sexta-feira, 5 de abril de 2019

A DEMOCRACIA COMO CONVIVÊNCIA ALÉTICA. Selvino Antonio Malfatti.






Uma convivência política não precisa necessariamente ser regida pela Verdade absoluta, mas não pode prescindir da verdade alética.  As duas verdades podem estar não sintonizadas. Um exemplo ilustra.  Na cena entre Pilatos e Jesus. O primeiro queria se livrar de um inocente inoportuno e lhe diz que pode livrá-lo ou condená-lo. Falou uma verdade ética. Jesus responde que se conhecesse a Verdade...Jesus estava falando da Verdade. Pilatos responde o que é a verdade? A de Jesus é a Verdade, a de Pilatos é a verdade aleteia. A Verdade absoluta é uma só, as verdades da aleteia podem ser múltiplas. Por isso Pilatos perguntou o que é a verdade: de Jesus, dos sacerdotes judeus, de Barrabás? 

A Verdade absoluta pertence à dimensão religiosa, e por isso não está aberta à discussão. Existem concepções filosóficas que se arvoram de Verdades, também não se discutem por que são dogmáticas. A verdade como aleteia está no convívio humano, e por isso é ética.

Como diria Platão: verdadeiro é dizer as coisas como são; falso é dizer como não são. Mais explícito Aristóteles que diz que negar aquilo que é e afirmar aquilo que não é, é falso; mas negar aquilo que não é, e afirmar aquilo que é, é verdadeiro. Mas o quê que é? O que não é? É verdade aquilo que tenho convicção que é? E se minha convicção estiver errada, mas penso que esteja certo? No meio grego não havia tradição de verdade absoluta, apenas a aleteia. 

Quando pensamos amiúde acontece que o conceito de verdade funciona de forma crítica em nossos pensamentos, ora criticando, ora raciocinando e discutindo. Colocamos uma pergunta forçando dúvida: “esta verdade pode não ser verdade, e se isto pode ser verdade então aquilo também é, e se as duas forem verdadeiras, então à qual daremos razão?” Durante muito tempo nos acostumamos a pensar numa única verdade, isto é, diante de proposições contraditórias somente uma é verdadeira. Seria a forma dogmática da verdade, a qual gerou e gera conflitos insolúveis. No entanto, não é a verdade que gera o conflito, mas a possibilidade de considerar o que não é de todo verdade ou confundir as opiniões pessoais como verdade. O conflito é originário de um discurso distorcido, com aparência de verdade, mas não verdadeiro ou, ao menos, não de todo verdadeiro.

No momento atual da convivência, na qual não se sabe o que verdadeiro e o que é falso, através da proliferação maciça de fake News, nos encontramos num ambiente, completamente desorientados. Não há mais ética que se detenha perante o verdadeiro e o falso. Falamos aqui do que externamos que pode ser verdadeiro ou falso. Não falamos do conhecimento científico, mas da verdade ética. Se eu for um heliocentrista e disser que o sol gira em torno da terra estou mentindo, embora cientificamente seja verdade. Se for geocentrista e disser que o sol gira em torno da terra, estou mentindo também.

A verdade ética só será verdadeira quando externo o que penso. E todo cidadão tem este direito e dever. De ouvir de outrem a verdade ética, evidentemente a científica também. E ele, pessoalmente, agir da mesma forma.Talvez seja este o maior direito dos cidadãos contemporâneos, isto é, o que ouvir do outro seja idêntico a um selfie de sua mente. Este é o direito à verdade ética. Pode ser desdobrado em diversas situações de e para cada um desde sua relação com os outros até sua relação com a mídia e todo sistema informativo. 

Vejamos:
1.    Informação. Este direito se refere a poder ser informado sem ser enganado. Se ler jornal, vir televisão, acessar internet possa ter a segurança de que a informação repassada não for falsa por parte de quem a dá.
2.    Educação. Esta deve ser crítica no sentido grego (Κριτήρια), isto  é, ter capacidade de discernimento do que for verdadeiro e do que for falso.
3.    Confiabilidade. Este direito se refere a ser reconhecido como fonte de credibilidade, além de não sofrer discriminação por qualquer condição: mulher, migrante, crente e outras.
4.    Fontes. Este direito se refere poder ter acesso a fontes confiáveis de informação com autoridade suficiente e neutralidade científica não submissa a interesses econômicos ou ideológicos.
5.    Ambiente. Ter o direito de viver num meio político-social aleteico, protegido por pessoas, instituições e leis que prezem a verdade na vida pública e privada.
6.    Cultura. A aleteia é também um ambiente cultural pelo qual o conjunto espiritual favoreça a verdade.
Nossa hipótese é de que a verdadeira democracia é a verdade no poder. Diante disso infere-se que a democracia não é propriamente as pessoas ou seus representantes, mas do que cada um e todos acreditam e sabem, ou forma como raciocinam e decidem com base no que sabem e creem ser a verdade. Por isso é crucial para a democracia que os cidadãos cheguem a um consenso de verdade. Se não se chegar a isso, não haverá democracia e, sim, guerra de opiniões e com ela desilusão e triunfo do erro.

sexta-feira, 29 de março de 2019

Viktor Frankl e a ressignificação do sofrimento. José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei.


Uma das grandes dificuldades da vida humana é enfrentar aquilo que os filósofos da existência denominaram situação-limite. Karl Jaspers, por exemplo, dirá que essas situações alcançam todos os homens entorno a temas dolorosos e que tocam a existência conferindo-lhe uma dimensão de fracasso. Ele se pergunta na Iniciação Filosófica, se tenho que morrer, que incorrer em culpa, ser tocado por difíceis possibilidades que não tenho controle, enfim se tenho que sofrer (JASPERS, 1987, p. 21): “que farei eu perante este fracasso absoluto e cuja intuição não me posso furtar se honestamente o apreendo?”.
O fracasso humano decorre não tanto do sofrimento em si, mas de não encontrar uma razão para o sofrimento, o que nos coloca no cerne do olhar de Frankl para o sentido. Uma das formas de chegar ao sentido é pelo entendimento do sofrimento. O sofrimento somente é suportável se ele possui algum sentido para quem sofre.
Uma das mais belas passagens do livro de Frankl A busca de Deus e questionamentos sobre o sentido é uma passagem em que Pinchas Lapide comenta uma passagem bíblica conhecida de todos. Refiro-me ao texto que está no evangelho de Mc 15, 34 que conta que estando Jesus em agonia na cruz, ele reza o Salmo 22: Eloí, Eloí, lemá sabachtani. Lapide esclarece que as palavras de Jesus não expressam dúvida, nem questionam Deus, mas é uma busca de sentido para o sofrimento na acepção que Frankl preconiza. Eis a explicação de Lapide (FRANKL, 2014, p. 144): “Em todas as traduções alemãs está escrito: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? A tradução hebraica diz o contrário: Meu Deus, meu Deus, para que me abandonaste? E a diferença são dois anos-luz. Porque o Por que tu me abandonaste vem de uma dúvida em Deus, ela questiona Deus, ela se volta para trás, ao passado, à motivação, enquanto a pergunta como foi formulada há três mil anos em hebraico e como Jesus certamente sabia, olha para o futuro, não questiona a Deus, mas sim lhe coloca a questão de como o sentido deste sofrimento com toda a certeza é pressuposto, mas que gostaria de descobrir por que ele me foi imposto.”
O que a discussão proposta por Frankl ensina é que o sofrimento, por si mesmo não ajuda ninguém, nem deve ser procurado, isso seria masoquismo. Logo, se o sofrimento por si mesmo não ajuda ninguém a alcançar o sentido, é preciso descobrir uma razão para ele quando nos atinge. E interpretando a explicação de Pinchas Lapide, Frankl diz (ibidem): “se eu entendi corretamente então a gente poderia dizer que se trata de uma pergunta dirigida a Deus, mas não um questionamento de Deus”. Assim, nesses dias de semana santa, a pergunta que Jesus dirige a Deus explicita a necessidade humana de significar o sofrimento. Jesus não tinha dúvida de que havia um propósito para seu sofrimento, o que ele não conseguira é entender adequadamente é a razão de Deus e é essa a pergunta que ele Lhe dirige ao rezar o salmo 22. Estamos diante de um questionamento do maior significado porque aponta para o futuro, a descoberta do sentido do sofrimento, o que representa uma referência importante para viver.

sexta-feira, 22 de março de 2019

FÍSICA E ESPIRITUALIDADE NO NOBEL MARCELO GLEISER. Selvino Antonio Malfatti.







O físico brasileiro Marcelo Gleiser recebeu no dia 19 de março deste ano, o prêmio Templeton, o Nobel da Espiritualidade, por suas pesquisas referentes às origens do universo, jungindo ciência e religião. Tem sessenta anos, carioca, professor da Dartmouth College, em Hanover, nos Estados Unidos.

Sobre a relação entre ciência e religião diz Marcelo gleiser:
"O caminho para a compreensão e a exploração científica não é apenas sobre a parte material do mundo, e minha missão é trazer de volta para a ciência e para as pessoas que se interessam por ciência, esse apego àquele mistério. É fazer as pessoas entenderem que a ciência é apenas mais uma maneira de nos envolvermos com o mistério de quem somos".

Apesar de agnóstico, não nega o espiritual, apenas acha que são se o atinge, afirma: “
"O caminho para a compreensão e a exploração científica não é apenas sobre a parte material do mundo, e minha missão é trazer de volta para a ciência e para as pessoas que se interessam por ciência, esse apego àquele mistério. É fazer as pessoas entenderem que a ciência é apenas mais uma maneira de nos envolvermos com o mistério de quem somos".

Na obra de Gleiser encontramos duas dimensões: uma física na qual lida com números, gráficos, cálculos matemáticos buscando decifrar o universo através da física e astronomia, outra espiritual, buscando respostas para o mistério e aí se vale da ajuda da religião. Diz ele:
“A gente sabe que só vê parte da realidade. Essa conexão com o mistério que nos cerca, para mim, é profundamente espiritual. Meu discurso tem todo um lado ecológico e social. Informa pela ciência, mas constrói uma nova moral do século 21 para salvar nosso planeta e nossa espécie”.
Tem em Einstein como fonte de inspiração tanto para o físico como para o espiritual. 

Revela:
“Eu me identifico muito com o que Einstein chama de ‘mistério cósmico religioso’. Essa urgência que temos de nos conectar. Isso é uma coisa que eu tenho, desde antes de ser cientista. Sou carioca, cresci indo da praia para as montanhas, vendo o céu estrelado. Dentro da ciência, em raros momentos da vida profissional você faz uma descoberta e, quando vê alguma coisa acontecendo na sua frente, você sente um frio no estômago. Você diz: ‘Caramba, eu consegui vislumbrar uma coisa que nem todo mundo conseguiu. Uau.’ 

É um momento que acontece, através da ciência mais racional, mas que leva para este sentimento”, É o que Einstein define como o sentimento cósmico religioso.”
Em que pese este lado religioso, declara-se ateu, isto por que não admite imiscuir religião onde não deve, isto é, ser fanaticamente religioso como querer implantar o criacionismo nas escolas, emblemar as salas de aula com bíblia ou crucifixo. Esta postura religiosa é privada e não oficial. 

Diz ele:
“Se sou ateu; se fico transtornado quando vejo a infiltração de grupos religiosos extremistas nas escolas, querendo mudar o currículo, tratando a ciência em pé de igualdade com a Bíblia; se concordo que o extremismo religioso é um dos grandes males do mundo; se batalho contra a disseminação de crenças anticientíficas absurdas como o design inteligente e o criacionismo na mídia; por que, então, critico o ateísmo radical de Dawkins? Porque não acredito em extremismos e intolerância. ... É essa crença ignorante que deve ser combatida; ... É a hipocrisia usada sob a bandeira da fé que deve ser combatida, não a fé em si”.

O lado humano de Gleiser pode ser encontrado no livro de sua autoria: A simples beleza do inesperado’, (Ed. Saraiva), enquanto o lado da física, cosmologia e espiritualidade, encontra-se em: Quantum questions: Mystical Writing of the World’s Greatest Physicists’ (‘Perguntas quânticas: escritos místicos dos maiores físicos’, sem tradução para o português). O livro O fim da Terra e do Céu, mereceu-lhe o Prêmio Jabuti.






sexta-feira, 15 de março de 2019

OS FALSOS AMIGOS DA DEMOCRACIA - DIREITOS SEM DEVERES. Selvino Antonio Malfatti.





Os franceses denominam palavras que parecem iguais de uma língua para outra, embora não sejam, de falsos amigos, faux amis. Por exemplo, em português temos a palavra “desculpe” e em inglês a palavra “pardon”. Quando quero dizer em inglês “desculpe”, não posso dizer pardon, mas “excuse me”. São falsos amigos. Da mesma forma, tanto em moral e mais ainda na política, existem falsos amigos. São falsos objetivamente, embora subjetivamente  muitas vezes de boa fé e podem prejudicar sobremaneira a causa que querem defender. É o que acontece atualmente com um dos princípios fundamentais da civilização e da política: é a igualdade de direitos e dignidade de todos: os homens brancos, negros, católicos ou muçulmanos, budistas ou não crentes, empresários e sem teto, estudantes classificados ou não, campeões esportivos e doentes terminais. Todos são iguais.

viralizou, e ainda continua, a foto de um ônibus lotado com senhora grávida de pé, mal se segurando e, ao seu redor, jovens comodamente sentados. Certamente tem razão quem diga que a igualde de direitos garante o assento a quem chega primeiro, mas a boa civilidade, aponta para outro rumo: o respeito.

Por qualquer motivo leiteam-se privilégios, contrariando a igualdade. O privilégio, só é aceitável numa democracia quando, e somente quando, por algum motivo excepcional alguém é limitado nas suas ações. Alguém possuir alguma deficiência física, mental ou psicológica e for destituído de capacidade. Pergunta-se, as cotas em universidades para negros, pardos, índios e outros, além de discriminar os do ensino privado, não estão ferindo a lei da igualdade? Qual o fundamento deste privilégio? Qualquer razão apontada, outros estratos sociais poderiam reivindicá-lo.

Atualmente os pais não podem mais exercer autoridade para seus filhos. Nem iguais mais são considerados. Os professores não tem mais hierarquia, nem com os alunos e muito menos entre eles. São todos iguais, mas aos primeiros o dever e aos segundos os direitos.

Os limites foram derrubados e a liberdade para tudo vale para os mais fortes. Pessoas que necessitam de descanso tem que suportar a zoeira promovida pelos jovens e adolescentes. No trânsito é a lei do mais potente, tanto carro como pessoa. Para eles tudo é liberado em nome da igualdade. Os filhos tem direitos, os empregados tem direitos, os alunos tem direitos. Ninguém mais tem regras, cobranças. Até réus se acham no direito de comandar o processo. Acham-se com direitos iguais aos juízes.
Símbolos não têm mais signos, disciplina e hierarquia é coisa de fascista. Baile funk, drogas, sexo na rua é cultura. Se a polícia for chamada para garantir os direitos dos prejudicados – crianças, idosos, deficientes e mesmo trabalhadores – é recebida com violência e considerado repressão.

Jogos eletrônicos onde vence quem fizer mais pontos atropelando velhinhas, matando policiais ou roubando familiares para comprar droga.

Infelizmente, esta é uma das causas da situação caótica da convivência dos cidadãos brasileiros, esquecendo-se de que a TODO DIREITO CORRESPONDE UM DEVER. E nisso está o fundamento da igualdade: direito e dever. Todos são iguais em direitos e deveres: pais, filhos, alunos, professores, autoridades.  Este é o caminho para sair da barbárie a que está mergulhada a sociedade. Em algum momento este binômio foi destruído. É preciso recolocá-lo novamente. E o pilar da sustentação é a autoridade. É por ela que devemos começar.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Universidade de pesquisa, a venerável instituição do ocidente.José Mauricio de Carvalho – Academia de Letras de São João del-Rei













A universidade de pesquisa, com liberdade de pensamento e de investigação, na qual professores e estudantes se associam na criação, aplicação e transmissão do conhecimento foi uma das grandes conquistas do ocidente. Ela se consolidou como instituição fundamental associada ao destino dos povos europeus quando o modelo alemão se transportou e foi assimilado em outros países.

A universidade, como instituição, existe desde a Idade Média, mas nos tempos modernos ganhou prestígio quando ajuntou o estudo da ciência com a tradição humanista. Em nenhum lugar ela atingiu esse objetivo com tanta qualidade, profundidade e prestígio como na Alemanha. Em nenhum lugar o seu cerceamento e perseguição a amordaçou tanto quanto na Alemanha de Hitler.

Essa instituição, que compromete o professor e o aluno de forma integral e livre, é um legado dos povos civilizados. Ela necessita receber alunos bem formados nas instâncias de base para alcançar os altos objetivos da formação humanística associada à pesquisa científica. Essa instituição foi modelo enquanto teve o nobre privilégio de poder viver na liberdade, seguindo regras próprias de funcionamento e aferição de qualidade, avaliando seus docentes e estudantes segundo deveres estabelecidos e pré-acordados. Essa instituição se perdeu de si mesma quando, durante o nazismo, o governo perseguiu e afastou docentes e alunos acusados de não colaborar e de não pensar com o sistema. Essa instituição somente voltou a ter reconhecimento quando pode novamente recuperar a liberdade. Foi então que pela qualidade do ensino oferecido contribuiu com a sua parte para a continuidade da tradição humanística e científica das nações livres do ocidente, depois de liberta dos nazistas e não mais fechada em si mesma, pode a universidade alemã se mirar na Universidade no Ocidente. Nessa tradição de liberdade, o campus universitário, tornou-se uma venerável comunidade de esforços, onde docentes e estudantes, na medida de suas limitações, esforçam-se para realizar a nobre missão que deles esperam a sociedade.

Em nosso país, onde temos um sistema público e privado, atuando de forma complementar, havendo pois espaço para os dois sistemas, fica na responsabilidade do sistema público, especialmente federal e de algumas estaduais, a tarefa de levar adiante mais diretamente a tradição ocidental da universidade de pesquisa. Seus resultados podem ser avaliados pela integração que mantém com as principais universidades do mundo. Não se pode perder de vista que também no ensino essas instituições têm excelentes resultados.

Ao lembrar essa tradição e a perseguição que sofreu na Alemanha a Universidade de pesquisa, que não foi diferente de outras experiências totalitárias pelo mundo, manifesto minha indignação contra manifestações repetidas nas redes sociais que reduzem o trabalho de nossas universidades públicas a formação ideológica dos alunos, o que não somente não é verdade como esconde um fato perverso dessa mentalidade grotesca. E o grotesco é o seguinte. Não se pode defender princípios humanitários, cuidado com o planeta, respeito aos direitos humanos ou qualquer boa causa, coisas com as quais o ocidente civilizado encontra-se comprometido há décadas, sem que isso seja, de pronto, associado a ideologia e desqualificado.

Triste tempos de ignorância das massas onde essas críticas não têm fundamentação adequada, objetividade desejada e a clareza requerida. A Universidade pública brasileira é uma instituição que está longe de ser perfeita, mas está mais longe de ser uma fábrica de ideologia, que forma cidadãos míopes, imbecis e inúteis. Muito ao contrário, formam-se nela os melhores quadros de cientistas e profissionais para nossa sociedade. E ainda, alguns comprometidos não com ideologias, mas com as boas causas da humanidade. Quanto a ideologias nela há de tudo.

sexta-feira, 1 de março de 2019

A ALMA DA EMPRESA. Selvino Antonio Malfatti.






O CAPITALISMO é um modelo econômico, jurídico, político, social e filosófico que, quando parece morrer e extinguir-se, rebrota sempre mais vigoroso. Até mesmo em países que o mataram e sepultaram, ressurge de suas próprias cinzas. Qual a explicação? São várias. Enumero apenas algumas:

1.    É considerado natural, isto é, imanente à natureza humana. Desde que o homem desceu das árvores e andou com suas próprias pernas, instituiu de modo consuetudinário a propriedade, limites da ação individual, obediência a autoridade, estruturas sociais e crença em algo superior a si mesmo. Estes princípios encontra-se em profusão entre os gregos, cuja síntese está no Discurso Fúnebre de Péricles, que invoca a vida, a propriedade, a igualdade em dignidade de todos.

2.    Mais eficiente. O capitalismo crê na supremacia da ação individual sobre a coletiva. Quem dirige sua própria empresa o faz com mais empenho do que um terceiro dirigindo o mesmo negócio.

3.    Autocorreção. Toda vez que necessita de mudanças acionam-se mecanismos internos que corrigem os desvios.

É precisamente sobre este segundo e terceiro aspecto que o livro de Antonio Caladrò versa: “A Empresa Reformista. Trabalho, Inovação, Bem Estar, Inclusão” (L’impresa riformista. Lavoro, innovazione, benessere, inclusione - Editora Bocconi).

O capitalismo, economicamente, abriga o princípio da livre iniciativa e consequentemente o empreendedorismo individual. Acompanha-o a contínua autocorreção e, por tabela, a reforma, a verdadeira alma do capitalismo.

Nos dias atuais qual a necessidade premente da empresa?


Certamente deixar de ser um ente frio e cínico. Um absente na comunidade. Uma empresa convive com seres humanos e deve se submeter aos valores superiores do humanismo. O modelo de empresa ausente aos problemas de seu meio não tem mais guarida, o chamado capitalismo selvagem. Com certeza vêm à mente aos leitores os desastres de Brumadinho em Minas Gerais e da boate Kiss de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Em ambas, a irresponsabilidade das empresas, causou centenas de mortos.


E não se diga que foi por acaso, um desastre natural. Em Minas Gerais teve como antecedente Mariana. Também não se diga que o acaso não poderá ocorrer no futuro. A KINROSS em Paracatu, Minas Gerais, tem 475 milhões de m2, Brumadinho tinha 12 milhões. Compoem seus rejeitos arsênico, cianeto e mercúrio. Se romper, por um século, vai matar a vida do São Francisco até a foz.

Uma empresa atualmente precisa inserir em sua gestão os valores humanos, em que pese estar na era digital e robótica. Deve prover o bem estar de seu entorno físico e social, em que pese ser, nacional, global ou multinacional. Uma empresa estrangeira não pode portar-se como estranha ao meio em que atua e não somente não prejudicar sua vizinhança, como promover seu crescimento. Sempre colocar-se numa posição de respeito às leis, costumes e valores locais e em nenhum momento prejudicar seus habitantes. Os rejeitos devem ter uma destinação não prejudicial à população e nem oferecer perigo para os moradores.

Em síntese:para uma empresa estrangeira, não fazer o que não faria em seu país.

Na questão do trabalho, a nova civilização empresarial necessita prementemente de engenheiros, técnicos, profissionais de padrão, mas juntamente de filósofos, sociólogos, psicólogos, dentro da ideia de que todos os homens são naturalmente filósofos espontâneos. Hodiernamente não faz mais sentidos o dilema entre o técnico-científico e o humanista. Isto por que no científico perpassa o humano e no humano a ciência. Atualmente relacionam-se na economia a robótica, a big data e internet das coisas com serviços hig-tec, pesquisa e cultura. Diz Caladró: “Na economia do conhecimento, o centro de gravidade continua sendo a indústria manufatureira. O coração permanece antigo”.

O núcleo do pensamento de Caladrò é a reivindicação de um capitalismo de modelo empresarial renovado, crítico, que desperte novas responsabilidades perante o mundo ambiental, social e político. Para competir com os mercados globais, deve inovar, sim, e para tanto precisa de pesquisa, de talentos e não atalhos e favores.


O empresariado atual deve alargar sua visão, deixar de praticar ou tolerar a corrupção, de renunciar a competição mesquinha, sair da corda bamba da mentira e falsidade. A empresa renovada deve premiar a cidadania de quem trabalha, estuda, se sacrifica, de quem  luta e não de quem fica em casa esperando que o Estado resolva os problemas sociais. A empresa renovada não quer o álibi da preguiça como desculpa pelo insucesso.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Martin Buber por José Maurício de Carvalho.



O filósofo Martim Buber (1878-1965) viveu a maior parte da vida no século XX. Embora tenha o olhar do filósofo e formação intelectual vasta, viveu no espírito da fé judaica na qual foi criado. A formação filosófica e essa crença religiosa são o pano de fundo de seu pensamento, mas Buber deixa ver, em seus escritos, os problemas que marcam o século passado e a sensibilidade própria daqueles dias.
Logo ele procurou dar resposta aos problemas de seu tempo: Buber viveu os dias difíceis das Grandes Guerras, da perseguição nazista, dos campos de concentração, da criação da terra de Israel, da crise da ciência e da cultura. Martim Buber era austríaco de nascimento, nasceu em Viena, e experimentou a crise daqueles dias partilhando os dramas e dúvidas do mundo germânico. Os alemães perceberam singularmente a crise de civilização que atingiu o ocidente e que consolidou uma sociedade de massa, padronizada e superficial. Eles tinham um olhar e uma preocupação com a questão. Disso é exemplo o filósofo espanhol Ortega y Gasset que fez boa parte de sua formação filosófica na Alemanha e ali se envolveu com esses assuntos.
Ortega y Gasset dedicou, alguns anos depois, um cuidadoso estudo sobre a crise da cultura: A rebelião das massas. Em 1896, Martim Buber matriculou-se na Universidade de Viena para cursar Filosofia e História da Arte. Entre 1901-1904 cursou o doutorado em Filosofia na Universidade de Berlim. Em 1930 tornou-se professor honorário na Universidade de Frankfurt, cargo que abandonou com a subida de Adolf Hitler ao poder em 1933. Em 1938 transferiu-se para Jerusalém onde se tornou professor de Antropologia e Sociologia na Universidade Hebraica.
Como resumir as preocupações de Martim Buber? Elas parecem se desenhar em quatro eixos temáticos que se retroalimentam 1) um estudo fenomenológico do diálogo e do encontro tomados como legítimos problemas filosóficos; 2) um método hermenêutico que reconhece a relevância das lendas hassídicas para a compreensão do judaísmo; 3) uma metodologia histórica construída com o legado de Dilthey e Gadamer usado no estudo da bíblia (hebraica) e da história antiga; 4) uma abordagem filosófica dos problemas sociais (Sociologia, Antropologia, Linguística), que sem deixar de ser filosófica, isto é, sem renunciar à inspiração teórica e primitiva da filosofia ocidental serviu de base para pensar a missão dos povos e a vida em sociedade.
Esses quatro eixos trabalham juntos e se influenciam mutuamente. Para entender Buber é necessário articular os eixos como no livro recentemente publicado Martin Buber, a filosofia e outros escritos sobre o diálogo e a intersubjetividade.

https://www.youtube.com/watch?v=1zpNzR8oka0&fbclid=IwAR1DemQkXgfZPvyM2zhA6I3C6yt1OKQgNVFWf6LB8YKMUJe6gq0bnvjPHuc
https://www.youtube.com/watch?v=1zpNzR8oka0


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