinas. Foram aperfeiçoando até atingir o estágio de poesia. Estes versos serão expostos no pavilhão para que a multidão possa vê-los. Serão mostradas poesias líricas de diversos países no Pavilhão Zero. Constarão versos de Dante, Esíodo, Virgílio da Itália, mas haverá também do africano Léopold Sédar Senghor, do chinês Bai Juvi, do árabe Imru ´al Qays, do japonês Nivasawa Kenyi e do indiano bengalês Rabindranath Tagore. Da parte das grandes potências Alesandr Puskin da Rússia e Walt Whitman dos Estados Unidos. Sobre o tema específico: Le opere dell’uomo. I frutti della terra. Antologia di poesie sulle arti per procurarsi il nutrimento.
Os responsáveis pela organização garantem que os que passearem no Pavilhão terão a sensação de sentir a evolução da História do homem no seu avanço cultural. É através da alimentação o homem cria a linguagem, os símbolos, o alfabeto, a poesia, o comércio e constrói a cidade. O alimento foi o motor da cultura.
No entanto se deve refletir e não confundir o combustível da cultura com ela mesma. O combustível de um carro não é igual ao carro. É apenas um motor. A realidade que daí advém difere em gênero e forma. Assim como o carro precisa do combustível o homem também o necessita. Mas a cultura que o homem produz não é seu combustível. Haja vista que o animal também se serve do mesmo combustível, mas não cria cultura. Ele até pode emitir sinais de inteligência, no entanto não conseguiu criar um instrumento material que a fixe para outra inteligência interpretá-la.
Por isso é louvável a iniciativa do Pavilhão Zero da Feira de Milão de possibilitar uma meditação sobre a especificidade da inteligência do homo sapiens. Ele não só pensa como consegue criar ferramentas para fixá-la e transmiti-la a outros seres humanos para todos os tempos e lugares.


(1. http://www.expo2015.org/it/esplora/aree-tematiche/padiglione-zero
2. https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=imagens+ca%C3%A7adas+inscri%C3%A7%C3%B5es+rupestres+mata+rs)


sábado, 18 de abril de 2015

Vencer o tempo do desconhecimento e dos preconceitos. José Mauricio de Carvalho - UFSJ




No final do século XIX alcançava o auge o preconceito e desconhecimento mútuo entre brasileiros e portugueses. No livro O Brasil Mental (1898) de autoria de José Pereira de Sampaio (Sampaio Bruno) tem-se uma ideia do desconhecimento mútuo reinante naqueles dias.  
Aquele foi um tempo impactado pelo positivismo, que não separava o desenvolvimento espiritual dos povos e da humanidade do estado social das sociedades. Assim, O Brasil Mental apresentará não somente o que se passa na inteligência brasileira, mas revelará O Brasil Social, ou melhor, tentará chegar ao primeiro pelo segundo. O pano de fundo das preocupações de Bruno é a França e seus filósofos para quem se voltam os olhares da população culta de Portugal.
O ponto de partida de semelhante empreendimento é o desconhecimento da vida espiritual brasileira pelo português culto que do Brasil somente conhece os  fatos econômicos, especialmente a exportação do café e a vitória militar sobre Solano Lopes, governante do Paraguai. Esse desconhecimento era mútuo, pois os intelectuais brasileiros também estavam pouco interessados no que se passava em Portugal. E Sampaio Bruno exemplifica o desconhecimento lusitano reproduzindo o assombro com que foi recebido em Portugal o livro de Silvio Romero denominado Filosofia no Brasil. Comentava-se entre gargalhadas nos bares e círculos sociais: "Com que então: a Filosofia no Brasil? Hein? Esta nem o diabo lembra! Se fosse a carne seca do Brasil, ou a feijoada do Brasil ... Mas, agora Filosofia no Brasil. Valha-nos Deus" E riam-se jubilosos da sua suficiência" (p. 44).
A ignorância acrescenta Bruno era alimentada pelo estereótipo do brasileiro tratado como comerciante grosseirão, identificado com o português repatriado e pouco culto. A culpa é nossa, diz o autor da obra, "pois que o tipo brasileiro, se não criamos, o deformamos nós" (p. 48).
E a leitura interpretativa de Bruno, apesar do louvável esforço para superar o preconceito reinante, está limitada pela redução do universo mental brasileiro ao positivismo, que ele também avaliou mal por conhecer pouco.
As considerações de Bruno sobre o positivismo transitam entre os limites da doutrina e sua presença na mentalidade brasileira, que ele atribuiu ao magistério de Benjamin Constant Botelho de Magalhães, militar que "vulgarizou o positivismo entre os moços estudantes" (p. 95).
A influência de Benjamin Constant, que se aliara à escola francesa de Emile Littré no repúdio à religião da humanidade, tinha como centro irradiador a Escola Militar, embora seu magistério tenha ganhado projeção com a proclamação da República. No entanto, nem entre os positivistas Botelho de Magalhães tinha reconhecimento incontestável, havendo os que como Miguel de Lemos e Teixeira Mendes o criticaram, mantendo-se fieis à síntese subjetiva de Augusto Comte. Esses homens criticavam a República de Benjamin Constant e da elite militar por considerarem-na democrática e metafísica. Por sua vez, as posições de Benjamin Constant reservavam ao exército o papel constitucional de vanguarda do positivismo, o que não tem correspondência na história do movimento e desses fatos Bruno nada diz. Por outro lado, muitas das críticas que Bruno fazia ao positivismo, entre as quais a inadequação da lei dos três estados, já fora feita, muito antes por Luis Pereira Barreto.
Outro problema do livro de Bruno é que além de não diferenciar as vertentes do positivismo brasileiro, não enxergou as outras filosofias que inspiravam a renovação cultural do país iniciada na década de setenta, vinte anos antes da publicação de seu livro. Nos anos oitenta, nas escolas de direito, por exemplo, parcela substancial da intelectualidade se alinhava ao culturalismo que teve notável impacto na vida do país e cuja novidade Bruno não percebeu, embora tivesse conhecimento do movimento e dos textos produzidos. E esse culturalismo de inspiração kantiana rejeitava o monismo, reconstruía a Filosofia e antecipava várias teses que somente foram discutidas pelos neokantianos alemães vinte anos depois de Tobias Barreto ter divulgado suas teses. Tobias deu-se conta de o que havia de essencialmente humano não podia ser reduzido à coisa natural e nem podia objeto da ciência, diferenciando o homem enquanto objeto da ciência e enquanto possuidor de liberdade e de inspiração moral.

Se o livro de Sampaio Bruno aponta a ignorância mútua de brasileiros e portugueses sobre a vida mental dos seus países, ele próprio não escapa deste desconhecimento, suas preocupações abrem o caminho para a redescoberta mútua que ainda está longe de ser completada mais de um século depois. Esse é um desafio apenas iniciado com os esforços do Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro nos últimos trinta anos. É neste esforço que se organiza o XI Colóquio Antero de Quental dedicado ao estudo da filosofia jurídica luso-brasileira.

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