sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Subjetividade e corporalidade na Filosofia e na Psicologia. José Maurício de Carvalho.





Esse é o título do livro que  acaba de ser publicado pela Filoczar de São Paulo e é edição bilíngue, foi editado em português e espanhol e tem 279 p. Destina-se  principalmente a filósofos, filósofos-clínicos, educadores, médicos e psicólogos que estudam a consciência humana e os métodos de considerá-la. As referências teóricas são os legados de Merleau- Ponty e Karl Jaspers autores com quem se dialoga. O primeiro é um filósofo francês que, ao examinar a consciência corporal, deseja aprofundar conceitos como espacialidade e temporalidade. Merleau-Ponty realizou um amplo debate com os psicólogos apresentando as posições da fenomenologia. O segundo é um psiquiatra alemão que encontra na fenomenologia o caminho para justificar os estudos científicos da consciência humana e tratando-a como um fenômeno, reflete sobre os desafios dessa consciência para alcançar a verdade e da realidade. Os estudos de fenomenologia que tratam do mundo interior do homem ganharam recentemente com a filosofia clínica uma nova forma de expressão. Também ela é mencionada, mostrando-se que a Filosofia Clínica se insere na tradição da psicologia existencial que engloba várias abordagens (Gestalt - Kurt Lewin, Köfka, Köhler, Wertheimer), Teoria do Self - Carl Rogers, Logoterapia - Victor Frankl e muitos psiquiatras além de Karl Jaspers. No Brasil recorde-se Nilton Campos, que foi diretor do Instituto de Psicologia da antiga Universidade do Brasil (atual UFRJ), e outros médicos e psicólogos de renome, destacando Antonio Gomes Pena, Eustáquio Portela, Élson Arruda, Nelson Pires e Isaias Paim, todos utilizando a fenomenologia para fundamentar os estudos de psicologia humana.
O livro em questão trata da subjetividade, isto é, da consciência que temos de nós mesmos em seus dois lados: a consciência subjetiva e a corporal. E ao olhar esses temas da fenomenologia existencial é possível identificar os elementos filosóficos que justificam diversas técnicas psicoterápicas nascidas desse pressuposto metodológico, algumas mencionadas no parágrafo anterior. No último século essa base fenomenológica deu origem à chamada psicologia existencial, em cujo rastro surgiu a Filosofia Clínica, que foi desenvolvida no Brasil e que começa, nesse século XXI, a ganhar mundo.
Antes de tratar das contribuições que a escola fenomenológica trouxe para o entendimento da consciência devemos lembrar que o mundo moderno começa a se delinear com a descoberta da consciência para o entendimento do mundo. Passaram-se séculos examinando o funcionamento da consciência se ela era povoada de ideias e/ou esquemas inatos ou se seu conteúdo era simplesmente os fatos percebidos armazenados em feixes fenomênicos. O responsável pelo início dessa investigação foi o filósofo francês René Descartes, mas a consciência subjetiva que ele concebeu era abstrata, não tinha história nem singularidade, era uma forma de referência universal que todos os homens possuíam e fazia deles entes iguais, não importa se fosse um cidadão parisiense ou um índio vivendo no interior do Brasil. Tinham em comum a consciência universal cujos erros se explicavam pela insubordinação da vontade que era muito maior que a capacidade de corretamente raciocinar. E o entusiasmo de René Descartes pela consciência abstrata o afastou da experiência concreta de viver, como observou Ortega y Gasset em El tema de nuestro tiempo, mencionando que o pai da filosofia moderna inverteu a perspectiva natural da vida e deixou em segundo plano "o mundo imediato e evidente que contemplam nossos olhos, apalpam nossas mãos, percebem nossos ouvidos e se compõem de qualidades: cores, resistências, sons etc. Esse homem que o homem vive e viverá sempre" (Obras Completas, Madrid, Alianza, v. III, p. 160).
Não teríamos como, num espaço tão limitado, refazer o debate intelectual ocorrido entre racionalistas e empiristas durante toda a modernidade, ambos os grupos herdeiros do pensamento cartesiano, uns privilegiando a experiência e outros as ideias não aprendidas. Apenas parece interessante lembrar que o resultado desse debate culmina no entendimento de que se podia chegar a um esquema objetivo da consciência que Kant chamou de ente racional e Fichte e Hegel perceberam estar em movimento. Essa consciência passou por críticas e revisões desde então até se notar as suas dimensões temporais na individualidade que surge de uma espécie de consciência que é simultaneamente intencional, histórica e executiva.
O que é mesmo a consciência subjetiva e corporal objeto do livro e concebido pela escola fenomenológica? Ela agrega às referências modernas uma maneira contemporânea de entendê-la como: "a referência que o homem faz dos seus estados internos, o que engloba ideias, percepções, emoções e volições. A capacidade de se referir a esses fenômenos ou fatos psicológicos revela consciência do que se passa no nosso interior. Por extensão, o termo se aplica ao reconhecimento que o sujeito desenvolve do próprio corpo e do seu funcionamento. Nesse caso é nomeada de consciência corporal" (p. 12). Portanto, é a consciência humana o objeto do livro e ele é abordado tanto pela reflexão filosófica como pela observação científica (psicológica).
O filósofo alemão Karl Jaspers, valendo-se do método fenomenológico, tratará os momentos de concentração íntima como movimentos necessários da procura por um sentido próprio ou significado para existência. É a consciência que permite não só entender o que somos, não só conhecermos nossa história pessoal, mas a sermos fiéis a isso que somos verdadeiramente, cada um de nós em nosso núcleo mais íntimo. Como filósofo, Karl Jaspers considerava o mal uso da reflexão ou da consciência como causa do sofrimento do homem contemporâneo e assim se referiu ao fato na Iniciação Filosófica (1987):
A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu?que estou descurando, que deverei fazer? (Lisboa, Guimarães, p. 110).
E se deixando de pensar sobre si mesmo o homem cai na irreflexão e se perde nas rotinas, no trabalho diário, nas preocupações da rotina, nos movimentos instintivos, nas tarefas do dia a dia e é isso o que acaba nos levando a uma vida sem o sentido que lhe podemos dar, cada um de nós, únicos nessa tarefa de encontrar um significado particularíssimo para o que fazer de nossos dias. E se deixar de examinar-se é risco permanente na realidade humana, uma vida muito ocupada, envolvida em tanta tecnologia, consumida em trabalhos esgotantes e no ócio vazio contribui ainda mais para esse afastamento de nós mesmos que é responsável em nossos dias pela falta de reflexão reinante e pelo hedonismo ansioso que penetrou na cultura contemporânea.
Quanto ao funcionamento da consciência, Karl Jaspers ensina no terceiro capítulo da Iniciação Filosófica que ela alterna estados de vigília e de sono. E diz que quando estamos acordados a consciência se apresenta na insuperável divisão entre sujeito e objeto. Todas as nossas referências do mundo apenas se expressam nessa cisão (sujeito-objeto), o mundo que experimentamos e em que vivemos surge para nós através dela. E ela inclui não só a referência à coisas que estão diante de mim: a cadeira onde estudo ou pássaro que corta o céu azul, mas também aos números e outras formas de pensamento (que são denominados objetos ideais da consciência). Mesmo pensamentos raros, como um ET com antenas e orelhões que podemos imaginar, aparecem para a consciência como um tipo fantástico de objeto pensado. Todas essas coisas que vemos e pensamos estão na consciência representadas e só se manifestam na relação entre sujeito e objeto. O funcionamento da consciência nos coloca diante de uma dupla realidade que a escola fenomenológica estudou: a. seu caráter intencional (isto é, não se poder pensar a consciência sem os objetos nela representados, isto é, na divisão acima indicada) e b. fazendo a distinção possível de realizar entre o subjetivo e objetivo (isto é, a separação entre quem pensa e a realidade que é pensada por nós que nos surge em perspectivas diversas ou modos diferentes de compreender o mundo).
A distinção entre subjetivo e objetivo é uma maneira meramente ilustrativa de separar, os conteúdos da consciência, "conforme se refira à capacidade humana de estar ciente dos fenômenos internos ou a tratar os conteúdos das percepções, representações e conceitos. Como fenômeno objetivo considera-se o que a consciência recebe a todo instante informações de fora. Esses elementos fornecem impressões do que está à volta do sujeito e que aparece para ele. Em síntese, subjetiva é a capacidade de reconhecer os fenômenos internos da consciência, objetivos são os elementos representativos do que está à volta dela" (p. 18).
E quanto à consciência corporal ou corporalidade? Filósofos e psicólogos que usam o método fenomenológico descrevem a presença do homem no mundo como existência situada no tempo e espaço. É comum ouvir dizer que vivemos aqui e agora e essa é outra forma de dizer que vivemos numa realidade espaço temporal. "E essa forma de olhar a existência humana contraposta à transcendência para se referir à tensão entre permanecer ligado às coisas e ultrapassar tal relação inclui, de modo singular, a corporalidade. A forma como os fenomenólogos olham a presença física do homem é diferente da simples referência biológica (...), cujo funcionamento é parecido aos animais mais evoluídos" (p. 22).
O livro resume e aprofunda o significado de consciência corporal para os dois fenomenólogos Merleau-Ponty e Karl Jaspers. "O primeiro pensa a consciência a partir da corporalidade, o outro faz algo parecido, mas reconhece que a consciência subjetiva tem aspecto singular. De todo modo, em ambos, a corporalidade significa consciência corporal que é mais que o funcionamento do corpo ou sua divisão em partes anatômicas: cabeça, tronco e membros. O meu corpo é diverso de todos os demais, tenho com ele uma relação particular. Merleau-Ponty explica bem que o corpo é forma de experimentá-lo, isto é, minha presença no mundo se faz pelo corpo e com ele me confundo" (p. 22). Para algumas pessoas essa relação com o corpo é mais importante, para outras menos. Isso é parte da enorme variedade possível de existências singulares.
Tomar a consciência humana como forma de expressar a existência humana ou como vida que se faz em direção ao futuro é outra maneira de descrever que a vida do homem precisa ser experimentada num mundo de mudanças. Mudanças que ocorrem na sociedade em que se vive, mas mudanças que ocorrem também em nossa vida pessoal que vai se tornando diferente à medida que fazemos escolhas e vamos envelhecendo em meio às escolhas feitas. A vida, como lembrava o filósofo francês Roger Garaudy em Palavra de Homem não é "um  cenário já escrito fora de nós e sem nós, onde teríamos apenas que representar aparentando crer em nossa liberdade" (São Paulo, Difel, p. 52).
Estudar a consciência nos coloca diante de uma tensão sempre presente em nossa vida. Estamos numa sociedade onde cada um precisa encontrar uma razão para viver. E o que pode ser num certo momento da existência tomado como sentido, pode desaparecer ou modificar-se no momento seguinte pedindo de nós uma nova razão para continuar viver. "Às verdades pessoais ou subjetivas se somam as verdades culturais ou objetivas, os problemas e dramas pessoais que podem ganhar e encontrar na cultura referências para vencer as crises. Embora assim possa ser, a existência não perde o caráter dramático e conserva algo de singular e arriscado, pois é impossível construir uma cultura tão perfeita que seja definitiva e ponha fim a todas as nossas inquietudes. Não há como chegar a uma cultura definitiva, que realize todas as nossas potências, que nos substitua na criação de nossa existência, uma cultura que supere todos nossos medos, eliminando todas as nossas dúvidas. E ao enfrentar os problemas que a vida traz, construindo novas representações a partir das referências que possui, o homem muda o que ele é, elabora os elementos de sua subjetividade" (p. 24).

O livro entra por esse caminho, apresenta exemplos e mostra a consciência humana objeto de si mesma e como é tratada nas filosofias e psicologias de Merleau-Ponty, Karl Jaspers e na Filosofia Clínica. Explora, para terminar, algumas descobertas que a Psicologia e a Filosofia Clínica fizeram da nossa consciência e de nosso modo de viver. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

DILMA, MARINA OU AÉCIO. Selvino Antonio Malfatti



O dia da eleição se aproxima. Ao que parece todo mundo está de olhos nos candidatos à presidência, esquecendo-se que, num modelo de Democracia Consensual tão importante, senão mais, são as eleições parlamentares, tanto para as assembléias estaduais como para o parlamento nacional. Por quê? Pelo simples fato de que o executivo para governar precisa da maioria do legislativo.
Existem diversas formas fórmulas para se obter maioria no parlamento. A mais comum e a mais empregada é estabelecer alianças com partidos ideologicamente afins. Um partido de centro, por exemplo, busca seu parceiro mais próximo ou à direita ou à esquerda. Nunca na extrema esquerda ou extrema direita. Mas há alguns anos no Brasil se lançou mão de outro critério, qual seja, o fisiológico, isto é, o mercado do voto, ou simplesmente a compra e venda do voto dos parlamentares.
Com este critério pouco importa a ideologia do partido, mas o preço do voto. E é por isso que se dá pouca importância às eleições parlamentares. Diz-se:
            - Com quem contaremos, veremos depois das eleições.
Esta prática envenenou todo o sistema: parlamentares, empresários, intelectuais, profissionais liberais, juristas. O parlamentar cobra um valor por seu voto, o empresário quer “vencer” as licitações, os intelectuais reivindicam cargos públicos, os profissionais liberais aumento nas tabelas de preços, os juristas, assentos nos tribunais. E o pior é que não se vislumbra perspectivas de reversão deste quadro. Não há arrependimento de ninguém, nem mesmo daqueles condenados e trancafiados atrás das grades. Juram vingança.
Uma Democracia Consensual acontece onde nenhum partido consegue fazer 50 dos votos mais um.  Por isso exige uma partilha de poder. Isto é normal. Acontece em países desenvolvidos, como França, Itália, Alemanha e outros, da mesma forma que o modelo de maioria acontece nos Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e outros.  No modelo consensual, como é o caso brasileiro, há separação de poderes. Nenhum poder pode destituir o outro a não ser em casos excepcionais, previstos nas Constituição.
Nestas democracias há um rígido bicameralismo: o senado representa as minorias e os deputados as maiorias. O número de senadores por estado é uniforme, mas de deputados varia de estado para estado. O multipartidarismo, característica dessas democracias, pode ser um fator de estabilidade, mas de instabilidade. Quando o partido representa de fato anseios de comunidades, legitima o sistema. Mas quando o partido representa o interesse do candidato, trabalha contra o sistema. Além disso, os partidos devem ser multidimensionais, isto é, não só abranger um determinado setor, como UMA religião, por exemplo, mas representar pessoas dos setores diversos como industriais, serviços, comércio e religiões.

Por isso, não basta os candidatos vencerem as eleições nas urnas, é preciso que saibam costurar uma maioria no Parlamento.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Política e Tolerância. José Maurício de Carvalho.

















A tolerância entendida como necessidade de conviver com a diferença parece  tão antiga e natural quanto a experiência social do homem.  É que o homem é singular na sua herança genética e único no modo de compreender o mundo. Contudo, a história da humanidade foi quase sempre povoada de opressão e intolerância, recheada de imposição pela força de uma crença ou modo de vida. Lamentável faceta da animalidade humana.
A noção de tolerância só se firma quando a vida comunitária adquire amadurecimento e compreensão ética no respeito ao diferente. Neste sentido, merece registro o entendimento de Guilherme de Ockam, ainda no século XIV, de que Deus podia acolher entre seus escolhidos alguém que vive na razão. Dizer isto não era simples num tempo em que se acreditava que o caminho até Deus podia ser interditado pelos homens e que era legítimo torturar e matar quem partilhasse outra fé. Assim, a noção de tolerância entra na história em momento determinado e se torna importante nas disputas religiosas da cristandade dividida do início da modernidade.
O termo ganhou força depois da formação do Estado Moderno, pois pela primeira vez depois de séculos tinha-se a experiência de um poder forte e centralizado dirigindo grande comunidade. Enfrentar a intolerância tornou-se urgente com a divisão da cristandade e multiplicação de igrejas cristãs. É, neste contexto, que as Cartas sobre a Tolerância (1689), de John Locke, adquirem significado, pois reconhecendo ser o Estado um instituto para conservar e promover os bens civis, cabia-lhe assegurar o convívio pacífico dos cidadãos, desde que suas ações não contrariassem as finalidades pelas quais Ele existe, a saber: defender a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas.
Locke, contudo, admitia um limite, pois para estar entre os protegidos pelo instituto da tolerância os cidadãos deviam professar algumas dentre as crenças cristãs disponíveis. Os infiéis não podiam beneficiar-se da tolerância. Era o pavor da brutalidade sem os limites do homem que não temia Deus.  Foram as novas experiências sociais da Europa laica que estimularam o debate público e trouxeram ao espaço coletivo estudos e reflexões como o Tratado sobre a tolerância (1763), de Voltaire. Desde então o assunto ganhou importância crescente entre as diferentes sociedades civis regulamentadas pelo Estado moderno, pois neles, conclui-se, o destino dos homens encontra-se nas próprias mãos. Política é o exercício deste destino.
Os episódios da semana que terminaram com depredação e violência em Porto Alegre, lamentáveis incidentes de rebeldia ilegal que se repetem pelo país, mostra como, com o exercício da violência, estamos longe de entender o significado da tolerância como estratégia moderna de convivência no espaço público. O problema se agrava com a divulgação crescente de teorias radicais que proclamam legítimo um dito poder popular, nome usado para impor à força o que parece legítimo a um grupo radical.

A violência e a intolerância é não apenas um meio de fugir do estado de direito e das leis existentes nas sociedades modernas, mas o caminho seguro de destruição da paz social. É legítima a participação na vida política e no destino da sociedade, mas isto não valida a brutalidade e a violência contra as leis do país e princípios de conduta racionalmente reconhecidos. O debate público do uso ilegítimo da força e o entendimento do significado da tolerância no espaço político são temas para reflexão em nossa sociedade nos dias que correm. Esperemos que ela inspire outras atitudes.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O BRASIL E OS MODELOS DE DEMOCRACIAS. Selvino Antonio Malfatti
















A propaganda eleitoral está nas ruas; competitiva, agressiva, absorvente, algumas vezes feroz. Qualquer espaço físico ou cultural vai sendo invadido. Nada fica fora, desde ambientes religiosos até os econômicos. Isto é a democracia. Mas afinal, o que é a democracia? Por definição:
1.Governo do povo - concretamente se faz pelos representantes. O povo institui o governo, no entanto, o exercício é dos representantes.
2. Governo pelo povo - o povo deve concordar, isto é, legitimar.
3. Governo para o povo - em seu próprio benefício.
Desde a publicação do livro de Arend Lijphart, As Democracias Contemporâneas, já se passou mais de meio século. De lá até hoje, várias outras democracias surgiram neste planeta, latino-americanas, asiáticas e africanas. O aumento pode ser considerado fantástico se comparado com o que existia logo após a Segunda Grande Guerra: basicamente trinta e seis. O que, porém, permaneceram foram os modelos intuídos por Lijphart: democracia majoritária e democracia consensual e os pressupostos da democracia,
Quanto aos pressupostos diz?
a) Liberdade para constituir e integrar-se em organizações.
b) Liberdade de expressão.
c) Direito de Voto.
d) Competição entre os líderes políticos.
e) Fontes alternativas de informação.
f) Eleições livres e isentas.
g) Existência de instituições capazes de viabilizar o governo do partido vencedor da eleição.
h) Políticos e cidadãos dispostos a respeitarem as regras do Jogo, respeitando a ética.
Ao que parece, o Brasil preenche todos os quesitos, com exceção da ética da parte dos alguns políticos. Mesmo assim pode se incluído entre os países democráticos
Em relação aos modelos, majoritário e consensual:
2. Diferenças gerais entre os modelos de democracia
- No modelo majoritário, o poder executivo se concentra no governo com a maioria parlamentar reduzida (um partido vence, fazendo 50%+1) ,enquanto na consensual, sendo necessário a coligação , repartem o poder entre si entre os vários partidos.
- No modelo majoritário prevalece o executivo, no modelo consensual há um equilíbrio entre executivo e legislativo.
- No modelo majoritário o poder legislativo se concentra numa câmara e no consensual se distribui entre duas.
-O Majoritário tem sistema bipartidário (formal ou informal) e o consensual multipartidário.
- No sistema majoritário, geralmente o sistema eleitoral é distrital, e no consensual é proporcional.
- O majoritário tem um dissenso somente no econômico no consensual o dissenso atinge outras realidades como religião, língua, etnia...

Por estas características o Brasil é um país democrático e se enquadra no Modelo Consensual.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Brasil e o ocidente. José Maurício de Carvalho.





Há muitas formas de entender o Brasil e de explicar suas virtudes e dificuldades. Minha geração cresceu ouvindo explicações sobre os problemas do país e a maioria delas hoje soa  destituída de sentido. Esses comentários reaparecem vez por outra causando confusão e bastante mal. Eles nunca me  convenceram, mas apenas hoje, um pouco mais maduro, um pouco mais estudado, um pouco mais crítico e um pouco mais preocupado com o destino da pátria consigo entender melhor a razão. E por que é importante desmascarar essas explicações? Por que elas colaboram para popularizar uma imagem distorcida do que somos e nos afasta, pela inconsciência, de um futuro melhor.
A primeira delas é: o Brasil é um país jovem. E o que se quer dizer com isso? Que a juventude histórica explica nosso atraso econômico e cultural. Como estado nacional, o Brasil nasce em 1822, mas seu espírito não é jovem. Foi colônia por três séculos, mas desde o final do século XVIII começou a ser preparado para ser o centro do Império lusitano. O Brasil é realização do projeto nacional da geração pombalina e tem os méritos e limites desse projeto. Boa parte das nações da Europa só se consolidaram na modernidade e alguns países como a Itália e a Alemanha só se unificaram como Estado nacional em 1870, bem depois de nós. O afastamento político de Portugal depois da independência não nos fez, no íntimo, diferentes do projeto português que nos concebeu. Encontra-se nele as razões de nossas virtudes e dificuldades, lamentável que o conheçamos pouco.
Outra afirmação ingênua é: O Brasil recebeu do criador  natureza generosa. E o que isso significa? Que estamos protegidos das catástrofes naturais que assolam outras partes do mundo e aqui a vida é fácil. Houve uma época na Europa que se julgava ser a América o país da Cocanha. Grande ilusão, o Brasil tem problemas com sua natureza como outros povos. Implantar nessa região do globo uma grande nação é um empreendimento hercúleo. Estamos numa região de muito calor durante quase o ano todo, temos solo pobre na maioria do território, tempestades tropicais, uma enorme região semi-árida e outra com parte significativa da maior floresta equatorial do mundo. Esses ambientes são de difícil adaptação e demandam tecnologia própria para conviver num local tão diverso da velha Europa. Apenas o sul tem clima e território parecido com a Europa, berço do ocidente.
Segue-se esse outro primor de incorreção: o brasileiro tem preconceito racial. Se há algo que não temos é isso, pelo menos se entendermos por preconceito o modo como outros povos enxergam estrangeiros e/ou tratam outras nacionalidades. Há preconceito contra o pobre, infelizmente. E a razão é a péssima distribuição da riqueza, última herança da velha nobreza lusitana. Aquela mesma aristocracia improdutiva que vivia dos favores reais, quase sempre cultivando aparências, julgando-se melhor que o cidadão comum, distraindo-se no ócio e na caça, tentando aparentar mais do que verdadeiramente possuía e podia. Pombal fez o que pode para acabar com essa nobreza improdutiva, mas não conseguiu.
Essa outra é ótima: somos pobres porque fomos explorados por Portugal. Essa é a joia rara do marxismo tupiniquim e do chamado terceiro mundismo. Pombal na hora do aperto disse algo parecido ao rei D. José I para explicar a decadência portuguesa: somos pobres porque a Inglaterra nos explora. Safou-se, mas deixou um mau exemplo culpar os outros por nossa incompetência. Na verdade, se tivéssemos que pagar o custo da implantação da nova nação: casario, estradas, pontes, palácios, bibliotecas, igrejas, instalações militares, creio que ainda deveríamos a Portugal, mesmo descontados os impostos pagos e o ouro embarcado. O que nos faz pobres é a dificuldade de viver o espírito do capitalismo ou do mercado como se diz hoje em dia. E isso decorre principalmente de nossa matriz católica (como a espanhola e italiana). Max Weber e sua geração compreenderam que a cristandade ocidental encontrava-se dividida entre dois projetos distintos: um católico e outro protestante. O segundo favoreceu o desenvolvimento do capitalismo, o primeiro não. Só há uma forma de enriquecer como povo: trabalhar muito e com qualidade, poupar e investir no que gera riqueza.

O Brasil é um país ocidental, sua raiz íntima não se afasta dos valores centrais do ocidente: a pessoa, a democracia liberal, o estado de direito e a liberdade. Nossa cultura está estruturada sobre os três pilares do ocidente: a cristandade, a forma jurídica romana e o cultivo do pensamento lógico que é a base da ciência e da filosofia. Nossas dificuldades econômicas, a má gestão da coisa pública, a corrupção e a falta de uma moralidade que não esteja amarrada no direito ou na religião, nossos problemas sociais, a má distribuição da riqueza e a intransigência de impor à força interesses particulares de pequenos grupos (sindicatos radicais e vândalos de plantão), enfim, nossos problemas, nossa timidez e falta de espírito crítico são mazelas de nossa formação cultural.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

TROCAR PARTIDO NO PODER É PRECISO. Selvino Antonio Malfatti






Em sociedades democráticas, a alternância de partidos no poder é tão necessária como revezamento de culturas nos solo. Com efeito, o agricultor sabe por experiência que não pode por muito tempo continuar plantando a mesma espécie no mesmo solo. A partir da segunda colheita a terra enfraquece e a produtividade vai caindo sempre mais. Da mesma forma acontece com partidos políticos ou grupos de poder. Eles se desgastam e deixam de cumprir com seu propósito.

Com efeito, quando assumem o poder o fazem com entusiasmo, com ideal, dando o melhor de si. Mas, à medida que o tempo passa, o entusiasmo esmorece e é substituído pela rotina, o ideal dá lugar aos interesses privados e o melhor de si que antes era dedicado público passa a ser mínimo.

Além da anterior, eis algumas razões da necessidade de troca de partidos no poder:
Primeiro. Esvaziamento do programa. Quando o partido assume o poder apresenta-se com um programa que a sociedade o aprovou. Implantado e bem sucedido cumpriu seu papel e a partir de então deve ser ou criado outro ou substituído por outro. O partido que está no poder não criará nada e, portanto, continuará na mesma. Então, é necessário chamar outro partido que oferecerá outro programa. Da mesma forma este, depois de cumprir o que prometeu deverá ceder o lugar a outro. Isto é alternância, indispensáveis em democracias.

Segundo. Frouxidão ética. Diz o ditado que a “ocasião faz o ladrão”, isto é, a proximidade do poder e a facilidade para usá-lo amanteigam a ética pessoal e  desvios de condutas e corrupção se tornam rotineiros. É preciso não só convicção, mas também certa dose de medo de perder o poder para evitar sobrepor o interesse geral ao pessoal. Como diz Maquiavel: não é preciso que o Príncipe seja amado, basta que seja temido. Isto acontece numa é autocracia. Numa democracia os papéis se invertem: o povo não precisa ser amado pelo príncipe, basta que o príncipe tema o povo.

Terceiro. Torneiras sempre mais abertas. Partidos que se perpetuam no poder, para se manterem no poder, sempre mais prometem, concedem e cedem para poderem atender a demanda eleitoral. Aquilo que antes era apenas uma promessa agora deve ser convertido em dinheiro vivo. Se o partido prometeu 40 milhões, depois do segundo mandato no poder deve entregar 80 milhões.

Quarto. Espírito democrático esquecido.  Governos muito prolongados esmorecem o gênio democrático dando lugar ao autoritarismo. Os ocupantes do poder vão achando natural serem bajulados, reverenciados e mesmo louvados. Começam a se convencerem que realmente são indispensáveis, os melhores e que os demais são segunda categoria. É preciso chamá-los à realidade e tomar um chá de humildade.

Quinto. A perseguição aos adversários. A permanência de partidos no poder provoca uma confusão entre competidores e inimigos políticos. Com a crítica da oposição surge o espírito de caça às bruxas. Falam em: “os inimigos da pátria, os vendidos ao capitalismo ou socialismo, os inimigos do povo...” Enfim, quem não está com o partido no poder é antipatriota".

Sexto. Esta é a mais nefasta para a democracia: transfiguração da “parte” no “todo”. Um partido em permanência prolongada no poder escamoteia a realidade de “parte” que é, e passa a exibir-se como todo. Para tanto promove as reformas, como do ensino, da constituição, partidária, eleitoral, segurança inoculando o pensar, agir e sentir da democracia. Quando atingiu a totalidade faz crer que o totalitarismo é a genuína democracia, tal como o desfecho de A Revolução dos Bichos"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Uma nova ferida que se abriu. José Maurício de Carvalho -UFSJ




A chuva desse último final de semana de julho no sudeste do país foi particularmente importante para a região e um alívio para a secura na cidade. Foi recebida como um alívio.
Esse último final de semana de julho, apesar dessa chuva bem vinda, não foi contudo, um momento feliz para a cidade. Nossa terra amanheceu sem outro de seus casarões centenários, nova ferida aberta no cenário urbano que surge pela destruição de um exemplar arquitetônico que deveríamos orgulhar de manter. Pior que das outras vezes é que a destruição também atingiu uma área verde ao lado da propriedade, uma área que precisava ser mantida junto com a edificação. Preservar para as futuras gerações, por Minas e pelo Brasil.
Ao insistir no tema da preservação de nossa memória e no cuidado ambiental como valores reconhecidos e legítimos, Miguel Reale os denominaria invariantes axiológicos, somos movidos pela esperança de que todos os cidadãos se sensibilizem com esses valores. E nossa comunidade vai, aos poucos entendendo essa mensagem. Esse novo clima é sentido de modo geral, mas episódios como o desse final de semana prejudicam a emergência do novo, trazendo de volta o pior do passado recente, concretizando interesses ilegítimos porque ilegais e que atacam valores reconhecidos.
Destruições como essa tornam-se o lado triste de nosso tempo. Elas acabarão vinculando a atual geração com aquelas parcelas que não souberam preservar a belíssima paisagem urbana legada pelos séculos XVIII e XIX. Tomar consciência disso é assumir um compromisso com o futuro. Para fazê-lo melhor é preciso mudar a insensibilidade para os valores ecológicos e de preservação cultural, reafirmando um tempo novo e uma nova compreensão de História pelo respeito aos bens culturais e ecológicos.
Essa concepção de História como criação humana e preservação de valores racionalmente reconhecidos e legitimamente consagrados nas leis do país precisa impedir ações especulativas como essa. O momento atual é um presente que se põe entre um passado importantíssimo e um futuro que temos que construir com a inspiração desse legado. Se fazemos dos dias de hoje um momento bárbaro de ignorância e destruição de nossa memória, não teremos um futuro alicerçado nesse passado construído e na experiência que ele propicia. O que existiu se degrada em pó e desaparece na recordação de alguns que levarão para o túmulo o que era para ser a base dos projetos de futuro de nossa cidade. Mata-se a esperança da renovação criativa,  destruindo os bens e os tornando objeto de nostalgia de velhas memórias que em pouco não existirão mais.
A história de uma sociedade não é um prolongamento automático do seu passado, mas também não é uma criação do nada que apaga o que foi deixado pelas gerações anteriores. E assim, numa cidade como a nossa o legado dos séculos XVIII, XIX e XX precisam conviver e inspirar o que hoje se vai fazer nesse início de século XXI. Contra a ilusão de que podemos viver sem esse passado inspirador, vamos fazer surgir a visão contrária. Esse legado de nossos avós não pode ser jogado fora impunemente.
Mesmo sendo esse o ambiente geral sabemos que a vida humana é marcada pelas escolhas e suas consequências. A base da responsabilidade é o reconhecimento de que o sujeito pode prever o resultado de seu comportamento e fazer suas escolhas. O filósofo alemão Immanuel  Kant disse algo parecido quando afirmou que a imputação é o juízo pelo qual alguém é considerado o autor, isto é, capaz de escolher uma ação que é submetida a leis e ser punido em razão do que fizer contra a sociedade.
Esperemos que a justiça reconheça esse ato contra nossa História e nossas leis e responsabilize o autor ou autores desse atentado triste. Não teremos um tempo novo de valores renovados para nos orgulharmos com atitudes como essa.  

Postagens mais vistas