sexta-feira, 11 de outubro de 2019

IDEOLOGIAS, FAKES E FOFOCAS. Selvino Antonio Malfatti.



Ingleses e americanos batizaram o Fake News e os brasileiros  inventaram a Fofoca. O Fake News tem uma longa história, desde Tarquínio o Soberbo aos nossos dias, e se caracteriza em difundir notícias falsas. A Fofoca não tem data de início preciso, mas as primeiras notícias de fofocas são originárias de reuniões em locais exclusivas de mulheres, como de lavadeiras ou cozinheiras, sem querer dizer com isso que são originárias delas. Existe muito homem fofoqueiro escondido por aí.

No Brasil, fakes e fofocas se confundem e nem sempre se consegue separá-las. Vejamos algumas: D. Joao VI herdou a fama de comedor de coxinha de galinha, D. Carlota Joaquina teria se envolvida com numerosas aventuras extraconjugais. De D. Joao VI ainda se diz que escondeu uma filha bastarda. D. Pedro, alvo também de fakes, contra atacava espalhando notícias falsas em jornais usando pseudónimo. Já no período getuliano, na eleição entre Eurico e Eduardo Gomes, este num discurso falou em “malta de desocupados”. Os partidários de Eurico difundiram a ideia que se referia a trabalhadores “marmiteiros, negros, espíritas, pobres e mulheres que trabalham fora de casa”. Eduardo Gomes foi derrotado.

Provavelmente foi com a eleição de Jair Bolsonaro que recrudesceu a difusão de Fofocas e Notícias falsas e a radicalização ideológica. Os perdedores, despeitados pela derrota nas urnas, depois de quinze anos no poder, foram para o ataque na mídia. Os vencedores, acuados pelos perdedores, revidaram contra atacando. No momento assistimos a uma verdadeira guerra civil virtual entre perdedores e vencedores, transpondo o limiar de fakes e fofocas, para ingressar no campo ideológico e agressão moral e física.

Pode-se dizer que a eleição do Presidente do Brasil. Jair Bolsonaro, bem como seu governo, provocou um divisor de águas nas redes sociais entre partidários da ideologia liberal-democrata e os da ideologia socialista de várias colorações: os primeiros, favoráveis ao Presidente e os segundos contra. Estes últimos atacam sistematicamente o presidente e seu governo e os favoráveis defendem-se justificando os atos do Presidente. Já se perdeu a neutralidade da análise e os dois lados se engalfinham numa luta de destruição do adversário.
A análise poderia abranger vários enfoques como econômico, educacional, política externa, ações sociais entre outras. Devido à presença de Bolsonaro à reunião da ONU e sua fala inaugural, destacamos alguns tópicos como protótipos de divisores político-ideológicos. O discurso presidencial privilegiou a Amazônia. 

Atacou a internacionalização, defendeu a soberania, acenou para a integração indígena, condenou a globalismo socialista e defendeu a cooperação. Atacou o interesse estrangeiro dizendo que sua presença na Amazônia não é para defender o índio, mas interesse pelas riquezas.
E o ataque à politica ambiental de Bolsonaro serviria, como exemplo,  é utilizar-se de argumentos colocados na boca do Cacique Raoni Metuktire afirmando que:  
- os índios seriam povos originários da floresta;
- seriam portadores de sabedoria ancestral;
- preveriam o futuro da natureza e humana;
- grande tradição da humanidade (espíritos, vida, floresta, rios e toda natureza);
- implantariam uma nova cosmologia e biologia etc

Os partidários de Bolsonaro se perguntam: é possível um índio filosofar desse jeito, usando argumentos de uma filosofia oriental? E acrescentam:
- Os presidentes antecessores eram socialistas, desviaram milhões de dólares, comprando parte da mídia e parte do parlamento;
- O objetivo último seria vencer a eleição, instalar um poder absoluto e totalitário
- A previsão não se cumpriu e por isso estão inconformados por que foram julgados e punidos.

O que acontecerá se os espíritos não se apazigarem e a paz não voltar? 





sábado, 5 de outubro de 2019

A ÉTICA ESPIRITUALISTA DE ANTÔNIO PEDRO DE FIGUEIREDO. Tïago Adão Lara - Professor aposentado da UFU – Uberlândia – MG – Brasil



Parece esclarecido, para os pesquisadores do pensamento brasileiro, que a reflexão filosófica, de caráter já genuinamente nacional, configura-se a partir da nossa independência política, nos inícios do século XIX. Tivemos, sim, ensino de filosofia e produção de obras, consideradas filosóficas, no período colonial. Tudo, porém, como reflexo da vida cultural da metrópole, e nos moldes da segunda escolástica, interpretada e vivenciada segundo ditames da contrarreforma. O surto moderno de renovação cultural, que a partir do Renascimento começara a configurar-se na Europa, e que alcançou Portugal na época do Iluminismo, sob o governo do Marquês de Pombal, teve atuação bastante restrita e, entre nós, foi de pouca ressonância.
A independência política do Brasil, contudo, evidenciou, de maneira até aguda, as urgências de repensar a convivência nacional. A própria dinâmica histórica, que levou o país à autonomia, operou-se já sob a influência de outro clima cultural, aquele que resultou na Revolução Francesa e na Independência americana.
A Igreja Católica que, em Portugal e no Brasil, de parceria com a monarquia portuguesa, se constituíra instância última de definições e de transmissões de valores, encontrou-se, na época, num período crítico. De um lado, as autoridades de Roma cobravam remodelação geral da vida eclesial, exigindo uma independência com relação ao Estado, em favor da igreja; independência desconhecida, até então, no mundo ibero-americano. De outro lado, urgia a formação de uma eliteclerical, afinada com a política ultramontanista de condenação da modernidade, considerada negação de toda ordem cristã. Um impasse se criava e era preciso contornar a situação difícil.
Da reflexão filosófica se pedia, então, aquilo que já vinha acontecendo na Europa, ou seja, bases sólidas, para uma concepção eticopolítica, não mais dependente dos ditames da fé cristã, mas baseada na luz natural na razão.                  Nesse impasse ideológico e nesses inícios de recomposição institucional dos poderes religioso e político, no Brasil, é que surgiu, entre nós, a corrente eclética de pensamento, ou melhor, a tendência eclética em filosofia. Ela tem uma história longa, no Ocidente. Emerge no mundo greco-romano, após o período áureo da reflexão filosófica, no mundo helênico. Pleiteou, então,constituir-se como resultado da escolha seletiva do que de “verdade” se encontrava, nas várias correntes filosóficas existentes. No século I d.C. Potamon de Alexandria dava a seu pensamento o nome de ecletismo. Outros pensadores, sem adotar o nome, aceitaram sua metodologia. Antíoco de Ascalón, mestre de Cícero, pertencente à Nova Academia, tentou superar o ceticismo da Escola, apelando para o antigo dogmatismo platônico. Para afirmar algo como provável (afirmação da Nova Academia) urge um critério de verdade que, para Antíoco, é a concórdia entre os filósofos. Na Idade Média, vários autores cristãos são considerados ecléticos, como é o caso de Justino, Clemente, Orígenes e Lactâncio. O critério que comanda, para eles, a escolha seletiva das verdades filosóficas a admitir é, em última instância, a concordância com, ou a possível adequação às verdades por Deus reveladas.
Essa tradição adequava-se com a situação nacional. A formação cristã da nação brasileira era por demais arraigada e evidente, para se pensar uma elaboração cultural toda outra, desconsiderando séculos e séculos da história luso-brasileira. Por outro lado, fortes e evidentes se tornavam também os apelos para a abertura às doutrinas que estavam fazendo a glória dos progressos modernos e constituíam fundamento de um mundo novo.
A tendência eclética entre nós tentou, pois, uma conciliação entre as bases cristãs da cultura brasileira, herança de tradição lusitana, e a necessidade de um avanço. Filiou-se, assim, ao movimento francês de pensamento, ligado a Hegel, através do historicismo de Cousin e Jouffroy. A problemática ética encontra-se no centro das preocupações dos ecléticos. Os motivos são bem claros, como tentamos elucidar, no início da nossa fala. Para a construção de um Estado sólido, urgia a solução de um impasse criado pelo surgir de nova perspectiva histórica, diante da antiga, originada e defendida no Cristianismo. O gancho que permitia reencontrar, em bases racionais e, até, com certa pretensão de cientificidade, a dimensão ética e religiosa da existência humana colocara-o Maine de Biran. Inicialmente ligado ao materialismo de Condillac, Maine de Biran, como afirma Henry Goutier, em Dictionnaire des Philosophes, evade para uma posição prepositivista, afirmando a aderência aos fatos, mas, ao mesmo tempo, reconhecendo a existência de um sentido íntimo de apreensão do mundo da vida, especificamente humana, como capacidade de ter iniciativa de ação. Escreve Goutier: Maine de Biran constata que na (expressão) eu sinto, o eu que se afirma como o que sente é um sujeito ativo, cuja gênese não pode se encontrar a partir de sensações passivas, ligadas ao mundo dos objetos. A consciência do eu emerge de um “sentido intimo” que, por sua vez, emerge com o “sentimento do esforço motor voluntário”; assim, eu quero levantar o braço: a iniciativa vem de mim (vontade) e ela provoca um movimento, em meu corpo (motricidade). Duas vidas, portanto: a vida animal, essencialmente passiva...; a vida humana, essencialmente ativa, a do sujeito que toma a iniciativa, mas de um sujeito não separado do seu corpo, já que suas iniciativas desencadeiam movimentos; meu corpo é, então, enquanto corpo, objeto dado pelos sentidos externos e estudado pelas ciências da natureza, enquanto meu (corpo) ele é conhecido a partir do interior e participa da subjetividade.
A esse gancho agarraram-se pensadores brasileiros. Em A filosofia brasileira de Antonio
Paim, editado em Lisboa em 1991, lê-se: a familiaridade com a doutrina da Escola Eclética é alcançada graças a ida a Paris, nos anos 30 (do século XIX) de dois jovens, em busca de uma alternativa tanto para o sensualismo, com quem se tinha familiaridade, como para o espiritualismo renascente, mais afeiçoado com o ciclo da denominada Escolástica decadente.
Os dois jovens foram: Domingos José Gonçalves de Magalhães, do Rio de Janeiro, e Salustiano José Pedrosa, da Bahia. Na França tornaram-se, os dois, discípulos de Theodore Jouffroy, “cujo magistério Magalhães exalta em correspondência com Monte Alverne, desde que se revela digno sucessor de Royer Collard e último discípulo de Cousin”. Em Pernambuco, as ideias de Cousin tornaram-se conhecidas, de maneira mais fundamentada, pelo fato de Antônio Pedro de Figueiredo ter-se dado ao trabalho de traduzir e publicar, em um volume, em 1843, a obra de Victor Cousin, intitulada Introdução à história da Filosofia e, logo em seguida, em dois volumes, o Curso de História da Filosofia.  Escreve: “Em Pernambuco, Antônio Pedro de Figueiredo reúne, em seu derredor, diversos intelectuais e, em pouco tempo, a única opção com que se defrontará será a tradicionalista”.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Tiago Adão Lara. José Mauricio de Carvalho – UNIPTAN e UFSJ





Faleceu na quinta-feira passada, dia 26 de setembro de 2019, o Prof. Tiago Adão Lara, pesquisador, filósofo, teólogo e estudioso da filosofia brasileira. Era natural de São Tiago – micro região de São João del-Rei. Nasceu em 24 de maio de 1930. Fez os estudos de filosofia no Seminário Salesiano de São João del-Rei e, no exterior, teologia em Turim entre 1953 e 1957 e especialização em filosofia na Universidade de Louvain, Bélgica (1971). Retornando ao Brasil tornou-se professor da Faculdade Dom Bosco de Filosofia, Ciências e Letras, mantida pela Congregação Salesiana. Concluiu o mestrado na PUC/Rio em 1976 e o doutorado na Universidade Gama Filho/Rio em 1982.
As informações fundamentais dessas referências encontram-se em Contribuição contemporânea à História da Filosofia Brasileira (Londrina: EDUEL, 200, 605 p.). O comentário sobre as ideias de Tiago Lara está no capítulo 3, item 5, letra p.
Em 1981 ingressou, por concurso, no Corpo Docente da Universidade Federal de Uberlândia, jubilando-se em 1991. Desde então transferiu-se para Juiz de Fora, onde se tornou colaborador do programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora, como professor visitante. Trabalhou também no CES – Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora, onde lecionou filosofia na graduação e filosofia da educação no programa de Mestrado em Educação.
Seus interesses de pesquisa eram a filosofia brasileira e história da filosofia ocidental. Seus trabalhos mais importantes na área da filosofia brasileira são (CARVALHO, 2001, p. 360): “As raízes cristãs do pensamento de Antônio Pedro de Figueiredo (1977), Corrente eclética na Bahia (1979), Pombal e a cultura brasileira – em coautoria e Tradicionalismo católico em Pernambuco (1988). Como historiador da filosofia ocidental publicou: A filosofia nas suas origens gregas (4. ed. 2001), A filosofia nos tempos e contratempos da cristandade ocidental (1999), A filosofia ocidental do Renascimento aos nossos dias (7. ed. 2001). Tiago publicou ainda o polêmico livro A escola que não tive... o professor que não fui (2. ed. 1998) e um importante trabalho de teologia intitulado Experiência da finitude e apelo de transcendência parte do livro A sedução do sagrado (1998). Além desses trabalhos maiores publicou mais de vinte artigos em revistas especializadas, dos quais os mais significativos são: O pensamento de Vicente Ferreira da Silva em dialéticas das consciências e O republicanismo autoritário no Brasil, ambos na Revista Brasileira de Filosofia, fascículos 99 e 103 respectivamente, Humanismo e cultura (1989) e Universidade, cultura e religião (1988) na Revista Educação e Filosofia. As comunicações e conferências em Congressos acadêmicos somam mais treze trabalhos já publicados.”
Há outras referências importantes sobre Tiago Lara no item que lhe dedicou Antônio Paim em O estudo do pensamento filosófico brasileiro (2. ed. de 1986) e o verbete do Dicionário Biobibliográfico dos Autores Brasileiros da Coleção Básica Brasileira do Senado Federal (1999).
Como já foi assinalado, na condição de (id., p. 361): “historiador da filosofia, Tiago não se limitou a relatar a evolução do pensamento filosófico no ocidente. Ele fez também isso com precisão e cuidado, atualizando e revisando seus textos em edições sucessivas. No entanto, o projeto de Tiago foi muito mais ambicioso, ele pretendeu relatar os caminhos da razão no ocidente, mostrando como essas referências teóricas foram importantes nos acontecimentos humanos, porquanto marcaram o modo como o homem se pensava em diferentes momentos de nossa história.
Quando olhamos a cultura ocidental contemporânea muitas vezes perdemos de vista a sua historicidade. Os livros de Tiago nos recolocam no clima certo, mostram um pouco do processo formativo que fez do ocidente o que ele é hoje, uma civilização baseada nos ensinamentos cristãos, na organização jurídica romana e na compreensão racional da vida principiada na Grécia Antiga. Ele explicou porque para a formação do ocidente muito contribuíram a paidéia grega e a mensagem evangélica. Paidéia é uma forma de sabedoria que dá sentido à existência e no mundo grego encontrou na filosofia sua expressão mais vigorosa. A sabedoria evangélica também contém um tipo de conhecimento especial, oferecendo elementos para organizar e ordenar as ações humanas. Esses elementos foram combinados no principiar da história desta parte do mundo que denominamos de ocidente cristão, cuidando o nosso pensador de restringir suas considerações a uma parte do que foi elaborado pelo espírito humano. O legado oriental, ele fez questão de indicar, não foi examinado com maior cuidado.”
Como pesquisador da filosofia brasileira fez sua dissertação de mestrado sobre Antônio Pedro de Figueiredo. (id., p. 364): “Ao avaliar desse modo a filosofia elaborada por Figueiredo, Tiago precisou o modo como o ecletismo aproximou-se da mensagem cristã em nosso país. Ele também deixou claro que a solução encontrada pelo ecletismo mostrou-se frágil quando levada para o terreno moral. Melhor dizendo o tradicionalismo pretendeu fundamentar o que o ecletismo não conseguiu: a moral social. Coube então ao tradicionalismo suprir-lhe as deficiências”.
O estudo sobre o tradicionalismo foi sua tese de doutoramento (id., p. 361/2): “Tiago precisou as características assumidas pelo tradicionalismo em Pernambuco e, ao fazê-lo, ajudou a entender o movimento. No seu entendimento, o tradicionalismo pernambucano revelou-se pouco preocupado com os problemas sociais e econômicos, concentrando sua atenção na reforma moral da sociedade conduzida pela Igreja. Isso significava uma rejeição do projeto liberal de constituir uma ordem social laica. De uma perspectiva filosófica aceitam as teses básicas dos tradicionalistas europeus, especialmente as ideias tomistas. De uma ótica religioso-eclesial mostram-se partidários incondicionais do Pontífice Romano e voltados para as orientações de Roma. Para Tiago isso representa um desconhecimento do movimento histórico, pois essa ordem não mais tinha meios de ser mantida. No campo político negam a origem contratual da sociedade, entendem como imperfeita e limitada toda autoridade humana, apostando na origem divina do poder.
A exata localização histórica do movimento foi feita como se segue: constitui-se o tradicionalismo em Pernambuco (...) num movimento católico, leigo, conservador, pós-eclético e pré-neo-escolástico (LARA, Tiago. O tradicionalismo católico em Pernambuco, Massangana,1988, p. 142).
Tiago foi também um notável teólogo e deixou vários textos nesse campo. Para ele a experiência de Deus é concreta, não é uma especulação pura, abstrata e teórica, mas (id., p. 367): “nasce da vida humana concreta, das circunstâncias presentes e no horizonte da cultura. Somos temporalidade e qualquer referência a Deus não pode superar esse fio do qual somos tecidos. Por isso, Deus, por mais transcendente que o possamos conceber, revela-se para nós na sofrida imanência da vida dos povos e de cada um de nós.
As meditações de Tiago sobre Deus revelam um compromisso com os altos ideais que seguem a existência do homem e, nesse sentido, iluminam e dão visibilidade ao seu trabalho de historiador da filosofia e de filósofo.
Pelo acima indicado, os estudos de Tiago Lara constituem um capítulo importante de nossa compreensão dos problemas suscitados pela filosofia brasileira e das soluções que ela encontrou para eles. Essa assertiva é especialmente válida se nos deparamos com o modo como foi apreciada a herança cristã, que é uma das características fundamentais de nossa origem cultural.”


sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Viktor Frankl e seu olhar para o homem.José Mauricio de Carvalho



O psiquiatra e filósofo Vitkor Frankl acolheu dos filósofos da fenomenologia a ideia de que o homem é constituído como corpo material, com função vital-psicológica e dimensão espiritual. Ele trabalhou esse entendimento a partir do pensamento de Nicolai Hartmann e, especialmente, de Max Scheler. Isso lhe permitiu pensar um humanismo que reconhecia a insuprimível realidade do espírito. Essa questão teórica teve importância prática ao tratar o sofrimento psíquico separado de outras dores oriundas do espírito. E compreender, adicionalmente, que essas últimas, embora não sejam da mesma natureza dos primeiros, produzem sofrimento psíquico ou os agrava.

Os quatro estratos mostram o homem completo: matéria – vida – consciência – espírito ou sinteticamente corpo vivo e consciência espiritual. Descrever assim o homem abre a visão do que ele seja. Os estratos se superpõem de modo que com a descrição fenomenológica (FRANKL, 2017 c, p. 69): “é somente no espaço do corporal-psíquico-espiritual que o humano vem à tona pela primeira vez.”  Descrever a realidade desse modo evita uma visão unilateral do homem. Evita que se reduza o sujeito a impulsos, instintos ou mecanismos fisiológicos próprios de quem fica no funcionamento corporal ou dele faça um espírito desencarnado.

Ao descrever a vida humana com esses quatro estratos e verificar que eles são irredutíveis, os fenomenólogos ratificaram que o espírito não pode ser explicado por outro estrato. E mais, nota-se que o espírito é o estrato responsável pelo pensamento lógico e a compreensão consciente do mundo. No entanto, o homem não apenas está no mundo como um objeto entre outros. O espírito não apenas compreende, mas está na raiz das escolhas, o que leva os fenomenólogos a dizer que o espírito é a base da liberdade. Uma liberdade limitada ou circunstanciada é fato, mas ainda assim uma liberdade. Esse aspecto reconhecido empiricamente por todas as pessoas serve como contraposição para a ideia de que o homem é resultado de processos que podem ser descritos pelas ciências naturais, como fizeram psicanalistas e outros cientistas. Nessas reduções o homem é visto como nada mais que (LUIJPEN, 1973, p. 184): “uma coisa, visto que se pode afirmar, em sentido estrito, ser ela o resultado de processos e forças”.

 Logo, nesse esquema, o espírito é sede dos valores e do sentido, sem anular a força dos impulsos do psíquico. O espírito, para Frankl, encontra-se acima dos outros estratos e permite orientá-los, nele se situando o sentido existencial. Desse modo (KRETSCHMER, 1990, p. 63): “A filosofia do sentido se encontra imediata e inseparavelmente vinculada a filosofia dos valores. Ocorre que só valores podem dar sentido à vida.” É por isso que escolhas envolvem elementos espirituais. O tema da responsabilidade ganhou importância em nosso tempo, pois perdeu força na sociedade de massas, atraindo a atenção do filósofo e do cientista. Da perspectiva psicopatológica, Frankl observou que a descrição fenomenológica do homem por estratos permitiu diferenciar os transtornos psíquicos dos nascidos na esfera espiritual.




quinta-feira, 19 de setembro de 2019

"Mais uma estrela brilhante Na bandeira do Brasil". Selvino Antonio Malfatti





Os estudiosos da cultura rio-grandense, como Simon Schwartzman,  acham que não era só a questão política que fez o Rio Grande rebelar-se contra o resto do país na Revolução Farroupilha. Havia um sedimento cultural que amalgamava uma identidade própria.
Aquela parte do Rio Grande que se estende ao longo da fronteira, no Pampa, teve uma formação diferente. Ao mesmo tempo em que marcava as fronteiras com os castelhanos, recebia deles fundamental influência. Era uma permuta de uma via de duas mãos. Os estancieiros eram, ao mesmo tempo, povoadores de terras e soldados. Rechaçavam qualquer tipo de tentativa de invasão, ao mesmo tempo formavam com eles uma irmandade.
Formou-se um linguajar próprio, quase uma língua, popularmente denominado ”portunhol”, que é uma síntese do português com o espanhol.  Constituem-se com sotaque diferente, palavras mescladas, palavras próprias. Quanto mais se aproxima da fronteira com uruguaios e argentinos, mais aumenta as idiossincrasias entre gaúchos de lá e de cá.
Quem percorre o Rio Grande ficará admirado pela quantidade de tradições que o fundamentam. O Tradicionalismo perpassa o modo de ser próprio do habitante do rio grande. Pode-se-se dizer que o relicário do tradicionalismo gaúcho é o Centro de Tradições gaúchas - CTG. 
O gaúcho possui danças próprias, vestimenta própria, utensílios próprios, maneira própria de fazer. O tratamento é pelo pronome “Tu” e não “você” como no resto do Brasil.
Gosta de se apresentar de peito aberto, isto é, sincero. Dificilmente usa palavrões. Trata a mulher com muito respeito, chamando pelo termo carinhoso de “prenda”. Perante a mulher o gaúcho se considera “peão”.
O gaúcho ama seu solo, o chama de rincão, e, como o quero-quero, está sempre pronto a defendê-lo. 
Não é briguento, mas “não leva desaforo” para casa. Em parte se pode dizer que é fanfarrão, mas só a primeira vista. Por tudo isto, comemora com prazer e espontaneamente o Dia 20 de Setembro.
Em cada recanto do solo riograndense há um CTG. Neles, desde a mais tenra idade, os participantes, meninos e meninas, aprendem os valores: a honradez, o respeito, a sinceridade, a solidariedade. A família, a religião e propriedade alheia são considerados sagrados. Dificilmente um membro de CTG se desorienta do caminho cívico.  O CTG é uma instituição tão calcada nos princípios da cidadania que outros estados estão adotando com entusiasmo como Santa Catarina e Paraná. Há perspectiva de Mato Grosso também adotar.
Neste dia, 20 de Setembro, os gaúchos celebram A Revolução Farroupilha, fato este ocorrido de 1835 a 1845, no atual estado brasileiro do Rio Grande do Sul.
Logo após a independência do Brasil – século XIX – tem início uma série de Revoluções cada uma delas reivindicando algo específico que vai desde maior autonomia até a independência. Neste contexto surge a Confederação do Equador, a Cabanagem, Sabinada, Balaiada e a Revolução Farroupilha.
Esta só em parte é semelhantes às demais revoluções da época, pois os Farrapos tinham um ideal claro a ser atingido. É conhecida mundialmente, como atesta o escritor italiano Umberto Eco que lhe dedica várias páginas no livro O Cemitério de Praga, inclusive convolvendo heróis italianos e rio-grandenses, e narrando façanhas de Guerra dos Farroupilhas.
A Revolução Farroupilha se destaca das demais pela sua peculiaridade. Os farroupilhas tinham um Estado organizado com:

- uma constituição
- uma assembleia e um presidente eleitos
- uma capital
- símbolos estatais
- embaixadores para manter relações diplomáticas
Esta república manteve-se independente por 10 anos voltando ao seu antigo Estado brasileiro através de um convite pacífico do Duque de Caxias.
Por tudo isso, o gaúcho é brasileiro por convicção e por opção.



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O ESPÍRITO DA REVOLUÇÃO CUBANA. Selvino Antonio Malfatti.





Acabo de ler o livro A TRAGÉDIA DA UTOPIA, de autoria de Percival Puggina. (A tragédia da Utopia. Santo André, Armada, 2019).

Este livro tem uma característica especial: o autor quis ver in loco a exaltada revolução em Cuba. Em linhas gerais a revolução cubana é mais uma revolução socialista que se propõe botar a baixo o Velho e instituir o Novo. Uns a enaltecem aos céus e outros a condenam às profundezas do inferno. Puggina, porém, não se contentou. Foi buscar in loco o peculiar da revolução cubana. Viajou para Cuba, instalou-se no hotel, fazia refeições em restaurantes, ouvia pessoas, conversava com elas, embora elas nunca se abrissem de verdade, lia o jornal Granma. Observou como trabalhavam, vendiam, compravam, trocavam. Inseriu-se na realidade. Viveu o pós-revolução. Sentiu-a na pele. 

ComoTocqueville que foi procurar a alma da Revolução americana do século XIX, e a descreveu na Democracia da América, Puggina foi testemunhar a verdade da revolução cubana, e a expressou na "Tragédia da Utopia". E o que achou?  A revolução,para a população, um discurso cheio de promessas, idealistas, pílulas douradas com o engodo de mentiras. Para os opositores, a execução no paredon. Perante a opinião pública, retórica filantrópica. para os opositores, diante de qualquer suspeita, execução sem dó nem piedade. Este é o espírito da revolução: ternura retórica e crueldade real.

1.    Líderes da revolução. Os principais líderes da revolução foram: Fidel e Raul Castro e o argentino Che Guevara, e não muitos outros. O poder não se dividia.

- Fidel e Raul Castro. Encarnaram como ninguém o espírito da revolução: retórica e crueldade, travestidos de piedade e ódio. Jactavam-se de salvadores, protetores do povo, mas na prática, tiranos  ávidos de derramamento de sangue. Como destaca Puggina, ainda no torvelinho da revolução, Fidel Castro dirige-se ao povo, mais precisamente às mães, garantindo-lhes que haveriam de resolves todos os problemas sem derramar uma gota de sangue, sem disparar um só tiro. No entanto, a prática evidenciou um comportamento inverso: execuções sumárias, “paredon” para opositores. Oficiais e soldados fuzilados, como no quartel de Moncada, Em la Cabaña 55 foram mortos no paredon. O presente para as madres mais de 500 mortos. Chefes e líderes do regime anterior executados em transmissões ao vivo. Convocavam o povo e pediam aclamação pelas mortes, considerando-as legítimas. E anunciavam perante a opinião pública mundial de ter “a consciência e as mãos limpas de sangue”. Os julgamentos tinham como único critério: justiça de tribunais revolucionários.
Calcula-se que o saldo de mortos na revolução cubana tenha sido aproximadamente de 100 mil.


- Che Guevara.  "É preciso endurecer mas sem jamais perder a ternura:  hay que endurecerse, pêro sin perder Ia ternura jamás," O invólucro de Guevara é digno de um nicho de santo. É acolhedor, afável, palavras ternas e macias. No entanto, nada disso habitava seu interior. Nele habitava o ódio, a insensibilidade, a frieza sem compaixão. A afirmativa de Hannah Arend a respeito do carrasco nazista Adolf Eichmann de que o mal para ele é banal, em Guevara é pior, pois para ele o mal é válido, digno de admiração tanto quanto o bem. Por isso o aclamado herói Guevara, está destituído de qualquer sentimento humano,de remorso, pratica as execuções sumárias, mostrando prazer e orgulho disso.

2.    Admiradores
Sempre que surge algo novo pululam admiradores ávidos de novidades. O Evangelho chama de prurido da novidade. Não deixou de ser com a revolução cubana. Além disso, foi  uma revolução socialista na América podendo ser vista ao vivo e a cores com a possibilidade de ampliar à vontade.
Um dos expoentes máximos de admiração pela revolução no Brasil foi o Cardeal D. Evaristo Arns que chama Fidel de “queridíssimo” e que vê nas conquistas da revolução “sinais do Reino de Deus”.  

Mas ninguém supera o frade Frei Beto em “O Paraíso Perdido”.  Para ele se cumpria a escatologia: surgia, afinal, o Homem Novo, um misto de ternura e crueldade: “O homem novo deve ser filho espiritual do casamento entre Che Guevara e Santa Teresa de Jesus”. O fruto do psicopata sanguinário Che Guevara e a caridosa Santa Teresa. Isto saiu da boca de um religioso. Salta aos olhos o ideal dos revolucionários e admiradores de Guevara. Sem o mínimo de razão crítica associam a santidade à morbidez. Isto dito por um religioso professante da teologia da libertação e apoiado por religiosos e intelectuais, na sua maioria de católicos. Aplaudido pelo público, diria Puggina: “Eu não tenho dúvidas de estes aplausos foram muito mais orientados ao revolucionário Guevara do que à grande santa de Espanha...” E conclui: “QUEM LHE APARECER LOUVANDO O REGIME CUBANO, OU VIVE NUMA CEGUEIRA IDEOLÓGICA, OU É UM PARVO QUE TEM DOIS OLHOS E SE DEIXA CONDUZIR POR CEGOS.”







sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Considerações sobre a liberdade humana. José Mauricio de Carvalho



Dizer algo da liberdade significa descrever uma experiência de todo homem. O ponto de partida parece ser o seguinte, liberdade não é redutível a outra dimensão da vida e se trata de algo que empiricamente verificado. Sem muita especulação sabemos que podemos ou não realizar uma viagem, e se for uma viagem de férias escolher um ou outro destino. Podemos escolher tomar uma cerveja ou não. Portanto, liberdade traduz uma experiência simples que todo homem faz de que ele pode dar caminhos diferentes para sua vida. Se vida, como diz o filósofo espanhol Ortega y Gasset, é o que se faz, liberdade significa que se pode fazer as coisas de mais de um modo. Portanto, se trata de uma realidade comum para as pessoas.
A simplicidade com que podemos reconhecer a liberdade não nos livra de mergulhar em questões difíceis quando se trata de explicar teoricamente no que ela consiste, tanto porque o homem depende de processos que são biologicamente determinados, sofre limitações na forma de expressar e viver seus afetos, quanto encontra limites sociais em sua ação. A liberdade não é exterior ao ato de escolher, de fazer surgir, em nossa existência, uma realidade diferente da que já se tem, mas isso só se realiza dentro de limites. Portanto, a primeira coisa a se fazer quando se pensa a liberdade é não contrapor a possibilidade de se fazer tudo o que se quer às dificuldades decorrentes dos condicionamentos presentes no dia a dia. Não se trata de afirmar a autonomia contra os limites, nem de, devido aos condicionantes da circunstância deixar de admitir a realidade da liberdade.
As diferentes concepções antropológicas que se desenvolveram no ocidente reconhecem essa situação, mas realçam aspectos diferentes dessa realidade, umas supervalorizando as possibilidades de escolha, outras realçando os limites da vida emocional ou a circunstância social. Posições como a de Sartre estão no primeiro grupo, outras como a de Freud destacam os limites estabelecidos inconscientes da vida mental e há aqueles, como Marx, que supervalorizam os limites da realidade social e econômica.  
  Considero que a supervalorização de um ou outro lado não é a melhor forma de tratar o assunto. A liberdade humana é possibilidade de escolha que dentro de limites. O corpo do homem atende a processos e seus instintos o instigam numa direção, mas ele tem no pensamento uma possibilidade real de orientar esses aspectos. Os limites sociais são reais, mas há sempre um espaço de escolha nessa circunstância. Filósofos como Ortega e Psiquiatras como Frankl e Jaspers destacam que o homem possui uma dimensão animal que lhe limitam o caminhar, mas destacam a capacidade humana colocar perguntas, transcender as situações e de modificar a circunstância. A ação do homem transforma o mundo. Dito de outro modo, mesmo reconhecendo as necessidades, processos, forças condicionantes e limites da dimensão social, ele pode ir além dessas medidas por sua condição decisional. Dessa forma ele supera o seu modo de ser coisa.  
Autores como Frankl, Ortega y Jaspers destacam que a liberdade se relaciona com o modo como a pessoa vive o sentido de sua vida. Sentido que ela precisa descobrir no seu núcleo mais íntimo para o espanhol ou no inconsciente espiritual para Frankl.  Assim, as escolhas que concretizam a liberdade passam pelo plano intelectual e emocional, pois o homem escolherá a partir desses dois aspectos, já que ele não é nem só uma coisa e nem outra. Frankl entendeu que, em relação as questões emocionais, há uma dimensão inconsciente, porém é a espiritual a que move a outra, governada por pulsões.
Assim o assunto é complexo e envolve muitas variáveis e dificuldades.
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