sexta-feira, 21 de julho de 2023

OS SINAIS DA IGREJA. Selvino Antonio Malfatti

 

 



A Igreja católica terá aumento de seu corpo eletivo. Será a nomeação oficial dos 21 novos cardeais no Consistório de 30 de setembro deste ano. 

A reposição de novas lideranças é uma medida de praxe de qualquer instituição.Toda organização que pretende subsistir no tempo deverá ter duas  preocupações básicas: garantir lideranças que deem continuidade às atuais e dotar de regras necessárias para sua continuidade externa e coesão interna.

Isto ficou claro com as novas medidas adotadas pelo Papa Francisco. Para garantir novas lideranças tomou a iniciativa de nomear 20 cardeais de uma só vez e as novas regras veem sendo implantadas aos poucos ao longo de seu pontificado. Estes novos cardeais lhe garantirão eleger seu substituto que lhe darão continuidade às reformas implantadas que se caracterizam por um progressismo conservador. O aspecto conservador seria o núcleo duro da doutrina, a essência: os dogmas. Neles ninguém toca. O progressismo seria aspectos não essenciais, mutáveis, sem atingir a doutrina. O complemento dos dogmas pode ser modificado, mas a essência não.  O Creio em Deus Pai é a síntese da Doutrina. Os mandamentos da Igreja seria um exemplo da não essência da fé.  Demos um exemplo de essência e secundário: sim à participação das mulheres na Igreja, mas não no sacramento: não abolição do celibato, mas sim padres casados; não ao divórcio, mas sim à tolerância às segundas núpcias; não ao aborto da criança, mas sim à vida da mãe; não ao sacramento da eucaristia para mulheres, mas sim à liturgia.

A nomeação repentina dos novos cardeais suscitaram algumas especulações políticas. Enumeremos algumas:

1.1Renúncia próxima de Francisco – O papa não quer deixar os católicos pegos de surpresa novamente, isto é, um conclave extra temporal sem orientação política.

2.  2.Rumos da Igreja para o futuro. Mais reformas, ou nada de reformas e concentração na missão missionária? Liturgia?

3.O papel dos jovens. Como assimilá-los? Cedendo mais? O que negociar e o que não?

4.4. Como assimilar os novos continentes? Ásia e África? Que forma tomará o catolicismo nesses países?

5 5.Mudança na ênfase política? Quando os primeiros cristãos perceberam que era inútil insistir com o judaísmo os apóstolos deixaram de dar ênfase neste povo e se voltaram para os gregos e depois romanos? Deixará a Igreja a Europa em segundo plano e concentrar-se á na América, África e Ásia e Austrália?

Seria útil saber a origem dos novos cardeais? Por que foi escolhido alguém de um país e não de outro. De um continente e não de outro? Seria apenas para cooptar a população e dar maior representatividade?

Atualmente o Colégio Cardinalício é composto por: 222 cardeais, dos quais 121 eleitores (com menos de oitenta anos) e 101 não eleitores.

 CONTINENTES

África

16

13,22%

América

35

28,92

Ásia

21

17,36

Europa

46

38,02%

Oceania

 03

2,48

                                                                                                          100%

LISTA DOS FUTUROS CARDEAIS:

Bispo François-Xavier Bustillo (Ajaccio, França)

Bispo Américo Manuel Alves Aguiar (Lisboa, Portugal)

Padre Luis Pascual (Buenos Aires, Argentina)

Arcebispo Robert Prevost (americano - Vaticano)

Arcebispo Claudio Gugerotti (italiano - Vaticano)

Arcebispo Víctor Fernández (argentino - Vaticano)

Arcebispo Emil Tscherrig (suíço - Vaticano)

Arcebispo Christophe Pierre (francês - Vaticano)

Arcebispo Pierbattista Pizzaballa (italiano em Jerusalém)

Arcebispo Stephen Brislin (Cidade do Cabo, África do Sul)

Arcebispo Ángel Rossi (Córdoba, Argentina)

Arcebispo Luis Aparicio (Bogotá, Colômbia)

Arcebispo Grzegorz Ryś (Lódz, Polônia)

Arcebispo Stephen Mulla (Juba, Sudão do Sul)

Arcebispo José Cano, (Madri, Espanha)

Arcebispo Protase Rugambwa (Tabora, Tanzânia)

Bispo Sebastian Francis (Penang, Malásia)

Bispo Stephen Chow Sau-Yan (Hong Kong, China)

Padre Ángel Fernández Artime (espanhol - Congregação Salesiana)

Arcebispo Agostino Marchetto (Vaticano)

Arcebispo Diego Rafael Padrón Sánchez (Cumaná, Venezuela)

Os brasileirosLeonardo Steiner e Paulo Cezar Costa


TUDO ISSO INDICA SINAIS DA IGREJA DO FUTURO  atendendo ao chamado do mestre antes de partir:

 “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.!"

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Viktor Frankl e a espiritualidade. José Mauricio de Carvalho

 



O mau uso dos ensinamentos de Jesus de Nazaré, transformados em trampolim político ou simplesmente pervertidos para enriquecer empresas que se apresentam como suas seguidoras, deu origem ao que um juiz da Suprema Corte nomeou de cristianismo do mal. Naquela ocasião mostrei que não há e nem haverá um tal cristianismo, mas existe a deturpação da mensagem de Cristo usada para o mal. E essas empresas que fazem isso acabaram não só deturpando a mensagem libertadora e sagrada do Filho de Deus, como provocam o adoecimento e a neurose de muita gente. Há casos em que essas empresas contribuem para aumentar a culpa ao focar no pecado e punições do Altíssimo e, assim, levar à depressão e multiplicar a baixa estima entre seus infelizes seguidores. Todas as ameaças colocadas a serviço do aumento de receitas da empresa, estimulada enlouquecidamente por quem deveria dar de graça o que de graça receberam. A frase “de graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,8) mostra que o Filho de Deus não aprova a comercialização dos seus ensinamentos, embora pareça legítimo ao pregador ganhar uma retribuição por seu trabalho e o templo obter os recursos para sua manutenção. Porém isso está longe de autorizar o enriquecimento dessas instituições.

Se o mau uso dos ensinamentos evangélicos produzem neurose e baixa-estima, além de patrocinarem projetos políticos anticristãos, a mensagem religiosa que aponta para o alto e se mantém fiel aos ensinamentos de Jesus, não apenas oferece a porta de entrada para o Reino de Deus, mas ajuda o fiel a ter uma vida mais significativa e valiosa. Com base no diálogo com Deus, ele enfrenta com mais efetividade e confiança as adversidades naturais da vida e recupera-se mais facilmente dos problemas emocionais. Esses assuntos se tornaram objeto de estudo de uma linha de pesquisa psicológica que ganhou força e reconhecimento em Faculdades de Medicina mundo afora com a linha de pesquisa religião/espiritualidade e saúde. Próximo de nós, o melhor representante desses estudos é o NUPES da UFJF, dirigido pelo Dr. Alexander Moreira-Almeida que reúne a sua volta um talentoso corpo de pesquisadores.

No livro Viktor Frankl e a psiquiatria (Porto Alegre, MKS, 2019, 338 p.) e ainda mais em Viktor Frankl e o inconsciente (Porto Alegre, MKS, 2021, 348 p.) chamamos atenção para a importância de uma vida com sentido e do papel que a religião e a espiritualidade possuem como fator gerador de saúde mental, bem como para os desvios e razões para a negligência da transcendência na psiquiatria ocidental, devido a influência do positivismo e do materialismo nas Faculdades de Medicina. Os dois livros examinam os ensinamentos do filósofo e psiquiatra Viktor Frankl, um dos notáveis representantes da psicologia fenomenológica, cujo diferencial foi a revisão da psicanálise e a abertura ao transcendente estimulada pelos estudos que fez de Martin Buber.

É interessante a forma como essa linha de investigação psiquiátrica examina, com crescente interesse e isenção, os efeitos positivos da Religião/Espiritualidade na saúde mental. Esse assunto ganha diariamente novos estudos como mostrou recentemente H. G. Koenig no artigo Religião, espiritualidade e saúde: a pesquisa e as implicações clínicas. Ali ele diz que (KOENIG, H.G. Religion, Spirituality, and Health: The Research and Clinical Implications. ISRN Psychiatry. 2012 b; 2012: 278730. Published online 2012 Dec. 16.): “Na primeira edição do Handbook [27], identificou 110 estudos publicados antes do ano 2000 e 344 estudos publicados entre 2000 e 2010, totalizando 454 estudos. Entre esses relatórios estão descrições de como religião e espiritualidade ajudaram as pessoas a lidar com uma ampla gama de doenças e/ou uma variedade de situações estressantes.” 

E na cuidada síntese que H.G. Koenig produziu está demonstrado não só o aumento dos estudos sobre o assunto, mas a comprovada influência sobre a saúde mental de uma fé religiosa esclarecida. E quem diz isso são os atuais e cuidadosos estudos de medicina que foram antecipados por Viktor Frankl em seus trabalhos sobre a logoterapia. E os estudos resumidos por Koenig comprovam aquilo que filósofos como Karl Jaspers escreveram (Os mestres da humanidade, Coimbra, Almedina, 2003, p. 139): “Jesus demonstrou a libertação da angustia existencial no assumir da cruz.” E a quem ele se dirigia com seus maravilhosos ensinamentos (id., p. 136): “a qualquer pessoa que encontrasse. Todos lhe convinham. O importante era proporcionar a iluminação interior, através da qual crente vê e ama.” Assim, iluminados, eles abriam as portas do Reino de Deus.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O LEGADO DE ALAIN TOURAINE. Selvino Antonio Malfatti .

 


 


 

Em 9 de junho deste, apagou-se para este mundo o sociólogo francês Alain Touraine. Mas o legado que deixou foi enorme.

Um olhar sobre o mundo atual constatam-se diversos movimentos sociais reivindicatórios. Estes movimentos são caracterizados pela forma pacífica que atuam. Abrigam pessoas de todas as categorias sociais, status, classes, estratos. Não se pode dizer que haja um racha social dividindo pessoas, grupos ou populações. A participação nesses movimentos é livre tanto para entrar como para sair. Podemos citar movimento das mulheres para as igualdade com os homens e parte do mundo árabe, os movimentos de protestos contra a reforma na aposentadoria na França, movimentos políticos em diversos países da América do Sul pela democracia, movimentos feministas como LGBT, movimentos religiosos, movimentos negros, movimentos políticos conservadores e progressistas, movimentos pró-ambiente e outros.

Isto é possível atualmente devido em parte a Alain Tourraine, sociólogo francês.  Em Touraine os conflitos de classe e acordos políticos constituem o fermento da ação social.Para ele, a América Latina possui um problema sócio-político comum: Estado, Sociedade e Sistema político estão misturados, devido ao nacional-populismo. Os líderes políticos latino-americanos, no afã de afastar as rupturas impostas pelo modelo desenvolvimentista importador, rupturas que poderiam provocar desagregações no modelo tradicional, encetaram uma ação de controle coletivo. Para tanto, os políticos lançam mão do Estado para impor sua autoridade.Com certeza a importação de tecnologia e capitais externos criaria novos atores políticos, ou outra elite, a qual competiria com a que mantém o "status quo", ameaçando seus privilégios e mesmo sua legitimidade política. A modernização do país necessitaria de novos líderes, que estivessem familiarizados com a nova tecnologia e mesmo ambiente sócio-político mais amplo, senão global. Ora, isto colidiria de imediato com a classe política tradicional. O apelo se faz, então, no sentido de que as classes menores favorecidas e a que mais sofre com as importações, se defendam da proletarização. A elite política tradicional demagogicamente assume a defesa dos indefesos, da cultura popular, das tradições da nação. Mas para chegar a tal desiderato é preciso canalizar a força do Estado em prol da causa. Daí que o sistema político é moldado instrumentalmente para conseguir seu objetivo, qual seja, construir uma fachada popular para evitar o controle popular. O controle que a sociedade deveria manter sobre a classe política, é transformado em apoio popular. E como a classe política é a timoneira do Estado, a confusão está concretizada. A forma de burlar o controle é feita pelo apelo direto ao povo, driblando as formas de representação. Para a tarefa discursiva de convencimento, são chamados os intelectuais, os quais não só emprestam sua sabedoria, como se locupletam também das benesses do Estado. Após o domínio do Estado, a classe política organiza as instituições de conformidade com seus interesses. Todo o conjunto institucional pauta-se pela defesa dos interesses ditos nacionais. Num sistema desses, o conflito é visto com ojeriza, uma verdadeira anomalia. Os conflitos de classe não fazem sentido em tal sistema. Aos conflitos são contrapostos valores nacionais, os quais neutralizam os conflitos.

Por isso a ação é no sentido de visar à integração da coletividade nacional, de identificar povo e poder constituído. Nesse sentido são antioligárquicos, antielitistas e igualitários. A classe política, em regimes nacional-populistas, não se preocupa com o desenvolvimento, embora o discurso o proclame, nem com a superação das estruturas arcaicas, embora se proclame de progressista.

 

Em síntese, conforme Touraine, um regime nacional-popular caracteriza-se por um Estado guardião da nacionalidade, contra a invasão bens e cultura estrangeira; por instrumentos políticos e sociais de controle social; pela promoção da cultura nacional e popular.

sábado, 1 de julho de 2023

O lugar de nossa habitação, uma área no coração da terra. José Mauricio de Carvalho

 





A habitação é onde moramos, pode ser uma casa, uma cidade, um espaço ou mesmo nossas memórias. Uma cidade como Guarani, com seu vale onde corre o Rio Pomba e suas montanhas cobertas de verde, uma região como a da mata nas Minas Gerais, os costumes que nossos avós plantaram em nossos corações e formam nossa segunda pele. Habitamos tudo isso.

Pensadores contemporâneos identificaram dificuldades nesse nosso habitar o mundo. Edmund Husserl, criador da fenomenologia, entendeu que boa parte de nossas dificuldades atuais têm raízes na forma de pensar da ciência moderna que, por sua relevância cultural, alimentou uma visão materialista de natureza e favoreceu um critério naturalista de verdade. Isso devido ao impacto trazido pela noção de verdade das ciências da natureza e ao sucesso que elas têm no controle e manuseio do mundo. Por isso, Husserl concluiu que muitas de nossas dificuldades tiveram origem na matematização das mentalidades, ocorrida em meio a tentativa do homem moderno de descrever a natureza e a verdade matematizando a realidade.

A ciência moderna não é ruim e nem causa crises, ela é nossa força e a melhor arma na construção de nossa habitação. Porém, a dificuldade identificada por Husserl está nos comportamentos à volta dela como: a generalização do critério de verdade quantificável e a sensação de que podemos fazer tudo aquilo que a técnica permite. Essas atitudes são guias morais e foram desenvolvidas a partir de uma metafísica positivista. Essas atitudes sim, criaram dificuldades.

Todo esse imbróglio está em reconhecer o valor e a importância da preservação ambiental que o nosso jus filósofo Miguel Reale denominou invariante axiológica. O embaraço não é pequeno porque sabemos que a vida e as atividades humanas demandam o uso dos bens naturais.

O homem só cria cultura quando altera e se aproveita da Natureza. Estamos descobrindo, em meio a dificuldades, que as alterações no mundo natural não podem destruir o equilíbrio natural, isto é, têm limites nele. Temos que nos distanciar da visão positivista que via a natureza como um animal a ser submetido e explorado ao limite.

Precisamos deixar para trás a visão romântica da Natureza, imaginando que ela funciona para ser boa. A natureza não atende a requisitos morais, nem favorece deliberadamente os projetos humanos. No entanto, certas condições naturais ajudam a manter a vida no planeta e é esse equilíbrio o valor a ser cuidado, modificá-lo dificulta e depois inviabiliza a vida.

Até algumas décadas essa não era uma questão relevante, nesses últimos tempos tornou-se. Para que rios como o Pomba continuem correndo, para que matas cresçam verdes, para que a chuva alimente a terra e faça brotar a semente em nossas fazendas, não podemos continuar indefinidamente ampliando fronteiras agrícolas, derrubando florestas, destruindo ecossistemas e matando animais. Se a ciência ampliou o espaço de atuação do homem e a técnica aumentou nossa capacidade de mudar e aproveitar o mundo, ela agora mostra os limites de nossa habitação. Não se pode ir passar a boiada por cima de tudo simplesmente, por que a desregulamentação e a destruição ambiental nos levarão rapidamente a uma situação insustentável. Os resultados da ação desmedida do homem já aparecem nos eventos climáticos extremos, o preço que pagaremos, muito rapidamente, depende de nosso juízo para lidar com esses assuntos.


sexta-feira, 23 de junho de 2023

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Selvino Antonio Malfatti

 



Todos nós temos experiência de ligarmos ou recebermos ligação de um ”call center”., central  telefônica. Só pergunta ou responde para aquilo que foi programada. Se mudarmos um pouco a pergunta ou resposta, a central vai dizer: não entendi sua pergunta ou sua resposta.

A definição de Inteligência Artificial - IA é a capacidade de uma máquina de agir como a inteligência humana dentro daquilo que foi programada. Inclusive, ser for programada para responder diante de um conjunto de dados. Até o momento a máquina não cria novos dados e, portanto, não vai além da Inteligência Humana – IH. Então, ao dizermos que a IA tem “raciocínio, aprendizagem, planejamento e criatividade” vai até onde lhe foi permitido pela programação, inclusive até quando e onde lhe permite criar. Digamos que se pede à máquina que resolva problemas específicos. Para anto o computador recebe dados passíveis de serem lidos pelos seus sensores, processa os dados e responde com os dados presentes.

Pode o computador modificar o comportamento humano? Se estiver de posse de ações anteriores, ele pode aplicá-las a casos semelhantes. Até o momento: criar do nada, nada.

Para o futuro estão previstas ações para IA: desinformação, difusão de dados verdadeiros e falsos, perda de emprego e substituição de conhecimentos verdadeiros por falsos.

A IA modificará nossas vidas, quer queiramos quer não. Será como, mal comparando, com a Revolução industrial ou a descoberta da internet. A internet é mais recente. Quem viveu o pós- internet não consegue explicar como era antes. É como se um cego de repente começasse enxergar ou querer explicar como é o mundo para um cego. Assim será com a IA. Como diz a Escritura: vos tornastes deuses ou sois como deuses.

As pesquisas terão praticamente resultados instantâneos. Provavelmente a expectativa de vida se multiplicará geometricamente, as doenças serão banidas.

No entanto, teremos que ficar muito atentos, pois a horizonte será sombrio com: desinformação, proliferação, perdas de emprego através da substituição da mão de obra humana. Expliquemos:

A liberdade e com ela a democracia estarão em perigo. Poderá dominar uma informação tornando-a totalitária. As redes sociais sob o domínio de grupos poderosos dominarão a informação, como filmes de ilusões. O sentimento será envenenado pelo ódio e as instituições sofrerão totais descrenças.

As pessoas perderão a privacidade, pois os computadores saberão imediatamente onde estão, o que procuram e quais os meios de que dispõem. Nada ficará em segredo, pois todos os dados serão acessíveis por todos.

 A perda de emprego será generalizada: os trabalhadores manuais substituídos por máquinas, os setores de gerência substituídos por robôs, a transmissão dos conhecimentos não dependerão de professores, pois cada um pode acessar nas máquinas, a moeda será somente virtual, as exportações/importações por máquinas automatizadas, o transporte dispensará motoristas, pilotos, carregadores.

Da mesma forma que atualmente há uma progressiva substituição de humanos por animais nas mais diferentes situações como companhia, habitação, lazer, viagens, da mesma forma as máquinas substituirão os humanos. Já não se pergunta mais ao vizinho, amigo, parente opiniões sobre questões a resolver, mas à máquina. Será uma interação preferencial como as previsões do tempo e outras questões quotidianas. Em seguida situações mais complexas como escolher companhias. Isto levará a distúrbios de ansiedade, depressão e convivência. Quando se chegar ao nível político provavelmente estamos diante da cegueira generalizada.

Por fim, uma das maiores pragas do mundo digital são os programas de identificação das pessoas. Se acaso errar um número, a correção torna-se tarefa quase impossível por que os esquemas estão fechados. Digamos uma rua. Enquanto a numeração for ascendente o descendente tudo correrá bem. Mas se a continuidade for quebrada, intercalando números pares com ímpares, não conseguirá acertar nunca, pois não tem possibilidade de ISTO E AQUILO, mas somente ISTO OU AQUILO. E se tenta corrigir a máquina não abre espaço. Deve voltar ao início, estaca zero. Quando tentar corrigir a máquina negará e entrará num círculo vicioso como se fosse um labirinto: quanto mais andar mais se perderá.

Teimar contra a máquina é um inferno.


sexta-feira, 16 de junho de 2023

A velha e sempre nova democracia. José Mauricio de Carvalho

 



No mundo antigo a democracia desponta como a grande novidade da flor do Peloponeso. Flor porque aquela península assistia a fabulosa reunião de Cidades-Estados da antiga Grécia com uma inédita experiência democrática. Na Cidade-Estado, o poder não pertencia a um monarca, mas aos cidadãos, esse é o princípio que regia aquela forma de governo. Ainda que diferente da democracia representativa do Estado Moderno, aquele sistema, em meio ao despotismo oriental então prevalente, revela uma experiência única de governo, semente do atual sistema democrático.

O propósito grego de encontrar a raiz da realidade, a arkhé, os fez entender que o que governa o destino da polis, não é uma pessoa, mas algo indeterminado. A ordem da cidade espelharia o mesmo equilíbrio que Anaximandro sugeria ser o fundamento do mundo. Existia, pois, uma disputa contínua entre cidadãos com interesses distintos que, com igualdade de direitos, reuniam-se em assembleias para decidir o próprio destino. Política é destino, comentou contemporaneamente o filósofo Karl Jaspers. Para os gregos, o mundo dos homens não é diferente da natureza: ambos são partes de uma única realidade. As disputas no interior da polis explicam, adicionalmente, o fortalecimento da filosofia entre os gregos porque era necessário bem argumentar para que uma proposta fosse admitida entre eles. Isso porque era impensável uma decisão política não pautada na razão e em boas explicações.

O Estado moderno recuperou a ideia de democracia a partir do século XVIII e o sistema alimentou a socialização das sociedades depois da revolução francesa dando origem, segundo Ortega y Gasset, ao homem-massa. Massa ocorre quando a democracia política torna-se um modelo para toda a vida social. Esse homem-massa limitado e infantil não compreendeu a cultura como resultado do esforço ingente das diferentes gerações pelos tempos afora. Perdeu-se o entendimento que para a sociedade atingir o nível em que se encontra precisou de esforço e talentos diferenciados e muitas excelências. Assim, acreditando que tudo estava aí pronto para ele gozar, o homem-massa tornou-se um parasita dos tempos e da sociedade, mas assumiu o protagonismo da história. Ele trouxe aquele ideal político para todas as instituições sociais e isso promoveu uma corruptela da democracia. O homem-massa não é apenas o medíocre inculto, ele se tornou o ideal de homem comum e promoveu a decadência da democracia. Não é preciso aprofundar a origem do homem-massa, mas não podemos desconsiderar o extraordinário e desordenado crescimento demográfico, que impessoaliza as relações nas cidades cada vez mais populosas; a especialização das tarefas, que pede conhecedores de tecnologias sofisticadas e absorventes, mas cujo domínio técnico resulta na ignorância de todo o resto. Um técnico inculto e uma crença emocional, este é o homem-massa.

Embora inadequada para muitas organizações sociais, o sistema democrático que se consolidou no mundo ocidental constitui a melhor forma de decidir politicamente o destino de uma sociedade moderna, grande e plural. Por isso, lembrava Delfim Santos, filósofo português contemporâneo, que quando a democracia é criticada não o é a autêntica democracia mas uma corruptela daquele sistema. Ele disse (SANTOS, democratismo, v. I, p 39): “é sobre isso que, em geral, recai a crítica dos antidemocratas. Eles atacam como democracia aquilo que não é democracia e caem por vezes na incoerência de que, sendo antidemocratas, defendem os mais altos interesses da democracia.” A crítica pode atingir um ou outro político que fazem mal uso do sistema, mas se a crítica os atinge ela enaltece os princípios democráticos.

Infelizmente a crise da cultura que ganhou força no último século, alimentou investidas políticas antidemocráticas, mas não há nada que se compare ao sistema democrático quando falamos da escolha dos representantes do povo que decidirão o seu destino. A democracia apazigua a disputa de legítimos e contraditórios interesses e profundas diferenças de uma sociedade plural.

Recentemente houve no Brasil outra investida antidemocrática. Não é uma exceção em nosso país, mas é uma serpente que sai do ovo para picar a liberdade. Se a democracia entra (id., p. 44): “em crise é porque, sendo um regime de liberdade, procura constantemente renovar-se e pôr-se de acordo com todos os interesses fundamentais da vida.” E assim, mesmo tendo seus limites é, na forma da democracia livre conduzida no estado de direito, o melhor sistema que podem assumir sociedades plurais contemporâneas como a nossa. A democracia é a melhor maneira de defender os desafios de hoje: o estado de direito, a justiça, a educação, a racionalidade e a ciência, a proteção ambiental, a liberdade, a cultura, a memória, a igualdade moral, a proteção social da vida, da velhice e dos incapazes e, finalmente, assegurar o respeito entre todos os homens.


sexta-feira, 9 de junho de 2023

AS TAREFAS DOMÉSTICAS NA PANDEMIA E A IGUALDADE PROFISSIONAL . Selvino Antonio Malfatti.

 




O objetivo de uma pesquisa foi explicar as relações de trabalho através da estrutura do convívio familiar. Um olhar superficial sobre o convívio no ambiente de convivência familiar pode parecer que seu status quo, isto é, determinadas funções profissionais cabem ao marido e outras à esposa. Tomemos um exemplo: o marido é gerente de empresa e não se envolve nas lides familiares como cuidar das crianças, a higiene e limpeza dos cômodos, preparar a comida e outros. E a esposa, por sua vez não se envolve com as atividades profissionais do marido. A suposição é que a pandemia, pela obrigatoriedade de conviverem juntos os gêneros, poderia quebrar esta estrutura e permitir um trânsito profissional.

Uma pesquisa sobre o assunto pode comprovar ou não a hipótese. Se comprovar bastaria desfazer a estrutura que se desfaria também o status quo. Caso não comprove, então devem ser pesquisas outras causas.

Uma das tentativas de explicação foi feita na França. Anualmente a Universidade de Sorbonne na França anualmente destina bolsas de pesquisa para temas específicos. Desde 2022 o tema escolhido foram as consequências sociais da pandemia no seio familiar, com foco na estrutura familiar.

O que determina a divisão do trabalho entre homem e mulher ou entre os gêneros no convívio familiar? Revisemos algumas teorias. Dentre elas podemos citar a natural, a solidariedade, o conflito, a estrutural-funcional, compreensiva entre outras. Cada teoria dá sua própria explicação. Para a natural a desigualdade seria natural, isto é provocada pela própria natureza que destina funções afetas ao gênero masculino e outras ao feminino. A teoria do conflito quer explicar pela luta entre os gêneros, cabendo a supremacia ao macho por ser mais forte. A solidariedade aproxima-se da natural. Homens e mulheres dividem as tarefas pela capacidade, gosto, vocação. A estrutural–funcional dispõe que as tarefas sejam distribuídas pela forma como cada gênero se sente mais à vontade no seu desempenho. E a compreensiva entende que as tarefas são distribuídas pelo sentido que se atribuem a elas.

A hipótese que se levanta é esta: a pandemia que confinou a família nas quatro paredes do lar provocou uma nova divisão de trabalho entre os membros da família? Os maridos se envolveram mais nas tarefas domésticas como a higiene da casa, cuidado dos filhos, preparar a comida, lavar a roupa? Por sua vez os filhos, os mais velhos, também se envolvem nas atividades, antes exclusivamente das mulheres? Por sua vez as mulheres estendem mais suas atividades no setor profissional, antes exclusivamente dos homens, como atividades ligadas à informática, direção de empresas, negócios, orientação gerencial?

Pesquisadores que se dedicaram ao tema, como a socióloga, Julie Landour, do Jornal Le Monde e professora de sociologia na PSL Paris-Dauphine University e pesquisadora do Institute for Interdisciplinary Research in the Social Sciences constata que o local onde se acontece o convívio familiar, por si só, não altera o status quo na hierarquia profissional. O gerente homem de empresa continua o mesmo gerente e a mulher doméstica continua a mesma doméstica, embora após a pandemia os tenha confinado ao mesmo local exercendo atividades diferentes. A conclusão a que chegou a socióloga foi a seguinte:

"A transformação das condições de trabalho por si só, e em particular sua localização dentro das casas, não é suficiente para atuar na divisão de trabalho por gênero".

Para que se possa dizer que houve igualdade de gênero, será preciso que ambos dediquem tempo e energia na atividade profissional de igual intensidade e ao mesmo tempo dispensem tempo e energia em  “preparar a comida, lavar a roupa, fazer a limpeza, cuidar dos filhos.”

Quando se busca a igualdade de gênero no local do trabalho a resposta é negativa. Por si só, o local não influi na desigualdade de gênero, conclui Julie Landour.

Com esta conclusão, a igualdade profissional de Gênero continua em aberto.

 

 

 

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