sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O Papa Francisco e o humanismo cristão. José Maurício de Carvalho




A visita do Papa Francisco ao Brasil movimentou os céus na semana que passou. Lá as pessoas são serenas, mas São Pedro acordou excepcionalmente apavorado dia 22 de julho. O Filho não estava casa, vagava pelo mundo. Inquieto e ansioso Pedro foi entrando na sala de audiência celestial sem pedir licença. E foi logo contando ao Pai que o Papa Francisco vinha ao Brasil encontrar-se com jovens do mundo inteiro. Pedro é um santo sereno, só fica preocupado quando o assunto envolve seus sucessores. Ele acreditara que a segurança do Papa seria feita pelo FBI ou a CIA. Fora informado daquela história da escuta por satélites, mas amanheceu na segunda-feira, 22 de julho, com o Papa voando em direção à cidade de São Sebastião e com a informação de que quem o protegeria seria a Polícia Federal, com o apoio dos serviços de segurança do Estado do Rio de Janeiro. São Sebastião batera de braços quando encontrou Pedro apavorado indo em direção ao escritório celestial onde o Pai atendia as audiências da semana. Disse logo São Sebastião: para a incompetência do Estado brasileiro só Deus. Não adianta nem pedir ajuda, é muito para mim. É que os santos se entendem mesmo sem se falar pois, aprenderam a ouvir o coração.
São Pedro ansioso diante do Pai era um espetáculo comovente. O Pai o ouviu paciente que é. O Pai nunca se altera nem se preocupa, pois nada acontece sem que saiba. E Ele já fora informado pelo serviço de segurança celestial da situação. Serviço secreto que funciona, diga-se de passagem. Aliás, no céu tudo funciona ao contrário do Estado Brasileiro, onde pouca coisa funciona. Na altura já havia uma legião pronta e São Miguel Arcanjo em Pessoa na liderança dos anjos. Afinal, o general das hordas celestiais preocupara-se em vir pessoalmente desde que soube que Satanás, em férias no Brasil, andava estimulando a violência. Francisco I no Rio, o coisa ruim poderia aprontar alguma coisa, avaliara o Arcanjo. O Papa sob proteção das forças de segurança brasileira, nem seria preciso um Satanás ardiloso para criar confusão, avaliou o Arcanjo.
E veio São Miguel com sua legião de anjos. Encontrou o Papa cercado de carinho e proteção num estacionamento de ônibus na Presidente Vargas. Para lá o conduzira, em enorme trapalhada, as forças de segurança. Estava cercado por outros anjos. De anjos que ainda estão aqui. O Filho estava com eles. Disfarçados na multidão, envolvidos por bandeiras de diversas nações, violões e mochilas nas costas, eles cercavam o Papa Francisco com carinho e amizade. E Satanás nem pensou em se aproximar, por que como dizem os que conhecem o assunto: Satanás sabe onde aparece. E ali a coisa não era para ele.
Já em terras brasileiras, o Papa pode dizer a que veio. Anunciar o amor de Jesus Cristo como o bem mais precioso. Isso significa, explicou, respeitar e acolher as pessoas, principalmente os que sofrem ou estão frágeis, perdoar os que erram e não querem continuar no erro. Ajudá-los a ser melhor, não transigir com a indignidade e a dúvida, encontrar sentido para o sofrimento e para o que não se compreende. Por que nós vivemos nessa terra a experiência do fenomênico, mas é no limite do fenomênico que o que está além se anuncia. E é o amor aos homens e ao Pai, o essencial do que Jesus ensinou como exigência absoluta. Essa é a preocupação central da Igreja de Cristo, levar a Sua mensagem a todas as nações. Sem sair do mundo, não perder as referências de amor ao próximo, seguir tranquilo pela vida sem ceder ao ódio, aos impulsos, à fraqueza, ao desespero e à falta de sentido.

Respeitar os homens e sua liberdade como fim e nunca tratá-los como meio, é o modo maravilhosamente simples que a razão humana, pela boca de Kant, sintetizou o essencial da mensagem evangélica.  O céu é em toda parte, basta entrar nele pela elevação espiritual ou moral. E no céu vamos encontrar Deus, atrás de cada rosto que respeitamos, acolhemos e amamos.
                                                                      

                                                                            

sexta-feira, 26 de julho de 2013

JOVENS E IDOSOS - AS DUAS PONTAS DA POPULAÇÃO. Selvino Antonio Malfatti.




O líder do catolicismo - papa Francisco - encontra-se no Brasil para participar da Jornada Mundial da Juventude. Sua origem cultural, proveniente da ordem religiosa dos jesuítas, o credencia como um expressivo humanista. E, com efeito, o está demonstrando em seus pronunciamentos. Num desses, com exata percepção, afirmou que nas duas pontas da população existem atualmente graves problemas: nos jovens e nos idosos. Nos jovens por que poderá ser uma geração sem emprego e nos idosos por que é uma população vítima de rejeição cultural, a eutanásia cultural.
E o mais fantástico é que insinua que a solução pode estar aí. Conforme ele, se a sociedade aproveitasse a sabedoria dos idosos poderia eliminar os dois problemas. A sabedoria dos idosos poderia encontrar os meios para criar os empregos para os jovens. Com isso, os jovens teriam trabalho e os idosos seriam incorporados culturalmente. Inclusive afirma explicitamente que seu objetivo em vir à Jornada é exatamente este.
 “Estimular os jovens para que se integrem no tecido social, com os idosos. Um povo vai em frente com os dois (jovens e idosos). As pessoas idosas têm a sabedoria, a história, a família, os valores. Todos necessitam disso.” Os jovens, por sua vez, têm o entusiasmo, o arrojo, a criatividade, a vitalidade, a força. A “confusão” entre ambos levará à solução do problema de uns e de outros.
O papa acenou para a Juventude um projeto de vida. Apelou para que maduramente assuma, isto é, tenha consciência e o faça com responsabilidade.
A responsabilidade está intimamente unida à existência. Esta é a essência do homem. Cada homem é o ser que não é, mas que quer ser. Como existência é contínuo projeto. O projeto responsável é a essência do homem e nisto consiste sua existência. O ser humano como projeto vive o futuro. O homem desde que começou a deixar registros de sua existência caracterizou-se por um ser determinado a transpor os limites entre o conhecido e o desconhecido.
Por isso, a Juventude é continuamente um projeto. Como projeto é duplamente responsável. Primeiro, porque tem que perseguir o projeto e segundo, buscar determinado projeto e não qualquer um. Portanto, será sempre uma possibilidade responsável. Quando a possibilidade deixa de ser possibilidade e se torna a realidade ele passa a ser sua existência. Ele se identifica com aquilo que queria ser. Toma posse de seu projeto. A partir de então, alcançou a possibilidade e esta deixa de ser projeto. E novamente há que se projetar outra possibilidade. E neste diálogo (dia logos) o homem se constrói. A construção de um ser autoprojetado somente ocorre pela responsabilidade na escolha de uma entre um turbilhão de possibilidades. Ele somente consegue a unidade quando pondera a multiplicidade de possibilidades e se mantém fiel ao projeto.

E o projeto atual para a Juventude, sugerido pelo pontífice, é unir os dois extremos demográficos: a juventude e os idosos.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

O País da Cocanha. José Maurício de Carvalho





A história do homem é expressão de seu desejo de mudar o mundo e fazê-lo mais do seu jeito. Toda a criação cultural é tentativa de produzir um espaço melhor onde se possa viver mais favoravelmente do que no ambiente natural. E esse esforço se origina em sua vitalidade, mas precisa se concretizar com esforço e também com inteligência e arte, para tornar real aquilo que se deseja. Esforço necessário não só para mudar a natureza sem destruí-la, mas imprescindível para tornar qualquer desejo uma coisa concreta, real.
O momento pelo qual passa nosso país é especialmente intenso no desejo de mudança. Não é que o país não venha se modificando e melhorando nas últimas décadas, conseguiu estabelecer um forte sistema democrático, mas nossos partidos políticos não funcionam bem; conseguiu melhorar a vida da classe média, mas há ainda milhões em grande pobreza e é enorme a desigualdade social, melhorou o nível de escolaridade, mas nossa escola não tem resultados excelentes. Fez uma tentativa de universalizar os serviços de saúde, mas esse serviço não tem qualidade. Diante da promessa recente dos governantes de que íamos para um tipo de vida semelhante ao das nações mais ricas e desenvolvidas e isso não aconteceu, vive-se momento de frustração, questionamento, manifestações e protestos. Será ótimo se este desejo de renovação se converter em esforço para mudar as coisas, será magnífico se se cobrar do Estado uma atuação mais eficiente. No entanto, nada representará se a sociedade não dialogar direto com as instituições e não tiver metas realizáveis e cobráveis dos gestores públicos.
Os protestos da semana liderados pelo sindicalismo tupiniquim, agressivo e inconsequente, com o propósito de revogar uma muito tímida reforma da previdência social feita em 2003 está entre a irrealidade e a ficção. Todos os países sérios do mundo estudam estabelecer um tempo de trabalho maior para conceder a aposentadoria e nos próximos anos na Europa quase inteira se acordou estabelecer uma idade mínima para aposentar não aos sessenta, mais aos sessenta e cinco anos. Há países como a França que adotarão sessenta e sete anos como idade mínima nos próximos quatro anos. Aposentadoria cedo significa redução dos benefícios. Precisamos pensar esse assunto de forma séria para não mergulharmos na fantasia do país da cocanha. É lamentável que muita gente não tenha entendido que o que se quer é uma mudança para toda a sociedade e não benefícios insustentáveis: ônibus de graça, hospital de graça, tudo de graça. Mas, o que é o país da cocanha?
Na Idade Média, em pleno século XII, em meio às enormes dificuldades existentes: alimentação deficiente, doenças terríveis sem tratamento, brutal diferença social, circulou um poema que anunciava um país imaginário. Era uma terra de abundância onde queijos caiam do céu, havia freiras jovens e bonitas sempre dispostas a oferecer sexo gostoso a todos que desejassem. Esse era o país da cocanha. Nesse país não se envelhecia, não se adoecia  e, que delícia, além de não precisar trabalhar ou se esforçar, as casas, não se sabe como, eram feitas de doce e o vinho nunca acabava. Com a descoberta da América, muitos europeus pouco ilustrados julgaram que os ameríndios viviam num lugar assim.
O que a maioria dos brasileiros deseja hoje em dia é um país onde o Estado funcione: onde os serviços de saúde atentam quem o procure, a escola seja eficiente em sua missão de ensinar, a água distribuída tenha qualidade e os esgotos sejam tratados antes de lançados na natureza. Espera-se que os últimos vestígios do patrimonialismo sejam erradicados para que nossos governadores não achem normal ir de helicóptero oficial para casa de praia, que as políticas de preservação ambiental e do patrimônio funcionem, que os órgãos públicos sejam eficientes. Tudo isso só será possível se cobrarmos resultados dos governantes, trabalho, mas não um país da cocanha, que é um lugar de sonhos onde se goza sem limite.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O URUBU E A POLÍTICA. José Maurício de Carvalho.


Hoje quero expressar minha homenagem a Jean de la Fontaine, o escritor francês que se tornou mundialmente conhecido por suas deliciosas fábulas. La Fontaine viveu no século XVII, nasceu em 8 de julho de 1621 e morreu em 13 de abril de 1695. Ele deu ao classicismo francês grande expressão. Antes de escrever suas instigantes fábulas elaborou contos interessantes onde examinava a psicologia feminina. Ele foi também autor de novelas notáveis como Boccacio e Ariosto (1665) e Os amores de Psique e Cupido (1669). As fábulas de La Fontaine foram reunidas em doze volumes publicados entre 1688 e 1694. Suas fábulas mais conhecidas são: A cigarra e a formiga, O lobo e o cordeiro, A raposa e as uvas e O corvo e a raposa. A marca de La Fontaine são personagens animais com características humanas, especialmente virtudes e vícios. La Fontaine usou seu talento literário para discutir questões morais.
A homenagem ocorre no momento em que estados do sudeste estão alagados pela imprevidência e falta de planejamento dos governos e sociedade. O fato lembrou-me uma história da infância e que era mais ou menos assim: contam que, certa vez, no reino da bicharada a vida na floresta ficou difícil por conta da superpopulação. Bichos muito numerosos estavam com convivência difícil, exigindo leis e ações de planejamento que assegurassem o bem estar de todos. Havia enorme desconfiança dos bichos que ocupavam os lugares baixos da floresta em votar nos que habitavam os lugares altos e vice versa, os que viviam nas águas não confiavam nos que habitavam a terra e estes não queriam entregar o poder administrativo das matas a quem não punha os pés em chão firme.  Apenas a urgência de administrar as dificuldades obrigou a organização das eleições. Depois de muita confusão e um processo eleitoral conturbado venceu o pleito a Coligação Floresta Feliz liderada pelo Urubu, candidato da Vigilância Sanitária (Partido da Higiene), que tinha na Vice-Presidência a Serpente (Partido da Fidelidade) e como conselheira a raposa (Partido da Sinceridade). Estabelecido o governo todos os animais se acreditavam bem representados. Além do mais os políticos prometeram solenemente se comportar, o Urubu a não comer restos públicos, a Serpente a não ser traiçoeira e a raposa a ser transparente nas contas e sincera nas declarações.  
Os animais estavam incomodados porque a destruição da mata ciliar aumentava as enchentes, a venda das árvores para uma carvoaria aumentava a temperatura ambiente e influía no ritmo das chuvas, a falta de preservação das nascentes e esgotos sem tratamento diminuía a água de qualidade. Os eleitos empossados trataram de se arrumar, o Urubu conseguiu morar num condomínio de luxo no único conjunto de árvores ainda preservado, a serpente ganhou um vale preá e a raposa transferiu o gabinete para o galinheiro. Quando veio o tempo das águas nada havia sido feito a não ser as leis que favoreciam a boa vida dos políticos. Sem mata ciliar para proteger os rios a inundação foi grande e o sofrimento da bicharada aumentou. Enquanto isto do alto de sua árvore sua Excelência prometia aos meios de comunicação: ano que vem será tudo diferente, tomarei enérgicas providências. Vou determinar o reflorestamento, usar os recursos públicos na proteção dos rios e cuidarei da qualidade das águas.

Depois de grande sofrimento para a sociedade passou o período das chuvas. Diante do céu azul, o Urubu de asas abertas no lindo sol dedicou-se a comer os restos do exercício anterior. A serpente com estoque renovado de preás e sapos (com o adicional de produtividade) e a raposa com galinheiro cheio cuidavam de encher a pança. E assim viveram os tempos da fartura até que um novo período de inundação se abateu sobre a floresta. Diante do desastre geral a Raposa, em férias no galinheiro da capital foi chamada às pressas para organizar a coletiva de imprensa. A culpa é da natureza, chegou dizendo aflita aos repórteres, as chuvas estão fortes demais este ano. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

VÍCIOS INDIVIDUAIS E VIRTUDES PÚBLICAS. Selvino Antonio Malfatti.

















Se as ações humanas fossem pautadas somente pela racionalidade, liberdade e vontade soberana haveria possibilidade limitada de progresso. Supondo-se que o agir humano fosse igual a seres imaginários puros, como anjos caso existissem, a realidade sempre permaneceria idêntica. A causa do progresso está justamente na imperfeição, na possibilidade de erro e conserto, na reflexão sobre o imperfeito. O ato perfeito não poderia causar outro ato mais perfeito, senão o primeiro não seria perfeito. Por isso, a mudança, o progresso e retrocesso, estão ínsitos à condição humana. Anjos, cujas ações são racionais puras, livres de qualquer influência, quistos pelo que possuem de perfeição, não conseguem progredir em nada. Alguma religião afirma que o mundo transhumano tenha se modificado em algo? Que a divindade tenha promovido uma perfeição, algum melhoramento? Todas são unânimes em afirmar o pronto, acabado, imutável.
Poderia alguém se perguntar qual desses mundos é melhor? Os protótipos da humanidade, Adão e Eva, fizeram-se mesma pergunta. O que era melhor: o paraíso perfeito ou a terra de espinhos e abrolhos? É melhor ser imutável ou mutável? Não conhecer o erro e não praticá-lo ou conhecê-lo e poder cair nele?
O progresso é fruto de nossos instintos auxiliados pela razão. Sem vaidade não haverá ninguém que queira se sobressair aos demais. Sem orgulho não haveria alguém que quisesse mandar no maior número de pessoas possíveis. Sem ganância não haveria ninguém que quisesse acumular mais do que pode consumir. Sem luxúria não haveria ninguém que desse presentes a não ser a sua mulher. Sem gula, não haveria centros de gastronomia, sofisticação de comidas e bebidas, restaurantes afamados.
O estado acima descrito leva á competição de todos contra todos. É o típico estado natural. É uma guerra sem armas de todos contra todos. Disso decorre uma pergunta: como será possível o progresso na iminência da autodestruição? 
É possível se pudermos estabelecer regras de convivência social e liberdade de ação individual. Em outras palavras, é possível se conseguirmos transformar os vícios individuais em virtudes públicas. É questão posta por Mandeville, e a resposta de Rawls.  De um lado temos os vícios individuais impulsionadores do progresso e de outro lado temos a ética social garantindo a convivência pacífica.
Com efeito, Bernard Mandeville, na conhecida Fábula das Abelhas descreve uma colmeia em dois momentos: no primeiro, sob a égide do egoísmo privado e no segundo, sob o império da virtude pública.
Enquanto a colmeia era regida pelo egoísmo prosperava e todos os seus habitantes eram felizes. Os vícios grassavam nesta comunidade. Os jurisconsultos se ocupavam de manter a animosidade entre os litigantes, os médicos preferiam a reputação à cura das doenças. Não se importavam com as pessoas, mas procuravam apenas conquistar a simpatia das empresas farmacêuticas. Os religiosos apenas se preocupavam em benzer a colmeia. Eram ignorantes, preguiçosos, avaros e vaidosos. Os soldados, fugitivos da guerra eram cobertos de honras. Os que se empenhavam na guerra perdiam um a um seus membros até que recebiam uma miserável pensão. O rei da colmeia, uma vergonha. Os ministros do rei faziam de tudo para enganar a coroa, sem falar que saqueavam descaradamente o tesouro. Gastavam perdulariamente embora seus salários fossem mesquinhos. A justiça que se gabava de ser cega, enxergava muito bem o brilho do ouro. A balança, de tanto peso de presentes e propinas, havia pendido para um dos lados chegando a cair.
Os políticos do Brasil inverteram a Fábula. Os atores se apropriaram do resultado das virtudes públicas e as carrearam para vícios individuais. A ética social converteu-se em ética individual. E aí só prosperaram vícios individuais.



sexta-feira, 28 de junho de 2013

Manifestações cidadãs. José Maurício de Carvalho




Boa parte do país e do mundo assiste atônito às cenas de violência e protestos que se espalharam pelas maiores cidades do Brasil. O movimento começou como protesto pelo aumento do preço das passagens de ônibus nas capitais dos Estados e, nessa altura, se protesta contra tudo, desde a inoperância do presidente do Bahia até a falta de qualidade dos jogadores do Palmeiras. Meu amigo Jorginho estava indignado na última manifestação porque o verdão está disputando a série B do Campeonato Brasileiro e gritava a plenos pulmões: queremos time. Misturado a eles, baderneiros de toda ordem saqueiam lojas, quebram o patrimônio público, fazem arrastão. Estão promovendo enorme prejuízo, destruindo o patrimônio público e privado diante de manifestantes pacíficos e autoridades perplexas que não sabem como proceder.
Deixando de lado os baderneiros, vândalos e os inconformados palmeirenses infiltrados nas manifestações cidadãs, a maioria dos manifestantes é jovem e acreditam sinceramente que seus protestos resultarão num país melhor. É, sobretudo, a eles que me dirijo hoje. Jovens cujas posições podem provocar mudanças no país, digo podem, ao recolocar na pauta de discussões nossos velhos problemas e a necessidade de mudar a sociedade. Nossa estrutura social é injusta (já foi pior), os serviços públicos são ruins (e melhoraram nos últimos anos), nossas instituições respondem com dificuldade aos problemas que temos (vivemos décadas de ditadura e total afastamento entre a estrutura do Estado e a Sociedade). Apesar das melhorias alcançadas, as aspirações dessa geração são maiores e ela espera que o país mude rapidamente. Sobretudo os manifestantes esperam que a corrupção diminua (isto não tenho base de comparação), que também diminua a violência e a insegurança (essas pioraram muito na última década) e que melhorem os serviços públicos (e como precisam melhorar).
É a essa geração de patriotas que me dirijo para refletir com eles que é preciso encontrar um rápido meio de contato com as instituições do país. Manifestações de rua estão acobertando bandidos e desordeiros. E as mudanças não virão espontaneamente da atual elite política e econômica, mas não virão, de modo consistente, se não vierem pelos meios institucionais. Somente mudando o país desde dentro a vida cotidiana deixará de ser espaço de violência, de injustiça e abandono. A democracia, por sua vez, só melhorará com respeito a todos os cidadãos. É inútil pedir democracia e exigir favores, manifestar-se por igualdade e pedir privilégios, pedir o fim da corrupção e ser desonesto.
Sobre mudança é preciso realismo. Muitos sindicatos e partidos que se dizem progressistas e vanguardistas, buscam privilégios e/ou vendem irrealidade, como carreira fácil em que todos vão ao topo sem mérito real. E mais ainda: transporte gratuito, escola gratuita, hospital gratuito não existe. Existe serviço público pago com impostos. E alguns serviços precisam mesmo ser públicos e subsidiados pelos impostos, mas quais? Além das funções básicas de defesa do Estado, de segurança pública e da aplicação da justiça, deveriam ser gratuitos e para todos: a educação básica, a medicina preventiva, os serviços de saúde de alta complexidade e a segurança. Também poderiam ser gratuitos a universidade pública e hospitais do Estado, zelosos ambos da qualidade do atendimento.

Permitam-me pequeno esclarecimento, os estádios da copa padrão Fifa são, na verdade, padrão Suíça. Conhecem a Suíça? Para que nosso país alcance aquele nível de desenvolvimento será preciso décadas de crescimento acelerado. Desejo que seus netos vivam num país próximo do que é a Suíça hoje. Nenhuma melhoria virá nessa direção sem a participação de todos, trabalho sério, punição rigorosa aos corruptos e condenados pela justiça, sobretudo, fim dos privilégios e investimento financeiro.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

AS REDES - A NOVA ARMA DOS JOVENS. Selvino Antonio Malfatti




A onda de protestos que toma conta do Brasil atualmente teve como reivindicação inicial o aumento dos preços das passagens em São Paulo e no Rio de Janeiro e logo se alastrou para outras capitais e interiores. Dessa motivação inicial imediatamente saltaram para outros patamares bem mais significativos como a corrupção política, impunidade e a tentativa de afastar o ministério público das investigações de crimes, a chamada PEC-37. Com efeito, há uma dezena de condenados pelo Supremo Tribunal Federal e assim mesmo anda solta e mesmo ocupando cadeiras no Parlamento. A revolta também teve como ingrediente o fato de milhões e milhões terem sido gastos para serem erguidos os estádios para as copas das Confederações e o campeonato mundial. Enquanto isso médicos desesperados não dão conta de doentes que morrem em seus braços. Faltam hospitais, aparelhos, remédios, médicos. A educação ocupa o penúltimo lugar na avaliação internacional. As escolas estão mal aparelhadas, sem verbas, o corpo decente mal remunerado. A segurança pública está à deriva. Cadeias superlotadas, bandidos soltos vivendo do crime, pessoal mal aparelhado e mal pago.

As últimas explosões de protestos de jovens por todo Brasil, de norte a sul, revelam um fato novo nas comunicações de massa: os aparelhos tradicionais foram postos de lado e foram utilizados os não convencionais. Jornais, rádios televisão utilizados para a mídia foram abandonados e em seus lugares os jovens lançaram mão dos aparelhos twitter, facebook, ipad, iphone, celulares, tabletes, smartphones, computadores e outros para se comunicarem nas redes. O que se viu foi um furar de bloqueio e domínio das comunicações costumeiras para as não convencionais. O movimento simplesmente driblou a censura bem como o monopólio e estabeleceu uma linha de comunicação direta, rápida e eficaz entre si.

A idéia não é originária daqui. Temos como antecedentes a Batalha de Seatle, onde acontecia em 1999 a reunião da organização Mundial do Comércio. Outra foi a Davos e a Globalização em 2000. A terceira poderia ser a Toronto contra o G20 e várias outras. Mas a mais característica foi com os países árabes, com a revolta dos jovens contra as ditaduras. Ali também funcionou da mesma maneira. Foi furada a barreira do controle estatal e os jovens saíram às ruas e desestabilizaram os ditadores.

Estamos diante de uma mudança de qualidade de meios na comunicação de massa. A Mídia foi substituída pelo novo ambiente, as redes. Até então eram utilizados meios que falavam para as massas e depois chegavam aos indivíduos. Agora a comunicação é individual, direta, e depois se forma a massa. Os jovens se comunicam entre si e a partir de então nasce o movimento massivo. Por isso os meios tradicionais não conseguiram localizá-los. Quando os órgãos de segurança se deram conta estavam diante de uma multidão que brotava do chão, vinha de todos os lugares, engrossava a cada segundo e seguia exatamente um plano pré-estabelecido sem que ninguém soubesse como. Saíam às ruas, encontravam-se num local combinado e dirigiam-se a alvos já previamente escolhidos. 


No futuro é muito provável que este meio de se comunicar no intuito de captar ou formar opinião seja aproveitado politicamente. Um governante poderia saber a tendência da opinião sobre assuntos polêmicos em questão de poucas horas e direcionar sua ação neste sentido. Até mesmo poderia ser aproveitado para, pouco a pouco, engatinhar numa ética social, diferente da ética vinda de cima para baixo. Uma ética emersa do consenso o qual gera o consentimento e deste a legitimidade. Ao contrário de uma ética imposta geradora da desconfiança provocadora da revolta.

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